


Cada vez que o Líbano se aproxima de uma tentativa séria de reorganizar sua relação com o ambiente ao redor e consigo mesmo, um discurso já pronto ressurge, reduzindo todo processo de negociação a uma «rendição». Essa qualificação não é mais uma simples divergência política: tornou-se um instrumento de bloqueio sistemático de qualquer processo capaz de reabilitar a própria noção de Estado. Mais grave ainda, serve para privar o Estado de sua própria legitimidade sempre que ele exerce seu papel natural: negociar e tomar decisões.
O acordo-quadro proposto não é uma rendição. Pelo contrário: constitui uma tentativa avançada de reintegrar o Líbano ao círculo dos Estados que detêm sozinhos sua decisão soberana por meio de suas instituições, e não por meio de centros de poder paralelos ou externos ao Estado.
Primeiro: negociar não é ceder, é exercer a soberania
Os Estados não se medem por seus slogans, mas pela capacidade de gerir conflitos com as ferramentas da política, em vez de deslizar para a explosão. A negociação, em sua essência, não é sinal de fraqueza, mas uma das formas mais elevadas do uso do poder político quando colocada a serviço da estabilidade e da prevenção da guerra.
O acordo-quadro parte de um princípio fundamental: encerrar o estado de conflito por meio de um processo de negociação direta, sob auspícios internacionais. Não se trata de um «ditado externo», como alguns tentam fazer crer, mas do reconhecimento de que crises complexas não podem ser resolvidas apenas internamente, sobretudo quando os equilíbrios estão profundamente desestabilizados.
Aqueles que afirmam que o simples fato de sentar à mesa de negociação constitui uma rendição rejeitam, na verdade, o próprio princípio da política, e reduzem o Estado a um slogan em vez de uma ação concreta.
Segundo: o Estado recupera seu papel… não abre mão dele
Um dos principais pilares do acordo consiste em fortalecer a capacidade do Estado libanês de exercer plenamente sua autoridade em matéria de segurança. Isso não é tanto uma exigência externa quanto a própria essência de qualquer Estado normal.
O monopólio das armas pelo Estado não é uma cláusula de negociação: é uma regra constitucional. O que se requer nesse âmbito é:
unificar a decisão em matéria de segurança dentro das instituições legítimas;
pôr fim à dualidade do poder armado;
consagrar o princípio de que somente o Estado é a fonte de decisão em matéria de guerra e paz.
Como podem aqueles que reivindicam um Estado forte considerar o fortalecimento do Estado uma «rendição»? Trata-se de uma contradição política que não resiste a nenhuma lógica institucional.
Terceiro: o discurso da «rendição» esconde a recusa do Estado, não a recusa do acordo
O discurso que qualifica o acordo de rendição não debate suas cláusulas. Rejeita o próprio princípio da existência de um Estado capaz de tomar sua decisão soberana.
O problema não está no acordo, mas na recusa da ideia de que:
o Estado é a única referência em matéria de armas;
o Estado é quem negocia em nome de todos;
o Estado é quem define o quadro de segurança e político.
Assim, qualificar o acordo de rendição torna-se um mero revestimento retórico destinado a impedir a passagem do Líbano da lógica das forças paralelas para a do Estado único.
Quarto: a lógica da «resistência absoluta» não constrói um Estado
O Líbano pagou o preço de décadas de uma lógica segundo a qual todo entendimento é uma concessão, toda negociação uma derrota e toda abertura uma traição. O resultado é claro: um Estado enfraquecido, uma economia esgotada, uma sociedade dividida.
Os Estados não se constroem sobre a recusa permanente, mas sobre a capacidade de:
gerir os equilíbrios;
reduzir os riscos;
obter os ganhos possíveis em vez de perder tudo.
O acordo-quadro, por mais complexo que seja, insere-se nessa lógica: transformar um conflito aberto num processo que possa ser gerido e enquadrado.
Quinto ponto: onde está a capitulação? Na perpetuação do caos ou no seu enquadramento?
A verdadeira questão não é saber se o acordo constitui ou não uma concessão, mas sim: o Líbano deve permanecer num estado de conflito permanente e descontrolado, ou enveredar por um processo gradual de organização política e securitária?
A verdadeira capitulação não está na negociação, mas sim:
no bloqueio do Estado;
na consagração da dualidade de poder decisório;
na manutenção do país como refém dos riscos de uma guerra aberta.
Quanto ao acordo, constitui uma tentativa de romper esse círculo vicioso, e não de o perpetuar.
Sexto ponto: o argumento do «desequilíbrio» não elimina a necessidade do Estado
Afirma-se que o acordo não é equilibrado. Mas mesmo perante desequilíbrios, a alternativa não é a recusa, mas a negociação para melhorar as condições.
O Estado não se constrói pelo isolamento, mas pelo envolvimento. A soberania não se restaura abandonando a mesa, mas impondo a sua presença nela.
O que importa, no final, não é apenas a forma do acordo, mas saber se ele reforça ou enfraquece a capacidade do Estado. Ora, todas as cláusulas que remetem para o monopólio das armas pelo Estado, a unificação da decisão securitária e a reconstrução das instituições apontam numa única direção: fortalecer o Estado, não desmontá-lo.
Em definitivo, o Estado não é uma capitulação… é precisamente o seu oposto
O mais perigoso no discurso que ataca o acordo rotulando-o de «capitulação» é que inverte os conceitos: transforma o Estado num adversário e o caos numa postura soberanista.
A verdade, porém, é clara e simples: a capitulação é quando o Estado é incapaz de ser um Estado. Quando começa a recuperar o seu poder de decisão, as suas instituições e a sua autoridade, isso não é uma capitulação… é o início da saída da capitulação.
O Líbano encontra-se hoje perante duas escolhas, sem uma terceira via: ou um Estado que negocia, decide e constrói o seu futuro, ou um estado permanente de negação que só produz colapso.
O acordo-quadro, independentemente das divergências em torno dos seus detalhes, constitui um passo em direção ao Estado. E aqueles que a ele se opõem rotulando-o de «capitulação» não estão apenas a opor-se a um acordo… estão a opor-se à própria ideia de Estado.