
A relação complexa entre uma parte da sociedade xiita libanesa e o Hezbollah não pode ser compreendida apenas por meio de uma análise política convencional. Ela ultrapassa cálculos estratégicos e interesses imediatos para alcançar um espaço mais profundo: o das arquiteturas culturais e simbólicas que moldam a consciência das comunidades e orientam seus comportamentos. É nesse ponto que se torna necessário recorrer às ferramentas da sociologia e da antropologia, especialmente ao que Émile Durkheim desenvolveu em torno da consciência coletiva e ao que Claude Lévi-Strauss revelou sobre as estruturas culturais profundas que organizam a forma como as sociedades percebem o mundo. Consciência coletiva e obediência em tempos de medo Durkheim sustenta que toda sociedade produz um sistema de valores e crenças compartilhados, aquilo que ele chama de consciência coletiva. Esse sistema não determina apenas o que a comunidade considera justo ou injusto. Ele também exerce uma pressão moral sobre os indivíduos, levando-os a se conformar ao que o grupo julga necessário para sua sobrevivência. Em tempos de crise existencial ou de guerra, a consciência coletiva tende a se tornar mais rígida e defensiva. Sociedades que se sentem ameaçadas buscam símbolos fortes capazes de organizar o medo comum e transformá-lo em um sentimento de coesão. Nesses momentos, organizações ideológicas passam a se afirmar como depositárias da identidade coletiva, deixando de ser apenas atores políticos. É nesse contexto que a ascensão do Hezbollah se torna compreensível. O partido conseguiu se apresentar não apenas como uma organização política ou militar, mas como um corpo simbólico que encarna uma dignidade coletiva ameaçada. Com o tempo, essa dimensão simbólica passou a se entrelaçar com a consciência coletiva do ambiente social em que nasceu. Contestar o partido passou assim, para muitos, a equivaler a contestar a própria comunidade. Já não se trata apenas de uma crítica a uma decisão política, mas de uma contestação do próprio pertencimento. Durkheim lembra, no entanto, que a consciência coletiva pode se transformar em uma força conservadora, resistente à revisão crítica, sobretudo quando os valores comunitários se vinculam a instituições poderosas ou sacralizadas. Nesse momento, qualquer debate sobre escolhas políticas e militares torna-se quase impossível, porque a questão deixa de ser política e passa a ser identitária. Do pluralismo do Jabal Amel à centralidade da Resistência Para compreender essa transformação em toda a sua profundidade, é preciso voltar à história social da região de Jabal Amel, no sul do Líbano. Antes das últimas décadas do século XX, a sociedade xiita dessa região não era monolítica nem dominada por um único projeto político. Tratava-se, ao contrário, de um espaço social marcado por múltiplas referências: ulemas independentes, amplas redes familiares, tradições eruditas e uma migração ativa para a África e as Américas, que ajudou a formar uma cultura social relativamente aberta. Naquele período, a identidade religiosa era um elemento importante, mas não o único que definia a relação do indivíduo com o mundo. Historicamente, a cultura de Jabal Amel produziu uma tradição intelectual e científica notável, dando origem a estudiosos e pensadores que desempenharam papéis relevantes na vida religiosa e cultural da região. A guerra civil libanesa, porém, com as ocupações e conflitos armados que a acompanharam, reconfigurou esse tecido social. Nesse contexto turbulento, o Hezbollah surgiu como um ator capaz de organizar o medo coletivo e canalizá-lo para um projeto político e militar coerente. Gradualmente, a identidade política da comunidade foi reformulada em torno de uma ideia central: a Resistência. A estrutura simbólica da identidade A análise estrutural de Lévi-Strauss ajuda a compreender essa transformação cultural. Segundo ele, as culturas não funcionam por meio de ideias isoladas, mas através de estruturas simbólicas profundas que organizam a maneira como as sociedades percebem o mundo. Essas estruturas geralmente se baseiam em oposições binárias fundamentais: interior e exterior, proteção e ameaça, comunidade e inimigo. Na experiência do Hezbollah, a identidade coletiva foi reorganizada em torno de uma dualidade clara: a Resistência frente ao inimigo. Essa estrutura simbólica não atua apenas no discurso político. Ela se torna o prisma por meio do qual a sociedade interpreta os acontecimentos cotidianos. As perdas podem ser vistas como sacrifícios necessários, as crises como provas de resistência e as críticas internas como parte de uma conspiração externa. Dessa forma, a realidade é continuamente reinterpretada para preservar a coerência do relato fundador. Mas essa estrutura também carrega o risco do fechamento. Quando o mundo inteiro passa a ser reduzido à oposição entre Resistência e inimigo, a capacidade de perceber a complexidade política e social em toda a sua dimensão se estreita até quase desaparecer. Do movimento de resistência à estrutura de poder social Com o tempo, o Hezbollah deixou de ser apenas um ator militar ou um movimento de resistência. Ele se transformou em uma estrutura abrangente de poder social dentro do ambiente xiita. O partido construiu uma vasta rede de instituições educacionais, meios de comunicação e serviços sociais, acompanhada por um sistema econômico e caritativo de grande alcance. Essa rede criou um vínculo orgânico entre o partido e a sociedade, a ponto de sua presença se tornar parte constitutiva da vida cotidiana de muitas pessoas. Nesse sentido, o partido já não é apenas uma força política que se pode apoiar ou combater. Ele se tornou um quadro social que organiza diversas dimensões da vida coletiva. Essa metamorfose reforçou sua capacidade de consolidar a estrutura simbólica sobre a qual se apoia seu discurso. Ao mesmo tempo, aprofundou o entrelaçamento entre identidade coletiva e organização política, fazendo com que qualquer crítica ao partido passe a parecer uma ameaça dirigida à própria comunidade. Essa leitura sociológica, no entanto, não absolve o partido de sua responsabilidade política e moral. Uma organização que se apresenta como representante exclusiva de uma comunidade também deve assumir a responsabilidade pelo preço que essa comunidade paga por suas escolhas. Quando essas escolhas levam a guerras repetidas, ao deslocamento de populações e à exposição permanente da sociedade a riscos, surge uma pergunta fundamental: essa estratégia ainda protege a comunidade ou se tornou ela própria parte da crise que atravessa? O momento do balanço A história social mostra que comunidades não permanecem indefinidamente prisioneiras de suas estruturas simbólicas. Quando as contradições entre discurso e realidade vivida se acumulam, a própria consciência coletiva começa a se transformar. Esse processo é lento e muitas vezes invisível em seus primeiros estágios, mas representa o verdadeiro ponto de virada na história dos povos. O que o Líbano vive hoje pode ser justamente um desses momentos. O esgotamento social, o colapso econômico e o deslocamento massivo de populações são forças que levam as pessoas a reconsiderar a relação entre identidade e armas, entre a proteção prometida e o custo real. A questão colocada hoje à sociedade libanesa não é apenas de segurança ou de política. Trata-se de algo mais profundo: como redefinir dignidade e proteção fora da lógica da guerra permanente? Uma sociedade à qual se pede que se sacrifique indefinidamente pode, em algum momento, começar a buscar outra forma de segurança. Uma segurança baseada não nas armas e na lealdade, mas no Estado e no direito.









