O texto a seguir é uma tradução do discurso proferido em árabe pelo nosso colega Michel Hajji Georgiou durante uma mesa-redonda organizada na sexta-feira, 15 de maio, em Beirute, pelo site de notícias e análises Janoubiya , em homenagem à memória do escritor e cientista político Mohammad Hussein Shamseddine. O evento contou com a participação do nosso colega Ali Mohammad Hassan al-Amine, diretor do Janoubiya , do ex-ministro Ibrahim Mohammad Mahdi Shamseddine, do nosso colaborador e cientista político Hisham Dibsi, e do escritor e cientista político Hassan Bazih. O objetivo do texto é situar o pensamento e a obra de Shamseddine dentro da continuidade do legado histórico, político e moral libanista e estatista dos ulemás de Jabal Amel. Caros amigos, Gostaria, em primeiro lugar, de agradecer ao senhor Ali el-Amine por esta iniciativa de prestar homenagem ao nosso amigo Mohammad Hussein Chamseddine, e pelo seu convite para esta ocasião, nomeadamente na presença de personalidades de tal envergadura, por todas as quais nutro um profundo respeito. Mohammad Hussein é, sem dúvida, um dos meus mestres, a quem devo uma grande parte da experiência que adquiri e da formação da minha concepção da ideia libanesa ao longo das duas últimas décadas, desde o período que se seguiu à declaração dos bispos maronitas em 2000 e que conduziu ao 14 de Março de 2005. Gostaria de aproveitar esta ocasião — pois Mohammad Hussein «vivia plenamente o outro» ao ponto de já não distinguir entre a sua própria obra e a dos seus companheiros de caminho — para saudar a memória destes últimos. Falar de Mohammad Hussein Chamseddine é falar, ao mesmo tempo, de Samir Frangieh, de Nassir el-Assaad, de Saoud el-Mawla, de Farès Souhaid, de Tony Khawaja — a lista é longa — e de todos aqueles que, vivos ou desaparecidos, contribuíram para a fundação do Congresso Permanente para o Diálogo Libanês no início dos anos noventa. É falar também do sayyed Hani Fahs e do sayyed Mohammad Hassan el-Amine, e, à sua cabeça, do imam Mohammad Mahdi Chamseddine. A simbologia do lugar em que nos encontramos impõe-nos que saudemos a sua memória. Peço alguma indulgência aos presentes, pois ao falar de Mohammad Hussein falo ao mesmo tempo de uma tradição da qual aprendo lenta e cuidadosamente, graças aos meus amigos e mestres xiitas: a tradição do Jabal Amel, essa fonte luminosa e inesgotável de conhecimento, de sabedoria e de fiqh. Uma tradição mais sólida do que todas as provas que a afligiram no passado, e do que as que hoje a despedaçam. A luz desta cultura libanesa autenticamente humana ultrapassará sem dúvida esta nova provação de fogo e de sangue pela qual atravessa uma vez mais. Mohammad Hussein Chamseddine partiu como tinha vivido: em bicos de pés, na calma e na humildade, sem elogio excessivo nem oração fúnebre. Não acordou na manhã em que o Líbano se preparava, mais uma vez, para ser imolado no altar de duas patologias: uma martyropato-lógica, a outra exterminadora. Como um mestre que cumpriu a sua missão, partiu sem a tranquilidade da certeza de que o seu legado e o seu pensamento lhe sobreviveriam. À semelhança de todos os que lutaram durante mais de meio século para que o Grande Líbano soberano e o seu viver juntos perdurassem, parte sem sequer saber se o próprio Líbano sobreviverá. É esta, com certeza, uma das componentes do infortúnio libanês: um século após a fundação do seu Estado, o próprio Líbano continua ameaçado de desaparição. E vemos agora, diante dos nossos olhos, como uma parte da sua terra, que me é cara, este berço da cultura de que quero falar através de Chamseddine, foi criminalmente reduzida a cinzas e a pó. Tal é a maldição do Líbano. Tal é a maldição de Caim. * * * Mohammad, o mestre — pois era assim que se lhe chegava — não era um simples pensador. Era um educador, um pedagógico, que tratava os seus interlocutores segundo o nível da sua cultura e da sua reflexão, oferecendo o seu saber com um agudo sentido do serviço, sem exibicionismos inúteis. Preciso, rigoroso, conciso, pouco dado às palavras. Mas pródigo em sentido. E deixava-vos sempre com muito mais do que a bagagem intelectual com que lhe tinham chegado. Era ainda algo mais difícil: um pensador político que oferecia a sua obra como um presente aos outros sem reclamar nada em troca. Toda a literatura política sobre a qual construímos a dinâmica da soberania e da independência desde os anos noventa, desde os documentos do Agrupamento de Kornet Chehwan até aos do secretariado-geral e das conferências anuais do 14 de Março, passando pelo Apelo de Beirute de 2004, nasceu sobre a mesa de Mohammad ou passou pelas suas mãos, brotando desse espírito indissociável do dos seus colegas. * * * Caros amigos, É para mim uma honra que Ibrahim Chamseddine esteja entre nós esta noite. Mohammad Hussein foi um dos discípulos do imam Mohammad Mahdi Chamseddine, de quem herdou a convicção de que a wilayat el-umma prima sobre a wilayat el-faqih , e a certeza de que o caminho xiita no Líbano não passa por Teerão mas pelo Pacto Nacional Libanês. Esta convicção não nasceu apenas da conjuntura política. É uma memória que se estende do Jabal Amel até ao presente, através de uma cadeia intelectual que começou com o sayyed Mohsen el-Amine, atravessou o imam Moussa al-Sadr, atingiu a sua profundidade com o imam Mohammad Mahdi Chamseddine, e encontrou depois a sua tradução crítica nas reflexões do sayyed Hani Fahs e do sayyed Mohammad Hassan el-Amine, em cujo legado simbólico nos encontramos reunidos esta noite, na presença do seu filho Ali. Esta cadeia conceptual não é um mero registo histórico de ideias. Constitui uma resposta a uma questão que os xiitas libaneses vivem hoje no coração da guerra: a que aponta o imam Hussein? Qual é o sentido de Karbala? * * * O sayyed Mohammad Hassan el-Amine colocou esta questão na sua conferência em Teïrdebbah em 1993, com a precisão de quem conhece os limites da certeza. A sua resposta: Achoura é uma memória viva, mas que morre do uso que dela se faz. Quando se reduz a um simples rito, a um «cabide onde pendurar novos pesares», a uma ocasião para libertar um luto acumulado que se alimenta de uma desilasão após outra, Karbala deixa de ser uma energia motriz para se tornar um fardo. Advertiu contra duas vias igualmente erradas: a primeira faz do presente uma réplica repetida da história, iludindo-se de que «a mera evocação de Karbala basta para criar no nosso tempo um movimento de adesão total às causas do direito e da justiça». A segunda rompe inteiramente o vínculo entre o presente e o passado, reduzindo Karbala a uma mera narrativa trágica. A terceira via, a sua, consiste em ler o acontecimento nas suas condições históricas a fim de extrair o que, das motivações humanas, persistiu através do tempo: a liberdade, a justiça, a dignidade. Qual é, pois, o fundo de Karbala nesta leitura? O sayyed Mohammad Hassan el-Amine exprimiu-o de maneira inesquecível: Hussein tinha visto «a jóia da justiça, da unidade, da liberdade e da igualdade ser roubada à religião em nome da própria religião». Tinha visto o islão instrumentalizado para cobrir o seu próprio contrário. Tinha visto os juristas emitirem fatwas, o Corão recitado, a voz do chamamento à oração ressoar, e por detrás de tudo isso um poder que saqueava, tiranizava e aniquilava. E tinha perguntado: «O que podia fazer quem conhecia esta verdade aterradora?» Hussein não foi a Karbala em busca da morte. Foi porque lhe era impossível viver em contradição com o que era. Recusou a lealdade a Yazid, quando teria podido jurá-la e continuar a viver, mas a que vida? Uma vida que aceita a injustiça como condição da sua própria continuação. Essa opção não lhe estava acessível. O fim não era a morte: era a recusa da mentira. E a morte foi o que essa recusa implicou, não o que procurava. É o que ele próprio disse: «Não saí por arogância nem por orgulho, nem para semear a corrupção nem para exercer a injustiça. Saí para buscar a reforma na comunidade do meu avô.» Poder-se-ia objectar que o imam infalivél conhece o seu destino antecipadamente, e que esse conhecimento faz da morte uma escolha e não uma consequência. A resposta é que a infalibilidade não é uma coerção, mas uma harmonia absoluta entre o acto e a verdade. Hussein não aceitou a morte; recusou a mentira, e a morte foi o que essa recusa implicou. A experiência cristã ilumina isto: Cristo conhece o seu destino e não se diz por isso que procurou a morte, mas que se recusou a trair a verdade; o conhecimento do destino não faz da morte um fim, faz dela um testemunho de que existe algo maior do que o medo. E o martírio de Hussein é o que René Girard chamou o «pharmakos», o sacrifício que não reproduz a violência mas desvela o seu mecanismo e o anula. Há um segundo roubo que o sayyed Mohammad Hassan el-Amine assinalou: o roubo da doutrina do livre-arbítrio. Muawiyya «foi o primeiro soberano no islão a brandir o machado da destruição contra a mais alta doutrina que o islão trouxe: a doutrina da escolha», transformando a injustiça em decreto divino e a contestação em impiedade. E foi precisamente contra isso que Hussein se insurgiu: contra a normalização da injustiça, a sua sacralização e a sua elevação à vontade de Deus. Este diagnóstico adquire hoje uma acuidade insuportável. Os que travam a guerra em nome de Hussein reproduzem o que ele resistiu: fazem da guerra uma fatalidade, do martírio uma obrigação e da oposição uma traição. Roubam a jóia uma vez mais, em nome da própria jóia. Permiti-me, na presença de Ibrahim Chamseddine esta noite, recordar o que ele disse em Jeb Jennine em 2008, e que eu havia relatado nos meus escritos de então: «Deus não precisa de homens para o defender. Ninguém pode apresentar-se no Dia do Juízo e dizer: “Enviei-te mártires e mereço portanto o paraíso.” O deus fraco que precisa do nosso sangue não merece ser adorado.» Querido Ibrahim, é como se estivesses a descrever o que se passa cada dia agora… * * * Desde o início do século passado, o sayyed Mohsen el-Amine havia considerado que os ritos que tinham transformado a recordação de Kerbala em sangue derramado cada ano nas ruas da flagelação constituíram uma denaturação do sentido do martírio husseinita: colocavam a morte no centro da cena quando é a dignidade que devia estar aí. Esta posição valeu-lhe acusações de heresia por parte de certos meios entre os próprios ulemas do Jabal Amel. Prosseguiu não obstante na senda do que havia discernido. Mais de meio século depois, o xeque Mohammad Jawad Moughnié, jurisconsulto amilita libanês, foi o primeiro a responder à wilayat el-faqih khomeinista com um tratamento jurídico escrito e explícito, afirmando que o poder político em tempo de oclultação pertence à umma e não ao faqih . Escreveu-o em 1979, pouco antes da sua morte, num momento em que a oposição a Khomeiny era ainda possível. O imam Mohammad Mahdi Chamseddine completou este círculo nos seus testamentos e na sua obra Nizam al-Hukm wal-Idara fi al-Islam , onde distinguiu entre a wilayat el-faqih absoluta, governo do jurisconsulto sobre o Estado e a sociedade, e a wilayat el-umma ʿala nafsiha em tempo de oclultação. Nos seus testamentos, exigiu dos xiitas libaneses que a sua pertença nacional fosse o fundamento, que o Líbano fosse uma pátria definitiva sobre a qual nenhuma outra autoridade pudesse prevalecer. E foi Mohammad Hussein Chamseddine quem transformou esta visão em literatura política concreta, no coração de um projecto libanês nacional, humano e universal. * * * Se Mohsen el-Amine reformou o rito da memória, se Moussa al-Sadr restituiu aos xiitas a sua dignidade social, se Mohammad Jawad Moughnié e Mohammad Mahdi Chamseddine estabeleceram o quadro jurisprudencial da recusa, se Mohammad Hassan el-Amine revelou como o nome de Hussein é roubado para cobrir o que Hussein combateu, foi Mohammad Hussein Chamseddine quem edificou com todos esses materiais a arquitectura política: o projecto do Estado libanês como finalidade, o Estado pertencente a todos os seus filhos, o Estado que garante a diversidade sem a absorver, que vela pelas comunidades e pelos indivíduos no quadro de uma complementaridade cultural natural fundada na boa gestão do modelo do viver juntos e na ideia da identidade composta e da cultura da empatia. O que faz do Líbano o que René Maheu chamou «un style de civilisation». Esta arquitectura política assentava numa pedra angular filosófica da qual nunca se afastou: não existe solução puramente xiita para a questão xiita. Os problemas de cada comunidade no Líbano são os problemas de todos os libaneses, e não se resolvem com a lógica do recuo confessional e identitário, mas com a da solução nacional transversal que transcende a comunidade e alcança a sociedade no seu conjunto. Nisto, Mohammad Hussein prolonga a lógica do imam Mohammad Mahdi Chamseddine, a lógica amilita libanesa: o Estado como projecto único, o único garante válido para todas as componentes libanesas, a começar pelos xiitas. Estas palavras não estão desligadas da realidade: constituem uma resposta directa a todos os que hoje procuram uma «solução xiita para a questão xiita», ou apostam numa saída sectária estreita que «salvaria» supostamente uma comunidade à custa da entidade e do viver juntos. Coerente consigo mesmo e com a sua visão do Líbano, Mohammad trabalhou com os seus companheiros para derrubar todas as barreiras e fundir o pensamento amilita na aspiração de Nasrallah Sfeir à liberdade e de Hassan Khaled à justiça e à igualdade. Quebrou assim a espiral da violência simbólica herdada da guerra, de que a maioria das forças de ocupação se servia para impedir qualquer reconciliação libanesa. Esta dinâmica de retecimento da unidade nacional irritou o poder de tutela, que reagiu violentamente a 7 de Maio de 2001, e reagiu sobretudo face ao Apelo de Beirute de 2004, cujas sessões impediu. Mas a reconciliação triunfou sobre a violência e o ódio a 14 de Março de 2005. Mohammad Hussein não dissimulava, contudo, a sua desilasão face às derivas desse período. Via na mediocridade de uma classe política libanesa que fugia às suas responsabilidades uma das causas fundamentais do recuo do projecto soberanista. Isso manifestou-se no projecto de lei eleitoral dito «ortodogóxo» que acentuou o sectarismo, e depois nos sórdidos conuíos que levaram Michel Aoun à presídência da República e deram ao Hezbollah plena latitude para agir sob a cobertura da legalidade. Mohammad não via nisso meros erros tácticos, mas uma falência política e moral: os líderes à frente das suas comunidades, por excesso de irresponsabilidade e falta de fé na sua própria capacidade de tecer entendimentos internos, e pelo medo do outro, recorrem a um padrinho regional que os abastece de dinheiro, de armas e de excedentes de poder para que os utilizem contra os seus parceiros e os dominem. É aí a prova irrefutável de uma fraqueza que se disfaça sob o rótulo da força, e que apenas conduz à catástrofe, à derrota, depois à frustração e ao abatimento. Por que este apego à reconciliação apesar de tudo? Mohammad tinha uma regra de ouro que repetia, retomada de Hamid Frangieh: «Se os libaneses concordam no mal, ele torna-se bem; e se divergem no bem, ele torna-se mal.» O consenso não era para ele um método entre outros: era a condição da própria existência do Líbano. O meu amigo Hisham Debsi sabe que Mohammad Hussein iniciou a sua vida política como militante nas fileiras do Fatah, e como fundador da Organização Popular Libanesa no Líbano do Sul. À semelhança de Samir Frangieh, completou a sua «viagem ao fim da violência» e, após ter acreditado nas armas como alavanca de mudança, lhes voltou as costas por convicção. Ao escrever sobre Samir Frangieh e Hani Fahs, descrevia na realidade a si próprio: essa viagem do vermelho ao branco, do Fatah à construção de uma cultura nacional integradora. Considerava que a paz não é a mera ausência da guerra, mas «o mais elevado grau da moral e a sua missão mais nobre». * * * Na mesma noite em que o Hezbollah lançou a sua absurda guerra, Mohammad Hussein Chamseddine deixou-nos. A sua partida quase passou despercebida no tumulto do que se desenrolava. Mas esta coincidência encerra um sentido manifesto: aquilo contra o que havia intelectualmente combatido ao longo de toda a sua trajectoria, a leitura de Hussein como herói da morte, o Irão erigido em referência, a jóia da justiça uma vez mais roubada sob o estandarte da própria jóia, foi precisamente isso que explodiu nessa noite. Hoje não nos limitamos a comemorar. Afirmamos que Hussein morreu pela vida e não pela morte. Afirmamos que o xiísmo libanês, o do Jabal Amel, o de Mohsen el-Amine, de Moussa al-Sadr, de Mohammad Jawad Moughnié, de Mohammad Mahdi Chamseddine, de Hani Fahs e de Mohammad Hassan el-Amine, não é o prolongamento de um projecto imperialista, mas uma parte do tecido desta pátria difícil mas necessária. A história não esquecerá que aquele homem frágil, sentado com a sua chávena de café, o seu cigarro e a sua pena como únicos instrumentos de trabalho, edificava, com as suas mãos e o seu espírito, em completo silêncio, o fundamento intelectual de um único projecto libanês: um Líbano fundado não no equilíbrio das forças, mas na força do equilíbrio. Esta longa noite acabará certamente por se dissipar, e a luz do equilíbrio, da razão e do viver juntos se levantará, para que o Grande Líbano volte a ser esse «style de civilisation» único de que Mohammad, Samir e os seus companheiros e inspiradores sempre sonharam e pelo qual incansavelmente trabalharam.







