

A decisão do governo de Nawaf Salam de proibir as atividades militares e de segurança do Hezbollah e de punir seus responsáveis é, sem dúvida, histórica. Mas permanece insuficiente diante do mergulho no inferno ao qual a formação pró-iraniana, mais uma vez, arrastou o Líbano.
Histórica porque rompe com uma longa tradição libanesa de omissão e complacência política, motivadas ora pelo temor de distúrbios internos, ora por oportunismo eleitoral, em relação a esse grupo que, ao longo dos anos, conseguiu impor seu controle sobre o país e construir uma estrutura militar e de segurança mais robusta do que a do próprio Estado libanês.
Insuficiente porque não permite às autoridades proteger o país e sua população do perigo representado por essa organização, cujos dirigentes e membros dão provas reiteradas de que têm de libaneses apenas o registro na carteira de identidade. O Hezbollah é, e continua sendo, um dos principais instrumentos paramilitares transnacionais do regime dos aiatolás no Irã.
Prova disso, se ainda fosse necessário, é seu envolvimento previsível na guerra entre o Irã e a coalizão Israel-Estados Unidos, assim como sua reação às decisões do governo de proibir suas atividades militares. Seus dirigentes reagiram rapidamente. O vice-presidente do grupo, o deputado Mohammad Raad, denunciou “medidas de intimidação” e “decisões temerárias”. Embora tenha reconhecido ao Estado o direito de decidir sobre guerra e paz, acusou o governo Salam de “atacar aqueles que rejeitam a ocupação israelense”. Já o vice-presidente do conselho político do Hezbollah, Mahmoud Comaty, criticou o governo por “calar-se diante da ocupação”, por “querer enfraquecer o Hezbollah, que é a força do Líbano”, e por “violar o direito internacional que autoriza os povos a lutar contra a ocupação”.
Essa retórica, porém, já não engana ninguém, assim como as motivações e os objetivos do Hezbollah. A guerra suicida em que o grupo está hoje envolvido e da qual não sairá ileso insere-se estritamente no contexto das represálias prometidas pelos Pasdaran após a confirmação, em 1º de março, da morte do guia supremo iraniano, Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro em bombardeios israelenses e americanos de grande escala contra seu quartel-general em Teerã.
Também se insere na sequência das reiteradas ameaças do Irã contra os Estados Unidos, segundo as quais qualquer ataque à República Islâmica incendiaria a região. Teerã cumpriu a promessa e utiliza seus aliados regionais para multiplicar frentes indiretas e transformar uma operação pontual em confronto generalizado. Como explicar, de outra forma, o ataque com drones contra uma base militar britânica no Chipre na noite de domingo para segunda-feira? Os dois aparelhos, de fabricação iraniana, teriam sido lançados a partir do Líbano, segundo relataram veículos ocidentais citando uma autoridade cipriota, depois que Londres autorizou Washington a utilizar suas bases na ilha mediterrânea no âmbito da ofensiva contra o Irã.
É a primeira vez que o Hezb, que não confirmou nem desmentiu as acusações, ataca o Chipre. Mas não é a primeira vez que o ameaça. Em junho de 2024, o então secretário-geral da organização, Hassan Nasrallah, morto por Israel em setembro do mesmo ano, havia ameaçado Nicósia com represálias caso a ilha permitisse a Tel Aviv utilizar seus aeroportos ou bases militares para atacar o Líbano. Hoje, nem Israel atacou o Líbano a partir do Chipre, nem Nicósia abriu suas bases ao Estado hebraico. O Hezbollah confirmava, mais uma vez, sua condição de vassalo iraniano.
Consolidar as decisões de segunda-feira
O Estado tem meios concretos para impedir o Hezbollah de conduzir atividades militares? A resposta é não. Pode dificultá-las, por exemplo, com a prisão de operadores de lançadores de foguetes, mas não impedi-las totalmente, devido aos recursos consideráveis que o Irã coloca à disposição de seu protegido e à própria estrutura da organização, que conta com um número expressivo de combatentes. E, sobretudo, porque o Líbano ainda não está preparado para realizar uma operação de grande envergadura destinada a desmantelar toda a estrutura paramilitar do Hezbollah.
Pode, em contrapartida, consolidar as decisões adotadas na segunda-feira com outras medidas políticas capazes de lhes conferir maior credibilidade aos olhos dos libaneses céticos e da comunidade internacional, que ainda aguarda que Beirute cumpra seu compromisso de afirmar sua soberania sobre todo o território nacional.
Para isso, é preciso ter coragem para sustentar as próprias decisões e deixar de tolerar o terrorismo, inclusive verbal, praticado pelo Hezb contra o Estado e contra os libaneses que não compartilham de suas orientações. As atividades do grupo e as declarações beligerantes de seus dirigentes, sob o pretexto de defender o Líbano contra uma ocupação que eles próprios provocaram, enquadram-se na lei, uma vez que não são autorizadas pelo Estado. A responsabilidade primordial deste é proteger seus cidadãos, não um grupo paramilitar que continua a se arrogar o direito de arrastar o Líbano e seu povo para guerras destrutivas, que há muito se considera acima da lei e que desfruta de uma impunidade revoltante.
Inverter a lógica
As autoridades libanesas dispõem de um leque de instrumentos para mudar o cenário:
– Jurídicos, em primeiro lugar: o que impediria a abertura de um processo judicial diante das ameaças regularmente proferidas pelo secretário-geral do Hezb, Naïm Qassem, ou por seus quadros superiores, contra o desarmamento da organização? No Líbano, a Corte de Justiça, tribunal de exceção cujas decisões são definitivas e sem possibilidade de recurso, foi criada para julgar crimes contra a segurança do Estado. Há violação mais grave do que a infligida, há anos, aos libaneses por uma milícia cuja razão de existir é servir aos interesses do Irã? É aceitável que o país seja arrastado para guerras destrutivas que são rejeitadas por um grupo que presta lealdade a um Estado estrangeiro?
– Políticos, em seguida. É fundamental que o Estado libanês não repita o erro monumental de 2005. Na época, após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri e a retirada das forças sírias, a estrutura político-securitária pró-Síria, da qual o Hezbollah fazia parte, não foi desmantelada. A oposição priorizou as eleições legislativas previstas para alguns meses depois, incentivada pela comunidade internacional. O Líbano perdeu um momento decisivo.
As consequências desse erro de cálculo foram devastadoras. Uma onda de atentados e assassinatos políticos, cujas investigações nunca chegaram a uma conclusão e nos quais o Hezb foi apontado, teve como alvo figuras da oposição. Sob o pretexto de garantir estabilidade, foi firmada uma aliança eleitoral conhecida como “acordo quadripartite” entre o Movimento Futuro de Saad Hariri, o PSP do líder druso Walid Joumblatt, o Hezbollah e seu aliado xiita Amal.
Embora tenha se desfeito um ano depois, a aliança permitiu que o Hezb se consolidasse no Parlamento e, pela primeira vez, ingressasse no governo.
Com a saída das forças sírias, a estratégia do Hezbollah mudou. Determinado a preservar a influência do eixo ao qual pertence, o grupo deixou de se contentar com uma representação indireta no governo por meio de ministros do Amal. Queria tornar-se parceiro pleno no Executivo. Conseguiu o que pretendia. Para o Líbano e os libaneses, porém, foi o fim de uma esperança e o início de uma nova descida ao inferno.
Hoje, desenha-se uma nova dinâmica regional, diferente e ainda mais decisiva do que a de 2005. Mas, como então, pode ser custosa para o Hezbollah e potencialmente salvadora para o Líbano. As autoridades saberão aproveitar essa oportunidade e libertar-se do temor das reações do Hezbollah para livrar o país da influência destrutiva iraniana? Não se pede que declarem guerra a uma milícia que não hesitará em voltar suas armas contra os próprios libaneses, como fez em 2008. Pede-se apenas que deixem de ganhar tempo na esperança de que o problema se resolva sozinho.
Nos últimos meses, a decepção dos libaneses, que acreditaram nas promessas do presidente Joseph Aoun e do primeiro-ministro Nawaf Salam de desarmar as milícias e restabelecer a soberania no âmbito de um Estado de direito, foi proporcional à esperança que haviam depositado neles.