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Opinião

Líbano: quando o ódio se torna sistema

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Por Mona Fayad
Publicado abr 21, 2026 - 21:39

A divisão no Líbano já não é consequência da guerra; tornou-se um dos seus instrumentos. O que hoje presenciamos poderia definir-se como uma economia da divisão: o ódio convertido em matéria-prima, produzido quotidianamente, fabricado, distribuído e consumido, ao serviço de várias partes em simultâneo, ainda que essas partes se encontrem em aparente inimizade declarada.

 

O conflito migrou da violência militar para a violência simbólica. Quando um ancião se levanta para insultar o chefe do governo numa linguagem abjecta, quando outro se volta contra o presidente da República evocando o destino de Sadat, quando se adestram crianças no insulto e se glorifica a militarização mesmo através de um sapato, a questão já não diz respeito às pessoas visadas, mas ao que elas representam: um contorno da angústia e do medo sentidos, uma vontade deliberada de arraigar na consciência popular a imagem de um Estado em decomposição, de normalizar o insulto como modo de expressão política, deslocando o conflito da crítica do poder para a sua degradação e acusação de traição. Tudo isto vai muito além de um declínio moral ou de uma ira descontrolada; é, no fundo, o sinal de uma mutação muito mais grave: golpear a imagem do Estado na consciência colectiva e substituir a deliberação pública pela difamação.

 

Quando o poder deixa de ser objecto de responsabilização para se tornar alvo de humilhação, fica esvaziado de toda a legitimidade simbólica.

 

É precisamente o que Pierre Bourdieu designava por «violência simbólica»: o momento em que a própria linguagem se torna um instrumento de desconstrução ao serviço da dominação, muito além da sua simples função comunicativa.

 

O que vemos hoje não pode reduzir-se a uma divergência de posições ou a leituras políticas diferentes; é um processo sistemático que recompõe a sociedade por dentro, através da linguagem, da imagem e da educação, tornando-a mais frágil e menos capaz de produzir um sentido comum ou uma posição nacional agregadora.

 

O Líbano não enfrenta hoje apenas o perigo da guerra, mas o de uma sociedade em vias de ser refundada sobre o alicerce da humilhação. E o que se semeia nas novas gerações é ainda mais inquietante. Crianças adestradas no insulto, filmadas e celebradas como se realizassem um acto heróico, integradas numa encenação de mobilização colectiva — isto não é um detalhe anedótico, mas um mecanismo de reprodução da divisão através da educação. A criança que aprende que o ódio é uma expressão legítima e que o insulto é um modo de presença não será, amanhã, um cidadão, mas um instrumento num conflito cujas dimensões não consegue perceber. Nesse momento, a criança deixa de ser uma vítima para se transformar numa ferramenta: vector precoce do ódio, futuro cidadão amputado de toda a capacidade de pensar para além do que lhe foi inculcado. É um lento modelar das consciências, em que as fracturas se instilam na linguagem antes de aflorarem nas posições.

 

Uma espécie de «lavagem cerebral suave», que não se impõe pela força mas se constrói através da repetição, da banalização e do encorajamento social.

 

Os símbolos, por sua vez, foram igualmente arrastados por esta trajectória. Essas imagens que glorificam o sapato militar ou o convertem num acessório festivo não são meras expressões de vulgaridade; assinalam uma redefinição dos valores: da dignidade à submissão, da cidadania à obediência, e um regresso à era dos ídolos da Jâhiliyya.

 

Neste quadro, as partes em confronto não coordenam necessariamente as suas acções, mas convergem nos seus efeitos. E a contradição é flagrante: enquanto Israel persiste na agressão, na destruição e na ocupação, apresenta-se como respeitador das sacralidades libanesas, ao ponto de Saar se desculpar pelo gesto do soldado israelita que destruiu uma estátua de Cristo, quando as mesmas forças atacam igrejas e mesquitas em Jerusalém e em Belém e impedem os fiéis de as frequentar. O Hezbollah, pelo contrário, dissimula a sua impotência golpeando tudo o que o cidadão libanês preza.

 

Israel retira proveito da erosão do tecido social e da transformação de cada ataque militar — como em Ain Saadeh e Beirute — em matéria de discórdia interna, neutralizando qualquer possibilidade de uma resposta nacional unificada. O Hezbollah, por seu lado, trabalha para aprofundar o medo recíproco entre os libaneses e para minar a ideia de um Estado agregador, reforçando assim a lógica de «protecção» fora das suas instituições. Paradoxalmente, ambas as partes alimentam-se do mesmo processo: quanto mais a fragmentação interior se intensifica, mais as suas respectivas justificações se consolidam.

 

A responsabilidade não termina aqui. As restantes forças políticas participam, em graus variáveis, na perpetuação desta realidade: através de um discurso sectário, de silêncios selectivos ou da exploração do medo ao serviço das lideranças. O espaço público transforma-se então numa arena aberta aos instintos mais do que ao debate, à mobilização mais do que à prestação de contas.

 

A consequência mais grave não reside na divisão em si, mas na perda dos referenciais: a sociedade perde a sua capacidade de distinguir entre o aceitável e o inaceitável. O problema já não reside, então, num acontecimento preciso, mas na estrutura que o acolhe e o reproduz.

 

Tudo isto ocorre num momento delicado, em que se supõe que o Líbano se encontra no limiar de um novo processo negocial. Mas em vez de esse processo representar uma oportunidade de convergência de visões e de construção de um apoio comum, é a fragmentação das narrativas que prevalece, aprofundando a fissura interior, enfraquecendo o Estado em vez de o consolidar, e erodindo o seu peso simbólico ao ponto de ameaçar esvaziar de substância qualquer negociação. Pois os Estados não negoceiam apenas com as suas fronteiras, mas com a coesão das suas sociedades e com a sua capacidade de produzir uma posição comum, ou pelo menos uma narrativa partilhada.

 

O Líbano não enfrenta hoje apenas o perigo dos ataques militares, mas o de uma sociedade deslocada por dentro, reduzida a mero palco de gestão de conflitos. Esta é a fase mais perigosa: quando a desintegração deixa de ser um efeito da guerra para se tornar condição da sua continuação. Encontramo-nos então perante uma sociedade que se reconstitui sobre bases anteriores ao Estado.

 

Perante isto, não basta registar posições ou denunciar, rejeitar este ataque ou condenar aquele insulto. O que é necessário é recuperar um mínimo de sentido: que as vítimas não são confissões mas cidadãos, que o Estado não é um beligerante mas um enquadramento, que a dignidade não é um detalhe a que se possa renunciar. Sem isso, cada ataque militar não será mais do que um passo adicional num processo de desintegração que começou por dentro…

 

Esta é a fase mais perigosa: quando a desintegração deixa de ser um efeito do conflito para se tornar cultura. A batalha já não se trava apenas no terreno, mas sobre o próprio sentido do ser humano.

 

O que é necessário agora é reconquistar o sentido. Reabilitar a ideia do cidadão, e não do súbdito submetido. Reabilitar o Estado, não o símbolo; a dignidade, não a força. Porque uma sociedade que se reconcilia com a humilhação não precisa de ser derrotada por ninguém… basta-lhe continuar assim.

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