


Omar García Harfouch, Secretário de Segurança e Proteção Cidadã (de origem libanesa), acompanha Claudia Sheinbaum, Presidente do México, em uma coletiva de imprensa após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo "El Mencho", chefe do cartel de Jalisco. (Gerardo Vieyra/NurPhoto via AFP)
No domingo, 22 de março, Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), foi morto pelo Exército mexicano. A resposta do cartel foi quase imediata: bloqueios de estradas, incêndios de veículos e atos de violência em Jalisco e outros estados do país.
Segundo um mapeamento realizado pela plataforma Dataint, eventos violentos foram registrados em pelo menos 22 estados, com impacto particularmente forte em Jalisco, Puebla, Michoacán, Tamaulipas e Baja California. A reação após a operação revelou o verdadeiro alcance do cartel em diversas regiões do país: seu controle territorial, seu envolvimento tanto na economia legal quanto na ilegal e, sobretudo, a força de sua estrutura organizacional e sua capacidade de mobilização imediata.
Este evento pode ser comparado à captura de Joaquín “El Chapo” Guzmán, que ocorreu no mesmo dia, mas doze anos antes.
“Sem dúvida, este é o golpe mais significativo contra o crime organizado durante o governo da presidente Claudia Sheinbaum”, afirma Edgar Guerra, especialista em crime organizado, violência e segurança, em entrevista à Levant Time.
A Hidra de Cem Cabeças
A operação que culminou na morte de “El Mencho” é uma faca de dois gumes. Como alerta Emiliano Alba, analista de segurança e crime organizado, a curto prazo, o governo de Claudia Sheinbaum pode capitalizar sobre isso como uma vitória política na luta contra o narcotráfico: uma mensagem tanto para a opinião pública nacional quanto para os Estados Unidos de que “algo está sendo feito”.
No entanto, o impacto estrutural é diferente. “Na prática, o que veremos é uma nova reorganização dentro do cartel. Haverá conflitos internos muito fortes sobre a sucessão do poder”, destaca Alba.
Nemesio Oseguera tinha uma presença onipresente no CJNG e nenhum sucessor claro. Para Alba, a queda do líder pode ser interpretada como uma vulnerabilidade temporária, mas não como um colapso estrutural. "É uma fragilidade operacional temporária, mas a estrutura permanece", enfatiza, destacando que o CJNG não depende exclusivamente de uma figura central, mas sim de uma organização consolidada com redes territoriais, financeiras e políticas que garantem sua continuidade operacional.
O analista ressalta que a experiência histórica demonstra que a estratégia de decapitar líderes criminosos muitas vezes produz efeitos contraproducentes: "Cortar a cabeça da hidra acaba gerando mais cabeças". Fragmentação, disputas territoriais e a violência decorrente da sucessão já são padrões conhecidos no caso mexicano.
Isso é ainda mais relevante porque, como explica Alba, a estratégia do Secretário de Segurança e Proteção Cidadã, Omar García Harfuch, havia mudado, passando de um foco exclusivo na eliminação de líderes para o desmantelamento de estruturas. “Não se tratava mais de decapitar os cartéis, mas de atacar suas redes, suas estruturas políticas, financeiras e territoriais”, explica ele, referindo-se a operações como a Operação Enxame, focada em alianças políticas e redes de proteção institucional.
O cenário que se desenrola é previsível: ou o CJNG mantém suas operações sem seu líder, ou entra em uma guerra interna pelo controle da liderança. Neste último caso, o impacto seria direto na segurança pública. “Veríamos um aumento na violência homicida”, alerta o especialista em segurança David Saucedo, em declarações à AFP.
Os Estados Unidos: O Vizinho Incômodo
Para Edgar Guerra, o contexto internacional é fundamental para entender a operação. “Não podemos entender a política de segurança do governo da presidente Claudia Sheinbaum sem considerar a pressão dos Estados Unidos. O governo Donald Trump exerceu enorme pressão sobre o México: apreensões de fentanil, controle da imigração, maior capacidade operacional. Tudo isso faz parte do mesmo pacote de exigências”, afirma. O próprio governo mexicano confirmou que a operação contou com o apoio dos Estados Unidos no fluxo de informações.
“Este não é apenas um problema do México ou de Jalisco. É um problema global”, enfatiza Guerra.
Ele explica: “Os Estados Unidos são um dos principais consumidores de substâncias ilícitas e um dos principais produtores de armas. Isso gera incentivos econômicos e materiais para o narcotráfico. Por isso, não é apenas um problema mexicano: é um problema compartilhado, mas com uma responsabilidade estrutural muito clara por parte dos EUA.”
A Guerra Que Nunca Termina
A chamada “guerra contra as drogas” não é uma categoria nova no contexto mexicano. Basta observar o mandato de seis anos de Felipe Calderón e os governos que se seguiram para entender que a estratégia de confronto direto com o narcotráfico tem sido uma constante por quase duas décadas. No entanto, longe de produzir uma redução sustentada da violência, o país passou por ciclos recorrentes de fragmentação e reconfiguração do crime.Expansão territorial e crescimento das economias ilícitas.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), foram registrados 33.241 homicídios em 2024, dos quais 71,8% foram cometidos com armas de fogo. Durante o mandato de seis anos de Felipe Calderón (dezembro de 2006 a dezembro de 2012), foram registrados 122.462 homicídios. Durante o mandato de seis anos de Enrique Peña Nieto (2012-2018), o número subiu para 157.158 homicídios. Enquanto isso, a presidência de Andrés Manuel López Obrador deixou um saldo de 202.336 homicídios entre dezembro de 2018 e setembro de 2024.
Diante dessa situação, Alba alerta que reduzir a política de segurança a uma lógica de confronto é insuficiente. “As estratégias contra o crime organizado devem ser abrangentes. Não se trata apenas de combater as organizações, mas de restaurar a governança nesses territórios e criar condições de paz para a população. Isso vai muito além do uso da força”, destaca.
Guerra concorda que o problema não é exclusivamente militar ou operacional, mas profundamente institucional. “Existem grupos políticos e funcionários municipais e estaduais que os protegem, que permitiram que essas organizações se consolidassem e se expandissem. Parte da tarefa que temos pela frente é desmantelar essas redes de proteção”, alerta. Soma-se a isso um fator estrutural ainda mais profundo: a impunidade. “O crime organizado no México é possível porque existe um profundo problema de impunidade. Sem impunidade, essas estruturas não poderiam se sustentar”, acrescenta.
Nesse contexto, a morte de “El Mencho” não representa uma ruptura estrutural, mas sim uma nova fase dentro de um conflito prolongado. Mais do que o fim de uma organização, marca o início de um processo de reestruturação interna cujos efeitos geralmente se traduzem em maior violência, disputas territoriais e reorganização de alianças criminosas.
Alba resume a situação com uma imagem clara: “O que vemos é uma espécie de calmaria, como a paz no olho do furacão, mas apenas no curto prazo. O que vem a seguir é a reorganização.”
Assim, o que hoje é apresentado como uma vitória política pode se tornar o prelúdio para uma nova e violenta reconfiguração. A questão não é mais se haverá consequências, mas quais serão, onde ocorrerão e com que intensidade se manifestarão. Para milhões de mexicanos, a dúvida persiste: será esta a paz antes da tempestade?
Enquanto isso, o governo mexicano capitaliza sobre o golpe simbólico. Mas a história recente mostra que, no México, a queda de um narcotraficante raramente significa o fim da violência; pelo contrário, costuma marcar o início de uma nova fase do conflito.