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Quando recusar negociar se torna ignorância ou traição

O Líbano entre a guerra e a negociação

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Por Mona Fayad
Publicado mar 18, 2026 - 16:26

No momento que o Líbano atravessa, o debate já não gira em torno de questões técnicas, como saber se a negociação com Israel será direta ou indireta, ou se virá antes ou depois de uma trégua. Essas perguntas são secundárias diante da questão central, que se impõe com força: por que negociar e o que significa, para um Estado, recusar fazê-lo?

Em sua definição mais básica, a negociação nas relações internacionais não é sinal de fraqueza nem de capitulação. É o instrumento natural de que os Estados dispõem para administrar conflitos quando o custo da guerra supera sua capacidade de sustentá-la. É assim que funcionam os estados racionais. As próprias guerras sempre terminam em negociação, depois do sangue e da destruição, quando os beligerantes percebem que a força, por si só, não resolve problemas nem produz estabilidade duradoura.

Por isso, estados que travaram guerras devastadoras ainda assim negociaram. Os Estados Unidos negociaram com o Vietnã após um longo conflito; o Egito negociou com Israel depois de duas grandes guerras; potências europeias, após séculos de confrontos, acabaram construindo uma nova ordem política em seu continente. A negociação não é exceção na história política; é a regra.

É justamente por isso que a recusa em negociar, em um país devastado onde centenas de milhares de cidadãos foram deslocados, constitui uma posição moralmente inaceitável e difícil de explicar. Em momentos assim, recusar-se a negociar não é uma postura heroica. É um dos seguintes sintomas: ignorância sobre a natureza das relações internacionais, fuga de responsabilidade, desprezo pela vida humana e pelo destino do país; ou então indica que quem bloqueia a negociação não pode aceitá-la sem o aval de sua tutela, no caso o Irã, e que é ele quem encarna o verdadeiro “governo de Vichy”, e não o governo libanês — invertendo assim a acusação que Mahmoud Komaty, deputado, havia feito contra o Estado.

O Líbano vive hoje um dos momentos mais perigosos desde o fim da guerra civil. Mais de 800 mil libaneses fugiram de suas casas no Sul e em outras regiões, e nada indica claramente se ou quando poderão voltar. Vilarejos inteiros se transformaram em cidades fantasma. Uma economia que já respirava com dificuldade antes da guerra agora está à beira do colapso total. Ainda assim, o debate no país segue como se a questão fosse apenas um desacordo teórico sobre a forma da negociação.

Mas a verdade, simples e dura, é que essa guerra não foi decidida pela República libanesa. Não foi declarada pelo Conselho de Ministros, nem ratificada pelo Parlamento, nem solicitada pela população. Quem decidiu abrir essa frente foi o Hezbollah, isto é, uma força militar que há anos atua fora do Estado, dominando-o por dentro, estrategicamente ligada ao Irã e integrada aos seus conflitos regionais.

É aí que está o nó central. Para o partido, a guerra não é contra Israel nem uma defesa do Líbano, mas um fragmento da batalha regional do Irã. Por isso, seus dirigentes a chamam de “batalha existencial”. Na prática, porém, ela é existencial para o próprio partido e para seu papel regional, não para o povo libanês nem para o Estado, que paga o preço em destruição, deslocamento e colapso econômico.

Diante dessa lógica, Israel conduz a guerra a partir de uma perspectiva radicalmente diferente. Para o Estado israelense, o que ocorre pode representar uma oportunidade única de eliminar a ameaça militar que o Hezbollah representa em sua fronteira norte. Não é realista, portanto, esperar que Israel encerre suas operações com facilidade, nem que se contente com um cessar-fogo provisório que restabeleça a situação anterior. A lógica militar e política israelense sugere que esta pode ser a última oportunidade de mudar a equação no Líbano.

Entre essas duas lógicas, o Líbano, enquanto Estado, se encontra em quase total impotência. Um Estado que não decidiu a guerra, mas paga por ela; um Estado chamado a negociar, embora a decisão de lutar não lhe pertença.

É por isso que o chefe de Estado propõe a negociação. Não porque seja uma escolha confortável, nem porque as condições sejam ideais, mas porque continuar a guerra significa empurrar o Líbano para a ruína total. Negociar, nesse contexto, não é um luxo político, mas uma necessidade nacional para preservar o que ainda resta da sociedade e do Estado.

O problema, porém, não está no princípio da negociação, e sim no contexto político que a envolve. Em um país onde o Estado não detém o monopólio das armas nem da decisão militar, negociar se torna uma tarefa quase impossível. Como um Estado pode negociar o fim de uma guerra quando um ator interno a mantém, tem capacidade de reativá-la a qualquer momento e age segundo cálculos regionais alheios ao interesse direto do Líbano?

É justamente aí que surge o risco mais grave. O Líbano pode acabar no pior dos cenários: uma guerra prolongada que não pode encerrar e um acordo humilhante imposto de fora após uma destruição ainda maior. Não se trata de hipótese abstrata. A história recente do país é marcada por situações que teve de aceitar sem poder decidir por si próprio.

O verdadeiro debate que os libaneses precisam travar hoje não diz respeito à forma das negociações, mas à retomada, pelo Estado, do poder de decidir sobre guerra e paz. Um Estado que não controla essa decisão não pode proteger sua população, nem negociar em seu nome.

Em última análise, nenhum Estado pode viver indefinidamente sob um regime de guerra aberta, e nenhuma sociedade pode suportar o deslocamento de centenas de milhares de seus cidadãos sem perspectiva de retorno. Por isso, negociar não é uma escolha moral ou ideológica, mas um dever político e ético diante da população.

Transformar a recusa em negociar em um símbolo heroico, enquanto o povo paga a guerra com a própria vida, com suas casas, seus meios de subsistência e o futuro de seus filhos, não é heroísmo. No melhor dos casos, é uma ilusão política perigosa; no pior, é desprezo pelo destino de um país inteiro e uma traição àqueles que confiaram sua proteção a seus dirigentes.

A pergunta que definirá o futuro do Líbano já não é: devemos negociar ou não?

A verdadeira pergunta tornou-se mais simples e mais urgente:

Qual é o destino do Líbano?

 

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