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O Novo Mundo

Trump e a aposta no Iraque…

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O secretário americano de Defesa, Pete Hegseth, cumprimentando o primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi durante uma cerimônia de boas-vindas no Pentágono, em Washington, em 14 de julho de 2026. (Foto: Drew Angerer / AFP)
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Por Khairallah Khairallah
Publicado jul 17, 2026 - 09:19

Donald Trump terá mais sorte com o Iraque do que teve com o Irã? A pergunta surge naturalmente depois da calorosa recepção que o presidente norte-americano ofereceu, em Washington, ao primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi. Trump não poupou elogios a al-Zaidi, ignorando o fato de que, até pouco tempo atrás, ele era proprietário de um banco incluído na lista de sanções dos Estados Unidos por lavagem de dinheiro em benefício da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

Trump recebeu o primeiro-ministro iraquiano na Casa Branca em um momento em que os confrontos intermitentes entre os Estados Unidos e o Irã voltaram a se intensificar, com especial atenção ao Estreito de Ormuz. O presidente norte-americano descobriu, ainda que tardiamente, que o memorando de entendimento assinado com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, na prática, valia muito pouco. Continua existindo um enorme abismo entre Washington e Teerã. Cada lado interpreta o memorando de acordo com seus próprios interesses. Pelo lado americano, o acordo foi negociado pelo vice-presidente J. D. Vance, acompanhado dos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner. A retomada dos confrontos entre Washington e Teerã nada mais é do que a expressão da profunda decepção de Trump com os resultados do processo de Islamabad e do fracasso da mediação conduzida pelo Paquistão.

Ali al-Zaidi conseguiu reabilitar sua imagem política e chegar ao cargo de primeiro-ministro, o posto mais importante do Iraque, depois que o presidente norte-americano vetou o retorno do ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki, a principal figura xiita da chamada Estrutura de Coordenação (Coordination Framework).

Até agora, al-Zaidi tem demonstrado verdadeira determinação por meio da campanha de combate à corrupção conduzida por seu governo. Ainda assim, essa campanha permanece incompleta, pois ainda não alcançou os grandes responsáveis que estão na origem da corrupção desde 2003, quando os Estados Unidos derrubaram o regime de Saddam Hussein, com todos os seus defeitos, para acabar entregando esse país estratégico à República Islâmica do Irã.

O que hoje se espera do Iraque, sob o governo de Ali al-Zaidi, é que passe a seguir um caminho independente do Irã. No entanto, isso parece pouco provável por uma razão simples: a Guarda Revolucionária Islâmica continua controlando os principais centros de poder do país. A prova mais evidente disso é a permanência das Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), uma estrutura que reúne diversas milícias sectárias leais a Teerã e que continua sendo um dos principais polos de influência da vida política iraquiana. O Hashd chegou inclusive a desempenhar funções de segurança durante as cerimônias fúnebres do Líder Supremo Ali Khamenei, em Karbala e Najaf, na presença de figuras de grande peso político, como Nouri al-Maliki, Hadi al-Amiri e Qais al-Khazali. Mais revelador ainda, o dia do funeral de Khamenei foi decretado feriado oficial no Iraque.

Mais cedo ou mais tarde, chegará o momento da verdade para o Iraque. A questão não se limita a dar continuidade à campanha de combate à corrupção, da qual dificilmente se espera que avance muito além do ponto a que já chegou. O verdadeiro desafio diz respeito às armas que permanecem nas mãos das diferentes facções do Hashd al-Shaabi, assim como de outras milícias iraquianas também ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.

Ao contrário do que parece acreditar o presidente Trump, nem Ali al-Zaidi nem qualquer outro líder iraquiano conseguirão libertar facilmente o país da influência iraniana enquanto Teerã continuar detendo as verdadeiras chaves do poder em Bagdá. Como al-Zaidi explica o lançamento de drones a partir do território iraquiano em direção ao Kuwait? E como justifica a continuidade dos ataques ao consulado do Kuwait em Basra, enquanto a República Islâmica continua atacando os Estados do Golfo Árabe e a Jordânia sob o argumento de que isso constitui uma resposta aos ataques norte-americanos?

Também chamou a atenção a apreensão, pelas autoridades sírias na fronteira com o Iraque, de um carregamento de armas que incluía 150 drones e mísseis e que seguia para Baniyas, onde se localiza uma refinaria de petróleo. As armas tinham como destino o Hezbollah, classificado pelas autoridades sírias como uma organização terrorista. Quem preparou cuidadosamente esse carregamento no Iraque para enviá-lo, através da Síria, ao Hezbollah e ao Líbano? Basta criar uma comissão de investigação iraquiana para que deixem de existir, no Iraque, simpatizantes do Hezbollah?

Não há dúvida de que a decisão do governo iraquiano de incluir o Hezbollah libanês na lista de organizações terroristas representa um passo de enorme importância. Permanece, porém, uma realidade fundamental: pelo menos até agora, o governo de Ali al-Zaidi mostrou-se incapaz de romper completamente com o Hezbollah, que conseguiu penetrar em mais de uma milícia iraquiana que continua a simpatizar com ele. Mas quem sabe? Talvez, ao adotar essa posição em relação ao Hezbollah libanês, o governo iraquiano esteja apenas apenas para despistar a opinião pública, em vez de enfrentar o problema do chamado “Hezbollah iraquiano”.

Trump falou longamente sobre a importância do petróleo iraquiano e sobre o que ele representa para as empresas norte-americanas. Há razões para temer que sua aposta no Iraque não tenha um destino melhor do que aquela feita em relação ao Irã e ao memorando de entendimento que uma ala de seu governo negociou com a República Islâmica.

Perguntas como essa continuarão a ser feitas enquanto não ocorrer uma mudança profunda no Irã. Essa mudança pode acontecer… ou pode jamais acontecer. Até lá, toda a região, inclusive o Iraque, continuará refém dessa mudança, com ou sem Ali al-Zaidi no poder.

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