Logotipo da Levant Time
Voltar ao artigo
O Essencial do Dia

Uma nova página nas relações entre o Líbano e a Síria?

Ministro sírio das Relações Exteriores amplia seus contatos em Beirute

Imagem de notícia
O ministro sírio das Relações Exteriores, Assad Chibani, foi recebido nesta quinta-feira pelo presidente Joseph Aoun, no âmbito de uma visita oficial de um dia ao Líbano. (Palácio Presidencial / AFP)
Retrato do autor
Por Taline Becharraoui
Publicado jul 2, 2026 - 23:20

Não se pode analisar esta visita fora de seu contexto. Ela ocorre em um momento em que se multiplicaram, muito recentemente, as ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a possibilidade de recorrer às forças sírias para desarmar o Hezbollah, algo que os sírios, especialmente seu presidente Ahmad al Chareh, desmentiram categoricamente em diversas ocasiões. A presença do ministro sírio teria, portanto, o objetivo de tranquilizar as autoridades libanesas sobre esse assunto.

Também não se pode esquecer o acordo-quadro assinado na última sexta-feira entre libaneses e israelenses em Washington, um processo que não incluiu nenhum país árabe e refletiu a vontade do governo libanês de separar categoricamente a questão libanesa dos demais dossiês regionais. É mais do que provável que o novo governo sírio queira sondar o terreno para compreender melhor seus contornos.

Tanto na forma quanto no conteúdo, a visita do ministro sírio teve repercussões muito positivas nos meios políticos libaneses. Chibani transmitiu ao presidente Aoun um convite para realizar uma visita oficial à Síria. Multiplicaram-se as declarações sobre o respeito à segurança e à soberania dos dois países. O ministro sírio reiterou diversas vezes que a vontade de Damasco é fortalecer a cooperação entre os dois países. Nessa perspectiva, Chibani e o primeiro-ministro libanês Nawaf Salam assinaram um acordo para criar uma comissão conjunta com o objetivo de reforçar essa cooperação em todos os níveis, “no respeito aos interesses comuns”, como destacou Salam.

Reuniões com um amplo leque de lideranças

Relacionar todas as personalidades encontradas por um ministro sírio durante uma visita oficial seria, sem dúvida, uma tarefa longa. Ainda assim, é importante destacar que a diversidade de autoridades recebidas pelo chanceler sírio impressiona, sobretudo porque todas essas reuniões ocorreram em um único dia. Entre elas estiveram o presidente Aoun, o primeiro-ministro Salam, o presidente do Parlamento Nabih Berri, o patriarca maronita Bechara Rai, o mufti da República Abdellatif Deriane, o ex-presidente do Partido Socialista Progressista Walid Joumblatt, o líder das Forças Libanesas Samir Geagea, o chefe do partido Kataeb Samy Gemayel, o vice-primeiro-ministro Tarek Mitri e o ministro das Relações Exteriores Joe Raggi. O Hezbollah foi o único ator excluído da agenda.

O Hezbollah foi mencionado pelo ministro sírio apenas ao término de sua reunião com Berri, quando afirmou permanecer “aberto” a um encontro com o grupo “caso o interesse dos dois países assim o exija”.

Vale lembrar que o Hezbollah desempenhou um papel fundamental no apoio ao antigo regime de Damasco e esteve envolvido, desde 2011, em combates contra os grupos dos quais surgiu o novo poder na Síria. Desde a queda do regime Assad, em dezembro de 2024, confrontos ocorreram repetidamente na fronteira entre grupos próximos ao partido pró-iraniano e as novas forças sírias.

Enquanto Chibani prosseguia sua agenda em Beirute, a capital síria foi abalada nesta quinta-feira, por volta das 15h, por um atentado em um café no centro de Damasco, que deixou pelo menos sete mortos e 22 feridos, segundo o Ministério da Saúde da Síria. As autoridades informaram inicialmente que o artefato explosivo era de fabricação artesanal.

A AFP informou que este foi o atentado mais mortal desde o ataque contra uma igreja em junho de 2025, que deixou 25 mortos. Aquele atentado foi reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

Haverá ou não uma coalizão contra o acordo de Washington?

No Líbano, a assinatura do acordo-quadro entre libaneses e israelenses em Washington, na última sexta-feira, continua provocando repercussões. As informações que circulam sobre a possível formação de uma coalizão de quatro blocos parlamentares para derrubar o acordo, reunindo os blocos de Berri, Joumblatt, o Movimento Patriótico Livre de Gebran Bassil e o Hezbollah, começam a perder força.

No dia seguinte ao encontro entre Bassil e Berri, realizado na quarta-feira e que alimentou as especulações, foi Joumblatt quem surpreendeu na quinta-feira. Em declarações ao jornal francófono L’Orient-Le Jour, afirmou que “não fará parte de uma coalizão para derrubar o acordo-quadro”, embora tenha classificado o texto como “um passo em falso” do Estado e defendido sua revisão.

Joumblatt reiterou suas críticas durante a visita do ministro sírio à sua residência em Beirute, usando palavras um tanto enigmáticas ao afirmar que “prefere uma relação equilibrada com a Síria a um acordo que poderia ser pior do que o de 17 de maio”, em referência ao acordo firmado entre Líbano e Israel em 1983. Esse acordo acabou sendo revogado sob a influência do antigo regime sírio de Hafez al-Assad.

Diante dessa postura, no mínimo ambígua, de Joumblatt e da oposição aberta do Hezbollah, cujo deputado Hassan Fadlallah voltou a classificar o texto como uma “capitulação”, vários partidos soberanistas manifestaram na quinta-feira seu apoio ao processo de negociações diretas com Israel e aos esforços de Aoun e Salam. Em entrevista, o líder das Forças Libanesas afirmou que o acordo representa o único caminho possível para garantir a retirada israelense do sul do Líbano, bem como a desmilitarização do Hezbollah e o restabelecimento de uma verdadeira soberania libanesa.

Nesse contexto, Samy Gemayel e Michel Mouawad, presidente do Movimento da Independência, foram recebidos pelo presidente Aoun no Palácio de Baabda à frente de importantes delegações. Ambos renovaram seu apoio ao chefe de Estado.

Também merece destaque a posição expressa por Berri em entrevista a um jornal local na quinta-feira, na qual afirmou estar “pronto” para um compromisso em relação ao acordo-quadro, caso exista vontade política nesse sentido. Seria o início de uma mudança de rumo no cenário político?

Negociações após os funerais

No que diz respeito às negociações entre Irã e Estados Unidos, tudo indica que o processo ficará adiado até depois dos funerais do antigo líder supremo iraniano, Ali Khamenei, morto em um ataque israelense logo no início da guerra, em 28 de fevereiro. Os funerais, aguardados há muito tempo, já que inicialmente estavam previstos para março, deverão durar vários dias e certamente serão aproveitados pelo regime de Teerã para reforçar o sentimento de pertencimento de seus apoiadores à República Islâmica.

As tensões entre Washington e Teerã, no entanto, continuam evidentes. Enquanto o regime iraniano segue reivindicando o controle sobre o estreito de Ormuz, os Estados Unidos adotaram na quinta-feira uma posição firme ao afirmar que a situação no estreito deve voltar ao cenário anterior à guerra, ou seja, permanecer aberto a todos, conforme declarações divulgadas pelo canal Al Hadath.

Por fim, realizou-se na quinta-feira uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra no Oriente Médio, convocada a pedido do Bahrein. Paralelamente, o embaixador do Irã na ONU apresentou uma queixa contra recentes declarações do ministro da Defesa de Israel, nas quais classificou o líder supremo Mojtaba Khamenei como um “alvo a ser eliminado”.

Artigos relacionados
Ver tudo
Vídeos relacionados
Ver tudo
Podcasts relacionados
Ver tudo