


Que os diferentes campos no Líbano estejam directamente concernidos pela batalha existencial que se trava actualmente ali é inteiramente natural.
O contrário seria doentio.
Porém, entre a apatia e o entusiasmo transbordante, ou mesmo o arregimentamento cego, existe todo um espectro emocional que, como habitualmente, fica ocultado em favor de alinhamentos mortais para o país num conflito que o habita, mas que o ultrapassa totalmente.
Como tem sido sempre o caso, de resto.
O corpo libanês é imunodeficiente. Atrai todos os vírus e todas as doenças. Daí a sua propensão para flirtar permanentemente com a morte.
E, contrariamente às ideias traumáticas de supremacismo identitário que ressurgem de forma muito conveniente em cada período de crise, a fonte da fraqueza ontológica do Líbano não é o pluralismo, mas uma cultura política arcaica. Uma confederação de tribos governadas por líderes carismáticos que continuam a recusar, cem anos após a fundação do Grande Líbano, fundar um Estado e gerir sã e racionalmente os assuntos públicos, e que persistem em alinhar-se com o mais forte ao sabor das mutações regionais e internacionais.
A questão não está aí.
As reacções miméticas destruíram invariavelmente este país desde a sua criação. São precisamente o produto de uma corrida para a dominação, ou mesmo para a hegemonia, em que se sobrepõem as angústias individuais transportadas para um corpo comunitário e a procura de uma força exterior para compensar uma impossibilidade de estabelecer uma dominação total no interior.
Existem duas lógicas propostas para romper este círculo vicioso. A primeira é um divórcio entre as comunidades ou entre as diferentes regiões, uma espécie de regresso a fórmulas anteriores ao Grande Líbano. Isso pressupõe antes de mais uma vontade comum de se separar e, sem dúvida, movimentos de população se a natureza subjacente do projecto for comunitária. A segunda é a construção de uma legitimidade nacional respeitadora do pluralismo, com base em cinco fundamentos: liberdade, justiça, igualdade, convivência, cidadania. Mas isso pressupõe igualmente uma vontade, e ela deve ser vasta, individual e transversal. Caso contrário, o reflexo comunitário nunca será quebrado, e os chefes de tribo continuarão a dirigir o país como uma loya jirga dependente dos sobressaltos regionais, jogando, como hábeis sismólogos no interior, com a tectónica de placas entre os grupos comunitários libaneses.
Estes dois projectos continuam a competir no Líbano desde 1920; o terceiro, o da fusão num conjunto mais vasto, foi abandonado.
A Constituição de Taëf dispõe, porém, no seu preâmbulo, que o Líbano nas suas fronteiras actuais é uma pátria definitiva para todos os seus filhos.
Estarão as principais formações políticas libanesas actuais, após o fracasso do transversalismo do 14 de Março, nesse estado de espírito?
A questão merece ser colocada e elucidada, sem subterfúgios.
Mas o mais inquietante não é o debate sobre o destino do Grande Líbano em si, mas a maneira como as componentes libanesas decidiram conduzi-lo — nas piores circunstâncias possíveis no terreno — num ódio manifesto umas pelas outras, acompanhado de uma vontade de vingança que ressoa como o regresso cataclísmico de algo profundamente recalcado.
Neste contexto, é difícil não regressar a esta vontade de 'represálias' ou de 'vingança' mimética, e ao mecanismo que a preside: um regresso a uma idade mítica fantasmática em que se era o mais forte, que se perdeu e que está de novo ao alcance da mão.
É esta a expressão de um delírio patológico profundo. A história talvez se repita na aparência, mas os tempos mudaram, e no Próximo Oriente os equilíbrios são ténues. Os projectos parciais, supremacistas ou separatistas, são frágeis, para não dizer insanos — não porque sejam arriscados, mas porque dependem de factores que jamais estão nas mãos de quem os defende com unhas e dentes.
No Líbano, não se decide, ou muito pouco.
Sobretudo se não se estiver unido de forma transversal — e isso não se joga com algumas figuras dissidentes dispostas a 'sair' dos seus posicionamentos comunitários, por interesse ou convicção, para se juntar ao campo adverso numa ilusão de frente transcomunitária.
O 14 de Março de 2005 é a prova disso. Os Estados Unidos não queriam — David Satterfield dissera-o abertamente — uma retirada síria do Líbano. Ela ocorreu graças àquela manifestação gigantesca que foi obra de uma vontade política e cívica plural.
No Líbano, tenta-se adaptar da melhor forma possível, navegar à vista para evitar que o navio afunde completamente.
Este navio precisa de um capitão sereno e moderado para gerir a navegação em águas turbulentas.
E esse capitão é o Estado — não obstante todos os seus defeitos — porque hoje é a única bússola, o único espaço que nos pode reunir.
E ele merece receber o apoio mais vasto possível na sua missão perigosa, sem ser maltratado e dilacerado pelas ambições, pelos eufóricos arroubos e pelos acessos nostálgicos frenéticos de uns e outros.