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Mil Platôs

Líbano, o urbicídio dos martirópatas

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Por Michel Hajji Georgiou
Publicado abr 8, 2026 - 13:46

Os recentes “transbordamentos” da guerra para fora das zonas de conflito delimitadas territorialmente desde o início, com seu cortejo de vítimas, nos interpelam.

Guerra de guerrilhas, de Ernesto “Che” Guevara, ou ainda Revolução na revolução?, de Régis Debray, para citar apenas essas duas obras, analisaram longamente, na esteira da idade de ouro revolucionária dos anos 1960, como a guerra irregular, longe de se reduzir a uma simples tática de assédio conduzida por forças fracas contra um adversário superior, assume a forma de uma empreitada mais sutil e mais inquietante, na qual a população civil deixa de ser apenas refúgio ou elo logístico e passa progressivamente a constituir o próprio objeto do confronto, enquanto a dinâmica da violência se reorganiza constantemente segundo suas próprias lógicas.

Nesse contexto, a guerrilha, guerra pós-clausewitziana, não se limita a evoluir dentro de um meio social dado, supostamente adquirido ou naturalmente favorável, mas atua sobre esse meio com a intenção de reconfigurá-lo, obrigando-o a sair da indiferença ou da ambivalência, ao criar situações nas quais toda neutralidade se torna insustentável. Guevara falava em criar as condições revolucionárias em vez de esperar por sua “maturidade social”.

Essa lógica, que pode ser definida como uma estratégia de polarização induzida, baseia-se em um mecanismo relativamente constante, cujas variações históricas revelam ao mesmo tempo grande plasticidade e notável eficácia. Uma organização insurgente se insere inicialmente em um tecido social que não lhe é necessariamente favorável em sua totalidade, realiza ações direcionadas contra um poder estatal ou ocupante e, em seguida, se expõe, deliberadamente ou por cálculo, a represálias cuja magnitude, frequentemente desproporcional, afeta indistintamente combatentes e civis. Nesse processo, a violência do adversário deixa de ser um simples custo estratégico e passa a desempenhar uma função operacional, contribuindo para produzir as condições de uma virada emocional e política da população, transformando o sofrimento em motor de mobilização.

“O peixe na água”

Essa dinâmica não é fortuita nem fruto de improvisação empírica. Ela se insere em uma tradição teórica antiga, cujas formulações mais influentes aparecem nos escritos de Mao Zedong sobre a guerra popular prolongada. A célebre metáfora do peixe que nada na água, frequentemente citada para descrever a simbiose entre guerrilha e população, sugere na realidade um trabalho constante sobre essa “água”, que a guerrilha busca densificar e politizar, às vezes por meio de coerção assumida, para garantir sua própria sobrevivência e expansão. Nas práticas revolucionárias chinesas, essa transformação do meio social vem acompanhada de campanhas de propaganda, mecanismos de pressão interna e instrumentalização indireta da violência adversária, cuja brutalidade serve para revelar a natureza opressiva do inimigo.

A guerra de independência da Argélia oferece um exemplo particularmente claro dessa dialética. Ao realizar ações espetaculares em centros urbanos, especialmente durante a batalha de Argel em 1957, a Frente de Libertação Nacional se expunha a uma repressão sistemática por parte do exército francês, cujos métodos, marcados por tortura, desaparecimentos e controle intensivo de bairros populares, produziram um efeito paradoxal. Uma parte significativa da população, inicialmente reticente ou prudente, foi gradualmente levada ao campo independentista, não apenas por solidariedade, mas também por uma necessidade moral e existencial, já que a violência tornava insustentável qualquer posição intermediária.

Fenômeno semelhante pode ser observado na guerra do Vietnã, onde a presença do Viet Cong nas aldeias rurais não se baseava exclusivamente em uma adesão prévia das populações locais, mas na capacidade de explorar os efeitos das operações militares americanas, em particular os bombardeios massivos e os deslocamentos forçados, frequentemente acompanhados de massacres de civis. O episódio de Mỹ Lai, em 1968, permanece emblemático nesse sentido, pois contribuiu para transformar uma violência pontual em catalisador de engajamento, reforçando a legitimidade da insurgência junto a segmentos até então hesitantes.

“Um, dois, vários Vietnãs”

Em contextos mais contemporâneos, especialmente no Oriente Médio, essa lógica reaparece sob formas renovadas. Organizações armadas que operam em áreas densamente povoadas mantêm uma interação permanente com a potência militar adversária, cujas represálias, amplamente divulgadas em escala internacional, alimentam ciclos de indignação e mobilização. Nos territórios palestinos, diferentes fases de insurgência, espontâneas ou organizadas, deram origem a respostas militares cujos efeitos sobre civis contribuíram, de maneira complexa e por vezes contraditória, para fortalecer dinâmicas de adesão a grupos armados.

O caso libanês, em sua configuração atual, ilustra essa mecânica com particular intensidade. O Hezbollah, cujo núcleo revolucionário vem sendo sistematicamente desmantelado, com quadros dos Pasdaran iranianos e da própria organização perseguidos e mortos, e com bastiões no sul do Líbano, no Vale do Bekaa e na periferia sul de Beirute reduzidos a escombros por bombardeios israelenses, enquanto cerca de dois milhões de pessoas foram deslocadas, encontra-se obrigado a recuar estrategicamente para regiões que lhe são pouco favoráveis, como áreas de Beirute, Metn-Sul e Metn-Norte, onde a guerra que iniciou enfrenta oposição latente ou hostilidade aberta.

Esse deslocamento forçado inaugura uma nova fase do confronto, cujos desafios ultrapassam o plano territorial e assumem caráter social. O Hezbollah sempre reivindicou inspiração nas técnicas subversivas de Guevara em termos de polemologia, diferenciando-se do foquismo formal e estatista aplicado pela OLP durante a guerra. O grupo opera em uma lógica espacial, não territorial. O foco é móvel, pois o espaço da guerra é o da wilayat al-faqih. O território em si torna-se secundário, descartável. O mesmo vale para os habitantes, transformados em martiropatas, dispostos a morrer pela doutrina, não pelo território. O Hezbollah pratica o urbicídio em nome de um império espacial iraniano.

A isso se soma, do ponto de vista polemológico, uma camada neoaquemênida da estratégia persa. Historicamente, os persas conduziam guerras em múltiplas frentes, recorrendo a conflitos por procuração e ao apoio a aliados por meio das satrapias. Também financiavam cidades inimigas para colocá-las umas contra as outras, o que lhes permitia administrar frentes sem ocupá-las diretamente.

A Pérsia dos Pasdaran cria assim uma forma de neo-guevarismo de revolução permanente ao aplicar, há duas décadas na região e também no contexto desta guerra, a célebre fórmula do Che: “Criar um, dois, vários Vietnãs”. O objetivo não é apenas forçar adversários, sobretudo no Golfo, a ceder e buscar rapidamente a paz, mas também internacionalizar o conflito para, paradoxalmente, encerrá-lo.

O jogo “ganha-ganha”

Para além da guerrilha urbana do Hezbollah, delineia-se um cálculo de outra natureza, que pode ser descrito como um jogo subversivo de soma positiva para a própria organização, um sombrio “ganha-ganha”. Ao se inserir em zonas reticentes à guerra e manter atividades que as expõem a bombardeios israelenses, o Hezbollah força Israel a atacar populações que lhe são hostis, transformando o adversário em instrumento involuntário de recomposição de lealdades. O sofrimento infligido a esses grupos tende, nesse esquema, a aproximá-los, por necessidade, de quem se apresenta como seu único possível protetor.

Esse cálculo vai ainda mais longe. A presença de deslocados do sul do Líbano nesses bairros provoca reações de rejeição por parte das populações locais, tensões que a organização explora para reforçar, por contraste, a coesão interna entre seus membros. Poucas forças são tão agregadoras quanto o sentimento de não pertencer a lugar algum, exceto às fileiras da comunidade armada, protegida pela açabiya.

A análise desses fenômenos se aprofunda quando apoiada em marcos da filosofia política e da antropologia. A tradição clausewitziana, ao afirmar a natureza política da guerra, ajuda a entender como a violência pode ser usada para transformar subjetividades coletivas. A teoria da violência mimética de René Girard ilumina os ciclos de retaliação que se autoalimentam, em uma espiral na qual a distinção entre agressor e vítima se torna difusa. Já Michel Seurat mostra como a violência, longe de desorganizar o social, contribui para sua recomposição, criando novas lealdades e redefinindo linhas de fratura comunitárias.

Essa estratégia levanta questões morais fundamentais. Pode ser vista como resposta pragmática a uma situação de assimetria radical, na qual forças insurgentes dispõem de poucos meios para enfrentar um adversário superior. Por outro lado, implica instrumentalizar civis, expostos a riscos crescentes, muitas vezes sem consentimento, em nome de um objetivo político maior. Essa tensão revela uma das ambiguidades centrais da guerra irregular, em que a linha entre estratégia de libertação e exposição deliberada ao perigo se torna difusa.

Assim, a guerrilha, quando inserida nessa lógica, não apenas reflete a sociedade, mas contribui ativamente para moldá-la, transformando a violência em vetor de adesão e fazendo do sofrimento coletivo um elemento central da mobilização política. Nesse deslocamento, a população deixa de ser pano de fundo e passa a ser o próprio teatro da guerra, conferindo a esses conflitos uma dimensão profundamente trágica, na qual a lealdade se constrói a partir da experiência compartilhada da violência, e a neutralidade se torna cada vez mais impossível.

Retorno do reprimido?

No entanto, não se deve deixar essa lógica sem contraponto. Se a estratégia de polarização induzida supõe que a violência pode produzir adesão indefinidamente, ela acaba, mais cedo ou mais tarde, encontrando uma resistência que se pode chamar, em termos freudianos, de retorno do reprimido. A cultura do martírio e a cultura da vida não podem coexistir de forma duradoura sem entrar em conflito, e sua colisão permanece, no fim, inevitável.

A explosão do porto de Beirute, em agosto de 2020, ofereceu a demonstração mais trágica dessa tensão, menos como um acidente do que como o sintoma de uma organização que fez da morte um modo de governo, e que se viu um dia confrontada, no próprio coração da cidade que dizia defender, com as consequências dessa escolha. Eros e Tânatos não podem compartilhar indefinidamente o mesmo espaço, e uma dessas lógicas acaba por prevalecer, sem que nada na história permita supor que será a segunda.

Ainda assim, também nesse ponto o Hezbollah revela seu caráter sinuoso. Para além da asabiyya que cultiva em sua própria comunidade — e até mesmo para além dela, ao criar tensões internas binárias, o Bem contra o Mal, convocando cada indivíduo a escolher um lado —, já estabelece as bases de uma ordem de pós-guerra em que apenas uma vitória contará: aquela que esmagará as vozes dissidentes, os “inimigos internos”, os “traidores”. A vítima de hoje, que busca ampliar a zona de adesão contra o inimigo, já se apresenta como o carrasco de amanhã, pronta para erguer as forcas.

Diante desse impasse ideológico, a única lógica possível é a do duplo inimigo: o inimigo “territorial”, Israel, com seus ataques cotidianos contra a população civil, e o inimigo “espacial”, o Hezbollah, com sua ideologia transnacional a serviço dos Pasdaran. Ao urbicídio de Gaza responde outro, móvel, que se desloca de território em território.

Entre os dois, quantas vítimas inocentes ainda perecerão antes que a cultura da vida finalmente prevaleça, de uma vez por todas?

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