

No Líbano, a educação deveria libertar as mentes. Os proxies do Irã a transformaram em uma arma.
O Líbano por muito tempo se orgulhou de uma convicção rara na região, fazendo da educação um caminho e não um privilégio.
O Líbano é um país onde, apesar das guerras, dos sucessivos colapsos e da deterioração política, os pais ainda reúnem o pouco que têm para enviar seus filhos à escola. Um país cujas salas de aula historicamente formaram médicos, engenheiros, escritores e pensadores, e não mártires para os Guardiões da Revolução iraniana.
Os números contam parte dessa história. O Líbano apresenta uma das taxas de alfabetização mais altas da região, em torno de 98%. Durante anos, figurou entre os primeiros países do mundo em termos de qualidade percebida de seu ensino. Matemática e ciências não são tratadas como luxo, mas como necessidade, frequentemente ensinadas em inglês ou francês desde cedo. A educação aqui não se limita à aquisição de conhecimento; ela envolve mobilidade, dignidade e emancipação do sectarismo, da violência e das limitações sufocantes impostas pela geografia.
Hoje, porém, é essa própria ideia que está sob ataque.
As recentes ameaças e ações dos Guardiões da Revolução Islâmica do Irã contra instituições americanas no Líbano e em toda a região não são apenas mais um episódio em um longo ciclo de escalada. Revelam algo mais profundo e perturbador: uma tentativa deliberada de redefinir o que significa educação em países como o Líbano.
Porque, para o Hezbollah, o braço mais enraizado dos Guardiões da Revolução no país, a educação não é uma ferramenta de emancipação. É uma ferramenta de controle.
Onde as famílias libanesas veem nas escolas pontes para o mundo, o Hezbollah vê fábricas de lealdade. Onde os pais esperam que seus filhos aprendam álgebra para construir um futuro, o partido enxerga a geometria como um meio de calcular trajetórias. A física deixa de servir para compreender o mundo natural; passa a ser um instrumento para aperfeiçoar a curva de um foguete ou a estabilidade de um drone. A química é esvaziada de curiosidade e convertida em letalidade.
Isso não é metáfora. É doutrina.
O ecossistema educacional do Hezbollah, suas escolas, seus movimentos de escoteiros, seus programas juvenis e suas instituições culturais, funciona há muito tempo como um sistema paralelo, que reproduz as formas do Estado enquanto subverte sua finalidade. As crianças não aprendem apenas a ler e escrever; aprendem a obedecer, a venerar e, por fim, a combater. A linguagem da resistência se infiltra cedo, envolta em símbolos de martírio e sacrifício, até se tornar inseparável da própria identidade.
Nesse sentido, o recente direcionamento contra instituições americanas, seja retórico ou operacional, segue uma lógica perfeitamente coerente. Universidades como a Universidade Americana de Beirute não são apenas edifícios. Elas encarnam uma ideia que se opõe frontalmente ao que o Hezbollah e os Guardiões da Revolução procuram impor.
Elas representam a dúvida diante do dogma. O questionamento diante da doutrinação. Um espaço onde um estudante pode questionar a autoridade em vez de se submeter a ela.
E é precisamente por isso que são vistas como ameaças.
A consequência mais devastadora talvez nem seja a militarização da educação em si, mas a destruição silenciosa do ecossistema que outrora tornava o ensino libanês excepcional. O Hezbollah, em conjunto com uma classe política que escolheu normalizar, acomodar e, por fim, legitimar sua ordem paralela, erodiu progressivamente a própria diversidade que alimentava a vida intelectual do país. O modelo educacional libanês nunca foi apenas uma questão de currículos ou rankings; sempre foi uma questão de pluralidade. Salas de aula onde línguas se cruzavam, onde histórias competiam, onde identidades coexistiam sem se dissolver umas nas outras. Esse ecossistema frágil, mas vital, era o motor de uma criatividade que formava gerações capazes de pensar além dos limites da seita, da ideologia e do medo.
Hoje, esse espaço está se estreitando. Não por decreto formal, mas sob o efeito da pressão, da intimidação e do sufocamento lento da dissidência. O que se perde não é apenas a autonomia institucional, mas a própria condição que tornava o aprendizado significativo no Líbano: a liberdade de ser diferente.
Não é por acaso que regimes e milícias baseados na rigidez ideológica temem mais os campi do que os exércitos. Exércitos podem ser dissuadidos, negociados ou até derrotados. Mas ideias, uma vez libertadas, são muito mais difíceis de conter. Um estudante formado no pensamento crítico é infinitamente mais perigoso para um projeto autoritário do que qualquer adversário externo.
O Líbano hoje se encontra no cruzamento dessas duas visões.
De um lado, uma crença frágil, mas persistente, na educação como meio de sobrevivência e transcendência. De outro, um esforço disciplinado e bem financiado para esvaziar essa crença, substituindo-a por uma visão de mundo militarizada, na qual o conhecimento serve apenas ao campo de batalha.
A tragédia não é apenas que esses dois sistemas coexistam. É que um avança inexoravelmente sobre o outro.
Quando uma criança aprende matemática para resolver equações, ela está sendo preparada para construir algo: uma economia, uma carreira, uma vida. Quando esse mesmo conhecimento é redirecionado para ajustar um canhão ou programar um drone, ele se torna outra coisa: uma arma disfarçada de educação.
E no Líbano, essa transformação acontece à vista de todos.
O ataque contra instituições educacionais, seja na forma de ameaças, intimidações ou algo ainda pior, não é acidental. É estratégico. Trata-se de uma tentativa de cortar o Líbano de um dos poucos pilares que ainda o conectam ao mundo e a si mesmo.
Porque um Líbano que continua a educar livremente é um Líbano que não pode ser totalmente controlado.
E é aí, em última instância, que está a verdadeira questão.
Não são os mísseis. Não são os drones. Nem mesmo a geopolítica em seu sentido mais restrito.
Mas a batalha, muito mais decisiva, que se trava em torno do que a próxima geração de libaneses aprenderá e do que ela se tornará.