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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
Opinião
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Por Youssef Mouawad
Publicado em set 5, 2026 - 13:25
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório do Congressional Research Service de setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, « Make Turkey great again », não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de « proxies », acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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O profeta e o filósofo (6/10)
Por
Wissam Saadé
Publicado

Em abril de 2026, Wissam Saadé proferiu quatro conferências na Universidade de Bolonha. A primeira, a convite do professor Giovanni Giorgini, teve como título “The Prophet and the Philosopher: The Hierarchy of Knowledge between Avicenna’s Falsafa and al-Kirmānī’s Ismaili Neoplatonism”. Seu texto é apresentado aqui em uma versão revista e ampliada, como parte de uma série de dez artigos. Esta série explora o panorama intelectual do neoplatonismo no Islã por meio de uma leitura comparativa de Avicena e al-Kirmānī. Embora ambos os pensadores compartilhem um amplo horizonte neoplatônico, moldado por uma metafísica da emanação, uma hierarquia do ser e uma síntese entre o pensamento aristotélico e o platônico, eles desenvolvem dois projetos filosóficos distintos: Avicena, dentro da tradição peripatética da falsafa , e al-Kirmānī, no âmbito da teologia ismaelita. Apesar de seus diferentes contextos intelectuais, seus sistemas mantêm um diálogo constante em torno da natureza do conhecimento, da relação entre razão e revelação e da ascensão da alma. Seus respectivos projetos também encarnam duas concepções contrastantes do político, iluminando diferentes maneiras de compreender o lugar da filosofia diante da autoridade, da lei e da organização da comunidade. Este artigo constitui a sexta parte desta série de dez. VI - Islamizando Platonópolis, platonizando o Islã Tanto al-Kirmānī quanto Avicena pertencem a uma longa tradição intelectual que concebe a filosofia não apenas como investigação teórica, mas como purificação ( catharsis ). Dentro desse horizonte, a perfeição da alma humana e sua ascensão rumo à felicidade são alcançadas por meio da apreensão da verdade. O objetivo da filosofia deixa, assim, de ser a simples compreensão do mundo e se torna, antes, um meio de desprender-se dele com vistas à união com o Absoluto. O que emerge é uma síntese densa na qual aristotelismo, platonismo e Islã se entrelaçam com elementos herméticos e gnósticos residuais, todos contribuindo para estruturar o conhecimento como uma forma de salvação. Dentro dessa constelação mais ampla, o gnosticismo manifesta-se tanto em formas radicais quanto moderadas. Em sua expressão radical, o mundo é concebido como uma prisão, e a libertação é alcançada por meio do contato com o Logos. Em sua forma moderada, o mundo é entendido como um domínio marcado pela mistura ou como o lugar da descida da alma, sem que isso implique necessariamente considerar a matéria intrinsecamente má. O pensamento ismaelita, em particular, oscila entre esses dois polos, entre o radicalismo ascético e a moderação metafísica. Al-Kirmānī ocupa uma posição decisiva dentro dessa tensão, buscando regular o ʿ irfān (gnose) para que o bāṭin (esotérico) não dissolva o ẓāhir (exotérico). Seu projeto pode, assim, ser descrito como uma interioridade regulada, implicitamente informada pela reativação de motivos estoicos como ataraxia e apatheia , isto é, a obtenção da serenidade por meio do domínio das paixões. A salvação, nesse quadro, é ao mesmo tempo gnóstica e escatológica. Seu objetivo último, porém, não é o excesso especulativo, mas alcançar a rāḥat al- ʿ aql , o repouso do intelecto. Para al-Kirmānī, o intelecto alcança a paz precisamente quando deixa de tentar ultrapassar o lugar que lhe cabe e reconhece a impossibilidade ontológica de compreender diretamente a Origem Primeira. Ao reconhecer esses limites, a alma abstém-se de transgredi-los e constrói, por meio da síntese entre conhecimento e ação, um corpo espiritual destinado a perdurar após a dissolução do mundo material. Na vida futura, permanece na luz dos primeiros intelectos, transcendendo todos os véus em um estado de tranquilidade final. Um princípio estrutural central compartilhado pelas tradições esotéricas é a doutrina do ẓāhir e do bāṭin . Todo texto revelado possui uma superfície exterior e uma profundidade interior; em termos islâmicos, isso corresponde à dualidade entre sharī ʿ a e ḥaqīqa . Essa dualidade é ainda reforçada pela noção do ocultamento divino: Deus não está ausente, mas velado por uma sucessão de véus ontológicos. A própria existência do mundo pressupõe mediação, hierarquia e manifestação gradual. A luz divina, em sua intensidade, não pode ser recebida diretamente; deve ser refratada através de níveis sucessivos do ser, para não aniquilar aquele que a recebe. Essa metafísica da mediação encontra frequentemente expressão em sistemas simbólicos de números e correspondências. As ressonâncias pitagóricas aparecem particularmente na numerologia ismaelita, na qual os números adquirem significado cosmológico e hierárquico. Sequências numéricas são utilizadas para mapear a estrutura do universo, os graus da autoridade espiritual e os estágios da emanação desde o Primeiro Intelecto até o mundo material. O número torna-se, assim, uma linguagem por meio da qual a metafísica é simultaneamente expressa e ocultada. Intimamente relacionadas a essas concepções encontram-se as tradições do ʿ ilm al-jafr e do ḥisāb al-jummal . A primeira, frequentemente associada ao conhecimento esotérico xiita, designa uma ciência da interpretação simbólica por meio da qual significados ocultos são extraídos dos textos sagrados, às vezes mediante métodos criptográficos ou combinatórios. A segunda refere-se a um sistema que atribui valores numéricos às letras do alfabeto árabe, análogo à gematria hebraica, permitindo que palavras e frases sejam lidas como configurações numéricas. Por esse procedimento, a própria linguagem torna-se um campo de correspondências no qual letras, números e realidades metafísicas se entrecruzam. Essas diversas tradições convergem em uma concepção comum: o cosmos é estruturado como uma rede de proporções inteligíveis, na qual letras, números e seres se refletem mutuamente através de diferentes níveis ontológicos. O mundo, portanto, não é um agregado mudo de coisas, mas uma ordem legível, que pode ser decifrada por aqueles iniciados em sua gramática simbólica. Essa ideia alcança sua formulação mais abrangente na noção de Lawḥ Maḥfūẓ (Tábua Preservada), um conceito corânico que remete ao registro divino no qual todas as coisas estão inscritas. O cosmos aparece aqui como uma espécie de arquivo primordial: todo acontecimento, forma e ser existe primeiro como inscrição inteligível em uma memória divina antes de se manifestar no tempo. O mundo, nesse sentido, é o desdobramento temporal de uma ordem inteligível previamente escrita, uma transcrição visível de uma escrita invisível. O ser humano inteligível e a metafísica do Imamato Dentro desse quadro, pode-se discernir tanto uma recuperação quanto uma ampliação de diversos motivos antropológicos da Antiguidade Tardia e do helenismo tardio, sobretudo a noção neoplatônica do anthrōpos noētós , o “ser humano inteligível”. No neoplatonismo, particularmente em Plotino, essa figura designa um arquétipo inteligível situado no domínio do Nous , do qual a humanidade empírica constitui apenas uma realização reduzida e derivada. Ao lado dessa tradição encontra-se a concepção hermética do ser humano primordial ( Anthropos ), representado como um ser luminoso que desce ao cosmos material, instituindo assim a dupla condição da humanidade, simultaneamente enraizada na transcendência e imersa na corporeidade. Em diversos sistemas gnósticos, essa mesma figura é reformulada como o “Homem Primordial”, cuja fragmentação explica a dispersão das centelhas divinas por toda a estrutura do cosmos. Dessa constelação mais ampla de ideias emerge, na história intelectual islâmica posterior, a doutrina do insān al-kāmil , o “ser humano perfeito”. Em sua formulação mais geral, essa figura designa um microcosmo que reflete o macrocosmo, uma imagem condensada e integradora da totalidade do universo. No discurso comparativo posterior, ela é frequentemente associada à noção cabalística de Adam Qadmon (אָדָם קַדְמוֹן), o arquétipo primordial e luminoso da humanidade. Nessas tradições, o ser humano não é concebido como mero componente parcial do cosmos, mas como sua totalização simbólica e sua recapitulação metafísica. A tensão inerente ao pensamento de al-Kirmānī reside em seu esforço para intelectualizar sistematicamente a figura do Imam, apresentando-o ao mesmo tempo como a atualização histórica de um Anthropos primordial e celeste. Seu projeto consistia em conceber um mediador filosófico-imperial, um governante capaz de encarnar a verdade metafísica absoluta em uma forma histórica concreta. Em última análise, o sistema de al-Kirmānī procura vincular cosmologia e Imamato em uma única arquitetura unificada de significado. Nesse quadro, os mundos superior e inferior mantêm uma continuidade estrutural; cada nível metafísico encontra sua contraparte política e histórica. O Imamato torna-se, assim, o reflexo terrestre da ordem cósmica, fundamentando a hierarquia política em uma necessidade metafísica. Nesse esquema, o Intelecto Universal corresponde ao Profeta Enunciante, enquanto a Alma Universal corresponde ao Imam Fundador. A salvação é redefinida como a realização de uma “antropologia luminosa”, na qual o Imam possui tanto uma presença corpórea quanto uma forma sutil e radiante, inacessível à percepção comum. Contudo, sob esse grandioso edifício metafísico havia um impulso mais urgente e pragmático: a necessidade desesperada de conferir uma base filosófica sólida a um Imamato-Califado em crise. O elaborado intelectualismo de al-Kirmānī funcionava como um escudo defensivo, destinado a proporcionar um fundamento ontológico inabalável a uma autoridade fatímida cada vez mais ameaçada pela dissidência interna e pelas pressões externas. Al-Kirmānī tentou resolver, no plano teórico, um problema para o qual não existe solução teórica: a construção de um império neoplatônico. O projeto que procurou racionalizar sistematicamente era, em última instância, uma impossibilidade ontológica. Imaginar um “império neoplatônico” significa tentar confinar o “Uno” ou o “Intelecto Universal” aos limites do tempo e do espaço, revestindo o Absoluto com as vestes de uma instituição imperial. Embora al-Kirmānī tenha enfrentado esse dilema por meio de uma imponente arquitetura intelectual, ela permaneceu atravessada por contradições irreconciliáveis. Ao elevar o Imamato à condição de necessidade cósmica, sua solução teórica tornou o império cada vez mais prisioneiro de seu próprio idealismo. Cada fracasso político no terreno ameaçava desestabilizar aquele coerente edifício cósmico. Al-Kirmānī tentava, em essência, “nacionalizar” o Invisível em benefício da História, uma ambição que, por mais filosoficamente brilhante que fosse, carregava em si as sementes de seu próprio fracasso histórico. Ele construiu uma “Cidade Virtuosa” de conceitos, mas a realidade imperial sempre foi estreita demais para conter semelhante engenharia da transcendência. Plotino sem Plotino O verdadeiro paradoxo reside no fato de que esse monumental legado neoplatônico se desenvolveu não apenas como exercício filosófico, mas como uma síntese totalizante do filosófico, do religioso e do imperial, realizada por homens que não tinham conhecimento direto e sistemático do mais eminente dos neoplatônicos: o próprio Plotino. Paradoxalmente, a figura da tradição pagã da Antiguidade Tardia que exerceu a maior influência sobre os filósofos muçulmanos permaneceu em grande medida anônima na transmissão direta. Quando era explicitamente distinguido, Plotino era frequentemente referido simplesmente como “o Sábio Grego” ( al-Shaykh al-Yūnānī ). No entanto, foi de fato Plotino, mediado pelos resumos de Porfírio e por suas reelaborações posteriores, e apesar de certa filtragem conceitual aristotélica, quem exerceu uma das influências mais profundas e duradouras sobre a arquitetura da filosofia árabe-islâmica. As Enéadas , em particular os livros IV a VI, reorganizadas e reformuladas na tradição árabe, circularam não sob o nome de Plotino, mas sob o título enganoso de Teologia de Aristóteles . Essa atribuição equivocada não foi um simples erro de transmissão; ela foi estruturalmente possibilitada pela estratégia de Porfírio de expressar a doutrina neoplatônica em uma linguagem conceitual aristotélica, substância, potência e ato, tornando-a assim legível dentro do discurso peripatético. Dada a autoridade conferida a Aristóteles como al-Mu ʿ allim al-Awwal (“o Primeiro Mestre”), a tradição filosófica islâmica recebeu esse texto como uma extensão esotérica da metafísica aristotélica. O resultado foi uma notável ironia histórica: o neoplatonismo plotiniano foi assimilado como a “camada mais profunda” do próprio Aristóteles. Ao lado de Aristóteles, Platão também foi elevado dentro da falsafa , frequentemente descrito como “o divino Platão”, formando assim uma dupla referência na qual Platão fornecia a visão metafísica e Aristóteles, o rigor metodológico. A recepção de Platão, contudo, foi altamente seletiva e filtrada. Os filósofos muçulmanos privilegiaram especialmente a República e as Leis como modelos políticos, e o Timeu como fundamento cosmológico. Nessa configuração, Platão foi efetivamente reconstruído como pensador tanto do governo ideal quanto da ordem metafísica. O ideal platônico do filósofo-rei foi reinterpretado por al-Fārābī sob a figura do governante virtuoso ou profeta-legislador, enquanto a tensão entre politeia e nomos foi resolvida por meio do conceito de uma ordem política fundamentada no divino: a Madīna al-Fāḍila . O Timeu , em particular, tornou-se o texto platônico de maiores consequências no mundo islâmico, embora raramente em sua forma filosófica original. Frequentemente mediado por resumos galênicos, ingressou na cultura intelectual árabe como um híbrido de cosmologia, medicina e metafísica. As leituras fisiológicas que Galeno fez do diálogo contribuíram para diluir a fronteira entre a ordem cosmológica e a estrutura corporal, permitindo que o próprio universo fosse lido como um organismo cujas proporções racionais se refletem na fisiologia humana. Criação, harmonia e síntese grega O modelo platônico do demiurgo colocou um problema teológico adicional: como conciliar um mundo moldado a partir de uma ordem preexistente com a doutrina da creatio ex nihilo . Filósofos como al-Kindī e, posteriormente, Avicena reinterpretaram o demiurgo não como um artesão que age no tempo, mas como uma metáfora da intelecção divina, segundo a qual as formas eternas residem no conhecimento de Deus e fundamentam a inteligibilidade da criação. O resultado foi uma cosmologia matemática e harmônica na qual a necessidade metafísica e a criação monoteísta podiam coexistir. Esse platonismo cosmológico foi desenvolvido ainda mais em tradições como a dos Ikhwān al-Ṣafā ʾ, que elaboraram a doutrina do macrocosmo e do microcosmo: o universo como um “Grande Homem” e o ser humano como um “pequeno universo”. Nesse quadro, as proporções harmônicas que governam o movimento celeste foram estendidas à ética, à medicina e à música, formando uma visão unificada da ordem cósmica. Aristóteles, em contraste, funcionava principalmente como o garantidor do método. Seu Organon forneceu a arquitetura lógica da demonstração, da classificação e da inferência, permitindo que o discurso filosófico adquirisse rigor demonstrativo. Nessa combinação, Platão fornecia a visão ontológica e cosmológica, enquanto Aristóteles fornecia a disciplina epistêmica. Dentro dessa síntese, Plotino introduziu uma decisiva interiorização da metafísica. Ao contrário da República de Platão, que exige o retorno do filósofo à ordem cívica, Plotino desloca o centro de gravidade para a ascensão interior da alma. O objetivo da existência passa a ser a henōsis , a união com o Uno, enquanto a vida política é relegada a uma posição secundária dentro da hierarquia do ser. Seu célebre motivo, o “voo do solitário em direção ao Solitário”, expressa essa reorientação radical rumo à transcendência interior. Ainda assim, Plotino não rejeita inteiramente a virtude cívica. Nas Enéadas , distingue diferentes níveis de virtude: as virtudes cívicas, que regulam a vida encarnada; as virtudes purificadoras, que desprendem a alma da corporeidade; e as virtudes intelectuais, que a orientam para o intelecto divino ( nous ). A política torna-se, assim, preparatória, e não final: necessária para a ordem, mas não constitutiva do mais elevado fim humano. Uma tradição anedótica atribui ainda a Plotino um projeto político jamais realizado, a fundação de Platonópolis sob patrocínio imperial, sugerindo ao menos uma tensão entre o retiro filosófico e a aspiração cívica. Seja histórico ou simbólico, o episódio destaca a ambiguidade de sua posição na filosofia política posterior. A transmissão do platonismo para a falsafa foi ainda mais complicada pela ausência de acesso direto ao corpus platônico, em contraste com a tradução relativamente completa de Aristóteles. Como resultado, Platão e Aristóteles foram frequentemente lidos como momentos complementares de uma única tradição unificada de sabedoria. Esse “pressuposto harmonizador” alcançou sua formulação mais explícita no projeto de al-Fārābī de reconciliar as opiniões de Platão e Aristóteles, que pressupunha um acordo fundamental entre ambos. A pesquisa moderna, particularmente os trabalhos de Peter Adamson, mostrou que a chamada Teologia de Aristóteles está longe de ser uma reprodução fiel de Plotino. Trata-se, antes, de um texto profundamente reconfigurado, no qual a metafísica plotiniana é sistematicamente reformulada em terminologia aristotélica. Até mesmo os argumentos críticos contra a psicologia de Aristóteles são atenuados ou redirecionados de modo a preservar a continuidade doutrinária. Na prática, Aristóteles não é refutado, mas absorvido em uma estrutura neoplatônica. Essa transformação teve consequências profundas. A definição aristotélica da alma como entelecheia do corpo, que em sua formulação original implica mortalidade, foi reinterpretada para preservar sua compatibilidade com a imortalidade. A alma foi, assim, reconcebida não como uma função corporal, mas como um princípio transcendente de perfeição. Dentro dessa constelação intelectual, a falsafa passou a operar sobre o que pode ser descrito como um mito fundador: a unidade da filosofia grega. Platão, Aristóteles e Plotino foram integrados em uma única linhagem coerente da verdade, apesar de suas divergências históricas. A Harmonia das opiniões dos dois sábios , de al-Fārābī, pode, portanto, ser lida como uma articulação programática dessa visão sintética. Da “Greek Theory” a Platonópolis O resultado metafísico dessa tradição foi, em última análise, a reconfiguração da alma como uma substância imaterial e autossubsistente orientada para o Intelecto Ativo. A própria escatologia foi reinterpretada em um registro intelectualista e imaginal: em vez de uma vida após a morte puramente corpórea, o destino da alma se desenrola em um domínio não material (ʿ ālam al-mithāl ), no qual as imagens das Escrituras são transpostas para uma forma inteligível. Desse modo, a falsafa construiu uma escatologia filosófica capaz de mediar entre a metafísica demonstrativa e a descrição revelada. Os falāsifa construíram, de fato, uma espécie de “fantasia de consenso”, tratando as vozes discordantes da tradição grega como uma única e monolítica “Greek Theory”. Isso lembra a maneira como o meio acadêmico norte-americano do século XX condensou as tensões entre Foucault, Derrida e Lacan na marca unificada da “French Theory”. Enquanto a “French Theory” norte-americana girava frequentemente em torno da desconstrução, a “Greek Theory” dos falāsifa girava em torno da reconstrução: a edificação de um enorme sistema metafísico unificado capaz de explicar tudo, das estrelas à alma. Dentro dessa reinvenção islâmica da “Greek Theory”, a purificação era axiomática. Para pensadores como al-Kirmānī e Avicena, essa tradição concebe a filosofia não simplesmente como um exercício de investigação teórica, mas como um processo transformador de purificação. Nesse quadro, a perfeição da alma humana e sua ascensão rumo à felicidade última realizam-se mediante a apreensão ativa da verdade. Sob essa perspectiva, o objetivo da filosofia se desloca: já não consiste simplesmente em compreender o mundo, mas em purificar-se dele, alcançando a união com o Absoluto sem deixar de permanecer plenamente presente na ordem temporal. Enquanto Plotino concebeu Platonópolis como um retiro na Campânia dedicado à vida contemplativa, Avicena e al-Kirmānī aspiravam a uma Ordem Total. Para al-Kirmānī, essa Platonópolis deveria quase se confundir com a da ʿ wa fatímida, uma hierarquia rígida e bela. Assim como os céus são ordenados por dez Intelectos, o Estado fatímida estrutura-se segundo os diferentes graus da da ʿ wa . Aqui, a cidade funciona como uma máquina pedagógica, na qual cada grau da hierarquia religiosa corresponde precisamente a um grau no cosmos. Quanto à Platonópolis de Avicena, na qual o platônico permanece oculto por trás da dupla aura de Aristóteles e do Profeta, ela assume um caráter muito mais esquivo. N. do E.: Este texto foi traduzido do inglês.

«Todos os caminhos levam a Roma»...
Por
Rabih Dandachli
Publicado

A expressão «Todos os caminhos levam a Roma» é uma das mais célebres da história política e das civilizações. Não foi apenas uma metáfora literária, mas também uma descrição da realidade do Império Romano, que construiu uma extensa rede de estradas que fez de Roma seu centro político, militar e econômico, de modo que as principais rotas conduziam à capital. A partir da Idade Média, a expressão transformou-se em um provérbio segundo o qual a diversidade dos meios não necessariamente altera o resultado final e caminhos diferentes podem levar ao mesmo destino. O Líbano talvez ofereça hoje um exemplo político contemporâneo dessa máxima. Desde o fim da última guerra, multiplicaram-se os discursos e os slogans, assim como as opções apresentadas. No entanto, uma única pergunta permanece: o Líbano dispõe realmente de várias opções estratégicas, ou todas acabam levando, de uma maneira ou de outra, à mesa de negociações? Este artigo não pretende defender as negociações nem se opor a elas, tampouco justificar uma determinada opção política. Busca simplesmente ler a realidade tal como ela é, longe dos slogans e das paixões políticas, para formular uma pergunta simples: resta ao Líbano alguma opção estratégica que não passe, em última instância, pelas negociações? Da guerra à política Nas relações internacionais, as guerras não são um fim em si mesmas. Muitas vezes constituem um meio de alterar a correlação de forças com vistas a uma negociação. Raramente as guerras terminam com uma vitória absoluta. Em geral, seus resultados acabam sendo traduzidos à mesa de negociações, seja de forma direta ou indireta. No caso libanês, a última guerra deu origem a uma nova realidade marcada por vários fatores: a reocupação, por Israel, de partes do território libanês; a crescente pressão internacional pela implementação da Resolução 1701 e de outras resoluções internacionais pertinentes; a vinculação da reconstrução a um novo processo político e de segurança relacionado às armas que escapam à autoridade do Estado; profundas transformações regionais que redesenharam a correlação de forças e abalaram muitas das certezas que moldaram a região ao longo das últimas duas décadas. Tudo isso coloca o Líbano diante de um desafio que já não pode ser adiado. Quais são as opções do Líbano? À primeira vista, as opções parecem numerosas. Mas, quando examinadas de perto, revelam-se muito menos diversas do que aparentam. Primeiro: a opção da resistência militar Um setor considera que a continuidade da ação militar constitui uma alternativa a qualquer via de negociação. No entanto, essa opção se choca com várias realidades: um claro desequilíbrio de forças; um custo humano e econômico que o Líbano dificilmente pode suportar; a ausência de apoio internacional a um confronto aberto; a necessidade interna de reconstruir o Estado e suas instituições. Portanto, a continuidade do confronto não elimina as negociações. Apenas as adia ou altera suas condições. Segundo: esperar Outros apostam em mudanças regionais ou internacionais que possam oferecer, mais adiante, condições mais favoráveis ao Líbano. Mas esperar não é, em si, uma política. Equivale a suspender a decisão. Enquanto isso, a realidade continua mudando, a correlação de forças se altera e novos fatos consumados se consolidam, até passarem a integrar qualquer futuro acordo. Terceiro: internacionalizar a crise Alguns defendem a transferência de todo o dossiê para as Nações Unidas ou para as potências internacionais. No entanto, nem mesmo os conflitos mais internacionalizados foram resolvidos apenas por meio de resoluções internacionais. Sua implementação e sua tradução em fatos concretos exigiram, em última instância, negociações entre as partes envolvidas. Quarto: negociações indiretas É um modelo que o Líbano conheceu em diversas ocasiões, seja por meio do acordo de armistício, das negociações sobre a delimitação da fronteira marítima ou das mediações americanas e internacionais. Essa opção permite alcançar entendimentos sem que nenhuma das partes tenha de assumir o custo político de um contato direto com a outra. Quinto: negociações diretas É a opção politicamente mais sensível. Ainda assim, continua sendo uma possibilidade caso as partes cheguem à conclusão de que as mediações já não são suficientes para alcançar os objetivos desejados. As negociações que todos se recusam a reconhecer Os atores que mais categoricamente se recusam a falar de negociações parecem, na realidade, estar entre os mais ligados aos seus resultados. O Hezbollah, que rejeita qualquer discussão sobre negociações diretas entre o Líbano e Israel, hoje faz parte de uma equação regional que ultrapassa amplamente as fronteiras libanesas. Muitos de seus cálculos estratégicos parecem estar atualmente vinculados ao desfecho das negociações entre o Irã e os Estados Unidos. O futuro das sanções, o programa nuclear e o papel regional do Irã são fatores que repercutem, direta ou indiretamente, sobre a posição e as opções do Hezbollah. Isso significa que, embora o Hezbollah não esteja sentado à mesa de negociações, ele aguarda seus resultados e baseia boa parte de seus cálculos neles. Rejeitar negociações em Beirute não significa rejeitá-las em termos absolutos. Significa apenas que a negociação se deslocou para outra capital e para outro dossiê. Israel, por sua vez, apesar de sua superioridade militar, enfrenta um dilema semelhante. A força militar pode destruir ou enfraquecer as capacidades militares do adversário, mas, sozinha, não pode gerar uma estabilidade duradoura na fronteira norte. Em última instância, Israel precisa de arranjos que garantam a segurança de seus assentamentos no norte, permitam o retorno de seus habitantes e impeçam o ressurgimento da ameaça. Qualquer que seja o nome dado a esses arranjos, eles não poderão ser alcançados apenas pela força. Exigirão entendimentos políticos ou de segurança, diretos ou indiretos, com o Estado libanês ou por meio de mediação internacional. Em outras palavras, apesar de seus discursos diferentes, ambos os lados se movem dentro do mesmo espaço de negociação, ainda que não estejam sentados à mesma mesa. O Hezbollah aguarda o resultado das negociações entre o Irã e os Estados Unidos, enquanto Israel busca arranjos negociados capazes de assegurar sua frente norte. Ambos sabem que a guerra, por si só, não pode gerar uma estabilidade duradoura. Existe uma verdadeira alternativa às negociações? É aí que reside o grande paradoxo. Depois de examinar os diferentes cenários, fica claro que a verdadeira divisão não se dá entre negociar e não negociar , mas entre a forma, o momento e o nível das negociações . A guerra pode ser um meio de melhorar as condições de negociação. A dissuasão também é um instrumento de negociação. A mediação é uma forma de negociação. As resoluções internacionais exigem negociações para serem implementadas. E esperar, no fundo, nada mais é do que adiar as negociações. Mesmo a continuidade da ocupação ou de confrontos limitados não pode constituir uma solução permanente. Trata-se apenas de fases transitórias que, cedo ou tarde, desembocam em alguma forma de acordo. Portanto, a verdadeira pergunta já não é: haverá negociações? Mas sim: que tipo de negociações? Quem representará o Líbano? E com que cartas contará? O que isso significa para o Líbano? O problema fundamental não está no princípio das negociações em si, mas na preparação do Estado libanês para conduzi-las. Os Estados não são avaliados apenas por sua capacidade de entrar em negociações, mas também por sua capacidade de definir seus objetivos antes de se sentarem à mesa. O que o Líbano quer recuperar? Quais são suas prioridades? O que pode aceitar? E do que não pode abrir mão? São as respostas a essas perguntas que determinarão o resultado de qualquer processo de negociação, e não o simples fato de as negociações ocorrerem. Um Estado que entra em negociações unido e capaz de definir uma posição nacional torna-se parte ativa na construção do acordo. Um Estado dividido, ao contrário, transforma-se em uma arena onde outros negociam e moldam os arranjos. Talvez a expressão «Todos os caminhos levam a Roma» já não seja apenas uma descrição da rede de estradas do Império Romano, mas uma descrição particularmente precisa da situação atual do Líbano. Os caminhos diferem, os slogans mudam e os discursos se transformam, mas o resultado parece continuar o mesmo. O Hezbollah, apesar de rejeitar negociações com Israel, aguarda os resultados de outras negociações que determinarão uma parte importante de seu futuro. Israel, apesar de sua superioridade militar, também busca arranjos negociados capazes de lhe garantir a segurança que a força, por si só, não conseguiu assegurar. E o Estado libanês, por mais que tente adiar essa questão, acabará se vendo diante da mesma pergunta. A pergunta já não é: o Líbano negociará? Agora é: como negociará? Quem negociará em seu nome? Com base em que visão nacional? E entrará nas negociações como um Estado capaz de decidir por si mesmo, ou como uma arena onde se cruzam as negociações dos outros? Porque, na política como na história, a questão não é simplesmente que todos os caminhos levem a Roma. A questão é saber por que se escolhe determinado caminho e ter a capacidade e a coragem de definir o próprio rumo antes que outros o escolham em seu lugar.

Líbano: linhas de fogo dentro e fora
Por
Rami Rayess
Publicado

Enquanto os países da região buscam mecanismos e alianças que lhes permitam reduzir sua dependência total dos Estados Unidos em matéria de segurança, ou até mesmo se desvincular por completo de sua tutela, tendo a aliança turco-saudita-paquistanesa como um exemplo claro dessa tendência, o Líbano oficial segue na direção oposta, rumo a uma dependência cada vez maior de Washington na maioria das questões de sua política externa. Isso não se limita à questão das negociações diretas libanês-israelenses, iniciadas em Washington e que prosseguem em Roma, e não em Paris, por exemplo, o que não é por acaso. Naturalmente, o Líbano não pode comparar sua posição, sua presença ou seu papel aos das três grandes potências regionais, nem adotar abordagens semelhantes às delas, dadas as capacidades políticas, econômicas e militares de que dispõem. Tampouco alguém pode afirmar com certeza se o Líbano é sequer capaz de se distanciar de Washington ou se possui outras opções que lhe permitam fazê-lo. Nada indica, além disso, que uma iniciativa desse tipo seja necessária, tendo em vista o importante papel que os Estados Unidos continuam desempenhando tanto no plano internacional quanto regional. Se alguns consideram que foram, na prática, as negociações políticas diretas que puseram fim à guerra, algo que certamente contém uma parcela de verdade, o Líbano precisa, ainda assim, definir uma política externa mais ativa e eficaz, capaz de mobilizar apoio internacional em favor de sua justa causa e de exigir de maneira persistente a retirada militar israelense completa até as fronteiras internacionais reconhecidas. Essas fronteiras foram consagradas pelo Acordo de Armistício firmado entre o Líbano e Israel em 1949, mas foram completamente ignoradas nas últimas negociações. É verdade que Washington não aceitará que ninguém concorra com o papel que recuperou no Líbano e que pretende conservar o monopólio da cena libanesa para utilizá-la como via de acesso a alguma conquista política em nível regional, sobretudo diante do impasse em torno do dossiê iraniano, oscilando entre bombardeios e negociações, sem que nenhuma das duas vias tenha conseguido produzir um desfecho decisivo. Mas também é verdade que apoiar-se exclusivamente em uma única potência internacional, por mais forte que seja, não necessariamente produz os resultados esperados. Talvez o exemplo mais evidente seja a marginalização do papel francês, reduzido à sua expressão mínima, algo pouco habitual no contexto das relações «históricas» entre o Líbano e a França. Embora se reconheça o caráter incontornável do papel norte-americano diante das circunstâncias atuais e da correlação de forças produzida pelas guerras que assolaram a região nos últimos dois anos, resta naturalmente esperar que Washington exerça maior pressão sobre sua aliada privilegiada para obter a retirada e conter o apetite desenfreado de Israel pelo território do sul do Líbano, evidenciado, entre outras coisas, pela publicação de mapas suspeitos, pela abertura de estradas e pelo estabelecimento de posições militares nas áreas ocupadas. Enquanto os Estados Unidos não se convencerem de que a construção do Estado no Líbano favorece a estabilidade interna e regional, e enquanto essa convicção não se traduzir em posições concretas que produzam resultados efetivos no sul do Líbano, a situação continuará girando no mesmo círculo vicioso: as armas antes da retirada ou a retirada antes das armas? A propósito, essa opção, a construção do Estado no Líbano, não necessariamente favorece os interesses de Israel. O mais provável é que não, pois a fraqueza do Estado lhe permite descarregar sua hostilidade histórica contra um Líbano plural, em contraste com sua identidade unívoca, cada vez mais radicalizada. A construção do Estado no Líbano, cujo ponto de partida é assegurar ao Estado o monopólio das armas, e não promover o desarmamento, constitui o caminho correto e único para sair da realidade em que vivemos. Isso permitiria aos habitantes do Sul confiar na existência de um Estado capaz de protegê-los, acolhê-los e garantir-lhes as condições de uma vida digna, longe dos discursos sobre marginalização e abandono, reforçados por retóricas sectárias detestáveis, revestidas de slogans doentios e impregnadas de um ódio capaz de lançar as bases de conflitos civis que a maioria dos libaneses acreditava definitivamente superados. Em uma sociedade plural e diversa como a libanesa, o Estado não pode ser construído com base no governo pela espada, embora um excesso de fraqueza também possa ser fatal para o projeto estatal. Ele deve ser construído a partir de espaços de interesse comum encarnados pelo Estado, que nenhuma parte, por mais poderosa que seja, pode substituir. Foi exatamente isso que os acontecimentos no Líbano demonstraram ao longo dos anos, depois que o excesso de poder passou sucessivamente de uma comunidade para outra. Cabe, portanto, ao Estado libanês dar por si mesmo os passos necessários para se construir e não excluir o diálogo com ninguém, dentro ou fora do país, com o objetivo de alcançar essa meta, mesmo que isso exija abrir canais com atores que apoiam determinadas forças no Líbano em vez de apoiar o próprio Estado. Por que o Estado não buscaria formular entendimentos regionais sob cobertura internacional que lhe permitissem traduzir concretamente seu projeto no Líbano: o projeto do Estado? Isso está acima de suas capacidades? Talvez. Mas é preciso tentar. Por fim, se a defesa de um diálogo no exterior parece necessária para sair do atual impasse, a necessidade de um diálogo interno não é menos urgente. Não pode se tratar de um diálogo meramente folclórico, cujos resultados se limitem a entendimentos verbais que jamais encontrem caminho para a implementação, mas de um diálogo que busque seriamente estabelecer os parâmetros necessários no plano interno: nenhum recuo no projeto de construção do Estado, cujo ponto de partida é assegurar ao Estado o monopólio das armas, e não promover o desarmamento; e nada de alimentar sentimentos de marginalização e abandono entre uma parcela dos libaneses. Entre esses dois imperativos, será preciso criar algum espaço comum, por maiores que sejam as dificuldades.

"A caridade bem ordenada…" ou as desventuras do Grande Líbano

“A caridade começa em casa” é um ditado apropriado para descrever as falhas do Grande Líbano, como capturado pela incisiva e perspicaz declaração de Georges Naccache: “Duas negações não fazem uma nação”. Essa afirmação revela as trágicas deficiências da primeira geração de libaneses diante de um Grande Líbano que luta para se afirmar. De origem agostiniana, “a caridade começa em casa” significa simplesmente que é preciso garantir que as próprias necessidades e obrigações sejam atendidas antes de buscar ajudar os outros. Esse conceito às vezes é mal utilizado para justificar comportamentos individualistas, falta de generosidade ou a priorização de interesses pessoais em detrimento de uma causa coletiva. Na verdade, ele deriva da teologia de Santo Agostinho (século IV) e da noção de ordo caritatis (a ordem da caridade). Segundo Santo Agostinho, a caridade (amor divino) deve seguir uma hierarquia lógica: primeiro é preciso amar a Deus, depois amar a si mesmo de maneira saudável ou “ordenada” (para a salvação da alma), antes de poder amar o próximo. Inspirada por Agostinho, a fórmula latina caritas bene ordinata incipit a se ipso (a caridade começa por si mesma) foi posteriormente adotada de forma pragmática pelos juristas medievais. Os comentadores usavam essa máxima para resolver, em particular, disputas de vizinhança relacionadas à água. O exemplo clássico era o seguinte: um proprietário de terras com uma fonte de água em sua propriedade não era obrigado a irrigar os campos de seus vizinhos se isso representasse o risco de secar suas próprias terras. A lei, portanto, justificava a prioridade do próprio interesse vital. Ao longo dos séculos, a máxima ultrapassou os tribunais e os tratados teológicos, entrando no vocabulário comum. A partir do século XVI, tornou-se um provérbio popular usado para lembrar às pessoas que é natural pensar na própria segurança material e moral antes da dos outros. A Tragédia Libanesa Esse princípio se aplica perfeitamente à história do Líbano. À primeira vista, pode-se pensar que este provérbio resume a tragédia de um sistema onde cada comunidade no Líbano priorizou historicamente a sua própria sobrevivência e segurança em detrimento da do Estado central. Mas outra perspectiva é possível, e é através dela que emerge a verdadeira “tragédia” libanesa. Ela mostra como, ao privilegiar outras causas em detrimento da do Grande Líbano, tal como concebido e idealizado pelos seus fundadores — como a Palestina, a unidade árabe, a Grande Síria ou o pan-islamismo — o país desviou-se da “caridade bem ordenada”, que consistiria em amar “primeiro” o crescimento ordenado do seu próprio Estado-nação. Esta análise capta, de facto, o ponto de viragem na história moderna do Líbano. Destaca a segunda faceta do provérbio: o facto de o extremo oposto — abraçar causas universais ou regionais antes de consolidar as suas próprias bases — ter levado o país à ruína. Ao escolher fazer do Líbano o "quartel-general" dos conflitos do Oriente Médio mencionados anteriormente, grande parte da classe política e da população perdeu a oportunidade de um crescimento interno saudável. Essa "violação" do princípio de que a caridade começa em casa é bem resumida pelo conceito da síndrome do "altruísmo sacrificial". Tanto na teologia quanto na lógica, não se pode dar o que não se possui. O Líbano, um Estado jovem e frágil, nascido da Guerra Franco-Prussiana de 1920 e 1943, ainda não havia consolidado suas instituições nem criado uma identidade nacional unificada. Assim, ao investir pesadamente em causas transnacionais a partir das décadas de 1950 e 1960 (o nasserismo e, posteriormente, o apoio armado à causa palestina por meio dos Acordos do Cairo em 1969), o Líbano agiu como uma entidade frágil tentando o impossível: arcar com o fardo dos outros. Essa escolha destruiu o frágil compromisso do Pacto Nacional e desencadeou a guerra civil em 1975. A Diluição da Identidade Nacional Para que existisse uma “caridade bem ordenada”, primeiro teria que haver uma “identidade” claramente definida e aceita, algo que as elites libanesas não conseguiram fazer, ou sequer desejar. Ao preferir o ideal da Grande Síria (defendido pelo Partido Social Nacionalista Sírio) ou a unidade árabe, uma parcela da população libanesa continuou a ver o Líbano como uma entidade artificial ou uma mera província a ser absorvida por um todo maior. Por outro lado, ao favorecer agendas teocráticas ou eixos regionais (como o eixo pró-Irã), outras facções deslocaram o centro da tomada de decisões para além das fronteiras e alienaram seus próprios compatriotas. Como resultado, o Líbano nunca conseguiu se consolidar como um Estado-nação soberano. O patriotismo libanês tem sido percebido há muito tempo por seus detratores como uma forma de traição às "grandes causas", e seus apoiadores chegaram a ser rotulados de "isolacionistas". O crescimento ordenado teria exigido dar prioridade absoluta ao desenvolvimento da infraestrutura libanesa, à educação cívica unificada, à segurança das fronteiras e ao fortalecimento da economia local. Ao importar guerras de outros países para o seu próprio território, o Líbano desperdiçou suas riquezas, provocou um êxodo de suas elites e destruiu seu tecido social. O país tornou-se um campo de batalha para potências regionais que travam guerras por procuração há décadas, confirmando que, quando você não cuida primeiro da sua própria casa, seus vizinhos vêm para saquear ou dominar. Este é o paradoxo libanês: a história do país oscila constantemente entre o egoísmo sectário interno (o recolhimento à própria comunidade religiosa em detrimento do Estado) e o altruísmo ideológico externo (a preferência por causas regionais em detrimento da nação). Em ambos os casos, o projeto de um Estado libanês moderno, forte e próspero foi sacrificado.

Assédio, intimidação: as mulheres, alvos preferenciais da IA

Imagens manipuladas, sexualização, campanhas de difamação e acusações de traição: no Líbano, a inteligência artificial oferece novas ferramentas para o assédio direcionado a mulheres com presença no espaço público. O caso de uma ministra e os depoimentos de duas jornalistas ilustram um fenômeno global que avança mais rápido do que os meios jurídicos e técnicos criados para contê-lo. Um diabo vermelho, com chifres e um tridente, mas com um rosto familiar: óculos de grau, cabelo curto descolorido e brincos redondos. Não se tratava de uma simples caricatura, mas de uma das dezenas de imagens geradas por inteligência artificial que invadiram as plataformas tendo como alvo a ministra da Educação e do Ensino Superior, Rima Karamé. Sua insistência declarada em manter os exames oficiais apesar do clima de tensão securitária que acompanhava a guerra havia gerado uma ampla onda de indignação. As pessoas revoltadas não debateram a decisão educacional com argumentos pedagógicos. Em vez disso, surgiram perfis com versões distorcidas e zombeteiras do nome da ministra, além de páginas de ódio criadas especificamente contra ela. As imagens que a retratavam como um demônio, uma bruxa ou uma "vilã" se multiplicaram. Uma delas colava o rosto dela no corpo de Gargamel, o famoso vilão do desenho animado Os Smurfs. Submetidas à ferramenta de detecção Hive Moderation , as duas imagens foram avaliadas com 99,9% de probabilidade de terem sido geradas por inteligência artificial. A ferramenta estimou, com um grau de certeza significativamente inferior — 75,7% — que o modelo utilizado poderia ser o Gemini 3. Segunda imagem divulgada: a análise do Hive Moderation estimou em 99,9% a probabilidade de ter sido gerada por inteligência artificial. Vale lembrar que os detectores de conteúdo gerado por IA são ferramentas probabilísticas, sujeitas tanto a falsos positivos quanto a falsos negativos. O mesmo padrão se repetiu com mulheres que contam com menos proteção do que uma ministra. Maya*, jovem jornalista libanesa, publicou durante a guerra um vídeo gravado em campo que teve ampla repercussão. Segundo seu depoimento à autora desta reportagem, sua única "recompensa" foi ver surgir um perfil anônimo que divulgava imagens falsas de caráter sexual representando-a, geradas por inteligência artificial e acompanhadas de frases como "Israel ama Maya". Uma dupla tentativa de atingir seu corpo e de questionar sua lealdade. Este episódio, no entanto, não pôde até agora ser corroborado por uma fonte independente. Já a jornalista Lynn* descobriu que uma foto sua tirada durante uma cobertura de campo havia sido alterada para fazê-la aparecer entre dois soldados israelenses apontando suas armas para ela. A imagem havia sido publicada por um perfil estrangeiro seguido por dezenas de milhares de pessoas. Depois de sofrer uma agressão física enquanto filmava em Beirute, ela própria contabilizou 148 comentários em uma publicação sobre o ocorrido: críticas à sua aparência, insinuações sexuais e acusações de colaboração com o inimigo. "Os comentários me machucaram mais do que a própria agressão. Com a pessoa que me agrediu, discuti e o assunto ficou por aí. Mas essas coisas que eu lia, escritas por pessoas escondidas atrás de perfis falsos, eram muito mais duras", conta ela. A versão do ministério: uma campanha organizada, não um debate educacional Uma fonte próxima à ministra da Educação afirma que ela e seu ministério tinham conhecimento da campanha desde o seu início e que esta foi progressivamente evoluindo da disseminação de desinformação para ataques pessoais, tornando-se um verdadeiro "trending topic" nas redes sociais. Segundo esta fonte, o ministério tentou, em paralelo, explicar a sua posição e publicar estudos e dados sobre o número de alunos, deslocados e sobre o currículo escolar. «Mas essas mensagens não chegavam a ter impacto, ou tinham um alcance muito menor do que a campanha movida contra ela.» A fonte descreve uma campanha «violenta, na qual todos os meios foram utilizados», entre ataques pessoais e insultos. Em alguns dias, o telemóvel da ministra recebia entre 700 e 1 000 mensagens em curtos períodos de tempo, provenientes do que ela própria chamou de «trolls eletrónicos organizados», que usavam números fictícios e, por vezes, números reais, alguns dos quais pertencentes a alunos. A campanha transformou-se também, segundo esta fonte, num meio de ganhar visibilidade: «Todos os que queriam aparecer, angariar simpatia ou destacar-se começaram a publicar conteúdos sobre a ministra, até que o debate sobre os exames e a educação desapareceu, dando lugar a ataques à sua pessoa: ora o cabelo, ora os acessórios, ora a cor da saia.» Apesar disso, a ministra não apresentou qualquer queixa em tribunal, atitude que a fonte explica pela sua vontade de «não personalizar a questão». «Ela falava com base na ciência e nos números; por isso, não foi pessoalmente processar ninguém.» Quanto às soluções, a fonte menciona um plano de «coesão social» em que o ministério está a trabalhar no âmbito dos programas escolares, em coordenação com os ministérios da Cultura, da Informação e da Juventude e Desporto. O enquadramento jurídico dos comportamentos nas redes sociais permanece, por sua vez, em análise no ministério da Informação. Para além do assédio: uma ciberintimidação sistemática O que aproxima o caso da ministra ao das duas jornalistas vai além do simples «assédio digital» no sentido estrito. Trata-se de um cyberbullying sistemático dirigido especificamente às mulheres presentes no espaço público: manipulação da sua imagem, demonização, ridicularização e questionamento das suas competências, sem que uma única das suas decisões ou ideias seja verdadeiramente debatida. Os dados internacionais mostram que o que acontece no Líbano se insere num fenómeno mundial em agravamento. Segundo o inquérito Tipping Point , publicado em dezembro de 2025 pela ONU Mulheres e pela Comissão Europeia, em cooperação com a UNESCO e o ICFJ e com a participação de investigadores da City St George's, University of London, em 119 países, 70% das mulheres que trabalham na esfera pública sofreram violência digital no exercício da sua atividade. 41% declararam ter sofrido também danos no mundo real relacionados com essa violência, sendo que essa proporção sobe para 75% no caso das jornalistas. No Líbano, as últimas estatísticas das Forças de Segurança Interna, citadas pela ONU Mulheres, indicam que 80% das vítimas de violência digital reportada são mulheres. Quando a inteligência artificial entra em cena, os números tornam-se ainda mais alarmantes. Segundo o estudo State of Deepfakes , publicado em 2023, 98% dos vídeos deepfake disponíveis online têm carácter pornográfico e 99% das suas vítimas são mulheres. O estudo registou igualmente um aumento de 550% no número desses vídeos entre 2019 e 2023. A segunda parte do Tipping Point , publicada em abril de 2026, revela ainda que 6% das mulheres presentes na esfera pública já foram vítimas de deepfakes, enquanto 12% sofreram a divulgação de imagens íntimas sem o seu consentimento. Uma em cada quatro mulheres foi diagnosticada com ansiedade ou depressão relacionada com a violência digital, ao passo que 41% praticam alguma forma de autocensura nas suas publicações para evitar ataques. Como são criados estes conteúdos e como os detetar? Produzir esse tipo de conteúdo já não exige nenhuma habilidade técnica especial. Uma única fotografia disponível publicamente é suficiente para gerar, em poucos minutos, dezenas de versões degradantes com o auxílio de modelos de geração de imagens. E, como destaca Lynn, «dez segundos da sua voz bastam para fabricar uma conversa inteira que você nunca teve». Por outro lado, ferramentas de detecção como Hive permitem estimar a probabilidade de um conteúdo ter sido gerado artificialmente e tentar identificar o modelo utilizado. Foi essa ferramenta que serviu, no âmbito desta investigação, para examinar as imagens e vídeos direcionados à ministra Karamé. Mas a detecção continua sendo mais lenta do que a propagação. Quando o resultado da análise está disponível, a imagem já alcançou, por vezes, milhares de telas. E como esses conteúdos são «produzidos de forma profissional», explica a jornalista, «as pessoas vão acreditar neles, pois quase ninguém é realmente capaz de perceber a diferença». O problema está na sociedade antes de estar na ferramenta «Com o desenvolvimento da inteligência artificial, o assédio digital mudou não apenas de intensidade, mas também de natureza. Vemos agora informações falsas fabricadas a partir de imagens e vídeos, e elas são sempre mais perigosas para as mulheres do que para os homens», explica Abed Qataya, diretor de conteúdo digital da SMEX, uma organização especializada em direitos digitais. Qataya observa que as campanhas se intensificam em momentos políticos importantes: quando uma mulher se candidata a um cargo ou quando toma uma decisão controversa, como no caso da ministra Karamé. «O insulto é frequentemente usado contra mulheres que atuam na esfera pública, e ele se torna pessoal; eles nem tentam discutir política ou fatos», explica ele. E acrescenta: «O perigo não vem apenas das ferramentas de inteligência artificial agora disponíveis, mas também da forma como a sociedade pensa e enxerga as mulheres.» No plano jurídico, o Líbano parece estar atrasado em relação à velocidade com que a ameaça evolui. Qataya explica: «No Líbano, não temos leis diretamente voltadas para o âmbito digital. Temos o Código Penal, a lei de 2018 sobre transações eletrônicas e dados pessoais e a lei de 2020 que criminaliza o assédio», mas nenhum texto trata especificamente de conteúdos falsificados ou de violência digital de gênero. «Não temos um plano nacional, nem sequer uma comissão nacional dedicada a essa questão», acrescenta ele. Lynn compartilha essa constatação a partir de sua própria experiência: «A primeira coisa de que precisamos são leis de verdade que permitam realmente responsabilizar alguém. Contra quem vou registrar uma queixa? Contra o X?» Ela também considera que as próprias autoridades não levam a violência digital suficientemente a sério: «Elas acham que não é uma violência de verdade. Para elas, a violência de verdade é quando alguém vem te bater.» Da legislação às plataformas: quatro níveis de ação As três situações analisadas nesta investigação — uma ministra demonizada por causa de uma decisão educacional, uma jornalista que teve imagens sexuais falsas fabricadas e uma terceira inserida digitalmente entre as armas de dois soldados israelenses — exigem uma ação em quatro níveis que não pode mais ser adiada. Os legisladores precisam adotar um marco jurídico que criminalize explicitamente a produção e a difusão de conteúdos falsificados de caráter malicioso, reforçar as sanções contra a chantagem sexual e financeira e criar a comissão nacional reivindicada pelos defensores dos direitos digitais. Os meios de comunicação e as instituições públicas devem adotar protocolos de proteção claros, que vão desde a gestão de comentários abusivos até ao apoio jurídico e psicológico, em vez de deixar as mulheres visadas enfrentarem sozinhas centenas de mensagens. As plataformas digitais devem agilizar o processamento das denúncias e melhorar a identificação de conteúdos gerados por inteligência artificial. Quanto às mulheres presentes na esfera pública e às suas equipas, a Qataya recomenda que invistam em competências de segurança digital, tanto a nível técnico como psicológico. Enquanto isso, a primeira linha de defesa permanece nas mãos do próprio público: antes de partilhar uma imagem «comprometedora» ou «chocante» de uma mulher da vida pública, uma pergunta deve preceder todas as outras: quem a criou e porquê? * «Maya» e «Lynn» são pseudónimos utilizados, a seu pedido, para proteger a identidade das duas jornalistas. Esta reportagem foi realizada com o apoio da União Europeia e do governo neerlandês, no âmbito da bolsa dedicada à inteligência artificial nos meios de comunicação para a região do Médio Oriente e Norte de África. O seu conteúdo não reflete necessariamente as posições da União Europeia ou do governo neerlandês. Ferramentas de inteligência artificial generativa — Claude da Anthropic e ChatGPT da OpenAI — foram utilizadas para a pesquisa e estruturação de fontes no âmbito da preparação deste trabalho. A ferramenta Hive foi utilizada exclusivamente para verificar conteúdos suspeitos de terem sido gerados por IA, e não para produzir conteúdo. Todo o conteúdo foi revisto e a exatidão de cada informação e de cada fonte mencionada foi verificada antes da publicação. Foram também envidados todos os esforços possíveis para eliminar dos resultados eventuais enviesamentos, sejam eles relativos à linguagem, à apresentação dos acontecimentos ou à seleção das fontes. A responsabilidade editorial integral deste trabalho recai sobre o seu autor.

A colina de Ali el-Taher e os Houthis no centro das atenções

Enquanto as negociações entre o Irão e os Estados Unidos estagnam em meio a declarações inflamadas de ambos os lados, foi a frente sul do Líbano, entre Israel e o Hezbollah, que viveu esta semana uma escalada progressiva, atingindo o seu ponto mais alto no sábado. O que deixa antever desenvolvimentos imprevisíveis nos próximos dias. A semana que passou, entre 10 e 16 de agosto de 2026, ficou marcada, no sul do Líbano, por uma escalada que foi crescendo até ao sangrento sábado de 15 de agosto. Uma sensação de déjà-vu, a de deslocar o centro de gravidade de um conflito regional para um pequeno país, num momento em que, na frente principal no Irão, a violência das palavras entre os beligerantes iranianos e americanos substitui a dos atos… por enquanto. O sul do Líbano foi, assim, palco de uma crescente escalada israelita à medida que os dias passavam. É também a primeira vez desde o cessar-fogo, bastante relativo, de junho passado, que os israelitas relatam operações do Hezbollah contra os seus soldados, ainda que a milícia xiita não as reivindique e continue a fingir respeitar a trégua. O bombardeamento de Ali el-Taher prosseguiu durante toda a semana de forma muito consistente por parte dos israelitas, até ao dia particularmente sangrento de sábado. Nesse dia, o exército israelita afirmou ter visado dois altos comandantes do Hezbollah: Ali Fakhreddine, em Deir Zahrani, e Ali Hajj Hassan (da força de elite Radwane), morto juntamente com toda a sua família num quartel-general militar do Hezbollah em Ansar (nas proximidades de Saída, portanto uma posição bastante avançada no sul). Os ataques desse dia causaram 11 mortos, incluindo mulheres e crianças, e cerca de vinte feridos. Relativamente a esses ataques, o exército israelita invocou uma operação contra os seus soldados na zona amarela (que ocupa no sul), na região de Ali el-Taher. O Hezbollah não confirmou nada, mas publicou, no sábado, um comunicado com uma ameaça de «resposta adequada» caso as violações continuassem. A impressão de que a hoje célebre colina de Ali el-Taher constitui um ponto nevrálgico do conflito foi reforçada, no sábado, pelas declarações do presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, negociador principal, que afirmou estar «em contacto com os combatentes na linha da frente em Ali el-Taher». Esta declaração não só denota uma vontade iraniana de manter o controlo sobre o Líbano através do Hezbollah, como leva a questionar se ele fala simplesmente de combatentes libaneses ou se estes estão a ser apoiados por oficiais superiores dos Guardas Revolucionários, como o rumor público tem indicado desde o início deste conflito. Fins onde está o Irão disposto a ir para apoiar o Hezbollah numa confrontação tão desigual com Israel? Escalada verbal entre o Hezbollah e os Estados Unidos Outro facto marcante da semana: a escalada verbal entre vários altos responsáveis americanos e o Hezbollah. Esta escalada verbal atingiu o seu pico com uma declaração do embaixador americano Michel Issa, na sexta-feira, que sublinhou, em resposta a uma pergunta de um jornalista, que as destruições israelitas só cessariam quando o Hezbollah entregasse as suas armas. No domingo, uma fonte do Departamento de Estado americano afirmou que o Hezbollah «é o único responsável» pela situação em que o país se encontra. As declarações de Michel Issa provocaram uma resposta quase imediata do secretário-geral do partido, Naïm Qassem, num discurso inflamado proferido na sexta-feira, no qual atacou as autoridades libanesas, acusando-as de se deixarem "humilhar" e de cederem aos ditames americanos e israelenses. Ele exigiu que elas "parassem de acumular fracassos", argumentando que todas as rodadas de negociações com Israel não trouxeram qualquer benefício ao Líbano. Qassem recolocou o papel iraniano no centro das atenções, sustentando que apenas o acordo de Islamabad — hoje em morte clínica — conseguiu impor um cessar-fogo ao país. Um comunicado divulgado pelo Hezbollah no sábado, na sequência de dois mortíferos ataques israelenses, ecoa esse discurso ao afirmar que apostar nos americanos e nas garantias que prometem representa "um fracasso certo". A semana que passou também foi marcada por uma polêmica entre israelenses e americanos a respeito do Líbano. Ela se manifestou principalmente na indignada reação americana às declarações do ministro israelense da Defesa, Israel Katz, que afirmou que seu exército "não se retiraria" do sul do Líbano. Washington considerou que tais declarações colocavam em risco as negociações entre o Líbano e o Estado hebreu. Vale destacar, nesse contexto, que o presidente americano Donald Trump enviou seu representante — e genro — Jared Kushner à região. Ele deverá visitar Israel nos próximos dias para conversações centradas em Gaza, mas que poderão, muito provavelmente, abordar também a situação no Líbano. A semana passada foi igualmente marcada pela ronda de reuniões do tenente-general Joseph Clearfield — que dirige o comitê de monitoramento do cessar-fogo de novembro de 2024, presidido pelos Estados Unidos — com autoridades libanesas. Ele estava acompanhado do embaixador Issa. O oficial americano discutiu com seus interlocutores as negociações tripartidas, à luz de uma visita que realizara na semana anterior a Israel. Na outra frente: o Estreito de Ormuz No front do conflito americano-iraniano, nenhum desenvolvimento significativo foi registrado esta semana, seja no plano do confronto armado ou no das negociações diretas — ainda inexistentes —, a poucos dias do vencimento do prazo de sessenta dias previsto no acordo-quadro assinado entre as duas partes em junho, em Islamabad. A semana que vem parece, portanto, aberta a todos os cenários. No centro de todas as atenções, o Estreito de Ormuz. A semana terminou com as promessas de um acordo irano-omanês sobre sua gestão, em contraste com as declarações beligerantes de ambos os lados. O presidente americano afirmou por diversas vezes que a zona está totalmente sob controle americano e que o bloqueio aos portos iranianos é hermético. Do lado iraniano, multiplicaram-se as declarações provocadoras contra os americanos. A mais recente, proferida no domingo, veio do ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, que afirmou que seu país não tem qualquer intenção de retomar, por ora, as negociações com os Estados Unidos. Os iranianos continuam, assim, a agir como vencedores, enquanto prosseguem tranquilamente com a brutal repressão interna por meio da multiplicação das execuções de opositores — entre eles, jovens e até adolescentes. Registre-se, ainda, que o guia supremo iraniano Mojtaba Khamenei — sempre tão ausente da vida pública — efetuou, na terça-feira, seis nomeações de peso no seio do aparelho militar e de segurança iraniano. Essas mudanças foram interpretadas pelos observadores como um reforço do controle dos Guardiões da Revolução sobre os cargos-chave da defesa, o que acentua a impressão de um endurecimento num contexto de tensões regionais persistentes. Por fim, é importante destacar que a frente dos houthis iemenitas permaneceu muito ativa esta semana. Além de vários ataques houthis no Mar Vermelho (que se somam a ataques iranianos a navios no Estreito de Ormuz), ocorreram ofensivas de grande envergadura contra a refinaria do gigante petrolífero saudita Aramco e contra um porto controlado pelas forças iemenitas oficiais, apoiadas pela Arábia Saudita.