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Stratégia

Geopolítica da guerra do Irã: nova grande estratégia americana
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 25, 2026 - 17:40

A Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy, NSS) dos Estados Unidos de 2025 está centrada no princípio “America First” e exige maior autonomia estratégica de seus aliados europeus, aos quais o presidente Donald Trump pressiona para que assumam a própria defesa em seu continente. Washington teria, assim, as mãos livres para se concentrar primeiro em sua situação interna e no continente americano, infiltrado pela China e pela Rússia, e depois na bacia do Pacífico. Para isso, precisa reduzir seu envolvimento no Oriente Médio e manter a região estável de forma duradoura. Nesse objetivo, impõe-se a neutralização definitiva da ameaça do Irã e do Hezbollah. Um Irã enfraquecido abriria caminho para uma expansão sem precedentes dos Acordos de Abraão, incluindo a Arábia Saudita e outros países árabes. Os Acordos de Abraão Iniciados durante o primeiro mandato do presidente Trump, os Acordos de Abraão marcam uma ruptura com a diplomacia tradicional “Land for Peace” (“terra por paz”, ou seja, “um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza em troca da paz”), substituindo-a por uma abordagem de “Peace through Prosperity”, ou “paz através da prosperidade”. Em outras palavras: prosperidade no lugar de um Estado para os palestinos. Os Acordos de Abraão incluem atualmente Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão, Marrocos e Cazaquistão. Eles buscam consolidar um bloco de segurança árabe-islâmico-israelense, ou uma “OTAN regional”, incluindo Israel e países árabes, capaz de autorregular o Oriente Médio e conter o Irã de maneira autônoma. Isso permitiria aos Estados Unidos reduzir seu contingente militar em terra, economizar bilhões, manter o papel de moderador na região, voltar-se para sua prioridade “America First” e pivotar para a Ásia para conter a China sem deixar um vazio de segurança que Teerã ou Rússia poderiam preencher. Ainda dentro dessa estratégia, a Turquia é um parceiro indispensável para Washington, como contrapeso vital frente ao Irã e à Rússia, apesar da dimensão ideológica de Ancara e das tensões persistentes sobre a questão curda. O bloqueio contra o Irã: uma estratégia de estrangulamento, mas com falhas O Irã vive uma situação crítica de sobrevivência econômica diante do bloqueio naval americano instaurado em 13 de abril de 2026. Ele não se limita ao Estreito de Ormuz, mas se estende ao Golfo de Omã, proibindo petroleiros e outros navios de atracar nos portos de Jask e Chabahar, localizados fora do Golfo Pérsico. Isso paralisa, em princípio, quase a totalidade das importações e exportações marítimas iranianas, sobretudo o petróleo. Diante desse bloqueio naval, Teerã pode tecnicamente resistir por alguns meses graças às receitas garantidas pela disparada do preço do barril de petróleo entre fevereiro e meados de abril de 2026, que compensaram parcialmente a queda dos volumes exportados. As perdas diárias iranianas chegam a cerca de 435 milhões de dólares. Teerã havia antecipado esse cenário ao desenvolver infraestrutura para contornar o Estreito de Ormuz, mas sua capacidade segue amplamente insuficiente. Há o Mar Cáspio, que oferece uma rota para a Rússia e o Cazaquistão, mas os abastecimentos por essa via permanecem marginais diante das necessidades nacionais. Há também trilhos e estradas ligando o Irã à Turquia, ao Iraque e ao Turcomenistão para importar bens de consumo e exportar produtos não petrolíferos. Essas rotas alternativas não conseguem, de forma alguma, compensar o Golfo Pérsico, por onde transitava 90% do petróleo iraniano antes da crise. Outra estratégia adotada por Teerã para romper o bloqueio e contornar as sanções internacionais é a “frota fantasma” (dark fleet), pilar da sobrevivência econômica do regime e do financiamento de seus aliados regionais, especialmente o Hezbollah. Trata-se de uma vasta rede clandestina de 320 petroleiros dos quais o Irã depende para exportar seu petróleo bruto. Para escapar da vigilância internacional e americana, os navios dessa dark fleet empregam táticas sofisticadas de camuflagem, desligando sistemas de sinalização para se tornarem “invisíveis” ou falsificando coordenadas geográficas de GPS. O petróleo é então transferido em alto-mar, por transbordo, para outros petroleiros, a fim de ocultar a origem iraniana da carga. Esse dispositivo é reforçado pelo uso recorrente de bandeiras de conveniência, como Panamá, Libéria e Ilhas Cook, além de empresas de fachada sediadas em Dubai ou Hong Kong, permitindo frequentes mudanças de identidade e propriedade. Apesar do rígido bloqueio naval americano, essa frota demonstra eficácia persistente. Segundo a Lloyds, entre 29 e 35 petroleiros da dark fleet já teriam conseguido contornar o dispositivo naval americano para entregar petróleo à China. Essa logística paralela permite a Teerã manter receitas emergenciais vitais, desafiando a asfixia econômica total buscada pela administração americana. Contudo, a US Navy já apreendeu seis navios dessa frota fantasma e repeliu outros 29 petroleiros regulares que tentaram contornar o bloqueio. De todo modo, sem o fim do bloqueio ou uma intervenção diplomática maciça, a asfixia econômica do Irã pode se tornar irreversível até o verão de 2026. O Irã está, portanto, estrangulado, mas não demonstra sinais aparentes de recuo. Ainda assim, os olhares de Washington e Teerã se voltam discretamente para a China. O papel da China: uma solução desponta no horizonte Hoje, a China se impõe como principal cliente e único escudo econômico do Irã. Ao mesmo tempo, Pequim precisa do mercado dos Estados Unidos, o maior do mundo, para equilibrar sua economia. Washington também precisa da China para abastecer o cidadão americano com bens de baixo custo e preços acessíveis. Isso dá à China capacidade para atuar como mediadora pragmática na crise atual. Os laços sino-iranianos são uma verdadeira boia de salvação para a República Islâmica, enquanto os vínculos sino-americanos caminham para um arrefecimento das tensões. Em 2025, a China absorveu cerca de 90% das exportações petrolíferas iranianas via frota fantasma, embora isso represente apenas uma fração das importações chinesas. Além disso, temendo perturbações em seus abastecimentos energéticos globais e em suas exportações, a China deu a entender que pretende concretizar os 400 bilhões de dólares em investimentos no Irã previstos inicialmente em 2021, em troca de flexibilidade por parte dos iranianos. O presidente Trump, aliás, atribuiu a Pequim o mérito de ter facilitado o cessar-fogo de abril de 2026. Além disso, a China evita qualquer apoio militar direto a Teerã e reduziu as tensões em torno de Taiwan. A administração dos EUA mantém o rumo da NSS Por sua vez, Washington usa a interdependência comercial com a China como arma de pressão silenciosa, mantendo sanções que impedem o acesso chinês a tecnologias e equipamentos americanos e limitam exportações chinesas vitais para os Estados Unidos. Já em 2025, essas exportações caíram 37 bilhões de dólares em relação a 2024. Em outubro passado, em Seul, Trump e Xi Jinping se reuniram e reduziram sanções de ambos os lados. Eles deveriam voltar a se encontrar em abril de 2026 para continuar a distensão em sua guerra comercial, mas a cúpula foi adiada por causa da guerra do Irã. A suspensão das sanções americanas impostas à China é uma necessidade estratégica para Xi Jinping, que se vê obrigado a desempenhar o papel de moderador e pressionar o Irã. Sob uma perspectiva geopolítica, ao estabilizar o Oriente Médio por meio da pressão sino-americana conjunta, a América assegura uma relação de equilíbrio com seu rival asiático, como estabelece a NSS de 2025.

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 25, 2026 - 01:49

Numa série de artigos que se seguirá, propomo-nos lançar luz sobre a situação atual à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que falham em abordar as realidades, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões necessárias. É tempo, neste contexto, de contrariar seriamente a retórica estéril da resistência, não com uma contrarretórica, mas com uma abordagem aprofundada, que defenda a cultura do Estado de direito, só possível por meio da soberania. Para compreender o presente, nada como reler a história contemporânea, sempre viva na memória. As guerras entre Israel e o Hezbollah devem ser revisitadas. A primeira ocorreu em 1993, com os acontecimentos-chave que a antecederam. A isso somam-se a retirada israelense do Líbano em 25 de maio de 2000, bem como os episódios que a precederam e sucederam, nomeadamente as guerras de 1996, 2006, 2023-2024 e 2026. São trinta e três anos de conflitos durante os quais, à primeira vista, tudo parece caótico. Na realidade, trata-se de um processo bastante claro, cujos fios são controlados pelos mulás de Teerã. Os acontecimentos continuam a desenrolar-se segundo um cenário onde se entrelaçam interesses locais, regionais e internacionais. Como ator internacional, os Estados Unidos, potência mundial sem rival desde 1990, são também, há muito tempo, uma potência regional, com influência em quase todos os países da região, exceto o Irã, além de manter bases militares em países árabes. Os interesses de Washington, Tel Aviv, Damasco, Riade e Teerã misturam-se, convergem, divergem ou se opõem de forma dinâmica, enquanto o interesse único do Líbano, não realizado há 50 anos, continua sendo o restabelecimento da sua soberania e, em seguida, a reconstrução de suas instituições estatais. Os atores não estatais, numerosos no Líbano, como o Hezbollah, o Hamas e outras organizações armadas ilegais, além de partidos libaneses aliados ao Hezbollah, apoiados ou geridos por potências regionais, desempenharam papéis centrais nas últimas décadas, dificultando o restabelecimento da soberania do país. As oportunidades surgidas ao longo desses anos foram frustradas por decisores locais, seja por incompetência, seja por interesses restritos ou pessoais, bem como por covardia, ganância e múltiplas lealdades. As três agendas do Hezbollah O Hezbollah continua a operar com três agendas paralelas. A primeira, regional, busca interferir em países árabes para desestabilizá-los em benefício do Irã, especialmente no Iraque, que faz fronteira ocidental com o Irã, com o objetivo de evitar o surgimento de uma liderança semelhante à de Saddam Hussein, considerado um pesadelo pelos mulás de Teerã. A segunda, centrada em Israel, baseia-se numa retórica de resistência que também serve à agenda interna, cujo objetivo é a hegemonia sobre o Líbano. Seus apoiadores, movidos por uma ideologia religiosa não sujeita a debate, acreditam estar investidos de uma missão divina e se inspiram no modelo iraniano, onde existe um Estado formal, mas as decisões estratégicas estão nas mãos do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, um verdadeiro Estado dentro do Estado, com ramificações sociais, econômicas, de segurança e militares. O modelo libanês ao qual o partido pró-iraniano aspira seria um Estado de fachada, encarregado dos assuntos correntes e protocolares, enquanto o Hezbollah atuaria dentro e fora dele, com sua milícia e suas próprias estruturas políticas, culturais e sociais. Dessa forma, seria ele a tomar as decisões estratégicas, projetando-as sobre o Parlamento e o governo. Para seus apoiadores, o movimento representa a soberania, a garantia social e de segurança e, sobretudo, suas ambições ideológicas. Esse problema está no centro da atualidade, mas o percurso do chamado partido divino ao longo das últimas quatro décadas, que levou à situação atual, merece ser revisitado, especialmente pelas gerações libanesas nascidas sob sua hegemonia. Para elas, trata-se de uma realidade cotidiana e, para alguns, é possível coexistir com as armas do Hezbollah em nome de uma resistência que já dura 44 anos. Nesse sentido, alguns números e fatos são reveladores: a guerra que terminou com o Tratado de Vestfália durou 30 anos (1618-1648); a Primeira Guerra Mundial, quatro anos; a Segunda Guerra Mundial, seis anos; a guerra da Indochina (França-Viet Minh), nove anos; a guerra do Vietnã (Estados Unidos-Vietnã do Norte), dez anos; o conflito árabe-israelense, excetuando a Palestina, 25 anos. Fica claro que, há 44 anos, o Hezbollah retira sua legitimidade de um estado contínuo de beligerância. Não há, portanto, interesse em pôr fim às suas guerras com Israel. Torna-se igualmente evidente que apenas os libaneses podem resolver seus próprios problemas, encerrando o estado de guerra com o Estado hebreu, sem que isso implique necessariamente um tratado de paz. Seis países árabes já avançaram nesse sentido antes de Beirute. O Líbano poderia alcançar o mesmo com o apoio desses Estados e de países aliados. O acordo de Taëf Retomando a leitura do passado recente, o ponto de partida é o acordo de Taëf, assinado em 22 de outubro de 1989, na Arábia Saudita, com o aval dos Estados Unidos. Seu objetivo era pôr fim às guerras que devastaram o Líbano durante 15 anos. As duas últimas, que precipitaram sua assinatura e implementação pela força, foram particularmente destrutivas: a chamada Guerra de Libertação, entre libaneses e sírios, e a Guerra de Eliminação, entre facções libanesas. Esses conflitos ameaçavam dividir o mundo árabe e dificultar um processo de estabilização regional complexo, desejado por Washington e Riade no contexto do fim da primeira Guerra do Golfo entre Iraque e Irã. A implementação do acordo, inicialmente dificultada por vários meses, tornou-se prioritária após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 2 de agosto de 1990. Para os atores internacionais e regionais, era imperativo pôr fim às guerras que persistiam no Líbano após a assinatura do acordo. Como resultado, a comunidade internacional e árabe deu sinal verde à Síria baathista para impor estabilidade no país por meio da força militar, em troca de sua participação na coalizão árabe-internacional contra o Iraque, com o objetivo de libertar o Kuwait. As tropas de Damasco invadiram, em 13 de outubro de 1990, o palácio de Baabda e o Ministério da Defesa Nacional, então sob controle do governo militar libanês liderado pelo general Michel Aoun. Alguns meses depois, no início de 1991, as forças iraquianas foram expulsas do Kuwait, e parte do território iraquiano foi ocupada pela coalizão internacional. Como consequência, o regime de Saddam Hussein foi enfraquecido, abrindo espaço para a ascensão do Irã e de seu aliado Hezbollah. Esse foi o ponto de partida das guerras entre Hezbollah e Israel, antes e depois da retirada israelense do sul do Líbano, em 24 de maio de 2000. Esse período também foi marcado por uma profunda reconfiguração da ordem mundial, com a queda do Muro de Berlim, o enfraquecimento da União Soviética e de seus aliados regionais, incluindo Iraque e Síria, e sua posterior aproximação com os Estados Unidos, o que lhes concedeu maior margem de manobra no Líbano. Ao mesmo tempo, os países do Golfo, aliados de Washington, já então sem rival no cenário internacional, alinharam-se com a Síria de Assad e adotaram uma postura mais tolerante em relação ao Irã frente ao Iraque de Saddam. Essa realidade, profundamente distinta da anterior, foi mal interpretada pelo governo militar do general Aoun, o que conduziu ao desfecho catastrófico de 13 de outubro de 1990. (continua)

Hezb-Israel, uma guerra ao serviço de quem? (3)
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 24, 2026 - 12:51

Em uma série de artigos, pretendemos lançar luz sobre a situação atual à luz do passado, indo além da retórica apaixonada, ideológica ou romantizada que erra o alvo e deixa o leitor tirar suas próprias conclusões. Nesse contexto, é crucial combater seriamente a retórica estéril da resistência, não com contra-retórica, mas com uma abordagem aprofundada que defenda o Estado de Direito, o qual só pode ser construído sobre a soberania. Os dois primeiros artigos apresentaram uma reinterpretação dos eventos que cercaram a ascensão do Hezbollah ao poder, desde o Acordo de Taif, passando pela Operação "Acerto de Contas" e o "Acordo de Julho" (1993), até a véspera de sua segunda guerra com Israel. Etapa 3: A Guerra de Guerrilha do Hezbollah contra Oslo e Madri Durante os três anos que se seguiram à Operação "Acerto de Contas" (julho de 1993), a implementação dos Acordos de Oslo entre a OLP e Israel progrediu lentamente, catalisada por Washington, que manteve sua estratégia a todo custo de conter o conflito entre Israel e o Hezbollah para evitar que ele comprometesse o processo de paz israelo-palestino, enquanto simultaneamente buscava avançar nos esforços de reaproximação entre Tel Aviv e Damasco. Além disso, Washington e Tel Aviv discutiram abertamente a possibilidade iminente de negociações israelo-libanesas, à luz de notícias vindas do Líbano indicando que o exército baathista sírio havia lançado uma campanha de repressão contra o Hezbollah. Mais tarde, descobriu-se que essa notícia era desinformação orquestrada pelos iranianos, com a cumplicidade de Hafez al-Assad. Para dar credibilidade às suas artimanhas, Teerã vazou informações sugerindo que o Irã agora entregaria ajuda militar ao Hezbollah por canais que não a Síria, insinuando que a Síria estava disposta a reduzir as tensões no sul do Líbano. Para convencer ainda mais os observadores das boas intenções da Síria, os iranianos de fato enviaram um carregamento de armas, que foi interceptado na Turquia, para grande consternação de Ancara. Na realidade, os sírios estavam jogando com duas cartas contraditórias: por um lado, a carta da paz, que lhes permitia manipular Washington, e por outro, a carta do fracasso das negociações de paz. Os americanos, acreditando que os sírios haviam escolhido a paz, estavam convencidos de que sua pressão sobre Tel Aviv e Damasco havia dado frutos… quando, na verdade, não era o caso. Hafez al-Assad estava, na realidade, preparando-se para o fracasso dos processos de Oslo e Madri, aproximando-se cada vez mais do Irã e encontrando-se secretamente com Saddam Hussein, que estava sob sanções americanas. Aproveitando-se da estratégia americana de apaziguamento e convencidos dos limites da pressão de Washington, Assad e Teerã avançaram seus interesses no Líbano, especialmente apoiando, armando e fortalecendo o Hezbollah. Entre 1993 e 1996, o Hezbollah travou uma guerra de desgaste contra o Exército do Sul do Líbano (ESL) e o exército israelense, utilizando foguetes, mísseis e bombas explosivas à beira da estrada. O ESL e as Forças de Defesa de Israel (FDI), por sua vez, retaliaram com artilharia e poder aéreo. Os beligerantes tentaram poupar civis, em conformidade com o "Acordo de Julho de 1993", mas sem sucesso. Em cada confronto, os Estados Unidos intervieram rapidamente e atuaram como mediadores, impedindo que Israel intensificasse suas represálias além de um ponto crítico. No início de 1996, o número de mortos israelenses estava aumentando. Desde o fim da Operação "Acerto de Contas", e devido às táticas avançadas do Hezbollah, 210 soldados israelenses e 110 soldados do ESL haviam sido mortos. Além disso, entre 60 e 80 civis libaneses morreram dentro e fora da "zona de segurança", vítimas de ataques aleatórios ou explosões. Por sua vez, o Hezbollah perdeu 200 combatentes, incluindo operativos assassinados, outros capturados e outros que escaparam de tentativas de captura. Etapa 4: A Operação "Uvas da Ira" de Israel contra o Hezbollah A segunda guerra entre o Hezbollah e Israel, denominada Operação "Uvas da Ira" (11 a 27 de abril de 1996), pôs fim ao "Acordo de Julho" e representou uma grande escalada com o objetivo de mudar as regras do jogo entre os dois lados. O objetivo de Israel era pressionar o Líbano e a Síria a conter as operações do Hezbollah. Durante essa operação, a Força Aérea Israelense realizou 1.800 missões, atacou 500 alvos, incluindo infraestrutura civil e militar, e deslocou 400.000 civis — um número que corresponde exatamente à situação atual, além da destruição de aldeias no sul. O ponto culminante dessa guerra foi o bombardeio de artilharia israelense a um centro da UNIFIL na cidade de Qana, onde centenas de civis buscavam refúgio, resultando na morte de 106 pessoas.Israel alegou que foi um erro, enquanto o Hezbollah classificou o incidente como deliberado. Mesmo assim, o massacre de Qana gerou enorme pressão internacional, levando a um cessar-fogo. A Operação Uvas da Ira não conseguiu impedir o lançamento de foguetes Katyusha contra Israel e terminou após dezesseis dias de combates com um acordo escrito não assinado, apelidado de "Acordo de Abril", intermediado pela França e pelos Estados Unidos. Este acordo estipulava uma regra de engajamento frágil e mal definida: "O Hezbollah não disparará de áreas povoadas e Israel não bombardeará áreas povoadas". Além disso, um comitê composto por Estados Unidos, França, Síria, Líbano e Israel foi estabelecido para monitorar violações e investigar denúncias. Ele apresenta uma semelhança impressionante com o "Mecanismo" estabelecido pelo cessar-fogo de novembro de 2024, que se seguiu à Guerra de Gaza e era composto pelos mesmos membros, com exceção da Síria, e a adição da UNIFIL. Separados por 33 anos, esses dois comitês se mostraram ineficazes para interromper as hostilidades. O "Acordo de Abril de 1996" reafirmou o direito do Hezbollah de agir contra alvos militares dentro da "zona de segurança" ao sul do Rio Litani, ocupada por Israel e controlada pelo Exército do Líbano (SLA), poupando civis e áreas residenciais em ambos os lados do rio, bem como em Israel. Este acordo foi considerado um ponto de virada crucial, pois legitimou implicitamente as operações do Hezbollah contra as Forças de Defesa de Israel (IDF) e o SLA em território libanês e, indiretamente, ampliou a crescente influência do Irã no Líbano. De fato, Teerã foi a grande vencedora deste acordo e provou a seus aliados sírios e palestinos, bem como a seus inimigos americanos e israelenses, que podia iniciar guerras por meio de seus representantes e, consequentemente, sabotar os processos de paz de Oslo e Madri. Curiosamente, a cessação das hostilidades e a continuação das atividades do Hezbollah alinharam-se perfeitamente aos objetivos americanos de pressionar Israel a fazer concessões à Síria e encorajar a Síria a chegar a um acordo de paz com Israel (continua). Veja também sobre o mesmo tópico: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (2) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

Evitar que o discurso de 17 de abril permaneça letra morta
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 18, 2026 - 20:58

No Líbano, o cessar-fogo proclamado por Donald Trump, que entrou em vigor na noite de quinta para sexta-feira, e a mensagem à nação do presidente Joseph Aoun, na sexta-feira, aplaudida por líderes soberanistas e por numerosos editorialistas, reacenderam a esperança do público. O Hezbollah não demorou a criticar com virulência o discurso presidencial, chegando até a ameaças, embora seu nome não tenha sido mencionado explicitamente uma única vez. Esse discurso, louvável em si mesmo, recorda, no entanto, o da posse de 9 de janeiro de 2025, que até hoje não foi colocado em prática. Donald Trump vai convidar o presidente Joseph Aoun e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu à Casa Branca para negociações diretas. As conversações entre beligerantes sempre começam com posições contraditórias, geralmente seguidas por um compromisso. Este costuma favorecer o mais forte, mas oferece garantias ao mais fraco, quando existe uma verdadeira vontade de solução. Antes de se aventurar em previsões sobre os resultados das negociações libano-israelenses previstas, convém recordar os precedentes processos de paz regionais. O Egito está em paz com Israel há 48 anos e com a Jordânia há 32 anos. No momento da assinatura dos tratados de paz, os dois Estados foram acusados de todos os males pelos países que se reivindicavam da “frente da rejeição”. Os acordos palestino-israelenses de Oslo Accords estão paralisados há 33 anos, por falta de vontade israelense e divisões palestinas. Os Acordos Abraâmicos de normalização, assinados pelos United Arab Emirates, Bahrain, Sudan e Morocco com Israel, funcionam muito bem apesar da guerra de Gaza desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Depois dessa guerra, porém, a Saudi Arabia congelou a abertura de negociações de normalização com Israel. A Síria de Bashar al-Assad havia calculado que era de seu interesse não assinar acordos de paz com Israel, manter uma postura extremista e se aliar ao Irã. Bashar al-Assad tinha duas prioridades: por um lado, preservar seu regime e assegurar a sucessão em favor de seu filho; por outro, manter seu domínio sobre o Líbano. Ele avaliava que a única forma de garantir esses objetivos era não se comprometer com uma paz que poderia ameaçar seu regime, o qual, privado do estado de beligerância com Israel, já não poderia justificar nem sua influência sobre o Líbano nem suas repressões internas. A vontade de alcançar um acordo de paz de ambas as partes é, portanto, a chave do sucesso das futuras negociações libano-israelenses. Essa paz privaria o Hezbollah de sua retórica de “resistência” e da legitimação de sua estrutura miliciana. A formação pró-iraniana teria de mudar de discurso e talvez abandonar sua razão de existir. Consequentemente, não se deve esperar que faça concessões. Aliás, ela deixa claro que não quer nem negociações nem paz. O que fará então o Estado libanês nas conversações de Washington? É absolutamente claro que existe um ponto em comum entre o Líbano e Israel: o desmantelamento da milícia do Hezbollah. Em termos geopolíticos, isso significa o fim da hegemonia iraniana exercida há 44 anos sobre o Mediterrâneo oriental. Mas isso não será fácil. Nesse caso, como o poder libanês resolverá esse problema? O xeque Naim Qassem já deixou clara sua posição, afirmando sem rodeios que continuará a resistência até o último suspiro e seguirá recusando entregar suas armas antes da retirada israelense e da implementação de uma estratégia de segurança nacional (para conservar suas armas sob outro rótulo). O presidente e seus conselheiros e/ou o Conselho de Ministros colocaram a questão do Hezbollah na mesa de discussões com uma abordagem multidirecional? Elaboraram uma estratégia militar, de segurança, diplomática, econômica, social... uma estratégia coesa, como exige toda ação dessa magnitude? Há um trabalho coletivo nesse sentido? Ou vão se esconder atrás do nosso Exército, como fazem desde agosto de 2025? É preciso saber que a guerra desencadeada pelo Hezbollah para apoiar o Irã, e que acaba de ser interrompida pelo atual cessar-fogo, é a quinta entre esse grupo e Israel desde 1993. O Hezbollah tem, portanto, uma experiência de 33 anos sobre como tirar proveito das tréguas para se reorganizar, se rearmar e voltar atrás em seus compromissos de entregar as armas, como fez com a Resolução 1701 do Conselho de Segurança de 2006 e com o cessar-fogo de 27 de novembro de 2024. Se as negociações de paz libano-israelenses tropeçarem, será preciso se preparar, infelizmente, para uma sexta guerra desse tipo, igualmente devastadora, ou ainda pior. O mandato do presidente Elias Hrawi mostrou-se incapaz de enfrentar o Hezbollah. Os de Emile Lahoud e Michel Aoun concederam todos os favores a esse grupo. Somente o presidente Michel Sleiman propôs um roteiro para restabelecer a soberania do Estado, tendo como ponto de partida a Declaração de Baabda, em junho de 2012, rapidamente sabotada e paralisada pelo Hezbollah, pelo Free Patriotic Movement (Michel Aoun) e pelo Lebanese Democratic Party (Talal Arslan). O presidente Michel Sleiman foi acusado de todos os males por seus detratores, em meio a uma campanha midiática e nas redes sociais. O Hezbollah sempre considerou o Estado como uma carapaça que lhe servia de cobertura legal com retoques cosméticos, permanecendo, no entanto, à sua mercê. Os negociadores libaneses nas conversações de paz deveriam propor soluções críveis para esse problema de 44 anos, que vários homens do poder atual ajudaram a manter. Sem isso, as soluções virão do exterior, como acontece há 50 anos. Um mínimo de seriedade e credibilidade deveria emergir. Caso contrário, o discurso presidencial de 17 de abril, promissor e fonte de esperança, corre o risco de não ser seguido por ações e terminar como o discurso de posse.

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim ao serviço de quem? (2)
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 17, 2026 - 13:40

Esta série de artigos permitirá uma melhor compreensão da situação atual à luz do passado, indo além da retórica apaixonada, ideológica ou romantizada que falha o alvo, deixando ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões. Além disso, é mais do que tempo de combater seriamente a retórica estéril da resistência, não com contra-retórica, mas com um trabalho sério de promoção do Estado de Direito, que só pode ser estabelecido através da soberania. A primeira parte descreveu a situação internacional e regional que conduziu ao Acordo de Taif e ao início da ascensão do Hezbollah ao poder. Esta segunda parte ilustra como a milícia do Hezbollah continuou a existir e a fortalecer-se sob o duplo patrocínio da Síria e do Irão. O objectivo de Damasco é reforçar a sua posição à mesa das negociações de paz com Israel, enquanto o de Teerão é minar qualquer tentativa de paz entre Israel, por um lado, e a Síria e o Líbano, por outro. Parte 2: A Implementação do Acordo de Taif O Acordo de Taif, assinado em 22 de Outubro de 1989, foi redigido pelos próprios libaneses, particularmente as suas cláusulas referentes às reformas constitucionais internas. Foi o resultado de várias rondas de diálogo entre os partidos libaneses, conduzidas por etapas desde 1976. Este acordo alterou ou reajustou o equilíbrio de poder entre as comunidades do país e concedeu mais prerrogativas ao Conselho de Ministros em detrimento do Presidente da República. Além disso, foi o único documento com o objetivo de pôr fim às guerras que assolavam o país. De facto, estipulava claramente o desmantelamento das milícias armadas. No entanto, os especialistas em direito constitucional destacaram, e continuam a destacar, inúmeras lacunas constitucionais que ele criou. Estas não foram as únicas, pois incluía uma outra, muito mais importante, hoje obsoleta: o reconhecimento implícito da ocupação do Líbano pelo Partido Baath sírio, com a aprovação dos países árabes, da comunidade internacional e, particularmente, dos Estados Unidos. Washington estava preocupada com a estabilidade no Líbano e, no seu entender, esta só poderia ser garantida pelo regime de Damasco, mesmo que isso significasse suprimir liberdades. Era, a seu ver, necessário preparar o caminho para um acordo de paz entre Israel e a Síria e, em seguida, incluir o Líbano, que estava sob ocupação síria. Quando as tropas do presidente iraquiano Saddam Hussein invadiram o Kuwait em Agosto de 1990, poucos meses após a assinatura do Acordo de Taif, ao qual o governo do general Michel Aoun se opôs, a estabilidade no Líbano tornou-se uma prioridade máxima não só para os patrocinadores árabes do acordo, mas ainda mais para os americanos, que já não queriam distrair-se com o Líbano e desejavam concentrar-se na crise do Kuwait. A 13 de Outubro de 1990, Damasco obteve a aprovação árabe e internacional para invadir a parte do Líbano que não controlava, em troca de se juntar à coligação anti-Saddam encarregada de libertar o Kuwait. Aproveitando o seu controlo quase total sobre o Líbano, Hafez al-Assad implementou o Acordo de Taif apenas selectivamente, de acordo com as suas necessidades para consolidar a ocupação do país. Assim, o regime sírio nomeou Elias Hraoui e, posteriormente, Emile Lahoud como presidentes do Estado, cada um para um mandato de nove anos, contrariando as disposições da Constituição. Durante os respetivos mandatos, o Hezbollah gozou de uma liberdade sem precedentes. Intensificou a sua acumulação de armas provenientes do Irão, via Síria. Os primeiros-ministros e os ministros subsequentes sob Hraoui e Lahoud não tinham poder sobre quaisquer assuntos militares e de segurança. Estes eram da exclusiva responsabilidade dos sírios, cuja estratégia consistia em exercer extrema pressão sobre Israel a partir do Líbano, através do Hezbollah, que operava livremente no sul do país e no Vale do Bekaa. Etapa 1: Desmantelamento das Milícias, exceto o Hezbollah Durante o ano de 1991, após a invasão, os sírios encarregaram-se de desmantelar as milícias que estavam fora do seu controlo. O Hezbollah não só recebeu imunidade do Acordo de Taif, como foi encorajado e apoiado por Damasco a travar uma guerra de guerrilha contra as forças israelitas que ocupavam parte do sul do Líbano. O objetivo era pressionar Telavive para melhorar a posição de Hafez al-Assad nas negociações de paz com Israel, iniciadas após a Conferência de Madrid, realizada nesse mesmo ano. Teerão, por sua vez, patrocinou o Hezbollah para que este se estabelecesse no cenário libanês, se infiltrasse no Estado libanês, o enfraquecesse e exportasse a revolução de Khomeini, em conformidade com a Constituição iraniana. De referir que este duplo patrocínio controlo exercido pelo Hezbollah prolongou-se até à retirada das tropas sírias do Líbano, a 26 de Abril de 2005. Desde então, a tutela do Hezbollah passou a ser predominantemente iraniana. Ela fortaleceu-se e continua até hoje. Etapa 2: A Guerra dos Sete Dias entre o Hezbollah e Israel A guerra de guerrilha travada pelo Hezbollah contra as forças de ocupação israelitas e o seu aliado, o Exército do Sul do Líbano (ESL), intensificou-se em 1992 e 1993, sob o lema "a resistência". A 25 de julho de 1993, Israel respondeu lançando a sua primeira grande guerra contra o Hezbollah, denominada "Operação Acerto de Contas", também conhecida como "Guerra dos Sete Dias". Esta guerra terminou a 31 de julho de 1993, sob pressão dos Estados Unidos, particularmente do Secretário de Estado Warren Christopher. Os objectivos israelitas eram destruir as infra-estruturas do Hezbollah, cortar os seus abastecimentos, erradicá-lo da região sul do Líbano e pressionar o governo libanês deslocando civis para Beirute. Esta guerra de sete dias terminou com um acordo tácito entre os dois lados, conhecido como "Acordo de Julho", que estipulava que os civis de ambos os lados não seriam alvejados, enquanto as operações militares contra alvos militares de ambos os lados continuariam. Desde o início das hostilidades, Washington interveio rapidamente para intermediar este acordo, procurando manter a Síria no processo de paz de Madrid. O uso excessivo da força por parte de Israel foi percebido pelo governo do presidente George H.W. Bush como um factor que poderia forçar a Síria a retirar-se das negociações. A "Operação Acerto de Contas" resultou em 120 mortes de civis libaneses e 500 feridos, 300.000 deslocados internos e milhares de edifícios destruídos e danificados. As perdas do Hezbollah totalizaram um número indeterminado de mortos, e dezenas de posições de combate foram destruídas. Israel, por sua vez, perdeu dois soldados e um civil. (continua) Veja também sobre o mesmo tópico: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

Previsões e incertezas: até onde levará a guerra do Irã?
Por
Khalil Helou
Publicado
abr 2, 2026 - 18:29

Nesta quinta semana da guerra do Irã, as declarações do presidente Trump geram ambiguidades. As dos dirigentes iranianos também. Apenas a posição israelense é clara: prioridade aos imperativos militares e de segurança. As informações provenientes do teatro de operações, assim como as análises sociopolíticas nos três Estados beligerantes, vêm principalmente da imprensa. As fontes citadas são frequentemente enviesadas e destacam apenas parte dos fatos que servem às teses de seus autores. É preciso reconhecer que a maioria da imprensa escrita e dos meios audiovisuais ocidentais insiste mais nos custos da guerra do que em seu balanço estratégico, que não pode ser nem puramente político nem puramente militar, mas deve constituir uma síntese estratégica única. Os militares executam sua própria estratégia para servir aos objetivos nacionais. Os tomadores de decisão fazem o mesmo no plano político. Fazer um balanço desta campanha deve levar tudo isso em consideração. Alguns analistas negligenciam que o curso da guerra depende diretamente dos recursos militares e econômicos de cada beligerante. Esses constituem o principal determinante do sucesso ou do fracasso. A ideologia, a vontade de lutar, a motivação e a coesão interna de cada campo vêm em seguida. O cidadão americano considera que o conflito militar em curso pesa no seu bolso. Algumas empresas americanas se queixam de perdas. Outras, ao contrário, têm ou terão lucros. É certo que, após a guerra, a economia dos Estados Unidos, cada vez mais concentrada no continente americano e em uma retomada das trocas com a China, se recuperará com facilidade, como aposta Trump. Convém assinalar, nesse contexto, que o encontro entre Trump e Xi Jinping, adiado por alguns meses, seria seguido da assinatura de contratos gigantescos. Pequim poderia, em particular, comprar de Washington 600 aviões Boeing por um valor de 140 bilhões de dólares, soja por 20 bilhões, além de petróleo e gás americanos, bem como a suspensão das restrições à compra, por Pequim, de chips eletrônicos da empresa americana Nvidia. Em contrapartida, os Estados Unidos poderiam importar da China “terras raras”, essenciais para a fabricação de hardware informático e para a IA, sobre as quais Xi Jinping impôs restrições severas, sem esquecer os produtos chineses de baixo custo destinados aos consumidores americanos. No plano militar, Washington evita e continuará evitando cuidadosamente qualquer atoleiro ou guerra de desgaste, evocada especialmente pelos opositores de Trump, à semelhança das guerras do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão, nas quais os Estados Unidos tentaram, sem sucesso, mudar regimes. As perdas americanas, humanas e em equipamentos militares são até agora relativamente mínimas, e os recursos militares e econômicos estão longe de se esgotar. O Pentágono havia, além disso, fixado um prazo de quatro a seis semanas para atingir seus objetivos, e esse prazo ainda se mantém dentro dos limites inicialmente anunciados. O Irã, por sua vez, encontra-se em uma situação socioeconômica desastrosa. Essa situação piorou em 2025, quando Washington intensificou as sanções impostas à República Islâmica, o que teve o efeito de estrangular ainda mais a economia iraniana e reduzir consideravelmente o fluxo de dólares provenientes dos bancos iraquianos. Essa situação corre o risco de se agravar ainda mais após o conflito. Além disso, a hegemonia evidente do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (CGRI) sobre os mulás e os principais homens do regime acentua o descontentamento do Artesh (o exército regular iraniano), até agora poupado pelos bombardeios israelo-americanos, dos reformistas como o presidente Masoud Pezeshkian e das minorias curdas, balúchis, árabes e azeris, que aguardam apenas a oportunidade de agir militarmente. Essas dissensões tenderiam a provocar uma radicalização do CGRI no interior do país. O Irã precisaria de pelo menos duas décadas para se recuperar. Em suma, o fracasso da estratégia do CGRI no plano regional durante as duas últimas décadas é evidente. Ela custou centenas de bilhões de dólares sem resultados. O Irã está em ruínas. Antes do início do conflito, a República Islâmica possuía o maior e mais diversificado arsenal de mísseis e drones do Oriente Médio, caracterizado por uma evolução em direção a mísseis balísticos de combustível sólido, rapidamente mobilizáveis e de alta precisão, além de estoques massivos de munições de espera de longo alcance. Segundo estimativas, o Irã dispunha de um estoque de cerca de 2.000 a 3.000 mísseis balísticos de longo alcance (2.000 km) e curto alcance (300 km), incluindo mísseis hipersônicos Fattah, capazes de atingir velocidades superiores a Mach 10, e Khorramshahr, de longo alcance e com carga útil superior a uma tonelada, capazes de transportar ogivas múltiplas e que demonstraram sua eficácia. O país também dispunha de cerca de 480 lançadores móveis de mísseis. O Irã também produziu em massa dezenas de milhares de drones suicidas, especialmente os conhecidos Shahed-136, com alcance operacional de 1.500 a 2.500 quilômetros. Esse arsenal foi dotado de capacidades chinesas de precisão, permitindo atingir radares americanos, o que possibilitou destruir cerca de sete radares sofisticados e abrir uma brecha nas defesas antimísseis. Por fim, o Irã investiu massivamente em instalações subterrâneas de produção e armazenamento para proteger seu arsenal, tornando sua destruição total por via aérea mais difícil. A estratégia do CGRI visava uma capacidade de saturação de alvos para sobrecarregar os sistemas de defesa, o que teve êxito apenas parcial, já que a taxa de acerto demonstrou um sucesso de 5 a 10 por cento. Essas capacidades foram reduzidas em dois terços após um mês de conflito, segundo americanos e israelenses, e continuam diminuindo. O Pentágono prepara, nos próximos dias, uma campanha terrestre prolongada, com o envio de milhares de soldados americanos adicionais, segundo reportaram o Washington Post e a CBS. Unidades de elite americanas se preparam, entre elas os Navy SEALs, os Rangers, os Marines e a 83ª divisão aerotransportada, oferecendo a Washington opções flexíveis para eventuais operações dentro do Irã, com o objetivo de destruir o que resta dos mísseis e drones iranianos, assim como o programa nuclear. O Tehran Times advertiu que o plano americano começaria com assassinatos seletivos de altos responsáveis, como no início do conflito militar, seguidos de ataques contra infraestruturas estratégicas. A fase terrestre implicaria, posteriormente, milhares de combatentes locais, iranianos e não iranianos, vindos do noroeste, provavelmente curdos, apoiados por 5.000 soldados americanos distribuídos entre o Bahrein e os eixos marítimos, além do envio de um terceiro porta-aviões. Ainda segundo a mesma fonte, os marines e os paraquedistas tomariam aeroportos na cidade portuária de Bandar Abbas e em outras cidades para facilitar pontes aéreas, enquanto equipes aerotransportadas atacariam locais ligados aos mísseis e ao programa nuclear. Essas afirmações do Tehran Times indicam que o Irã se prepara para se opor a esse plano. Enquanto isso, os ataques americanos e israelenses continuam graças ao domínio do espaço aéreo e seguem degradando o arsenal iraniano. Diante de tudo isso, o diagnóstico é o seguinte: os iranianos, apesar dos reveses militares e das perdas consideráveis, não demonstram flexibilidade nem disposição para concessões estratégicas. A vitória americana seria, portanto, limitada ao plano militar, ao mesmo tempo em que neutralizaria, no longo prazo, a capacidade de ação do Irã. Em contrapartida, e apesar das afirmações de Trump, o CGRI continua resistindo, o que torna pouco provável um avanço nas negociações. As conclusões, portanto, permanecem prematuras, à espera da implementação ou não da opção terrestre americana.

Guerra no Irã: estado da situação
Por
Khalil Helou
Publicado
mar 29, 2026 - 17:06

Em que direção se orienta a guerra entre os Estados Unidos e Israel, por um lado, e a República Islâmica do Irã, por outro? Esta é uma questão que se coloca diariamente desde o início das operações militares e à qual muitos analistas e políticos, agindo como profetas, já responderam precipitadamente com certeza. No entanto, seria necessário dispor de um conjunto de dados concretos, difíceis de obter, para alcançar respostas precisas. Nesse contexto, é importante observar que frequentemente se confundem desejos com a realidade e que os analistas, por vezes, descrevem o próprio pensamento em vez de analisar fatos tangíveis. Os serviços de inteligência militar, sejam americanos, israelenses ou iranianos, bem como russos e chineses, são os únicos capazes de definir a situação de cada parte no terreno, embora no passado tenham, por vezes, cometido graves erros de avaliação. O conjunto de dados necessário para avaliar o estado de cada beligerante com a maior precisão possível é imenso, incluindo: suas perdas exatas; seus estoques de munição para cada tipo de equipamento; seu plano de batalha e sua flexibilidade; o curso de sua ação militar; o desempenho de cada uma de suas unidades em campo; a disponibilidade de suas forças de reserva; o estado de espírito dos tomadores de decisão nos níveis militar e político; sua situação econômica e financeira setor por setor; sua dependência de linhas de abastecimento ou, ao contrário, sua autonomia em termos de recursos (humanos, agrícolas, energéticos, industriais, financeiros e militares); sua resiliência; sua situação sociopolítica e suas pressões internas; sua disposição para continuar o combate; seu nível de desgaste e sua capacidade de conduzir manobras militares e políticas. Dados dinâmicos A coleta de todas essas informações permanecerá sempre incompleta e exigirá o uso hábil da inteligência artificial para produzir conclusões confiáveis. Ainda assim, a prudência se impõe na formulação de julgamentos e recomendações dirigidas aos tomadores de decisão, sejam eles Donald Trump, Benjamin Netanyahu ou Mohammad Bagher Ghalibaf. Cada um deles está cercado por especialistas, mas também exerce sua liderança dentro de limites que nem sempre podem ser previstos. É preciso também notar que esses dados são dinâmicos e estão sujeitos a mudanças de hora em hora. Portanto, é difícil traçar um quadro completo da situação e fazer previsões precisas. As lacunas podem ser preenchidas pela imaginação do analista, que, por sua vez, depende de sua experiência, nível de especialização, inclinação ideológica e filiação política. O analista corre, assim, o risco de apresentar falhas em suas estimativas. Apenas aqueles com experiência e repertório suficientes podem emitir uma avaliação credível, geralmente marcada pela prudência e modéstia, sem superestimar nem subestimar as capacidades de qualquer um dos beligerantes. Além disso, recorrer às lições da história pode ser útil. A batalha de Dien Bien Phu é um exemplo, embora tenha ocorrido em um contexto totalmente diferente. Os comunistas vietnamitas derrubaram a base militar francesa de Dien Bien Phu, em uma derrota humilhante para a França. Sabe-se que Dien Bien Phu teria sido salva e as forças de Ho Chi Minh derrotadas, caso os Estados Unidos tivessem intervindo com sua aviação por um ou dois dias. No entanto, Dwight D. Eisenhower avaliou que tal ação poderia levar a China a intervir, como ocorreu na Guerra da Coreia quatro anos antes. Além disso, ele sabia que os comunistas controlavam ideologicamente grande parte da população vietnamita e também as zonas rurais, o que prolongaria o conflito apesar da intervenção. Questões fundamentais Com base nesse exemplo, é possível destacar os seguintes pontos no caso atual: a superioridade militar americano-israelense é incontestável; nem russos nem chineses devem intervir ao lado do Irã; os Estados Unidos estão formando uma coalizão internacional para garantir a segurança do estreito de Ormuz, a fim de reduzir a pressão sobre a economia global, apesar do descontentamento europeu; além disso, o regime de Teerã não controla todas as suas populações, muito menos as zonas rurais do norte e do sul do país. Por outro lado, a impopularidade da guerra nos Estados Unidos pode comprometer a segunda parte do mandato de Trump. O regime iraniano mostra-se aparentemente resiliente, embora impopular, e relatos da imprensa indicam que o sentimento de pertencimento nacional entre os iranianos mantém um mínimo de coesão sob bombardeios. Todos esses dados impõem prudência nas avaliações. Além disso, muitas questões permanecem sem respostas precisas, exceto talvez nos serviços de inteligência militar, como o que resta dos meios militares assimétricos do Irã? Em que medida ainda podem causar danos, por menores que sejam? Russos e chineses ajudam ou não os iranianos? Se sim, qual o volume, a qualidade e a eficácia desse apoio para prolongar o conflito? O tempo joga contra os iranianos, os americanos ou ambos? Qual é o verdadeiro estado de espírito dos pasdaran, dos líderes religiosos e do comando americano? Qual é o nível de disposição para o combate em ambos os lados? Qual o peso das pressões internas sobre os tomadores de decisão em cada campo? As incertezas são numerosas. No entanto, pode-se afirmar o seguinte: a expectativa mínima é que o regime iraniano provavelmente será privado dos recursos que sustentavam sua expansão regional, o que reduziria consideravelmente sua capacidade de ação por um longo período. No melhor cenário, Teerã mudaria de postura, entregaria o urânio à Agência Internacional de Energia Atômica, cessaria o apoio a seus aliados regionais e aceitaria limitar seus drones e mísseis. A queda do regime não é previsível neste momento. Entre esses extremos, existem várias possibilidades, incluindo a fragmentação do Irã em entidades étnicas em um contexto de instabilidade ou guerra civil, com repercussões nos países vizinhos. Seria possível discorrer sobre o tema por páginas inteiras na ausência de dados completos e precisos. Ainda assim, o mundo árabe, assim como nós, certamente poderá viver dias melhores.

Um memorando político e militar
Por
Khalil Helou
Publicado
mar 18, 2026 - 23:03

Há algum tempo, uma parcela significativa da opinião pública vem acusando o Exército e/ou seu comandante-chefe de falhar em seu dever, quando não de se insurgir contra o governo que o incumbiu de desmantelar o arsenal militar do Hezbollah. O Exército libanês tornou-se, assim, alvo preferencial de certos jornalistas, blogueiros e ativistas das redes sociais, ao mesmo tempo em que é admirado e quase divinizado por seus equivalentes no campo oposto. O absurdo e a total inadmissibilidade da situação residem no fato de que os admiradores de hoje eram os críticos mais ferozes de ontem, responsabilizando o Exército por todos os males. Chegaram a acusá-lo de “colaboração” com o “imperialismo” americano, um rótulo desgastado aplicado com facilidade a tudo o que se deseja desqualificar, em referência à cooperação militar entre o Líbano e os Estados Unidos, embora, sem a ajuda americana, nossas forças armadas teriam se tornado inoperantes, diante do orçamento de defesa irrisório. Esses novos admiradores da instituição militar somam-se agora aos seus devotos históricos, que a cercam de reverência. Já aqueles que desacreditam o Exército em qualquer circunstância, e não são poucos, afirmam que ele jamais os protegeu, ignorando um histórico de sacrifícios de um século, especialmente desde os anos 1960. É verdade que, por vezes, apresentam argumentos válidos, apontando para a conduta pública de alguns militares da ativa, as aparições televisivas de certos oficiais da reserva e outras críticas. Ainda assim, concentram-se em detalhes e ignoram deliberadamente o essencial. Tudo isso transformou o Exército libanês em objeto de espetáculo midiático, o que é prejudicial sob todos os aspectos. Sem dúvida, reformas nos setores de segurança e defesa são necessárias, mas essa tarefa cabe às autoridades legislativas, que detêm competência para tal. O nosso Exército não deve se envolver em política. No entanto, os impasses nacionais e as falhas das autoridades políticas o colocaram no centro das atenções. Desde 1958, após a breve guerra civil daquele ano, os militares foram projetados para o palco político, para o qual não estavam preparados. Poucos de seus integrantes conseguem, de fato, adaptar-se a esse papel. Voltando ao aspecto operacional, além da ajuda militar americana, o Exército recebe apoio de diversos países europeus e árabes. O Irã, tão valorizado pelo Hezbollah, por seus aliados incondicionais e por seus apoiadores de ocasião, jamais ofereceu assistência significativa à instituição militar, apesar de sustentar uma doutrina que prega a defesa do país contra qualquer agressão, inclusive de Israel. Teerã limitou-se a fornecer apoio militar superficial ao Exército, reservando sua ajuda substancial ao Hezbollah, sobretudo com mísseis antitanque de última geração, drones e armamentos de todo tipo, além de apoio financeiro. A instituição militar não mantém presença efetiva no sul do Líbano desde 1975, um vazio que contribuiu para a situação atual. Essa ausência foi em grande parte imposta pela ocupação síria, especialmente a partir de 1990. Desde então, os presidentes instalados em Baabda estavam sob a influência de Damasco, que lhes vedava afirmar a soberania nacional no Sul. O presidente Émile Lahoud, cuja proximidade com seu homólogo sírio, Hafez Assad, era notória, garantiu, por meio de sucessivos governos, que as forças regulares não fossem deslocadas para o sul após a retirada total de Israel, em 25 de maio de 2000. O pretexto era que as Fazendas de Shebaa permaneciam ocupadas e que o Exército não deveria atuar como guarda de fronteira de Israel. Com isso, facilitou a instalação do Hezbollah na região, sob o argumento de libertar essas áreas, uma decisão que nos custou a devastadora guerra de 2006 e a célebre frase do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah: “Se eu soubesse.” Um ano depois, a organização Fatah al-Islam, dissidência da Al-Qaeda, ocupou o campo palestino de Nahr el-Bared, ao norte de Trípoli, com o objetivo de estabelecer um emirado islâmico na região, alinhado a Osama bin Laden. Quando o Exército enfrentou o grupo, responsável por um atentado a bomba contra um ônibus em Ain Alak, no Metn Norte, que matou civis, além de assaltos a bancos e da morte de 29 soldados em menos de uma hora, Hassan Nasrallah declarou, textualmente: “Os campos palestinos são uma linha vermelha.” Na ocasião, porém, o Exército ignorou o ultimato e derrotou a organização terrorista ao custo de 170 mártires. Ao mesmo tempo, o Hezbollah cercava o Serail e o então primeiro-ministro Fouad Siniora com um protesto que se arrastava por meses, uma clara tentativa de golpe político. Mais tarde, em 2008, o impasse político levou o general Michel Sleiman à presidência. Ele concluiu seu mandato sendo responsabilizado por todos os males do Hezbollah. Diferentemente de seu antecessor, Sleiman recusou-se a se submeter e, sobretudo, elaborou uma estratégia de defesa voltada à restauração da soberania do Estado, um pecado imperdoável aos olhos da milícia, pois ameaçava sua própria existência. Em 2016, após um acordo com os soberanistas, o Hezbollah e seus aliados levaram Michel Aoun à presidência. Desde o início de seu mandato, Aoun bloqueou a elaboração de uma estratégia de defesa, já proposta por seu antecessor, alegando que estratégias são mutáveis e que formalizá-las seria inútil. Posteriormente, declarou em diversas ocasiões que o Exército era incapaz de defender o país. Quando, no verão de 2017, as tropas enfrentaram o Estado Islâmico na Batalha de Fajr al-Jurud, saindo vitoriosas e se preparando para o assalto final, a vitória total foi interrompida por ordem do presidente Aoun. Combatentes do grupo foram evacuados de ônibus para a Síria, após um acordo entre o Hezbollah e o Estado Islâmico. Um mês depois, em outubro de 2017, Michel Aoun, aliado fiel do Hezbollah e, ao que tudo indica, agindo sob sua influência, declarou à imprensa: “A situação econômica do Líbano não permite equipar o Exército, e há razões pelas quais as armas não podem estar exclusivamente em suas mãos”, acrescentando que “uma solução no Oriente Médio levará a um acordo sobre as armas do Hezbollah”. Atualmente, o governo tem adotado posições louváveis em relação à restauração da soberania. No entanto, as tropas não as executam, pois tal missão exige supervisão constante do Executivo, algo que permanece ausente. O Executivo hesita ou propõe iniciativas ultrapassadas. Em conclusão, todos querem que a missão do Exército se alinhe aos seus próprios interesses, utilizando-o como instrumento de projeção midiática, positiva ou negativa, para ampliar sua visibilidade. O verdadeiro responsável a ser cobrado continua sendo o Poder Executivo, que inclui tanto o Conselho de Ministros quanto o presidente, além do Parlamento, desde que seu presidente, Nabih Berri, o permita e respeite a separação de poderes. Montesquieu deve estar se revirando no túmul.

A guerra Irã-EUA: como poderia terminar?
Por
Khalil Helou
Publicado
mar 12, 2026 - 12:57

As análises muitas vezes erram o alvo. Tendemos a oscilar entre um excesso de objetividade e uma falta de imaginação, ou o contrário. Às vezes, chegamos até a confundir nossos próprios desejos com a realidade. Um fato sóbrio é que nem os acontecimentos mais trágicos nem seus desfechos finais foram previstos até mesmo pelos analistas mais experientes. Apenas algumas mentes esclarecidas demonstraram visão de futuro, mas raramente foram ouvidas nos altos corredores do poder, atolados em questões políticas, financeiras e econômicas. O Catalisador das Duas Guerras Mundiais Poucos previram a Primeira Guerra Mundial. Nenhum dos beligerantes o desejava realmente, sobretudo após os diversos acordos e a divisão das esferas de influência globais entre as grandes potências da época. Convencidos de que um conflito dessa magnitude não poderia se repetir e de que a Alemanha havia sido definitivamente contida, analistas a classificaram como a “guerra para acabar com todas as guerras”. Vinte anos depois, a Alemanha controlava a Europa por meio de um segundo conflito ainda mais devastador e quase dominou o mundo não fosse a intervenção americana. A chave para o renascimento alemão e sua superioridade militar estava na tecnologia. O mesmo ocorreu às vésperas da Primeira Guerra Mundial: o mundo vivia uma revolução industrial e tecnológica. Essa transformação deu origem a armamentos sem precedentes, como tanques, aviões de combate, frotas navais totalmente metálicas, navios de guerra movidos a petróleo, substituindo o carvão, canhões sem recuo e fuzis semiautomáticos. A corrida armamentista que se seguiu acabou funcionando, por sua vez, como o catalisador das duas guerras mundiais. Século XXI: Armamentos ao Alcance de Todos Em termos de armamentos, o cenário global atual não é tão diferente daquele do início do século XX. A diferença é que agora entramos na era dos drones, dos mísseis inteligentes e de projéteis de todos os tipos, de radares de alta precisão, aeronaves e mísseis furtivos, sistemas de defesa antimísseis, armas nucleares, robótica de combate, ferramentas eletromagnéticas e tecnologias cibernéticas. Essas capacidades já não são exclusivas das grandes potências. Hoje estão disponíveis para países como Ucrânia, Coreia do Norte e Irã. A acessibilidade dessas tecnologias incentiva regimes belicosos a adotarem posturas mais desafiadoras, ao mesmo tempo em que oferece a nações relativamente mais fracas, como a Ucrânia, a capacidade de resistir a potências muito superiores. Ninguém previu a ofensiva do Hamas a partir de Gaza em outubro de 2023. Fortalecido por seus mísseis e drones produzidos localmente, por suas máquinas voadoras improvisadas e por combatentes tecnologicamente ágeis, o movimento conseguiu ocupar temporariamente o sul de Israel. Na véspera do conflito atual, parecia claro que o Irã já não poderia contar com seus aliados regionais, em especial o Hezbollah, o Hamas e as milícias iraquianas do Hashd al-Shaabi, já que esses grupos haviam sido enfraquecidos por quinze meses de guerra com Israel. Além disso, o próprio Teerã, depois de sofrer danos significativos ao seu potencial militar e nuclear durante a “guerra dos 12 dias” em junho de 2025, era considerado neutralizado, sobretudo porque naquele momento estava envolvido em negociações nucleares com os Estados Unidos. Essas suposições se mostraram equivocadas. Enquanto negociava, o Irã reabastecia simultaneamente seu próprio arsenal de drones, cuja eficácia foi comprovada na Ucrânia, além de mísseis balísticos sofisticados, mísseis de cruzeiro de alta precisão, mísseis antinavio supersônicos, mísseis hipersônicos e mísseis com múltiplas ogivas com alcance superior a 2.000 km. Esse acúmulo reforça a capacidade do regime de fechar o Estreito de Ormuz e paralisar a navegação no Golfo Árabe. Nos anos 1980, durante a guerra Irã-Iraque, Teerã não hesitou em lançar minas navais no estreito, o que levou a um devastador ataque americano contra sua marinha para garantir a livre passagem. Hoje, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica demonstrou domínio no uso de uma combinação complexa de radares de vigilância, drones, barcos-drone suicidas, mísseis superfície-mar, minissubmarinos – dos quais o Irã possui pelo menos 18, todos notoriamente difíceis de detectar – e as minas navais mencionadas em relatórios recentes dos Estados Unidos. Duas Condições para o Fim da Guerra O fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã está se tornando uma possibilidade real, apesar das perdas significativas nas capacidades militares da República Islâmica. Os iranianos ainda dispõem de meios tecnológicos suficientes, ainda que limitados, como minas e drones, para bloquear a passagem. No entanto, manter o estreito aberto continua sendo um interesse estratégico vital para os Estados Unidos. Nesta fase do conflito, o futuro político do presidente Donald Trump depende de sua capacidade de proteger esse interesse: se ele parecer dissuadido pelo Irã, isso poderá provocar um terremoto geopolítico global e uma crise política dentro dos Estados Unidos. Outro fator tecnológico com graves repercussões geopolíticas: segundo autoridades iranianas, o país ainda possui 460 quilos de urânio enriquecido a 60%, bem protegido da vigilância americana. O país também mantém centrífugas capazes de enriquecer esse material até 90%, o limiar necessário para a fabricação de uma arma nuclear. O perigo não reside necessariamente no lançamento de uma bomba nuclear por meio de um míssil iraniano. O risco está no fato de que Teerã, que já patrocinou ataques terroristas, mantém alianças com milícias experientes nesse tipo de ação e, segundo relatos, abriga operativos da Al-Qaeda. Em um gesto de desespero, poderia transferir esses materiais físicos a organizações que os utilizariam em um novo 11 de setembro, ainda mais devastador que o primeiro. Esses fatores tornam improvável um desfecho discreto para esse conflito. O Irã luta por sua sobrevivência, travando também uma guerra psicológica para projetar uma imagem de desafio e vitória, enquanto o presidente Trump exige nada menos que a rendição total de Teerã. Esse conflito só pode terminar de duas maneiras: uma vitória total, no sentido clausewitziano, dos Estados Unidos – um empreendimento custoso sob qualquer perspectiva – ou negociações que obriguem o Irã a renunciar aos seus materiais fissíveis altamente enriquecidos e a desmantelar as capacidades que ameaçam a economia global por meio do fechamento do Estreito de Ormuz. Enquanto isso, a guerra continua e o Irã se enfraquece cada vez mais.

A inação do Estado equivale a suicídio
Por
Khalil Helou
Publicado
mar 11, 2026 - 17:03

Na última semana, uma nova guerra, a quinta em 34 anos, colocou Israel contra o Hezbollah. É mais um conflito que o povo libanês jamais quis. Todos os acordos que encerraram as quatro guerras anteriores revelaram-se pouco mais do que tréguas temporárias, exploradas pelo Irã e pelo Hezbollah de um lado e por Israel do outro para preparar a rodada seguinte de combates. Tudo isso ocorreu sob o olhar atento dos regimes Assad, pai e filho, e de presidentes e governos libaneses subordinados a Damasco ou a Teerã, especialmente durante os mandatos de Hraoui, Lahoud e Michel Aoun. Os custos dessas guerras foram pagos caro: voluntariamente pelos apoiadores incondicionais do Hezbollah, sob o efeito anestesiante da ideologia; com relutância pelos demais libaneses; e pelos países árabes que financiaram a reconstrução por razões humanitárias e geopolíticas. O mesmo roteiro repetiu-se ao longo de quatro décadas: guerra, cessar-fogo, retórica de vitória, deterioração da autoridade política do Líbano, preparação do Hezbollah para guerras sem fim, enganos mútuos e, novamente, guerra. Um provérbio popular diz que “um burro não tropeça duas vezes na mesma pedra”. É evidente que o presidente Joseph Aoun, que segundo o artigo 49 da Constituição também exerce a função de comandante supremo das Forças Armadas, e o primeiro-ministro Nawaf Salam, junto com seu governo, que nomeia não apenas o comandante do Exército como também todos os oficiais superiores das instituições militares e de segurança, constituem a primeira autoridade executiva desde 1990 a se beneficiar de condições regionais e internacionais favoráveis à recuperação da soberania perdida desde 1968. Eles também contam com um apoio interno sem precedentes, além de oportunidades concretas no mundo árabe e na comunidade internacional. Em novembro de 2024, após 13 meses de guerra, foi o Hezbollah quem passou a buscar um cessar-fogo com Israel, com Nabih Berri liderando as negociações. O governo de Najib Mikati só concordou com o cessar-fogo depois de ser “autorizado” pelo Hezbollah a fazê-lo. Assim, o próprio partido que solicitava a trégua apresentou-se sutilmente como quem a aceitava de forma magnânima, ao mesmo tempo em que proclamava vitória e conduzia uma impressionante campanha de negação. Nos últimos 15 meses, o novo presidente, o primeiro-ministro e membros do governo foram manipulados pelo Hezbollah, seja de forma consciente, seja por uma demonstração desarmante de incapacidade. Desde o início, o Hezbollah renunciou aos compromissos de implementar a Resolução 1701, com o apoio de Nabih Berri. O “partido de Deus” utilizou esses quinze meses para se reorganizar com a ajuda da Guarda Revolucionária Islâmica, sob o olhar atento, ou deliberadamente cego, do Poder Executivo, sem qualquer atenuante. Aproveitou-se também da cegueira e da miopia dos partidos soberanistas, ocupados demais com as eleições legislativas e com a disputa pela divisão das cadeiras parlamentares, cadeiras que, de todo modo, pouco pesaram diante de acontecimentos estratégicos, como demonstrou a notável “brilhante” ausência da Comissão de Defesa do Parlamento. Essa reorganização do “Partido de Deus” agora está plenamente visível, como se o tempo tivesse parado em 27 de novembro de 2024. Nosso Exército sofre as consequências da inação do governo, ou, pode-se dizer, da cumplicidade de uma parte significativa do Executivo com o Hezbollah, o que coloca em risco sua credibilidade. As decisões firmes destinadas a desarmar o Hezbollah, tomadas em agosto de 2025, oito meses após a posse do presidente J. Aoun e depois do voto de confiança ao governo Salam, foram gradualmente se desfazendo diante da tática preferida do Hezbollah: a tergiversação paciente e astuta. O Exército demorou a apresentar seu plano para o sul do rio Litani, e sua execução se arrastou. Hoje, tudo isso está completamente desacreditado, com os combates entre Hezbollah e Israel ao sul do Litani retornando ao status quo. Nesse contexto, surge uma questão urgente: o presidente e o Conselho de Ministros haviam aprovado tanto o plano quanto sua execução no sul do Litani, sem levantar objeções ou comentários sobre o cronograma, apesar dos alertas claros de organismos internacionais sobre a reorganização do Hezbollah e a impaciência de Israel. Ainda assim, prevaleceu a surdez deliberada. Evidentemente, o plano para o norte do Litani tornou-se uma piada completa, a menos que ocorra um milagre. Diante disso, quem é o responsável? O presidente? O primeiro-ministro? O governo? O Executivo como um todo? Nosso Exército? É preciso enfatizar que o Executivo detém plena autoridade sobre as Forças Armadas. No entanto, desde 1968 consolidou-se no Líbano o lamentável costume de fazer as tropas pagarem o preço da inação do poder político e de seus impasses. Em 1973, após confrontos entre nosso Exército e a OLP em Saída, os oficiais responsáveis pelo sul do país foram transferidos. Em 1975, a inação do Executivo e o deslizamento rumo à guerra interna levaram à substituição do chefe do Estado-Maior, general Iskandar Ghanem. Em 1984, combates entre nosso Exército de um lado e as milícias do movimento Amal, do PSP, do Exército de Libertação da Palestina e das forças de ocupação sírias do outro resultaram na demissão do chefe do Estado-Maior, general Ibrahim Tannous. Voltando à situação atual, que não se parece com as anteriores, uma divisão vertical separa agora o Hezbollah e seus apoiadores de um lado e todos os demais libaneses do outro, com Nabih Berri e seu movimento Amal presos em manobras evasivas. Duas opções se apresentam: a inação tradicional ou o seu oposto. No caso da inação, os poderes Executivo e Legislativo se tornariam meros adornos, sem nada a negociar com instâncias árabes ou internacionais, muito menos com Israel. Por outro lado, se o Executivo decidir agir, o apoio árabe unânime é quase certo, independentemente da decisão, sobretudo porque o Irã atualmente ataca estrategicamente países árabes. O respaldo europeu e americano também provavelmente estaria garantido, algo raro, já que as divisões entre Washington e a União Europeia se fazem sentir em quase todos os lugares, exceto no Líbano. Quando o Executivo age de forma inequívoca e quando o presidente cumpre seu papel de comandante supremo das Forças Armadas, assumindo diretamente a condução da situação por meio do Conselho Superior de Defesa e supervisionando diariamente cada ação das tropas, as forças cumprem sua missão, como têm feito de forma consistente desde 2000. Quando a missão das tropas está politicamente assegurada, mesmo sem consenso total, os resultados quase certamente aparecem. Quanto à Comissão de Defesa do Parlamento, ela poderia ao menos, mesmo sem unanimidade, responsabilizar tanto o Executivo quanto os militares, garantindo que os responsáveis respondam por seus atos. A ação, com todas as suas incertezas, é muito menos arriscada do que a inação, especialmente quando os “dinossauros” da região estão em guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Suíça, embora neutra e amplamente germanófila, decretou mobilização geral, impediu que a Alemanha nazista e a Itália fascista utilizassem seu território ou se comunicassem através dele e estabeleceu uma estratégia militar para defender o reduto montanhoso no coração do país. Uma estratégia semelhante é certamente possível no Líbano e, sem dúvida, cabe ao Executivo, e não aos militares, assumir a responsabilidade por ela. Nesse ponto, vale citar Georges Clemenceau, médico e jornalista apelidado de “O Tigre”, primeiro-ministro e arquiteto da vitória da França na Primeira Guerra Mundial: “A guerra é um assunto importante demais para ser deixado nas mãos dos militares!”