


O conflito que se desenrola diante dos nossos olhos no Líbano opõe efectivamente Israel ao Irão, e mais especificamente Israel ao Hezbollah. Independentemente de qualquer vontade de demonizar o Hezbollah — e, no entanto, não faltam razões válidas para tal: assassínios políticos, raptos, execuções extrajudiciais, golpes de mão milicianos, humilhações ao exército, transformação do Líbano numa plataforma regional de branqueamento de capitais e de tráfico de droga, contribuição massiva para a corrupção, e a lista é longa… —, o Hezbollah é, pela sua natureza, uma ramificação dos Guardas da Revolução iraniana enxertada desde 1982 numa comunidade xiita marginalizada e abandonada pelo Estado libanês.
Ao fazê-lo, implantou-se no Sul do Líbano, preenchendo o vácuo deixado pelo Estado libanês durante a guerra, tornando-se depois o filho predilecto do ocupante sírio. Esta implantação realizou-se primeiro através da multiplicação de estruturas de organizações sociais ideológicas islamistas que compensaram a ausência das instituições estatais e suscitaram, deste modo, a adesão de uma parte da população; em seguida, através de uma forma de legitimação assente no discurso da resistência a Israel e aos seus afiliados no Sul; mas também pela força, com o assassínio dos quadros da esquerda resistente, a «guerra dos Irmãos» com o movimento Amal, a protecção do regime de Assad após o fim desses combates fratricidas, e sobretudo através do terrorismo exercido sobre os opositores xiitas não filiados no Hezbollah, que ia das ameaças à violência e aos assassínios.
A guerra pressupõe, certamente, por definição, do ponto de vista dos seus protagonistas, uma lógica binária de confronto entre o bem e o mal, o amigo e o inimigo. Isto não é, de resto, apanágio exclusivo da guerra; é um dos axiomas fundamentais do político. Mas a guerra, especificamente, não tem uso para os matizes onde a política os reclama. No entanto, o binómio «amigo-inimigo» próprio de Carl Schmitt e Julien Freund, ainda que teoricamente tentador, não pode funcionar para analisar o conflito actual. Uma leitura mais adequada seria a do «duplo inimigo», desenvolvida por Jacques Beauchard e mais adaptada aos Estados frágeis, incapazes de influenciar os diferendos provocados por actores terceiros, paraestatais por exemplo. «O inimigo do inimigo continua a ser um inimigo», diz Beauchard.
É um facto dificilmente contestável que nem o Hezbollah nem, naturalmente, Israel agem no interesse do Líbano, e que, além disso, o mimetismo quase total que existe entre ambos se impõe à observação.
Um estado de alerta marcial permanente
Desde 1948, o Estado de Israel encontra-se assim em guerra permanente, procurando assentar uma legitimidade fundada na erradicação de um povo autóctone que habitava a terra que ocupa actualmente, quaisquer que sejam os pretextos ideológicos avançados pelos sionistas para justificar historicamente essa ocupação.
A lógica do regime israelita, de Ben Gurião a Netanyahu, consistiu em permanecer num estado de alerta marcial contra os seus inimigos, em nome de uma ameaça existencial que, de resto, alimentou com frequência — não só por vontade de mobilizar o espírito de corpo israelita, mas para melhor dividir as fileiras dos seus adversários: a criação do Hamas em contraponto ao Fatah; a longa tolerância da influência iraniana na região em nome da chamada «aliança das minorias», com o fim de enfraquecer os regimes árabes e manter um estado de conflito sunita-xiita. Esta lógica, com a única excepção do parêntese de Oslo, aniquilado com o assassínio de Yitzhak Rabin em Novembro de 1995, fundou-se no ódio, na exclusão e na violência para com os palestinianos, cujo abandono e extermínio silencioso foram a condição sine qua non de uma paz com os países árabes.
Israel actua assim com total impunidade como polícia do Médio Oriente, e o mito da Grande Israel continua a seduzir a extrema-direita israelita, como atestam as recentes declarações de certos responsáveis israelitas e americanos. Sem esquecer, na prática, o comportamento anexionista na Síria e, presentemente, potencialmente, no Líbano, favorecido pela guerra em curso. De resto, em Netanyahu coexistem uma megalomania galopante e um realismo político, sobre um fundo de corrupção manifesta.
A hegemonia teocrática do Irão dos mulás
Do seu lado, o Irão encontra-se igualmente em guerra permanente desde o advento dos mulás, e sobretudo de Khomeini em 1979. O projecto da wilayat el-faqih é o de uma hegemonia teocrática transnacional, legitimada através daqueles que, no seio da comunidade xiita, escolhem aderir a ela. O guia espiritual iraniano é o seu Leviatã, o seu hegemon, o seu ditador. A exportação da revolução islâmica foi a daawa — no sentido khaldouniano, o discurso político elaborado para conquistar o poder — do Irão khomeinista desde as suas origens, e o Irão jamais renunciou a ela. Todas as suas ramificações milicianas, a começar pelo Hezbollah, foram criadas para esse fim.
O Hezb transformou-se, de facto, mais por realismo e utilitarismo do que por convicção ou reforma, em partido político, por preocupação de entrismo no sistema político libanês. Mas o seu comando manteve-se miliciano-religioso, totalmente subordinado nas suas decisões aos Pasdarãs. O seu projecto, por conseguinte, não tem em conta o perímetro libanês, como o atestam os discursos de Hassan Nasrallah, que em geral reservavam apenas um pequeno espaço à situação libanesa, no final de intermináveis análises da situação regional sob o ângulo iraniano. A «Carta aberta aos oprimidos» continua a ser o documento político do Hezbollah, apesar da sua empresa cosmética de «suavizar» o seu rosto por oportunismo político.
Para legitimar a sua existência, o Hezbollah adoptou a daawa da resistência a Israel, após a sua liquidação sistemática dos quadros da Resistência nacional formada pela esquerda, nomeadamente pelo Partido Comunista Libanês. Uma parte da esquerda foi em seguida colocada sob tutela síria e enquadrada por Assad, como na Síria, antes de ser absorvida financeira e politicamente pelo Irão. As lideranças moderadas e libanesas foram marginalizadas… até Nabih Berry, reduzido progressivamente, sobretudo após o fim da tutela síria, ao papel de biombo político-institucional ao serviço do Hezb.
Esta função tribunícia da resistência a Israel não impediu, contudo, o Hezbollah de desempenhar implicitamente o papel de guarda-fronteiras do Estado hebraico desde a retirada israelita do ano 2000, com o assentimento de Tel Aviv. O objectivo primordial de Israel era acabar com a causa palestiniana, sendo o Hezb, nesse quadro, um aliado objectivo em território libanês, nos antípodas da sua retórica de «libertação da Palestina». O Irão apoderou-se assim da causa palestiniana, através do Hamas e do Hezbollah, uma verdadeira dádiva para Tel Aviv, que justificava deste modo uma escalada permanente contra actores islamistas — impossíveis de legitimar aos olhos da comunidade internacional — em vez de contra actores políticos moderados como o Fatah ou a esquerda.
Esta aliança objectiva chocou esporadicamente com as ambições iranianas de maximizar as suas cartas de pressão sobre Israel através dos seus proxies, no quadro das negociações regionais com o Ocidente. O entendimento tácito ficou assim abalado em 2006, com a guerra de Julho. Mas, paradoxalmente, essa guerra, e a adopção da resolução 1701, que afastou temporariamente o Hezbollah da fronteira sul, foi a oportunidade de ouro para o partido — marginalizado na cena libanesa e a braços com a falta de legitimidade desde o seu assassínio de Rafic Hariri em Fevereiro de 2005 — de restaurar a sua imagem envolvendo-se numa «vitória divina» à Pirro. Após 2006, dedicou-se portanto ao seu objectivo inicial e fundamental: tomar o poder em Beirute em nome de Teerão. Esta empresa havia começado com os acordos de Abril de 1996 e a campanha contra Rafic Hariri, com o fim de esvaziar o Estado libanês de substância e transformá-lo económica e politicamente num esqueleto raquítico, em benefício do mini-Estado viável que havia construído para si próprio.
No mesmo espírito, impediu em 1993 o desdobramento do exército no Sul do Líbano, intervindo junto de Damasco para anular a decisão tomada nesse sentido por Hariri. Após a guerra de Julho de 2006, voltou a impedir o desdobramento das tropas no Sul em conformidade com a 1701, multiplicando além disso os ataques contra a Finul.
O assassínio de Hariri inscreveu-se igualmente neste quadro de trabalho de sapa contra o Estado. A ocupação do centro de Beirute após a guerra de 2006 em sinal de vingança contra o Estado libanês e o 14 de Março, depois o cerco ao Grande Serralho para provocar a queda do gabinete Siniora, o golpe de força de 7 de Maio de 2008, a obtenção em Doha do terço de bloqueio no governo, a desintegração do 14 de Março por força da busca obsessiva do poder de uns e outros, e o advento de Michel Aoun à presidência completaram este processo.
O Estado libanês tem estado na mira do Hezbollah desde o princípio. O partido perdeu o controlo sobre ele com o colapso do império iraniano após 7 de Outubro de 2023 e a sua catastrófica guerra de apoio a Gaza, e é sobre esse Estado que potencialmente descarregará as suas iras no termo desta guerra. Já iniciou amplamente o trabalho, desferindo os seus ataques contra Nawaf Salam como havia feito em 2006 contra Fouad Siniora… sendo que este último tinha travado a guerra e a destruição em Roma, salvando o partido pró-iraniano de um destino funesto. O Estado libanês procura agora travar a guerra, e é contudo sobre ele que o Hezb se ensandece… quando foi o próprio partido que, mais uma vez, se meteu, e o Líbano com ele, neste atoleiro.
Por fim, paroxismo do mimetismo, o projecto imperialista da Grande Israel, animado por uma lógica fundamentalista e sectária, só tem como igual o projecto imperialista da Grande Pérsia, concretizado no terreno após o acordo nuclear de 2015, com a mão do Irão sobre Damasco, Beirute, Sanaa e Bagdad, e movido por outro megalómano, utilitarista e corrupto, o falecido Khamenei.
Ambas as forças são animadas por uma nostalgia de uma idade de ouro, assente em mitos religiosos e numa visão milenarista e escatológica comum.
Em suma: «inimigos», sim. Mas também duas faces da mesma moeda… e duas calamidades para o Líbano.