


Há no cessar-fogo líbano-israelita, concluído sob a égide americana, uma promessa. Mas esta promessa é ao mesmo tempo ténue e tensa, tão frágil — como o fio das Parcas — que parece capaz de se romper a qualquer momento. O Líbano aprendeu há muito a viver com pouco e a transformar as migalhas de estabilidade em matéria de sobrevivência. Por isso acolhe esta trégua como uma remissão — embora a experiência ensine que pode não ser, na realidade, mais do que o prelúdio de uma recaída.
É aí que reside toda a tragédia libanesa no que tem de mais lancinante. A recorrência inelutável da desgraça, e o seu retorno cíclico, que a memória colectiva nunca verdadeiramente cessou de antecipar.
Pois o Líbano conhece os cessar-fogos. Conhece-os demasiado bem. Desde a guerra de 1975, atravessou-os em número suficiente para saber que a sua duração depende menos da vontade das partes do que da conjuntura regional, dos equilíbrios internos das potências patrocinadoras, e de uma série de variáveis que ninguém em Beirute domina verdadeiramente. O povo libanês desenvolveu, por conseguinte, uma espécie de sabedoria amarga: a da criança que aprendeu, à sua própria custa, que a intervenção da professora apenas detém o «bully» o tempo de uma breve pausa. Assim que o recreio fica sem vigilância, a violência reclama os seus direitos.
Inevitavelmente.
Mas o que verdadeiramente pesa hoje, para além da incerteza imediata, é a profundidade temporal deste déjà vu. A memória de 1982 ou de 2006 regressa como uma maldição, acompanhada de algo mais estrutural: o reinado interminável do efémero. No tempo libanês, o compromisso arrasta-se e o angustiante entre-dois avança laboriosamente até se tornar uma condição de existência. Aprendeu-se, por conseguinte, a interiorizar uma mensagem paradoxal — quase insuportável a força de repetição — que não deixou de provocar um estado esquizofrénico latente: o de viver incessantemente na esperança e aguardar sempre o pior em simultâneo. Como uma fatalidade. Este reflexo de sobrevivência foi forjado por décadas em que o pior, precisamente, acabou por acontecer cada vez que se começara a acreditar que o melhor era possível…
Ora esta mensagem paradoxal, esta injunção contraditória que estrutura a psique colectiva libanesa desde 1975, atinge hoje um grau de intensidade hiperbólico, precisamente porque os actores presentes não mudaram nas suas lógicas profundas, mesmo que as suas capacidades operacionais tenham sido severamente afectadas. O Hezbollah, atravessado por divisões internas entre uma corrente pragmática e uma franja intransigente que reflectem certamente o dilaceramento entre pombas e falcões no seio do próprio regime iraniano, dispõe de uma capacidade de contemporização considerável. Sabe fazer de conta que joga o jogo do Estado libanês — através de Nabih Berry ou preservando os seus ministros no governo —, enquanto continua a fazer licitações e a trabalhar para reconstruir as suas capacidades militares… aguardando o momento propício para inverter a correlação de forças, como fez pela força das armas em Maio de 2008… ou, com uma «elegância» mais clássica, ao derrubar o gabinete Hariri em 2011, precisamente quando este visitava Barack Obama na Casa Branca.
O caminho escolhido por Joseph Aoun e Nawaf Salam — o da negociação e da afirmação progressiva da soberania — revela-se, neste contexto, tão necessário quanto perigoso. O Estado libanês encontra-se aprisionado numa tenaz entre duas vontades adversas que convergem, paradoxalmente, no seu efeito de sapa: Israel, que pretende enfraquecer o Estado o suficiente para o manter maleável, conservando-o simultaneamente sólido o bastante para que constitua um interlocutor útil; e o Hezbollah, que não pode sobrevivir ao desaparecimento das suas armas e à ruptura do vínculo existencial entre o seu ramo libanês e o seu patrocinador iraniano, e que sabe que a dinâmica de paz, se culminar, assina a sua obsolescência estratégica. Um movimento que construiu toda a sua identidade sobre a violência armada e a retórica da «resistência» não pode converter-se numa força política ordinária sem deixar de ser o que diz ser. Estaria condenado a desaparecer pela lógica mesma do seu próprio hubris — como uma seita cuja doutrina desmorona — se entrasse no jogo político e aceitasse depor as armas. O mesmo se aplica, de resto, aos Pasdaran no Irão, razão pela qual a trégua com os Estados Unidos cairá provavelmente por terra. A guerra como arte de viver… e como artifício para consolidar o espírito de corpo e re-legitimar-se incessantemente. A hostilidade exterior ao serviço do extermínio dos inimigos do interior. Nesta perspectiva, é certo que o Hezbollah fará tudo para reinvestir o Estado libanês e torná-lo de novo no subalterno fantoche e cadavérico do seu mini-Estado de satrapia.
Para regressar ao Líbano — habituado a que a sombra sinistra das maldições de outrora paire sobre a Cidade —, o precedente de 1982 deveria ocupar um lugar mais proeminente na memória colectiva. Uma janela de oportunidade real, ainda que vigorosamente contestada, havia-se aberto entre Beirute e Telavive, apoiada na vontade americana então encarnada pelo Secretário de Estado Alexander Haig. A queda de Haig e o colapso de Menahem Begin bastaram para que a dinâmica se invertesse e o acordo de 17 de Maio se tornasse o símbolo mais amargo da ilusão diplomática, antes de ser ab-rogado sob a pressão de Hafez al-Assad e de parte dos componentes políticos libaneses. A história, no Líbano — longe da farsa, mesmo da trágica —, repete-se, mas sempre como ferida. E bastaria a menor mudança em Washington — as intercalares — ou em Telavive — a queda do actual gabinete — para que esta frágil trégua, e com ela toda a dinâmica das negociações e os seus protagonistas, seguissem o mesmo caminho.
O Líbano não pode permitir-se aguardar que a história termine de se repetir.
É por isso que, independentemente da dinâmica exterior, o que há que construir — e rapidamente — é um roteiro libanês dotado de legitimidade política e popular suficiente para resistir às pressões internas e aos azares das capitais de influência, cujas prioridades podem mudar em poucas semanas e cujos interesses não são certamente os do Líbano, quaisquer que sejam as melhores (ou não) intenções do mundo. A paz com Israel não é uma panaceia, mas o Líbano também não pode permanecer eternamente, e sozinho, em guerra. Além do mais, o Hezbollah, que pretende resistir, não cessa de arrastar paradoxalmente o Líbano — através das suas desastrosas aventuras e das suas delirantes «vitórias» — para uma paz de vencidos. Ao enfraquecer o Estado e ao impor-se como único interlocutor de Telavive para negociar acordos, corrói, de cada vez, o que ainda resta de soberania e autoridade. E fá-lo voluntariamente, subversivamente. Pregos sucessivos no caixão do Líbano.
Mas é forçoso reconhecer também que as instituições do Estado actual — tal como aconteceu na sequência da Revolução do Cedro em 2005 — são incapazes de se purgar da gangrena ideológica e política — o eixo sírio-iraniano — que as corrói desde 1990. O que os Estados Unidos exigem do Líbano equivale a pedir a um doente de cancro que se trate a si próprio apesar da gravidade do seu estado. Pouco mais pode o doente fazer do que esforçar-se por sobreviver e permanecer funcional com as forças de que ainda dispõe. Também isto deve ser tido em conta, seja qual for o desejo profundo de uma grande parte dos libaneses de acabar com a hegemonia do Hezbollah.
O Líbano não suporta mais este regime de urgência permanente, este movimento perpétuo de crise em guerra e de guerra em crise que, desde 1967, devastou literalmente as instituições e os homens, e adia indefinidamente o direito elementar a uma vida mais ou menos normal. Os libaneses merecem viver. Não heroicamente. Simplesmente de forma humana. Ainda que seja de vez em quando…
Poderá a comunidade internacional — enquanto exige ao Líbano que demonstre coragem quando se encontra preso entre o martelo e a bigorna do «duplo inimigo» — oferecer ao Estado libanês e à sua população garantias duradouras de estabilidade, em paralelo com o processo de negociações em curso, a fim de evitar o regresso a esta tragédia feita de precariedade, de incerteza e, em última análise, de caos?
Face ao estado actual do mundo, é legítimo duvidá-lo.
Há antes motivos para apostar que, neste maelstrom insensato, os libaneses não podem, em última instância, contar senão com eles próprios. E torna-se imperativo para eles trabalhar, ao fazê-lo, para consolidar uma cena interior unida em torno de constantes claras e inegociáveis — os valores republicanos e o espírito do viver-em-comum sob a única garantia da Constituição libanesa —, longe das exacerbações triunfalistas de uns e de outros. E se o Hezbollah se obstina em não fazer parte deste consenso — como de costume —, será ele que terá escolhido, mais uma vez, a via do impasse e do irracional face à escolha ponderada e salutar da legitimidade racional.
A moira da esperança libanesa para combater o hubris suicidário do Hezb.
Ninguém pode salvar, contra a sua vontade, alguém que verdadeiramente decidiu acabar.
Mas salvar-se a si próprio, nesse caso, é um dever.