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Stratégia

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

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Este edifício, localizado em Sodeco, simboliza a divisão da capital em duas, durante a guerra libanesa de 1975. (Ramzi Haidar / AFP)
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Por Khalil Helou
Publicado abr 25, 2026 - 01:49

Numa série de artigos que se seguirá, propomo-nos lançar luz sobre a situação atual à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que falham em abordar as realidades, deixando ao leitor a tarefa de tirar as conclusões necessárias. É tempo, neste contexto, de contrariar seriamente a retórica estéril da resistência, não com uma contrarretórica, mas com uma abordagem aprofundada, que defenda a cultura do Estado de direito, só possível por meio da soberania.

Para compreender o presente, nada como reler a história contemporânea, sempre viva na memória. As guerras entre Israel e o Hezbollah devem ser revisitadas. A primeira ocorreu em 1993, com os acontecimentos-chave que a antecederam. A isso somam-se a retirada israelense do Líbano em 25 de maio de 2000, bem como os episódios que a precederam e sucederam, nomeadamente as guerras de 1996, 2006, 2023-2024 e 2026.

São trinta e três anos de conflitos durante os quais, à primeira vista, tudo parece caótico. Na realidade, trata-se de um processo bastante claro, cujos fios são controlados pelos mulás de Teerã. Os acontecimentos continuam a desenrolar-se segundo um cenário onde se entrelaçam interesses locais, regionais e internacionais. Como ator internacional, os Estados Unidos, potência mundial sem rival desde 1990, são também, há muito tempo, uma potência regional, com influência em quase todos os países da região, exceto o Irã, além de manter bases militares em países árabes.

Os interesses de Washington, Tel Aviv, Damasco, Riade e Teerã misturam-se, convergem, divergem ou se opõem de forma dinâmica, enquanto o interesse único do Líbano, não realizado há 50 anos, continua sendo o restabelecimento da sua soberania e, em seguida, a reconstrução de suas instituições estatais. Os atores não estatais, numerosos no Líbano, como o Hezbollah, o Hamas e outras organizações armadas ilegais, além de partidos libaneses aliados ao Hezbollah, apoiados ou geridos por potências regionais, desempenharam papéis centrais nas últimas décadas, dificultando o restabelecimento da soberania do país. As oportunidades surgidas ao longo desses anos foram frustradas por decisores locais, seja por incompetência, seja por interesses restritos ou pessoais, bem como por covardia, ganância e múltiplas lealdades.

As três agendas do Hezbollah

O Hezbollah continua a operar com três agendas paralelas. A primeira, regional, busca interferir em países árabes para desestabilizá-los em benefício do Irã, especialmente no Iraque, que faz fronteira ocidental com o Irã, com o objetivo de evitar o surgimento de uma liderança semelhante à de Saddam Hussein, considerado um pesadelo pelos mulás de Teerã. A segunda, centrada em Israel, baseia-se numa retórica de resistência que também serve à agenda interna, cujo objetivo é a hegemonia sobre o Líbano. Seus apoiadores, movidos por uma ideologia religiosa não sujeita a debate, acreditam estar investidos de uma missão divina e se inspiram no modelo iraniano, onde existe um Estado formal, mas as decisões estratégicas estão nas mãos do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, um verdadeiro Estado dentro do Estado, com ramificações sociais, econômicas, de segurança e militares.

O modelo libanês ao qual o partido pró-iraniano aspira seria um Estado de fachada, encarregado dos assuntos correntes e protocolares, enquanto o Hezbollah atuaria dentro e fora dele, com sua milícia e suas próprias estruturas políticas, culturais e sociais. Dessa forma, seria ele a tomar as decisões estratégicas, projetando-as sobre o Parlamento e o governo. Para seus apoiadores, o movimento representa a soberania, a garantia social e de segurança e, sobretudo, suas ambições ideológicas.

Esse problema está no centro da atualidade, mas o percurso do chamado partido divino ao longo das últimas quatro décadas, que levou à situação atual, merece ser revisitado, especialmente pelas gerações libanesas nascidas sob sua hegemonia. Para elas, trata-se de uma realidade cotidiana e, para alguns, é possível coexistir com as armas do Hezbollah em nome de uma resistência que já dura 44 anos. Nesse sentido, alguns números e fatos são reveladores: a guerra que terminou com o Tratado de Vestfália durou 30 anos (1618-1648); a Primeira Guerra Mundial, quatro anos; a Segunda Guerra Mundial, seis anos; a guerra da Indochina (França-Viet Minh), nove anos; a guerra do Vietnã (Estados Unidos-Vietnã do Norte), dez anos; o conflito árabe-israelense, excetuando a Palestina, 25 anos.

Fica claro que, há 44 anos, o Hezbollah retira sua legitimidade de um estado contínuo de beligerância. Não há, portanto, interesse em pôr fim às suas guerras com Israel. Torna-se igualmente evidente que apenas os libaneses podem resolver seus próprios problemas, encerrando o estado de guerra com o Estado hebreu, sem que isso implique necessariamente um tratado de paz. Seis países árabes já avançaram nesse sentido antes de Beirute. O Líbano poderia alcançar o mesmo com o apoio desses Estados e de países aliados.

O acordo de Taëf

Retomando a leitura do passado recente, o ponto de partida é o acordo de Taëf, assinado em 22 de outubro de 1989, na Arábia Saudita, com o aval dos Estados Unidos. Seu objetivo era pôr fim às guerras que devastaram o Líbano durante 15 anos. As duas últimas, que precipitaram sua assinatura e implementação pela força, foram particularmente destrutivas: a chamada Guerra de Libertação, entre libaneses e sírios, e a Guerra de Eliminação, entre facções libanesas. Esses conflitos ameaçavam dividir o mundo árabe e dificultar um processo de estabilização regional complexo, desejado por Washington e Riade no contexto do fim da primeira Guerra do Golfo entre Iraque e Irã.

A implementação do acordo, inicialmente dificultada por vários meses, tornou-se prioritária após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 2 de agosto de 1990. Para os atores internacionais e regionais, era imperativo pôr fim às guerras que persistiam no Líbano após a assinatura do acordo. Como resultado, a comunidade internacional e árabe deu sinal verde à Síria baathista para impor estabilidade no país por meio da força militar, em troca de sua participação na coalizão árabe-internacional contra o Iraque, com o objetivo de libertar o Kuwait.

As tropas de Damasco invadiram, em 13 de outubro de 1990, o palácio de Baabda e o Ministério da Defesa Nacional, então sob controle do governo militar libanês liderado pelo general Michel Aoun. Alguns meses depois, no início de 1991, as forças iraquianas foram expulsas do Kuwait, e parte do território iraquiano foi ocupada pela coalizão internacional. Como consequência, o regime de Saddam Hussein foi enfraquecido, abrindo espaço para a ascensão do Irã e de seu aliado Hezbollah. Esse foi o ponto de partida das guerras entre Hezbollah e Israel, antes e depois da retirada israelense do sul do Líbano, em 24 de maio de 2000.

Esse período também foi marcado por uma profunda reconfiguração da ordem mundial, com a queda do Muro de Berlim, o enfraquecimento da União Soviética e de seus aliados regionais, incluindo Iraque e Síria, e sua posterior aproximação com os Estados Unidos, o que lhes concedeu maior margem de manobra no Líbano. Ao mesmo tempo, os países do Golfo, aliados de Washington, já então sem rival no cenário internacional, alinharam-se com a Síria de Assad e adotaram uma postura mais tolerante em relação ao Irã frente ao Iraque de Saddam. Essa realidade, profundamente distinta da anterior, foi mal interpretada pelo governo militar do general Aoun, o que conduziu ao desfecho catastrófico de 13 de outubro de 1990. (continua)

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