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O Essencial do Dia

Conflito iraniano: a opção militar não está descartada
Por
LevantTime .
Publicado
jul 6, 2026 - 22:35

É uma semana que começa com calma. Os principais dossiês regionais permanecem temporariamente em suspenso, seja a retomada das negociações entre Washington e Teerã ou a retirada israelense de duas "zonas-piloto" no sul do Líbano. Uma pausa que se explica, em parte, pelo funeral oficial do ex-Guia Supremo iraniano, Ali Khamenei, que se encerra na quinta-feira, mas também pela cúpula da OTAN, prevista para as terças e quartas-feiras, dias 7 e 8 de julho, em Ancara. Uma cúpula ainda mais relevante pelo fato de o presidente americano, Donald Trump, dever participar dela, após vários meses de tensão com os aliados europeus. Antes de partir para a Turquia, Donald Trump deixou claro que não abre mão de sua postura em relação ao Irã. Durante uma entrevista coletiva na Casa Branca, ele redefiniu suas prioridades e reiterou suas ameaças contra Teerã. "Ou chegaremos a um acordo, ou terminaremos o trabalho. E terminar o trabalho não será difícil, mas prefiro fechar um acordo, porque não quero prejudicar 91 milhões de pessoas", afirmou, acrescentando que as forças militares americanas podem "destruir as pontes iranianas em uma hora". E continuou no mesmo tom ameaçador: "Podemos aniquilar toda a rede de energia deles, todas as grandes usinas que construíram, em uma fração de uma tarde. Eles sabem disso. Hoje não têm dinheiro. Não lhes pagamos um centavo sequer." Ele reafirmou que seu objetivo não é "promover uma mudança de regime no Irã, embora, na prática, seja isso que está acontecendo. O primeiro regime desapareceu. O segundo regime desapareceu. E acho que o terceiro é mais sensato. Mas veremos o que acontece." Donald Trump também reiterou que Washington pretende recuperar o "pó" nuclear iraniano, "ou seja, o material enriquecido" (o urânio enriquecido), insistindo novamente no fato de que o Irã "não pode possuir armas nucleares". Questionado sobre o estreito de Ormuz, que Teerã quer manter sob seu controle, o presidente americano limitou-se a destacar, como única resposta, que "é uma máquina esplêndida de gerar dinheiro". Os Estados Unidos, como se sabe, assim como os países árabes e a Europa, recusam-se a permitir que essa importante via marítima seja controlada pelo regime dos aiatolás. O inquilino da Casa Branca também manifestou sua vontade de ajudar o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pôr fim à guerra que já dura mais de quatro anos entre os dois países. "Acho que estamos muito mais perto de um acordo do que as pessoas imaginam. O presidente Putin quer que essa guerra acabe. O presidente Zelensky também quer agora que isso termine. Vamos à cúpula da OTAN, em Ancara, onde discutiremos isso. E acho que vamos conseguir colocar um fim nessa guerra." Macron em Damasco A Casa Branca confirmou que Donald Trump se reunirá à margem da cúpula da OTAN com Volodymyr Zelensky, bem como com o presidente sírio, Ahmad al-Sharaa, que deveria receber na noite de segunda-feira seu homólogo francês, Emmanuel Macron. Este último está acompanhado de um grupo de empresários franceses. Trata-se da primeira visita de um presidente francês a Damasco em quase 17 anos. As relações entre a França e a Síria de Bashar al-Assad começaram a se deteriorar com o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, atribuído a Damasco. Paris rompeu posteriormente suas relações diplomáticas com o regime sírio no contexto da guerra de 2011, após um ataque contra sua embaixada. No centro das discussões franco-sírias está, evidentemente, a situação na região, que também deverá ser abordada em Washington num encontro entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente Trump. Embora essa reunião ainda não tenha data marcada, segundo o próprio líder israelense, ela reveste-se de importância particular num momento em que as negociações entre Washington e Teerã avançam a passos lentos. Sobretudo porque Donald Trump chegou a demonstrar, em determinado momento, certa relutância em receber Netanyahu na Casa Branca. Uma trégua relativa no Líbano A pausa diplomática estendeu-se ao Líbano, onde, segundo a rede pan-árabe al-Hadath, o comandante do Centcom, o almirante Brad Cooper, deverá retornar nos próximos dias para apresentar às autoridades libanesas uma proposta de mecanismo para uma retirada israelense gradual, em conformidade com as disposições de segurança do acordo-quadro libano-israelense de Washington. O presidente Joseph Aoun reafirmou, nesse contexto, a importância do redesdobramento do exército libanês ao longo de toda a fronteira sul, sublinhando ao mesmo tempo a necessidade de intensificar a pressão sobre Israel para que se retire dos territórios que ainda ocupa no sul do país. "A manutenção da ocupação mina a legitimidade do Estado, impede o desdobramento do exército e compromete os fundamentos de uma paz justa e duradoura", alertou durante uma videoconferência com representantes da American Task Force for Lebanon. Ele também insistiu no fato de que "não pode haver guerra civil no Líbano", apesar das "tentativas de alguns de reacender as tensões sectárias", numa alusão ao Hezbollah. No terreno, no Líbano, a situação continua volátil. O exército israelense prossegue com suas operações de demolição em diversas localidades de Bint Jbeil, Marjeyoun e Nabatyeh, além de ataques pontuais. Um bombardeio em Nabatiyé el-Faouqa deixou três mortos na segunda-feira: uma diretora de escola, sua mãe e a empregada doméstica. O exército israelense afirmou ainda ter descoberto grandes estoques de armas na aldeia de Haddatha, onde conduz extensas operações de demolição e que apresenta como uma base operacional do Hezbollah. Anunciou a destruição de "dezenas de infraestruturas militares" nessa localidade e a apreensão de mais de 150 armas. Lançou ainda um aviso aos moradores das aldeias fronteiriças do sul, lembrando-os de que devem abster-se de acolher deslocados provenientes de localidades consideradas redutos do Hezbollah. Em outro âmbito, declarações do primeiro-ministro israelense segundo as quais certas aldeias cristãs fronteiriças teriam pedido para ser "anexadas" a Israel a fim de se protegerem do Hezbollah causaram grande comoção no país. Foram imediatamente rejeitadas pelas municipalidades, muktares e personalidades locais de cerca de quinze aldeias em questão, que denunciaram as informações como "totalmente infundadas" e reafirmaram seu compromisso com a soberania do Estado libanês. Dissolução do governo em Gaza Cabe ainda destacar outro desenvolvimento importante no plano regional: o Hamas anunciou a dissolução de seu governo em Gaza, quase vinte anos após sua tomada do poder em 2007, com o objetivo de facilitar a transferência de responsabilidades ao Comitê Nacional para a Administração do Enclave (NCAG), uma estrutura composta por tecnocratas criada no âmbito das negociações que precederam o cessar-fogo de outubro de 2025. Esse desenvolvimento, recebido com certo ceticismo por alguns analistas, merece acompanhamento, uma vez que poderá modificar o cenário político palestino. O Hamas apresenta esta decisão como uma forma de «privar a ocupação de qualquer pretexto» para a continuação da guerra, afirmando ao mesmo tempo a sua vontade de transferir as prerrogativas governamentais para o novo comité. O presidente do NCAG, Ali Chaath, garantiu que este organismo estava pronto a assumir as suas responsabilidades assim que os meios necessários estivessem reunidos. Telavive, no entanto, não parece acreditar nisso e insiste no desarmamento da milícia pró-iraniana, tal como prevê o plano de paz negociado pelos Estados Unidos. O ministro israelense dos Negócios Estrangeiros, Gideon Sar, classificou a medida como «um estratagema» destinado a evitar o desarmamento: «Enquanto o Hamas mantiver as suas armas, qualquer governo civil funcionará, evidentemente, de acordo com as diretrizes desse grupo. Israel insiste na implementação integral do plano Trump, cujos princípios fundamentais são o desarmamento do Hamas e de todas as outras organizações terroristas, bem como a desmilitarização completa da Faixa de Gaza», escreveu ele no X.

O regime dos mulás perde progressivamente as suas cartas
Por
Michel Touma
Publicado
jul 3, 2026 - 23:53

Na aparência, a situação no Líbano — e também, em menor grau, na região — encontra-se em modo de «pausa»… No entanto, não se deve fiar nas aparências, pois na prática as peças do puzzle estão a ser progressiva e discretamente colocadas e encaixadas pelos jogadores que são visivelmente os mestres do jogo. Basta estabelecer as correlações entre as manobras e as ações (os chamados 'moves', no jargão anglófono) dos decisores que trabalham para moldar o novo panorama geopolítico da região, para se perceber a verdadeira dimensão da partida que se joga atualmente no Levante — e muito além dele. Se tivéssemos de traçar o esboço de uma linha orientadora dos desenvolvimentos em curso, poderíamos identificar um isolamento crescente e progressivo do regime iraniano à escala internacional. A agência Reuters noticiou, na sexta-feira, 3 de julho, que os líderes da NATO, reunidos em Ancara, deverão proclamar que o Irão não poderá jamais adquirir armas nucleares. Mas ainda mais grave para Teerão, a NATO exigirá expressamente à República Islâmica que «respeite plenamente a liberdade de navegação no estreito de Ormuz». A União Europeia já adotou esta semana uma posição clara e no mesmo sentido, rejeitando qualquer tentativa iraniana de impor uma taxa de passagem, sob pretexto de «serviços prestados», aos navios que utilizem esta via marítima internacional. Este último ponto constitui, na fase atual, o principal cavalo de batalha dos Guardas da Revolução Islâmica e dos centros de poder iraniano. Adotando um tom ameaçador, tingido de uma arrogância insultante face à Administração Trump, o presidente do Parlamento e chefe da equipa de negociadores iranianos, Mohammed Bagher Ghalibaf, declarou sem rodeios na sexta-feira: «Não permitiremos que os Estados Unidos (!) interfiram no estreito de Ormuz e prosseguiremos com a implementação das regras de navegação no estreito». A atitude iraniana sobre este dossiê provoca cada vez mais a ira da Administração norte-americana, o que levou um responsável americano a afirmar há 48 horas que «a paciência do presidente Donald Trump em relação ao Irão começa a esgotar-se». Outros altos responsáveis norte-americanos indicaram ao site Axios que os negociadores americanos transmitiram aos delegados iranianos presentes nas negociações realizadas esta semana em Doha que a teimosia do Irão em querer impor uma taxa de passagem no estreito de Ormuz arrisca fazer naufragar o acordo-quadro entre Washington e Teerão. Esta posição firme adotada pela Administração Trump neste tema beneficia do apoio total da UE, o que contribui para aprofundar ainda mais o isolamento da República Islâmica. Estes percalços no processo de negociações com Teerão foram, muito provavelmente, abordados durante a conversa telefónica que o presidente Trump teve na sexta-feira com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, que poderá ser recebido em breve na Casa Branca. O trunfo do Líbano O segundo trunfo ao qual o regime iraniano tenta desesperadamente agarrar-se, afundando-se numa negação total face às novas realidades, é o do Líbano. Assim, o Sr. Ghalibaf fez questão de voltar à carga nesta frente e de colocar novamente em cima da mesa, com determinação, o «capítulo libanês» do memorando de entendimento assinado com Washington em meados de junho, bem como o acordo celebrado recentemente na Suíça com o vice-presidente americano JD Vance — que prevê um papel direto do Irão no processo de solução para o Sul, reforçando assim o seu domínio sobre o tabuleiro libanês. Numa declaração feita na sexta-feira, o Sr. Ghalibaf convidou, sem qualquer escrúpulo, «todas as partes libanesas a trabalharem para pôr em prática o capítulo relativo ao Líbano no memorando de entendimento (assinado com Washington), pois isso evitaria discórdias»(!) Importa recordar, contudo, que esta tentativa iraniana de revitalizar a sua tutela sobre o Líbano fracassou completamente, na sequência do acordo-quadro assinado em meados de junho pelo Líbano e por Israel, em Washington, sob os auspícios do Secretário de Estado Marco Rubio. Este roteiro prevê um mecanismo progressivo, sob rigorosa supervisão americana, cujo desfecho será a retirada das forças israelenses do sul do Líbano e a implantação do exército libanês, de forma concomitante ao desmantelamento da infraestrutura miliciana do Hezbollah. A dimensão soberanista deste acordo-quadro — que dissocia totalmente o processo libanês de solução das negociações americano-iranianas de Islamabad — foi sublinhada mais uma vez na sexta-feira pelo presidente Joseph Aoun e pelo chefe da diplomacia libanesa, Joe Raggi. Ao receber uma delegação universitária e representantes da Ordem dos Médicos e da Ordem Maronita Libanesa, o chefe de Estado reafirmou que o documento assinado entre o Líbano e Israel permite ao Estado libanês retomar o controlo do dossiê do Sul, de modo a que o Líbano seja o único senhor das suas decisões neste domínio e que negocie ele próprio, e não um país terceiro, qualquer projeto de acordo. Numa farpada lançada de forma pouco velada ao Hezbollah, o presidente Aoun observou que aqueles que se opõem ao acordo-quadro assinado com Israel reagem dessa forma «porque se habituaram a viver sob tutela»… Na mesma linha, o ministro libanês dos Negócios Estrangeiros, Joe Raggi, reafirmou a determinação do governo em assumir sozinho, longe de qualquer diktat estrangeiro, a responsabilidade de pôr fim à guerra. Face à posição firme adotada pelo poder libanês, a República Islâmica vê o trunfo libanês escapar-lhe das mãos e tenta, por isso, torpedear o acordo-quadro com Israel, orquestrando uma oposição a este documento e procurando instigar agitação nas ruas para provocar a queda do governo de Nawaf Salam, com o objetivo de obter a anulação do acordo-quadro — o que abriria caminho a uma retomada do envolvimento iraniano no jogo político interno do Líbano. Mas também neste ponto o presidente Aoun foi muito firme, na sexta-feira, sublinhando que o recurso às ruas e à discórdia interna para derrubar o governo constitui uma «linha vermelha que não pode ser ultrapassada». O projeto de força multinacional Estas tentativas dos Guardiões da Revolução Islâmica de reativar a sua tutela sobre o Líbano deparam-se com outro fator de peso: o projeto de criação de uma Força Multinacional destinada a substituir a Finul, cujo mandato expira no final do ano. Os líderes francês e italiano já iniciaram as suas diligências a esse respeito e contam com o apoio total dos Estados Unidos. Um alto responsável francês prestou aliás homenagem na sexta-feira ao «papel positivo desempenhado pelos EUA no Líbano». E para consolidar ainda mais esta dinâmica de saída da crise — que se faz, portanto, sem a República Islâmica — a União Europeia fez questão de sublinhar o seu apoio total ao acordo-quadro libano-israelense e às opções do poder libanês neste domínio, salientando a necessidade de aplicar os termos do documento assinado em Washington. O regime iraniano vê-se assim despojado de todos os seus principais trunfos, um após outro. Perante tal situação, a ala radical do poder mostra as garras, como ilustram os ataques frontais que lança quase diariamente contra a ala dita «moderada», mais especificamente contra o presidente em exercício e o presidente do Parlamento. E à luz de tais reveses, certos meios políticos no Irão falam de um projeto que visa dar nova vida aos Pasdaran, mas sob uma forma mais «aceitável», ou mais «tolerável». Exceto que apenas raras facções ingênuas ou descaradamente oportunistas ainda podem ser enganadas por tais gesticulações políticas emanadas da ala radical da República Islâmica.

Uma nova página nas relações entre o Líbano e a Síria?
Por
Taline Becharraoui
Publicado
jul 2, 2026 - 23:20

Não se pode analisar esta visita fora de seu contexto. Ela ocorre em um momento em que se multiplicaram, muito recentemente, as ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a possibilidade de recorrer às forças sírias para desarmar o Hezbollah, algo que os sírios, especialmente seu presidente Ahmad al Chareh, desmentiram categoricamente em diversas ocasiões. A presença do ministro sírio teria, portanto, o objetivo de tranquilizar as autoridades libanesas sobre esse assunto. Também não se pode esquecer o acordo-quadro assinado na última sexta-feira entre libaneses e israelenses em Washington, um processo que não incluiu nenhum país árabe e refletiu a vontade do governo libanês de separar categoricamente a questão libanesa dos demais dossiês regionais. É mais do que provável que o novo governo sírio queira sondar o terreno para compreender melhor seus contornos. Tanto na forma quanto no conteúdo, a visita do ministro sírio teve repercussões muito positivas nos meios políticos libaneses. Chibani transmitiu ao presidente Aoun um convite para realizar uma visita oficial à Síria. Multiplicaram-se as declarações sobre o respeito à segurança e à soberania dos dois países. O ministro sírio reiterou diversas vezes que a vontade de Damasco é fortalecer a cooperação entre os dois países. Nessa perspectiva, Chibani e o primeiro-ministro libanês Nawaf Salam assinaram um acordo para criar uma comissão conjunta com o objetivo de reforçar essa cooperação em todos os níveis, “no respeito aos interesses comuns”, como destacou Salam. Reuniões com um amplo leque de lideranças Relacionar todas as personalidades encontradas por um ministro sírio durante uma visita oficial seria, sem dúvida, uma tarefa longa. Ainda assim, é importante destacar que a diversidade de autoridades recebidas pelo chanceler sírio impressiona, sobretudo porque todas essas reuniões ocorreram em um único dia. Entre elas estiveram o presidente Aoun, o primeiro-ministro Salam, o presidente do Parlamento Nabih Berri, o patriarca maronita Bechara Rai, o mufti da República Abdellatif Deriane, o ex-presidente do Partido Socialista Progressista Walid Joumblatt, o líder das Forças Libanesas Samir Geagea, o chefe do partido Kataeb Samy Gemayel, o vice-primeiro-ministro Tarek Mitri e o ministro das Relações Exteriores Joe Raggi. O Hezbollah foi o único ator excluído da agenda. O Hezbollah foi mencionado pelo ministro sírio apenas ao término de sua reunião com Berri, quando afirmou permanecer “aberto” a um encontro com o grupo “caso o interesse dos dois países assim o exija”. Vale lembrar que o Hezbollah desempenhou um papel fundamental no apoio ao antigo regime de Damasco e esteve envolvido, desde 2011, em combates contra os grupos dos quais surgiu o novo poder na Síria. Desde a queda do regime Assad, em dezembro de 2024, confrontos ocorreram repetidamente na fronteira entre grupos próximos ao partido pró-iraniano e as novas forças sírias. Enquanto Chibani prosseguia sua agenda em Beirute, a capital síria foi abalada nesta quinta-feira, por volta das 15h, por um atentado em um café no centro de Damasco, que deixou pelo menos sete mortos e 22 feridos, segundo o Ministério da Saúde da Síria. As autoridades informaram inicialmente que o artefato explosivo era de fabricação artesanal. A AFP informou que este foi o atentado mais mortal desde o ataque contra uma igreja em junho de 2025, que deixou 25 mortos. Aquele atentado foi reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico. Haverá ou não uma coalizão contra o acordo de Washington? No Líbano, a assinatura do acordo-quadro entre libaneses e israelenses em Washington, na última sexta-feira, continua provocando repercussões. As informações que circulam sobre a possível formação de uma coalizão de quatro blocos parlamentares para derrubar o acordo, reunindo os blocos de Berri, Joumblatt, o Movimento Patriótico Livre de Gebran Bassil e o Hezbollah, começam a perder força. No dia seguinte ao encontro entre Bassil e Berri, realizado na quarta-feira e que alimentou as especulações, foi Joumblatt quem surpreendeu na quinta-feira. Em declarações ao jornal francófono L’Orient-Le Jour , afirmou que “não fará parte de uma coalizão para derrubar o acordo-quadro”, embora tenha classificado o texto como “um passo em falso” do Estado e defendido sua revisão. Joumblatt reiterou suas críticas durante a visita do ministro sírio à sua residência em Beirute, usando palavras um tanto enigmáticas ao afirmar que “prefere uma relação equilibrada com a Síria a um acordo que poderia ser pior do que o de 17 de maio”, em referência ao acordo firmado entre Líbano e Israel em 1983. Esse acordo acabou sendo revogado sob a influência do antigo regime sírio de Hafez al-Assad. Diante dessa postura, no mínimo ambígua, de Joumblatt e da oposição aberta do Hezbollah, cujo deputado Hassan Fadlallah voltou a classificar o texto como uma “capitulação”, vários partidos soberanistas manifestaram na quinta-feira seu apoio ao processo de negociações diretas com Israel e aos esforços de Aoun e Salam. Em entrevista, o líder das Forças Libanesas afirmou que o acordo representa o único caminho possível para garantir a retirada israelense do sul do Líbano, bem como a desmilitarização do Hezbollah e o restabelecimento de uma verdadeira soberania libanesa. Nesse contexto, Samy Gemayel e Michel Mouawad, presidente do Movimento da Independência, foram recebidos pelo presidente Aoun no Palácio de Baabda à frente de importantes delegações. Ambos renovaram seu apoio ao chefe de Estado. Também merece destaque a posição expressa por Berri em entrevista a um jornal local na quinta-feira, na qual afirmou estar “pronto” para um compromisso em relação ao acordo-quadro, caso exista vontade política nesse sentido. Seria o início de uma mudança de rumo no cenário político? Negociações após os funerais No que diz respeito às negociações entre Irã e Estados Unidos, tudo indica que o processo ficará adiado até depois dos funerais do antigo líder supremo iraniano, Ali Khamenei, morto em um ataque israelense logo no início da guerra, em 28 de fevereiro. Os funerais, aguardados há muito tempo, já que inicialmente estavam previstos para março, deverão durar vários dias e certamente serão aproveitados pelo regime de Teerã para reforçar o sentimento de pertencimento de seus apoiadores à República Islâmica. As tensões entre Washington e Teerã, no entanto, continuam evidentes. Enquanto o regime iraniano segue reivindicando o controle sobre o estreito de Ormuz, os Estados Unidos adotaram na quinta-feira uma posição firme ao afirmar que a situação no estreito deve voltar ao cenário anterior à guerra, ou seja, permanecer aberto a todos, conforme declarações divulgadas pelo canal Al Hadath. Por fim, realizou-se na quinta-feira uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra no Oriente Médio, convocada a pedido do Bahrein. Paralelamente, o embaixador do Irã na ONU apresentou uma queixa contra recentes declarações do ministro da Defesa de Israel, nas quais classificou o líder supremo Mojtaba Khamenei como um “alvo a ser eliminado”.

Incerteza quanto à retomada do diálogo entre os EUA e o Irã em Doha
Por
LevantTime .
Publicado
jun 30, 2026 - 22:39

Voltamos ao ponto de partida diante da incerteza que envolve, há dois dias, uma retomada, até então anunciada, das discussões entre os Estados Unidos e o Irã em Doha? Provavelmente não, embora a questão seja legítima. A realidade parece mais complexa, mas o jogo está longe de ser fácil. Teerã e Washington não parecem dispostos a fazer novas concessões, além daquelas que já haviam sido aceitas no âmbito do memorando de entendimento que assinaram em 18 de junho. Se Doha recebe hoje os enviados americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner, assim como uma delegação técnica iraniana à qual se juntará, na quarta-feira, o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores responsável pelos assuntos jurídicos e internacionais, Kazem Gharibabadi, as autoridades do Catar afirmam que, neste momento, não está prevista nenhuma reunião direta de alto nível com autoridades iranianas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed el-Ansari, afirmou durante uma coletiva de imprensa realizada ao longo do dia que nenhuma reunião direta entre autoridades americanas e iranianas está prevista para os próximos dias. Citado por agências de notícias iranianas e iemenitas, Kazem Gharibabadi esclareceu que o primeiro ciclo de discussões técnicas, no âmbito dos grupos de trabalho designados, será realizado “quando as condições estiverem reunidas e depois que houver um acordo sobre a data e o local”. Ele indicou que “consultas sobre o tema estão em andamento por meio dos países mediadores”. Kazem Gharibabadi deve se reunir na quarta-feira com autoridades catarianas para tratar dos seis bilhões de dólares em ativos iranianos congelados, anunciou na noite de terça-feira o Ministério das Relações Exteriores do Irã. Uma prioridade para a República Islâmica, que enfrenta grandes dificuldades financeiras. O estreito e os ativos congelados Segundo Majed el-Ansari, os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, presentes no emirado, conversarão exclusivamente com os mediadores catarianos e com autoridades locais para avaliar a aplicação do protocolo de acordo assinado em meados de junho. As discussões abordarão todos os temas regionais, incluindo Irã e Líbano. Em outras palavras, os mediadores voltam a atuar para tentar encontrar um terreno comum entre os Estados Unidos e o Irã, que considera ter feito concessões suficientes no âmbito do memorando de entendimento. A principal questão agora é saber como serão resolvidos os impasses envolvendo o Estreito de Ormuz e os ativos congelados. Teerã insiste em seu direito autoproclamado de controlar o estreito, enquanto essa possibilidade enfrenta forte oposição árabe, americana e europeia. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar foi muito claro sobre o assunto: Doha não aceitará um controle iraniano do estreito. Majed el-Ansari também confirmou que os fundos iranianos congelados, cujo desbloqueio está previsto no memorando de entendimento, ainda não foram transferidos. Por sua vez, Teerã mantém um discurso inflexível, até mesmo ameaçador. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaïl Baghaï, advertiu que qualquer violação do memorando de entendimento por parte de Washington provocaria uma resposta imediata. “Nenhuma ação ficará sem resposta”, declarou, em uma referência aos ataques americanos contra alvos iranianos quando Teerã atacou petroleiros que atravessaram o Estreito de Ormuz utilizando o corredor previsto pelo Sultanato de Omã, em coordenação com Washington. Esmaïl Baghaï também insistiu na necessidade de os Estados Unidos “respeitarem seu compromisso de pôr fim à guerra em todas as frentes, especialmente no Líbano”. Segundo ele, Washington deve, se necessário, obrigar Israel a respeitar os termos do acordo. Pezeshkian denuncia ataques contra negociadores A importância de uma cessação das hostilidades na frente libanesa também foi destacada pelo presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, que, durante uma viagem à província de Qom, fez questão de afirmar que o acordo com Washington foi concluído “em plena coordenação com o líder supremo Mojtaba Khamenei e com o apoio do Conselho Supremo de Segurança Nacional”. Seu discurso, no entanto, confirmou mais uma vez a existência de duas correntes em oposição dentro do Irã. Segundo o site Iran International, Massoud Pezeshkian defendeu a equipe responsável pelas negociações com os Estados Unidos ao afirmar que ela coordenou todos os passos com Mojtaba Khamenei. “Infelizmente, alguns grupos estão trabalhando, na continuidade das operações psicológicas conduzidas por meios de comunicação hostis, para enfraquecer esse avanço atacando a equipe de negociação e questionando as decisões nacionais”, declarou. De acordo com o Iran International, suas declarações ocorrem em um momento em que seu governo enfrenta uma pressão crescente por parte de facções ultraconservadoras contrárias a um diálogo com Washington. O site lembra que várias figuras da linha dura acusaram o presidente e sua equipe de negociadores de terem feito concessões, ao mesmo tempo em que colocaram em dúvida o apoio do líder supremo às principais decisões de segurança. Expectativa no Líbano No Líbano, onde o acordo-quadro com Israel também provoca críticas, ainda se aguarda a implementação das disposições desse documento que prevê, entre outros pontos, uma retirada israelense progressiva das áreas atualmente ocupadas no sul do Líbano, onde as forças regulares devem se posicionar, além do desmantelamento gradual das estruturas militares do Hezbollah. Israel, como se sabe, deve se retirar primeiro de “zonas-piloto”, uma ação coordenada com o Centcom, cujo comandante, o almirante Brad Cooper, realizou na segunda-feira uma visita a Beirute e Tel Aviv. No dia seguinte à visita, o presidente libanês Joseph Aoun recebeu o comandante em chefe do Exército, general Rodolphe Haykal, para discutir o papel das tropas na aplicação do acordo-quadro. No terreno, a situação continua volátil. A artilharia israelense atingiu as aldeias de Hebbariyé, no distrito de Marjeyoun, Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil, e Majdel Zoun, no distrito de Tiro. Essa localidade está agora dividida em duas após a explosão de um túnel subterrâneo do Hezbollah, que provocou uma enorme detonação. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação israelenses informaram sobre uma visita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de seu ministro da Defesa, Israel Katz, ao setor controlado pelo Exército israelense no sul do Líbano. Dirigindo-se aos militares, Benjamin Netanyahu afirmou que Tel Aviv “começou a desmantelar o eixo iraniano, atacando diretamente a República Islâmica e estabelecendo uma zona-tampão no sul do Líbano”. Ele garantiu que o Exército permanecerá no sul do país “enquanto o Hezbollah não for desarmado e não representar uma ameaça para Israel”. No entanto, afirmou que o arsenal militar dessa organização “representa apenas 8% do que era antes da guerra” e que “9 mil milicianos foram eliminados”.

Do Iraque ao Líbano, a batalha pelo monopólio das armas está lançada
Por
LevantTime .
Publicado
jun 29, 2026 - 23:11

A incerteza ainda reinava no início da semana quanto à data de retomada das reuniões técnicas entre Teerã e Washington, depois que as duas partes decidiram, na terça-feira passada, na Suíça, criar quatro grupos de trabalho dedicados aos temas do levantamento das sanções, do programa nuclear e da reconstrução. Abaladas pelo braço de ferro militar em torno do estreito de Ormuz — sobre o qual o Irã quer impor controle total — e pela recusa de Teerã em permitir que inspetores da AIEA entrem em suas instalações nucleares, as conversas entre as duas capitais não estão, contudo, encerradas, segundo diversas fontes concordantes citadas pela AFP e por veículos de comunicação americanos. Na segunda-feira, o presidente Donald Trump anunciou em sua rede social, Truth Social, que autoridades iranianas haviam solicitado uma reunião de acompanhamento e que ela deveria acontecer na terça-feira, em Doha. Um anúncio rapidamente desmentido por Teerã, que garantiu que nenhum encontro ou reunião técnica dos grupos de trabalho estava previsto nesta semana no Qatar. A Casa Branca confirmou, no entanto, que os dois negociadores americanos Jared Kushner e Steve Witkoff devem se deslocar ao Qatar «para reuniões de alto nível», sem indicar, porém, uma data. Segundo o site americano Axios, eles estariam na terça-feira em Doha para conversações com autoridades qatarianas. Na quarta-feira, as delegações técnicas americana e iraniana encarregadas da implementação do memorando de entendimento assinado em 18 de junho deverão se reunir separadamente com os mediadores qatariano e paquistanês, segundo o Axios. Um diplomata apresentado como próximo do dossiê pela AFP confirmou à agência francesa que os canais de comunicação entre os dois países permanecem abertos, o que significa concretamente que a mediação, conduzida conjuntamente pelo Qatar e pelo Paquistão, foi retomada após a escalada das tensões e a troca de ameaças entre as duas partes. Na segunda-feira, a calma havia sido restabelecida na frente americano-iraniana: as trocas de ameaças que haviam recomeçado após os ataques iranianos do fim da semana passada contra petroleiros que atravessavam Ormuz tinham cessado, assim como os ataques com drones iranianos e as contraofensivas americanas. Essa calmaria parece ter sido acordada de comum acordo, na medida em que um responsável americano anunciou no domingo à noite uma suspensão dos ataques mútuos para permitir a continuidade das conversas técnicas e a manutenção da livre circulação de navios no estreito de Ormuz. Mas o jogo ainda não está ganho, pois Teerã continua intransigente quanto ao seu autoproclamado direito de controlar esse ponto de passagem marítimo estratégico. A República Islâmica, que contava com a colaboração do sultanato de Omã para criar um precedente em violação ao direito marítimo internacional, teve, no entanto, de se desiludir rapidamente. Mascate reafirmou na segunda-feira que não tomará nenhuma medida contrária a esse direito, mas que permanece disposto a discutir com Teerã eventuais taxas impostas em contrapartida, porém, a serviços garantidos. Monopólio das armas no Iraque. E o Líbano? Ainda no plano regional, outro elemento merece destaque pela sua importância estratégica. O governo iraquiano fixou às facções armadas pró-iranianas um prazo de três meses para entregarem suas armas. Esse prazo expira em 30 de setembro. O anúncio acontece enquanto o novo primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, tem uma visita prevista aos Estados Unidos — que, como se sabe, vinham pedindo o desarmamento dessas facções — e no dia seguinte a uma operação sem precedentes na esfera política iraquiana. Pelo menos 200 pessoas, entre as quais numerosos deputados, ex-ministros e empresários, foram detidas no âmbito dessa operação realizada sob o signo do combate à corrupção. Várias dezenas de milhões de dólares foram apreendidos em algumas residências. Estas duas operações demonstram a determinação do poder no Iraque em se libertar da influência da República Islâmica, que não reagiu ao anúncio. Elas não podem ser dissociadas do processo de transformação em que a região está envolvida desde a operação militar israelo-americana contra o Irão. No plano político, o Iraque e o Líbano apresentam muitas semelhanças, nomeadamente no que diz respeito à influência iraniana e ao seu efeito desestabilizador sobre os dois países. A principal diferença entre eles reside, no entanto, na capacidade e na vontade de agir: no Iraque, a decisão de reduzir o poder das facções armadas traduziu-se em medidas concretas, ao passo que no Líbano, a mesma decisão tomada em agosto de 2025 continua a enfrentar resistências quanto à sua implementação. Continua a carecer de clareza e está, hoje, condicionada a um conjunto de medidas consignadas no acordo-quadro celebrado na semana passada entre Beirute e Telavive, em Washington. A primeira fase deste acordo prevê uma retirada israelita de «zonas piloto» no sul do Líbano. Essa retirada continua a não se concretizar. A chegada a Beirute do comandante do Centcom, o almirante Brad Cooper — que se reuniu com o comandante-chefe do exército, o general Rodolphe Haykal, e com o presidente Joseph Aoun, com conversações centradas nos preparativos para a implementação do documento assinado em Washington — é um sinal indicador do início deste processo. Israel parece, aliás, estar a preparar-se para retiradas progressivas e parciais até à Linha Azul, como o demonstram os extensos bombardeamentos de túneis do Hezbollah em Majdal Zoun e a demolição de habitações noutras localidades, nomeadamente em Haddatha. O ministro israelita da Defesa, Israel Katz, reafirmou na segunda-feira que o seu país não se retirará do Líbano enquanto o Hezb não for desarmado, ao passo que o movimento pró-iraniano recusa categoricamente entregar as suas armas. Se a tensão que se manifestou no terreno através de movimentos de protesto entre os apoiantes do Hezbollah, após a assinatura do acordo libano-israelita, abrandou no plano político, continua ainda bem presente. Os quadros da milícia continuam a advertir contra qualquer tentativa de desarmamento, reafirmando repetidamente a sua determinação em combater o processo diplomático em curso entre Beirute e Telavive. O momento é, contudo, de apaziguamento. O duo Amal-Hezbollah não prevê, pelo menos «por agora», uma escalada. O presidente da Câmara dos Deputados, Nabih Berry, igualmente contrário ao texto do acordo libano-israelita, manifestou o seu empenho na estabilidade do país e na manutenção da calma, durante uma conversa telefónica com o chefe do governo, Nawaf Salam. Por intermédio de um dos seus responsáveis, Mahmoud Comati, o Hezbollah fez saber que não tenciona, por enquanto, retirar os seus ministros do governo, embora tenha afirmado que «o Hezb dispõe dos meios para o fazer cair». A ULCM congratula-se Apesar destas vozes discordantes que gravitam todas na mesma órbita, ou das reservas expressas sobre certas disposições do documento libano-israelita por parte de figuras políticas, entre as quais o líder druso Walid Joumblatt, o acordo-quadro beneficia de um amplo consenso na medida em que subtrai o Líbano à influência iraniana e impediria o sul do Líbano de continuar a ser uma caixa de ressonância dos conflitos na região. A União Libanesa Cultural Mundial (ULCM), principal órgão representativo dos libaneses no estrangeiro, congratulou-se na segunda-feira com a conclusão deste acordo, considerando num comunicado assinado pelo seu presidente, Farès Wehbé, que o processo iniciado pelas autoridades libanesas «está em sintonia com o discurso de tomada de posse do chefe de Estado e com as decisões do governo que visam devolver ao Estado, exclusivamente, o poder de decidir sobre a guerra e a paz». Para a ULCM, como sublinha Farès Wehbé, este processo é uma «primeira etapa rumo à plena restauração da soberania do Líbano sobre todo o território nacional» e «retoma a tradição de uma diplomacia libanesa ousada, tal como existia nos primeiros tempos da independência, antes que a decisão de guerra e paz fosse retirada da autoridade do Estado». «Pela primeira vez em várias décadas, o país negocia em seu próprio nome e no interesse da sua nação», sublinha o Sr. Wehbé, precisando que «os libaneses, tanto no país como pelo mundo fora, anseiam por reencontrar um Líbano normal, onde a cultura, as artes, a vida e a alegria voltem a prevalecer sobre a linguagem das armas». Assim, o presidente da ULCM afirmou a sua vontade de apoiar o presidente e o governo nesta tarefa, apelando ao mesmo tempo aos libaneses «à vigilância e a frustrar qualquer tentativa de semear o caos, tanto mais que certas forças armadas, ligadas a um sistema de corrupção enraizado nas engrenagens do Estado profundo, encontram o seu interesse na manutenção do dossiê das armas sob o domínio dos equilíbrios regionais». «O que foi alcançado deve agora ser preservado com um compromisso sério e constante, e não celebrado como um fim em si mesmo», sublinha o comunicado da ULCM, que reafirma que «a independência a que o Líbano aspira deve ser plena e definitiva».

O acordo-quadro líbano-israelense assinado em Washington: Irã fora
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Publicado
jun 27, 2026 - 00:11

Após quase dois meses de negociações diretas entre o Líbano e Israel, no quarto dia da quinta rodada de conversações realizada na sede do Departamento de Estado, em Washington, sob supervisão do Secretário de Estado Marco Rubio, um «acordo-quadro» entre o Líbano e Israel foi assinado no sábado à noite (horário de Beirute). A cerimônia aconteceu na presença de Rubio e dos negociadores dos dois países, entre eles, pelo lado libanês, o ex-embaixador do Líbano em Washington, Simon Karam, e o embaixador americano em Beirute, Michel Issa. O documento foi assinado pela embaixadora do Líbano nos EUA, Nada Hamadé Moawad, e pelo embaixador de Israel, Yechiel Leiter, que proferiram cada um um breve discurso, agradecendo à Administração Trump pelos seus esforços e destacando a importância histórica do evento. Este acordo-quadro constitui o primeiro ato diplomático oficial concluído entre o Líbano e Israel desde a assinatura do acordo (fracassado) de 17 de maio de 1983. Este resultado, fruto de cinco rodadas de negociações, representa, vale ressaltar, um primeiro passo que será seguido de futuras e longas tratativas com o objetivo de obter uma retirada israelense total do sul do Líbano, em paralelo com um processo de desarmamento do Hezbollah. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou na noite de sábado que este primeiro passo abrirá caminho para outros acordos, sendo a etapa final, conforme destacou o embaixador Leiter naquela mesma noite, um futuro acordo de paz entre os dois países. Na prática, o documento prevê o estabelecimento imediato de duas «zonas-piloto», uma delas ao norte do rio Litani, onde o exército libanês deverá ser implantado para impedir qualquer presença de milícias nas áreas em questão. Uma fonte israelense indicou ao final da noite que a implantação do exército ocorrerá com apoio direto americano, o que poderá se traduzir no envio de especialistas militares dos EUA. Trata-se, portanto, de um ponto de partida que será seguido de outras etapas, conduzindo progressivamente à retirada israelense à medida que as tropas regulares locais forem sendo implantadas e o Hezbollah for sendo desarmado. Nesse sentido, por instrução do presidente Joseph Aoun, a delegação libanesa insistiu para que o acordo-quadro mencionasse explicitamente a necessidade de uma «retirada total» das forças israelenses do sul do Líbano. Quanto ao alcance deste acordo, o gabinete do primeiro-ministro israelense afirmou na noite que «o processo de desarmamento do Hezbollah, previsto no documento, será implementado tanto ao sul quanto ao norte do Litani». Mas é sobretudo o significado geopolítico deste acordo-quadro que concentra a atenção dos analistas e dos meios políticos no Líbano. O documento em questão consagra de fato o afastamento do Irã do processo de resolução da crise libanesa e do problema do sul do Líbano. Nas últimas semanas, o regime dos aiatolás não poupou esforços para impor um papel iraniano direto nas iniciativas voltadas a encontrar uma saída para o conflito libanês, em especial no Sul. Durante as recentes tratativas entre a Administração Trump e a República Islâmica, os líderes iranianos impunham como condição prévia a qualquer acordo com Washington a cessação total das operações militares israelenses no Sul. Essa insistência mal disfarçava a vontade de Teerã de garantir um papel de destaque em qualquer processo de solução política no Líbano. Esse papel iraniano reivindicado pelos Guardiões da Revolução parecia ter sido reconhecido nas discussões americano-iranianas iniciadas nesta semana na Suíça, sob supervisão do vice-presidente americano JD Vance. Essas conversações haviam resultado em um entendimento visando incluir o Irã em um processo de controle da situação no sul do Líbano. No entanto, o acordo-quadro de Washington, assinado na noite de sábado, exclui qualquer envolvimento da República Islâmica e, por consequência, do Hezbollah, limitando assim os esforços de pacificação e de restabelecimento da segurança e da soberania libanesa ao único âmbito libano-israelense, sob supervisão estrita e exclusiva dos Estados Unidos. Isso explica a reação imediata do Hezbollah no final da noite de sábado. O deputado do Hezbollah Hassan Fadlallah voltou a evocar o espectro da "guerra civil", afirmando que o acordo de Washington visa minar o processo de Islamabad, claramente orientado para a retomada de um papel regional preponderante da República Islâmica na região, e em particular no Líbano. No plano das reações políticas, o Secretário de Estado declarou no final da noite que esse acordo-quadro "lança as bases de um processo claramente definido com o objetivo de restaurar a soberania do Líbano, desarmar o Hezbollah e desmantelar a sua infraestrutura". O presidente Joseph Aoun, por sua vez, sublinhou que o objetivo almejado é "o estabelecimento de uma soberania exclusiva do Estado libanês sobre o seu território". "Não deve mais haver espaço para ocupação, dependência ou tutela", afirmou, numa alusão pouco velada às tentativas do Irã de impor sua hegemonia sobre o cenário libanês. Escalada militar, Ormuz e Ali el-Taher No plano das operações militares, cabe destacar que a conclusão do acordo-quadro de Washington foi precedida pelo anúncio do exército israelense, no período da tarde, de seu "controle total da colina de Ali el-Taher", cuja elevada importância estratégica é inegável. "Controlamos agora completamente a colina de Ali el-Taher e, com isso, o Hezbollah perdeu a sua posição fortíssima que lhe permitia ameaçar o território israelense", destacou o comando militar do Estado hebreu. A tomada da colina de Ali el-Taher reveste não apenas uma importância militar, mas constitui também para Israel uma conquista geopolítica fundamental. O subsolo dessa área foi transformado pelos Guardiões da Revolução em uma vasta rede de túneis e infraestruturas, que inclui salas de comando cuidadosamente equipadas e grandes depósitos de mísseis e munições diversas. Dezenas de milicianos do Hezbollah e, sobretudo, vários oficiais superiores e quadros dos Guardiões da Revolução estariam agora presos nesses túneis, sem nenhuma via de saída, devido à tomada de controle da região pelo exército israelense. Esse desenvolvimento levou uma fonte militar israelense a afirmar que o controle total de Ali el-Taher pelas forças do Estado hebreu "representa o fim do papel do Irã e do Hezbollah". O partido pró-iraniano, no entanto, desmentiu no final da noite a queda da referida colina nas mãos do exército israelense. No plano estritamente regional, o presidente Donald Trump acusou a República Islâmica de ter violado o acordo de cessar-fogo, precisando que os iranianos lançaram quatro drones em direção a navios no Estreito de Ormuz. Três desses drones foram abatidos na área pelas forças americanas, destacou o presidente norte-americano, que acrescentou que o quarto drone atingiu em cheio a parte superior de um grande navio comercial, causando danos consideráveis. Nesse contexto, um veículo de mídia iraniano afirmou no sábado que "um canal direto foi estabelecido entre americanos e iranianos com o intuito de evitar qualquer incidente no Estreito de Ormuz". Essa informação foi, contudo, categoricamente desmentida em seguida pelos Guardiões da Revolução Islâmica. Pouco antes da meia-noite, o exército americano anunciou que havia realizado ataques contra alvos iranianos na região do Estreito. O comando militar esclareceu que a aviação dos EUA lançou raids contra depósitos de mísseis e drones e contra centros de radar, em resposta ao ataque iraniano contra o navio mercante.

Líbano-Israel: Rubio quer arrancar uma declaração de intenções
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Publicado
jun 26, 2026 - 01:01

No terceiro dia do quinto round das negociações líbano-israelenses, em Washington, discussões consideradas difíceis entre as duas delegações político-militares libanesa e israelense deveriam resultar em uma declaração de intenções que definiria o quadro para negociações mais aprofundadas e para uma cooperação futura entre o Líbano, Israel e os Estados Unidos. A declaração de intenções deveria ser anunciada e assinada pelo Líbano e por Israel às 23 horas, horário de Beirute, mas o anúncio foi adiado devido à continuidade das discussões entre as duas partes. Segundo diversas fontes convergentes, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, está usando toda a sua influência para levar o Líbano e Israel a assinarem essa declaração de intenções. Enquanto isso, vários incidentes pontuais foram registrados, ao longo do dia e da noite de quinta-feira, entre o exército israelense e milicianos do Hezbollah. Pouco antes da meia-noite, a aviação do Estado hebraico realizou um ataque contra a aldeia de Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil. Os debates deste último dia do quinto round das negociações giraram, portanto, em torno — sem surpresa — da retirada israelense e do futuro do arsenal militar do Hezbollah. Dois temas sobre os quais as duas partes tinham dificuldade em chegar a um acordo, enquanto o secretário de Estado americano, em visita aos países do Golfo, mencionava avanços nas negociações. Para Israel, sujeito a fortes pressões americanas em favor de uma retirada, pelo menos até a Linha Azul, a equação é clara: nenhuma retirada enquanto o movimento pró-iraniano mantiver suas armas e representar uma ameaça para o norte do país. O Líbano, por sua vez, reafirma sua vontade de estender sua soberania sobre todo o seu território e considera que a permanência do exército israelense no Sul complicaria sua tarefa. Beirute exige, assim, uma retirada israelense total como condição prévia, enquanto Tel Aviv deseja que o exército libanês se implante no Sul antes da retirada de suas forças. As duas partes também tinham dificuldade em chegar a um entendimento sobre as 'zonas-piloto', que constituiriam o ponto de partida de uma retirada israelense cujo calendário ainda está por definir. Segundo o Yediot Aharonot , o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria conseguido convencer Donald Trump a não mais exigir uma retirada, uma vez que Washington está associado ao projeto de 'zonas-piloto' no Sul, das quais Israel se retiraria progressivamente em troca de um maior desdobramento do exército libanês. Netanyahu reafirmou, aliás, em um discurso no final do dia, que suas tropas manteriam presença nas 'zonas de segurança em Gaza e no Líbano' e que 'missões ainda precisam ser conduzidas em relação ao Irã, ao Hezbollah e ao Hamas'. Tel Aviv reduziu sensivelmente suas operações na parte meridional do país, mas seu exército continua eliminando combatentes do Hezbollah. Três pessoas foram mortas em um ataque de drone que atingiu um veículo perto de Mayfadoune, no distrito de Nabatiyé. O dossiê libanês está, como se sabe, integrado às discussões entre Washington e Teerã, por insistência da República Islâmica, que quer manter o controle sobre qualquer processo que envolva o destino do país e se autoproclamou porta-voz do Líbano, apesar da rejeição oficial libanesa a qualquer ingerência iraniana em seus assuntos. Ignorando as críticas do presidente Joseph Aoun e do primeiro-ministro Nawaf Salam contra o comportamento de Teerã, o comandante da força al-Qods dos Guardiões da Revolução Islâmica, Esmaïl Qaani, declarou, mais uma vez, que Israel deveria deixar 'a totalidade do território libanês' por vontade própria, caso contrário seria 'forçado a fugir sob o peso da derrota'. Teerã continua a impor como condição para a continuidade de suas negociações com Washington uma retirada israelense incondicional do sul do Líbano. Por sua vez, os Estados Unidos e os países do Golfo reafirmaram, num comunicado conjunto divulgado ao término da conferência ministerial do Conselho de Cooperação do Golfo, realizada em Manama, a necessidade de separar os dois processos diplomáticos conduzidos em Washington e na Suíça. O bloco parlamentar do Hezbollah alinhou-se com os Guardiões da Revolução Islâmica, conclamando o Estado libanês a «aproveitar o apoio iraniano» e alertando-o contra «concessões que seriam feitas a Tel Aviv». Israel reagiu imediatamente pela voz do seu ministro da Defesa, Israel Katz, que anunciou que seu país «golpeará com força o Irã se ele nos atacar por causa das nossas operações no Líbano». Braço de ferro em torno de Ormuz No plano regional, o braço de ferro em torno do estreito de Ormuz endureceu consideravelmente na quinta-feira, após os Guardiões da Revolução Islâmica rejeitarem uma iniciativa de Omã, apoiada por Washington e pelos países do Golfo, destinada a garantir a navegação nessa passagem estratégica. Este desenvolvimento ameaça complicar o processo diplomático em curso em prol da paz na região, sobretudo porque o Irã, que se proclama vencedor da sua guerra contra os Estados Unidos e Israel, e que enfrenta dificuldades financeiras e econômicas substanciais, busca multiplicar os ganhos dessa natureza. Segundo o Wall Street Journal, as taxas de pedágio poderiam render a Teerã até 40 bilhões de dólares por ano. O suficiente para recompor as finanças do regime, especialmente se os seus ativos continuarem bloqueados por Washington. Sinal de uma crise emergente, um petroleiro foi «atingido por um artefato explosivo de origem indeterminada a sudeste de um porto omanense», anunciou ao final do dia a marinha britânica. Outros três cargueiros, entre eles um petroleiro, que atravessavam o mesmo corredor, foram obrigados a dar meia-volta, segundo a mesma fonte. Teerã contava com Omã para contornar a pressão internacional e impor uma taxa de pedágio em Ormuz, mas o sultanato rapidamente se distanciou da iniciativa, anunciando dois novos corredores temporários estabelecidos ao longo da sua costa em coordenação com a Organização Marítima Internacional (OMI). O seu ministro das Relações Exteriores, Badr al-Busaidi, garantiu que nenhuma «taxa de trânsito» seria imposta, esclarecendo ao mesmo tempo que Mascate prosseguia as suas conversações com Teerã sobre custos relacionados a determinados serviços administrativos e de segurança marítima. Embora esta decisão tenha sido amplamente celebrada pelos países do Golfo, os Pasdaran, que pretendem manter o controle sobre um dos principais pontos de passagem energética do planeta, rejeitaram-na imediatamente. Num comunicado em resposta, afirmaram que «as únicas rotas autorizadas para atravessar o estreito de Ormuz são as anunciadas pela República Islâmica do Irã». Criticando Mascate por não tê-los consultado, advertiram que qualquer navio que utilizasse outro itinerário estaria sujeito a «sanções», sem especificar a sua natureza. A reação americana não tardou. No Bahrein, onde participava da conferência ministerial do CCG, Marco Rubio rejeitou categoricamente qualquer ideia de pedágio ou taxa no estreito, afirmando que «nenhum Estado poderia alegar ser proprietário de uma via marítima internacional». Para Washington, o debate vai muito além do âmbito do Golfo. Os responsáveis americanos temem que um precedente em Ormuz possa encorajar outras potências a cobrar pela passagem em estreitos estratégicos ao redor do mundo, o que provocaria um «caos total», advertiu Rubio. Resta saber que impacto este episódio terá sobre as negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Pois, por um lado, os Pasdaran consideram que qualquer concessão em relação a Ormuz equivaleria a uma perda de influência regional. Por outro lado, os Estados Unidos, embora desejosos de fechar um acordo com o Irã, não querem fazê-lo «a qualquer preço», reafirmou Marco Rubio em Manama. O chefe da diplomacia americana reiterou que nenhuma disposição do futuro acordo com o Irão deveria comprometer «a segurança, a estabilidade ou a prosperidade» dos Estados do Golfo, numa tentativa evidente de tranquilizar essas monarquias, numa altura em que está prevista uma nova reunião técnica entre peritos americanos e iranianos na Suíça no final do mês. Este compromisso ficou refletido no comunicado final da conferência ministerial de Manama. A questão dos mísseis balísticos foi integrada no documento, ao passo que não consta do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, e Teerão recusa, em nome do equilíbrio de forças regional, que este dossiê seja objeto de negociações. Os chefes da diplomacia dos países do Golfo apelaram assim a Washington para que inclua a questão dos mísseis iranianos e dos grupos armados aliados de Teerão nas negociações destinadas a pôr fim definitivo à guerra no Médio Oriente. «Uma paz e uma segurança regionais duradouras exigem que se respondam a todas as ameaças iranianas, incluindo os seus mísseis balísticos, os seus drones e o seu apoio aos grupos armados na região», declararam os ministros do CCG.

Negociações de Washington: a política dos pequenos passos
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Publicado
jun 24, 2026 - 22:43

O segundo dia do 5º round das negociações diretas entre o Líbano e Israel, realizadas nesta quarta-feira, 24 de junho, no Departamento de Estado, em Washington, foi centrado na análise do mecanismo concreto que deverá ser estabelecido para «gerir» a retirada parcial, e simbólica nesta fase, das forças israelenses de alguns setores da região fronteiriça. De acordo com as discussões em curso sobre este plano, o exército libanês deverá substituir progressivamente as unidades israelenses que se retiram gradualmente. Fontes geralmente bem informadas apontam que essa substituição será realizada por unidades do exército libanês enquadradas e sob controle «de segurança» e operacional do comando militar americano. As discussões em curso em Washington sobre este assunto prosseguirão por um terceiro dia, nesta quarta-feira, 24 de junho. Quanto ao objetivo final dessas negociações líbano-israelenses, um alto funcionário do Departamento de Estado indicou na quarta-feira que o governo Trump trabalha para «pôr um fim definitivo aos ciclos de violência entre o Líbano e Israel». Acrescentou, para delimitar bem o quadro das conversações — sem dúvida para mantê-las longe das gesticulações midiáticas hegemônicas do regime dos aiatolás — que «o Líbano e Israel negociam na qualidade de Estados soberanos para alcançar a paz». Enquanto se aguarda que as negociações deste quinto round tomem forma, uma calma precária e tensa continua a prevalecer no terreno na zona meridional, ao longo da fronteira com Israel. Essa calmaria é, no entanto, marcada quase diariamente por incidentes pontuais de segurança, como ocorreu nesta quarta-feira, quando o exército israelense abateu dois milicianos do Hezbollah que se aproximavam das posições israelenses no setor do estratégico morro de Ali el-Taher. Paralelamente, um drone israelense disparou um míssil contra um veículo que circulava na estrada de Kfar Remman (caza de Nabatiyeh). Duas pessoas morreram nesse ataque. No final da tarde, outro ataque de drone foi registrado em Nabatiyeh el-Fawqa, enquanto disparos de artilharia eram direcionados contra a aldeia de Yater, no caza de Bint Jbeil. Esses incidentes pontuais ocorrem enquanto o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou na quarta-feira que o Estado hebraico «não concluiu sua operação no sul do Líbano», ressaltando que, enquanto permanecer no cargo de primeiro-ministro, o exército israelense não se retirará completamente da zona tampão que vem estabelecendo e consolidando na região meridional libanesa para garantir a segurança do norte de Israel. O ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou também na quarta-feira que o governo Trump não pediu a Israel que se retirasse do sul do Líbano. Cabe destacar, para encerrar este dossiê libanês (que parece, portanto, evoluir «a passos lentos»), que o presidente Joseph Aoun reafirmou nesta quarta-feira que as negociações de Washington são totalmente dissociadas das conversações americano-iranianas iniciadas na Suíça. O panorama regional No que diz respeito aos desenvolvimentos regionais, três dossiês fundamentais continuam a alimentar as divergências entre americanos e iranianos quanto à leitura e interpretação do acordo-quadro celebrado entre as duas partes. O governo Trump, e mais especificamente o chefe da Casa Branca, não perde oportunidade de afirmar que os especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica inspecionarão de fato os sites nucleares iranianos, o que o regime iraniano continua a desmentir categoricamente. Ao mesmo tempo, o presidente Trump sublinha sem rodeios que os ativos iranianos que forem desbloqueados servirão exclusivamente para adquirir, em nome da população iraniana, trigo, milho e soja diretamente no mercado americano, o que beneficiará os agricultores e produtores norte-americanos. Esta abordagem é, no entanto, rejeitada pelos altos responsáveis em Teerã, que repetem a qualquer um disposto a ouvir que cabe exclusivamente ao poder iraniano decidir sobre o uso dos ativos que serão descongelados pela administração americana. Outro ponto de discórdia entre Washington e Teerã: a gestão da navegação marítima internacional no estreito de Ormuz. O regime iraniano continua a agir em várias frentes para impor, como um facto consumado, o seu controlo e soberania sobre o estreito, cobrando taxas por serviços de natureza administrativa, «ecológica» e «de segurança» que seriam prestados aos navios que utilizam esta rota marítima. Trata-se claramente de uma portagem que não assume o seu nome… O que levou o presidente Trump a afirmar na quarta-feira que, se os iranianos insistirem em impor uma portagem disfarçada no estreito de Ormuz, ele encerrará pura e simplesmente as negociações com Teerã…

Crise regional: a diplomacia se movimenta, as zonas de sombra se multiplicam
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LevantTime .
Publicado
jun 23, 2026 - 23:11

A terça-feira foi marcada por uma verdadeira movimentação diplomática em torno de dois acontecimentos que há algum tempo ocupam as manchetes internacionais: as discussões entre Washington e Teerã e as negociações diretas entre o Líbano e Israel. A quinta rodada das negociações libanesas-israelenses foi aberta no Pentágono, mas não sem um firme lembrete do presidente Joseph Aoun sobre a linha de orientação que deve nortear essas discussões, que se estenderão por três dias: o respeito à soberania libanesa. Aoun, que criticou em diversas ocasiões a flagrante ingerência iraniana nos assuntos internos do Líbano, colocou Teerã e Tel Aviv no mesmo patamar. “Não aceitaremos nada menos do que o fim da ocupação israelense e de todas as tutelas estrangeiras”, declarou, em uma alusão pouco disfarçada ao Irã. Ele expressou a esperança de que as discussões levem “ao pleno restabelecimento da soberania do Líbano sobre cada parcela de seu território”, segundo um comunicado de seu gabinete. Para Beirute, o objetivo dessas discussões consiste em transformar o cessar-fogo em um mecanismo concreto que permita a retirada israelense do Sul, o retorno dos deslocados e a libertação dos prisioneiros. Segundo fontes do palácio presidencial, citadas pela agência local al-Markaziya, instruções precisas foram dadas ao chefe da delegação libanesa, o embaixador Simon Karam, para manter firmemente essas prioridades, ao mesmo tempo em que busca acordos militares e de segurança aplicáveis no terreno, onde o cessar-fogo continua sendo violado. O Exército israelense disparou na terça-feira contra grupos de pessoas que apresentou como “terroristas” do Hezbollah pró-Irã, na área da colina estratégica de Ali Taher, deixando pelo menos dois mortos. Segundo informações divulgadas pela imprensa israelense, as discussões tratariam principalmente da criação de “zonas-piloto” no Sul do Líbano. De acordo com o Haaretz, Tel Aviv teria elaborado vários mapas prevendo uma retirada experimental de algumas áreas localizadas ao sul do Litani e da Linha Amarela, onde o Exército libanês seria mobilizado sob supervisão americana. No Líbano, afirma-se que as discussões de caráter militar e de segurança serão seguidas, na quinta-feira, por outras de natureza política, relacionadas principalmente ao desarmamento do Hezbollah. O projeto de “zonas-piloto” conta naturalmente com o apoio americano, na medida em que constituirá um verdadeiro teste para a capacidade do Exército libanês de manter a segurança na parte meridional do país e impedir que os tentáculos de Teerã voltem a se expandir na região. Mas ele apresenta, ainda assim, dois grandes obstáculos: a República Islâmica, que se recusa a afrouxar seu controle sobre o Líbano, foi associada ao mecanismo que deverá ser criado. As razões dessa presença, no mínimo inoportuna, ainda não foram oficialmente explicadas. Por outro lado, o Líbano parece não participar dos preparativos concretos desse dispositivo, como demonstra o teor divulgado de duas conversas telefônicas de Joseph Aoun com o vice-presidente e o secretário de Estado americanos, JD Vance e Marco Rubio. Ambos telefonaram para ele na terça-feira para expressar apoio às suas posições e às do governo, em favor do restabelecimento da soberania libanesa. Segundo um comunicado da Presidência da República, eles informaram que “os preparativos para a composição e o funcionamento dessa célula estão atualmente em estudo”. Resta saber qual será o papel do Líbano nesse contexto, enquanto Beirute continua defendendo uma separação entre as duas vias de negociação, a libanesa-israelense e a irano-americana. O apelo de Joe Raggi aos países árabes Em Amã, onde participava dos trabalhos da 165ª conferência ministerial da Liga Árabe, o ministro das Relações Exteriores, Joe Raggi, pediu aos países árabes que apoiassem “a independência da via de negociação libanesa” em relação ao eixo americano-iraniano. Ele insistiu que o futuro do Líbano não deveria ser decidido em sua ausência. Aparentemente, essa vontade continua sendo apoiada por Washington, como lembrou JD Vance em sua resposta ao líder das Forças Libanesas, Samir Geagea, que o havia questionado sobre a posição americana em relação ao Líbano e ao Hezbollah. JD Vance afirmou, em sua resposta a Geagea, que os Estados Unidos consideravam o presidente Aoun e o governo libanês como “a única autoridade legítima do país”. O vice-presidente americano insistiu que os contatos com Teerã “não tinham como objetivo conceder a ele um papel no futuro do Líbano, mas obter que exerça pressão sobre o Hezbollah para que respeite seus compromissos”. De todo modo, o campo soberanista, contra o qual o líder do Hezbollah, Naïm Qassem, voltou a atacar duramente na terça-feira, acusando-o de servir aos interesses de Israel, não pretende reduzir sua vigilância. Mais de 400 personalidades libanesas assinaram conjuntamente um apelo para salvar o Líbano, estruturado em torno de três ideias principais: uma união em torno do Estado, o apoio às negociações diretas com Israel e a rejeição da tutela que o Irã busca impor ao Líbano por meio de seu braço militar, o Hezbollah. Na mesma linha, o bloco parlamentar das Forças Libanesas, os deputados do partido Kataëb e um grupo de parlamentares independentes (entre eles Achraf Rifi, Michel Moawad e Fouad Makhzoumi) entregaram ao chefe do governo, Nawaf Salam, um memorando no qual pedem ao Estado libanês que prepare um dossiê jurídico, financeiro e diplomático para exigir da República Islâmica do Irã compensações pelos danos e perdas resultantes da última guerra iniciada na frente libanesa pelo Irã. A diplomacia francesa também permanece fortemente envolvida no pós-guerra no Líbano. Durante três conversas telefônicas com Joseph Aoun, Nawaf Salam e também com o presidente do Parlamento, Nabih Berri, o presidente francês Emmanuel Macron abordou a evolução das negociações americano-iranianas, a consolidação do cessar-fogo no Sul do Líbano e a preparação do período pós-Finul. Enquanto a missão da força internacional deverá terminar a partir de 2027, Paris consulta vários parceiros europeus para definir as modalidades de uma eventual presença internacional substituta. Desentendimentos Paralelamente, as discussões entre os Estados Unidos e o Irã avançaram para uma nova etapa, com as duas partes decidindo criar quatro grupos de trabalho dedicados ao levantamento das sanções, ao programa nuclear, à reconstrução econômica iraniana e ao acompanhamento dos compromissos. Os responsáveis americanos demonstram otimismo, mas sinais de tensão começam a aparecer, enquanto o presidente iraniano, Massoud Pezechkian, e seu ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, estão em Islamabad para discussões com autoridades paquistanesas, envolvidas na mediação com Washington. O presidente americano Donald Trump afirmou que o Irã havia aceitado inspeções nucleares “no mais alto nível” e que “os inspetores estarão no terreno, no momento oportuno”, algo que Teerã se apressou em negar. Por meio de seus representantes, a República Islâmica declarou não ter intenção de autorizar a Agência Internacional de Energia Atômica a inspecionar alguns locais nucleares recentemente bombardeados por Israel e pelos Estados Unidos. Em resposta, Donald Trump declarou: “Se o Irã estiver procurando problemas, que tente desenvolver uma arma nuclear. Um segundo ponto de atrito diz respeito à liberação dos ativos iranianos congelados. Teerã anunciou um acordo prevendo o desbloqueio imediato de 12 bilhões de dólares, em duas parcelas de seis bilhões. Mas Donald Trump indicou que esses recursos seriam colocados sob custódia e destinados exclusivamente à compra de produtos alimentícios e médicos americanos. Por meio de seu embaixador na ONU, Teerã rejeitou imediatamente essa interpretação, afirmando que o Irã continuaria sendo o único responsável pelo uso de seus próprios ativos. Enquanto os Estados Unidos querem garantir que esses fundos sejam utilizados para apoiar o povo iraniano, afetado por uma crise socioeconômica sem precedentes, o regime dos mulás, diante de uma crise financeira, busca recursos para garantir sua própria sobrevivência. A disputa sobre o Estreito de Ormuz Um terceiro ponto de atrito está relacionado à questão do Estreito de Ormuz. Teerã reafirmou sua vontade de manter o controle administrativo dessa rota estratégica, que registrou na terça-feira o maior volume de tráfego marítimo desde o início da guerra. Irã e Omã anunciaram o início de discussões sobre as modalidades e os custos dos futuros serviços ligados à gestão dessa passagem, enquanto Washington se opõe firmemente a um controle iraniano do estreito. Nesse contexto, o secretário de Estado americano Marco Rubio, que iniciou na terça-feira uma viagem pelo Golfo, reafirmou ao chegar a Abu Dhabi que “nenhum país está autorizado a cobrar pedágios ou tarifas sobre uma via navegável internacional”. O objetivo da viagem é “tranquilizar os países aliados do Golfo sobre o protocolo de entendimento com o Irã”. Marco Rubio deverá discutir com os líderes dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e do Bahrein o protocolo de entendimento com o Irã, a segurança do Estreito de Ormuz e as garantias de estabilidade exigidas por esses países, que haviam sido atacados pelo Irã durante sua guerra com os Estados Unidos e Israel.

De Lucerna a Washington, o Líbano defende a sua soberania
Por
Taline Becharraoui
Publicado
jun 23, 2026 - 00:40

As negociações entre as delegações iraniana e americana, na sequência do acordo-quadro assinado entre as duas partes na semana passada, prosseguiram na segunda-feira em Lucerna, na Suíça. No entanto, este processo diplomático ainda está no início, e muitas zonas de sombra persistem. As interrogações multiplicam-se: caminhamos para uma era em que o Irão recuperará a sua influência na região, ou antes para um período de equilíbrios regionais? Um lugar onde estas questões se colocam com grande intensidade é, certamente, o Líbano. Na noite de segunda-feira, um responsável americano anunciou um acordo entre os Estados Unidos, o Líbano e Israel para estabelecer um mecanismo de monitorização do cessar-fogo no sul do país, sob a supervisão do Centcom, o Comando Central das Forças Americanas. O responsável acrescentou que o acordo foi precedido por uma chamada do Secretário de Estado Marco Rubio com o presidente libanês Joseph Aoun e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A questão libanesa esteve no centro das negociações na Suíça, e o Irão procurou atribuir-se o mérito do cessar-fogo no sul, ao mesmo tempo que as conversações diretas entre o Líbano e Israel continuam previstas para esta terça-feira em Washington. Devido às conversações conduzidas por JD Vance com os iranianos na Suíça sobre o sul do Líbano — sem qualquer concertação prévia com as autoridades libanesas, o que constitui uma grave gafe diplomática —, o presidente Joseph Aoun não deixou de pôr os pontos nos is, garantindo que o Líbano acolhe favoravelmente «qualquer ajuda para pôr fim à guerra», mas sublinhando que sabe bem distinguir entre ajuda e ingerência, numa clara referência ao Irão. «Somos um país soberano e ninguém negocia em nosso nome», reafirmou sem rodeios. A embaixadora do Líbano em Washington, Nada Hamadé Moawad, tomou a iniciativa de contactar altos responsáveis americanos para lhes transmitir esta posição, sublinhando que qualquer negociação relativa ao Líbano deve ser feita em concertação direta com o presidente Aoun. Na sequência desta posição firme adotada por Baabda, JD Vance, o negociador americano Jared Kushner e o primeiro-ministro do Qatar, Mohammad ben Abdel Rahman Al-Thani, telefonaram ao presidente da República para discutir com ele as medidas abordadas na Suíça com vista a consolidar o cessar-fogo no Líbano, que consistiriam em «células de desescalada». Estas células seriam supervisionadas por comités que incluiriam libaneses, americanos e iranianos — uma medida que faz pendant com as «zonas piloto» mencionadas nas negociações diretas com Israel em Washington. Se o presidente libanês foi tão categórico quanto às negociações conduzidas sem concertação com o poder, é não apenas em reação às negociações em si, mas também devido à atitude de todos os pólos do campo iraniano. O exemplo mais flagrante a este respeito são as faixas erguidas na estrada do aeroporto mostrando o Guia Supremo iraniano assassinado, Ali Khamenei, e o seu filho, o presumível atual Guia (ainda invisível) Mojtaba Khamenei, com um enorme «Obrigado Irão, o fiel»! Para além das declarações recorrentes de quadros do Hezbollah criticando as negociações diretas com Israel e elogiando a posição do regime dos mulás, o chefe da força Al-Qods, dependente do Corpo dos Guardiões da Revolução, Ismail Qaani, proferiu na segunda-feira uma ameaça muito significativa contra Israel. «Se não se retirarem voluntariamente (do sul do Líbano), sofrerão uma derrota comparável à epopeia de 2000», disse ele. Com este gesto, o Irão apropriou-se diretamente daquilo que antes era motivo de orgulho do Hezbollah: a retirada israelense do sul do Líbano a 25 de maio de 2000. Nuclear, trigo e milho em Lucerna… Em Lucerna, apesar das tensões de domingo à noite, as negociações prosseguiram durante toda a madrugada de domingo para segunda-feira. As notícias, na manhã de segunda-feira, pareciam positivas dos dois lados, mesmo que as divergências persistissem. As delegações oficiais partiram, deixando delegações «técnicas» para dar continuidade às discussões. No dia anterior, as declarações «contundentes» do presidente americano Donald Trump, que ameaçava atacar o Irão caso este «não parasse de apoiar os seus proxies» (nomeadamente o Hezbollah no Líbano), tinham provocado a saída prematura dos iranianos da sala de negociações, deixando antever possíveis bloqueios. No entanto, na manhã de segunda-feira, os governos paquistanês e catari anunciaram que foram alcançados «progressos encorajadores». As negociações resultaram assim num «roteiro para discussões ao longo de 60 dias», abrindo caminho para negociações técnicas imediatas. Por sua vez, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, declarou com orgulho que as conversações permitiram «progressos significativos», congratulando-se, sobretudo, com o levantamento das restrições às exportações de petróleo e de produtos petroquímicos. Confirmou ainda o levantamento do bloqueio aos portos iranianos e o desbloqueio de alguns ativos iranianos congelados. No dossiê nuclear, o Irão reconheceu ter havido «discussões muito breves» durante as negociações na Suíça. O porta-voz do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros garantiu que nenhum detalhe foi ainda abordado. Por outro lado, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian está esperado no Paquistão amanhã, terça-feira, para dar continuidade às discussões sobre as negociações. Por seu lado, o vice-presidente americano JD Vance, chefe da delegação dos EUA, foi particularmente prolífico em declarações. Considerou que as negociações resultaram numa base muito sólida, destacando o facto de os iranianos terem aceite o regresso da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) para realizar inspeções no seu território (algo que os iranianos posteriormente negaram categoricamente). Mostrou-se confiante de que o programa nuclear iraniano é definitivamente coisa do passado, em contraste com a ambiguidade das declarações iranianas a esse respeito. Mais tarde, JD Vance explicou as cláusulas financeiras do «acordo» numa conferência de imprensa, tentando justificá-las perante o público americano ao sublinhar que «os fundos iranianos descongelados servirão os interesses dos agricultores americanos», numa alusão a possíveis negócios futuros, nomeadamente no que diz respeito ao trigo e ao milho. Fez questão de referir que os Estados Unidos garantiriam que o Irão «não financiaria o terrorismo» com os fundos que venha a receber — uma forma de responder às múltiplas críticas que já visam estas negociações. A colina de Ali el-Taher No front israelita, a desescalada parece ser a tónica do momento. O exército israelita terá enviado aos seus recrutas um aviso de desmobilização devido ao cessar-fogo, segundo o canal 12 israelita. No terreno, o sul registou um terceiro dia consecutivo de calma, com algumas violações menores. O cessar-fogo proporcionou um regresso cauteloso às aldeias da linha da frente, mas também a descoberta de corpos de vítimas que ainda se encontravam sob os escombros. Uma outra notícia mediática de interesse, divulgada pelo canal 12, fornece, além disso, uma explicação para a intensidade dos combates em torno da colina estratégica de Ali el-Taher, nas alturas de Nabatiyeh, no sul. Segundo esta notícia, esta zona é uma base essencial do Hezbollah, um labirinto de túneis gerido nomeadamente por generais dos Guardas da Revolução Iraniana. E é a proximidade das tropas israelitas que, segundo o relatório, explica o súbito interesse iraniano num cessar-fogo no sul do Líbano. Israel, por sua vez, certamente não pretende deixar esse terreno de grande importância para o Hezbollah e já busca obter, por meio das negociações, que Ali el-Taher esteja entre as «zonas piloto» colocadas sob o controle do exército libanês… com o objetivo de expulsar o Hezbollah de lá. Seria esse o possível estopim de novos combates, caso essas tentativas fracassem? Em todo caso, tanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu quanto o ministro da Defesa Israel Katz declararam na segunda-feira que «o exército israelense mantém liberdade de movimentação no Líbano».