


Com a proclamação da independência do Estado hebreu, em 15 de maio de 1948, eclodiu a primeira guerra árabe-israelense. Em Israel, ela é conhecida como a Guerra da Independência, enquanto, no mundo árabe, ficou marcada como a Nakba (“a Catástrofe”). O recém-criado Exército israelense enfrentou então as forças do Egito, do Emirado da Transjordânia, do Iraque, da Síria e do Líbano.
Durante a primeira fase dos combates, o equilíbrio militar permaneceu frágil e inconclusivo. Os exércitos árabes mobilizaram cerca de 28 mil soldados, apoiados por um número limitado de aeronaves e veículos blindados. Israel, por sua vez, dispunha de aproximadamente 40 mil combatentes, cujo núcleo era formado pela Haganá e pelo Palmach.
Após dois meses de combates, um primeiro cessar-fogo foi estabelecido em julho de 1948. Esse período permitiu ao comando israelense unificar as diferentes organizações militares judaicas, em especial o Irgun e o Lehi (Grupo Stern), consolidando tanto o monopólio do uso da força quanto uma cadeia unificada de comando político. Ao mesmo tempo, Israel recrutou dezenas de milhares de novos combatentes e adquiriu grandes quantidades de armamentos da Tchecoslováquia, então integrante da esfera de influência soviética. Em pouco tempo, o Exército israelense passou a contar com cerca de 100 mil soldados, equipados com aviões, tanques e artilharia moderna. A partir desse momento, conquistou uma superioridade estratégica sobre o conjunto dos exércitos árabes, vantagem que, em muitos aspectos, permanece até os dias de hoje.
Foi nesse contexto que foram assinados os acordos de armistício com o Egito, a Transjordânia, a Síria e o Líbano. Na prática, eles representaram o reconhecimento da realidade do Estado de Israel, ainda que revestido por um discurso político enganoso destinado a apaziguar uma opinião pública árabe profundamente indignada, sobretudo a palestina.
A partir de então, Israel assumiu a iniciativa estratégica, primeiro durante a Guerra de Suez de 1956 e, depois, na Guerra de Junho de 1967. Os dirigentes do Estado hebreu estavam convencidos de que a segurança nacional de Israel não dependia apenas da superioridade de suas Forças Armadas, mas também de sua posição estratégica no Oriente Médio como resultado da nova ordem internacional liderada pelos Estados Unidos e reconhecida pela União Soviética e, com ela, por todo o bloco socialista.
Mas isso, por si só, não bastava. Também era necessário invocar constantemente a memória do Holocausto sempre que um judeu, em qualquer parte do mundo ou em Israel, fosse vítima de uma agressão verbal, física ou, com ainda mais razão, de um ataque armado. Foi assim que a noção de “ameaça existencial” passou a ocupar um lugar central no discurso político e midiático israelense, sendo evocada diante de qualquer desafio enfrentado pelo Estado hebreu, viesse ele de outro Estado, de uma organização ou de um indivíduo, tanto quando Israel agia de forma ofensiva quanto quando invocava o direito à legítima defesa.
Com o passar do tempo, a “ameaça existencial” transformou-se em uma verdadeira constante matemática, incorporada a toda equação estratégica e tratada como uma premissa incontornável.
A expressão aparece tanto nos discursos de políticos e generais israelenses quanto nas análises produzidas por centros de pesquisa e nos escritos de importantes intelectuais. Nesse aspecto, há pouca diferença entre as elites políticas e acadêmicas e uma opinião pública profundamente marcada por uma ansiedade existencial.
Até mesmo alguns dos Novos Historiadores, que em determinado momento romperam com essa narrativa dominante, acabaram recuando diante de pressões intensas e amplamente conhecidas.
Os acontecimentos que se seguiram ao ataque de 7 de outubro de 2023 demonstraram a rapidez com que o Ocidente acudiu em socorro de Israel, justamente quando sua capacidade militar havia sido profundamente abalada e seu aparato de segurança fracassara em conter o ataque surpresa da Inundação de Al-Aqsa, tanto por sua dimensão quanto por suas consequências imediatas.
O extremismo islamista sunita palestino conseguiu expor muitas das fragilidades estruturais do aparato militar israelense, mergulhando sua liderança em um estado de choque, incerteza e desorientação estratégica. Não fosse a intervenção direta dos generais do Pentágono, que assumiram de fato a condução operacional durante a primeira semana para restabelecer o equilíbrio militar, de segurança e político, embora não o psicológico, o desfecho poderia ter sido muito diferente.
Foi necessário mais de um mês, somado à destruição quase total da Faixa de Gaza, para que o estamento militar israelense recuperasse o ritmo operacional hoje ditado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e por seu ministro da Defesa, Israel Katz.
Já se passaram mais de mil dias desde aquela catástrofe. As consequências da “Inundação” desencadeada pelo extremismo islamista sunita palestino continuam a se agravar para a população da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, enquanto o avanço do poder militar israelense continua a se expandir por todo o Grande Oriente Médio. A situação chegou ao ponto de o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmar a líderes de países como a Índia e os Emirados Árabes Unidos que já não precisavam recorrer à Casa Branca.
“Bastava procurá-lo diretamente”, disse ele, “e tudo seria resolvido.”
Ao observar hoje o posicionamento das forças israelenses nos territórios palestinos, na Síria e no Líbano, torna-se evidente a dimensão do salto estratégico alcançado por Israel a partir dos acontecimentos de 7 de outubro. Ainda assim, a noção de “ameaça existencial” continua sendo a pedra angular da doutrina estratégica israelense. Hoje, ela assume três rostos distintos que precisam ser eliminados.
Três rostos
Foram emitidas ordens para neutralizar cada um desses três rostos, em nome da eliminação do que é apresentado como uma ameaça existencial ao Estado e à nação.
O primeiro rosto
O primeiro é o doutor Hossam Abu Safiya, pediatra, neonatologista e diretor do Hospital Kamal Adwan, em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza. Em diversas ocasiões, recebeu ordens transmitidas por alto-falantes para evacuar os feridos, a fim de que o hospital pudesse ser completamente destruído. Pouco depois, projéteis começaram a cair tanto do ar quanto por terra. Ainda assim, permaneceu em seu posto, salvando vidas, sobretudo as das crianças.
Seu próprio filho, que ainda não havia completado vinte anos, foi morto na entrada do hospital. O pai o sepultou junto ao muro da instituição e retornou imediatamente ao atendimento das crianças e dos demais feridos.
Quando o complexo hospitalar foi finalmente reduzido a escombros, o doutor Abu Safiya e toda a sua equipe foram presos diante dos olhos do mundo, em transmissões televisivas ao vivo. Preso em dezembro de 2024, permanece detido até hoje, onde, segundo testemunhos reunidos por organizações internacionais, tem sido submetido a torturas sistemáticas destinadas a destruir sua humanidade.
Ele continua encarcerado sem que tenha sido formalmente acusado, com base na Lei israelense dos Combatentes Ilegais. A investigação sobre seus supostos vínculos com grupos armados não produziu, até o momento, qualquer prova.
E, no entanto, ele continua vivo.
E ele também continua representando uma ameaça existencial.
O segundo rosto
Ela não é médica, nem uma pessoa desconhecida cuja identidade, compromisso ou convicções sejam ignorados. Tampouco vive em Israel ou na Palestina. Trata-se da jornalista libanesa Amal Khalil, que, ao lado da fotojornalista Zeinab Faraj, documentava o cotidiano da população do sul do Líbano.
Na localidade de Tayri, foi alvo de dois ataques: primeiro, quando o veículo em que viajavam foi atingido; depois, quando a casa onde havia buscado abrigo foi bombardeada, enquanto as equipes de resgate eram impedidas de chegar ao local.
Não é essa a própria definição de um assassinato premeditado?
Tudo isso foi acompanhado por declarações oficiais segundo as quais ela havia sido advertida repetidas vezes.
De acordo com o Ordem dos Jornalistas do Líbano, vinte e sete profissionais libaneses da imprensa morreram desde o início da Operação Inundação de Al-Aqsa. Por sua vez, a Organização Mundial da Saúde documentou 137 ataques contra hospitais e instalações de saúde.
O terceiro rosto
Neste mesmo mês de julho, em 8 de julho de 1972, o subúrbio de Hazmieh, em Beirute, foi palco de um carro-bomba que matou o escritor, desenhista e editor-chefe da revista Al-Hadaf, Ghassan Kanafani, juntamente com sua sobrinha Lamees Najm, que ainda não havia completado dezessete anos.
Kanafani tinha apenas trinta e seis anos.
Ele retratou a Palestina por meio de seus desenhos, escreveu romances e contos traduzidos para dezessete idiomas, publicou inúmeros editoriais políticos e ocupou posição de liderança na Frente Popular para a Libertação da Palestina. Ainda assim, jamais empunhou uma arma.
Desde então, o escritor, o jornalista e o intelectual também passaram a ser considerados ameaças existenciais.
Hoje, 265 jornalistas já morreram na guerra na Palestina, enquanto centenas de outros ficaram feridos. Organizações internacionais também documentaram ataques contra dezenas de instituições de imprensa, além da destruição de muitas delas.
Assim, o médico, o jornalista e o escritor transformam-se em alvos de assassinato ou de prisão simplesmente por exercerem sua profissão.
Essa situação não pode ser aceita como se fosse a ordem natural das coisas. É indispensável preparar dossiês jurídicos independentes para cada vítima, à margem de qualquer estrutura oficial, e levar cada caso, individualmente, às instâncias judiciais competentes. A invocação israelense da chamada “ameaça existencial” já não pode continuar servindo de escudo contra a responsabilização, de instrumento para escapar à Justiça e de meio para continuar chantageando a comunidade internacional.