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Analisar

Quando as salas de aula se tornam campos de batalha
Por
Makram Rabah
Publicado
abr 14, 2026 - 17:58

No Líbano, a educação deveria libertar as mentes. Os proxies do Irã a transformaram em uma arma. O Líbano por muito tempo se orgulhou de uma convicção rara na região, fazendo da educação um caminho e não um privilégio. O Líbano é um país onde, apesar das guerras, dos sucessivos colapsos e da deterioração política, os pais ainda reúnem o pouco que têm para enviar seus filhos à escola. Um país cujas salas de aula historicamente formaram médicos, engenheiros, escritores e pensadores, e não mártires para os Guardiões da Revolução iraniana. Os números contam parte dessa história. O Líbano apresenta uma das taxas de alfabetização mais altas da região, em torno de 98%. Durante anos, figurou entre os primeiros países do mundo em termos de qualidade percebida de seu ensino. Matemática e ciências não são tratadas como luxo, mas como necessidade, frequentemente ensinadas em inglês ou francês desde cedo. A educação aqui não se limita à aquisição de conhecimento; ela envolve mobilidade, dignidade e emancipação do sectarismo, da violência e das limitações sufocantes impostas pela geografia. Hoje, porém, é essa própria ideia que está sob ataque. As recentes ameaças e ações dos Guardiões da Revolução Islâmica do Irã contra instituições americanas no Líbano e em toda a região não são apenas mais um episódio em um longo ciclo de escalada. Revelam algo mais profundo e perturbador: uma tentativa deliberada de redefinir o que significa educação em países como o Líbano. Porque, para o Hezbollah, o braço mais enraizado dos Guardiões da Revolução no país, a educação não é uma ferramenta de emancipação. É uma ferramenta de controle. Onde as famílias libanesas veem nas escolas pontes para o mundo, o Hezbollah vê fábricas de lealdade. Onde os pais esperam que seus filhos aprendam álgebra para construir um futuro, o partido enxerga a geometria como um meio de calcular trajetórias. A física deixa de servir para compreender o mundo natural; passa a ser um instrumento para aperfeiçoar a curva de um foguete ou a estabilidade de um drone. A química é esvaziada de curiosidade e convertida em letalidade. Isso não é metáfora. É doutrina. O ecossistema educacional do Hezbollah, suas escolas, seus movimentos de escoteiros, seus programas juvenis e suas instituições culturais, funciona há muito tempo como um sistema paralelo, que reproduz as formas do Estado enquanto subverte sua finalidade. As crianças não aprendem apenas a ler e escrever; aprendem a obedecer, a venerar e, por fim, a combater. A linguagem da resistência se infiltra cedo, envolta em símbolos de martírio e sacrifício, até se tornar inseparável da própria identidade. Nesse sentido, o recente direcionamento contra instituições americanas, seja retórico ou operacional, segue uma lógica perfeitamente coerente. Universidades como a Universidade Americana de Beirute não são apenas edifícios. Elas encarnam uma ideia que se opõe frontalmente ao que o Hezbollah e os Guardiões da Revolução procuram impor. Elas representam a dúvida diante do dogma. O questionamento diante da doutrinação. Um espaço onde um estudante pode questionar a autoridade em vez de se submeter a ela. E é precisamente por isso que são vistas como ameaças. A consequência mais devastadora talvez nem seja a militarização da educação em si, mas a destruição silenciosa do ecossistema que outrora tornava o ensino libanês excepcional. O Hezbollah, em conjunto com uma classe política que escolheu normalizar, acomodar e, por fim, legitimar sua ordem paralela, erodiu progressivamente a própria diversidade que alimentava a vida intelectual do país. O modelo educacional libanês nunca foi apenas uma questão de currículos ou rankings; sempre foi uma questão de pluralidade. Salas de aula onde línguas se cruzavam, onde histórias competiam, onde identidades coexistiam sem se dissolver umas nas outras. Esse ecossistema frágil, mas vital, era o motor de uma criatividade que formava gerações capazes de pensar além dos limites da seita, da ideologia e do medo. Hoje, esse espaço está se estreitando. Não por decreto formal, mas sob o efeito da pressão, da intimidação e do sufocamento lento da dissidência. O que se perde não é apenas a autonomia institucional, mas a própria condição que tornava o aprendizado significativo no Líbano: a liberdade de ser diferente. Não é por acaso que regimes e milícias baseados na rigidez ideológica temem mais os campi do que os exércitos. Exércitos podem ser dissuadidos, negociados ou até derrotados. Mas ideias, uma vez libertadas, são muito mais difíceis de conter. Um estudante formado no pensamento crítico é infinitamente mais perigoso para um projeto autoritário do que qualquer adversário externo. O Líbano hoje se encontra no cruzamento dessas duas visões. De um lado, uma crença frágil, mas persistente, na educação como meio de sobrevivência e transcendência. De outro, um esforço disciplinado e bem financiado para esvaziar essa crença, substituindo-a por uma visão de mundo militarizada, na qual o conhecimento serve apenas ao campo de batalha. A tragédia não é apenas que esses dois sistemas coexistam. É que um avança inexoravelmente sobre o outro. Quando uma criança aprende matemática para resolver equações, ela está sendo preparada para construir algo: uma economia, uma carreira, uma vida. Quando esse mesmo conhecimento é redirecionado para ajustar um canhão ou programar um drone, ele se torna outra coisa: uma arma disfarçada de educação. E no Líbano, essa transformação acontece à vista de todos. O ataque contra instituições educacionais, seja na forma de ameaças, intimidações ou algo ainda pior, não é acidental. É estratégico. Trata-se de uma tentativa de cortar o Líbano de um dos poucos pilares que ainda o conectam ao mundo e a si mesmo. Porque um Líbano que continua a educar livremente é um Líbano que não pode ser totalmente controlado. E é aí, em última instância, que está a verdadeira questão. Não são os mísseis. Não são os drones. Nem mesmo a geopolítica em seu sentido mais restrito. Mas a batalha, muito mais decisiva, que se trava em torno do que a próxima geração de libaneses aprenderá e do que ela se tornará.

A catástrofe como imagem
Por
Rita Barotta
Publicado
abr 13, 2026 - 14:00

Centenas de imagens, todos os dias. O cinza como tonalidade dominante, às vezes uma irrupção de laranja, um caderno de colorir, uma boneca. Outras vezes, as imagens nos chegam manchadas de memórias, as de desconhecidos que não conhecemos, que não nos conhecem e que, talvez, já não reconheçam os seus. Memórias em suspenso. Instantes fugazes nas telas dos telefones. Fragmentos que desfilam na televisão, sob uma tarja vermelha escrita às pressas, saturada de imprecisões, em que um nome de lugar é lançado como garantia de precisão. Ou ainda sequências breves, pensadas para manter a continuidade de um fluxo constantemente reativado. Nesse fluxo, a imagem deixa de surgir como acontecimento. Ela se inscreve em um regime visual contínuo, reconfigurando profundamente nossa relação com a guerra e com aquilo que dela percebemos. Com as mutações técnicas, captação instantânea, publicação imediata, circulação ilimitada, o lugar da imagem se deslocou. O do espectador também. A imagem se forma no próprio coração do acontecimento e nos alcança no mesmo movimento. Ela circula enquanto o acontecimento persiste. E nós, destinatários flutuantes em um mar de impactos visuais, interrogamos a dor, aquilo que nos chega, o que se esquiva, o que se inscreve, o que escapa. Talvez também a própria legitimidade de olhar. Nesse regime visual acelerado, a catástrofe se instala como presença contínua, depositando na memória um vestígio incompleto. Se é que chega a deixar algum. No dia seguinte à guerra de julho de 2006, iniciei um trabalho de pesquisa centrado no fotógrafo de imprensa como ponto nodal. Tratava-se de questionar sua posição, as decisões que assume e aquelas que antecedem a imagem. Muitos dos que encontrei insistiram nisso: a imagem nunca é produto de um instante puro, mas uma construção, uma questão de ângulo, de temporalidade, de seleção. Um deles evocava o peso de uma responsabilidade constante: determinar as condições de visibilidade da guerra, decidir o que entra no enquadramento e o que é excluído. Há duas décadas, a imagem era contemplada, preservada. Ela dispunha de um tempo próprio. De uma duração. De uma marca. Hoje, ela se acumula até exceder qualquer possibilidade de narrativa. Esse acúmulo não produz memória: produz dispersão. Em Diante da dor dos outro s, Susan Sontag questiona a relação da imagem com o sofrimento e os limites do que ela pode transmitir. “As imagens não explicam nada; elas atestam que um evento ocorreu.” Assim, fixam a ocorrência sem oferecer sua inteligibilidade. À medida que sua circulação se acelera, as imagens perdem a capacidade de sustentar um sentido estável e tornam-se unidades de um fluxo visual. O entorpecimento de que fala Sontag decorre da densidade das imagens, de sua velocidade de difusão, mas também das próprias condições do olhar e do lugar atribuído ao espectador nesse dispositivo. Aqui, a questão do sentido se esquiva. “A consciência do sofrimento não é algo dado; ela se constrói.” Ver não basta para apreender a catástrofe. O sentido se configura em um contexto, a partir de uma posição, a de quem olha, a de quem recebe. Daí o alerta: “Não se deve supor a existência de um ‘nós’ homogêneo quando se trata de olhar o sofrimento dos outros.” Muito se escreveu sobre o “silêncio do mundo” diante da aniquilação de Gaza. Como os “outros” permanecem em silêncio diante dos corpos de crianças despidas? E nós, no Líbano de hoje, escrevemos coisas análogas sobre nossas próprias reações diante de uma localidade destruída. Temos a mesma relação com esse lugar? Recorremos à projeção para produzir empatia? A indiferença, para alguns, constitui-se como estratégia de defesa? O olhar não é uma experiência comum. Ele é condicionado pela distância, pela possibilidade de exposição, pela relação com o perigo. As pesquisas contemporâneas sobre imagens de violência, que inicialmente se perguntavam por seus efeitos, deslocam agora a questão para o próprio ato de olhar: como se olha, quando e sob quais condições? No Líbano, essa reconfiguração visual se intensificou na última década: a imagem passou do registro do testemunho para o da experiência imediata. Quem filma muitas vezes já está imerso no acontecimento. O telefone tornou-se extensão do corpo: tremor, saturação sonora, choque, tudo agora se inscreve no enquadramento. Nesse momento, a posição do olhar se fissura. O espectador habita a imagem tanto quanto a contempla. Nós, se ainda é possível sustentar um “nós”, já não somos aqueles que observam a catástrofe à distância. Tornamo-nos aqueles que são observados. Esse deslocamento ultrapassa o próprio acontecimento. Ele se repete a cada crise, a cada escalada de tensão, a cada “nova catástrofe”. Mas desde a guerra de Gaza e ao longo das duas últimas guerras no Líbano, que ainda atravessamos, uma camada adicional se impôs a esse regime visual: as imagens já não pertencem apenas ao campo do testemunho. Elas incluem agora imagens falsificadas, geradas por inteligência artificial ou retiradas de outros contextos. Circulam na mesma velocidade, produzindo afetos reais na ausência do evento que pretendem documentar. Não se trata apenas de uma falha de representação, mas de um deslocamento do estatuto da imagem como prova. Em muitos casos, sua veracidade torna-se indecidível. “A imagem não é um substituto da realidade”, escreve Sontag. De índice, ela se tornou meio, lugar de circulação, de transformação, de reconfiguração da percepção. Nesse espaço, a posição do olhar se desloca mais uma vez: apoia-se em uma exposição contínua, em detrimento de uma inteligibilidade coerente. A imagem torna-se presença sem ponto de fixação. … Para se constituir, a memória exige limiares, um começo, um fim. No fluxo que agora é o nosso, o que subsiste pertence a um vestígio difuso, sem contornos. Sontag escreve que “a compaixão é uma emoção instável, que deve se converter em ação, sob pena de se esgotar”. No fluxo das imagens, a empatia se dissolve na seguinte. Algumas persistem, sem mediação. Outras se apagam apesar de sua intensidade. O que permanece não obedece a uma lógica de importância, mas a uma lógica de persistência no fluxo. Diante dessa saturação, a mente recorre, por vezes, a mecanismos de deslocamento ou de apagamento parcial. Em ambos os casos, não se trata de falta de importância, mas de excesso de exposição. A imagem não desaparece. Tampouco se inscreve. Daí a emergência de outra posição: a recusa de olhar. Algumas imagens, pela repetição, esgotam seu próprio sentido ou reproduzem a violência que carregam. Mas essa recusa não constitui uma saída: retirar as imagens do olhar não anula nem sua existência nem seus efeitos. O que fazer com esse acúmulo de edifícios que desabam? Desses animais mutilados? Dessas aldeias, por vezes familiares, que agora aparecem como vestígios de uma paisagem pós-apocalíptica? Para alguns, olhar é um privilégio de classe: aqueles que olham podem fazê-lo porque estão vivos, a salvo. Aqueles que foram soterrados tornaram-se imagem. Outros consideram que agora vivemos dentro de uma imagem, reproduzida sem nós. Outros ainda sustentam que olhar é um ato político: que nós, testemunhas vivas, participamos da fabricação da catástrofe, de sua prolongação, de seu arquivamento. Mas não arquivamos nada. Quase já não sentimos. Porque nos habituamos a olhar. Talvez a catástrofe, a única verdadeira, esteja precisamente aí: nesse hábito diante do visível.

A questão xiita
Por
Centro Libanês de Pesquisas e Estudos
Publicado
abr 13, 2026 - 13:35

Existe agora uma “questão xiita” que se impõe com força na realidade árabe, uma realidade que não está isolada de seu entorno regional, nem das políticas das grandes potências. Alguns consideram que a “questão xiita” revela, em certas de suas manifestações e circunstâncias, um enfraquecimento ou abalo da lealdade dos xiitas árabes em relação aos seus Estados nacionais, sob o efeito de um centralismo iraniano que busca expandir sua influência na região árabe explorando falhas já existentes e criando novas nas próprias bases desses Estados. Os xiitas alvo dessa acusação respondem de forma unânime e sustentam que sua mobilização em seus respectivos países decorre, seja da expressão de reivindicações e de uma exigência por justiça política e social, como demonstram o Iraque e os países do Golfo, seja de um engajamento ao lado de seus compatriotas no dever de resistir à agressão israelense, como no Líbano e na Palestina. A “questão xiita” se agravou após a guerra americana contra o Irã em março de 2026, a ponto de atingir os limiares de um despertar de velhos demônios, gerando um clima de sectarismo comunitário, fanatismo confessional e rejeição total do Outro. Essa rejeição se alimenta ainda mais do comportamento de certos grupos como o Hezbollah, de seu envolvimento nas matanças perpetradas no Líbano, na Síria, no Iraque e em outros lugares, sem contar os bombardeios iranianos que tiveram como alvo capitais árabes do Golfo ao longo da guerra em curso. O Líbano, por sua diversidade, possui uma vantagem singular para contribuir na correção da distorção que se generalizou no mundo árabe. Essa diversidade constitui a contribuição libanesa para o enriquecimento da civilização humana, uma contribuição necessária neste momento da história em que a humanidade atravessa um parto doloroso e em que se impõe uma questão de natureza existencial: como é possível viver juntos na diferença e na igualdade? Pois a saída dessa crise não se limita a esperar o desfecho da guerra irano-americana, nem às negociações libano-israelenses, nem a apostar por uma política de equilíbrio de forças. Tratar a “questão xiita” requer uma base cultural fundamentada na aceitação do Outro tal como ele é. No início do século XX, existia uma “questão cristã”: em vez de se separar do Outro, os maronitas escolheram o Grande Líbano, construído sobre o viver em comum. Neste início do século XXI, a “questão xiita” ressurge no Líbano. Qual será a escolha de suas elites, de seus pensadores e de seus líderes?

Conversações com Israel: Beirute priva o Irã da carta libanesa
Por
Michel Touma
Publicado
abr 11, 2026 - 19:00

Enquanto alguns habitantes de Beirute continuavam na sexta-feira, 10 de abril, a inspecionar os setores duramente atingidos na quarta-feira pela aviação israelense, no âmbito de um ataque surpresa contra líderes do Hezbollah implantados em diversos bairros da capital, os ataques aéreos prosseguiam no Sul contra várias aldeias da zona meridional do país. Um desses ataques resultou em 12 mortos (agentes da Segurança do Estado), em Nabatiyeh. Mas, na ausência de grandes desenvolvimentos no nível das operações militares, são as negociações diretas entre o Líbano e Israel, previstas para o início da próxima semana em Washington, que focam, no estágio atual, a atenção dos círculos diplomáticos e políticos locais. As informações disponíveis na sexta-feira indicavam que uma reunião preliminar será realizada na terça-feira no gabinete do Secretário de Estado, Marco Rubio, entre a embaixadora do Líbano em Washington, Nada Hamadé Moawad, e o embaixador de Israel, Yechiel Leiter. Este encontro a três permitirá, com toda probabilidade, definir o quadro geral ou as grandes linhas da agenda das conversações libanesas-israelenses nas áreas militar, de segurança, política e de relações bilaterais, numa perspectiva de paz entre os dois países. O Líbano deverá formar em breve comissões ad-hoc que serão encarregadas de conduzir as conversações bilaterais com os negociadores israelenses nas diferentes áreas de interesse comum. É importante notar, neste contexto, que o Hezbollah se declarou oposto a qualquer negociação direta entre o Líbano e Israel. Na tarde de sexta-feira, algumas dezenas de partidários do partido pró-iraniano organizaram em Zokak el-Blatt, em Hamra, e no centro da cidade, nomeadamente no setor do Grande Serail, manifestações para denunciar a posição do governo em relação às conversações com Israel, esquecendo, evidentemente, que o Hezbollah tinha negociado, indiretamente, com Israel em meados da década de 1990 (o que resultou nos Acordos de Abril), sem contar as conversações iniciadas em 2021-2022 pelo partido pró-iraniano com Israel, através do emissário americano Amos Hochstein (por sinal, antigo oficial do exército israelense) com vista à delimitação das fronteiras marítimas entre o Líbano e Israel. Os partidários do Hezbollah que foram às ruas na tarde de sexta-feira são, sem dúvida, jovens demais para saber, além disso, que durante a guerra Irã-Iraque na década de 1980, o regime dos mulás iranianos recorreu a… Israel para se abastecer de armas e munições a fim de enfrentar o exército de Saddam Hussein, o que provocou na época o famoso escândalo do Irangate. Seria bom também recordar as negociações (diretas) iniciadas entre o Líbano e Israel em 1983, após a guerra de 1982 («Operação Paz na Galileia»). Os negociadores libaneses e israelenses reuniam-se então, frente a frente, alternadamente em Khaldé e na cidade israelense de Netanya. Um desafio estratégico Muito além das escaladas populistas iniciadas pelo Hezbollah, é preciso notar, no contexto atual, que o desafio das negociações diretas com Israel reveste para o Líbano um caráter altamente estratégico. Este desafio foi claramente definido na quinta-feira, durante o Conselho de Ministros, pelo presidente Joseph Aoun, que sublinhou sem rodeios que «só o Líbano negocia por si mesmo, e ninguém pode negociar em nome do Líbano». A alusão à República Islâmica é evidente, na medida em que o poder iraniano insiste para que o Líbano seja incluído no cessar-fogo concluído entre Teerã e Washington. Em termos claros, isso significaria que o Irã se teria outorgado, nesse caso, o direito de monopolizar a carta libanesa em suas conversações com a Administração Trump. Ao engajar-se assim na via das negociações diretas com Israel, o presidente Aoun e o governo Salam reafirmam sua determinação em dissociar totalmente o caso do Líbano das manobras iranianas, o que equivaleria a arrancar a carta do Líbano das mãos da República Islâmica. Esta dissociação é vital para o poder libanês a fim de garantir uma resolução dos litígios com o Estado hebreu. Em meados da década de 1990, recorda-se a este respeito, negociações diretas ocorreram em Washington entre o Líbano e Israel, mas não alcançaram os resultados esperados porque Beirute havia condicionado sua aprovação a um acordo com Tel Aviv ao sucesso das conversações de Israel com o regime sírio, o qual então se absteve de assinar com o governo israelense, o que torpedeou o acordo libanês-israelense. O governo Salam busca assim manifestamente dissociar o caso do Líbano do dossier iraniano para não reiterar o precedente infeliz da concomitância desestabilizadora dos dois capítulos libanês e sírio na época. Esta dissociação é tanto mais fundamental hoje para o Líbano quanto os Guardiões da Revolução não parecem particularmente entusiasmados em concluir um acordo com os Estados Unidos, como indica sua posição sobre o estreito de Ormuz. «Doravante, seremos nós que decidiremos quais navios terão permissão para atravessar o estreito», afirmaram os Pasdaran na sexta-feira. Uma pequena frase que corre o risco, se concretizada nos fatos, de torpedear de fato as conversações de Islamabad, que deveriam começar no sábado.

Libano:o preço da guerra e o Estado suspenso
Por
Ziad Abdel Samad
Publicado
abr 8, 2026 - 18:45

Desde o início da última escalada militar na fronteira sul, o Líbano voltou ao primeiro plano do cenário regional enquanto espaço de confrontação aberta, reavivando velhas interrogações sobre o seu papel, os limites da sua autonomia decisória e a sua capacidade para suportar o custo de um envolvimento em conflitos que o ultrapassam. Neste contexto, impõe-se uma questão fundamental: como avaliar o bem-fundado desta confrontação de uma perspectiva estritamente libanesa, à luz das consequências que gerou nos planos militar, económico e social? Os dados no terreno apontam para um custo considerável. Vastas zonas do Sul sofreram danos graves nas infra-estruturas e nos bens e propriedades privados, enquanto ondas de deslocamento interno atingiram centenas de milhares de habitantes, agravando ainda mais os encargos sobre as regiões de acolhimento e sobre um Estado já às voltas com uma profunda crise económica e financeira. Sectores produtivos essenciais, a agricultura e o turismo em primeiro lugar, foram igualmente duramente afectados, no momento exacto em que a economia libanesa mais necessitava de qualquer margem de recuperação. As leituras divergem, porém, quanto aos ganhos militares reais. Alguns consideram que o envolvimento na confrontação se inscreve numa estratégia de dissuasão mais ampla, apoiada em equilíbrios regionais, e que visa impor novas equações ou consolidar as existentes. Outros entendem que os resultados não produziram nenhuma mudança qualitativa na correlação de forças, e que o tecto dos desfechos políticos permanece próximo dos arranjos anteriores às cessações das hostilidades — ou mesmo de um retorno aos efeitos concretos desses arranjos tal como vigoravam antes da última escalada —, o que suscita interrogações sobre a relação entre o custo assumido e os resultados obtidos, tanto mais que esta escalada se inscreveu ela própria em interacções regionais mais amplas e em lógicas que extravasam largamente o quadro estritamente libanês. Esta divergência de apreciação reflecte, em larga medida, um desacordo fundamental sobre o lugar do Líbano no seio do conflito regional. Trata-se de um actor directo dotado de uma margem de decisão independente, ou de um elo numa rede de alianças mais vasta em que os cálculos locais e regionais se entrelaçam de forma inextricável? A resposta não é de ordem meramente teórica: determina directamente a maneira como se compreende a guerra e como se julga a sua utilidade. No plano interno, a escalada reacendeu o debate sobre o papel do Estado e os limites da sua autoridade. A questão do monopólio das armas e da prerrogativa de decisão em matéria de guerra e paz continua a ser uma das mais sensíveis da vida política libanesa. Para uma parte do espectro político, concentrar esse poder no seio das instituições estatais constitui uma condição sine qua non para o reforço da soberania e para a construção de uma estabilidade duradoura. Para outra, a realidade de segurança e os equilíbrios existentes impõem fórmulas diferentes, e qualquer abordagem séria deste dossier deve levar em conta os receios e as apreensões mútuas entre as diferentes componentes libanesas. Este debate não é novo, mas os desenvolvimentos recentes conferem-lhe uma acuidade acrescida. A experiência demonstra que a pluralidade de centros de decisão gera desafios sérios ao nível da coordenação interna e da gestão de crises, influenciando igualmente a posição do Líbano nas suas relações externas, quer no que respeita à via diplomática, quer à sua capacidade de beneficiar do apoio internacional. Esta problemática liga-se a uma interrogação mais ampla sobre a natureza do sistema político. Desde a adopção do Acordo de Taëf, foram lançadas as bases para a reconstrução do Estado e o reforço das suas instituições, mas a aplicação tem sido muito desigual, sob o efeito conjugado de complexidades internas e de equilíbrios políticos em constante mutação, tanto locais como regionais. Esta implementação de geometria variável contribuiu para manter questões essenciais — a soberania, a reforma institucional — no campo de um debate aberto e perpetuamente irresoluto. Para além da dimensão soberana, coloca-se a questão da confiança dos cidadãos no Estado. As crises sucessivas, do colapso financeiro às sequelas da guerra, têm erodido essa confiança e levado largas franjas da população libanesa a apoiar-se em redes alternativas para satisfazer as suas necessidades. Esta realidade compromete, por sua vez, a possibilidade de construir um contrato social efectivo, fundado numa relação de reciprocidade entre o Estado e os cidadãos, articulada em torno de direitos e deveres. É neste quadro que se pode compreender o que é por vezes descrito como uma certa «selectividade» na aplicação das leis ou na abordagem dos assuntos públicos. Esta selectividade é em parte resultado da desconfiança face às instituições, ou do sentimento de certos grupos de que as regras não são aplicadas de forma equitativa. Contribui, todavia, ao mesmo tempo, para enfraquecer a própria ideia do Estado como referência comum e aglutinadora, dificultando qualquer tentativa de estabelecer regras estáveis de governação. No plano regional, o que se passa no Líbano não pode ser dissociado de um contexto mais amplo, atravessado pelas interacções entre potências internacionais e regionais. As experiências acumuladas nos últimos anos em várias arenas da região demonstraram como os Estados fragilizados internamente podem transformar-se em arenas onde estes conflitos se cruzam e se sobrepõem. O Líbano surge, nesta configuração, particularmente exposto à influência desses equilíbrios, em razão da sua composição interna e do emaranhamento das suas relações externas. É neste mesmo quadro que se inscreve o recente anúncio de um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão, com a duração de quinze dias e sob mediação paquistanesa, com vista a abrir um processo negocial entre as duas partes cujo objectivo seria alcançar uma resolução da crise que as opõe. Este processo levanta, porém, uma série de interrogações para o Líbano, na medida em que ainda não é claro se este acordo o abrange de forma directa ou indirecta. Coloca igualmente a questão do lugar do Líbano em tais arranjos, numa altura em que não dispõe de representação oficial à mesa das negociações, quando o Estado libanês deveria ser a única instância habilitada a negociar em seu nome. Esta situação ilustra uma problemática persistente ligada aos limites da soberania nacional: questões que dizem directamente respeito ao Líbano são tratadas em quadros negociais externos sem que o Estado ocupe o papel que de direito lhe caberia na definição da sua posição e das suas opções. Perante este quadro, as opções disponíveis não são nem simples nem unívocas. Uma abordagem realista exige reconhecer o entrelaçamento dos factores internos e externos, e admitir que qualquer caminho para a saída das crises requer um tratamento equilibrado desses factores, com base no reforço do Estado — e não na sua complacência ou no seu enfraquecimento. Isso implica, por um lado, fortalecer as instituições estatais e a sua capacidade de gerir os dossiers soberanos e os serviços públicos, de modo a garantir um Estado justo, submetido ao direito e garante da igualdade nos direitos; e, por outro, trabalhar para reduzir a polarização interna e construir um mínimo de consenso em torno das questões fundamentais, a fim de reforçar a legitimidade nacional sem cercear o papel ou a soberania do Estado. Em suma, a recente guerra no Líbano levanta muito mais questões do que respostas oferece. Revela a amplitude do preço que o envolvimento em conflitos de horizontes indefinidos pode acarretar, e lança nova luz sobre interrogações estruturais relativas ao Estado, à soberania e ao contrato social. Enquanto as leituras e as apreciações permanecem divididas, o desafio central continua a ser o de transformar esta experiência numa oportunidade de reavaliação das opções — em vez de se tornar mais um episódio na espiral das crises recorrentes.

Estamos nos aproximando do fim da guerra no Irã?
Por
Jacques Mechelany
Publicado
abr 7, 2026 - 18:49

Trinta e nove dias após o início da guerra, a questão que agora paira sobre o Oriente Médio já não é saber se esse conflito transformará o Irã. Ele já o fez. A verdadeira questão é saber se nos aproximamos do momento em que a guerra passará de sua fase destrutiva para sua fase política, esse momento em que os conflitos atingem historicamente seu ponto culminante e começam a emergir as bases da ordem do pós-guerra. Toda guerra segue uma trajetória brutal, mas reconhecível. Primeiro vem o choque. Depois, a escalada. Em seguida, a devastação. E, finalmente, quando os custos humanos, econômicos e políticos se tornam insustentáveis, começa a busca por um novo equilíbrio. Após quase seis semanas de operações militares contínuas, a guerra entre o Irã, os Estados Unidos, Israel e seus respectivos aliados parece entrar precisamente nessa fase. Os sinais tornam-se difíceis de ignorar. O custo da guerra O saldo do conflito é imenso. Em todo o Irã, grandes porções da infraestrutura militar foram danificadas ou destruídas. Instalações estratégicas, bases de mísseis, centros de comando e elementos do sistema energético foram atingidos repetidamente. As infraestruturas civis também foram fortemente impactadas. Redes elétricas, hubs de transporte e complexos industriais foram afetados em várias províncias. O custo econômico já alcança dezenas de bilhões de dólares, em um país cuja economia já estava fragilizada por anos de sanções e ineficiências estruturais. O custo humano é ainda mais devastador. Milhares de pessoas foram mortas. Muitas outras ficaram feridas. Um grande número de civis foi deslocado internamente à medida que as operações militares se intensificavam em torno de zonas estratégicas-chave. No plano financeiro, a pressão é igualmente severa. A moeda iraniana voltou a despencar, a inflação se acelerou e a já frágil estrutura orçamentária do país está agora submetida a tensões extraordinárias. Guerras de tal intensidade não podem se prolongar indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, o cálculo político começa a mudar. Negociações secretas Por trás da retórica pública de confronto total, canais diplomáticos mais discretos parecem ter sido abertos. Segundo Donald Trump e diversas fontes regionais, teriam ocorrido discussões entre os Estados Unidos e o Irã. Mas, de forma notável, essas discussões não parecem envolver o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica. Elas envolveriam, em vez disso, oficiais superiores do exército regular iraniano, o Artesh, com o exército paquistanês aparentemente desempenhando o papel de intermediário. Se isso se confirmar, trata-se de um desenvolvimento estratégico de grande magnitude. Há décadas, a estrutura militar iraniana se baseia em um sistema dual. De um lado está o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, uma força ideológica criada após a revolução de 1979 para proteger a República Islâmica e sua doutrina revolucionária. Do outro lado está o exército nacional iraniano tradicional, cuja cultura institucional precede a revolução e cuja missão historicamente tem sido a defesa do Estado iraniano, e não a exportação de uma influência ideológica. O equilíbrio entre essas duas instituições define há muito tempo a arquitetura interna do regime iraniano. O surgimento de negociações que contornam o Corpo de Guardiões pode, portanto, indicar algo muito mais profundo do que uma simples diplomacia de guerra. Pode indicar que o futuro político do Irã já está sendo discutido discretamente. A fase do ultimato As guerras frequentemente não terminam com um cessar-fogo súbito, mas com um ultimato. Um ultimato cumpre um objetivo estratégico preciso. Ele obriga os atores internos a escolher. Redefine o equilíbrio de poder dentro do campo derrotado. E cria as condições necessárias para uma transição política. Os sinais provenientes dos canais diplomáticos sugerem que o conflito pode estar entrando nessa fase. O ultimato não se dirige apenas aos líderes iranianos. Ele mira a estrutura de poder no Irã. Em essência, coloca uma questão fundamental: Quem controlará o Estado iraniano quando a guerra terminar? Os Guardiões da Revolução ou o exército nacional? A luta interna no Irã Essa disputa interna existe há décadas, embora raramente tenha sido visível do exterior. O Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica adquiriu um poder considerável ao longo dos últimos quarenta anos. Controla amplos setores da economia iraniana. Domina as principais instituições de segurança. Supervisiona os programas de mísseis do país e suas redes regionais de forças aliadas. Mas o exército regular iraniano continua sendo uma instituição ampla e profissional, profundamente enraizada no Estado iraniano e dotada de forte coesão interna. A guerra inevitavelmente alterou o equilíbrio entre essas forças. Quando os Estados enfrentam crises existenciais, as estruturas institucionais frequentemente evoluem rapidamente. A história oferece numerosos precedentes. Instituições militares por vezes emergem de crises de guerra como as únicas capazes de restaurar a ordem e a estabilidade. A possibilidade de que um poder de transição liderado pelos militares surja no Irã já não é inconcebível. Uma possível transformação religiosa Tal mudança também teria profundas implicações ideológicas. Desde 1979, o sistema político iraniano se baseia na doutrina do Velayat-e Faqih, a tutela do jurista islâmico, estabelecida pelo aiatolá Khomeiny e centrada no establishment religioso de Qom. Esse modelo funde autoridade religiosa e poder político. Mas dentro da própria teologia xiita, existe outra tradição. O establishment religioso xiita de Najaf, no Iraque, desenvolveu historicamente uma doutrina diferente, enfatizando a separação entre autoridade religiosa e governança política. Durante décadas, os estudiosos de Najaf defenderam um papel político mais limitado para o clero. Um Irã do pós-guerra dominado pelos militares poderia, portanto, marcar um afastamento radical do modelo revolucionário clerical de Qom em direção a uma governança mais próxima da tradição de Najaf, na qual a religião mantém influência, mas não governa diretamente o Estado. Tal transformação constituiria uma das mudanças políticas mais profundas no Oriente Médio desde a revolução iraniana. O dia seguinte à guerra As guerras muitas vezes parecem caóticas enquanto estão em curso. Mas seu desfecho geralmente revela as forças políticas profundas que se acumularam sob a superfície. Trinta e nove dias após o início desta guerra, os contornos desse desfecho talvez comecem a surgir. O conflito devastou as infraestruturas e a economia iranianas. Canais diplomáticos parecem se abrir nos bastidores. A fase do ultimato chegou. E, no próprio Irã, o ultimato e as consequências de seu descumprimento podem desencadear uma mudança no equilíbrio de forças entre o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica e o exército nacional. Se essas dinâmicas continuarem a evoluir nessa direção, a guerra pode não terminar simplesmente com um cessar-fogo. Pode-se encerrar com a reconfiguração do próprio Estado iraniano. A queda de regimes raramente decorre apenas de pressão externa. Na maioria das vezes, ocorre quando os pilares internos do poder começam a se realinhar. Se os sinais atuais se confirmarem, o Irã pode estar se aproximando precisamente de um momento desse tipo. E, quando as armas finalmente se calarem, o Oriente Médio poderá descobrir que a verdadeira transformação está apenas começando. Um novo Oriente Médio em que a destruição do Estado de Israel seja retirada da constituição iraniana, em que a religião seja separada da condução do Estado, em que acordos de paz sejam assinados entre o Irã e seus vizinhos do Golfo e em que garantias sejam estabelecidas para a livre circulação no estreito de Ormuz.

Os interesses por trás da guerra Irã-EUA
Por
Mona Fayad
Publicado
abr 5, 2026 - 12:28

Aqueles que estudaram a guerra, como Gaston Bouthoul ou Marvin Harris, nunca limitaram sua análise apenas à dimensão geopolítica imediata. Eles não se contentavam em perguntar “por que ela eclodiu?”, mas também “o que ela produz?” e “a quem ela serve?”. Pois as sociedades, quando se mostram incapazes de resolver suas contradições internas, tendem a exportá-las para o exterior, e a guerra passa então a funcionar como um meio de reorganizar o espaço interno por meio de uma violência dirigida para fora. Essa abordagem permite uma leitura das guerras contemporâneas que escapa à sua redução ao campo militar ou geopolítico. O conflito que hoje inflama o triângulo Irã-Estados Unidos-Israel não pode ser entendido apenas como um simples confronto de influência ou como dissuasão mútua. É preciso, antes, compreendê-lo como um processo complexo, com múltiplas funções: consolidar legitimidades internas em crise, redesenhar equilíbrios regionais e produzir narrativas de mobilização que redefinem simultaneamente o inimigo e o próprio “eu”. Para Bouthoul, a guerra deu origem à história, que começa com o relato das batalhas armadas. Ela constitui a fronteira que marca todas as grandes transformações e encarna uma das formas de passagem acelerada. Em Vacas, porcos, guerras e bruxas , Marvin Harris busca explicar os fenômenos culturais, religiosos e bélicos a partir de uma perspectiva material, econômica e ecológica. Sua abordagem ajuda a medir a importância dos recursos como fator de conflito e a mostrar que a economia e o papel geoestratégico constituem o pano de fundo dos confrontos aparentes. Também esclarece por que algumas comunidades permanecem em estado de guerra prolongado, apesar das perdas acumuladas: porque a guerra cumpre funções sociais inscritas no coração da estrutura material. Harris também relaciona a infraestrutura, entendida como economia, meio ambiente e tecnologia, à superestrutura formada pela religião, símbolos e crenças. No entanto, seu quadro analítico tem dificuldades para dar conta do papel da ideologia religiosa e política, seja ela xiita, sunita, sionista ou nacionalista, bem como do lugar das emoções, do ódio e da memória histórica, cuja força determinante ficou evidente nas ações agressivas do Irã contra os Estados do Golfo. Ele também deixa de lado as interações em tempo real entre líderes de Estado que marcam a atualidade. Convém, portanto, considerar a guerra em curso como um conflito de objetivos múltiplos. Os recursos estratégicos desempenham um papel decisivo no engajamento americano, por meio do fortalecimento da influência no Golfo, do controle dos corredores energéticos e das rotas marítimas e da afirmação da superioridade tecnológica. As táticas de manutenção da hegemonia se revelam no delicado equilíbrio que Washington tenta manter entre sua própria esfera de influência e as ameaças emergentes que a desafiam. As estruturas sociais internas dos Estados também têm seu peso: elites políticas e industriais exploram a instabilidade em benefício próprio, enquanto os aparelhos econômicos e militares lucram com a perpetuação das tensões. O conflito também serve para preservar a coesão interna de certos regimes, particularmente o de Benjamin Netanyahu, enquanto a “ameaça externa” se transforma em instrumento de controle social, como ocorre de forma evidente no Irã. É aqui que entra o fator simbólico, psicológico e diretamente político. Símbolos, memória e identidades exercem, especialmente no Oriente Médio, uma função central. A guerra atual também responde a motivações ideológicas, religiosas e nacionalistas que o materialismo cultural, por si só, não consegue esgotar. Ela envolve disputas por identidades, narrativas religiosas e históricas, segurança existencial e legitimidade interna. Decompor o conflito entre os três Estados permite revelar os interesses materiais ocultos pelo discurso ideológico e questionar quem se beneficia estruturalmente da continuidade da guerra. Do ponto de vista geográfico e de recursos, o Irã se apresenta como uma potência regional com grande profundidade territorial e vastas reservas energéticas, enquanto Israel, geograficamente limitado, baseia sua sobrevivência na superioridade tecnológica e militar, além do apoio americano. O teatro estratégico do confronto abrange o Golfo, os corredores energéticos e as águas regionais. O equilíbrio de forças revela que Israel mantém uma superioridade nuclear não declarada, diante de um programa nuclear iraniano voltado à dissuasão estratégica, enquanto uma corrida paralela por mísseis, drones e guerra cibernética intensifica ainda mais a tensão. Do lado americano, o conflito atinge a própria arquitetura da economia mundial. As sanções impostas ao Irã geram uma economia de resistência interna, enquanto as indústrias militares israelenses e americanas se beneficiam amplamente do clima de ameaça na região, e as tensões persistentes fornecem justificativa para alianças militares e de segurança em escala global. Assim, o conflito ultrapassa o simples antagonismo doutrinário e se configura como uma disputa por hegemonia, dissuasão e distribuição de poder em um ambiente excepcionalmente rico em recursos estratégicos. A questão central passa então a ser como o conflito serve à estrutura interna de cada ator. No Irã, a “ameaça israelo-americana” há muito reforça a narrativa de cerco, justifica o endurecimento do aparato de segurança e consolida a posição dos Guardiões da Revolução como instituição central do Estado. Em Israel, a ameaça iraniana fortaleceu a centralidade da segurança na vida política, consolidou correntes que percebem o perigo como existencial e produziu um grau de coesão social sem precedentes, apesar das profundas divisões internas. Para os Estados Unidos, permitiu manter o equilíbrio regional, consolidar alianças e administrar sua influência frente a potências emergentes. Nesse sentido, o conflito cumpre uma função social interna, gerando coesão por meio de um medo compartilhado. No plano da superestrutura simbólica, que engloba linguagem, religião e identidade, entram em cena grandes fórmulas como o apagamento de Israel, a defesa da existência, o apoio ao “eixo da resistência” e a ameaça nuclear. Essas fórmulas não são apenas discurso; funcionam como ferramentas de mobilização. Somam-se a isso a dimensão metafísica presente no discurso iraniano e o trauma histórico que, na consciência israelense, ressurgiu com intensidade renovada após a guerra de 7 de outubro, reativando a memória coletiva e a angústia existencial que esse trauma carrega. O conflito entre o Irã e Israel é estruturalmente solúvel? Ou tornou-se parte de um equilíbrio funcional que sustenta a própria sobrevivência dos regimes? Netanyahu não teria um interesse direto na continuidade das guerras? Donald Trump não dependeria desse equilíbrio estratégico para conter a aproximação entre China e Irã, limitar sua influência e reforçar projetos como a Nova Rota da Seda? O Irã, por sua vez, não precisa manter o regime diante de uma população em contestação? Ainda assim, o equilíbrio funcional descrito parece agora escapar a qualquer controle. Regimes que acreditam dominar a escalada permanecem expostos a eventos imprevisíveis, sejam um assassinato, um erro de cálculo ou um ataque decisivo. O resultado é uma guerra cujo custo recai sobre todos os atores, enquanto a própria sobrevivência do regime iraniano passa a estar em jogo.

O Estado e as armas ilícitas no Líbano
Por
Kassem El Saddik
Publicado
abr 2, 2026 - 15:54

O debate sobre o monopólio das armas pelo Estado no Líbano deixou de ser uma simples questão de soberania ou legalidade e tornou-se um verdadeiro teste da capacidade do Estado de cumprir suas funções essenciais. A problemática ultrapassou o plano do princípio em si, que conta com um consenso teórico quase unânime. O que falta são os instrumentos internos e uma visão estratégica nacional capazes de torná-lo aplicável, em um contexto de profundas imbricações regionais e de fragilidade econômica e institucional sem precedentes. A ausência de uma trajetória clara, a persistência de uma política de adiamento e a erosão do fator tempo podem, por si sós, constituir a ameaça mais grave à estabilidade do Líbano e ao futuro do seu Estado. O debate sobre o monopólio das armas pelo Estado no Líbano deixou de ser um debate soberanista clássico, centrado na aplicação da Constituição ou na execução da resolução 1701. Transformou-se em uma prova existencial da capacidade do Estado de exercer suas funções essenciais. A questão central hoje reside no enorme fosso que separa a decisão soberana da capacidade real de concretizá-la no âmbito de uma visão nacional e de um consenso social abrangente, e não mais na validade de um princípio cujo consenso teórico é quase geral. Essa mudança revela toda a gravidade do momento atual. A vontade política já não é suficiente. O que está em jogo agora é a capacidade estrutural. O Estado libanês encontra-se em uma situação inédita de falta de instrumentos. Não dispõe de um mecanismo interno decisivo diante do Hezbollah, nem de apoio regional favorável, nem de solidariedade internacional suficiente, seja política, securitária, econômica ou financeira. Mais do que um enfraquecimento conjuntural, essa realidade mostra que a decisão de monopolizar as armas, embora legítima em princípio, tornou-se refém de um triângulo de impotência: incapacidade de impor, de negociar a partir de uma posição de força e de assumir o custo de um eventual fracasso. Restaurar a primazia do Estado A persistência de armas fora do controle estatal é apenas a face visível do problema. Mais grave ainda é o fato de que o fosso entre decisão e capacidade tornou-se, ele próprio, um fator de instabilidade. Um governo, incluindo a presidência, que proclama um objetivo soberano e estratégico sem dispor dos meios concretos para alcançá-lo se expõe a riscos sérios, colocando em jogo sua própria credibilidade, como se fosse um ator secundário e não plenamente soberano. O verdadeiro desafio ultrapassa a questão das armas e reside na capacidade de alinhar a ambição soberana à capacidade real, preservando ao mesmo tempo a estabilidade social interna. Para compreender esse momento, é necessário retomar o contexto em que a questão do monopólio das armas assumiu sua forma atual. Esse dossiê é resultado de um processo acumulado desde os acordos de Taëf, que permaneceu em suspenso por décadas devido aos equilíbrios herdados da guerra civil. O elemento novo é que esse processo saiu do campo do discurso político e entrou no das decisões executivas, sobretudo após a guerra de apoio a Gaza em 2024 e os acordos de segurança restritivos que a acompanharam. Acordos que o Hezbollah aceitou e ajudou a moldar como ator central, por meio de seu aliado, o chefe do movimento Amal e do Parlamento libanês, em lugar do Estado ou do governo, no âmbito da declaração de cessar-fogo entre o Líbano e Israel de 26 a 27 de novembro de 2024 e da reativação da aplicação da resolução 1701. A passagem à implementação dessa decisão revelou rapidamente os limites da capacidade do Estado. O relativo sucesso obtido com o deslocamento do Exército libanês ao sul do rio Litani não foi tanto resultado de um acordo político interno, mas das circunstâncias impostas pelos desdobramentos da guerra de apoio a Gaza e das pressões decorrentes. Já a tentativa de restabelecer o monopólio da força no restante do território expôs as complexidades estruturais do sistema libanês, onde questões de soberania se entrelaçam com imperativos de estabilidade e cálculos internos se cruzam com dinâmicas regionais, abrindo espaço para acusações de falta de seriedade no cumprimento dos compromissos assumidos. A obsolescência da noção de “Resistência” O tema do monopólio das armas entrou, assim, em uma fase que pode ser descrita como de “adiamento estratégico”, semelhante a outros dossiês sensíveis, como o déficit financeiro ou o caso do porto de Beirute. Trata-se de uma situação em que o Estado não consegue avançar de forma decisiva, o Hezbollah não está disposto a recuar, a comunidade internacional não consegue impor uma solução, o ambiente regional não permite uma resolução rápida e o cenário interno não chega a um consenso. Isso revela que o problema deixou de ser técnico ou securitário e passou a refletir uma disfunção mais profunda nas relações entre o Estado e a sociedade libanesa. Nesse contexto, é impossível ignorar a transformação mais significativa no cenário político libanês: o enfraquecimento progressivo da ampla legitimidade nacional da noção de “Resistência”. Antes de 2000, esse conceito era distinto do que se tornou depois, pois os três pilares que sustentavam sua legitimidade — a libertação do território, a dissuasão de Israel e a atuação dentro de um projeto nacional unificador — foram gradualmente se desgastando. O Hezbollah concentrou sua base em seu próprio ambiente social, em detrimento do Estado, mobilizando recursos de uma economia de renda e substituindo o Estado fragilizado da época, consolidando sua influência política e social e estabelecendo mecanismos internos que garantem sua permanência. Além disso, as armas nunca foram integradas a uma estratégia nacional de defesa compartilhada, permanecendo fora das instituições e constituindo uma estrutura militar com ramificações regionais. O envolvimento em conflitos regionais, especialmente na Síria, contribuiu para transformar a imagem dessas armas de instrumento de resistência e defesa em ferramenta de projeção de influência regional. Por fim, os colapsos econômicos e as guerras sucessivas acrescentaram um novo fator: o elevado custo social que amplos setores da população libanesa passaram a suportar em consequência de decisões nas quais não tiveram participação. Atribuir um papel soberano ao Exército Essa evolução não levou ao colapso total do conceito de “Resistência”, mas o deslocou de uma legitimidade nacional abrangente para uma legitimidade parcial, vinculada a um contexto político e social específico. Surge então a questão central: se esse modelo perdeu parte de sua legitimidade, o Estado é capaz de preencher esse vazio? O problema ultrapassa as armas em si e diz respeito à ausência de uma estratégia nacional de defesa alternativa, capaz de gerar confiança. O Estado libanês, apesar de sua legitimidade formal, não dispõe de capacidades militares nem de uma doutrina de dissuasão que lhe permita enfrentar agressões israelenses, especialmente porque os dois países continuam sob um regime de armistício frequentemente violado. Trata-se não apenas de uma insuficiência de recursos, mas também de uma doutrina militar herdada dos acordos de Taëf, que privilegiou a estabilidade interna em detrimento da preparação para conflitos externos, além de um apoio internacional que reforçou mais o papel do Exército como força de segurança interna do que como força de combate. Por isso, o debate sobre o monopólio das armas permanece incompleto se não estiver ligado à construção de uma estratégia de defesa nacional viável. Nesse contexto, o debate libanês se organiza em torno de três abordagens. A primeira, soberanista, identifica a dualidade de poder como o problema central e defende o monopólio estatal das armas como ponto de partida, conforme os acordos de Taëf e as resoluções internacionais. É sólida em seus princípios, mas tende a ignorar as condições materiais de sua aplicação. A segunda, realista, considera que qualquer solução deve passar por um processo gradual e negociado, evitando confrontos diretos devido à fragilidade interna do país. Embora mais pragmática, essa abordagem frequentemente resulta apenas na gestão da crise, sem resolvê-la. Reconquistar o monopólio das armas A terceira, crítica, sustenta que o calendário desse tema está mais ligado a pressões externas, especialmente aos equilíbrios do pós-guerra e às pressões americano-israelenses, do que a um consenso interno. Questiona a viabilidade de sua implementação plena enquanto persistirem as violações israelenses e o controle do Hezbollah sobre decisões de guerra e paz. Ainda assim, não oferece uma alternativa coerente. Essas abordagens refletem uma divergência mais profunda sobre a natureza do Estado libanês: um Estado capaz de recuperar o monopólio das armas, um sistema de equilíbrios internos a preservar ou um espaço de disputas regionais a neutralizar. A ausência de uma resposta unificada explica por que o debate sobre as armas se transforma, repetidamente, em um questionamento sobre a própria natureza do Estado. Tudo isso remete à dimensão regional do problema. A decisão sobre as armas no Líbano nunca foi exclusivamente nacional. Os vínculos entre o Hezbollah e o Irã, sua relação com os acordos de cessar-fogo com Israel e sua inserção nas negociações entre Washington e Teerã colocam essa decisão além do alcance do Estado libanês, reduzido a um papel secundário. Esse quadro é agravado pela crescente pressão internacional sobre o Líbano para adotar medidas internas, enquanto a própria comunidade internacional demonstra capacidade limitada de garantir as condições regionais necessárias. A hipótese de um distanciamento entre o Hezbollah e o Irã permanece incerta. Em contextos de pressão extrema, alianças tendem a se fortalecer, não a se dissolver. A lógica da pressão máxima pode levar tanto a um recuo tático quanto a um endurecimento ainda maior, no qual as armas passam a ser vistas como garantia de sobrevivência política e instrumento de negociação. Nesse cenário, as armas deixam de ser apenas um instrumento militar e passam a representar um mecanismo de sobrevivência política e organizacional, o que fragiliza ainda mais a posição do Estado libanês. No centro dessa crise está a própria fragilidade do Estado. O Líbano enfrenta uma crise financeira profunda, instituições debilitadas, divisões políticas internas e pressões de segurança intensas. Soma-se a isso o deslocamento massivo de populações do sul do país, que ultrapassa o plano humanitário e pressiona serviços, recursos locais e redes sociais já fragilizadas. Relatórios indicam que a continuidade desse deslocamento pode gerar tensões e politização da questão, especialmente em um país marcado por divisões confessionais, transformando-se em fator de instabilidade latente. O Exército libanês, principal instrumento dessa política, atua com extrema cautela. Conseguiu se posicionar ao sul do Litani, dentro de limites definidos, mas a expansão para outras regiões revela desafios mais profundos. Essa prudência não é passividade, mas uma estratégia de preservação institucional, diante do risco de fragmentação interna. Essa cautela se intensifica diante da fragilidade do Estado, cujas instituições enfrentam dificuldades para operar plenamente desde o colapso financeiro de 2019, sobrevivendo com recursos limitados e apoio externo insuficiente. Além disso, o Estado dispõe de pouca margem de manobra. Não possui instrumentos de pressão nem alianças decisivas, sendo frequentemente percebido como um ator secundário nas negociações. Mesmo quando impõe condições, como um cessar-fogo total, não dispõe de meios para fazê-las cumprir. Dados recentes mostram que até mesmo aliados internacionais reconhecem a discrepância entre as expectativas impostas ao Líbano e sua capacidade real de ação. Ainda assim, esse reconhecimento não se traduz necessariamente em apoio efetivo. O país enfrenta, assim, uma equação difícil: é pressionado a tomar decisões soberanas sem ter capacidade de implementá-las nem de controlar suas consequências. Em última análise, o Líbano vive uma situação inédita de falta de instrumentos, enfrentando simultaneamente agressões externas, pressões regionais, crise econômica persistente, fragilidade de segurança e limitada margem internacional. O maior risco, portanto, não reside apenas nas armas, mas na ausência de uma estratégia nacional clara e realista que defina etapas, condições, custos e garantias. Persistir na política de adiamento, deixando o tempo correr sem direção definida, pode tornar-se mais perigoso do que tomar decisões.

O Líbano entre a espiral da violência e a reconfiguração da sociedade
Por
Mona Fayad
Publicado
mar 24, 2026 - 04:46

O que se passa hoje no Líbano já não pode ser compreendido no quadro de uma guerra ou de um conflito convencional, mas naquilo que René Girard descreveu como a “espiral da violência”: a violência deixa de ser um meio para se tornar um sistema autónomo que se reproduz a si próprio pelo discurso antes de o fazer no terreno. Neste contexto, o discurso do Hezbollah, tanto quanto as declarações de figuras como Mahmoud Komati, não pode ser lido como expressão conjuntural ou emocional. Estamos perante uma estrutura discursiva coerente, que transcende o político para reconfigurar a sociedade pela força simbólica e material em simultâneo — o próprio discurso tornando-se instrumento de remodelação do real, e não simples reflexo dele. É aí que se revela a perigosidade de um discurso político fundado na acusação de traição e na ameaça: não como desvio conjuntural, mas como componente de uma estrutura mais profunda que procura redefinir as noções de Estado, sociedade e legitimidade. René Girard oferece um quadro analítico de importância capital para compreender o que se produz, através dos seus conceitos de “violência fundadora” e de “mecanismo do bode expiatório.” A violência, segundo Girard, só se perpetua se for relegitimada por um discurso moral que lhe confere um carácter de necessidade ou sacralidade. No caso libanês, observa-se com nitidez: a conversão da guerra em dever moral, a redefinição da derrota como “sacrificio,” e a redução da oposição ao conceito de “traição.” Neste sentido, a acusação de traição não é utilizada como ferramenta descritiva, mas como mecanismo de exclusão, preparando o isolamento do dissidente e espoliando-o da sua legitimidade. Na sua teoria do bode expiatório, Girard mostra que as sociedades em crise tendem a deslocar a sua tensão interna para uma vítima substituta a quem é imputada a responsabilidade do caos. O que testemunhamos hoje é um deslizamento progressivo: de um inimigo exterior claramente identificado para um inimigo interior de múltiplos rostos, que engloba os meios de comunicação, os opositores e até os cidadãos inquietos. Este deslizamento não é um pormenor: é o índice de uma crise profunda na estrutura da legitimidade, onde a manutenção da coesão interna fica condicionada à produção de um “inimigo interior.” A espiral da violência como mecanismo autorregenerador Jeanne-Henriette Louis, na sua obra L’engrenage de la violence, propõe um quadro complementar, que esclarece como a violência se transforma num sistema fechado que se reproduz a si próprio: a violência gera o medo, o medo gera o silêncio, e o silêncio permite mais violência. No caso libanês, este ciclo manifesta-se com clareza: uma guerra que esgota incessantemente a sociedade, um discurso que a justifica e interdita todo o questionamento, uma pressão social e mediática para sufocar as vozes discordantes. O resultado não é apenas a perpetuação da violência, mas a sua consolidação como norma. A adaptação à violência Alguns lêem positivamente a adaptação da sociedade a esta violência — o que os escritos de Boris Cyrulnik contradizem, através da sua análise do fenómeno da “adaptação ao trauma.” As sociedades sujeitas a traumas repetidos podem desenvolver mecanismos de defesa que as levam a aceitar o que anteriormente era considerado inaceitável. No Líbano, esta adaptação manifesta-se em: a banalização do deslocamento em massa de centenas de milhares de pessoas, a aceitação da destruição como um dado adquirido, o silêncio perante o discurso de ameaça interior. Esta adaptação não significa recuperação; indica, pelo contrário, uma disfunção profunda na percepção do real, onde o trauma é absorvido em vez de tratado. A mutação mais saliente do discurso actual do Hezbollah continua a ser a sua passagem da expressão à imposição. O discurso já não procura persuadir; visa impor uma definição particular do patriotismo, monopolizar a designação do inimigo, intimidar os que discordam. O que significa concretamente o surgimento de um poder paralelo ilegítimo: capaz de tomar decisões existenciais (como a guerra), sem ter de prestar contas a qualquer instituição. Mas o paradoxo reside no abismo entre a narrativa e a realidade: face ao discurso de poder e de vitória, o Líbano confronta uma realidade radicalmente diferente — o deslocamento de centenas de milhares de cidadãos, a destruição massiva das infra-estruturas, o aprofundamento do colapso económico, a erosão das instituições do Estado. Este fosso entre a narrativa e a realidade não é uma mera contradição: é um elemento constitutivo da perpetuação da crise, na medida em que impede qualquer revisão séria ou verdadeira prestação de contas. Isto conduz-nos à desintegração do próprio contrato social: em qualquer Estado, a decisão de guerra é uma das expressões mais significativas da soberania, e está sujeita ao princípio da responsabilidade. Mas no caso libanês: a decisão é tomada fora dos quadros oficiais, as suas consequências são impostas à sociedade, e todo o debate a esse respeito é proibido. Esta realidade conduz à desintegração do contrato social, onde o cidadão perde o seu papel de parceiro na decisão e se transforma em simples receptor dos seus efeitos. O Líbano encontra-se hoje perante uma encruzilhada decisiva. A questão já não é apenas a de uma confrontação exterior, mas a da natureza do sistema interior que se forma sob a pressão da guerra e do discurso que a acompanha. Se a espiral da violência, tal como Girard a descreve, prosseguir sem ser quebrada, não conduzirá à estabilidade, mas a uma escalada e uma explosão acrescidas. E se a adaptação ao trauma se prolongar, como Cyrulnik nos adverte, a sociedade perderá progressivamente a sua capacidade de distinguir o normal do anormal. O verdadeiro perigo não reside apenas na guerra, mas na sua transformação em estado permanente, reconfigurando a sociedade com base no medo e não na cidadania. Quebrar este ciclo começa por retomar as questões fundamentais: Quem detém o poder de decidir a guerra? Quem suporta a responsabilidade? E qual é o lugar do cidadão em tudo isto? Sem isso, o Líbano não será um Estado, mas uma arena aberta a conflitos que ultrapassam a sua capacidade de resistência.

Quando recusar negociar se torna ignorância ou traição
Por
Mona Fayad
Publicado
mar 18, 2026 - 16:26

No momento que o Líbano atravessa, o debate já não gira em torno de questões técnicas, como saber se a negociação com Israel será direta ou indireta, ou se virá antes ou depois de uma trégua. Essas perguntas são secundárias diante da questão central, que se impõe com força: por que negociar e o que significa, para um Estado, recusar fazê-lo? Em sua definição mais básica, a negociação nas relações internacionais não é sinal de fraqueza nem de capitulação. É o instrumento natural de que os Estados dispõem para administrar conflitos quando o custo da guerra supera sua capacidade de sustentá-la. É assim que funcionam os estados racionais. As próprias guerras sempre terminam em negociação, depois do sangue e da destruição, quando os beligerantes percebem que a força, por si só, não resolve problemas nem produz estabilidade duradoura. Por isso, estados que travaram guerras devastadoras ainda assim negociaram. Os Estados Unidos negociaram com o Vietnã após um longo conflito; o Egito negociou com Israel depois de duas grandes guerras; potências europeias, após séculos de confrontos, acabaram construindo uma nova ordem política em seu continente. A negociação não é exceção na história política; é a regra. É justamente por isso que a recusa em negociar, em um país devastado onde centenas de milhares de cidadãos foram deslocados, constitui uma posição moralmente inaceitável e difícil de explicar. Em momentos assim, recusar-se a negociar não é uma postura heroica. É um dos seguintes sintomas: ignorância sobre a natureza das relações internacionais, fuga de responsabilidade, desprezo pela vida humana e pelo destino do país; ou então indica que quem bloqueia a negociação não pode aceitá-la sem o aval de sua tutela, no caso o Irã, e que é ele quem encarna o verdadeiro “governo de Vichy”, e não o governo libanês — invertendo assim a acusação que Mahmoud Komaty, deputado, havia feito contra o Estado. O Líbano vive hoje um dos momentos mais perigosos desde o fim da guerra civil. Mais de 800 mil libaneses fugiram de suas casas no Sul e em outras regiões, e nada indica claramente se ou quando poderão voltar. Vilarejos inteiros se transformaram em cidades fantasma. Uma economia que já respirava com dificuldade antes da guerra agora está à beira do colapso total. Ainda assim, o debate no país segue como se a questão fosse apenas um desacordo teórico sobre a forma da negociação. Mas a verdade, simples e dura, é que essa guerra não foi decidida pela República libanesa. Não foi declarada pelo Conselho de Ministros, nem ratificada pelo Parlamento, nem solicitada pela população. Quem decidiu abrir essa frente foi o Hezbollah, isto é, uma força militar que há anos atua fora do Estado, dominando-o por dentro, estrategicamente ligada ao Irã e integrada aos seus conflitos regionais. É aí que está o nó central. Para o partido, a guerra não é contra Israel nem uma defesa do Líbano, mas um fragmento da batalha regional do Irã. Por isso, seus dirigentes a chamam de “batalha existencial”. Na prática, porém, ela é existencial para o próprio partido e para seu papel regional, não para o povo libanês nem para o Estado, que paga o preço em destruição, deslocamento e colapso econômico. Diante dessa lógica, Israel conduz a guerra a partir de uma perspectiva radicalmente diferente. Para o Estado israelense, o que ocorre pode representar uma oportunidade única de eliminar a ameaça militar que o Hezbollah representa em sua fronteira norte. Não é realista, portanto, esperar que Israel encerre suas operações com facilidade, nem que se contente com um cessar-fogo provisório que restabeleça a situação anterior. A lógica militar e política israelense sugere que esta pode ser a última oportunidade de mudar a equação no Líbano. Entre essas duas lógicas, o Líbano, enquanto Estado, se encontra em quase total impotência. Um Estado que não decidiu a guerra, mas paga por ela; um Estado chamado a negociar, embora a decisão de lutar não lhe pertença. É por isso que o chefe de Estado propõe a negociação. Não porque seja uma escolha confortável, nem porque as condições sejam ideais, mas porque continuar a guerra significa empurrar o Líbano para a ruína total. Negociar, nesse contexto, não é um luxo político, mas uma necessidade nacional para preservar o que ainda resta da sociedade e do Estado. O problema, porém, não está no princípio da negociação, e sim no contexto político que a envolve. Em um país onde o Estado não detém o monopólio das armas nem da decisão militar, negociar se torna uma tarefa quase impossível. Como um Estado pode negociar o fim de uma guerra quando um ator interno a mantém, tem capacidade de reativá-la a qualquer momento e age segundo cálculos regionais alheios ao interesse direto do Líbano? É justamente aí que surge o risco mais grave. O Líbano pode acabar no pior dos cenários: uma guerra prolongada que não pode encerrar e um acordo humilhante imposto de fora após uma destruição ainda maior. Não se trata de hipótese abstrata. A história recente do país é marcada por situações que teve de aceitar sem poder decidir por si próprio. O verdadeiro debate que os libaneses precisam travar hoje não diz respeito à forma das negociações, mas à retomada, pelo Estado, do poder de decidir sobre guerra e paz. Um Estado que não controla essa decisão não pode proteger sua população, nem negociar em seu nome. Em última análise, nenhum Estado pode viver indefinidamente sob um regime de guerra aberta, e nenhuma sociedade pode suportar o deslocamento de centenas de milhares de seus cidadãos sem perspectiva de retorno. Por isso, negociar não é uma escolha moral ou ideológica, mas um dever político e ético diante da população. Transformar a recusa em negociar em um símbolo heroico, enquanto o povo paga a guerra com a própria vida, com suas casas, seus meios de subsistência e o futuro de seus filhos, não é heroísmo. No melhor dos casos, é uma ilusão política perigosa; no pior, é desprezo pelo destino de um país inteiro e uma traição àqueles que confiaram sua proteção a seus dirigentes. A pergunta que definirá o futuro do Líbano já não é: devemos negociar ou não? A verdadeira pergunta tornou-se mais simples e mais urgente: Qual é o destino do Líbano?