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Opinião

"A caridade bem ordenada…" ou as desventuras do Grande Líbano

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Proclamação do Grande Líbano em 1920. (Wikimedia Commons)
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Por Fady Noun
Publicado ago 17, 2026 - 15:17

“A caridade começa em casa” é um ditado apropriado para descrever as falhas do Grande Líbano, como capturado pela incisiva e perspicaz declaração de Georges Naccache: “Duas negações não fazem uma nação”. Essa afirmação revela as trágicas deficiências da primeira geração de libaneses diante de um Grande Líbano que luta para se afirmar.

De origem agostiniana, “a caridade começa em casa” significa simplesmente que é preciso garantir que as próprias necessidades e obrigações sejam atendidas antes de buscar ajudar os outros.

Esse conceito às vezes é mal utilizado para justificar comportamentos individualistas, falta de generosidade ou a priorização de interesses pessoais em detrimento de uma causa coletiva. Na verdade, ele deriva da teologia de Santo Agostinho (século IV) e da noção de ordo caritatis (a ordem da caridade). Segundo Santo Agostinho, a caridade (amor divino) deve seguir uma hierarquia lógica: primeiro é preciso amar a Deus, depois amar a si mesmo de maneira saudável ou “ordenada” (para a salvação da alma), antes de poder amar o próximo. Inspirada por Agostinho, a fórmula latina caritas bene ordinata incipit a se ipso (a caridade começa por si mesma) foi posteriormente adotada de forma pragmática pelos juristas medievais. Os comentadores usavam essa máxima para resolver, em particular, disputas de vizinhança relacionadas à água.

O exemplo clássico era o seguinte: um proprietário de terras com uma fonte de água em sua propriedade não era obrigado a irrigar os campos de seus vizinhos se isso representasse o risco de secar suas próprias terras. A lei, portanto, justificava a prioridade do próprio interesse vital.

Ao longo dos séculos, a máxima ultrapassou os tribunais e os tratados teológicos, entrando no vocabulário comum. A partir do século XVI, tornou-se um provérbio popular usado para lembrar às pessoas que é natural pensar na própria segurança material e moral antes da dos outros.

A Tragédia Libanesa

Esse princípio se aplica perfeitamente à história do Líbano. À primeira vista, pode-se pensar que este provérbio resume a tragédia de um sistema onde cada comunidade no Líbano priorizou historicamente a sua própria sobrevivência e segurança em detrimento da do Estado central.

Mas outra perspectiva é possível, e é através dela que emerge a verdadeira “tragédia” libanesa. Ela mostra como, ao privilegiar outras causas em detrimento da do Grande Líbano, tal como concebido e idealizado pelos seus fundadores — como a Palestina, a unidade árabe, a Grande Síria ou o pan-islamismo — o país desviou-se da “caridade bem ordenada”, que consistiria em amar “primeiro” o crescimento ordenado do seu próprio Estado-nação.

Esta análise capta, de facto, o ponto de viragem na história moderna do Líbano. Destaca a segunda faceta do provérbio: o facto de o extremo oposto — abraçar causas universais ou regionais antes de consolidar as suas próprias bases — ter levado o país à ruína.

Ao escolher fazer do Líbano o "quartel-general" dos conflitos do Oriente Médio mencionados anteriormente, grande parte da classe política e da população perdeu a oportunidade de um crescimento interno saudável.

Essa "violação" do princípio de que a caridade começa em casa é bem resumida pelo conceito da síndrome do "altruísmo sacrificial". Tanto na teologia quanto na lógica, não se pode dar o que não se possui. O Líbano, um Estado jovem e frágil, nascido da Guerra Franco-Prussiana de 1920 e 1943, ainda não havia consolidado suas instituições nem criado uma identidade nacional unificada. Assim, ao investir pesadamente em causas transnacionais a partir das décadas de 1950 e 1960 (o nasserismo e, posteriormente, o apoio armado à causa palestina por meio dos Acordos do Cairo em 1969), o Líbano agiu como uma entidade frágil tentando o impossível: arcar com o fardo dos outros. Essa escolha destruiu o frágil compromisso do Pacto Nacional e desencadeou a guerra civil em 1975.

A Diluição da Identidade Nacional

Para que existisse uma “caridade bem ordenada”, primeiro teria que haver uma “identidade” claramente definida e aceita, algo que as elites libanesas não conseguiram fazer, ou sequer desejar. Ao preferir o ideal da Grande Síria (defendido pelo Partido Social Nacionalista Sírio) ou a unidade árabe, uma parcela da população libanesa continuou a ver o Líbano como uma entidade artificial ou uma mera província a ser absorvida por um todo maior. Por outro lado, ao favorecer agendas teocráticas ou eixos regionais (como o eixo pró-Irã), outras facções deslocaram o centro da tomada de decisões para além das fronteiras e alienaram seus próprios compatriotas.

Como resultado, o Líbano nunca conseguiu se consolidar como um Estado-nação soberano. O patriotismo libanês tem sido percebido há muito tempo por seus detratores como uma forma de traição às "grandes causas", e seus apoiadores chegaram a ser rotulados de "isolacionistas".

O crescimento ordenado teria exigido dar prioridade absoluta ao desenvolvimento da infraestrutura libanesa, à educação cívica unificada, à segurança das fronteiras e ao fortalecimento da economia local. Ao importar guerras de outros países para o seu próprio território, o Líbano desperdiçou suas riquezas, provocou um êxodo de suas elites e destruiu seu tecido social. O país tornou-se um campo de batalha para potências regionais que travam guerras por procuração há décadas, confirmando que, quando você não cuida primeiro da sua própria casa, seus vizinhos vêm para saquear ou dominar.

Este é o paradoxo libanês: a história do país oscila constantemente entre o egoísmo sectário interno (o recolhimento à própria comunidade religiosa em detrimento do Estado) e o altruísmo ideológico externo (a preferência por causas regionais em detrimento da nação). Em ambos os casos, o projeto de um Estado libanês moderno, forte e próspero foi sacrificado.

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