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Os ataques israelitas contra aldeias do Sul do Líbano continuaram ao longo do dia de terça-feira. (Kawnat Haju / AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 8, 2026 - 21:37
No Líbano, três desenvolvimentos merecem atenção pela sua dimensão sociopolítica significativa: o segundo «Apelo para salvar Nabatiyé», publicado na segunda-feira e subscrito por quase 400 personalidades, sobretudo xiitas, desta região do sul do Líbano; um confronto armado, o segundo em 24 horas, entre presumíveis membros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) do Irão e habitantes da aldeia de Nmayré, apoiados por partidários do movimento Amal, aliado do Hezbollah; e, por fim, comunicados publicados por duas aldeias xiitas, Arabsalim e Doueir, pedindo ao exército que estabeleça postos fixos nas entradas das suas localidades. ​ Embora de natureza diferente, estes acontecimentos convergem num ponto fundamental no contexto libanês: refletem uma mudança sensível na perceção e na reação de uma parte da comunidade xiita face à estratégia destrutiva do Hezbollah no Líbano. Durante muito tempo apagada ou silenciada pelo movimento pró-iraniano, a voz xiita, sobretudo a da oposição, começou a fazer-se ouvir. Ela ergueu-se pela primeira vez em maio, quando as cidades de Tiro e Nabatiyé foram alvo de violentos ataques israelitas. Hoje afirma-se ainda mais e junta-se à da maioria dos libaneses, que apelam ao Estado para que assuma as suas responsabilidades a fim de poupar o país, e em particular o que resta do sul do Líbano, das aventuras destrutivas da formação pró-iraniana. ​ Toda a questão, hoje, é saber se o Estado libanês vai finalmente decidir-se a responder a este Apelo, que soa como um grito de socorro, e a pôr em prática os seus próprios compromissos, assumidos a 2 de março de 2026, poucas horas depois de o Hezbollah ter lançado foguetes e drones contra Israel, que respondeu de imediato com ataques violentos. ​ Nesse dia, o governo de Nawaf Salam tinha anunciado sem rodeios a proibição «imediata» de todas as atividades militares do Hezbollah, intimado a entregar as suas armas. As forças da ordem tinham inclusivamente sido incumbidas de deter os infratores. Decisões que, infelizmente, ficaram no papel, por várias razões, entre as quais o medo de enfrentar uma milícia poderosa. Ou, talvez, diretamente o Irão, admitindo que o CGRI dirige efetivamente as operações militares do Hezbollah no Líbano. ​ O boato a este respeito já circulava no Líbano há vários meses. Ganhou novo fôlego com o mistério em torno da queda da colina estratégica de Ali el-Taher, que domina Nabatiyé. Membros dos Pasdaran teriam então sido evacuados, enquanto combatentes do Hezbollah ali teriam perecido. ​ Na terça-feira, o site Janoubia, meio de comunicação da oposição xiita, divulgou uma informação que reforça este boato: rebentaram violentos confrontos armados entre os habitantes de Nmayré, no distrito de Nabatiyé, e combatentes dos Pasdaran «que tentavam estabelecer um posto numa habitação civil da aldeia». «Apoiados por partidários do Amal, os habitantes conseguiram impedir os agentes do CGRI de se instalarem e expulsaram-nos da aldeia», indicou a Janoubia. ​ O exército durante uma hora e meia em Nabatiyé ​ Os 400 signatários do «Apelo para salvar Nabatiyé» pediram, por sua vez, ao Estado que destaque o exército para a cidade e o distrito, insistindo na responsabilidade que lhe cabe a este respeito. ​ Se o texto condenou as ações de Israel no Sul do Líbano, foi igualmente severo em relação ao Hezbollah, atribuindo-lhe diretamente – sem o nomear, mas designando-o como «as forças do fato consumado» – a responsabilidade pelas destruições no sul do país e pelo drama vivido pelos seus habitantes: «A responsabilidade do inimigo não apaga as responsabilidades internas. A responsabilidade do crime cabe a quem o cometeu, enquanto a das escolhas, das decisões e das posições cabe a quem as tomou, encobriu ou tolerou passivamente. Quem, durante anos, deteve a decisão de guerra e de paz, fazendo crer aos habitantes do sul que era o mais capaz de os proteger, deve hoje responder pelas consequências da sua escolha: o que resta do território? O que aconteceu às aldeias? E de que capacidade dispõe ainda a população para resistir ou regressar?» Enquanto o Hezbollah, normalmente tão falador, continua a observar um silêncio absoluto sobre a queda de Ali el-Taher, o destino dos seus combatentes e o seu número, e o suposto acordo que teria permitido a evacuação de agentes do CGRI, as autoridades libanesas estiveram ocupadas, na terça-feira, a multiplicar contactos políticos e diplomáticos, após a hecatombe do fim de semana e de segunda-feira, para tentar impedir Israel de avançar sobre Nabatiyé ou de se encarniçar contra esta cidade. Para o efeito, o primeiro-ministro Nawaf Salam deslocou-se ao encontro do presidente do Parlamento e líder do movimento Amal, Nabih Berry. O aliado do Hezbollah deu luz verde para o destacamento do exército em Nabatiyé, tendo este permanecido no local durante hora e meia, no período da tarde. Uma presença saudada pelos habitantes, que receberam os soldados atirando arroz. Segundo várias fontes concordantes, as forças regulares vão proceder diariamente a um destacamento de algumas horas. Os ataques prosseguiram ao longo do dia, mas a sua intensidade diminuiu no distrito de Nabatiyé, com a chegada das tropas. No plano diplomático, é a visita do embaixador dos Estados Unidos, Michel Issa, ao vice-presidente do Conselho Superior Islâmico Xiita, xeique Ali el-Khatib, que chama a atenção. Esta ocorre no dia seguinte à escalada provocada pelo Hezbollah que, ao lançar drones armadilhados contra posições israelitas, deu a Telavive um pretexto adicional para continuar a destruição das aldeias do Sul do Líbano. No final do encontro, Michel Issa sublinhou que Washington «não deseja outra coisa senão o interesse da comunidade xiita e o regresso do Sul aos seus habitantes», reafirmando que os Estados Unidos estão dispostos a dialogar com o Hezbollah, «mas através do Estado libanês». «Mas não sabemos como chegar a um resultado com uma parte desta comunidade que não percebe que o seu interesse reside em tomar consciência das suas responsabilidades», afirmou, numa alusão ao Hezbollah. As suas palavras revelam indiretamente que terá solicitado a intervenção do xeique el-Khatib para fazer este grupo entrar em razão. Este último manifestou a disponibilidade dos xiitas para discutir a questão das armas «se beneficiarem de proteção e obtiverem garantias», sem especificar quais. Uma escalada que se intensifica no Iémen No plano regional, a atualidade continua centrada no Iémen, onde a escalada militar prossegue entre as forças governamentais, apoiadas por Riade, e os houthis pró-iranianos, que lançaram durante a noite um ataque de grande envergadura contra várias estruturas civis na Arábia Saudita, fazendo pelo menos 75 feridos. Lançaram ataques com drones e mísseis contra o sul do reino, visando em particular as instalações da Aramco em Abha, Najran e Jizan, bem como a base aérea King Khalid, em Khamis Mushait. Riade prometeu retaliar, pela voz do seu chefe da diplomacia, Fayçal bin Farhan, sem contudo «fechar a porta ao diálogo diplomático». O país realizou ataques contra alvos houthis, enquanto os combates continuam a travar-se intensamente no terreno entre as forças governamentais e o grupo pró-iraniano, que procura avançar para as zonas próximas do estreito estratégico de Bab al-Mandab, outra alavanca de pressão para o Irão que, não podendo controlá-lo diretamente, parece procurar, através dos seus mediadores, perturbar a navegação nesta passagem marítima. A escalada militar continua concentrada no oeste de Taiz e no sul de Hodeida. Segundo o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), cerca de 18.000 pessoas fugiram dos bombardeamentos e confrontos nos distritos de Maqbanah e Jabal Habashi, em Taiz. Os houthis anunciaram, por outro lado, ter abatido um drone norte-americano, enquanto Teerão abateu um drone sobre o estreito de Ormuz.
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Por Rabih Dandachli - Publicado em set 8, 2026 - 19:31
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Atribui-se ao rei francês Luís XIV, o «Rei Sol», uma das frases mais célebres da história política: «O Estado sou eu», L’État, c’est moi. Embora os historiadores duvidem que ele a tenha pronunciado literalmente, a frase permaneceu porque condensava toda uma filosofia de governo: o governante e o Estado tornam-se duas imagens de uma mesma realidade, a oposição às suas decisões transforma-se em oposição à nação, e a força das instituições passa a ser medida pelo grau de submissão à sua vontade. O problema da França sob Luís XIV não era a fraqueza de seu rei. Pelo contrário, a França era uma das maiores potências europeias, e seu monarca, um dos governantes mais poderosos da época. Mas a força do Estado passou a depender cada vez mais da centralização das decisões e da pessoa do soberano, enquanto guerras, despesas, desigualdades sociais e desequilíbrios nas finanças públicas acumulavam custos que as gerações seguintes teriam de pagar. A França não entrou em colapso após a morte de Luís XIV, em 1715. A monarquia sobreviveu por mais de sete décadas, até a eclosão da Revolução Francesa, em 1789. Esse intervalo é importante porque impede uma leitura superficial da história: a personalização do Estado não leva necessariamente a um colapso imediato, mas pode enfraquecer gradualmente sua capacidade de se reformar por meio das próprias instituições. Veio então o paradoxo maior. A revolução que derrubou o Antigo Regime não resultou em uma estabilidade institucional tranquila, mas em anos de turbulência, guerras e transformações que culminaram na ascensão de Napoleão Bonaparte, coroado imperador em 1804. Napoleão não foi, portanto, o «salvador» que encerrou a crise do poder pessoal. Sob outro ângulo, ele demonstrou que o colapso de um regime altamente personalizado não conduz necessariamente a instituições mais fortes, podendo abrir caminho para um homem ainda mais poderoso. É aí que reside o perigo da experiência francesa: quando as instituições fracassam em sua tentativa de se reformar, o Estado pode passar de uma personalização a outra, de um rei poderoso a uma revolução, e da revolução a um imperador. Mais de três séculos depois, essa questão parece novamente atual, embora em sistemas radicalmente diferentes: o que acontece quando o destino de um governante e de seu projeto político passa a integrar a própria definição do destino do Estado? Três casos merecem reflexão: os Estados Unidos com Donald Trump, Israel com Benjamin Netanyahu e o Irã com Mojtaba Khamenei. Estados Unidos: onde termina o Estado e onde começa Trump? Não se pode comparar o sistema americano à monarquia de Luís XIV. Os Estados Unidos são um Estado constitucional federativo, com instituições consolidadas, separação de poderes, tribunais, Congresso, estados federados, meios de comunicação, sociedade civil e eleições periódicas. No entanto, a experiência de Donald Trump trouxe de volta ao centro do debate americano uma questão fundamental sobre os limites do poder presidencial e a capacidade das instituições de contê-lo. O problema não é que um presidente seja poderoso. O próprio sistema americano lhe confere amplas prerrogativas. O problema começa quando, para uma parcela da sociedade e da elite política, a lealdade ao presidente se torna quase um critério de lealdade ao próprio projeto nacional, e quando as divergências sobre as instituições, o Judiciário, a administração e a política externa deixam de ser desacordos sobre como governar o Estado para se transformar em uma disputa sobre quem realmente representa os Estados Unidos. O lema «America First» passa então por uma prova delicada: os Estados Unidos continuam em primeiro lugar, ou o homem que carrega o lema se torna inseparável de sua definição? O perigo para os Estados Unidos não é que amanhã se transformem em uma monarquia absoluta. Isso seria uma simplificação irrealista. O perigo é que a polarização e a personalização enfraqueçam as normas e instituições que permitiram ao sistema, ao longo de sua história, sobreviver a seus presidentes. Israel: o Estado, a guerra e o futuro de Netanyahu Em Israel, a relação entre o homem e o Estado parece mais complexa. Benjamin Netanyahu já não é simplesmente mais um primeiro-ministro em uma sucessão de primeiros-ministros. Sua longa permanência no centro da vida política fez de sua pessoa um eixo fundamental das divisões israelenses: eleições, Justiça, guerra, segurança, relações exteriores e futuro das coalizões políticas. O problema surge quando se entrecruzam os interesses do Estado, os do governo e os interesses políticos e pessoais do homem. Quanto mais essa sobreposição se prolonga, mais difícil se torna distingui-los. Uma decisão militar é necessária para a segurança de Israel? É necessária para a sobrevivência do governo? Serve ao futuro político de Netanyahu? Os três interesses podem coincidir em determinadas ocasiões, mas não necessariamente coincidem sempre. O perigo começa quando a questão do futuro de Netanyahu passa a integrar a questão do futuro do próprio Israel. Um Estado que chega a esse ponto não se tornou uma monarquia, mas entrou em uma situação na qual a política está excessivamente vinculada a uma pessoa. Irã: da revolução contra o xá à questão da hereditariedade O Irã apresenta, por sua vez, o paradoxo mais evidente. A Revolução Islâmica de 1979 teve, entre suas dimensões essenciais, a de derrubar um regime monárquico hereditário no qual o poder se concentrava em torno do xá. Quase meio século depois, Mojtaba Khamenei chegou ao cargo de líder supremo, ocupado durante décadas por seu pai, Ali Khamenei. Independentemente dos mecanismos constitucionais e institucionais que regeram sua escolha, a transmissão do poder em seu nível mais alto de pai para filho levanta uma questão simbólica e política que a República Islâmica não pode ignorar: como um sistema fundado sobre uma revolução contra a monarquia pode explicar a transmissão do centro do poder entre duas gerações da mesma família? Mas o problema vai além da família Khamenei. A questão mais profunda é saber se o Irã, como Estado, civilização e sociedade, se tornou excessivamente vinculado à sobrevivência do regime, e se o próprio regime passou a depender demais da manutenção de uma determinada estrutura de instituições religiosas e de segurança, famílias e personalidades. É necessário distinguir aqui três realidades frequentemente confundidas no discurso político: o Irã não é a República Islâmica, a República Islâmica não é o líder supremo, e o líder supremo não é o Irã. Quanto mais se enfraquecem as fronteiras entre esses níveis, mais o regime se aproxima do dilema de «O Estado sou eu». Não se trata de comparar três sistemas políticos Seria um erro colocar os Estados Unidos, Israel e o Irã na mesma categoria política. O primeiro é uma democracia constitucional federativa; o segundo, um sistema parlamentar eleitoral; e o terceiro, uma república islâmica baseada no governo do jurista, ou wilayat al-faqih, e em uma complexa combinação de instituições eleitas e não eleitas. A comparação aqui não diz respeito à natureza dos sistemas, mas a um fenômeno que pode atingir sistemas diferentes: a personalização do poder. A mesma patologia política pode se manifestar por meio de sintomas distintos. Em um sistema, aparece pela ampliação das prerrogativas do Poder Executivo. Em outro, pela vinculação da guerra e da segurança ao futuro de um governo e de seu chefe. Em um terceiro, pela concentração da legitimidade e das decisões estratégicas no topo de uma hierarquia política e religiosa altamente centralizada. Mas a pergunta permanece a mesma: são as instituições que contêm o governante, ou é o governante que reconfigura as instituições ao seu redor? A lição francesa não se limita a Luís XIV É aqui que a lição francesa se torna mais interessante. Se a história tivesse terminado com Luís XIV, a conclusão seria simples: o governante absoluto enfraquece as instituições e, depois, o Estado entra em colapso. Mas a história não aconteceu dessa maneira. Luís XIV morreu, e a França permaneceu. A monarquia continuou. Décadas depois, veio a revolução, que derrubou o Antigo Regime em nome da liberdade, da igualdade e da soberania popular. Mas a própria revolução não produziu estabilidade imediata. A França entrou em um turbilhão de conflitos, transformações, violência e guerras, antes do surgimento de Napoleão. E aí está o paradoxo: os franceses saíram de uma monarquia centrada na pessoa do rei e, depois de uma revolução imensa, terminaram com um imperador em torno do qual o Estado voltou a se concentrar… O homem havia mudado. A legitimidade havia mudado. As instituições haviam mudado. Até a linguagem política havia mudado. Mas a necessidade de um homem forte havia retornado sob outra forma. Por isso, Napoleão não deve ser interpretado como o «salvador da França» diante do legado de Luís XIV, mas como uma advertência adicional: quando as instituições fracassam em produzir uma reforma racional, a alternativa pode não ser a de instituições melhores, mas a de uma personalidade mais poderosa. De Luís a Napoleão Talvez seja essa a verdadeira questão diante dos Estados Unidos, de Israel e do Irã. O problema não é apenas Trump, Netanyahu ou Khamenei. Como todos os governantes, um dia eles deixarão o poder. A questão é o que deixarão para trás. Se as instituições estiverem mais fortes depois de sua saída, o Estado terá superado essa prova. Mas, se estiverem mais fracas, se a sociedade estiver mais dividida e se o sistema depender mais de uma única personalidade, então poderá começar a fase mais perigosa. Pois as sociedades que perdem a confiança nas instituições nem sempre procuram instituições melhores. Às vezes, procuram um homem mais forte. É exatamente isso que faz de Napoleão uma parte essencial dessa história. O perigo de «O Estado sou eu» não termina necessariamente com a queda daquele que o encarna. O homem pode cair, e outro vir depois dele para dizer a mesma coisa em uma linguagem diferente. Antes de procurar um novo Napoleão O que os Estados Unidos, Israel e o Irã precisam, portanto, não é de um «salvador», mas, cada um de acordo com seu sistema e suas circunstâncias, de um retorno à racionalidade política antes do choque. Um retorno que devolva às instituições sua importância, restabeleça a distinção entre o interesse do Estado e o do governante e permita ao sistema político corrigir a si mesmo antes que a mudança se torne impossível a partir de dentro. Nos Estados Unidos, o país deve continuar sendo maior que Trump. Em Israel, o futuro do Estado deve ser maior que o futuro político de Netanyahu. No Irã, o Irã, com sua história, sua sociedade e seus interesses, deve continuar sendo maior que a República Islâmica, que a família Khamenei e que qualquer líder supremo. Pois o verdadeiro teste de um Estado não é a quantidade de poder que um governante consegue concentrar em suas mãos. É a quantidade de poder que permanece em suas instituições quando ele parte. Atribui-se a Luís XIV, perto do fim de sua vida, uma frase talvez mais importante que «O Estado sou eu»: «Eu parto, mas o Estado permanecerá sempre». Talvez a distância entre essas duas frases resuma tudo aquilo sobre o que esses três países precisam refletir hoje. A primeira é a lógica do governante que vê o Estado através de si mesmo: «O Estado sou eu». A segunda é o começo da sabedoria política: «Eu parto, o Estado permanece». Mas a experiência francesa acrescentou entre elas uma terceira advertência, que Luís XIV nunca pronunciou: se as instituições não forem capazes de sobreviver ao homem, o que vier depois talvez não seja um sistema mais forte… mas um homem mais forte.
Religião

Sem "sobhiyé" para as Clarissas de Rayaq

A fundação de um mosteiro no Vale do Becaa, um acontecimento espiritual de grande importância
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Por Fady Noun - Publicado em set 8, 2026 - 12:56
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Uma multidão de fiéis, algo incomum em Rayaq, esteve presente na cerimônia de fundação do novo mosteiro.
Um mosteiro da ordem contemplativa das Clarissas, fundada por Santa Clara (século XIII) segundo o modelo da ordem de São Francisco, nasceu em Rayaq (16.000 habitantes), pequena cidade da planície central do Vale do Becaa, no dia 11 de agosto passado, festa de Santa Clara. O novo mosteiro foi fundado intencionalmente em meio rural e enriquecerá com sua oração o “celeiro de trigo” do Líbano, ligado ao país pelo patriarca Hoayek após a fome de 1915. A cerimônia de fundação do novo mosteiro foi presidida por Dom César Essayan, vigário apostólico dos latinos no Líbano. A população cristã do bairro cristão de Rayaq (Rayaq el-Faouka), que compareceu em massa, reservou uma acolhida inesquecível e de grande generosidade às cinco monjas de hábito cinza. A fundação foi considerada por muitos dos presentes “um grande acontecimento espiritual”. De fato, a cerimônia foi vivida como um verdadeiro “milagre”, o do “retorno de Deus” a uma região que sofre com o isolamento em relação à capital e com a desertificação espiritual do mundo. O bispo latino do Líbano confirma esse sentimento: “Não disse isso na minha homilia, mas as irmãs perceberam: a população fala de um milagre. É bonito! Mas não é um milagre como os outros. A população sofre de uma espécie de solidão. O fato de irmãs vindas da Itália terem deixado seu mosteiro, e até o terem vendido, para virem se instalar num lugarejo perdido do Líbano, mostra que o Senhor finalmente se lembrou delas.” Procissão das relíquias de Santa Clara no terreno que rodeia o mosteiro. À frente, a irmã Damiana, a superiora. Essa emoção também tomou conta da irmã Gloria (italiana, 43 anos), principal porta-voz do grupo: “Enquanto tudo morre, enquanto as pessoas já não têm esperança, enquanto os jovens só querem uma coisa, deixar um país que parece sem futuro, nós vimos aqui comprar uma casa!”, exclama ela. No entanto, a instalação das cinco monjas — Damiana, Gloria, Celina, Maria Lucia, vindas de mosteiros italianos, e Maria Grazia, irmã do mosteiro da Cidade do México — ainda terá de esperar alguns meses, tempo necessário para concluir os trâmites de desocupação e adaptação do edifício, atualmente ocupado de fato por várias famílias de deslocados, além de um terreno vizinho, que deverá garantir à comunidade uma espécie de autossuficiência. Ascensão e declínio da cidade Conhecida por ter sido uma importante estação ferroviária que servia especialmente Damasco e Alepo, de onde os viajantes seguiam para o lendário Orient Express, e também por sua base aérea militar, a cidade de Rayaq já foi bastante próspera. A mudança dos tempos e o fechamento, pela França, de uma grande oficina de manutenção contribuíram bastante para o seu declínio. Hoje ela abriga cristãos, em sua maioria greco-católicos, além de uma população xiita crescente, aumentada por numerosas famílias deslocadas pela guerra. Essa mudança demográfica repercutiu na composição da prefeitura local. Mas o município continua sendo, por tradição, uma espécie de microcosmo do Líbano, com minorias maronita, ortodoxa e armênia, cada uma com sua própria igreja. O centro urbano mais próximo é Zahlé, capital do Becaa, a cerca de doze quilômetros de distância. Da época do mandato francês resta uma relíquia curiosa: é um dos poucos lugares do Líbano onde ainda se joga belote! Foi Rayaq que nos escolheu Todo o Vale do Becaa se emocionou com a notícia da fundação. Segundo a irmã Glória, foram necessárias seis viagens exploratórias antes que a escolha recaísse sobre Rayaq. No fim, a localidade foi escolhida graças à população de seu “bairro cristão”, que se empenhou para encontrar o edifício e os terrenos necessários ao projeto. “Nem sequer sabíamos que Rayaq existia, comenta a irmã Gloria a esse respeito. Foram os próprios habitantes que, ao saberem que umas religiosas queriam instalar-se nos arredores, vieram procurar-nos! Este gesto pareceu-nos ser um sinal claro por parte do Senhor. Depois veio o estudo (aparentemente trabalhoso) do árabe!” A fundação é fruto de um discernimento de cerca de dez anos, esclarece ainda, em substância, a porta-voz da comunidade. O primeiro impulso veio do Líbano. A fundação deste mosteiro respondia a um desejo da Igreja local de ver as Clarissas instalarem-se também num meio menos rico, onde poderiam atrair vocações – já têm um mosteiro em Yarzé, uma zona de vilas nos arredores de Beirute. O exemplo dos trapistas de Tibhirine Para as próprias Clarissas, independentemente do Líbano, foi a entrega total dos trapistas de Tibhirine (Argélia), a comunidade cujos membros foram sequestrados e martirizados durante a guerra civil argelina (1994), que despertou o desejo de uma entrega total. “Esta história tocou-nos profundamente, sobretudo porque foi toda uma comunidade, e não apenas uma pessoa, que subiu aos altares”, explica a irmã Gloria. O convite a uma inserção profunda em meio rural no Líbano, que as tinha deixado hesitantes no início, foi aceite depois da nomeação de um amigo da comunidade, o padre Dominique Mathieu, como bispo latino do Irão (2024). “Bem consciente da dificuldade, ele aceitou por fé, comenta a irmã Glória. O seu “sim”, a sua coragem e a sua confiança no Senhor interpelaram-nos profundamente e dissemos a nós mesmas: “e nós?” A partir daí, começámos a considerar seriamente a possibilidade de vir para aqui e, depois de muito orarmos, decidimos lançar-nos nesta aventura.” A dimensão islamo-cristã da fundação é evidente. Ainda mais porque a Bekaa continua marcada pelas violências que, durante os anos da guerra civil libanesa e da ditadura síria, custaram a vida, com dez anos de intervalo, ao padre jesuíta Nicolas Kluiters, brutalmente assassinado em 1985 perto da aldeia cristã de Barqa, cuja causa de beatificação está em estudo, e ao postulante Ghassibé Keyrouz, que o padre Kluiters tinha acolhido sob a sua proteção, morto no auge da onda de execuções confessionais de 1975, quando se dirigia a Nabha para festejar o Natal em família. Em todo o caso, as monjas sabem que, se os ecos da guerra civil se vão desvanecendo, os da guerra propriamente dita estão bem presentes, com os bombardeamentos que a acompanham, as destruições e as suas consequências económicas e sociais: numerosas famílias refugiadas do sul do Líbano; êxodo silencioso para a cidade ou para o estrangeiro de jovens licenciados de todas as origens; êxodo – por vezes injustificado – da alta e média burguesia cristã, que fogem da situação das zonas rurais “invadidas” para se instalarem em aglomerados urbanos confessionalmente homogéneos. Uma chama que treme na noite Apesar de tudo, “no mosaico de comunidades cristãs que vivem na periferia do país, a fundação de um convento é um grande sinal de esperança, assegura a historiadora Névine Hage-Chahine, que vive em Zahlé. É uma centelha, uma chama frágil que treme na noite, mas ainda assim uma chama. Essa chama vai atear o incêndio da oração. Uma senhora disse-me: “Mas você percebe, nem vamos vê-las!” No entanto, é isso mesmo que importa. O essencial é invisível aos olhos.” É certo que, exceto para as compras, a população de Rayaq não verá “as suas” monjas. Nada de “sobhiyé” com as Clarissas. Nada de manhãs de conversa fiada em volta de um café. No entanto, se prestar atenção, poderá ouvir os seus cânticos e, eventualmente, ajudá-las nos dias de neve e de muito frio. São essas as vocações. ​ Como todas as jovens italianas, a irmã Gloria conta que frequentou a universidade, saiu com os amigos e conheceu o amor humano… Mas aos 24 anos, no fim de um percurso interior cujo segredo só Deus conhece, diz ter finalmente encontrado a sua “casa” atrás da clausura, numa oferta radical a Cristo que ela própria um dia considerara “exagerada”. ​ O perdão, chave da paz ​ O que lhe diz sobre o mundo, irmã Glória, o Senhor da história? Sente-se por vezes preocupada? A sua resposta sugere que as Clarissas não vivem à margem da atualidade. Com os olhos postos nas intervenções do Papa Leão XIV, a sua oração incessante é para que a lógica do perdão, que está no coração do “Pai Nosso”, prevaleça sobre a lógica da força, para que nunca se acredite que a guerra é inevitável, e para que a fé e a esperança num desfecho pacífico dos conflitos sejam sempre preservadas. ​ “Sim, diz a irmã Glória, às vezes fico preocupada. Todas nós ficamos, de vez em quando… O que mais me preocupa é que ninguém, entre os que decidem o destino do mundo, vislumbre ou anuncie a única solução para todos os conflitos, os que estão em curso e os que nascerão deles: o perdão!”
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O Líbano sob um dilúvio de ferro e sangue apesar da trégua

É um dilúvio de ferro, fogo e sangue, sem precedentes nos últimos anos (com exceção da explosão de 4 de agosto no porto de Beirute), que caiu na quarta-feira sobre Beirute, seus subúrbios ao sul e inúmeras cidades e localidades libanesas. Mais de 180 pessoas foram mortas e cerca de 800 ficaram feridas, segundo um balanço preliminar do Ministério da Saúde do Líbano, em uma série de ataques israelenses simultâneos, que atingiram cerca de uma centena de alvos em todo o país em apenas 10 minutos, enquanto, no plano regional, uma trégua de duas semanas havia sido anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto com o início de negociações entre Washington e Teerã sobre um acordo global voltado para uma cessação duradoura das hostilidades. Israel atacou sem aviso prévio Beirute e cerca de cinquenta localidades, do sul até Hermel, passando por Aley, Chouf e o Vale do Bekaa, poucas horas após o aviso habitual do porta-voz arabófono de seu exército, Avichaï Adraee, aos moradores dos subúrbios ao sul e das aldeias ao sul do Zahrani, ordenando que evacuassem a área. “Alvos do Hezb continuam na linha de mira israelense”, havia ameaçado pela manhã. No início da tarde, o exército israelense atacou “em um intervalo de dez minutos e de forma simultânea” cerca de cem alvos do Hezbollah em todo o Líbano, afirmou seu porta-voz, acrescentando que se tratava do “maior ataque coordenado” contra esse grupo desde o início da guerra contra o Irã. Segundo ele, “cerca de cem postos de comando e infraestruturas militares” do Hezb foram atingidos, enquanto numerosos civis foram mortos ou feridos durante essa ofensiva cega de dez minutos, batizada por Tel Aviv de “Trevas Eternas”, um nome sombrio que levanta temores sobre o início de uma nova operação militar contra o Hezb, acusado por Israel de “se esconder entre civis ao norte do Litani”. Tel Aviv havia especificado que o cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos, ao qual aderiu, “não se aplicava” ao Líbano e que continuaria suas operações militares contra esse grupo, em um cenário que, à luz dos ataques de quarta-feira, se assemelha a uma guerra indiscriminada. Essa ofensiva foi condenada pelo presidente Joseph Aoun, que denunciou com veemência “um ato de barbárie”, enquanto o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, celebrava “a maior operação contra o Hezbollah desde a dos pagers”. No entanto, ao contrário do ataque com pagers, os bombardeios de quarta-feira atingiram tanto membros ou simpatizantes do Hezb quanto libaneses sem qualquer ligação com o grupo pró-iraniano, que morreram por estarem no lugar errado, na hora errada. No início da noite, um novo ataque israelense atingiu o bairro de Tallet el-Khayat, na parte oeste de Beirute, onde, segundo o exército israelense, um alto responsável do Hezb foi alvo. A violência e a amplitude dos ataques israelenses de quarta-feira ilustram até que ponto as negociações entre Washington e Teerã permanecem sob a ameaça constante de uma retomada das hostilidades. Revelam, sobretudo, uma disposição israelense de escalada no Líbano, justificada em Tel Aviv pela incapacidade do Estado libanês de desarmar o Hezb. Vários responsáveis israelenses haviam indicado, em diferentes momentos, que as operações militares contra esse grupo poderiam se estender até o norte do Litani, com o objetivo de eliminar de vez a ameaça que ele representa para os habitantes do norte de Israel, além de criticar o governo libanês por sua incapacidade de desarmá-lo. Críticas nesse sentido foram dirigidas na quarta-feira pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel às autoridades libanesas. Os próximos dias deverão, no entanto, confirmar ou desmentir essa tendência de escalada. Ameaças iranianas Teerã reagiu aos ataques de quarta-feira ameaçando se retirar do acordo de cessar-fogo e responder às ações israelenses persistentes contra o Hezb. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, discutiu o tema com o comandante das forças armadas do Paquistão em uma conversa telefônica, enquanto Donald Trump afirmava ao canal PBS que a questão do Líbano e do Hezbollah seria “tratada”, ao contrário do que deseja o Irã, fora do marco das negociações previstas para as próximas duas semanas. O presidente americano declarou que isso se deve ao Hezbollah, que classificou como uma “organização terrorista libanesa”. Ele assegurou que “isso também será resolvido” e que os combates em curso entre Israel e o Hezbollah constituem “escaramuças distintas” da guerra conduzida pelos Estados Unidos contra o Irã. Declarações que reforçam informações divulgadas por meios de comunicação americanos, segundo as quais Washington deu a Tel Aviv sinal verde para continuar suas operações no Líbano. Além disso, Trump revelou que o documento mencionado por Teerã difere daquele que será efetivamente discutido em Islamabad. Desde o anúncio da trégua com os Estados Unidos, a República Islâmica suspendeu seus ataques contra Israel e teria pedido a seus aliados que fizessem o mesmo. De fato, desde então, nenhum foguete foi lançado pelo Hezb contra o norte de Israel ou contra posições israelenses em território libanês. O grupo sequer reagiu aos ataques do dia, ilustrando, mais uma vez, seu alinhamento com as decisões de Teerã. O Irã, no entanto, continuou seus disparos de mísseis contra países do Golfo, especialmente Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. Os Emirados anunciaram ter sido alvo de 17 mísseis e 35 drones iranianos, todos “neutralizados com sucesso pelas defesas aéreas”. Abertura das negociações As negociações entre Teerã e Washington devem começar no sábado em Islamabad. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, liderará a delegação americana, sob a mediação do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif. Ele será acompanhado pelos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner. Teerã ainda deve anunciar a composição de sua delegação. As duas partes dispõem, portanto, de um prazo de duas semanas, fixado pelo presidente Trump, para alcançar um acordo definitivo sobre os pontos centrais já abordados em um entendimento preliminar. Isso significa que a diplomacia prevaleceu? A resposta, de imediato, é não. As divergências entre Teerã e Washington permanecem profundas, e os interesses ligados a essa guerra, que durou pouco mais de cinco semanas, são tão elevados que soluções intermediárias parecem difíceis, senão improváveis. Em termos simples, o Irã dos aiatolás joga sua sobrevivência, enquanto os Estados Unidos colocam em jogo sua credibilidade. Sob essa perspectiva, o acordo anunciado na terça-feira oferece, antes de tudo, um respiro para ambos os lados. A trégua se assemelha menos a um avanço diplomático e mais a uma pausa imposta por vários fatores. Entre eles, o desgaste dos atores, especialmente do Irã, praticamente devastado por Israel e pelos Estados Unidos; a pressão interna e internacional sobre Donald Trump, visível em protestos significativos contra a guerra no Irã e, no plano global, na queda das bolsas e na alta dos preços do petróleo. De fato, os efeitos do anúncio de Trump foram quase imediatos: os preços do petróleo caíram, impulsionando uma recuperação dos mercados financeiros. Outro sinal de distensão foi o anúncio do Iraque sobre a reabertura de seu espaço aéreo, fechado desde o início do conflito. Os Estados Unidos, no entanto, continuam inflexíveis em suas condições para um acordo duradouro. Conseguiram um compromisso iraniano de reabrir o estreito de Ormuz, mas seguem exigindo concessões significativas sobre o programa nuclear e as atividades regionais do Irã. Donald Trump, que celebrou uma “vitória total”, afirmou que a questão nuclear iraniana poderia ser “resolvida” nas próximas duas semanas. Teerã, que exige o levantamento completo das sanções e garantias internacionais vinculantes, parece tentar ganhar margem de manobra. A agência Associated Press relata uma diferença entre as versões persa e inglesa do documento com as condições iranianas para as negociações. A versão em inglês aparentemente não menciona a manutenção do programa nuclear, que aparece na versão persa, algo que o presidente americano indicou de forma indireta à PBS. Seja como for, as próximas duas semanas dirão se esse acordo preliminar pode se tornar duradouro ou se será apenas um intervalo nesta guerra.

O Líbano e «o dia seguinte»
Por
Élie Hajj
Publicado

«Quando acabará a guerra? Digo: quando nos reencontrarmos.» Mahmoud Darwish Sou por natureza optimista, sem estar por isso blindado contra a tristeza. No entanto, apesar da escuridão e da brutalidade da guerra, atravesso agora um dos períodos mais esperançosos da minha vida — ao contrário de tantos à minha volta. Acredito que estamos a viver as últimas guerras do Líbano, e nas horas silenciosas da noite deixo os meus pensamentos derivar para “o dia depois da guerra”. Penso, com compaixão genuína e sem procurar culpar ninguém, numa neutralidade quase total, no choque que irá sacudir as casas cujos habitantes foram educados num ódio profundo a Israel, ao seu povo e aos judeus em geral — nacionalistas árabes, nacionalistas sírios, comunistas, islamistas de todas as tendências. Aqueles que não suportam ouvir a palavra “Israel” e a substituem pela “entidade sionista” ou pela “entidade ocupante e provisória”; os que preferiram outrora — e alguns ainda hoje — queimar o Líbano a renunciar à libertação da Palestina, empunhando a bandeira de “a liberdade de acção para a resistência armada palestiniana em todo o território libanês”, forçando assim o seu próprio Estado a abdicar da sua soberania por meio do “Acordo do Cairo”, como sacrifício oferecido à causa palestiniana. Como suportarão uma nova realidade em que Israel só se retirará do Líbano em troca de um acordo de paz global? Em que não poderá haver regresso ao armistício de 1949, mas antes acordos de segurança estritos e vinculativos destinados a garantir para sempre a segurança da sua fronteira norte? Um preço pesado que o Líbano será obrigado a pagar para recuperar a sua terra Àqueles que me interrogam nestes dias, respondo: quando chegar a hora das negociações verdadeiras, haverá “choro e ranger de dentes”. O preço que teremos de pagar, se quisermos devolver ao Estado libanês a sua terra e os seus habitantes do Sul, será exorbitante. Leiam de novo o texto do acordo de retirada israelita de 1983, que desprezaram chamando-lhe “17 de Maio” ou “o acordo da humilhação e da vergonha” — o mesmo acordo que derrubaram com o levantamento de 6 de Fevereiro de 1984. Leiam-no de novo, desejem ardentemente e rezem para que Israel aceite, após a guerra, algo de semelhante. A minha intuição, confirmada por todos os sinais visíveis, diz-me que não aceitará. Desta vez, Israel não se contentará com uma retirada condicional nem com acordos de segurança frágeis susceptíveis de ser anulados por operações suicidas; os ataques esporádicos e prolongados contra as suas forças de ocupação já não serão possíveis. O regime de Assad deixou de existir para apoiar os “resistentes” e cobrir as suas retaguardas; o regime teocrático iraniano vacila; a União Soviética desapareceu há muito; e a terra, agora esvaziada dos seus habitantes, já não se assemelha ao que foi — as gentes desse território são a água sem a qual o peixe da resistência não pode sobreviver. Israel exigirá garantias permanentes e mecanismos de vigilância internacional genuínos, nos quais participará e que supervisionará ela própria — ou, no melhor dos casos, esse papel caberá aos exércitos dos Estados Unidos e dos países árabes hostis ao regime iraniano. As potências estrangeiras poderão mesmo impor transformações radicais na própria estrutura do Estado libanês, a fim de impedir que o Sul volte a tornar-se uma plataforma de lançamento de foguetes sobre o norte de Israel, ou uma rede de túneis para o atacar. Aqueles que construíram a sua identidade sobre “a resistência islâmica no Líbano” descobrirão que este capítulo se fechou definitivamente, e que o khomeinismo que tinham abraçado como fé e modo de vida pertence agora a outra época — um fardo esmagador para eles próprios, para as suas famílias e para o Líbano inteiro, que será impossível de carregar. Defrontar-se-ão com uma realidade amarga: a Palestina não foi libertada, o Líbano pagou o preço na íntegra, e Israel não foi derrotado — pelo contrário, encontra-se agora em posição de impor as suas condições. Os libaneses compreenderão então que aqueles que incendiaram Beirute repetidamente, que devastaram o Sul várias vezes, são os mesmos que hoje se opõem a qualquer solução política capaz de preservar o país de um novo desastre. Mas o dia de que falo não será o da vingança nem o do escárnio. Será o dia do encontro na convicção partilhada de que a aposta na libertação da Palestina à custa da existência do Líbano constituiu um erro grave. O que aconteceu foi que já vivíamos a tragédia palestiniana, e agora encontramo-nos imersos na tragédia palestiniana e libanesa em simultâneo, sem termos ganho nada além de destruição e dor, ao preço das vidas de filhos e filhas ceifadas em vão na sua juventude. Um dia em que os libaneses reconhecerão que a paz a que chegaram nações árabes irmãs não foi uma traição, mas o melhor do possível — a única escolha que preserva o que resta do nosso país e do nosso Estado. Uma paz que significa fronteiras seguras, um Estado capaz de exercer plenamente a sua soberania, uma economia aberta ao mundo em vez de se fechar sobre si mesma sob os motes da “resistência”. Esse dia marcará o início de uma era verdadeiramente nova. Uma era em que o Líbano sairá do ciclo de guerras encadeadas e intermináveis, alimentadas desde 1969 pelas quimeras de “a causa central” e de “a resistência armada até ao último fôlego”. Uma era em que os libaneses recuperarão o seu direito a uma vida comum: construir as suas casas, cultivar as suas terras, criar os seus filhos longe das explosões, dos bombardeamentos, dos foguetes e dos discursos inflamados. Não será fácil, para uma geração educada na convicção de que “Israel é o inimigo para sempre, e que é preciso lutar sem trégua, quaisquer que sejam as perdas, para o apagar do mapa desde o rio até ao mar”, acordar de repente num mundo em que esse “inimigo” só partirá depois de assinar um acordo pesado, destinado precisamente a protêgê-lo. Mas a história não perdoa quem permanece prisioneiro do passado, e o dia seguinte à guerra será, digam o que disserem e custe o que custar, o dia daqueles que escolheram o Líbano em primeiro lugar — chegaram a essa escolha cedo ou tarde —, para reconstruir juntos e curar as feridas da pátria e das almas.

Libano:o preço da guerra e o Estado suspenso
Por
Ziad Abdel Samad
Publicado

Desde o início da última escalada militar na fronteira sul, o Líbano voltou ao primeiro plano do cenário regional enquanto espaço de confrontação aberta, reavivando velhas interrogações sobre o seu papel, os limites da sua autonomia decisória e a sua capacidade para suportar o custo de um envolvimento em conflitos que o ultrapassam. Neste contexto, impõe-se uma questão fundamental: como avaliar o bem-fundado desta confrontação de uma perspectiva estritamente libanesa, à luz das consequências que gerou nos planos militar, económico e social? Os dados no terreno apontam para um custo considerável. Vastas zonas do Sul sofreram danos graves nas infra-estruturas e nos bens e propriedades privados, enquanto ondas de deslocamento interno atingiram centenas de milhares de habitantes, agravando ainda mais os encargos sobre as regiões de acolhimento e sobre um Estado já às voltas com uma profunda crise económica e financeira. Sectores produtivos essenciais, a agricultura e o turismo em primeiro lugar, foram igualmente duramente afectados, no momento exacto em que a economia libanesa mais necessitava de qualquer margem de recuperação. As leituras divergem, porém, quanto aos ganhos militares reais. Alguns consideram que o envolvimento na confrontação se inscreve numa estratégia de dissuasão mais ampla, apoiada em equilíbrios regionais, e que visa impor novas equações ou consolidar as existentes. Outros entendem que os resultados não produziram nenhuma mudança qualitativa na correlação de forças, e que o tecto dos desfechos políticos permanece próximo dos arranjos anteriores às cessações das hostilidades — ou mesmo de um retorno aos efeitos concretos desses arranjos tal como vigoravam antes da última escalada —, o que suscita interrogações sobre a relação entre o custo assumido e os resultados obtidos, tanto mais que esta escalada se inscreveu ela própria em interacções regionais mais amplas e em lógicas que extravasam largamente o quadro estritamente libanês. Esta divergência de apreciação reflecte, em larga medida, um desacordo fundamental sobre o lugar do Líbano no seio do conflito regional. Trata-se de um actor directo dotado de uma margem de decisão independente, ou de um elo numa rede de alianças mais vasta em que os cálculos locais e regionais se entrelaçam de forma inextricável? A resposta não é de ordem meramente teórica: determina directamente a maneira como se compreende a guerra e como se julga a sua utilidade. No plano interno, a escalada reacendeu o debate sobre o papel do Estado e os limites da sua autoridade. A questão do monopólio das armas e da prerrogativa de decisão em matéria de guerra e paz continua a ser uma das mais sensíveis da vida política libanesa. Para uma parte do espectro político, concentrar esse poder no seio das instituições estatais constitui uma condição sine qua non para o reforço da soberania e para a construção de uma estabilidade duradoura. Para outra, a realidade de segurança e os equilíbrios existentes impõem fórmulas diferentes, e qualquer abordagem séria deste dossier deve levar em conta os receios e as apreensões mútuas entre as diferentes componentes libanesas. Este debate não é novo, mas os desenvolvimentos recentes conferem-lhe uma acuidade acrescida. A experiência demonstra que a pluralidade de centros de decisão gera desafios sérios ao nível da coordenação interna e da gestão de crises, influenciando igualmente a posição do Líbano nas suas relações externas, quer no que respeita à via diplomática, quer à sua capacidade de beneficiar do apoio internacional. Esta problemática liga-se a uma interrogação mais ampla sobre a natureza do sistema político. Desde a adopção do Acordo de Taëf, foram lançadas as bases para a reconstrução do Estado e o reforço das suas instituições, mas a aplicação tem sido muito desigual, sob o efeito conjugado de complexidades internas e de equilíbrios políticos em constante mutação, tanto locais como regionais. Esta implementação de geometria variável contribuiu para manter questões essenciais — a soberania, a reforma institucional — no campo de um debate aberto e perpetuamente irresoluto. Para além da dimensão soberana, coloca-se a questão da confiança dos cidadãos no Estado. As crises sucessivas, do colapso financeiro às sequelas da guerra, têm erodido essa confiança e levado largas franjas da população libanesa a apoiar-se em redes alternativas para satisfazer as suas necessidades. Esta realidade compromete, por sua vez, a possibilidade de construir um contrato social efectivo, fundado numa relação de reciprocidade entre o Estado e os cidadãos, articulada em torno de direitos e deveres. É neste quadro que se pode compreender o que é por vezes descrito como uma certa «selectividade» na aplicação das leis ou na abordagem dos assuntos públicos. Esta selectividade é em parte resultado da desconfiança face às instituições, ou do sentimento de certos grupos de que as regras não são aplicadas de forma equitativa. Contribui, todavia, ao mesmo tempo, para enfraquecer a própria ideia do Estado como referência comum e aglutinadora, dificultando qualquer tentativa de estabelecer regras estáveis de governação. No plano regional, o que se passa no Líbano não pode ser dissociado de um contexto mais amplo, atravessado pelas interacções entre potências internacionais e regionais. As experiências acumuladas nos últimos anos em várias arenas da região demonstraram como os Estados fragilizados internamente podem transformar-se em arenas onde estes conflitos se cruzam e se sobrepõem. O Líbano surge, nesta configuração, particularmente exposto à influência desses equilíbrios, em razão da sua composição interna e do emaranhamento das suas relações externas. É neste mesmo quadro que se inscreve o recente anúncio de um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão, com a duração de quinze dias e sob mediação paquistanesa, com vista a abrir um processo negocial entre as duas partes cujo objectivo seria alcançar uma resolução da crise que as opõe. Este processo levanta, porém, uma série de interrogações para o Líbano, na medida em que ainda não é claro se este acordo o abrange de forma directa ou indirecta. Coloca igualmente a questão do lugar do Líbano em tais arranjos, numa altura em que não dispõe de representação oficial à mesa das negociações, quando o Estado libanês deveria ser a única instância habilitada a negociar em seu nome. Esta situação ilustra uma problemática persistente ligada aos limites da soberania nacional: questões que dizem directamente respeito ao Líbano são tratadas em quadros negociais externos sem que o Estado ocupe o papel que de direito lhe caberia na definição da sua posição e das suas opções. Perante este quadro, as opções disponíveis não são nem simples nem unívocas. Uma abordagem realista exige reconhecer o entrelaçamento dos factores internos e externos, e admitir que qualquer caminho para a saída das crises requer um tratamento equilibrado desses factores, com base no reforço do Estado — e não na sua complacência ou no seu enfraquecimento. Isso implica, por um lado, fortalecer as instituições estatais e a sua capacidade de gerir os dossiers soberanos e os serviços públicos, de modo a garantir um Estado justo, submetido ao direito e garante da igualdade nos direitos; e, por outro, trabalhar para reduzir a polarização interna e construir um mínimo de consenso em torno das questões fundamentais, a fim de reforçar a legitimidade nacional sem cercear o papel ou a soberania do Estado. Em suma, a recente guerra no Líbano levanta muito mais questões do que respostas oferece. Revela a amplitude do preço que o envolvimento em conflitos de horizontes indefinidos pode acarretar, e lança nova luz sobre interrogações estruturais relativas ao Estado, à soberania e ao contrato social. Enquanto as leituras e as apreciações permanecem divididas, o desafio central continua a ser o de transformar esta experiência numa oportunidade de reavaliação das opções — em vez de se tornar mais um episódio na espiral das crises recorrentes.

O impressionismo libanês: Omar Onsi, mestre da luz (2/4)

Como vimos em nosso artigo anterior, quatro pioneiros da pintura libanesa moderna, Khalil Saleeby, Omar Onsi, César Gemayel e Mustafa Farroukh, souberam imprimir uma alma libanesa e oriental ao impressionismo ocidental. Omar Onsi, figura central da pintura moderna libanesa, destaca-se por seu domínio da transparência e da luz. Ao privilegiar a aquarela em suas obras, conseguiu traduzir a poesia das montanhas e da natureza libanesa. Influenciado por Monet, Onsi eliminou o preto e utilizou, para as sombras, azuis e malvas profundos. Pintando ao ar livre, seu domínio excepcional da luz lhe rendeu o apelido de “mestre da luz” do Líbano. Com sua observação rigorosa da realidade e sua sensibilidade moderna, Onsi conseguiu libertar a pintura libanesa dos retratos clássicos rígidos e abrir caminho para cenas de vida e para uma natureza libanesa sublimada. Uma vocação afirmada Nascido em Beirute em 1901, em uma família sunita culta, aberta às ideias e ao modo de vida europeus, o jovem Omar descobre muito cedo o desenho e a pintura, incentivado por um avô poeta a quem deve seu nome. Após uma passagem pela faculdade de medicina do Syrian Protestant College, que mais tarde se tornaria a Universidade Americana de Beirute, interrompe os estudos contra a vontade dos pais e escolhe a carreira artística sob a influência de Khalil Saleeby. Inicia-se então na técnica, no retrato e no nu no ateliê deste último. Em 1921, conquista uma medalha de prata na Feira Internacional de Beirute, primeiro reconhecimento público de seu talento. Múltiplas influências No início dos anos 1920, Onsi passa vários anos na Jordânia como professor de pintura e de inglês. Ali descobre a luz intensa e as cores do deserto. Esse contato com o espaço levantino alimenta sua sensibilidade e seu imaginário pictórico. Pinta então cenas beduínas e paisagens áridas em uma abordagem quase etnográfica. No fim da década, parte para aperfeiçoar-se em Paris, especialmente nas academias Julian, La Grande Chaumière e Colarossi, onde entra em contato direto com o impressionismo, bem como com as escolas de Barbizon e de Fontainebleau. Pinta cenas parisienses, nus, retratos e estabelece amizade com artistas libaneses da diáspora, como o escultor Youssef el-Houwayek. Em 1933, retorna ao Líbano com sua segunda esposa, após um período de retiro na Síria em decorrência da morte de sua primeira mulher. Essa experiência marca uma transformação decisiva em sua trajetória artística: sua paleta torna-se mais clara e suas cores mais vibrantes. A influência impressionista em sua obra se afirma. Retorno a Beirute e reconhecimento De volta ao Líbano, Omar Onsi passa a viver de sua arte. Realiza sua primeira exposição na Escola de Artes e Ofícios de Beirute no início dos anos 1930. Rapidamente, a imprensa o apresenta como um importante paisagista, e as elites de Beirute começam a colecionar suas obras. Ao mesmo tempo em que multiplica cenas rurais, Onsi aborda temas muito mais ousados e tabus, como o nu. Nas décadas de 1940 e 1950, expõe na Europa, no Egito e no Oriente Médio, produzindo uma iconografia ao mesmo tempo local e transnacional. Seu papel na pintura libanesa moderna Omar Onsi desempenhou também um papel institucional de grande relevância. Cofundador, em 1957, da Associação Libanesa de Artistas Pintores e Escultores, passa a integrar, a partir de 1960, o conselho administrativo do Museu Sursock, que se torna um dos principais espaços da modernidade artística em Beirute. Até sua morte, em 1969, em Beirute, continua explorando as infinitas variações da paisagem libanesa, ao mesmo tempo em que consolida, por meio de seu ensino e de seu engajamento, a infraestrutura cultural do jovem Estado libanês. Uma grande retrospectiva no Museu Sursock, em 1997, consagrou definitivamente seu lugar como pioneiro da pintura moderna no Líbano. Suas obras hoje são preservadas em instituições prestigiadas, como o Mathaf, Museu Árabe de Arte Moderna, no Catar. Também podem ser encontradas em coleções privadas, galerias especializadas e em leilões de casas renomadas como Christie’s ou MutualArt. Uma obra icônica Uma das obras mais marcantes de Omar Onsi é a tela “À l’exposition”, pintada em seu retorno de Paris, em 1932. Essa pintura a óleo, ousada, combina retratos e cenas de observação em uma tensão cultural impactante entre modernidade e códigos sociais orientais. Simboliza a transição no estilo e no pensamento de Onsi, que se afasta dos retratos clássicos. Nela, vemos mulheres do Oriente Médio, veladas e vestidas de preto, admirando um nu feminino em um museu, espectadoras orientais de um objeto erótico vindo do Ocidente. Uma cena claramente transgressora para a época. Em outra sala, uma mulher vestida à ocidental conversa com um homem de terno e tarbuche, encontro e tensão entre modernidade ocidental e tradições orientais. A composição em múltiplos planos da obra cria uma profunda perspectiva, enquanto as tonalidades violáceas, negras e azuladas intensificam uma atmosfera ao mesmo tempo intimista e dramática, destacando a luz sobre os corpos nus. O quadro sintetiza o choque de civilizações entre uma sociedade oriental estabelecida e outra em formação, ilustrando de maneira precisa a sociedade libanesa do período entre guerras. Próximo artigo Impressionismo libanês: César Gemayel, um pioneiro entre dois mundos Leia também O impressionismo libanês: da grisalha parisiense à luz do Monte Líbano (1/4)

Líbano, o urbicídio dos martirópatas
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

Os recentes “transbordamentos” da guerra para fora das zonas de conflito delimitadas territorialmente desde o início, com seu cortejo de vítimas, nos interpelam. Guerra de guerrilhas , de Ernesto “Che” Guevara, ou ainda Revolução na revolução? , de Régis Debray, para citar apenas essas duas obras, analisaram longamente, na esteira da idade de ouro revolucionária dos anos 1960, como a guerra irregular, longe de se reduzir a uma simples tática de assédio conduzida por forças fracas contra um adversário superior, assume a forma de uma empreitada mais sutil e mais inquietante, na qual a população civil deixa de ser apenas refúgio ou elo logístico e passa progressivamente a constituir o próprio objeto do confronto, enquanto a dinâmica da violência se reorganiza constantemente segundo suas próprias lógicas. Nesse contexto, a guerrilha, guerra pós-clausewitziana, não se limita a evoluir dentro de um meio social dado, supostamente adquirido ou naturalmente favorável, mas atua sobre esse meio com a intenção de reconfigurá-lo, obrigando-o a sair da indiferença ou da ambivalência, ao criar situações nas quais toda neutralidade se torna insustentável. Guevara falava em criar as condições revolucionárias em vez de esperar por sua “maturidade social”. Essa lógica, que pode ser definida como uma estratégia de polarização induzida, baseia-se em um mecanismo relativamente constante, cujas variações históricas revelam ao mesmo tempo grande plasticidade e notável eficácia. Uma organização insurgente se insere inicialmente em um tecido social que não lhe é necessariamente favorável em sua totalidade, realiza ações direcionadas contra um poder estatal ou ocupante e, em seguida, se expõe, deliberadamente ou por cálculo, a represálias cuja magnitude, frequentemente desproporcional, afeta indistintamente combatentes e civis. Nesse processo, a violência do adversário deixa de ser um simples custo estratégico e passa a desempenhar uma função operacional, contribuindo para produzir as condições de uma virada emocional e política da população, transformando o sofrimento em motor de mobilização. “O peixe na água” Essa dinâmica não é fortuita nem fruto de improvisação empírica. Ela se insere em uma tradição teórica antiga, cujas formulações mais influentes aparecem nos escritos de Mao Zedong sobre a guerra popular prolongada. A célebre metáfora do peixe que nada na água, frequentemente citada para descrever a simbiose entre guerrilha e população, sugere na realidade um trabalho constante sobre essa “água”, que a guerrilha busca densificar e politizar, às vezes por meio de coerção assumida, para garantir sua própria sobrevivência e expansão. Nas práticas revolucionárias chinesas, essa transformação do meio social vem acompanhada de campanhas de propaganda, mecanismos de pressão interna e instrumentalização indireta da violência adversária, cuja brutalidade serve para revelar a natureza opressiva do inimigo. A guerra de independência da Argélia oferece um exemplo particularmente claro dessa dialética. Ao realizar ações espetaculares em centros urbanos, especialmente durante a batalha de Argel em 1957, a Frente de Libertação Nacional se expunha a uma repressão sistemática por parte do exército francês, cujos métodos, marcados por tortura, desaparecimentos e controle intensivo de bairros populares, produziram um efeito paradoxal. Uma parte significativa da população, inicialmente reticente ou prudente, foi gradualmente levada ao campo independentista, não apenas por solidariedade, mas também por uma necessidade moral e existencial, já que a violência tornava insustentável qualquer posição intermediária. Fenômeno semelhante pode ser observado na guerra do Vietnã, onde a presença do Viet Cong nas aldeias rurais não se baseava exclusivamente em uma adesão prévia das populações locais, mas na capacidade de explorar os efeitos das operações militares americanas, em particular os bombardeios massivos e os deslocamentos forçados, frequentemente acompanhados de massacres de civis. O episódio de Mỹ Lai, em 1968, permanece emblemático nesse sentido, pois contribuiu para transformar uma violência pontual em catalisador de engajamento, reforçando a legitimidade da insurgência junto a segmentos até então hesitantes. “Um, dois, vários Vietnãs” Em contextos mais contemporâneos, especialmente no Oriente Médio, essa lógica reaparece sob formas renovadas. Organizações armadas que operam em áreas densamente povoadas mantêm uma interação permanente com a potência militar adversária, cujas represálias, amplamente divulgadas em escala internacional, alimentam ciclos de indignação e mobilização. Nos territórios palestinos, diferentes fases de insurgência, espontâneas ou organizadas, deram origem a respostas militares cujos efeitos sobre civis contribuíram, de maneira complexa e por vezes contraditória, para fortalecer dinâmicas de adesão a grupos armados. O caso libanês, em sua configuração atual, ilustra essa mecânica com particular intensidade. O Hezbollah, cujo núcleo revolucionário vem sendo sistematicamente desmantelado, com quadros dos Pasdaran iranianos e da própria organização perseguidos e mortos, e com bastiões no sul do Líbano, no Vale do Bekaa e na periferia sul de Beirute reduzidos a escombros por bombardeios israelenses, enquanto cerca de dois milhões de pessoas foram deslocadas, encontra-se obrigado a recuar estrategicamente para regiões que lhe são pouco favoráveis, como áreas de Beirute, Metn-Sul e Metn-Norte, onde a guerra que iniciou enfrenta oposição latente ou hostilidade aberta. Esse deslocamento forçado inaugura uma nova fase do confronto, cujos desafios ultrapassam o plano territorial e assumem caráter social. O Hezbollah sempre reivindicou inspiração nas técnicas subversivas de Guevara em termos de polemologia, diferenciando-se do foquismo formal e estatista aplicado pela OLP durante a guerra. O grupo opera em uma lógica espacial, não territorial. O foco é móvel, pois o espaço da guerra é o da wilayat al-faqih. O território em si torna-se secundário, descartável. O mesmo vale para os habitantes, transformados em martiropatas, dispostos a morrer pela doutrina, não pelo território. O Hezbollah pratica o urbicídio em nome de um império espacial iraniano. A isso se soma, do ponto de vista polemológico, uma camada neoaquemênida da estratégia persa. Historicamente, os persas conduziam guerras em múltiplas frentes, recorrendo a conflitos por procuração e ao apoio a aliados por meio das satrapias. Também financiavam cidades inimigas para colocá-las umas contra as outras, o que lhes permitia administrar frentes sem ocupá-las diretamente. A Pérsia dos Pasdaran cria assim uma forma de neo-guevarismo de revolução permanente ao aplicar, há duas décadas na região e também no contexto desta guerra, a célebre fórmula do Che: “Criar um, dois, vários Vietnãs”. O objetivo não é apenas forçar adversários, sobretudo no Golfo, a ceder e buscar rapidamente a paz, mas também internacionalizar o conflito para, paradoxalmente, encerrá-lo. O jogo “ganha-ganha” Para além da guerrilha urbana do Hezbollah, delineia-se um cálculo de outra natureza, que pode ser descrito como um jogo subversivo de soma positiva para a própria organização, um sombrio “ganha-ganha”. Ao se inserir em zonas reticentes à guerra e manter atividades que as expõem a bombardeios israelenses, o Hezbollah força Israel a atacar populações que lhe são hostis, transformando o adversário em instrumento involuntário de recomposição de lealdades. O sofrimento infligido a esses grupos tende, nesse esquema, a aproximá-los, por necessidade, de quem se apresenta como seu único possível protetor. Esse cálculo vai ainda mais longe. A presença de deslocados do sul do Líbano nesses bairros provoca reações de rejeição por parte das populações locais, tensões que a organização explora para reforçar, por contraste, a coesão interna entre seus membros. Poucas forças são tão agregadoras quanto o sentimento de não pertencer a lugar algum, exceto às fileiras da comunidade armada, protegida pela açabiya. A análise desses fenômenos se aprofunda quando apoiada em marcos da filosofia política e da antropologia. A tradição clausewitziana, ao afirmar a natureza política da guerra, ajuda a entender como a violência pode ser usada para transformar subjetividades coletivas. A teoria da violência mimética de René Girard ilumina os ciclos de retaliação que se autoalimentam, em uma espiral na qual a distinção entre agressor e vítima se torna difusa. Já Michel Seurat mostra como a violência, longe de desorganizar o social, contribui para sua recomposição, criando novas lealdades e redefinindo linhas de fratura comunitárias. Essa estratégia levanta questões morais fundamentais. Pode ser vista como resposta pragmática a uma situação de assimetria radical, na qual forças insurgentes dispõem de poucos meios para enfrentar um adversário superior. Por outro lado, implica instrumentalizar civis, expostos a riscos crescentes, muitas vezes sem consentimento, em nome de um objetivo político maior. Essa tensão revela uma das ambiguidades centrais da guerra irregular, em que a linha entre estratégia de libertação e exposição deliberada ao perigo se torna difusa. Assim, a guerrilha, quando inserida nessa lógica, não apenas reflete a sociedade, mas contribui ativamente para moldá-la, transformando a violência em vetor de adesão e fazendo do sofrimento coletivo um elemento central da mobilização política. Nesse deslocamento, a população deixa de ser pano de fundo e passa a ser o próprio teatro da guerra, conferindo a esses conflitos uma dimensão profundamente trágica, na qual a lealdade se constrói a partir da experiência compartilhada da violência, e a neutralidade se torna cada vez mais impossível. Retorno do reprimido? No entanto, não se deve deixar essa lógica sem contraponto. Se a estratégia de polarização induzida supõe que a violência pode produzir adesão indefinidamente, ela acaba, mais cedo ou mais tarde, encontrando uma resistência que se pode chamar, em termos freudianos, de retorno do reprimido. A cultura do martírio e a cultura da vida não podem coexistir de forma duradoura sem entrar em conflito, e sua colisão permanece, no fim, inevitável. A explosão do porto de Beirute, em agosto de 2020, ofereceu a demonstração mais trágica dessa tensão, menos como um acidente do que como o sintoma de uma organização que fez da morte um modo de governo, e que se viu um dia confrontada, no próprio coração da cidade que dizia defender, com as consequências dessa escolha. Eros e Tânatos não podem compartilhar indefinidamente o mesmo espaço, e uma dessas lógicas acaba por prevalecer, sem que nada na história permita supor que será a segunda. Ainda assim, também nesse ponto o Hezbollah revela seu caráter sinuoso. Para além da asabiyya que cultiva em sua própria comunidade — e até mesmo para além dela, ao criar tensões internas binárias, o Bem contra o Mal, convocando cada indivíduo a escolher um lado —, já estabelece as bases de uma ordem de pós-guerra em que apenas uma vitória contará: aquela que esmagará as vozes dissidentes, os “inimigos internos”, os “traidores”. A vítima de hoje, que busca ampliar a zona de adesão contra o inimigo, já se apresenta como o carrasco de amanhã, pronta para erguer as forcas. Diante desse impasse ideológico, a única lógica possível é a do duplo inimigo: o inimigo “territorial”, Israel, com seus ataques cotidianos contra a população civil, e o inimigo “espacial”, o Hezbollah, com sua ideologia transnacional a serviço dos Pasdaran. Ao urbicídio de Gaza responde outro, móvel, que se desloca de território em território. Entre os dois, quantas vítimas inocentes ainda perecerão antes que a cultura da vida finalmente prevaleça, de uma vez por todas?

EUA-Irã: duas semanas para arrancar um acordo de paz

Após mais de cinco semanas de guerra, Washington e Teerã concordaram com um cessar-fogo de duas semanas em troca da reabertura do Estreito de Ormuz, pouco mais de uma hora antes do fim do ultimato de Donald Trump que ameaçava destruir a República Islâmica. Teerã indicou na madrugada de quarta-feira que as negociações com Washington começarão na sexta-feira. Essas discussões ocorrerão no Paquistão, um mediador-chave na guerra no Oriente Médio. Israel aceitou o cessar-fogo com o Irã, segundo um funcionário da Casa Branca sob condição de anonimato. "Na sequência de discussões com o Primeiro-Ministro Shehbaz Sharif e o Marechal Asim Munir, do Paquistão, durante as quais eles me pediram para suspender a intervenção militar planeada para esta noite contra o Irã, e sob a condição de que a República Islâmica do Irã aceite a ABERTURA TOTAL, IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz, aceito suspender os bombardeamentos e os ataques contra o Irã por um período de duas semanas", escreveu o presidente americano na sua plataforma Truth Social. O último de uma série de ultimatos lançados por Donald Trump ao Irã e repetidamente adiados dava a Teerã até às 20h00 em Washington (meia-noite GMT) para reabrir a passagem marítima estratégica, por onde transitavam antes da guerra 20% do petróleo bruto mundial. "Será um CESSAR-FOGO recíproco!", acrescentou o Sr. Trump, segundo quem os Estados Unidos "já atingiram e superaram todos os nossos objetivos militares" desde o lançamento dos ataques americano-israelenses em 28 de fevereiro. Ele também mencionou discussões "muito avançadas" visando um acordo de paz "de longo prazo" com o Irã. Teerã transmitiu "uma proposta de 10 pontos" que "constitui uma base viável para negociar". A porta-voz da Casa Branca declarou que os Estados Unidos contemplam "discussões presenciais" com o Irã, « mas nada é definitivo enquanto o presidente ou a Casa Branca não o anunciarem », acrescentou Karoline Leavitt. Plano iraniano de dez pontos Por sua vez, os líderes iranianos confirmaram que aceitavam reabrir "por um período de duas semanas" o Estreito de Ormuz "se os ataques contra o Irã cessarem", escreveu no X o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi. "Foi decidido ao mais alto nível que o Irã iniciará, por um período de duas semanas (...), negociações com a parte americana em Islamabad", acrescentou o Conselho Supremo de Segurança Nacional num comunicado. "É especificado que isso não significa o fim da guerra, e que o Irã só aceitará a cessação das hostilidades quando" as negociações tiverem sido concluídas, acrescentou, salientando que essas duas semanas poderiam ser prolongadas "em acordo com ambas as partes". Segundo a mídia iraniana, o plano de dez pontos submetido aos Estados Unidos prevê que Washington aceite a continuação do programa de Teerã sobre o enriquecimento de urânio e a suspensão de todas as sanções. O plano, publicado pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional, inclui "o princípio de não agressão, a continuação do controlo iraniano do Estreito de Ormuz, a aceitação do enriquecimento, a suspensão de todas as sanções primárias, a suspensão de todas as sanções secundárias", indicaram a televisão estatal iraniana e a agência Mehr. O Irã também exige o fim das resoluções contra a República Islâmica votadas pelo Conselho de Segurança da ONU e pelo conselho de governadores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o pagamento de compensações ao Irã, a retirada das forças militares americanas da região e a cessação dos combates em todas as frentes, incluindo a do sul do Líbano, onde o Hezbollah arrastou o país para a guerra contra Israel. O cessar-fogo aplica-se ao Líbano O Primeiro-Ministro paquistanês Shehbaz Sharif congratulou-se com os resultados obtidos na sequência da mediação do seu país, em boas relações com todas as partes: "Tenho o prazer de anunciar que a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos, bem como os seus aliados, aceitaram um cessar-fogo imediato em todo o lado, incluindo no Líbano e noutros locais, COM EFEITO IMEDIATO", escreveu o Sr. Sharif no X, utilizando maiúsculas no final da sua mensagem. A capital paquistanesa, Islamabad, receberá na sexta-feira delegações dos dois países para negociações que visam alcançar um "acordo definitivo", acrescentou. O Paquistão impôs-se nas últimas semanas como mediador entre Teerã e Washington, procurando evitar uma nova escalada do conflito no Oriente Médio. O Sr. Sharif é, nomeadamente, um dos membros do "Conselho de Paz" instituído há alguns meses por Donald Trump. Pouco antes do anúncio do Primeiro-Ministro paquistanês, um ataque israelense fez oito mortos e 22 feridos num café na orla marítima de Saïda. (Mahmoud Zayyat/AFP) Pouco antes do anúncio do Primeiro-Ministro paquistanês, um ataque israelense fez oito mortos e 22 feridos na cidade libanesa de Saïda, anunciou na quarta-feira o ministério libanês da Saúde. Por sua vez, o exército israelense relatou três salvas de mísseis disparados pelo Irã em direção ao seu território, momentos após o anúncio do presidente Trump. O petróleo cai, as bolsas disparam O anúncio do acordo foi extremamente bem recebido nos mercados: os preços do petróleo caíram rapidamente mais de 15%, voltando a ficar abaixo dos 100 dólares o barril, chegando mesmo a rondar os 90 dólares, e as Bolsas de Tóquio e Seul dispararam respetivamente 4% e 6% na abertura.