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Opinião

Quando a vitória se torna ruído
Por
Jad Akhawi
Publicado
abr 1, 2026 - 09:45

Nos grandes momentos de crise, os confrontos não se limitam ao campo militar; estendem-se a outro terreno igualmente decisivo, o da narrativa. Na situação libanesa actual, o comportamento do Hezbollah distingue-se por uma intensificação das suas ameaças internas e uma saturação do espaço mediático com uma torrente de comunicados que pode atingir dezenas por dia. Este fenómeno merece uma leitura atenta, longe de qualquer reacção emocional, para compreender os seus mecanismos, objectivos e repercussões. O que chama a atenção de imediato é o volume inédito de comunicados que aludem a «operações de excepção» e «feitos heroicos no terreno» no sul. Este ritmo sustentado não pode ser explicado apenas por factos militares; pertence ao que se conhece como «gestão da moral». As guerras modernas não se travam apenas com armas, mas também por meio da imagem, da informação e da impressão. Quando um actor se sente sob pressão, seja militarmente ou politicamente, recorre a amplificar os seus êxitos para preservar a coesão da sua base de apoio e impedir que a dúvida nela penetre. Consolidar a frente interna O Hezbollah enfrenta hoje desafios internos sem precedentes. A sua base social sofre as graves consequências económicas e os efeitos directos da guerra nas suas zonas de influência, tanto no sul como nos subúrbios do sul de Beirute e no Vale da Bekaa. Neste contexto, elevar o registo do discurso mobilizador torna-se uma necessidade para manter a adesão popular. A abundância de comunicados vai além da simples transmissão de informações; constitui uma mensagem permanente dirigida ao público: «Somos fortes, mantemos a iniciativa, os sacrifícios têm sentido.» Este tipo de discurso visa conter a erosão da legitimidade interna, num momento em que as perguntas se multiplicam, no seio da própria base, sobre o custo e a utilidade da confrontação. Quando as perdas aumentam ou o círculo dos afectados se alarga, produzir uma narrativa paralela que justifique e reenquadre a realidade torna-se imperativo. Colmatar a brecha entre o discurso e o real Em muitos casos, quanto maior a amplificação mediática, mais ela revela uma brecha entre o discurso e os factos. Isso não significa necessariamente que todos os comunicados sejam inexactos, mas o dilúvio de detalhes quotidianos e as proezas militares repetidas podem ser uma tentativa de preencher um vazio, ou de mascarar o impacto real limitado sobre o curso do conflito. É aí que o factor psicológico se impõe com força: a repetição das «vitórias» gera um sentimento cumulativo de poder, mesmo quando a realidade no terreno é mais complexa. Este método está bem estabelecido na literatura sobre a guerra, onde a saturação mediática serve para submergir o receptor e impedi-lo de verificar ou cruzar informações. A dissuasão pelo ruído Uma das funções desta escalada retórica consiste em construir uma dissuasão psicológica, dirigida não apenas ao inimigo exterior, mas também ao interior libanês. Ao intensificar as suas ameaças e apresentar-se como uma força em alerta permanente, o Hezbollah envia uma mensagem dupla: aos adversários externos, que continua capaz de tomar a iniciativa; aos seus adversários internos, que qualquer tentativa de o confrontar politicamente ou nas ruas será dispendiosa. Isto explica o tom de certos comunicados internos, que vão além da descrição dos combates até emitir ameaças directas ou indirectas. Trata-se de uma tentativa de traçar linhas vermelhas internas, numa fase em que o Hezbollah percebe que a sua posição já não é tão inexpugnável como antes. Gerir as contradições políticas Para além do aparelho militar, o Hezbollah é um actor político central no Líbano. Enfrenta hoje uma equação difícil: por um lado, deseja preservar o seu papel de força de «resistência»; por outro, defronta-se com uma pressão crescente, interna e externa, para que as armas regressem ao Estado, tanto mais que é agora tido por fora da legalidade. Neste contexto, a escalada mediática torna-se um instrumento para adiar o debate de fundo. Em vez de confrontar directamente a questão das suas armas e do seu papel, o Hezbollah desvia a atenção para a «grande batalha» no sul e invoca o espectro do novo regime sírio. A abundância de comunicados contribui para redefinir as prioridades do debate público, de modo a que a guerra permaneça em primeiro plano, e não a discussão interna. Influenciar a opinião árabe e internacional O público visado por estes comunicados vai muito além do interior libanês. A dimensão regional e internacional é evidente. O Hezbollah procura consolidar a imagem de um actor que continua influente no conflito com Israel, apesar de todas as transformações. Ao amplificar as suas operações, tenta recuperar o seu lugar na consciência árabe como força de confrontação, num momento em que essa imagem se deteriorou aos olhos de uma parte significativa da opinião pública. Este discurso visa também elevar o custo de qualquer escalada contra si, sugerindo a sua capacidade de alargar o círculo da confrontação. Mesmo que isso nunca se materialize, basta que essa possibilidade permaneça presente nos cálculos dos outros. A lógica da mobilização permanente Desde a sua fundação, o Hezbollah opera segundo um modelo de «mobilização permanente». O estado de emergência não é uma circunstância excepcional, mas uma condição quase contínua. Neste modelo, a produção mediática intensiva faz parte integrante da estrutura organizativa, e não constitui uma mera reacção circunstancial. O problema, porém, é que este padrão, quando levado ao excesso, perde progressivamente a sua credibilidade. O excesso de declarações pode produzir o efeito contrário: em vez de reforçar a confiança, semeia a dúvida, em particular junto de um público mais vasto, para além da base partidária. Os riscos inerentes Esta escalada retórica comporta perigos sérios. A credibilidade deteriora-se quando a narrativa já não coincide com o que as pessoas vêem ou ouvem de outras fontes. A multiplicação das ameaças pode agravar as divisões e os ressentimentos. Quanto mais alto se eleva o tecto do discurso, mais difícil se torna qualquer recuo, estreitando a margem de manobra política. Um discurso radical pode também ser invocado como pretexto para uma escalada recíproca, expondo o Líbano a riscos adicionais. O que isto significa para o Líbano O Líbano atravessa hoje um momento de grande fragilidade, em que a crise económica converge com a tensão de segurança e a fractura política. Neste contexto, o país precisa de um discurso que alivie as crispações em vez de as atiçar, e de uma transparência que reconstrua a confiança entre o Estado e a sociedade. O que observamos, porém, é o contrário: um excedente de retórica e um défice de confiança. É isto que faz do comportamento mediático do Hezbollah um componente da crise, e não um mero reflexo dela. Fica claro que a intensificação das ameaças e a inundação do espaço público com comunicados não são fenómenos aleatórios. Reflectem uma estratégia fundada na gestão da moral, no fortalecimento das fileiras internas e na construção de uma dissuasão psicológica, face a desafios crescentes tanto na frente interna como na externa. Mas esta estratégia, por eficaz que possa revelar-se a curto prazo num ambiente determinado, encerra riscos sérios a médio e longo prazo, tanto para o próprio Hezbollah como para o Líbano no seu conjunto. No final, a verdade mais importante continua a ser que a força de qualquer actor se mede não apenas pelo que diz, mas pelo grau em que as suas palavras se correspondem com a realidade. Numa era em que as fontes de informação proliferam, preservar a credibilidade é o maior desafio e a prova mais exigente.

A escolha do medo de escolher
Por
Akram Nehmé
Publicado
mar 31, 2026 - 10:23

O Líbano vive sob pressão, entre o que o atinge do exterior e o que o paralisa por dentro, e com o tempo, o que era excepcional tornou-se quase normal. O verdadeiro problema já não é apenas o que vem de fora; reside nessa incapacidade de decidir com firmeza, nesse momento suspenso em que o Estado vê com perfeita clareza o que deve ser feito e, ainda assim, não consegue dar o passo. Não é falta de compreensão. É um medo que se instalou lentamente, alimentado por uma história em que cada confronto interno deixou cicatrizes demasiado profundas para serem ignoradas. Quando um país conheceu a guerra, não desenvolve apenas reflexos, mas carrega também traumas, medos enraizados, mecanismos de sobrevivência que o impelem a evitar, a contornar, a adiar, mesmo quando essa fuga se torna ela própria um perigo. E assim se fala, se explica, se esquiva, não se age. Já não é prudência. É paralisia. É aí que o paradoxo se instala. Quanto mais clara é a situação, menos ela é enfrentada, como se ver com maior nitidez tornasse cada decisão mais difícil de assumir. Dão-se nomes tranquilizadores a este bloqueio — fala-se de prudência, de realismo, veste-se a inacção com palavras aceitáveis, quando no fundo se trata de uma incapacidade de levar até ao fim o que já se sabe. Agarra-se a soluções intermédias, a equilíbrios frágeis, a compromissos que dão a ilusão de aguentar, quando na realidade não fazem senão adiar o inevitável, e o tempo ganho não serve o país, serve o que o bloqueia. Tranquiliza-se falando de estabilidade, e na realidade mente-se a si próprio, julgando-se mais astuto do que a realidade, como se adiar uma decisão equivalesse a dominá-la. Mas estas meias medidas não estabilizam nada. Incrustam o problema, ancoram-no, tornam-no mais legítimo com o tempo, e sobretudo mais difícil de corrigir. O que devia ser temporário enraíza-se, o que devia ser uma excepção torna-se regra, e o que devia ser contestado acaba por impor-se. Entretanto, a relação de forças não se enfraquece; consolida-se, organiza-se, normaliza-se, e o que ainda era possível ontem torna-se arriscado hoje, quase impossível amanhã. A escolha nunca desaparece. Degrada-se, endurece-se, torna-se mais custosa, até ao momento em que recusar decidir equivale a aceitar o que se pretende evitar. Ao Líbano não falta lucidez. Falta-lhe um Estado capaz de assumir as decisões que sabe necessárias. Esta não é uma situação sem saída. A saída existe, mas exige um preço que ainda se recusa a pagar. Não são as bombas do inimigo que fazem cair um Estado. É o dia em que um Estado aceita que já não é ele quem decide

Perigo é nossa morada, perpétuas são nossas guerras!
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mar 28, 2026 - 11:26

“Baytuna al-khataru”, (o perigo é o nosso lar), expressão emprestada de Saïd Akl. Michel Chiha não se deixou enganar pela nossa unidade nacional de fachada! Aliás, quem o teria sido? Este ensaísta temia, acima de tudo, os demónios da divisão e da violência que assombravam a nossa memória libanesa. O seu Líbano era: « um país que a tradição deve defender contra a força… » A fragmentação nacional e o legado histórico O confronto, que se desenrola diante dos nossos olhos desde outubro de 2023, pode parecer um confronto internacional ou regional entre Israel e o Irão, mas é também, no que nos diz respeito, o prolongamento de um conflito doméstico ancestral entre facções libanesas. E, de facto, estava escrito que as mesmas questões inquietantes se nos colocariam sempre: que comunidade está no comando do país e qual tem a parte do leão nas receitas do Estado? Daí, sem dúvida, desta realidade sentida de forma diferente pelos atores políticos e outros protagonistas, decorrem todos os nossos conflitos internos, a intensidade que os caracteriza e o sangue que os mancha! Neste exato momento, existe grosso modo a comunidade xiita que, tendo ligado o seu destino à política dos ayatollah, se posicionou face às outras comunidades libanesas reunidas, como que por acaso, no campo soberanista. Lembremos que há uma filiação natural entre o nosso atual «tempo histórico» e o das crises violentas ou das «pequenas guerras» de 1975, de 1958, de 1925-7. E pode-se assim recuar até 1860 e 1845, ou mesmo mais, para encontrar os mesmos grupos confessionais em conflito, mesmo que, de uma vez para outra, as alianças se tenham feito e desfeito e que certas comunidades tenham mudado de opinião. No Líbano, a guerra para não mudar nada Quanto ao dia de hoje, se Israel quer a guerra perpétua, se, segundo alguns observadores, o seu governo tenciona prosseguir as hostilidades para se manter no poder, entre nós prevalece uma situação oposta: é a guerra que nos tomou, que não tenciona nos largar. O conflito é consubstancial à entidade libanesa, quer esta se estenda aos limites territoriais do duplo Caimacamato do XIX e século ou aos do Grande Líbano de 1920. Provavelmente não fomos feitos para ficarmos juntos, justapostos desta forma. Mas sim, diríamos nós! Sempre tínhamos sobrevivido às crises. Sempre tínhamos recuperado graças a elites políticas que tinham escolhido os caminhos do apaziguamento e do compromisso, como Béchara el-Khoury e Riad el-Solh em 1943 e como Fouad Chéhab, Saëb Salam e Rachid Karamé no rescaldo dos acontecimentos de 1958. Mas aí, tínhamos no leme sábios, grandes burgueses de tradição, que repugnavam o uso prolongado da força e a perpetuação de situações insurrecionais. Nem ideólogos, nem comitadjis, eles geriam da melhor forma e cuidavam de desarmar as crises que a sua própria política podia suscitar. Mamelucos, bachibuzuks e «vigilantes» Ora, o que temos hoje? Um partido que, proclamando-se revolucionário pela graça de Deus, defende a violência. Militarizado e experiente, não desdenha os golpes de força. Recebendo as suas instruções de Teerão, envolveu-se em restabelecer a ordem na Síria e atirou-se de cabeça numa guerra regional pelos belos olhos do seu empregador iraniano. Nunca o país tinha conhecido tal ocupação (1): nem sob os mamelucos nem sob os bachibuzuks! É pela brutalidade, ameaça e intimidação que se insere no panorama político libanês. Para cúmulo de infortúnio, o nosso exército nacional, garante da nossa soberania, está reduzido a desempenhar o papel de força de interposição entre bairros limítrofes e comunidades beligerantes. Uma gendarmaria ( jandarma ) como sob a Moutassarifiya, mas mais mecanizada, é sempre útil, mas não pode responder às exigências da hora! E depois, segundo os americanos, os seus primeiros fornecedores de material, esta força legítima não cumpriu os seus compromissos no que diz respeito à desmilitarização do Sul libanês e ao desarmamento da milícia em brasa. Dança sobre um vulcão Dito isto, como é que uma população civil pode enfrentar o «partido divino» e os seus sequazes fanatizados? É o mesmo que dizer que se vão constituir bolsas de resistência. “ Vigilantes ” como se diz em espanhol, irregulares autoproclamados, arrogando-se o direito de assegurar a segurança, vão aparecer, e sobretudo impor a sua ordem. Com o deslocamento de um milhão de pessoas para zonas já sobrelotadas, desconfiadas e em alerta, estamos a deslizar insensivelmente para o conflito aberto. O fogo vai pegar. E isso em vários pontos do território. 1 - Quando se pensa que, contrariamente aos usos diplomáticos, o embaixador do Irão declarado persona non grata, recusa-se a abandonar o seu posto!

Nabih Berry, o arquiteto da ocupação iraniana do Líbano
Por
Makram Rabah
Publicado
mar 26, 2026 - 05:05

Em um momento decisivo da trajetória libanesa, a decisão de expulsar o embaixador iraniano não pode ser tratada como um gesto diplomático comum. Trata-se, muito simplesmente, do primeiro teste real da capacidade do Estado libanês de dizer “não” a um projeto regional que vem esvaziando sua soberania há anos. Mas, como sempre, o problema não é apenas externo. Ele está dentro do país, mais precisamente entre aqueles que se apresentam como parceiros na governança. No centro desse quadro está Nabih Berry, o onipresente presidente do Parlamento. Berry, que hoje tenta se posicionar como garantidor da estabilidade, é, na realidade, um dos principais arquitetos de seu colapso. O homem que durante muito tempo se apresentou como uma “válvula de segurança” tornou-se, na prática, uma válvula de obstrução, bloqueando qualquer tentativa séria de contestar a hegemonia do Hezbollah e a influência do Irã no Líbano. É preciso dizer com clareza: o problema não é apenas a expulsão do embaixador iraniano, mas o sistema que permitiu a esse embaixador agir como um soberano de fato, contornando abertamente as normas diplomáticas e falando acima do próprio Estado libanês. E, quando um gesto mínimo de responsabilidade finalmente é tomado, Berry surge para questionar sua legitimidade, como se a soberania libanesa fosse algo negociável. O que Berry faz hoje não é mediação. É proteção. Ele sabe perfeitamente que a expulsão de um embaixador não expulsará o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Líbano. Ainda assim, se recusa até mesmo a esse enfrentamento político mínimo. Por quê? Porque qualquer questionamento sério desmontaria inevitavelmente o sistema no qual ele investiu profundamente, um sistema de corrupção e clientelismo que, durante décadas, ofereceu cobertura política às armas do Hezbollah. Mais preocupante ainda, Nabih Berry, que antes afirmava ser capaz de “conter” o Hezbollah e reintegrá-lo ao Estado libanês, praticamente desapareceu. Não há liderança, não há clareza, apenas um coro de vozes alertando para o risco de “provocar a comunidade xiita”, como se a própria soberania fosse uma afronta confessional. Essa é a equação que Berry tenta impor: qualquer tentativa de enfrentar as armas do Hezbollah ou a influência do Irã passa a ser apresentada como uma agressão contra toda uma comunidade. Trata-se de uma fórmula profundamente cínica e perigosa, não de proteção à comunidade xiita, mas de sua instrumentalização a serviço de um projeto regional que pouco se importa com suas vidas e seu futuro. O que se observa hoje é, em parte, uma tentativa tardia de resgate, não apenas do Estado, mas também de uma ampla parcela dos xiitas libaneses cuja agência política foi sistematicamente confiscada. A ironia é evidente: as forças que se opõem ao Hezbollah e a seus aliados são, muitas vezes, as mesmas que oferecem abrigo e dignidade às famílias deslocadas, enquanto suas próprias regiões no sul são transformadas em campos de batalha. Quanto às ameaças de retirada ministerial, elas não passam, em grande medida, de teatro político. O problema não são dois ministros substituíveis, mas uma estrutura armada que opera acima e fora do Estado. Se Berry acredita que a pressão das ruas ou o espectro de uma guerra civil irão reverter o curso atual, está profundamente enganado. O Líbano mudou O Hezbollah já não pode se apresentar de forma crível como um movimento de “resistência”, não depois de voltar suas armas para dentro do país, nem após se alinhar a uma agenda regional iraniana. Tampouco os cidadãos libaneses podem continuar sendo pressionados a aceitar que a estabilidade dependa de um compromisso interminável com aqueles que arrastam o país para guerras que ele não escolheu nem tem condições de sustentar. Sim, o risco de escalada existe. Sim, as tensões são reais. Mas o perigo maior está na perpetuação dessa negação coletiva, em uma lógica política que insiste em normalizar o anormal, transformando o agressor em um parceiro legítimo de governança. Hoje, o Estado libanês enfrenta uma escolha clara: seguir o caminho da cumplicidade, como defendem Berry e seus aliados, ou começar, ainda que com cautela, a recuperar sua autoridade. Expulsar o embaixador iraniano pode ser insuficiente, mas é um sinal. Um sinal aos libaneses, antes mesmo da comunidade internacional, de que ainda há quem se recuse a aceitar que o país permaneça como plataforma para as guerras de outros. E, sobretudo, um recado a Nabih Berry: a era dos equilibristas chegou ao fim. Aqueles que acreditam poder administrar esse colapso como se fosse apenas mais um detalhe político logo perceberão que o chão já começa a ceder sob seus pés. O Líbano não precisa de grandes manobristas dentro do Estado. Precisa de um Estado. E um Estado não pode existir enquanto aqueles a quem foi confiado atuam como seus próprios coveiros. Se ainda for necessário lembrar: o que se vive hoje não é senão uma repetição distorcida de 6 de fevereiro de 1984, quando o slogan do “fim da injustiça” foi usado para justificar um golpe de força contra o Estado, transformando, ao final, as armas de um suposto instrumento de justiça em instrumento de dominação. Aqueles que pegaram em armas naquele dia não o fizeram para defender o Estado, mas porque o consideraram ausente e decidiram substituí-lo. O resultado não foi sua restauração, mas seu enterro. A ironia é contundente: os que diziam combater a injustiça tornaram-se, gradualmente, seus principais agentes, monopolizando o poder, infiltrando as instituições e reproduzindo o mesmo sistema que afirmavam combater. Hoje, Nabih Berry e seus aliados reciclam essa mesma experiência fracassada: o mesmo pretexto, as mesmas armas, o mesmo desfecho, um Estado capturado e um povo chamado a aplaudir sua própria submissão em nome da “dignidade” e dos “direitos”. Será preciso mudar de rumo.

A Ilusão da Inação diante de um Regime Manchado de Sangue
Por
Khalil Helou
Publicado
mar 24, 2026 - 17:20

Há cento e oito anos, poucos meses antes do fim da Primeira Guerra Mundial, em 18 de março de 1918, Georges Clemenceau, então primeiro-ministro e ministro da Guerra da França, dirigiu-se à Assembleia Nacional em termos contundentes: “Dizem: não queremos a guerra, mas queremos a paz o mais rápido possível. Ah, eu também desejo a paz o mais rápido possível. Todos desejam. Quem pensa o contrário seria um grande criminoso. Mas é preciso saber exatamente o que se quer. Não é balindo pela paz que se silencia o militarismo prussiano. Minha política é esta: faço a guerra.” Essa declaração, feita por aquele que é amplamente considerado o arquiteto da vitória francesa de 1918, convida a uma reflexão renovada à luz do conflito regional que se desenrola hoje. Não há dúvida de que aqueles que não estão comprometidos com a paz são grandes criminosos. E isso deve ser dito sobre o regime em Teerã. Em matéria de paz, justiça e liberdade, seu histórico é inequívoco. Nos anos que se seguiram à revolução de Khomeini, apenas o notoriamente brutal aiatolá Sadegh Khalkhali ordenou a execução de 10 mil opositores. Sua notoriedade foi tamanha que lhe rendeu o apelido de “juiz do enforcamento”. Entre 2023 e 2025, o regime dos aiatolás realizou 4 mil execuções de um total de 6 mil registradas em todo o mundo no mesmo período. A escala da repressão no Irã fala por si: entre 1980 e 2022, mais de 10 mil opositores foram mortos durante protestos de rua. Durante a mais recente onda de manifestações, em 2026, mais de 30 mil manifestantes foram mortos a tiros pela Basij. Também vale lembrar que a Guarda Revolucionária Islâmica e o regime dos aiatolás deram apoio incondicional ao governo brutal de Assad, tanto do pai quanto do filho, na Síria, assim como ao Hezbollah no Líbano. Fortalecido por esse apoio, o grupo tem pregado a guerra abertamente por mais de quatro décadas e continua a fazê-lo. A paz nunca fez parte de seu cálculo, apenas tréguas temporárias entre conflitos, usadas para se rearmar e se reorganizar. Além disso, conseguiu mobilizar tanto apoiadores fervorosos quanto oportunistas para suas posições e estratégias. Nos últimos dias, muitos desses atores “se reativaram”, apresentando-se como uma espécie de “resistência de salão” contra Israel e os Estados Unidos. O Hezbollah está agora diretamente subordinado à Guarda Revolucionária iraniana. Desde 2005, realizou uma série de assassinatos, começando pelo ex-primeiro-ministro Rafic Hariri. Figuras proeminentes associadas às forças de 14 de Março tiveram o mesmo destino, em uma espiral de violência que, por ora, culminou no assassinato do editor e ativista sociopolítico Lokman Slim. Esses assassinatos permitiram ao Hezbollah intimidar soberanistas e infiltrar as instituições e administrações libanesas com uma série de funcionários corruptos e submissos, em detrimento dos cidadãos libaneses, que há muito aspiram a um verdadeiro Estado de direito desde a independência. Esse processo conduziu a República a um estado próximo do colapso. Desde 1999, o Hezbollah enfrenta pensadores, jornalistas, líderes religiosos e movimentos estudantis que, ao longo dos anos, sofreram repressão contínua por parte de serviços de segurança inicialmente controlados pela ocupação síria e, posteriormente, pelo Hezbollah e seus aliados. Partidos de oposição acabaram emergindo, mas os resultados de seus esforços permaneceram limitados. No topo das hierarquias estatais, o comportamento variou entre a colaboração direta ou indireta com o Irã e a inação pura e simples. Os campeões da inação, que justificavam sua postura em nome da preservação da paz civil, proferiam discursos insossos e soporíferos, aplicáveis a qualquer lugar e a qualquer momento. Esses atores inativos aguardavam em vão dias melhores, agindo com o Hezbollah como o cordeiro diante do lobo na fábula de La Fontaine. Enquanto isso, os chamados “defensores da paz” no Líbano e no Ocidente criticaram a campanha dos Estados Unidos contra o regime brutal e xenófobo do Irã, que utilizou a diplomacia como tática para ganhar tempo, enfraquecer seus adversários e avançar em suas agendas de armamento, desenvolvimento nuclear e desestabilização regional. Esses defensores da paz nada têm a oferecer além da inação diante de Teerã. Argumentam que a política de sanções de Washington e do Ocidente não produziu resultados ao longo das últimas três décadas. Isso é parcialmente verdade. Mas sem essas sanções, teríamos sequer uma aparência de relações minimamente estáveis com o Irã? Os aiatolás não chegaram a reivindicar controle sobre Bagdá, Damasco, Beirute e Sanaa? Sem sanções, a situação poderia ter sido ainda pior? Os mesmos “defensores da paz” criticam o presidente Trump, com ou sem razão, seja por sua percepção das prioridades, seja por sua decisão de agir contra o Irã. Chegaram a conclusões nas primeiras horas do conflito. Para o regime dos aiatolás, dificilmente haveria melhores aliados. Esse regime pode colapsar amanhã ou sobreviver por meses ou até anos, mas quase certamente será incapaz de exportar de forma eficaz sua revolução por toda a região, como estipula a Constituição iraniana. Uma campanha americano-israelense contra o Irã terá inevitavelmente consequências duradouras para a economia global e para o bolso dos contribuintes em todo o mundo. É o preço a pagar para conter a influência desestabilizadora de um regime que já abalou o mundo árabe e, possivelmente, o mundo como um todo. Aqueles que não combatem jamais compreenderão isso. E quanto aos oportunistas de sempre, guiados exclusivamente por interesses econômicos, não veem problema na hegemonia nem na erosão de valores.

Por uma intifada xiita contra o Hezb!
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mar 21, 2026 - 13:34

Cabe apenas aos xiitas libaneses desautorizar o Hezbollah, pôr fim à sua hegemonia e, consequentemente, ao controlo dos Guardas Revolucionários sobre o nosso país * ! O mesmo cenário no Irão: por mais que os ataques combinados israelo-americanos pulverizem Ali Larijani, a sua guarda de elite e as suas forças repressivas, apenas uma insurreição cidadã pode derrubar a tirania de wilayat al-faqih . Os observadores atentos acabarão por admitir: não há desfecho para a tragédia persa, não há resolução para a crise iraniana sem confronto entre compatriotas, ou seja, sem conflito civil. Cabe, portanto, aos povos reivindicar o seu direito à vida! Libertação ! No nosso país maltratado, nem o exército libanês, nem uma missão de bons ofícios, nem a guerra civil, nem os bombardeamentos israelenses, nem o desembarque de tropas árabes, turcas ou ocidentais são capazes de pôr fora de jogo o «partido divino». É porque este último reina sobre os espíritos que o seu bastião é inexpugnável e que a sua deslocalização física não seria suficiente para o erradicar. Arrancado à sua terra ancestral, atirado para as estradas, acantonado em campos de fortuna, o seu «meio nutritivo» que lhe serviu de matriz, permanece-lhe ligado, leal, fiel e adquirido. Uma constatação desesperadora quando apenas a comunidade duodecimana está habilitada a invalidar o Hezb e a tirar-nos do impasse em que nos debatemos. Há uma culpa duodecimana ? Mas se o Líbano está atolado, as suas instituições bloqueadas e a sua população violentada, iríamos por isso culpar todos os xiitas? Admitamos que o partido de Deus , agora ator regional, tinha lisonjeado nestes últimos os sentimentos de orgulho e o gosto pela bravata e pelo risco. Mas, ao fazê-lo, iria arrastá-los para os perigos do descontrole generalizado e do delírio de poder. Alguns espíritos exasperados não hesitariam em responsabilizar politicamente, senão penalmente, todos os duodecimanos pelas catástrofes sucessivas que nos atingem. Afinal, os eleitores xiitas reconduziram, de uma legislatura para outra, os mesmos representantes à Assembleia Nacional, tal como aprovaram as políticas que estes defendiam por sugestão dos seus mentores iranianos. Neste sentido, os nossos concidadãos do Sul, da Bekaa e dos subúrbios fizeram o que não deviam ter feito. E mais, ao permanecerem passivos, não fizeram o que tinham a fazer: o que esperávamos deles como libaneses que têm a peito os interesses exclusivos do nosso país. Por duas vezes, a saber, em 8 de outubro de 2023 e em 2 de março de 2026, não conseguiram refrear o Hezb que seguia obstinadamente o caminho do confronto com Israel! Mas estavam eles em condições de impedir essas decisões fatais, para citar apenas algumas? Argumentar-se-á por muito tempo ainda que os desvios insensatos do «partido divino» foram obra de um pequeno grupo, não o fruto de uma cultura específica nem o resultado lógico de uma ideologia religiosa que solda uma comunidade. Apelo a motim e incitação à «intifada» Neste preciso momento, parece que devemos esperar uma incursão terrestre. Em vez de deixar os israelenses atacarem o Hezb e evacuarem o Sul libanês da sua população, o ecossistema xiita poderia tomar a iniciativa que lhe garantiria a sua própria libertação. Um imenso clamor dos deslocados, que somam um milhão de pessoas, pode levar a milícia super-armada que tomou o Líbano como refém a abandonar as suas ilusões heroicas e as suas empreitadas picarescas. E principalmente a libertar-se dos seus mestres iranianos. Beirute Ocidental tinha bem «renegado» Yasser Arafat durante o seu cerco pelos israelenses em 1982. A OLP tinha prometido fazer da nossa capital uma nova Estalinegrado. A intervenção de Saëb Salam, expressando-se em nome da população indignada, colocou os nossos hóspedes palestinianos no seu lugar: foram embarcados em navios franceses com destino à Tunísia. Dito isto, não é certamente a valsa-hesitação, a que Nabih Berry se entrega, que porá fim à auto-imolação que prossegue diante dos nossos olhos. Apenas uma insurreição, apenas um movimento profundo, apenas manifestações e sentadas podem forçar a mão daqueles que usurpam indevidamente o poder. Cabe aos xiitas arrancar as armas do Hezb ! Cabe-lhes a eles correr riscos pela liberdade, a deles e a nossa! * E para recordar, os Cristãos realmente se uniram à legitimidade estatal em 1988-9, recusando de fato o domínio das milícias sobre a zona Leste!

Nossos filhos pródigos
Por
Akram Nehmé
Publicado
mar 21, 2026 - 06:54

Todos temos alguém na família que foi estudar no estrangeiro. Um filho, uma filha, um sobrinho, uma sobrinha. Pagámos as propinas, cerrámos os dentes, sentimos orgulho. Obtiveram os seus diplomas. Foram trabalhar para o Golfo. Chamávamos a isso sucesso. Hoje, essa história está a chegar ao fim. Os países do Golfo decidiram dar prioridade ao emprego dos seus próprios cidadãos. É um direito que lhes assiste, e trata-se de uma tendência estrutural profunda, não de uma medida passageira. Os grandes projetos de visão económica, como a Agenda 2030 da Arábia Saudita, foram concebidos precisamente para reduzir a dependência de mão de obra estrangeira. Os libaneses que lá trabalhavam começaram a receber cartas de despedimento, e muitos dos que ficaram veem os seus contratos não renovados. Pior ainda, há a guerra — ou antes, a instabilidade crónica. O confronto entre o Irão e os Estados Unidos, as tensões no mar Vermelho, a fragilidade dos equilíbrios políticos em toda a região: tudo isso semeou a incerteza. As empresas estrangeiras repatriam os seus funcionários por precaução. Os investidores partem. A economia abranda. O Golfo, esse mercado outrora tão aberto, fecha-se. Talvez não para sempre, mas por agora, sim. E ninguém consegue prever quando, nem sob que forma, voltará a abrir. A Europa não é uma alternativa credível à grande escala. O desemprego é elevado em muitos dos seus países, e as barreiras de entrada para quem não é europeu tornaram-se quase intransponíveis. Encontrar emprego lá sem cidadania europeia não é individualmente impossível, mas é moroso, dispendioso e incerto. Sobretudo, a Europa não tem nem a capacidade nem a vontade de absorver fluxos maciços provenientes de um único país. Para milhares de jovens libaneses em simultâneo, simplesmente não é uma solução. O que fazem então? Temos uma geração inteira — inteligente, licenciada pelas melhores universidades, que fala três ou quatro línguas, que trabalhou em multinacionais ou em consultoras — e essa geração já não tem para onde ir. Exceto para um lugar. O Líbano. O Líbano com os seus cortes de energia que paralisam os dias de trabalho, com o seu colapso bancário que vaporizou as poupanças de uma vida, com a sua classe política que todos conhecemos de cor, com os seus esquemas e o seu imobilismo. Dizer que isto pode ser uma boa notícia parece contraintuitivo. Mas dediquemos um momento a pensar. Durante cinquenta anos, cada vez que a situação no Líbano se tornava difícil — guerra, crise económica, assassinatos políticos —, os melhores partiam. E porque partiam, a pressão sobre o sistema diminuía. A emigração servia de mecanismo corrector. Nada mudava realmente, porque as forças vivas que poderiam ter exigido a mudança estavam noutro lugar. O Golfo, a Europa, a América do Norte funcionaram como uma imensa válvula de segurança. Absorviam os nossos problemas em nosso lugar. Agora, essa válvula está a fechar-se. Não de forma abrupta, mas através de uma contração progressiva e inexorável. Pela primeira vez em décadas, os nossos jovens licenciados não têm outra escolha senão olhar para o Líbano. Não por um patriotismo repentino — embora isso possa ajudar —, mas porque as outras portas se fecham uma a uma. E a história demonstra que quando não resta alternativa, as pessoas acabam por construir onde estão. Não por amor ao país, mas por puro instinto de sobrevivência e de realização pessoal. Porque é a única opção em cima da mesa. Viver no Líbano hoje custa muito menos do que em Dubai, Doha ou Paris. Um jovem que trabalha para uma empresa estrangeira e recebe em dólares a partir de Beirute vive muito bem — com conforto, até. Este modelo já existe, sustentado por um punhado de pioneiros do setor digital e dos serviços. Importa agora desenvolvê-lo e estruturá-lo. O trabalho remoto mudou tudo. A pandemia acelerou uma tendência mais profunda: hoje é possível trabalhar para uma empresa em Londres, Nova Iorque ou Dubai a partir da sala de estar em Beirute. Uma ligação estável à internet, uma diferença horária gerível, e tudo se encaixa. O cliente está noutro lugar, o dinheiro chega em moeda forte, a vida decorre no Líbano — com tudo o que isso implica de beleza e de fealdade. Quem regressa do Golfo não volta de mãos vazias. Tem poupanças — talvez não fortunas, mas uma margem de segurança. Tem contactos profissionais por todo o mundo. Tem a experiência de saber o que é uma administração que funciona, um serviço ao cliente eficiente, um planeamento a longo prazo. Pode criar empresas aqui. Pequenas no início. Dimensionadas para o mercado local ou orientadas para a exportação de serviços. Mas reais. E uma geração que regressa com tudo isso, sem nada a esperar nem a perder do sistema político atual, é uma geração capaz de votar de forma diferente, com exigências mais elevadas. Pode envolver-se nas autarquias, onde a vida quotidiana se decide genuinamente. Pode mover as coisas na política, simplesmente recusando os arranjos habituais e fazendo valer um critério claro: escolher as pessoas pelas suas competências, não pelas suas ligações. Nada disto é automático. Nada o é, neste país. Regressar sozinho, sem rede de segurança, sem projeto coletivo, arrisca ser engolido pelo sistema ou partir novamente depressa, mais amargurado do que antes. Mas regressar em grupo, organizado, com independência financeira, com competências complementares — isso é outra coisa completamente diferente. A diferença entre os dois casos é uma decisão. Uma decisão consciente de construir algo aqui. Não uma promessa que desce do alto. Fazemos sempre a mesma pergunta, nas famílias libanesas, em torno das mesas da diáspora: para onde vão os nossos filhos? A pergunta tornou-se angustiante, porque as respostas tradicionais desaparecem. Talvez seja altura de fazer a pergunta verdadeira — a que inquieta e liberta ao mesmo tempo: o que podem construir aqui, esses que viram tudo noutro lugar, se lhes for dada — e se eles próprios se derem — uma razão para ficar? Quem teria imaginado que um dia ligaríamos à família em Dubai, Doha, no Kuwait ou em Jedá para perguntar como tinha corrido a noite? Essa imagem diz tudo. Conta a inversão completa do olhar. Durante décadas, éramos nós, no Líbano, que recebíamos as chamadas angustiadas dos nossos pais, dos nossos irmãos e irmãs que tinham ido trabalhar para o estrangeiro. Éramos a fonte de preocupação. O lar frágil a quem ligavam para verificar que ainda estava de pé. Hoje, são eles que precisamos de contactar. Aqueles que julgávamos instalados no conforto assético das torres de vidro e dos centros comerciais climatizados. Perguntar-lhes como foi a noite. Se dormiram. Se a angústia os deixou em paz. Porque a região treme. Porque os equilíbrios que julgávamos sólidos se estão a fender. Porque ninguém está a salvo — nem sequer dentro das bolhas climatizadas do deserto. E de repente compreendemos a cruel ironia da história. Durante cinquenta anos, enviámos os nossos filhos para o Golfo para os proteger do Líbano. Para os pôr a salvo das nossas guerras, das nossas crises, do nosso caos. Julgávamos estar a enviá-los para o futuro, para a estabilidade, para a previsibilidade. E eis que hoje é talvez o Líbano que se torna o refúgio relativo. Não porque seja mais seguro — Deus sabe que não é —, mas porque quando toda a região arde, regressamos a casa. Regressamos onde compreendemos os códigos e a língua, onde conseguimos ler o ar antes de ele mudar. Quem teria dito que um dia seríamos nós a estender a mão? Quem teria dito que o exilado se tornaria aquele a quem consolamos? Que os papéis se inverteriam a este ponto? A noite é longa em toda a região agora mesmo. Mas pelo menos no Líbano, estamos habituados à escuridão. Sabemos lidar com ela. Sabemos acender velas, inventar a luz, manter-nos de pé no escuro. Por isso sim, temos o direito de sonhar. Temos o direito de olhar para esta geração que regressa e dizer: e se forem eles? Temos o direito de imaginar que este país, com os seus defeitos monstruosos, tem talvez uma carta a jogar que nunca antes teve. O Líbano nunca foi um hub regional porque não precisava de o ser. O dinheiro vinha do Golfo, dos expatriados, da renda. Para quê lutar para construir algo sólido quando se podia sobreviver na desordem? Hoje, a renda está a secar. O dinheiro já não virá corrigir os nossos desequilíbrios. E isso é talvez a oportunidade extraordinária que este momento encerra. Olhemos para as vantagens da situação, por uma vez. Um fuso horário que permite trabalhar com a Europa de manhã e com os Estados Unidos à tarde. Uma cultura cosmopolita e multilingue que não existe em mais nenhum lugar da região. Um custo de vida que voltou a ser competitivo. Um viveiro de talentos formados nas melhores instituições, que regressam com uma fome de construir que não tinham à partida. E sobretudo, sobretudo: uma juventude que já não tem medo. Quando se viveu o colapso, a perda das poupanças, o desaparecimento dos entes queridos numa explosão, já não sobra muito a perder. E quem não tem mais nada a perder é o mais perigoso para a ordem estabelecida — e o mais poderoso para criar uma nova. Por isso sim, sonhemos. Sonhemos que Beirute volte a ser o que foi: a encruzilhada da região. Não a dos capitais duvidosos e das malas de notas, mas a das mentes, das startups, das empresas que procuram talentos que não encontram noutro lugar. Sonhemos que as multinacionais olhem para esta geração trilingue, resiliente e criativa, e concluam: é aqui que precisamos de estar. Não pelos recursos naturais, mas pelos humanos. O mundo muda. O trabalho já não tem endereço fixo. As empresas procuram ecossistemas onde o talento abunda e o custo de vida é apelativo. Porque não nós? Porque não agora? Isto não é uma previsão. É uma orientação. Não uma certeza, mas uma intenção. O ciclo infernal de que falámos — a emigração dos melhores, a sobrevivência do sistema pela sua ausência — pode parar. Para quando decidirmos que para. Quando os que regressam disserem: ficamos. Quando os que nunca partiram disserem: construímos. Temos o direito de sonhar que amanhã seja diferente. Temos mesmo o dever. Porque num país que já não oferece nada, o sonho torna-se o último recurso que resta. E os libaneses transformam o nada em alguma coisa há séculos. É talvez esse o nosso génio. Transformar a ausência em presença. Transformar a partida em regresso. Transformar o fim de um mundo no começo de outro. Por isso sim, temos o direito. E por uma vez, temos até os argumentos.

Para um novo 14 de Março
Por
Jad Akhawi
Publicado
mar 14, 2026 - 16:06

A memória libanesa é marcada por momentos significativos, mas poucos constituíram verdadeiramente um ponto de viragem na história do país como a manifestação de 14 de março de 2005. Naquele dia, não se tratou apenas de uma manifestação massiva no coração de Beirute, mas de um raro momento em que os libaneses se uniram em torno de uma ideia comum: a restauração do Estado. Este momento ocorreu após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, um crime que não só abalou o Líbano, mas também alterou o curso da sua vida política. O assassinato de uma figura da envergadura de Hariri não foi um mero incidente de segurança, mas um verdadeiro sismo político que revelou a dimensão da crise que o Líbano atravessava, sob o jugo de segurança e político de Damasco desde o fim da guerra civil. Mas o que muitos não anteciparam na altura foi que o luto e a raiva se transformariam num levantamento popular de tal magnitude. A 14 de março de 2005, centenas de milhares de libaneses invadiram a Praça dos Mártires numa das maiores manifestações da história da região, exigindo verdade e justiça, e sobretudo, o restabelecimento da soberania nacional. O mundo qualificou este momento como a Revolução do Cedro, mas os libaneses que o viveram sabem que foi muito mais do que uma simples «revolução». Foi um momento de tomada de consciência coletiva: o Estado não era uma causa perdida e a tutela não era eterna. O fim da era da tutela A cena da Praça dos Mártires não foi um simples ajuntamento humano. Foi a declaração clara de que um capítulo inteiro da história do Líbano estava a chegar ao fim. Após três décadas de influência síria no Líbano, Damasco confrontou-se com uma dupla pressão: uma pressão popular libanesa sem precedentes e uma pressão internacional que se concretizou com a resolução 1559 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, exigindo a retirada das forças estrangeiras do Líbano. Em abril de 2005, as forças sírias retiraram-se do Líbano, pondo fim a uma presença militar que tinha começado em 1976. Para muitos libaneses, isso foi visto como uma segunda independência. Mas a história do Líbano raramente é linear. Soberania incompleta Rapidamente se tornou evidente que a retirada do exército sírio não significava o fim da crise libanesa. A tutela militar direta tinha terminado, mas a questão das armas fora do controlo do Estado permanecia. O Líbano entrou então numa nova fase de conflito político, cuja questão central era: quem detém o poder de fazer a guerra e a paz no Líbano? Durante esses anos, o papel crescente do Hezbollah tornou-se preponderante, possuindo este um arsenal militar independente do Estado libanês. Com o tempo, este arsenal tornou-se uma grande questão de divisão política no país. As Forças de 14 de Março consideravam que a construção do Estado não podia ser completa enquanto existissem armas fora das suas instituições, enquanto o Hezbollah considerava as suas armas como parte integrante da «resistência». O Líbano envolveu-se assim numa luta política prolongada em torno do próprio conceito de soberania. Da esperança ao colapso Se os libaneses recordassem a cena da Praça dos Mártires em 2005, teriam dificuldade em conciliar este momento de esperança com a realidade atual. Quase vinte anos depois, o Líbano parece ter-se afastado cada vez mais do sonho de Estado que os manifestantes então reclamavam. O Estado está hoje fraco, as suas instituições estão quase paralisadas, a sua economia colapsou e a sua população emigra em número sem precedentes. Quanto à decisão de soberania que esteve no centro do levantamento de 14 de março, permanece um tema de conflito interno e regional. Nos últimos anos, demonstrou-se que o problema do Líbano não reside apenas na ocupação ou na tutela direta, mas também na própria incapacidade do sistema político para construir um Estado capaz. O sectarismo político, a partilha do poder por quotas e a presença de armas fora do controlo do Estado têm repetidamente impedido o projeto de construção estatal com que o povo libanês sonhava em 2005. O que resta de 14 de março? Alguns afirmam que 14 de março desapareceu como aliança política. Em grande parte, isso é verdade. A aliança que levava este nome enfraqueceu progressivamente, as suas forças dispersaram-se e alguns dos seus membros celebraram compromissos políticos que minaram a sua mensagem inicial. Mas 14 de março não foi apenas uma simples aliança política. Foi uma ideia. A ideia de que o Líbano deveria ser um Estado soberano, livre e independente. A ideia de que a decisão de fazer a guerra e a paz deveria caber exclusivamente às instituições legítimas. E a ideia de que o Líbano não pode funcionar como um Estado normal se continuar a ser um palco de conflitos regionais. Estas ideias não desapareceram. Podem ter perdido a sua influência política, mas permanecem presentes na consciência de uma grande parte da população libanesa que ainda acredita que o estabelecimento de um Estado funcional é a única solução para a crise crónica do Líbano. Um momento inacabado O problema fundamental do movimento de 14 de março residia talvez no facto de, apesar da sua importância histórica, não ter conseguido transformar-se num projeto político duradouro, capaz de reconstruir o Estado. A aliança que liderou este movimento teve de enfrentar imensos desafios: assassinatos políticos, divisões internas e guerras regionais que afetaram diretamente o Líbano. Apesar de tudo, 14 de março de 2005 permanece um momento crucial na história moderna libanesa. Provou que os libaneses são capazes de superar o medo quando sentem o seu país ameaçado e de criar um impulso nacional unificador, transcendendo as divisões tradicionais. Uma memória para o futuro Hoje, enquanto se comemora o aniversário de 14 de março, centenas de milhares de libaneses podem não sair às ruas como há vinte anos. Mas as questões levantadas naquele dia continuam a ser de uma atualidade ardente: O Líbano pode voltar a ser um Estado normal? A decisão de guerra e paz pode depender unicamente do Estado? Os libaneses poderão um dia reunir-se novamente em torno de um projeto nacional unificador? A comemoração de 14 de março pode não trazer respostas a estas perguntas, mas lembra aos libaneses uma verdade fundamental: um momento de unidade nacional é possível. Foi o caso uma vez, na Praça dos Mártires. E nada impede que isso se repita.

Hezbollah, o que você fez dos seus irmãos?
Por
Youssef Mouawad
Publicado
mar 14, 2026 - 09:32

Hezbollah, você provavelmente tinha algo a provar! Ao lançar, nas primeiras horas de segunda-feira, 2 de março, uma «salva de mísseis e um enxame de drones» em direção a Israel, você certamente tinha uma pequena ideia por trás disso. Até hoje, as consequências são incalculáveis: mais de setecentos mortos, erradicação impiedosa de bairros inteiros, quase novecentos mil desabrigados, dos quais mais de 150.000 encontraram refúgio apenas na precariedade e na promiscuidade de abrigos coletivos! Por que não se conteve? Você não podia demonstrar tanta imaturidade quando sabia que a retaliação do Estado hebraico seria desproporcional. Na sua qualidade de «movimento autoproclamado de resistência», você não estava à altura para enfrentar as FDI, ainda mais depois de ter sido decapitado no dia 17 de setembro pelos «pagers». Qual era, então, a finalidade do seu ato de provocação? Seu minúsculo fogo de artifício não podia reverter o curso da situação, visto que os mísseis disparados do Irã já haviam se mostrado ineficazes e insuficientes e haviam provado a vulnerabilidade de um regime clerical acuado. Será alegado que sua decisão de 2 de março, data a ser lembrada, não lhe pertencia e que foi mais ditada pelos escritórios iranianos do que pelos interesses estritamente libaneses. Será argumentado, também, que você não podia ficar de braços cruzados enquanto o Líder Supremo era derrubado e o Irã era desmantelado diariamente com total impunidade. Admitamos, então, sua sujeição aos irmãos mais velhos de Qom, Isfahan e Teerã e admitamos, de passagem, que isso não engrandece uma «resistência» supostamente libanesa. O sacrifício inútil e a derrota vitoriosa Hezbollah, você, em suma, «entrou na fornalha» e arrastou os seus para lá, enquanto o regime dos aiatolás já havia perdido sua imponência e vivia de antemão apenas em sobrevida.  Disse-se que sua ação vingativa foi pura loucura, fuga para a frente e, acima de tudo, suicídio. Mas não foi antes um sacrifício estéril? Você não podia suportar a perda do Líder Supremo sem derramar sangue. Você teria sido visto como um ingrato, tendo o regime iraniano investido tanto em sua estruturação e treinamento militar. Não dispondo de um arsenal letal adequado e não podendo fazer vítimas (ou tão poucas) em Israel, você as faria em sua própria comunidade. Prova insensata e criminosa de fratellanza, esta fraternidade de armas que rege as causas suspeitas! Um antropólogo já nos havia alertado contra o sacrifício inútil que pode facilmente tomar a forma de autoimolação(1). Suicida, sua intervenção armada certamente protegeu sua «identidade comunitária fantasiada», mas, no entanto, em detrimento da sobrevivência real do seu grupo confessional. Observe bem em que condições sobrevivem os deslocados do Sul e de Dahiyé, espalhados que estão por todo o território nacional. Considere bem o que você fez deles! No entanto, e apesar de suas misérias diárias, o apego deles por você é inabalável e inquestionável (2). Isso porque eles evoluem em um domínio escatológico, o da «derrota vitoriosa». E para ilustrar, o espetáculo de seus afiliados que, na negação de sua realidade, afirmam que você é triunfante enquanto está em plena derrota. Hezbollah, você ofereceu o corpo social dos xiitas a um linchamento midiático para responder «sempre pronto» aos seus mentores e benfeitores dos planaltos iranianos. Teria você, por uma inversão de prioridades, feito dos seus o bode expiatório? Este pânico da razão política só se explica como o espelho de uma mentalidade arcaica, ou pelo menos a expressão de um estado hipnótico. E o resto é condizente! Diante dessa distorção do senso comum, o que dizer senão: «Tanta miséria por tão pouca glória»! 1-Paul Dumouchel, O sacrifício inútil. Ensaio sobre a violência política, Paris, Flammarion, 2001. 2- Exceto talvez quando se expressam em segredo.

Guerra, por padrão
Por
Nanette Ziadé-Ritter
Publicado
mar 10, 2026 - 13:44

Pertenço a uma geração que cresceu com a guerra, que teme morrer com ela e que, nesse meio tempo, terá desperdiçado os melhores anos de sua vida esperando ou torcendo para que as coisas melhorem. Pertenço a essa geração intermediária que testemunhou o período anterior a 1975 sem conseguir guardar lembranças reais da juventude. Uma geração capaz de sentir arrependimento sem nunca conseguir, de fato, virar a página. A mesma geração que acreditou que os jovens de hoje, independentemente do lado a que pertençam, acabariam, como nós, olhando para trás e escolhendo a vida em vez de morrer como supostos mártires. Fico, como tantos outros, atônito ao ver meu país ser arrastado novamente para uma guerra absurda, em vez de assinar um acordo de paz. Foi justamente essa paz que permitiu ao restante do mundo árabe dar passos gigantescos, enquanto nós acreditávamos possuir o Santo Graal da região. Em vez disso, fomos rebaixados ao último lugar, obrigados a assistir à transformação permanente de nossa geografia e de nossa demografia. Partir ou ficar já nem é mais a questão. Hoje, o que está em jogo é a própria existência do país. Se Israel pretendia ou não lançar um ataque preventivo é quase irrelevante. Ao disparar aqueles poucos foguetes, o Hezbollah apenas lhes ofereceu o pretexto que nos impediria de invocar o direito internacional, supondo que algo assim ainda exista. O sistema federal provoca irritação. Talvez o país seja pequeno demais para ele. E o Acordo de Taif parece obsoleto agora que a convivência se tornou tão frágil. Afinal, essa famosa “vida em comum” libanesa não foi construída sobre bases artificiais que sempre mascararam tensões profundas? E essa coexistência não seria, na verdade, apenas uma convivência, como a historiadora Dima de Clercq a define? Uma convivência que agora também corre o risco de desmoronar. O Líbano e suas autoridades, que nunca deixaram de hesitar sobre o desarmamento da milícia sob o pretexto de evitar uma guerra civil, veem-se agora diante de uma guerra total. Entre dois males, costuma-se escolher o menor. O Líbano não escolheu nada. Deixou-se arrastar, ganhando tempo, muito à maneira dos iranianos, que sempre souberam qual seria o desfecho final. Alianças não se formam nem se rompem por afinidades culturais ou sectárias. São simplesmente resultado do cruzamento de interesses. E quando esses interesses convergem, é preciso saber a hora de embarcar no trem, ainda que isso signifique vê-lo descarrilar décadas depois. Assim funciona o mundo. Especialmente o mundo de hoje, que parece ter enlouquecido. Enquanto a Europa se preocupava com seu atraso na inteligência artificial, foi surpreendida pela guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo que o conflito israelense-palestino ganhava um caráter permanente. Longe da “Riviera” prometida por Trump, o Líbano agora se vê preso às redes de um regime de mulás sem precedentes. Desta vez, dizem, será a definitiva, o acerto de contas final. Mas, nesta parte do mundo, nada é realmente final. Tudo oscila, tudo se curva aos caprichos de uma autocracia ou de outra. É inútil acreditar que o caminho foi limpo. É apenas questão de tempo até que as ervas daninhas voltem a crescer. Quanto às aberrações, o Líbano ainda não terminou com elas. Em um único dia, uma população que jamais foi consultada viu o mandato de seu Parlamento ser prorrogado por dois anos, enquanto militantes armados foram libertados mediante uma fiança de dez dólares. Em seguida, um ministro, tentando salvar as aparências, decidiu encaminhar à Justiça o juiz responsável por essa insanidade. E, depois de tudo isso, você ainda teria coragem de me dizer que viver no Líbano não vale o preço que se paga? *As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente a posição da redação.