

Em um momento decisivo da trajetória libanesa, a decisão de expulsar o embaixador iraniano não pode ser tratada como um gesto diplomático comum. Trata-se, muito simplesmente, do primeiro teste real da capacidade do Estado libanês de dizer “não” a um projeto regional que vem esvaziando sua soberania há anos.
Mas, como sempre, o problema não é apenas externo. Ele está dentro do país, mais precisamente entre aqueles que se apresentam como parceiros na governança.
No centro desse quadro está Nabih Berry, o onipresente presidente do Parlamento.
Berry, que hoje tenta se posicionar como garantidor da estabilidade, é, na realidade, um dos principais arquitetos de seu colapso. O homem que durante muito tempo se apresentou como uma “válvula de segurança” tornou-se, na prática, uma válvula de obstrução, bloqueando qualquer tentativa séria de contestar a hegemonia do Hezbollah e a influência do Irã no Líbano.
É preciso dizer com clareza: o problema não é apenas a expulsão do embaixador iraniano, mas o sistema que permitiu a esse embaixador agir como um soberano de fato, contornando abertamente as normas diplomáticas e falando acima do próprio Estado libanês. E, quando um gesto mínimo de responsabilidade finalmente é tomado, Berry surge para questionar sua legitimidade, como se a soberania libanesa fosse algo negociável.
O que Berry faz hoje não é mediação. É proteção.
Ele sabe perfeitamente que a expulsão de um embaixador não expulsará o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Líbano. Ainda assim, se recusa até mesmo a esse enfrentamento político mínimo.
Por quê? Porque qualquer questionamento sério desmontaria inevitavelmente o sistema no qual ele investiu profundamente, um sistema de corrupção e clientelismo que, durante décadas, ofereceu cobertura política às armas do Hezbollah.
Mais preocupante ainda, Nabih Berry, que antes afirmava ser capaz de “conter” o Hezbollah e reintegrá-lo ao Estado libanês, praticamente desapareceu. Não há liderança, não há clareza, apenas um coro de vozes alertando para o risco de “provocar a comunidade xiita”, como se a própria soberania fosse uma afronta confessional.
Essa é a equação que Berry tenta impor: qualquer tentativa de enfrentar as armas do Hezbollah ou a influência do Irã passa a ser apresentada como uma agressão contra toda uma comunidade. Trata-se de uma fórmula profundamente cínica e perigosa, não de proteção à comunidade xiita, mas de sua instrumentalização a serviço de um projeto regional que pouco se importa com suas vidas e seu futuro.
O que se observa hoje é, em parte, uma tentativa tardia de resgate, não apenas do Estado, mas também de uma ampla parcela dos xiitas libaneses cuja agência política foi sistematicamente confiscada. A ironia é evidente: as forças que se opõem ao Hezbollah e a seus aliados são, muitas vezes, as mesmas que oferecem abrigo e dignidade às famílias deslocadas, enquanto suas próprias regiões no sul são transformadas em campos de batalha.
Quanto às ameaças de retirada ministerial, elas não passam, em grande medida, de teatro político. O problema não são dois ministros substituíveis, mas uma estrutura armada que opera acima e fora do Estado. Se Berry acredita que a pressão das ruas ou o espectro de uma guerra civil irão reverter o curso atual, está profundamente enganado.
O Líbano mudou
O Hezbollah já não pode se apresentar de forma crível como um movimento de “resistência”, não depois de voltar suas armas para dentro do país, nem após se alinhar a uma agenda regional iraniana. Tampouco os cidadãos libaneses podem continuar sendo pressionados a aceitar que a estabilidade dependa de um compromisso interminável com aqueles que arrastam o país para guerras que ele não escolheu nem tem condições de sustentar.
Sim, o risco de escalada existe. Sim, as tensões são reais. Mas o perigo maior está na perpetuação dessa negação coletiva, em uma lógica política que insiste em normalizar o anormal, transformando o agressor em um parceiro legítimo de governança.
Hoje, o Estado libanês enfrenta uma escolha clara: seguir o caminho da cumplicidade, como defendem Berry e seus aliados, ou começar, ainda que com cautela, a recuperar sua autoridade.
Expulsar o embaixador iraniano pode ser insuficiente, mas é um sinal.
Um sinal aos libaneses, antes mesmo da comunidade internacional, de que ainda há quem se recuse a aceitar que o país permaneça como plataforma para as guerras de outros. E, sobretudo, um recado a Nabih Berry: a era dos equilibristas chegou ao fim. Aqueles que acreditam poder administrar esse colapso como se fosse apenas mais um detalhe político logo perceberão que o chão já começa a ceder sob seus pés.
O Líbano não precisa de grandes manobristas dentro do Estado. Precisa de um Estado.
E um Estado não pode existir enquanto aqueles a quem foi confiado atuam como seus próprios coveiros.
Se ainda for necessário lembrar: o que se vive hoje não é senão uma repetição distorcida de 6 de fevereiro de 1984, quando o slogan do “fim da injustiça” foi usado para justificar um golpe de força contra o Estado, transformando, ao final, as armas de um suposto instrumento de justiça em instrumento de dominação. Aqueles que pegaram em armas naquele dia não o fizeram para defender o Estado, mas porque o consideraram ausente e decidiram substituí-lo. O resultado não foi sua restauração, mas seu enterro. A ironia é contundente: os que diziam combater a injustiça tornaram-se, gradualmente, seus principais agentes, monopolizando o poder, infiltrando as instituições e reproduzindo o mesmo sistema que afirmavam combater.
Hoje, Nabih Berry e seus aliados reciclam essa mesma experiência fracassada: o mesmo pretexto, as mesmas armas, o mesmo desfecho, um Estado capturado e um povo chamado a aplaudir sua própria submissão em nome da “dignidade” e dos “direitos”. Será preciso mudar de rumo.