


As ameaças feitas pelos Houthis no Iêmen contra o Reino da Arábia Saudita e contra o tráfego marítimo que atende seus portos não têm qualquer horizonte, nem político nem militar. Simplesmente não têm condições de cumprir a ameaça de impor um bloqueio aos portos sauditas.
Na realidade, com suas declarações grandiosas e sem qualquer conteúdo concreto, os Houthis desperdiçaram a oportunidade de se tornarem um componente pleno do cenário político iemenita, cujo objetivo é alcançar uma solução política que não exclua nenhuma das partes.
Ao demonstrarem abertamente seu alinhamento com a "República Islâmica", eles próprios se excluíram desse processo político. Demonstraram, simplesmente, que são antes de tudo iranianos, e não iemenitas, e que qualquer esperança de vê-los recuperar um mínimo de consciência nacional não passava de uma ilusão. No fim das contas, essa aposta não foi mais do que uma perda de tempo.
Nos últimos anos, especialmente desde a assinatura do acordo entre a Arábia Saudita e o Irã, mediado pela China em março de 2023, os Houthis haviam demonstrado certa contenção, adotando uma neutralidade apenas de fachada. Procuraram manter o diálogo com Riad, evitando qualquer tipo de provocação. As conversas, ora diretas, ora indiretas, buscavam estabelecer uma fórmula de convivência entre as duas partes.
Então, de forma repentina, quando a "República Islâmica" no Irã, ou mais precisamente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, decidiu intensificar a escalada militar, os Houthis, por meio de seu líder Abdel Malek al-Houthi, revelaram sua verdadeira natureza: não podem ser outra coisa senão um instrumento do Irã.
Eles decidiram participar da ofensiva iraniana contra os Estados Árabes do Golfo e contra a Jordânia, uma ofensiva que reflete um fracasso iraniano sem precedentes. Dessa forma, os Houthis demonstraram que não passam de mais um braço da Guarda Revolucionária, assim como o Hezbollah no Líbano.
É verdade que podem perturbar a navegação no Mar Vermelho e no Golfo de Áden contando com piratas somalis que possam ser recrutados para determinadas operações. Mas isso não significa, de forma alguma, que sejam capazes de fechar o estreito de Bab el-Mandeb, passagem obrigatória para o Mar Vermelho e o Canal de Suez.
A razão é muito simples: os Houthis não controlam o porto iemenita de Mokha, que domina o tráfego em Bab el-Mandeb. Eles perderam esse porto ainda no outono de 2014, quando forças iemenitas os expulsaram do sul do país, incluindo esse ponto estratégico. Não é segredo para ninguém que essas forças locais, que também retomaram Áden, Mokha e várias posições na província de Shabwa, contavam com o apoio dos Emirados Árabes Unidos, cuja política no Iêmen tinha como objetivo claro impedir que os Houthis assumissem o controle de todo o país, especialmente da região sul.
Mais cedo ou mais tarde, a comunidade internacional e as potências regionais terão de voltar sua atenção para o Iêmen, dada a importância estratégica excepcional do país, pelo menos por duas razões.
A primeira é que o território iemenita pode servir de corredor para oleodutos capazes de contornar o Estreito de Ormuz. A segunda é que, caso não seja possível transportar petróleo por dutos que atravessem o Iêmen até o Mar Vermelho ou o Mar da Arábia, nem os países da região nem o restante do mundo poderão suportar por muito tempo a permanência do Irã no Iêmen. Em outras palavras, é impossível aceitar que o Irã continue dificultando a navegação no Mar Vermelho a partir do território iemenita.
Não é segredo para ninguém que a "República Islâmica", por meio dos Houthis, está determinada a manter seu domínio sobre o Iêmen para utilizá-lo no fechamento do estreito de Bab el-Mandeb e atacar embarcações que seguem em direção ao Canal de Suez. Essa é, de fato, a intenção dos Houthis. No entanto, a perda do controle do porto de Mokha os priva dos meios necessários para transformar essas ameaças em realidade.
Também é importante lembrar que os Houthis controlam Sanaã e uma parte significativa do território iemenita desde 21 de setembro de 2014. Nada demonstra melhor o empenho do Irã em manter sua presença no Iêmen do que sua recente insistência em violar a proibição imposta ao aeroporto de Sanaã. Teerã enviou um avião civil sob o pretexto de transportar uma delegação iemenita que participaria do funeral do falecido "Líder Supremo", Ali Khamenei.
O Irã não parou por aí. Após um longo período de relativa calma e de diálogo com Riad, os Houthis lançaram repentinamente uma campanha contra o Reino da Arábia Saudita, acompanhada de ameaças explícitas. Essa fase havia permitido aos Houthis obter certas vantagens, diretamente ou por meio da mediação do Sultanato de Omã.
A questão que hoje se coloca tem duas dimensões. A primeira diz respeito à real capacidade dos Houthis de concretizar suas ameaças contra a Arábia Saudita e contra a navegação no Mar Vermelho. A segunda refere-se ao fracasso do regime iraniano.
Quanto ao primeiro ponto, os Houthis continuam tendo capacidade para atacar navios mercantes e petroleiros que transitam pelo Mar Vermelho, principalmente porque controlam o porto de Hodeida, de enorme importância estratégica nessa costa. Já o Irã optou por atacar os Estados árabes do Golfo e a Jordânia, em vez de enfrentar diretamente os Estados Unidos ou Israel. Teerã mira o Kuwait, o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e o Sultanato de Omã, enquanto encarrega os Houthis de atacar a Arábia Saudita. Em contrapartida, evita atingir qualquer navio de guerra americano que navegue pelo Golfo.
Em última análise, as ameaças dos Houthis não passam de um sintoma do fracasso de um regime iraniano cujo esgotamento já não pode mais ser ocultado. Elas revelam, em prejuízo do Iêmen e dos iemenitas, que o fim desse regime é agora inevitável. É apenas uma questão de tempo, desde que os Houthis expuseram ao mundo a fraqueza da "República Islâmica" e a dimensão de seu fracasso.