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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Par LevantTime .
Publié set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Par Michel Hajji Georgiou - Publié set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
Analisar
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Par Jad Akhawi - Publié set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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Batizado como “país-mensagem”, o Líbano aguarda a comunhão da paz

O papa Leão XIV escolheu o Líbano — batizado por seu predecessor, São João Paulo II, como “país-mensagem” — para sua primeira viagem apostólica fora da Itália. Sob o lema “Bem-aventurados os que promovem a paz”, a visita atravessa a história marcada pela guerra como um raio de luz. “Bem-aventurados os que promovem a paz”: quatro palavras que definem o tom. Elas deixam sua marca no desenrolar dos acontecimentos, no curso da própria história e na agenda da visita, repleta de encontros oficiais e ecumênicos, culminando com a missa solene a ser celebrada à beira-mar, em Beirute. Mas cabe perguntar: o Líbano precisa, de fato, de uma comunhão de paz? O país é uma sociedade complexa, ainda que enriquecida pela diversidade e pela composição multiconfessional. Por isso, seu pacto social — alinhado ao chamado “modelo libanês” e voltado à preservação da unidade nacional — repousa sobre um princípio fundamental: a neutralidade, consagrada no direito internacional. É uma condição essencial para evitar as polarizações que desgastam a sociedade libanesa. Em sentido positivo, neutralidade não significa isolamento. Ao contrário: exige participação ativa nos assuntos regionais e internacionais, permanecendo, porém, livre de alinhamentos políticos e partidarismos. Permite, por exemplo, adotar políticas econômicas independentes e fortalecer a diplomacia preventiva, separando as comunidades religiosas dos eixos de poder regionais e globais. O caso do Hezbollah contrasta frontalmente com a estrutura e as particularidades da sociedade libanesa. O grupo monopolizou a “resistência”, moldando-a como uma resistência islâmica vinculada ao Irã e à exportação da revolução da República Islâmica. Empurrou os xiitas libaneses para longe de suas comunidades e de seu próprio país, subordinando-os à influência transfronteiriça da Wilayat al-Faqih. Arrastou tanto xiitas quanto outros libaneses a uma guerra permanente, sem objetivos claros ou horizonte possível. Resistir pela resistência! Armar-se apenas para defender as armas! Israel se retirou do Líbano em 2000, mas o arsenal do Hezbollah permaneceu como símbolo da subordinação à influência iraniana e à sua agenda regional. O grupo combateu na Síria e no Iêmen e ameaçou a segurança árabe, inclusive na Arábia Saudita, no Kuwait e no Egito. No fim, suas políticas deixaram o Líbano preso a um isolamento mortal. Depois da libertação, o Hezbollah foi responsável pelo retorno da ocupação; após a reconstrução, pelo retorno da destruição no sul do Líbano, no Vale do Bekaa e também em Beirute e em seus subúrbios ao sul. No entanto, mudanças significativas ocorreram no tabuleiro geopolítico regional após a operação militar do Hamas, o “Dilúvio de Al-Aqsa”, contra Israel. A resposta de Tel Aviv enfraqueceu o papel dos aliados iranianos e, com a queda do regime de Bashar al-Assad, reduziu o alcance da Wilayat al-Faqih, que havia se estendido até a costa síria. O Hezbollah sofreu uma derrota militar ao abrir a frente sul em apoio ao Hamas, como parte do projeto iraniano da chamada “unidade de frentes”. Todos esses acontecimentos levaram o Líbano a um momento de verdade. E a verdade é que, para a sociedade libanesa como um todo, os reveses do Hezbollah representam uma oportunidade para o Estado recuperar aquilo que perdeu devido às ações do grupo. Reconstituir o papel do Estado na defesa, na segurança, na economia e no desenvolvimento social depende, porém, das condições previstas no projeto de neutralidade libanesa e na busca da paz com todos os seus vizinhos. A visita do papa chega, portanto, num momento decisivo, oferecendo um gesto de paz enraizado nos valores cristãos em sua expressão mais nobre e humanista — para benefício de cada pessoa. Ela chega à soleira de uma nova fase, em um contexto regional e internacional favorável ao Líbano, esse “país-mensagem”. É preciso destacar que a paz almejada não ameaça a identidade nacional nem a segurança do país. Ao contrário, sua consolidação contribui para reduzir violações legais e normativas. Em um país multiconfessional como o Líbano, a identidade comum que sustenta a unidade do povo é uma identidade composta, construída não sobre uma cultura única ou dominante, mas sobre o diálogo intercultural permanente e o compromisso compartilhado com a convivência. Esse compromisso basta para dar vida a essa identidade. Convivência não significa impor um modo de vida a outra comunidade, nem moldar indivíduos segundo um modelo único. A paz também favorece o desenvolvimento de uma diplomacia de segurança nacional. Isso permite o fortalecimento das instituições legítimas de segurança — o Exército, as forças de segurança e a polícia. Milícias e sistemas paralelos não podem mais coexistir com o Estado, nem contornar seu monopólio exclusivo sobre as armas. Contudo, uma estratégia de segurança nacional não se limita ao papel das armas: o Líbano não pode ser protegido apenas pela força militar. O país, esse “país-mensagem”, não é Esparta, e as comunidades que o compõem — inclusive a xiita — não são formadas apenas por soldados, combatentes e mártires. A paz, fundamentada em critérios de segurança nacional, exige o desenvolvimento da economia como componente essencial de um sistema de segurança abrangente, garantindo estabilidade interna, paz civil e unidade nacional por meio de um desenvolvimento mais equitativo. O sistema político precisa reforçar o conceito de cidadania, não bloqueá-lo nem subvertê-lo sob o pretexto da hegemonia sectária. A diplomacia de segurança nacional também implica fortalecer todas as relações internacionais do Líbano, e não apenas as com seus vizinhos. Supõe restaurar vínculos rompidos com seu entorno regional e global mediante uma política que proteja os mais altos interesses nacionais. Como a paz pode fortalecer automaticamente os mecanismos do Estado de direito e a independência do Judiciário? Nessa tão esperada fase de paz, a circulação e o acúmulo de armas deixam de ser necessários, assim como os pretextos usados para justificar a mobilização ideológica e a economia paralela, responsáveis por sanções. A sobrevivência do Líbano, esse “país-mensagem”, depende do projeto de neutralidade nacional e da adoção plena da paz. Por isso, o papa é calorosamente recebido, junto com sua mensagem: “Bem-aventurados os que promovem a paz.” Que o Parlamento libanês adote a neutralidade do país e a inscreva no preâmbulo da Constituição, buscando também o reconhecimento internacional desse princípio. Que o Líbano inicie negociações de paz com Israel, em nome do interesse nacional, da segurança do país e… de sua vocação, que dá sentido à sua própria existência.

Leão XIV e a exceção libanesa
Par
Youssef Mouawad
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Quanta preocupação, e até irritação, essas comunidades católicas orientais despertam nas autoridades romanas. Se tivessem desaparecido do Levante, as relações diplomáticas entre Roma e os países muçulmanos do Mediterrâneo Oriental seriam bem mais simples. Ainda assim, lidar com a comunidade maronita nunca foi tarefa fácil para a diplomacia vaticana. Desde muito cedo, os maronitas se afirmaram politicamente como um grupo autônomo, enraizado em suas fortalezas montanhosas, e nunca hesitaram em reivindicar sua singularidade. Isso os diferenciou das demais comunidades cristãs da Síria e do Iraque, que há muito se submetiam ao domínio da maioria e formavam, em grande parte, indivíduos discretos e cidadãos obedientes. Sem genuflexão Fonte de irritação, sim, mas também de orgulho para Roma. Basta ver o que o papa Pio IV escreveu, em setembro de 1562, ao patriarca maronita Musa Saadeh al-Akkari: « Do fundo de nosso coração, felicitamos você e sua nação, rendendo graças à misericórdia divina, que preservou nessas terras distantes tantos milhares de homens ‘que não dobraram o joelho diante de Baal’.» (1) Esse trecho, escrito há cerca de cinco séculos, permanece surpreendentemente atual: nem os maronitas nem seu patriarca se curvaram ao Baal de Damasco, fosse Hafez al-Assad ou seu filho Bashar (2). Mas essa postura cobrou um preço alto. Durante décadas, esses católicos orientais suportaram os golpes do exército de ocupação sírio e de seus serviços de inteligência. Por quanto tempo mais os cristãos libaneses, de todas as denominações, conseguirão preservar seu projeto de independência nacional e liberalismo cultural, eles que, muito antes de seus compatriotas muçulmanos, haviam ingressado na escola do Ocidente? Uma presença que encolhe Se o papa Leão XIV visita seu rebanho na Turquia e no Líbano como pastor, vale lembrar que, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, 20% da população da Ásia Menor e de Bilad al-Sham era cristã. Hoje, restam não mais que 100 mil na República da Turquia, menos de 0,5% da população. Na Síria, os seguidores de Jesus, o qawm ‘Issa , que eram dois milhões antes da guerra civil, hoje não passam de 500 mil almas. E no Iraque, mal chegam a 300 mil, quando eram 1,5 milhão antes da invasão americana (3). Quanto ao Líbano, a contagem populacional parou no dia em que Hariri decidiu que ela deixaria de existir. Quem será o salvador? Cristãos do Oriente, vocês vivem sitiados em um território que se tornou apenas um quintal secundário da cristandade. Quem poderia hoje ostentar a coroa da resistência, e de onde viria a redenção, quando na Turquia vocês foram esmagados e na Síria e no Iraque vêm sendo lentamente corroídos? Em 1994, Jean-Pierre Valognes perguntou: « Haverá ainda cristãos no Oriente no terceiro milênio? E acrescentou: “Sem o ponto de apoio que o Líbano representava, onde caminhavam de cabeça erguida, serão forçados a se conformar aos valores dominantes e, apenas para sobreviver, deixarão de assumir sua identidade cristã. » (4) Caminhar de cabeça erguida significa preservar a dignidade humana e libertar-se da servidão religiosa ou política. E, por mais que certos diplomatas da Cúria, apaixonados pelo diálogo inter-religioso e por contorcionismos intelectuais, pensem o contrário, caminhar com dignidade não significa dobrar o joelho diante de Baal, esteja ele sentado em Damasco ou em Teerã. Notas Citação creditada à professora Mireille Issa, autora de Bullarium Maronitarum. Bullaire Maronite , Paris, Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 2019, pp. 102-107. Com exceção de alguns indivíduos e por períodos curtos. Números aproximados. Jean-Pierre Valognes, Vie et mort des chrétiens d’Orient , Fayard, 1994.

O Papa no Líbano: sem paz, a “nação-mensagem” não sobreviverá

O Papa Leão XIV leva ao Líbano um recado contundente: “Bem-aventurados os pacificadores”. Uma chamada à unidade, carregada de sentido religioso, que ressoa entre as diferentes comunidades e carrega um peso político evidente para um país exausto por décadas de conflito. Para essa nação, chegou a hora de deixar os túneis da violência e caminhar em direção à luz da paz. Primeiro: apoiar a presença católica e afirmar seu papel nacional A mensagem parte da atenção cuidadosa da Santa Sé ao que o Líbano sofreu e continua sofrendo, especialmente sua população católica. Para o Vaticano, o país é o laboratório mais sensível do Oriente Médio para a convivência entre muçulmanos e cristãos e um possível modelo do que João Paulo II, há trinta anos, descreveu como uma “nação-mensagem”. Nesse contexto, a visita do Papa representa um claro apoio da Santa Sé à presença católica no Líbano. Reforça o papel do Vaticano como referência, tanto na vida interna da comunidade quanto na sua defesa no cenário internacional. Os católicos libaneses não são uma minoria isolada. Eles fazem parte de uma estrutura espiritual e política que se estende do Oriente ao Ocidente. A visita reafirma que seu papel dentro do Estado libanês não pode ser marginalizado. Mas o recado papal vai além do consolo. Ele faz um apelo às diferentes forças internas para que superem o sectarismo e se comprometam com o projeto nacional. Os cristãos, sugere a mensagem, são mais do que uma comunidade religiosa. São portadores de um legado humano universal dentro do país. Segundo: um recado ao Irã… e ao mundo O chamado do Papa à paz é mais do que uma exortação moral. É uma declaração política pública. De Beirute, o Vaticano envia ao Irã uma mensagem clara: o Líbano não sobreviverá enquanto continuar sendo palco de conflitos, guerras e disputas regionais e internacionais. O slogan “Bem-aventurados os pacificadores” não é apenas uma frase teológica. É uma rejeição sutil, porém firme, da lógica das armas e da violência. Lembra que só soluções diplomáticas e políticas podem tirar o Líbano de sua trajetória de declínio. Terceiro: o Líbano, uma “nação-mensagem” entre passado e presente Em 1997, João Paulo II apresentou ao país um documento histórico, intitulado Líbano, uma Nação-Mensagem , dirigido principalmente às comunidades internas, com o objetivo de fortalecer a convivência e reafirmar o papel pioneiro do Estado. Hoje, a mensagem do Papa Leão XIV pode ser vista como uma extensão internacional daquele documento. O Líbano só poderá ser, de fato, uma “nação-mensagem” se restaurar a paz, se distanciar dos conflitos regionais e reconstruir suas relações com os vizinhos, com o mundo e até com seus adversários. A paz não é apenas uma escolha moral. É a condição indispensável para a existência do Estado libanês, requisito para reativar a economia, definir prioridades nacionais e exercer a soberania em todo o território. A paz, no fim, é o caminho para a “mensagem”. A visita do Papa é muito mais do que um ato protocolar. É uma intervenção política de alto nível, um lembrete ao povo libanês de que o país só poderá se reerguer se romper com os eixos da guerra, recuperar sua neutralidade e escolher ser uma força de paz, e não um campo de batalha. O Líbano, a “nação-mensagem”, só pode nascer de um Líbano em paz.

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