


Pertenço a uma geração que cresceu com a guerra, que teme morrer com ela e que, nesse meio tempo, terá desperdiçado os melhores anos de sua vida esperando ou torcendo para que as coisas melhorem. Pertenço a essa geração intermediária que testemunhou o período anterior a 1975 sem conseguir guardar lembranças reais da juventude. Uma geração capaz de sentir arrependimento sem nunca conseguir, de fato, virar a página. A mesma geração que acreditou que os jovens de hoje, independentemente do lado a que pertençam, acabariam, como nós, olhando para trás e escolhendo a vida em vez de morrer como supostos mártires.
Fico, como tantos outros, atônito ao ver meu país ser arrastado novamente para uma guerra absurda, em vez de assinar um acordo de paz. Foi justamente essa paz que permitiu ao restante do mundo árabe dar passos gigantescos, enquanto nós acreditávamos possuir o Santo Graal da região. Em vez disso, fomos rebaixados ao último lugar, obrigados a assistir à transformação permanente de nossa geografia e de nossa demografia.
Partir ou ficar já nem é mais a questão. Hoje, o que está em jogo é a própria existência do país. Se Israel pretendia ou não lançar um ataque preventivo é quase irrelevante. Ao disparar aqueles poucos foguetes, o Hezbollah apenas lhes ofereceu o pretexto que nos impediria de invocar o direito internacional, supondo que algo assim ainda exista.
O sistema federal provoca irritação. Talvez o país seja pequeno demais para ele. E o Acordo de Taif parece obsoleto agora que a convivência se tornou tão frágil. Afinal, essa famosa “vida em comum” libanesa não foi construída sobre bases artificiais que sempre mascararam tensões profundas? E essa coexistência não seria, na verdade, apenas uma convivência, como a historiadora Dima de Clercq a define? Uma convivência que agora também corre o risco de desmoronar.
O Líbano e suas autoridades, que nunca deixaram de hesitar sobre o desarmamento da milícia sob o pretexto de evitar uma guerra civil, veem-se agora diante de uma guerra total. Entre dois males, costuma-se escolher o menor. O Líbano não escolheu nada. Deixou-se arrastar, ganhando tempo, muito à maneira dos iranianos, que sempre souberam qual seria o desfecho final. Alianças não se formam nem se rompem por afinidades culturais ou sectárias. São simplesmente resultado do cruzamento de interesses. E quando esses interesses convergem, é preciso saber a hora de embarcar no trem, ainda que isso signifique vê-lo descarrilar décadas depois. Assim funciona o mundo. Especialmente o mundo de hoje, que parece ter enlouquecido.
Enquanto a Europa se preocupava com seu atraso na inteligência artificial, foi surpreendida pela guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo que o conflito israelense-palestino ganhava um caráter permanente. Longe da “Riviera” prometida por Trump, o Líbano agora se vê preso às redes de um regime de mulás sem precedentes. Desta vez, dizem, será a definitiva, o acerto de contas final. Mas, nesta parte do mundo, nada é realmente final. Tudo oscila, tudo se curva aos caprichos de uma autocracia ou de outra. É inútil acreditar que o caminho foi limpo. É apenas questão de tempo até que as ervas daninhas voltem a crescer.
Quanto às aberrações, o Líbano ainda não terminou com elas. Em um único dia, uma população que jamais foi consultada viu o mandato de seu Parlamento ser prorrogado por dois anos, enquanto militantes armados foram libertados mediante uma fiança de dez dólares. Em seguida, um ministro, tentando salvar as aparências, decidiu encaminhar à Justiça o juiz responsável por essa insanidade.
E, depois de tudo isso, você ainda teria coragem de me dizer que viver no Líbano não vale o preço que se paga?
*As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente a posição da redação.