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Um Olho sobre el suceso

Hamas: a era al-Hayya

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(Foto Emmanuel DUNAND/AFP)
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Por Hisham Dibsi
Publicado jul 27, 2026 - 21:55

Ao longo de três décadas, o Hamas deixou de ser a organização palestina da Irmandade Muçulmana para transformar-se em um movimento de resistência armada no final de 1987 e, posteriormente, na autoridade que governa a Faixa de Gaza após assumir o poder em 2007. A partir daquele momento, o Hamas deixou de ser apenas mais uma facção palestina.

É verdade que o movimento havia chegado ao poder por meio de eleições democráticas e pacíficas, e que Ismail Haniyeh exercia então o cargo de primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina. No entanto, a tomada do poder pela força, que provocou a morte de mais de 120 integrantes das forças de segurança e do Fatah, além de 39 civis durante cinco dias de ataques às instituições da Autoridade Palestina e da prisão de dezenas de seus membros, segundo relatórios do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, alterou profundamente o cenário político.

Vários dirigentes, entre eles Mohammed Dahlan, fugiram de barco para o Egito. Cerca de 50 mil servidores públicos deixaram de exercer suas funções, enquanto a jurisdição efetiva da Autoridade Nacional Palestina passou a restringir-se à Cisjordânia.

Após derrubar a legitimidade da Autoridade Palestina, o Hamas deixou de ser uma simples facção política ou um parceiro democrático de governo. Optou por separar a Faixa de Gaza da Cisjordânia para exercer ali um poder exclusivo, transformando a queda do governo de Ramala e a rejeição aos Acordos de Oslo em dois dos pilares centrais de sua agenda política.

O Hamas sob Ismail Haniyeh

Durante a primeira década da liderança de Ismail Haniyeh, até 2017, o movimento passou por profundas transformações em sua relação com a sociedade palestina, suas lideranças e as diferentes facções do movimento nacional. Seus vínculos com o mundo árabe, o mundo islâmico e a comunidade internacional também evoluíram de maneira significativa.

Ao mesmo tempo, seu braço armado, as Brigadas Izz al-Din al-Qassam, registrou um salto qualitativo tanto em suas capacidades militares quanto em seu arsenal, alcançando seu ponto mais elevado sob o comando de Yahya Sinwar.

Essas mudanças redefiniram o equilíbrio interno do movimento. Com seu centro de gravidade firmemente estabelecido na Faixa de Gaza e uma influência popular crescente na Cisjordânia, o Hamas também se beneficiou de uma ampla onda de apoio no mundo árabe e islâmico, impulsionada pela liderança internacional da Irmandade Muçulmana, que, segundo o autor, soube aproveitar sua relação privilegiada com a administração norte-americana durante a presidência de Barack Obama.

Essas recomposições internas acabaram por afastar Khaled Meshaal, que havia liderado o Escritório Político durante treze anos. Depois de transferir sua sede permanente de Amã para Istambul e, posteriormente, para Doha, Ismail Haniyeh passou a concentrar em suas mãos tanto a chefia do governo de Gaza quanto a presidência do Escritório Político do Hamas.

Apesar da maneira como administrou os equilíbrios internos e externos do movimento, Ismail Haniyeh dificilmente imaginou que chegaria o dia em que seria obrigado a deixar a Faixa de Gaza para viver no exílio, em consequência da ascensão de Yahya Sinwar, o novo comandante das Brigadas al-Qassam. Com o tempo, Sinwar consolidou sua autoridade não apenas sobre o aparato militar do Hamas, mas também sobre suas estruturas políticas e governamentais.

Assim, o presidente do Escritório Político juntou-se ao seu antecessor, Khaled Meshaal, no exílio, embora tenha mantido formalmente tanto seu título quanto o cargo de chefe do governo do Hamas.

As circunstâncias que cercaram a saída de Haniyeh e de numerosos dirigentes e quadros históricos do movimento permanecem, contudo, pouco claras e dificilmente serão plenamente conhecidas enquanto a própria liderança do Hamas não apresentar sua versão dos acontecimentos.

As disputas internas tampouco se limitavam à divisão geográfica entre Gaza, a Cisjordânia e a diáspora. Elas refletiam diferentes correntes políticas e ideológicas: os fiéis à liderança internacional da Irmandade Muçulmana; os dirigentes políticos, cujas relações gravitavam em torno da Türkiye, do Catar e do Irã; e os comandantes militares, de perfil mais pragmático, embora em diferentes graus de radicalização. Enquanto um grupo procurava extrair o máximo proveito de sua aliança com o Irã, outro preferia ampliar sua rede de relações regionais para expandir sua margem de manobra e consolidar sua influência, sem descartar contatos com os Estados Unidos ou mesmo com Israel, sempre que as circunstâncias assim o exigissem.

Foi nesse contexto que Khalil al-Hayya emergiu como a principal liderança do Hamas na Faixa de Gaza e como um dos colaboradores mais próximos de Yahya Sinwar. Segundo diversas pessoas que acompanharam sua trajetória militar, Sinwar era conhecido por confiar apenas em um círculo extremamente restrito.

Essas mesmas fontes sustentam que o papel central desempenhado por Khalil al-Hayya nas negociações decorreria justamente da confiança que Sinwar depositava nele. Quando Sinwar assumiu a presidência do Escritório Político do Hamas, uma semana após a morte de Ismail Haniyeh, no fim de julho de 2024, nomeou al-Hayya como seu vice.

O assassinato de Sinwar, apenas dois meses depois de assumir a chefia do Escritório Político, reabriu imediatamente a disputa pela sucessão. Com o apoio da liderança do movimento em Gaza, Khalil al-Hayya acabou derrotando Khaled Meshaal e tornou-se o quinto presidente do Escritório Político do Hamas, passando a controlar os principais centros de decisão da organização.

Sua ascensão ao topo do movimento, entretanto, não pode ser explicada apenas por essa sucessão. Fontes políticas e da imprensa, entre elas diversos analistas egípcios entrevistados por emissoras de televisão da região, afirmaram que as negociações realizadas em Doha, após o amplamente divulgado ataque israelense no Catar contra dirigentes do Hamas, contaram com a participação de altos representantes dos serviços de segurança de Israel, dos Estados Unidos e da Türkiye.

De acordo com esses relatos, os encontros teriam resultado em compromissos assumidos por Israel para interromper as operações de eliminação seletiva de líderes do Hamas e encerrar sua perseguição. Os defensores dessa interpretação consideram que os acontecimentos posteriores pareceriam reforçar essa leitura.

Sob essa perspectiva, o Hamas de Khalil al-Hayya já não seria o Hamas do xeique Ahmed Yassin, nem o de Yahya Sinwar. Sua nova liderança estaria voltada para a implementação de entendimentos de natureza política e de segurança, sob patrocínio principalmente do Catar e da Türkiye.

Segundo essa análise, o papel que o movimento desempenharia no futuro seria profundamente diferente daquele que exerceu até agora. A preservação do poder, qualquer que fosse o custo político, humano ou material, tornar-se-ia sua prioridade absoluta. A sobrevivência de sua autoridade passaria a prevalecer sobre o bem-estar da população.

O programa de al-Hayya

No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação:

Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza.

Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos.

Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas.

Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico.

Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense.

Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais.

Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel.

Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos.

Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses.

O programa de al-Hayya

No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação:

Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza.

Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos.

Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas.

Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico.

Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense.

Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais.

Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel.

Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos.

Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses.

Três opções

O ministro israelense Bezalel Smotrich tem afirmado repetidamente que os palestinos dispõem de apenas três alternativas: emigrar, morrer ou submeter-se. Segundo o autor, essa visão é compartilhada por um governo comprometido com a expansão dos assentamentos em todos os territórios palestinos.

As repetidas incursões ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa, assim como a onda de violência promovida por colonos sob a proteção do Exército israelense, não representariam, portanto, uma resposta a qualquer ameaça existencial. Elas fariam parte da implementação do que vários ministros da coalizão governista chamam de “Plano Decisivo”, destinado a ampliar a colonização israelense e anexar todas as áreas dos territórios palestinos que possam ser colocadas sob o controle dos colonos e das Forças Armadas de Israel.

Com as eleições parlamentares previstas para outubro deste ano se aproximando, diversos integrantes do governo também têm manifestado abertamente o desejo de provocar o colapso da Autoridade Nacional Palestina em Ramala e eliminar o que consideram ser o último núcleo institucional palestino comprometido com uma solução política baseada na coexistência de dois Estados. Os principais expoentes da corrente mais radical do nacionalismo religioso israelense sustentam, de fato, que essa solução constitui, em sua visão, a verdadeira ameaça existencial ao Estado de Israel.

A atual onda de violência que atinge a Cisjordânia e tem como alvo o povo palestino, população originária dessa terra, corre o risco de eliminar as últimas possibilidades de uma paz fundamentada no direito internacional. Enquanto a comunidade internacional continuar limitando-se a falar de paz sem criar as condições necessárias para torná-la viável na Palestina, o resultado, segundo o autor, não poderá ser outro senão a perpetuação de um conflito aberto.

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