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Política

Apoio ao Exército: Ajuda, Capacidades e Desafios Estratégicos (2/3)
Por
Nayla Assaf
Publicado
fev 12, 2026 - 14:53

Em um contexto regional e interno particularmente sensível, qualquer avaliação das Forças Armadas Libanesas (LAF) precisa ir além de um simples inventário da ajuda recebida e dos equipamentos necessários. A questão central está em examinar os fundamentos políticos, doutrinários e estratégicos da própria instituição militar. O problema não é tanto o que o Exército possui, mas o que o Estado espera dele ou se recusa a assumir como responsabilidade. Desde o final dos anos 2000, o Exército libanês tem se beneficiado de apoio internacional contínuo, sobretudo dos Estados Unidos, Reino Unido, França e outros parceiros europeus. Esse apoio não se limitou à entrega de equipamentos e à construção de infraestrutura, mas incluiu, sobretudo, a introdução de uma abordagem estruturada de desenvolvimento de capacidades. A criação de uma visão conjunta de capacidades com os Estados Unidos marcou um ponto de inflexão, priorizando a otimização dos meios existentes em vez da criação de capacidades totalmente novas. Esse modelo levou à elaboração de um Plano de Desenvolvimento de Capacidades, baseado em uma distinção fundamental. O general de brigada (reformado) Maroun Hitti observa que uma Estratégia Militar Nacional define o que o Exército deve ser capaz de realizar a partir de um mandato estabelecido pelo Estado, enquanto o Plano de Desenvolvimento de Capacidades se concentra em tornar mais eficazes as capacidades já existentes. Essa nuance ajuda a explicar tanto os avanços obtidos quanto as limitações persistentes, especialmente em áreas estruturais estratégicas como a introdução de drones, inteligência artificial e, sobretudo, a defesa aérea, que permanece inexistente. Uma pergunta deliberadamente evitada: apoiar o Exército, para quê? No centro do debate em torno desse plano está uma questão aparentemente simples, mas politicamente explosiva: qual é, exatamente, a missão atribuída ao Exército libanês? Desde sua criação, e especialmente nas últimas duas décadas, a assistência internacional, principalmente dos Estados Unidos, Reino Unido e França, além de diversos outros países aliados, evitou uma série de colapsos institucionais. No entanto, esse apoio jamais foi ancorado em uma política nacional de segurança e defesa claramente formulada e consensualmente adotada pelo Líbano. Oficialmente, as missões repetidas à exaustão são conhecidas: preservar a estabilidade, combater o terrorismo, controlar e defender as fronteiras e garantir a segurança interna. Extraoficialmente, porém, a ambiguidade persiste, em razão da existência de uma força armada paralela, o Hezbollah, que continua a contar com proteção política interna. Nesse contexto, fortalecer o Exército sem esclarecer seu mandato equivale a reforçar a instituição enquanto se neutraliza sua capacidade real de ação. Mais grave ainda são as tentativas de subordinar o Exército ao Hezbollah, o que equivale a esvaziar sua essência e sua razão de existir. Quantas vezes se ouviram discursos pretensamente “estratégicos” que confinam o Exército a funções de policiamento interno, geralmente contra a oposição, enquanto a defesa territorial é delegada ao Hezbollah? Após os recentes reveses do grupo, uma nova missão passou a ser atribuída ao Exército: garantir o monopólio estatal do uso da força, ou seja, desarmar o Hezbollah. O desafio central está justamente na execução prática dessa missão, tema que deverá ser enfrentado pela conferência prevista para março de 2026, em Paris, que precisará antecipar o cenário de recusa ao desarmamento por parte do grupo. O papel do Legislativo é central nesse processo. O adiamento sistemático dos debates sobre defesa nacional, seu aprisionamento em comissões e a invocação permanente de um consenso indefinido revelam menos inércia e mais uma escolha política deliberada. Assim, a ajuda internacional corre o risco de se transformar em um exercício de equilíbrio instável: sustentar uma instituição considerada legítima, mas sem lhe garantir a cobertura política indispensável para o cumprimento pleno de sua missão. Este é um dos principais dilemas que cercam o Exército às vésperas da conferência de apoio em Paris. A suspensão de uma modernização estratégica decisiva Essa ambiguidade política produziu efeitos concretos. A iniciativa saudita lançada em 2013, com um aporte de US$ 3 bilhões, oferecia bases sólidas para uma verdadeira construção de capacidades, incluindo meios navais e um sistema de defesa aérea de dois níveis, com artilharia e MANPADS, capazes de interceptar drones até 6 km de altitude. Essa assistência representaria um salto qualitativo na segurança estratégica do Líbano, com foco na proteção dos centros de decisão política, estratégica e operacional do Estado. A interrupção abrupta do projeto, após a intervenção política e midiática de Hassan Nasrallah, evidenciou a fragilidade de qualquer planejamento militar diante das dinâmicas de poder internas e regionais. O resultado foi deixar o Estado e o Exército expostos a novas ameaças, especialmente o uso de drones, sem meios adequados de proteção. A transformação da guerra e o desafio tecnológico Os conflitos recentes transformaram profundamente a natureza da guerra. Inteligência, superioridade tecnológica e integração de capacidades por meio da inteligência artificial tornaram-se fatores decisivos. A experiência regional mostra que atores com déficit tecnológico estrutural permanecem em desvantagem duradoura. A guerra recuperou, assim, sua capacidade de surpreender. Nesse cenário, a questão não é apenas conter atores armados não estatais, mas permitir que o Exército libanês alcance um nível tecnológico e doutrinário capaz de garantir credibilidade operacional e iniciativa estratégica. Um fator central permanece: o tempo necessário para transformar recursos financeiros em capacidades reais. Esse “fator tempo” é medido em anos. Para desarmar o Hezbollah hoje, seria necessário ter iniciado os preparativos em 2015, sem depender de Israel ou de qualquer outro país para cumprir essa tarefa. A pergunta, portanto, é que tipo de Exército o Líbano deseja ter em 2035. Capacidades, recursos humanos e ilusões estratégicas Reduzir o debate a uma lista de equipamentos é um erro grave. Um Exército se constrói com capacidades coerentes, pessoal qualificado, doutrina clara, cadeia de comando funcional e apoio político contínuo. Os esforços de desenvolvimento de capacidades ajudaram a preservar estruturas existentes, mas muitas delas já estão defasadas frente às transformações aceleradas da guerra moderna. Controle de fronteiras, vigilância da zona econômica exclusiva e presença permanente no território exigem efetivos treinados, remunerados e sustentados no longo prazo. Missões ambiciosas, como o desarmamento de uma organização fortemente armada, exigem recursos e vontade política proporcionais. Isso implica compromisso orçamentário claro do Estado, inclusive com a destinação de uma parcela definida do PIB à defesa e à segurança. Missões estratégicas claramente definidas Em um ambiente dominado pela Inteligência, cinco missões se destacam como centrais para o futuro das LAF: coleta e análise de informações, defesa e controle de fronteiras, capacidade de operações ofensivas internas com alta probabilidade de sucesso, dissuasão e interoperabilidade com forças aliadas. Executadas de forma eficaz, essas missões sustentam a credibilidade, a eficácia e a sustentabilidade institucional do Exército. Cobertura política e responsabilidade do Estado No núcleo do problema está a responsabilidade política. O Estado frequentemente exige do Exército missões para as quais não há decisões claras nem responsabilidade assumida. Há sinais de evolução gradual e positiva, com questionamento de certas proteções políticas implícitas, mas o custo político e securitário desse processo permanece indefinido. A análise das bases de poder do Hezbollah, sua base social, profundidade estratégica, proteção política interna, recursos financeiros e comunicação estratégica, mostra que apenas uma decisão estatal plenamente assumida, sustentada por coerência governamental e diálogo interno estruturado, pode criar as condições para uma ação militar eficaz que afirme a supremacia do Estado. De equipamentos a capacidade operacional sustentável Equipamentos, por si só, não constituem capacidade. Manter uma presença marítima permanente, por exemplo, exige organização clara das zonas marítimas, meios navais, pessoal especializado, treinamento contínuo, manutenção operacional e infraestrutura de alto custo anual. A defesa é cara, mas vital. A prioridade deve ser consolidar plenamente as capacidades existentes antes de adquirir novas. O custo é administrável se distribuído ao longo do tempo, desde que haja uma lei que destine uma porcentagem definida do PIB à defesa. Isso reforça, novamente, o papel central do Legislativo. Efetividade militar e coerência política A análise da ajuda, das capacidades e dos desafios do Exército libanês revela uma constante: a eficácia militar é inseparável da coerência política. Sem mandato claro, cobertura política e financeira responsável e uma estratégia nacional de defesa explícita, investimentos em equipamentos e pessoal tendem à esterilidade. Segundo o general Maroun Hitti, o trabalho estruturante desenvolvido nas últimas duas décadas pelo Estado-Maior merece reconhecimento. Sua abordagem rigorosa preservou a coerência profissional e operacional da instituição sob condições políticas e financeiras extremamente restritivas. No entanto, o tempo joga contra: a guerra evolui mais rápido do que a capacidade de adaptação do Exército, e a assistência internacional precisa levar isso em conta. Nada disso, porém, exime o Estado de sua responsabilidade primária. Cabe exclusivamente a ele transformar esforços técnicos em uma verdadeira estratégia nacional de defesa e fornecer às Forças Armadas Libanesas diretrizes claras e opções estratégicas bem definidas para o futuro próximo.

Massacres no Irã: em Paris, a mobilização continua sem trégua
Por
LevantTime .
Publicado
fev 10, 2026 - 15:23

Paris, por Arthur Bassil Desde o início de janeiro, a diáspora iraniana na Europa vem se mobilizando para condenar a República Islâmica e os massacres cometidos contra o povo iraniano. Em Paris, esses atos acontecem todos os domingos. Por volta das 15h, na Praça da Bastilha, neste domingo, 8 de fevereiro, em um dia ensolarado na capital francesa, cerca de cinco mil manifestantes se reuniram em torno da bandeira iraniana adornada com o leão e o sol para denunciar os massacres perpetrados pelo regime islâmico. Além desse símbolo poderoso, os manifestantes exibiam imagens das vítimas. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026, exatamente um mês antes, o regime de Khamenei cometeu o impensável: milhares de iranianos foram mortos a sangue-frio. O crime? Terem ousado protestar contra a crise socioeconômica e, sobretudo, contra a opressão que assola o Irã há décadas. Neste domingo, os iranianos na França não estavam sozinhos nas ruas entoando slogans como “Fechem a embaixada terrorista dos mulás” e “Não queremos a República Islâmica”. No cortejo, era possível ver claramente bandeiras francesas, americanas, cabilas e até israelenses. Segundo Mona Jafarian, cofundadora do coletivo Femme Azadi, que convocou a mobilização, Israel é “o único país no mundo que realmente exerce pressão sobre o regime dos mulás”. A ativista franco-iraniana, que vive sob proteção policial, afirma estar decepcionada com a disposição de Donald Trump em negociar com a República Islâmica, mas avalia que as condições impostas pelos Estados Unidos “não podem ser cumpridas por Khamenei”. O fim das armas nucleares, dos mísseis balísticos e do apoio a grupos armados na região levaria, segundo ela, ao colapso do regime iraniano. Para Mona Jafarian, essas negociações tendem ao fracasso e a única solução real está em oferecer apoio concreto ao povo iraniano para que possa se libertar do líder supremo Ali Khamenei. Entre o povo iraniano e os mulás Também presente na manifestação estava Saeed Amini, fundador da associação Homa, proibido de entrar no Irã desde 2017 por causa de suas atividades políticas. Ele critica a inação dos líderes da União Europeia, que seguem sem adotar medidas duras contra a República Islâmica, mas elogia a mobilização dos povos da Europa e do mundo contra o regime. “Esperamos decisões responsáveis dos Estados europeus, que precisam escolher entre o povo iraniano e o regime dos mulás”, declarou, antes de conclamar os governos a “ficarem do lado certo da história”. Diversos cartazes exibiam o retrato de Reza Pahlavi, que conta com amplo apoio entre os manifestantes. Filho do xá deposto e exilado desde 1979, ele se apresenta como sucessor político do regime. Para Yaël, cidadã francesa de fé judaica presente no ato e fundadora do Coletivo Atlas, que reúne judeus e cabilas contra o islamismo, “a democracia deve muito ao Oriente Médio, uma região de povos esclarecidos, como os cabilas, israelenses, libaneses e iranianos”. Ela afirma que Reza Pahlavi tem o apoio da população iraniana e que seu programa político é “hiperdemocrático”, razão pela qual declara apoio integral à sua liderança. A manifestação terminou por volta das 19h, na Praça das Pirâmides, aos pés da estátua de Joana d’Arc. Samuel Davoud, ativista que liderava o cortejo, convocou os participantes para uma grande manifestação de apoio ao povo iraniano, marcada para sábado, 14 de fevereiro, paralelamente à Conferência de Segurança de Munique.

Remaining: uma exposição em memória das vidas perdidas em assassinatos políticos

“Esperar é desafiar o futuro.” – Emil Cioran Essa frase, fotografada por Édouard Elias, foi escrita pelo jornalista Samir Kassir em um pedaço de papel duas semanas antes de seu assassinato, em 2005. Ela está entre os muitos objetos pessoais que Elias registrou para preservar a memória de vítimas de assassinatos políticos no Líbano desde então. Esses retratos e vestígios pessoais integram a exposição fotográfica “Remaining”, realizada por ocasião dos cinco anos do assassinato de Lokman Slim. A mostra acontece de 7 de fevereiro a 3 de março, no Union Marks, em Burj Hammoud, das 14h às 20h. A abertura reuniu um grande público e diversas figuras de destaque, entre elas os parlamentares Marwan Hamadé e Michel Moawad, além da ex-ministra May Chidiac. A exposição é uma colaboração entre o fotógrafo e fotojornalista Édouard Elias e a jornalista e cineasta Katia Jarjoura, curadora do projeto. A produção é da Fundação Lokman Slim, com apoio do Instituto Francês. Uma ponte entre passado e presente “Remaining” narra a história de 21 vítimas de assassinatos, incluindo lideranças políticas, agentes de segurança, escritores, jornalistas, testemunhas e sobreviventes. As imagens vão de retratos de familiares e objetos de valor afetivo aos locais e cenas dos crimes, criando uma atmosfera marcada por nostalgia e empatia. Inspiração e homenagem Katia Jarjoura destaca a motivação pessoal por trás do projeto. “Esta exposição é antes de tudo uma homenagem ao meu querido amigo Lokman Slim, tragicamente assassinado em 2021, mas também a outras vítimas de assassinatos políticos no Líbano que lutaram por um país livre e soberano e pagaram por isso com a própria vida.” O significado de “Remaining” Édouard Elias reflete sobre o título da exposição. “Após a morte de alguém, sempre existe um sentimento de ausência. Como a justiça não foi feita, essas pessoas ficam presas a um estado intermediário. Elas ainda estão presentes: não retiramos suas memórias, não tiramos o chapéu do cabide, nem guardamos o relógio da mesa de cabeceira.” “Em um país onde o sistema judiciário é frágil e a maioria dos crimes fica impune, a arte pode responder a esse vazio ou ajudar a preenchê-lo”, acrescenta Jarjoura. “Remaining é, em essência, uma forma de dizer ‘eles permanecem’ e ‘nós permanecemos com eles’.” Humanidade compartilhada e linguagem visual “Remaining” é narrada exclusivamente em preto e branco. Elias explica a escolha estética: “Optei pelo preto e branco porque as imagens tratam da ausência, da memória e do caráter atemporal daqueles que se foram. Quis um trabalho formal, sem efeitos de cor ou intervenções estilísticas, para que todas as pessoas fossem colocadas no mesmo nível.” Ao utilizar objetos cotidianos e cenários familiares, o fotógrafo convida o público a reconhecer a humanidade compartilhada dessas famílias e a refletir sobre o quanto suas histórias se assemelham às próprias experiências. Desde a independência, em 1943, o Líbano registrou mais de 200 assassinatos políticos, a maioria sem punição. A Guerra Civil Libanesa (1975–1990) enfraqueceu gravemente as instituições do Estado, enquanto a lei de anistia de 1991 consolidou uma cultura de impunidade que ainda influencia a vida política do país. O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005, seguido pela criação do Tribunal Especial para o Líbano, marcou um ponto de inflexão, ao expor o assassinato político como instrumento de influência sírio-iraniana e ao enfraquecer tanto a soberania libanesa quanto o Estado de Direito. Quem foi Lokman Slim Lokman Slim foi um editor, cineasta e ativista político libanês, conhecido por sua defesa firme dos direitos humanos, das liberdades civis e do Estado de Direito. Ele cofundou o UMAM Documentation and Research com sua esposa, Monika Borgmann, com o objetivo de preservar a memória coletiva do Líbano e estimular o debate público. Crítico contundente do sectarismo e da violência política, Slim foi assassinado em 4 de fevereiro de 2021, em Addousiyeh, no sul do Líbano. “Remaining” é um chamado urgente à responsabilidade e à justiça, para que o futuro do Líbano não seja contido pelo medo, mas acolhido com esperança.

2m 31s
Conferência Internacional de Apoio ao Exército Libanês: múltiplos desafios (1/3)

À medida que se aproxima a data da conferência internacional de apoio ao exército libanês, prevista para março de 2026, em Paris, o Líbano encontra-se num momento crítico. Esta reunião, destinada a mobilizar a comunidade internacional em favor das forças regulares, ocorre num contexto político e regional extremamente complexo. Cada decisão ou ausência de decisão do Estado libanês relativamente ao monopólio das armas, em particular, terá um impacto direto na eficácia da ajuda internacional às tropas e, mais amplamente, no próprio futuro do exército e da soberania nacional. A data escolhida, 5 de março de 2026, é, no entanto, condicional. Segundo o general Maroun Hitti, a conferência poderá ser adiada se o Líbano não ultrapassar um passo crucial até lá. Esta etapa consiste ou numa decisão política unânime no seio do governo libanês, incluindo, portanto, os ministros do Hezbollah e de Nabih Berri, para que o Estado retome o controlo do dossier das armas, e para que o Hezbollah se submeta à sua autoridade, ou num grande evento regional. Este poderia ser um cataclismo ou um conflito armado que obrigaria o Irão a conformar-se às exigências da comunidade internacional, alterando assim o equilíbrio de forças na região. A conferência de Paris não se limita, portanto, a um simples encontro técnico ou diplomático. Está intimamente ligada aos equilíbrios geopolíticos regionais e à agenda estratégica das potências exteriores. DDR como objetivo central Para o general Hitti, os objetivos estratégicos da conferência são claros: discutir o controlo das fronteiras, que é um tema menos litigioso, e avançar sobretudo no DDR (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração do Hezbollah). Não se trata simplesmente de uma abordagem militar, mas de um desafio político e social maior: Como reintegrar um partido ideológico como o Hezbollah na sociedade libanesa para que ele deixe de estar alinhado com interesses estrangeiros e se torne um ator plenamente nacional? O general Hitti sublinha que o objetivo não é ajudar o exército a fazer guerra a Israel nem transformar o Líbano num palco de confronto, mas sim reedificar o Estado libanês, afirmar a sua soberania e integrar todos os atores num quadro nacional legítimo. Derrota prévia Ele insiste num ponto fundamental: uma reintegração só pode ser alcançada após uma derrota tangível e incontestável. Como ele explica, à semelhança do que aconteceu com os nazis na Alemanha após 1945, nenhuma organização ideológica armada pode ser reintegrada numa sociedade senão depois de ter aceitado a sua derrota. O general Hitti também esclarece que é preciso fazer uma distinção entre o discurso oficial vaidoso do Hezbollah e a realidade no terreno. Segundo ele, o Hezb está em apuros, mesmo que isso não apareça na sua comunicação pública. Esta dimensão também mostra que a conferência de Paris não é um encontro destinado à distribuição de recursos ou ao planeamento da ajuda ao exército, mas uma etapa estratégica que visa criar as condições políticas e sociais necessárias para um realinhamento nacional. O fator humano: um soldado mal pago O exército libanês desempenha um papel fundamental neste contexto, daí a atenção dada ao seu desenvolvimento. No centro de qualquer discussão sobre as forças regulares, o general Hitti coloca o homem no terreno. Os soldados libaneses, muitas vezes mal remunerados, constituem, no entanto, o verdadeiro pilar de qualquer operação prevista. Ele insiste na frustração salarial destes últimos e considera absurdo pedir a um homem ou a uma mulher subpagos que executem tarefas que não lhes permitem permanecer ativos e sustentar as suas famílias. Para o general Hitti, o fator humano deve preceder qualquer reflexão sobre o material ou as capacidades técnicas e militares, na medida em que, segundo ele, um soldado desmotivado ou ausente fragiliza o conjunto da instituição. O desafio é, portanto, duplo. Trata-se de garantir um rendimento decente aos militares e um apoio estrutural à Tropa. Segundo o general Hitti, a primeira questão urgente que os países doadores deveriam colocar é se não devem, prioritariamente, começar por assegurar ao soldado libanês um salário que lhe permita deixar a sua família, com a cabeça tranquila por a ter dotado dos meios para viver honradamente. Ou, ainda, se é possível que ele passe mais tempo em casa, em detrimento da sua presença no trabalho e com o risco de uma queda no grau de preparação operacional, e que os chefes no terreno continuem a esforçar-se para suprir uma perpétua e cruel necessidade de homens que lhes falta? Ajuda internacional: estabilização ou verdadeiro reforço? Há anos que o exército beneficia de diversas ajudas internacionais: formações, equipamentos, apoio logístico, e até mesmo assistência salarial indireta, nomeadamente da França, dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outros parceiros, na sequência dos planos de desenvolvimento de capacidades elaborados pela Tropa. No entanto, apesar destes apoios, o equilíbrio de forças entre o exército e o Hezbollah permanece incerto. O general Hitti explica que o exército libanês é multiconfessional e reflete a diversidade de uma sociedade liberal, enquanto o Hezbollah é monoconfessional, ideologicamente doutrinado e beneficia de uma forte coesão interna e de uma doutrina extra-libanesa. No entanto, o que pode ser considerado uma aparente fraqueza do exército pode transformar-se numa força potencialmente considerável, desde que o Estado afirme a sua autoridade e tome as suas decisões por unanimidade, beneficiando do apoio do Parlamento. Segundo o general Hitti, a ajuda internacional, neste contexto, permanecerá estrategicamente estéril enquanto a questão do monopólio da força e da autoridade do Estado não for resolvida. Os meios fornecidos continuam a ser úteis e servem as missões operacionais, mas só se tornarão eficazes se o Estado assumir as suas responsabilidades, concedendo um mandato claro ao exército. Simbolismo ou ações concretas? O general Hitti sublinha que as conferências internacionais anteriores em favor do exército, iniciadas por Paris e Roma e aprovadas por Washington, foram realmente eficazes taticamente e operacionalmente, enquanto o Estado libanês não retomar o controlo das decisões estratégicas e políticas. A conferência de março de 2026 poderá reproduzir este mesmo esquema se não influenciar os bloqueios políticos internos. Os doadores fornecem meios e recursos, o Estado libanês permanece hesitante e ambíguo nas suas diretrizes, e os cidadãos e os soldados, céticos, continuarão a duvidar da eficácia real de qualquer conferência. O general Hitti acrescenta que nenhuma ajuda internacional, por mais generosa que seja, pode substituir a coragem política. Sem um mandato claro, diz ele, e sem uma visão nacional (uma política nacional de segurança e defesa), as forças regulares permanecem expostas e a soberania do Estado libanês continuará a ser um slogan vazio de substância. O general Hitti insiste também na necessidade de uma apropriação política clara das missões do exército. O Estado, observa ele, deve assumir as suas decisões, mesmo face às pressões internas e aos riscos que o Hezbollah representa. Esta condição é indispensável para transformar os anúncios de apoio em resultados concretos e mensuráveis e evitar que a conferência de março de 2026 se torne mais um ritual diplomático. Um ponto de viragem A conferência de Paris afigura-se, mais do que nunca, como um verdadeiro ponto de viragem potencial para um Líbano confrontado com desafios políticos, sociais e estratégicos. O seu sucesso dependerá menos dos meios materiais prometidos pela comunidade internacional do que da capacidade do Estado libanês em afirmar a sua autoridade, em exigir a rendição dos atores armados ideologicamente submetidos a uma potência externa, em unir as suas instâncias políticas em torno de um mesmo objetivo e em clarificar o papel do exército no território nacional, dotando-o dos meios para o assumir. Sem reformas estruturais e sem reconhecimento do valor daqueles que servem no terreno, mesmo a conferência mais bem organizada corre o risco de permanecer simbólica. Em última análise, a conferência de Paris será um teste de maturidade política e institucional para o Estado libanês. Medirá a capacidade do governo em traduzir os seus compromissos internacionais em ações concretas no terreno, em estabilizar as suas forças armadas e em consolidar a sua soberania.

Guerra do Sudão: cenários, falsos acordos e impasses estratégicos (4/4)
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado
fev 8, 2026 - 13:52

Foco analítico na guerra do Sudão que, desde 2023, já resultou em dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, com um custo humano particularmente avassalador em Darfur, onde a violência em massa, os cercos e os deslocamentos forçados assumiram uma dimensão que muitos atores internacionais agora qualificam como genocida. A guerra sudanesa resulta regularmente em anúncios de mediação, de cessar-fogo iminente, de «janelas diplomáticas». A intervalos quase regulares, um ator internacional «redescobre» o conflito, promete uma iniciativa ou convoca negociações. Essas sequências produzem essencialmente ruído político, e por vezes uma suspensão temporária dos combates num eixo preciso, mas nunca modificam a estrutura do conflito. No entanto, a repetição do mesmo padrão não constitui um fracasso acidental da diplomacia; é o produto de um mal-entendido mais profundo sobre a própria natureza da guerra em curso. O primeiro impasse reside numa leitura errada do conflito como um confronto clássico entre dois polos suscetíveis de serem levados a um compromisso. No entanto, nem as Forças Armadas Sudanesas nem as RSF estão envolvidas numa lógica de negociação política. O que procuram preservar não são fatias de poder num futuro Estado, mas sim capacidades autónomas de dano, redes, territórios exploráveis. Neste contexto, qualquer mediação que vise a partilha de poder ou uma transição institucional parece descolada da realidade. Os cessar-fogos propostos decorrem da mesma ilusão. Pressupõem que a guerra se tornou demasiado custosa para os atores presentes. Contudo, paradoxalmente, a prolongação do conflito continua a ser racional para ambos os lados. Para o exército, permite manter um estatuto de representante oficial do Estado, obter um apoio internacional mínimo e conter o colapso total do aparelho militar. Para as RSF, garante a continuidade dos fluxos económicos, a consolidação do seu controlo territorial no oeste e a impossibilidade de uma ordem centralizada se reconstituir contra elas. Os desenvolvimentos divulgados no final de janeiro destacam uma série de progressos militares atribuídos às Forças Armadas Sudanesas, nomeadamente no Cordofão do Sul. O levantamento de antigos cercos, a retoma de localidades secundárias e a reabertura de eixos rodoviários são apresentados como sinais de uma nova dinâmica, ou mesmo de uma mudança progressiva na correlação de forças. Mas esta leitura merece ser recolocada no seu contexto, pois corresponde menos a uma transformação estrutural do conflito do que a uma sequência de comunicação estratégica destinada a várias audiências distintas: apoio interno ao exército, mobilização dos patrocinadores regionais e restauração de uma credibilidade militar abalada por dois anos de guerra de atrito. No terreno, estes avanços permanecem custosos, localizados e frágeis. Não afetam nem o controlo das RSF sobre Darfur, nem a sua capacidade de causar danos à distância, nem a fragmentação geral do país. Confirmam sobretudo uma característica central da guerra sudanesa: a crescente dissociação entre eventos militares visíveis e dinâmicas estratégicas profundas. Nesse sentido, a narrativa da reconquista também faz parte da guerra. Não anuncia necessariamente o seu fim, mas torna-se um instrumento adicional. A isso acresce um segundo impasse, ainda mais estrutural: a marginalização sistemática dos atores civis sudaneses. Desde 2019, estes foram invocados, celebrados e depois progressivamente afastados de todos os processos reais de decisão. As iniciativas diplomáticas continuam a reivindicar um «regresso à transição civil», mas sem nunca criar as condições materiais, de segurança e políticas para a sua emergência. Os civis servem de justificação moral para processos concebidos noutros lugares, entre patrocinadores regionais e atores armados… Esta marginalização não é apenas uma injustiça política. Constitui um fator ativo de prolongamento do conflito. Na ausência de um polo civil estruturado e protegido, a guerra continua a ser a única linguagem audível, e qualquer tentativa de recomposição política interna é, consequentemente, esmagada entre a violência dos atores armados e a indiferença estratégica dos seus apoios externos. Os cenários de saída da guerra evocados nos círculos diplomáticos oscilam então entre dois extremos igualmente problemáticos. O primeiro é o de uma vitória militar decisiva de um dos lados. Contudo, este cenário é pouco credível, na medida em que nenhum ator dispõe das capacidades necessárias para impor uma dominação total sobre todo o território sem desencadear uma nova fase de fragmentação ou de guerrilhas locais. Uma vitória do exército arriscaria reativar focos de rebelião periféricos; um triunfo das RSF institucionalizaria uma violência em massa sem Estado, dificilmente estabilizável. O segundo cenário é o de uma partição formal do país. E, novamente, os obstáculos são consideráveis. Uma partição oficial suporia um reconhecimento internacional, fronteiras estabilizadas, acordos económicos e de segurança duradouros. No entanto, a fragmentação atual é funcional precisamente porque permanece informal. Permite aos atores beneficiar das rendas da guerra sem assumir os custos políticos de uma nova ordem. Entre esses dois extremos, instala-se, portanto, um terceiro cenário, não formulado mas de facto dominante: o de um conflito prolongado de baixa intensidade variável, pontuado por picos de violência extrema, e gerido por atores regionais que controlam os seus parâmetros sem procurar resolvê-lo. Este cenário não é um desvio descontrolado. É o triste produto de um alinhamento de interesses. As potências regionais encontram nele um terreno de influência, as grandes potências internacionais veem-no como um conflito periférico gerível, e os atores armados locais encontram nele rendas e autonomia estratégica. Quanto às populações civis, elas pagam o preço. Como sempre. É preciso então colocar a questão que poucas análises ousam formular explicitamente: quais seriam as condições para uma inflexão real? Elas são hoje pouco prováveis, mas não teoricamente impossíveis. Implicariam, em primeiro lugar, uma convergência mínima entre os patrocinadores regionais sobre a necessidade de estabilizar a margem africana do Mar Vermelho como espaço de segurança coletiva, renunciando à lógica das zonas de influência. Mas isso vai contra a lógica global gerada de facto por Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping. Suporiam, em seguida, uma reativação credível do quadro internacional, capaz de produzir custos tangíveis para os atores armados, para além das declarações e das sanções simbólicas. Exigiriam, por fim, um investimento massivo e protegido na reconstrução de um polo civil sudanês como ator real, e não como simples cenário de negociação.  Ora, nenhum desses elementos está hoje reunido. A rivalidade saudo-emiradense permanece; a ordem internacional está mais do que nunca fragmentada e os atores civis sudaneses estão isolados, exaustos, dispersos. Neste contexto, a guerra prossegue por coerência estratégica. É triste constatar que o Sudão se tornou nada menos que um laboratório brutal das formas contemporâneas de conflitualidade: guerras longas, pouco visíveis, inseridas em rivalidades regionais, tornadas possíveis por um ambiente internacional permissivo. E enquanto o Mar Vermelho permanecer um espaço de competição em vez de cooperação, enquanto a estabilização for percebida como mais custosa que a instabilidade, enquanto a violência puder ser externalizada sem consequências maiores, a guerra continuará. Inevitavelmente, e por muito tempo ainda. Pois, mais uma vez, não se trata de um caos espontâneo, mas de uma ordem profundamente desumana, mas profundamente cínica para aqueles que dela beneficiam. Leia também sobre o mesmo tema: O colapso do Sudão: Guerra pela guerra (1/4) Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Chifre da África: A regionalização do conflito sudanês (2/4) O Irã e sua guerra indireta no Sudão (3/4)

O Irão e a sua guerra indireta no Sudão (3/4)
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado
fev 6, 2026 - 20:30

A guerra no Sudão, em curso desde 2023, já provocou dezenas de milhares de mortes e milhões de deslocados, com um custo humano particularmente devastador em Darfur, onde a violência em massa, os cercos e os deslocamentos forçados já são descritos por atores internacionais como de caráter genocida. É necessário analisar de forma isolada o papel do Irã no conflito sudanês, ainda que ele não se manifeste na forma clássica de um patrocinador identificado, de um apoio político explícito ou de uma aliança assumida. Trata-se de uma presença mais difusa, mais indireta, mas, em muitos aspectos, mais estruturante. Teerã não é um ator central no teatro sudanês; funciona como uma espécie de amplificador estratégico, inserindo o conflito em uma arquitetura regional mais ampla, dominada pelo mar Vermelho e pelas novas formas de guerra assimétrica. Há vários anos, a estratégia iraniana se baseia em um princípio constante: ampliar a profundidade estratégica sem se expor frontalmente. Essa lógica foi testada no Líbano com o Hezbollah, na Síria por meio do regime alauíta, no Iraque via milícias xiitas e no Iêmen com as ambições houthi. Ela se apoia em redes, intermediários locais e transferências de know-how, mais do que em desdobramentos visíveis. O Sudão, por muito tempo periférico na cartografia iraniana, passa gradualmente a ocupar uma posição funcional nesse conjunto. Esse retorno se explica, antes de tudo, pela centralidade crescente do mar Vermelho. Desde o início da guerra em Gaza e a ascensão dos houthis no Iêmen, o mar Vermelho se tornou um espaço de confronto indireto entre o eixo iraniano e as potências ocidentais, além de um ponto de fricção maior com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Ataques à navegação comercial, ameaças às rotas energéticas, ofensivas com drones e mísseis transformaram esse espaço marítimo em uma extensão direta dos conflitos do Oriente Médio. Nesse contexto, o Sudão aparece mais como uma profundidade estratégica do que como uma frente de batalha. Seu litoral, seus portos e suas zonas cinzentas de segurança oferecem um pano de fundo útil, sem exigir um envolvimento político explícito. O Irã não precisa controlar o Sudão, nem mesmo dispor de um aliado oficial no país. Basta que ele permaneça instável, fragmentado e incapaz de garantir de forma duradoura a segurança de suas costas e infraestruturas. Os indícios de uma aproximação tática entre Teerã e o Exército sudanês se multiplicaram desde 2024. As acusações de fornecimento de drones iranianos às Forças Armadas Sudanesas, embora sistematicamente negadas, se inserem em uma lógica já observada em outros contextos: a transferência de capacidades, e não a presença direta. Os drones, pelo baixo custo, flexibilidade e impacto psicológico, são instrumentos ideais dessa estratégia. Eles permitem compensar fragilidades estruturais sem alterar o equilíbrio político interno. Mas seria reducionista interpretar a atuação iraniana como um simples apoio militar pontual ao Exército sudanês. O Irã não busca salvar o Estado sudanês. Não atua em uma lógica de estabilização. O que lhe interessa é a desorganização controlada de um espaço marítimo estratégico, que obriga seus adversários a dispersar recursos e multiplicar frentes de atenção. Trata-se de uma estratégia de subversão que, aliás, se tornou uma marca registrada de Teerã em diversas partes do Oriente Médio. Nessa perspectiva, a guerra no Sudão funciona como um conflito de saturação. Não é um fim em si mesma, mas um elemento de uma paisagem conflitiva ampliada, na qual cada crise periférica enfraquece a capacidade de resposta global das potências ocidentais e de seus aliados regionais. O Sudão, assim como a Somália ou o Iêmen, torna-se um espaço onde a conflitividade é tolerável precisamente por estar distante dos centros de decisão. Essa estratégia encontra eco particular na transformação contemporânea da guerra. Drones, ataques à distância e redes logísticas transfronteiriças permitem conduzir conflitos de baixa intensidade política, mas de altíssima intensidade humana. Os ataques a Porto Sudão e os bombardeios direcionados contra infraestruturas sensíveis demonstram que até mesmo áreas consideradas seguras permanecem vulneráveis. E essa vulnerabilidade, por si só, é uma mensagem estratégica. Para a Arábia Saudita, essa evolução é especialmente preocupante, já que a segurança do mar Vermelho é um pilar de suas ambições econômicas, turísticas e geopolíticas. Qualquer instabilidade prolongada na margem africana enfraquece essa projeção. O Irã não precisa confrontar diretamente Riad; basta contribuir para um ambiente em que a estabilização se torna cara, incerta e politicamente arriscada. Para os Emirados Árabes Unidos, a situação é mais ambígua. Sua abordagem indireta no Sudão, baseada em redes e atores não estatais, por vezes ressoa com a lógica iraniana, sem que isso implique coordenação. Não se trata de uma aliança, mas de uma convergência objetiva de métodos que privilegiam a flexibilidade, evitam a exposição direta e aceitam a instabilidade como um parâmetro duradouro. O Irã também se beneficia do enfraquecimento do marco normativo internacional. Em um sistema no qual a qualificação de genocídio, as sanções e as condenações já não produzem rupturas estratégicas, as margens de manobra se ampliam. A guerra no Sudão torna-se, assim, mais um exemplo da normalização da violência extrema nas periferias, o que beneficia objetivamente os atores interessados em deslegitimar a ordem internacional liberal. Por fim, é preciso sublinhar um ponto essencial: o Irã não tem interesse em uma vitória rápida de nenhum dos lados sudaneses. Uma vitória clara do Exército, apoiado por Riad e pelo Cairo, fortaleceria um eixo hostil. Uma dominação total das RSF, ancorada em redes emiradenses, produziria outro tipo de consolidação regional. O interesse iraniano está no entremeio, na prolongação de um conflito que impede qualquer recomposição estável. Explorar as contradições dos outros garante, por padrão, uma vitória para Teerã. Assim, o papel iraniano na guerra sudanesa não se mede em quilômetros quadrados conquistados nem em declarações oficiais. Ele se expressa na duração do conflito, em sua capacidade de se inscrever em um continuum regional de crises e na forma como contribui para transformar o mar Vermelho em um espaço de tensão permanente. O Sudão, nessa leitura, não é nem aliado nem inimigo. É apenas um vetor, um espaço onde a guerra, despojada de qualquer finalidade política, torna-se um instrumento entre outros da rivalidade estratégica global. O cinismo da realpolitik levado ao extremo. Leia também sobre o mesmo tema: Colapso do Sudão: a guerra pela guerra (1/4) Mar Vermelho, Golfo e Chifre da África: a regionalização do conflito sudanês (2/4) Próximo artigo: Guerra no Sudão: cenários, falsos acordos e impasses estratégicos (4/4)

O declínio secular dos Estados Unidos já começou? (1/2)
Por
Jacques Mechelany
Publicado
fev 5, 2026 - 12:51

Após a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como superpotência, moldando os rumos do mundo ocidental. Seu vasto parque industrial foi decisivo para garantir a derrota militar do fascismo. Na primeira parte desta análise, examinamos como os EUA consolidaram seu modelo, não apenas pela força militar, mas também pela criação de uma nova ordem econômica, financeira e institucional global. Em uma segunda parte, analisaremos os riscos que hoje se colocam diante do país. Muitos economistas e analistas defendem que os Estados Unidos entraram nas etapas iniciais de um declínio secular. Como descreveu o economista russo Nikolai Kondratieff nos anos 1930, a história global se desenrola em longos ciclos econômicos e geopolíticos. Esses períodos, que costumam durar entre 60 e 80 anos, são geralmente dominados por uma potência líder e acompanhados por grandes revoluções tecnológicas e transferências de liderança global. Da China por volta do ano 900 às cidades italianas do Renascimento, passando pelo Império Britânico sob Elizabeth I, sucessivos ciclos de hegemonia econômica mundial seguiram esse padrão. A era da liderança global americana começou, de forma ampla, após a Segunda Guerra Mundial. O que observamos hoje, tanto no plano interno quanto internacional, pode ser o início do desmonte dessa liderança ao longo da próxima década. Da condição de “mercado emergente” à superpotência Antes da Segunda Guerra, os Estados Unidos ainda não eram o centro incontestável do poder global. Em muitos aspectos, o país se assemelhava a uma economia emergente, impulsionada por uma nova fonte de energia, o petróleo, e por inovações transformadoras como o automóvel e o telefone. Era uma terra de oportunidades, movida por um espírito empreendedor mais livre do que o do Império Britânico e das democracias europeias já amadurecidas. O modelo americano combinava mentalidade prática, rápida expansão industrial, altas taxas de crescimento, dinamismo especulativo e uma postura de investimento marcada pela disposição ao risco, típica de economias emergentes. Como a história demonstra repetidamente, os excessos desses mercados costumam carregar as sementes de suas próprias crises. Essa trajetória culminou no colapso de 1929, seguido pela Grande Depressão dos anos 1930. Naquele momento, a concentração real de capital e o peso geopolítico ainda estavam na Europa. O Reino Unido seguia como o pilar da ordem global, com a libra esterlina como moeda central do comércio e das finanças internacionais. Segunda Guerra Mundial: a grande transferência de poder A Segunda Guerra Mundial mudou tudo. A Europa foi devastada. A Ásia, arrasada. Dezenas de milhões morreram. Países inteiros, como Alemanha e Japão, ficaram destruídos física, industrial e institucionalmente. O próprio Império Britânico saiu gravemente enfraquecido, e o equilíbrio de poder mudou de forma irreversível. O isolacionismo inicial dos Estados Unidos, combinado com sua extraordinária capacidade industrial e sua posição geográfica protegida, permitiu ao país se tornar o arsenal do mundo aliado. Os EUA forneceram desde grãos até canhões, de munições a navios e aeronaves. O ponto de inflexão ocorreu em 7 de dezembro de 1941, quando o Japão atacou Pearl Harbor. Os Estados Unidos entraram na guerra, primeiro no Pacífico e depois na Europa. As vitórias aliadas, em 8 de maio de 1945 na Europa e em 2 de setembro de 1945 na Ásia, fizeram mais do que encerrar um conflito. Elas projetaram os Estados Unidos ao papel de potência global dominante, sucedendo um Império Britânico em declínio. A ordem do pós-guerra: os Estados Unidos constroem o sistema do qual passarão a depender O economista britânico John Maynard Keynes discursando na conferência de Bretton Woods, em julho de 1944, que fundou o sistema financeiro mundial com a criação do FMI e do Banco Mundial. (Staff/FMI/AFP) Por meio do Plano Marshall na Europa e de uma década de supervisão no Japão, Washington se posicionou como provedora de capital, arquiteta da reconstrução e modelo de referência da modernidade ocidental, do capitalismo e da governança. Mas o ato mais consequente dos Estados Unidos não foi apenas reconstruir economias. Foi reconstruir as regras. O país criou uma ordem internacional baseada no multilateralismo, no Estado de Direito e em uma arquitetura institucional voltada à promoção da paz, da segurança e da cooperação econômica. Washington teve papel central na criação das instituições que definiram o mundo do pós-guerra: as Nações Unidas; o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional; a OTAN; e estruturas regionais como a Organização dos Estados Americanos. Com o tempo, essa arquitetura se expandiu para incluir organismos como a Organização Mundial da Saúde, o UNICEF, o G7 e o G20. Essa arquitetura não era um gesto simbólico. Era infraestrutura estratégica, e se tornou o alicerce do poder americano. A queda do comunismo consolida a liderança dos Estados Unidos O colapso das economias comunistas de planejamento centralizado reforçou ainda mais a hegemonia americana. A abertura da China em 1978 e a queda do bloco soviético em 1989 pareciam confirmar o triunfo do modelo dos Estados Unidos. Francis Fukuyama celebrou esse momento em O fim da história e o último homem , apresentando-o como a forma final de organização política e econômica. Por um período, a supremacia americana pareceu indefinida. Costuma-se atribuir esse domínio à democracia. A realidade é menos confortável. Os Estados Unidos não venceram principalmente por seu modelo democrático. Venceram pela eficiência superior de seu ecossistema capitalista, pela produtividade da iniciativa privada e pelo sistema de governança corporativa baseado em stakeholders, desenvolvido na Europa Ocidental já em 1602 com a Companhia Holandesa das Índias Orientais, um sistema que não é, em sua essência, democrático. A eficiência econômica americana venceu a Segunda Guerra. Da mesma forma, a ineficiência das economias planificadas condenou a ideologia comunista muito antes do colapso de sua legitimidade política. O presidente dos EUA Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev durante uma reunião em 1985. (Ann Ronan Picture Library/Photo12 via AFP) A democracia, como sistema político, é estruturalmente ineficiente para planejamento de longo prazo, reformas estruturais e escolhas estratégicas difíceis, seja nos Estados Unidos, na Europa ou em muitos países em desenvolvimento. Os exemplos são numerosos: a saída da Alemanha da energia nuclear; as repetidas falhas de França e Reino Unido em reformar sistemas de previdência e saúde; ou o atraso crônico dos Estados Unidos em infraestrutura. O argumento mais contundente, porém, está na ascensão impressionante de países como China e Emirados Árabes Unidos nas últimas cinco décadas, explicada quase integralmente por sua capacidade de operar não como democracias, mas como corporações estratégicas. Esses países adotaram a governança corporativa privada ocidental como modelo de governança pública. Na China, a população é tratada como cliente, e o Partido Comunista atua como acionista da empresa nacional. Para se manter no poder, os acionistas precisam satisfazer seus clientes, da mesma forma que uma empresa privada precisa atender seus consumidores para prosperar. Nos Emirados Árabes Unidos, cidadãos e residentes são os clientes, enquanto as famílias governantes atuam como proprietárias estratégicas do sistema. Em ambos os casos, o poder decisório final não está nas mãos dos clientes ou eleitores, mas de gestores altamente qualificados, capazes de definir uma visão e implementá-la sem paralisia causada por grupos de pressão permanentes ou barganhas políticas pouco técnicas, sempre sob o controle de seus acionistas. O salto da China em tecnologia, infraestrutura, comunicações, pesquisa, minerais críticos, energia solar, veículos elétricos e trens de alta velocidade está diretamente ligado à capacidade do Estado de definir prioridades industriais e financiar objetivos nacionais de longo prazo em grande escala. De forma semelhante, a ascensão dos Emirados como plataforma global, atraindo capital, empreendedores e talentos, decorre de políticas proativas voltadas a criar um ambiente estável, seguro e favorável a impostos para empresários, investidores, trabalhadores qualificados e pesquisadores de mais de 200 países. Quando a democracia elege seus próprios destruidores Há ainda uma falha mais sombria nos sistemas democráticos. A democracia pode abrir caminho para o autoritarismo, não pela força, mas pelo consentimento. Ela permite que demagogos cheguem ao poder por meio das eleições, inflamando medo, identidade e ressentimento. Uma vez no governo, esses líderes distorcem instituições e enfraquecem contrapesos até que a democracia se reduza a um teatro procedural. De Hitler a Mussolini, de Franco a Erdoğan e Putin, a história é clara. A pergunta incômoda é se os Estados Unidos se aproximam de um momento semelhante. Há sinais crescentes de que a democracia americana enfrenta hoje seu teste mais duro desde 1776. Quando os Estados Unidos se voltam contra a ordem que criaram O poder americano nunca foi apenas militar ou econômico. Foi institucional. Os Estados Unidos incorporaram sua força a uma ordem global construída com regras, alianças, tratados e credibilidade. Esse sistema sustentou o dólar, os mercados financeiros americanos e a liderança global do país. Mas no momento em que Washington passa a tratar essa ordem como opcional, ou pior, como um obstáculo a ser desmontado, deixa de enfraquecer rivais e passa a enfraquecer a si próprio. A doutrina “Make America Great Again”, de Donald Trump, abraça o isolacionismo e a coerção: tarifas unilaterais, retirada de dezenas de acordos internacionais e restrições severas à imigração. Essas políticas estão remodelando não apenas os Estados Unidos, mas todo o sistema internacional. Aqui está a principal fratura da geopolítica contemporânea. A retomada do debate sobre as pretensões americanas em relação à Groenlândia é emblemática. A Groenlândia não é apenas um território no Ártico. Está ligada à Dinamarca, aliada da OTAN, e integrada à arquitetura da aliança ocidental. A questão não é territorial. É de credibilidade. Ela levanta uma pergunta mais profunda: os Estados Unidos passaram a se colocar acima da ordem baseada em regras? Quando essa percepção se dissemina, as consequências não ficam restritas ao Ártico. Elas reverberam em todas as fronteiras disputadas, tratados frágeis, compromissos de alianças e regimes monetários. Isso diz à Rússia que esferas de influência voltaram a ser legítimas. Diz à China que a coerção é apenas uma expressão natural do poder e que, se Washington se permite usá-la contra seus próprios aliados, perde a autoridade moral para negar a mesma lógica a Pequim em relação a Taiwan. Diz às potências médias que a soberania legal é negociável, mais conveniência do que princípio, como mostraram eventos recentes na Venezuela. E, mais grave ainda, diz aos aliados dos Estados Unidos que sua segurança, suas economias e seu comércio não se apoiam no Direito, mas na vontade exclusiva de Washington. Davos 2026: o ponto de virada Longe de aderir às táticas de negociação de Donald Trump, líderes globais concluíram que não podiam mais considerar os Estados Unidos um parceiro confiável, econômica, militar e tecnologicamente. A resposta foi imediata. Em 27 de janeiro de 2026, União Europeia e Índia assinaram o Acordo de Livre Comércio Índia União Europeia, unindo dois bilhões de pessoas em um arranjo que cobre cerca de um quarto do PIB global. Líderes do Canadá, da Austrália e da Europa correm para a China em busca de acesso ao maior mercado consumidor do mundo. Países europeus repensam sua arquitetura militar para reduzir a dependência dos Estados Unidos e da OTAN. É assim que ordens internacionais entram em colapso: por uma erosão constante e cumulativa da legitimidade, na qual o poder de coerção permanece, mas o fundamento moral se dissolve. A dominação americana nunca foi indestrutível. Ela dependia de um ativo crítico que não pode ser fabricado com gastos militares ou déficits fiscais: a credibilidade. E a credibilidade, uma vez quebrada, não se reconstrói com slogans. Talvez já tenhamos alcançado o ponto de não retorno... Próximo artigo: O declínio secular dos EUA já começou? (2/2) A fragilidade da economia, um perigo real

O Fezzan da Líbia: a linha de frente esquecida
Por
Rayyan Al-Basseer
Publicado
fev 4, 2026 - 21:27

Enquanto diplomatas debatem o futuro político da Líbia em salas de conferência climatizadas, a fragilidade persistente do vasto sul do país representa riscos significativos não apenas para a própria Líbia, mas também para Estados vizinhos, especialm ente os do Sahel africano. A região do Fezzan, que ocupa um terço do território líbio, tornou-se um vácuo de governança, onde a autoridade do Estado colapsou, grupos armados se multiplicam e redes criminosas transnacionais operam com impunidade. Os números traçam um quadro devastador. No Fezzan, 67% dos domicílios precisam de assistência humanitária, a taxa mais alta do país. Quase metade recorre a estratégias de sobrevivência em nível de crise, como vender ativos produtivos ou abrir mão de cuidados médicos. O desemprego entre jovens chega a 52% em algumas áreas, criando uma geração sem perspectivas de estabilidade. Apagões crônicos duram até 20 horas por dia. As taxas de mortalidade materna disparam, já que 73% das unidades de saúde funcionam apenas parcialmente, forçando mulheres a dar à luz em casa ou a viajar até 150 quilômetros para atendimento básico. Esses dados não são apenas estatísticas. Eles refletem a realidade cotidiana de 600 mil pessoas cujo sofrimento foi sistematicamente ignorado. As comunidades Tebu e Tuaregue enfrentam discriminação arraigada, sem cidadania e documentação, o que as exclui da vida política e das oportunidades econômicas. A região que produz até 30% do petróleo líbio recebe apenas uma fração dos investimentos, alimentando ressentimentos explorados por grupos armados. Tratar o Fezzan como um problema distante seria um erro catastrófico. A região é crucial para a sobrevivência da Líbia e um nó central em uma rede de crises que vai do Mediterrâneo ao Chifre da África. Os campos de Sharara e El-Feel, sozinhos, contribuem de forma significativa para o orçamento nacional. Se os aquíferos do Grande Rio Artificial, sob o deserto do sul, forem interrompidos, o fornecimento de água e eletricidade para Trípoli e Benghazi é afetado. As apostas não poderiam ser maiores. Para além das fronteiras líbias, o Fezzan virou uma superestrada para ameaças de toda ordem. Armas que cruzam seus 2.700 quilômetros de fronteiras porosas alimentam conflitos que matam milhares no Sahel. Redes de contrabando de combustível, avaliadas em bilhões, fortalecem grupos jihadistas no Níger e no Mali. A guerra em curso no Sudão transformou o sudeste da Líbia em corredor de mobilização de mercenários, com combatentes e armamentos fluindo para conflitos na Etiópia e na Somália. Para a Europa, o Fezzan funciona como um polo-chave e ponto de trânsito da migração irregular. A dinâmica migratória na região resulta de uma interação complexa de fatores locais, regionais e internacionais. Embora seu papel seja central, ele deve ser entendido dentro de uma rede mais ampla de rotas e influências. O Fezzan segue sendo a principal porta de entrada para redes de tráfico humano que alimentam crises humanitárias ao longo das rotas mediterrâneas. Do ponto de vista da União Africana, a região representa o encontro entre a instabilidade do Sahel e a fragilidade do Norte da África, com risco de desencadear uma crise capaz de superar conflitos regionais atuais. A boa notícia é que a estabilização é possível. A má notícia é que ela exige abandonar abordagens fracassadas e adotar soluções abrangentes, guiadas localmente. Primeiro, a governança precisa ser restaurada por meio de ação legislativa concreta. A Líbia necessita de uma Lei de Desenvolvimento do Sul que crie uma Autoridade de Estabilização do Fezzan, com orçamento real e mandatos claros. Conselhos locais devem ter autonomia fiscal e garantias constitucionais de representação, incluindo cadeiras reservadas no Parlamento e postos no gabinete. As comunidades Tebu e Tuaregue precisam, finalmente, receber a cidadania e a documentação que lhes foram negadas. Segundo, a reforma do setor de segurança não pode esperar. Um programa gradual de desarmamento e reintegração deve oferecer alternativas reais aos membros de grupos armados, como formação profissional, oportunidades econômicas e futuros dignos. A segurança de fronteiras exige um contingente suficiente de guardas recrutados localmente e equipados com tecnologia moderna, não postos corruptos que facilitam o próprio tráfico que deveriam coibir. De forma decisiva, a Líbia precisa de acordos trilaterais de fronteira com Níger e Chade para patrulhas conjuntas e compartilhamento de inteligência. Terceiro, a revitalização econômica deve desmontar a economia de guerra. Uma lei de repartição de receitas deve garantir que 20% a 25% do petróleo do sul sejam reinvestidos localmente por meio de fórmulas transparentes. Zonas econômicas livres em Sabha e Kufra podem formalizar o comércio transfronteiriço e reduzir incentivos ao contrabando. Investimentos em infraestrutura, como estradas, usinas solares e agronegócio, precisam criar 5 mil empregos de imediato, com apoio direcionado a mulheres e comunidades minoritárias. Quarto, serviços básicos devem ser restabelecidos para reconstruir a confiança no Estado. Projetos de impacto rápido podem recuperar estradas, modernizar sistemas de água e assegurar que 25% do orçamento nacional de saúde chegue às unidades do sul. Cada dia de atraso aprofunda o ciclo de violência e predação. Combatentes estrangeiros consolidam controle. Redes criminosas expandem operações. Jovens perdem a esperança e ingressam em milícias. A comunidade internacional enfrenta uma escolha estratégica crucial: investir na estabilização abrangente por meio do engajamento político, em vez de ajuda financeira, dado o status de renda alta da Líbia, ou arcar com custos exponencialmente maiores de um colapso estatal futuro. A inação abre espaço para a exploração de vácuos de poder por atores criminosos, com potencial para crises humanitárias, intervenções militares e proliferação de conflitos regionais. Por isso, é imperativo que União Europeia, União Africana, Estados Unidos e Nações Unidas elevem o Fezzan de uma preocupação periférica a uma prioridade de segurança coletiva que exija ação coordenada. Parceiros internacionais devem alinhar seus esforços a estruturas lideradas pela Líbia, oferecendo apoio técnico e respaldo diplomático para reformas difíceis. Essa transição requer abandonar intervenções fragmentadas e avançar para programas de desenvolvimento abrangentes que enfrentem as causas estruturais da fragilidade. Embora os desafios do Fezzan sejam grandes, não são intransponíveis. Com vontade política sustentada e compromisso com uma governança inclusiva, a região pode deixar de ser um passivo de segurança e se tornar um pilar de uma Líbia estável e próspera. Essa transformação, porém, exige abandonar ilusões de soluções rápidas ou respostas centradas no uso da força. A estabilidade duradoura depende do trabalho rigoroso de construir instituições legítimas e promover oportunidades econômicas. Os habitantes do Fezzan historicamente suportaram extração de recursos e violência sistêmica, permanecendo excluídos das decisões sobre seu futuro. Em última instância, o que está em jogo vai além da região. A recuperação do Estado líbio, a segurança do Mediterrâneo e a estabilidade do Sahel estão intrinsecamente ligadas ao destino do Fezzan.

Mar Vermelho, Golfo e Corno de África: a regionalização do conflito sudanês (2/4)
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado
fev 3, 2026 - 12:58

Foco analítico sobre a guerra do Sudão que, desde 2023, já resultou em dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, com um custo humano particularmente avassalador em Darfur, onde a violência em massa, os cercos e os deslocamentos forçados assumiram uma dimensão que muitos atores internacionais agora qualificam como genocida. Analisar a guerra sudanesa segundo os parâmetros de uma guerra confinada ao espaço territorial nacional seria uma aberração, dado que a geografia do país se impõe como um fator estruturante. Estado ribeirinho do Mar Vermelho, encostado ao Corno de África e situado na proximidade imediata da península Arábica, o Sudão ocupa uma posição estratégica que o torna particularmente vulnerável às projeções de poder regionais. Desde há uma década, o Mar Vermelho voltou a ser um espaço de competição ativa. Rotas comerciais, segurança marítima, controlo dos fluxos migratórios, portos, bases militares e logísticas sobrepõem-se. O conflito do Iémen, por exemplo, é uma das suas expressões mais manifestas. A crise do Sudão também. Neste espaço estreito mas decisivo, a rivalidade crescente entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, há muito mascarada por uma retórica de coordenação estratégica, cristalizou-se progressivamente.  O Sudão é um dos teatros onde esta rivalidade assume uma forma particularmente brutal. Os Emirados privilegiaram uma abordagem indireta, baseada em redes, atores armados não estatais, circuitos económicos paralelos e centros logísticos. As repetidas acusações de apoio às RSF, que Abu Dhabi nega oficialmente, inserem-se nesta lógica. O comércio de ouro sudanês, as rotas que passam pelo Chade e pela Líbia oriental, o acesso aos mercados e às infraestruturas do Golfo formam um conjunto coerente que permite às RSF manter o seu esforço de guerra apesar das sanções e da condenação internacional. Esta abordagem não visa necessariamente a vitória militar das RSF, mas a sua capacidade de durar, de permanecer um ator incontornável e de impedir qualquer estabilização que não passe pelas suas redes. A guerra torna-se, portanto, uma alavanca de influência e um meio de pesar sobre a arquitetura regional sem se expor frontalmente. Pelo contrário, Riade privilegia uma lógica mais clássica de estabilização estatal. O apoio ao exército sudanês, frequentemente coordenado com o Egito, visa conter o colapso de um Estado ribeirinho do Mar Vermelho, assegurar as vias marítimas, limitar os fluxos migratórios descontrolados e impedir que um espaço de caos duradouro se instale em frente às costas sauditas — pois o Cairo também apoia as Forças Armadas Sudanesas (FAS) com o objetivo de manter no sul uma barreira estatal face às dinâmicas de fragmentação armada e às ingerências concorrentes — nomeadamente emiradenses e iranianas — suscetíveis de pôr em causa a segurança do Nilo e o equilíbrio estratégico regional. Um abscesso de fixação regional Mas se esta abordagem é menos flexível e mais institucional, é também mais dispendiosa politicamente. A divergência entre estas duas doutrinas alimenta assim diretamente o atolamento do conflito. Cada campo sudanês torna-se o elo local de uma racionalidade regional distinta, sem que nenhum dos padrinhos tenha interesse numa vitória clara suscetível de reconfigurar o equilíbrio geral. O conflito sudanês torna-se então um caso de gestão, não um problema a resolver. Uma espécie de abscesso de fixação regional. A esta rivalidade regional junta-se uma camada mais discreta mas decisiva: a da Rússia e da China. Certamente, nem Moscovo nem Pequim desempenham um papel de padrinho direto do conflito sudanês. A sua influência exerce-se noutros lugares, no plano de fundo do sistema internacional, criando as condições para um atolamento duradouro. A Rússia adota uma postura oportunista. Sem se comprometer frontalmente, beneficia de um enfraquecimento do quadro normativo internacional. Cada bloqueio no Conselho de Segurança, cada sanção edulcorada, cada debate jurídico sem tradução operacional contribui para estabelecer o precedente de uma ordem internacional incapaz de produzir efeitos vinculativos. A China, por seu lado, privilegia uma abordagem silenciosa e económica. O Sudão permanece para Pequim um espaço de interesse a longo prazo, tanto pelos seus recursos como pela sua posição nas rotas marítimas que ligam a Ásia, África e Europa. Fiel à sua doutrina de não ingerência, a China evita qualquer condenação política forte e acomoda-se a um status quo conflituoso, desde que os seus interesses essenciais não sejam diretamente ameaçados.   Este posicionamento russo-chinês neutraliza qualquer perspetiva de coerção internacional real. As qualificações jurídicas, incluindo a de genocídio reconhecida pelos Estados Unidos, permanecem assim sem tradução operacional. O direito internacional existe, mas já não produz uma ruptura estratégica. Bem-vindos à desordem mundial do século XXI. Leia também sobre o mesmo tema Colapso do Sudão: a guerra pela guerra (1/4) Próximo artigo - O Irão e a sua guerra indireta no Sudão (3/4)

Lokman Slim: quando as palavras desafiam as armas
Por
Jad Akhawi
Publicado
fev 2, 2026 - 18:51

Lokman Slim não foi um opositor no sentido convencional, nem um ativista partidário em busca de poder ou cargos. No centro de sua trajetória, ele foi um intelectual que escolheu pagar integralmente o preço de suas convicções, enfrentando o sistema de opressão não de fora, mas a partir de dentro de seu próprio meio social, por meio das narrativas dominantes e da retórica que esse sistema buscava monopolizar. Seu assassinato, portanto, surgiu desde o primeiro momento como um crime simbólico antes de ser um crime clássico, uma mensagem política antes de se tornar uma eliminação pessoal. Lokman Slim nasceu em um ambiente xiita do qual jamais se desvinculou. Ainda assim, recusou-se a permitir que essa pertença se transformasse em uma prisão ideológica ou em uma identidade redutora. Desde cedo, compreendeu que o verdadeiro perigo para uma comunidade não vem tanto do exterior, mas da supressão de seu direito à crítica e da transformação dessa comunidade em um bloco fechado, governado pelo medo e pela lealdade imposta. Seu conflito com o Hezbollah, portanto, não foi um simples desacordo político, mas um choque existencial entre aqueles que veem a política como um espaço aberto ao debate e à responsabilização, e aqueles que a encaram como uma doutrina fechada, protegida pelas armas. Junto com sua irmã Rasha, Lokman Slim fundou a editora Dar al Jadid, e com sua esposa Monika Borgman, a associação UMAM Documentation and Research, colocando a memória no centro de sua luta. Ele reconhecia há muito tempo que a dominação não se exerce apenas pela força militar, mas também pelo controle das narrativas, pela neutralização de fatos incômodos e pela reescrita da história a serviço de um presente autoritário. Por isso, dedicou-se a documentar a guerra civil, as violações e os assassinatos, não para desenterrar o passado, mas para proteger o futuro da repetição da mesma violência sob novos nomes, especialmente sob o pretexto da reconciliação com a memória. Lokman Slim destacou-se como uma exceção no cenário cultural libanês, acostumado à ambiguidade. Não se escondia atrás de um discurso sofisticado, não seguia a opinião dominante nem buscava compromissos semânticos. Afirmava com clareza que as armas fora do controle do Estado constituíam um desastre nacional, que vincular o destino do Líbano a um projeto regional liderado pelo Irã era um suicídio político, e que transformar a comunidade xiita em um bloco de “resistência” violava o direito de seus membros à dissidência. Em um ambiente regido por acusações de traição e heresia política, essas posições o tornaram alvo constante de ameaças e difamações, até culminarem em seu assassinato. Nesse contexto, seu engajamento em uma ação política estruturada não foi um luxo nem um afastamento de seu papel cultural. Derivou de sua compreensão dos limites das palavras isoladas e da necessidade de inseri-las em um quadro coletivo capaz de protegê-las e transformá-las em ação concreta. Foi assim que fundou a Coalizão dos Democratas Libaneses, uma tentativa de estabelecer uma oposição democrática, soberanista e supraconfessional, que rejeita tanto a lógica das armas quanto a do clientelismo, e que associa a ideia de Estado à justiça e à responsabilização, e não à partilha sectária do poder. Após seu assassinato, a coalizão não se tornou apenas uma memória simbólica. Desde que assumi sua liderança, ela entrou em uma fase exigente de consolidação de sua ação política. Buscou-se, assim, ancorar essa escolha política como uma prática organizada, e não reduzi-la a um slogan moral. Como presidente, procurei traduzir o legado intelectual de Lokman Slim em um programa político claro, soberanista e democrático, inflexível na questão das armas, avesso ao populismo e voltado a enfrentar o colapso do Líbano com o objetivo de reconstruir o Estado, e não apenas administrar a catástrofe. O assassinato de Lokman Slim não marcou o fim de um processo, mas um momento de verdade. Ele evidenciou a dimensão da violência inerente ao sistema informal que governa o Líbano, bem como a fragilidade do Estado e sua incapacidade de proteger seus cidadãos em toda a sua diversidade. Também mostrou que silenciar uma voz não apaga a ideia que ela carrega, mas impõe àqueles que a defendem a responsabilidade de garantir sua continuidade por outros meios, desta vez políticos e organizacionais, como a coalizão buscou fazer desde então. Em sua luta, Lokman Slim nunca foi uma voz isolada ou elitista. Ele buscou constantemente reduzir a distância entre pensamento e política, cultura e sociedade. Não se dirigia ao Ocidente em busca de legitimidade, nem adotava um tom condescendente em relação à sua própria comunidade. Ao contrário, confrontava-a a partir de dentro, afirmando seu direito de ser mais do que um simples reservatório humano para os projetos de outros. Foi isso que tornou sua luta tão dolorosa para seus adversários: ela os despojou da pretensão de representação exclusiva e expôs a fragilidade de seu discurso quando confrontado com argumentos, e não com slogans. Anos após seu assassinato, Lokman Slim não pode ser reduzido à imagem de uma vítima ou de um mártir. Seu verdadeiro valor reside no modelo que encarnou, o do intelectual intransigente que se recusou a separar ética e política e que não permaneceu passivo diante do colapso de seu país. Ele nos deixou um legado pesado, não apenas em seus livros e arquivos, mas também nas perguntas que permanecem: é possível construir um Estado sob a ameaça de armas que ele não controla? O pluralismo pode ser preservado em um clima de medo? E a própria memória pode constituir uma forma de resistência? Lokman Slim talvez não tenha alcançado a vitória em vida, mas sua luta tornou a derrota mais difícil e o silêncio impossível. Ele abriu uma fissura na narrativa do poder, uma fissura que nenhuma tentativa de negação jamais poderá fechar. Isso, por si só, já constitui uma forma de vitória.