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Os ataques israelitas contra aldeias do Sul do Líbano continuaram ao longo do dia de terça-feira. (Kawnat Haju / AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 8, 2026 - 21:37
No Líbano, três desenvolvimentos merecem atenção pela sua dimensão sociopolítica significativa: o segundo «Apelo para salvar Nabatiyé», publicado na segunda-feira e subscrito por quase 400 personalidades, sobretudo xiitas, desta região do sul do Líbano; um confronto armado, o segundo em 24 horas, entre presumíveis membros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) do Irão e habitantes da aldeia de Nmayré, apoiados por partidários do movimento Amal, aliado do Hezbollah; e, por fim, comunicados publicados por duas aldeias xiitas, Arabsalim e Doueir, pedindo ao exército que estabeleça postos fixos nas entradas das suas localidades. ​ Embora de natureza diferente, estes acontecimentos convergem num ponto fundamental no contexto libanês: refletem uma mudança sensível na perceção e na reação de uma parte da comunidade xiita face à estratégia destrutiva do Hezbollah no Líbano. Durante muito tempo apagada ou silenciada pelo movimento pró-iraniano, a voz xiita, sobretudo a da oposição, começou a fazer-se ouvir. Ela ergueu-se pela primeira vez em maio, quando as cidades de Tiro e Nabatiyé foram alvo de violentos ataques israelitas. Hoje afirma-se ainda mais e junta-se à da maioria dos libaneses, que apelam ao Estado para que assuma as suas responsabilidades a fim de poupar o país, e em particular o que resta do sul do Líbano, das aventuras destrutivas da formação pró-iraniana. ​ Toda a questão, hoje, é saber se o Estado libanês vai finalmente decidir-se a responder a este Apelo, que soa como um grito de socorro, e a pôr em prática os seus próprios compromissos, assumidos a 2 de março de 2026, poucas horas depois de o Hezbollah ter lançado foguetes e drones contra Israel, que respondeu de imediato com ataques violentos. ​ Nesse dia, o governo de Nawaf Salam tinha anunciado sem rodeios a proibição «imediata» de todas as atividades militares do Hezbollah, intimado a entregar as suas armas. As forças da ordem tinham inclusivamente sido incumbidas de deter os infratores. Decisões que, infelizmente, ficaram no papel, por várias razões, entre as quais o medo de enfrentar uma milícia poderosa. Ou, talvez, diretamente o Irão, admitindo que o CGRI dirige efetivamente as operações militares do Hezbollah no Líbano. ​ O boato a este respeito já circulava no Líbano há vários meses. Ganhou novo fôlego com o mistério em torno da queda da colina estratégica de Ali el-Taher, que domina Nabatiyé. Membros dos Pasdaran teriam então sido evacuados, enquanto combatentes do Hezbollah ali teriam perecido. ​ Na terça-feira, o site Janoubia, meio de comunicação da oposição xiita, divulgou uma informação que reforça este boato: rebentaram violentos confrontos armados entre os habitantes de Nmayré, no distrito de Nabatiyé, e combatentes dos Pasdaran «que tentavam estabelecer um posto numa habitação civil da aldeia». «Apoiados por partidários do Amal, os habitantes conseguiram impedir os agentes do CGRI de se instalarem e expulsaram-nos da aldeia», indicou a Janoubia. ​ O exército durante uma hora e meia em Nabatiyé ​ Os 400 signatários do «Apelo para salvar Nabatiyé» pediram, por sua vez, ao Estado que destaque o exército para a cidade e o distrito, insistindo na responsabilidade que lhe cabe a este respeito. ​ Se o texto condenou as ações de Israel no Sul do Líbano, foi igualmente severo em relação ao Hezbollah, atribuindo-lhe diretamente – sem o nomear, mas designando-o como «as forças do fato consumado» – a responsabilidade pelas destruições no sul do país e pelo drama vivido pelos seus habitantes: «A responsabilidade do inimigo não apaga as responsabilidades internas. A responsabilidade do crime cabe a quem o cometeu, enquanto a das escolhas, das decisões e das posições cabe a quem as tomou, encobriu ou tolerou passivamente. Quem, durante anos, deteve a decisão de guerra e de paz, fazendo crer aos habitantes do sul que era o mais capaz de os proteger, deve hoje responder pelas consequências da sua escolha: o que resta do território? O que aconteceu às aldeias? E de que capacidade dispõe ainda a população para resistir ou regressar?» Enquanto o Hezbollah, normalmente tão falador, continua a observar um silêncio absoluto sobre a queda de Ali el-Taher, o destino dos seus combatentes e o seu número, e o suposto acordo que teria permitido a evacuação de agentes do CGRI, as autoridades libanesas estiveram ocupadas, na terça-feira, a multiplicar contactos políticos e diplomáticos, após a hecatombe do fim de semana e de segunda-feira, para tentar impedir Israel de avançar sobre Nabatiyé ou de se encarniçar contra esta cidade. Para o efeito, o primeiro-ministro Nawaf Salam deslocou-se ao encontro do presidente do Parlamento e líder do movimento Amal, Nabih Berry. O aliado do Hezbollah deu luz verde para o destacamento do exército em Nabatiyé, tendo este permanecido no local durante hora e meia, no período da tarde. Uma presença saudada pelos habitantes, que receberam os soldados atirando arroz. Segundo várias fontes concordantes, as forças regulares vão proceder diariamente a um destacamento de algumas horas. Os ataques prosseguiram ao longo do dia, mas a sua intensidade diminuiu no distrito de Nabatiyé, com a chegada das tropas. No plano diplomático, é a visita do embaixador dos Estados Unidos, Michel Issa, ao vice-presidente do Conselho Superior Islâmico Xiita, xeique Ali el-Khatib, que chama a atenção. Esta ocorre no dia seguinte à escalada provocada pelo Hezbollah que, ao lançar drones armadilhados contra posições israelitas, deu a Telavive um pretexto adicional para continuar a destruição das aldeias do Sul do Líbano. No final do encontro, Michel Issa sublinhou que Washington «não deseja outra coisa senão o interesse da comunidade xiita e o regresso do Sul aos seus habitantes», reafirmando que os Estados Unidos estão dispostos a dialogar com o Hezbollah, «mas através do Estado libanês». «Mas não sabemos como chegar a um resultado com uma parte desta comunidade que não percebe que o seu interesse reside em tomar consciência das suas responsabilidades», afirmou, numa alusão ao Hezbollah. As suas palavras revelam indiretamente que terá solicitado a intervenção do xeique el-Khatib para fazer este grupo entrar em razão. Este último manifestou a disponibilidade dos xiitas para discutir a questão das armas «se beneficiarem de proteção e obtiverem garantias», sem especificar quais. Uma escalada que se intensifica no Iémen No plano regional, a atualidade continua centrada no Iémen, onde a escalada militar prossegue entre as forças governamentais, apoiadas por Riade, e os houthis pró-iranianos, que lançaram durante a noite um ataque de grande envergadura contra várias estruturas civis na Arábia Saudita, fazendo pelo menos 75 feridos. Lançaram ataques com drones e mísseis contra o sul do reino, visando em particular as instalações da Aramco em Abha, Najran e Jizan, bem como a base aérea King Khalid, em Khamis Mushait. Riade prometeu retaliar, pela voz do seu chefe da diplomacia, Fayçal bin Farhan, sem contudo «fechar a porta ao diálogo diplomático». O país realizou ataques contra alvos houthis, enquanto os combates continuam a travar-se intensamente no terreno entre as forças governamentais e o grupo pró-iraniano, que procura avançar para as zonas próximas do estreito estratégico de Bab al-Mandab, outra alavanca de pressão para o Irão que, não podendo controlá-lo diretamente, parece procurar, através dos seus mediadores, perturbar a navegação nesta passagem marítima. A escalada militar continua concentrada no oeste de Taiz e no sul de Hodeida. Segundo o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), cerca de 18.000 pessoas fugiram dos bombardeamentos e confrontos nos distritos de Maqbanah e Jabal Habashi, em Taiz. Os houthis anunciaram, por outro lado, ter abatido um drone norte-americano, enquanto Teerão abateu um drone sobre o estreito de Ormuz.
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Por Rabih Dandachli - Publicado em set 8, 2026 - 19:31
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Atribui-se ao rei francês Luís XIV, o «Rei Sol», uma das frases mais célebres da história política: «O Estado sou eu», L’État, c’est moi. Embora os historiadores duvidem que ele a tenha pronunciado literalmente, a frase permaneceu porque condensava toda uma filosofia de governo: o governante e o Estado tornam-se duas imagens de uma mesma realidade, a oposição às suas decisões transforma-se em oposição à nação, e a força das instituições passa a ser medida pelo grau de submissão à sua vontade. O problema da França sob Luís XIV não era a fraqueza de seu rei. Pelo contrário, a França era uma das maiores potências europeias, e seu monarca, um dos governantes mais poderosos da época. Mas a força do Estado passou a depender cada vez mais da centralização das decisões e da pessoa do soberano, enquanto guerras, despesas, desigualdades sociais e desequilíbrios nas finanças públicas acumulavam custos que as gerações seguintes teriam de pagar. A França não entrou em colapso após a morte de Luís XIV, em 1715. A monarquia sobreviveu por mais de sete décadas, até a eclosão da Revolução Francesa, em 1789. Esse intervalo é importante porque impede uma leitura superficial da história: a personalização do Estado não leva necessariamente a um colapso imediato, mas pode enfraquecer gradualmente sua capacidade de se reformar por meio das próprias instituições. Veio então o paradoxo maior. A revolução que derrubou o Antigo Regime não resultou em uma estabilidade institucional tranquila, mas em anos de turbulência, guerras e transformações que culminaram na ascensão de Napoleão Bonaparte, coroado imperador em 1804. Napoleão não foi, portanto, o «salvador» que encerrou a crise do poder pessoal. Sob outro ângulo, ele demonstrou que o colapso de um regime altamente personalizado não conduz necessariamente a instituições mais fortes, podendo abrir caminho para um homem ainda mais poderoso. É aí que reside o perigo da experiência francesa: quando as instituições fracassam em sua tentativa de se reformar, o Estado pode passar de uma personalização a outra, de um rei poderoso a uma revolução, e da revolução a um imperador. Mais de três séculos depois, essa questão parece novamente atual, embora em sistemas radicalmente diferentes: o que acontece quando o destino de um governante e de seu projeto político passa a integrar a própria definição do destino do Estado? Três casos merecem reflexão: os Estados Unidos com Donald Trump, Israel com Benjamin Netanyahu e o Irã com Mojtaba Khamenei. Estados Unidos: onde termina o Estado e onde começa Trump? Não se pode comparar o sistema americano à monarquia de Luís XIV. Os Estados Unidos são um Estado constitucional federativo, com instituições consolidadas, separação de poderes, tribunais, Congresso, estados federados, meios de comunicação, sociedade civil e eleições periódicas. No entanto, a experiência de Donald Trump trouxe de volta ao centro do debate americano uma questão fundamental sobre os limites do poder presidencial e a capacidade das instituições de contê-lo. O problema não é que um presidente seja poderoso. O próprio sistema americano lhe confere amplas prerrogativas. O problema começa quando, para uma parcela da sociedade e da elite política, a lealdade ao presidente se torna quase um critério de lealdade ao próprio projeto nacional, e quando as divergências sobre as instituições, o Judiciário, a administração e a política externa deixam de ser desacordos sobre como governar o Estado para se transformar em uma disputa sobre quem realmente representa os Estados Unidos. O lema «America First» passa então por uma prova delicada: os Estados Unidos continuam em primeiro lugar, ou o homem que carrega o lema se torna inseparável de sua definição? O perigo para os Estados Unidos não é que amanhã se transformem em uma monarquia absoluta. Isso seria uma simplificação irrealista. O perigo é que a polarização e a personalização enfraqueçam as normas e instituições que permitiram ao sistema, ao longo de sua história, sobreviver a seus presidentes. Israel: o Estado, a guerra e o futuro de Netanyahu Em Israel, a relação entre o homem e o Estado parece mais complexa. Benjamin Netanyahu já não é simplesmente mais um primeiro-ministro em uma sucessão de primeiros-ministros. Sua longa permanência no centro da vida política fez de sua pessoa um eixo fundamental das divisões israelenses: eleições, Justiça, guerra, segurança, relações exteriores e futuro das coalizões políticas. O problema surge quando se entrecruzam os interesses do Estado, os do governo e os interesses políticos e pessoais do homem. Quanto mais essa sobreposição se prolonga, mais difícil se torna distingui-los. Uma decisão militar é necessária para a segurança de Israel? É necessária para a sobrevivência do governo? Serve ao futuro político de Netanyahu? Os três interesses podem coincidir em determinadas ocasiões, mas não necessariamente coincidem sempre. O perigo começa quando a questão do futuro de Netanyahu passa a integrar a questão do futuro do próprio Israel. Um Estado que chega a esse ponto não se tornou uma monarquia, mas entrou em uma situação na qual a política está excessivamente vinculada a uma pessoa. Irã: da revolução contra o xá à questão da hereditariedade O Irã apresenta, por sua vez, o paradoxo mais evidente. A Revolução Islâmica de 1979 teve, entre suas dimensões essenciais, a de derrubar um regime monárquico hereditário no qual o poder se concentrava em torno do xá. Quase meio século depois, Mojtaba Khamenei chegou ao cargo de líder supremo, ocupado durante décadas por seu pai, Ali Khamenei. Independentemente dos mecanismos constitucionais e institucionais que regeram sua escolha, a transmissão do poder em seu nível mais alto de pai para filho levanta uma questão simbólica e política que a República Islâmica não pode ignorar: como um sistema fundado sobre uma revolução contra a monarquia pode explicar a transmissão do centro do poder entre duas gerações da mesma família? Mas o problema vai além da família Khamenei. A questão mais profunda é saber se o Irã, como Estado, civilização e sociedade, se tornou excessivamente vinculado à sobrevivência do regime, e se o próprio regime passou a depender demais da manutenção de uma determinada estrutura de instituições religiosas e de segurança, famílias e personalidades. É necessário distinguir aqui três realidades frequentemente confundidas no discurso político: o Irã não é a República Islâmica, a República Islâmica não é o líder supremo, e o líder supremo não é o Irã. Quanto mais se enfraquecem as fronteiras entre esses níveis, mais o regime se aproxima do dilema de «O Estado sou eu». Não se trata de comparar três sistemas políticos Seria um erro colocar os Estados Unidos, Israel e o Irã na mesma categoria política. O primeiro é uma democracia constitucional federativa; o segundo, um sistema parlamentar eleitoral; e o terceiro, uma república islâmica baseada no governo do jurista, ou wilayat al-faqih, e em uma complexa combinação de instituições eleitas e não eleitas. A comparação aqui não diz respeito à natureza dos sistemas, mas a um fenômeno que pode atingir sistemas diferentes: a personalização do poder. A mesma patologia política pode se manifestar por meio de sintomas distintos. Em um sistema, aparece pela ampliação das prerrogativas do Poder Executivo. Em outro, pela vinculação da guerra e da segurança ao futuro de um governo e de seu chefe. Em um terceiro, pela concentração da legitimidade e das decisões estratégicas no topo de uma hierarquia política e religiosa altamente centralizada. Mas a pergunta permanece a mesma: são as instituições que contêm o governante, ou é o governante que reconfigura as instituições ao seu redor? A lição francesa não se limita a Luís XIV É aqui que a lição francesa se torna mais interessante. Se a história tivesse terminado com Luís XIV, a conclusão seria simples: o governante absoluto enfraquece as instituições e, depois, o Estado entra em colapso. Mas a história não aconteceu dessa maneira. Luís XIV morreu, e a França permaneceu. A monarquia continuou. Décadas depois, veio a revolução, que derrubou o Antigo Regime em nome da liberdade, da igualdade e da soberania popular. Mas a própria revolução não produziu estabilidade imediata. A França entrou em um turbilhão de conflitos, transformações, violência e guerras, antes do surgimento de Napoleão. E aí está o paradoxo: os franceses saíram de uma monarquia centrada na pessoa do rei e, depois de uma revolução imensa, terminaram com um imperador em torno do qual o Estado voltou a se concentrar… O homem havia mudado. A legitimidade havia mudado. As instituições haviam mudado. Até a linguagem política havia mudado. Mas a necessidade de um homem forte havia retornado sob outra forma. Por isso, Napoleão não deve ser interpretado como o «salvador da França» diante do legado de Luís XIV, mas como uma advertência adicional: quando as instituições fracassam em produzir uma reforma racional, a alternativa pode não ser a de instituições melhores, mas a de uma personalidade mais poderosa. De Luís a Napoleão Talvez seja essa a verdadeira questão diante dos Estados Unidos, de Israel e do Irã. O problema não é apenas Trump, Netanyahu ou Khamenei. Como todos os governantes, um dia eles deixarão o poder. A questão é o que deixarão para trás. Se as instituições estiverem mais fortes depois de sua saída, o Estado terá superado essa prova. Mas, se estiverem mais fracas, se a sociedade estiver mais dividida e se o sistema depender mais de uma única personalidade, então poderá começar a fase mais perigosa. Pois as sociedades que perdem a confiança nas instituições nem sempre procuram instituições melhores. Às vezes, procuram um homem mais forte. É exatamente isso que faz de Napoleão uma parte essencial dessa história. O perigo de «O Estado sou eu» não termina necessariamente com a queda daquele que o encarna. O homem pode cair, e outro vir depois dele para dizer a mesma coisa em uma linguagem diferente. Antes de procurar um novo Napoleão O que os Estados Unidos, Israel e o Irã precisam, portanto, não é de um «salvador», mas, cada um de acordo com seu sistema e suas circunstâncias, de um retorno à racionalidade política antes do choque. Um retorno que devolva às instituições sua importância, restabeleça a distinção entre o interesse do Estado e o do governante e permita ao sistema político corrigir a si mesmo antes que a mudança se torne impossível a partir de dentro. Nos Estados Unidos, o país deve continuar sendo maior que Trump. Em Israel, o futuro do Estado deve ser maior que o futuro político de Netanyahu. No Irã, o Irã, com sua história, sua sociedade e seus interesses, deve continuar sendo maior que a República Islâmica, que a família Khamenei e que qualquer líder supremo. Pois o verdadeiro teste de um Estado não é a quantidade de poder que um governante consegue concentrar em suas mãos. É a quantidade de poder que permanece em suas instituições quando ele parte. Atribui-se a Luís XIV, perto do fim de sua vida, uma frase talvez mais importante que «O Estado sou eu»: «Eu parto, mas o Estado permanecerá sempre». Talvez a distância entre essas duas frases resuma tudo aquilo sobre o que esses três países precisam refletir hoje. A primeira é a lógica do governante que vê o Estado através de si mesmo: «O Estado sou eu». A segunda é o começo da sabedoria política: «Eu parto, o Estado permanece». Mas a experiência francesa acrescentou entre elas uma terceira advertência, que Luís XIV nunca pronunciou: se as instituições não forem capazes de sobreviver ao homem, o que vier depois talvez não seja um sistema mais forte… mas um homem mais forte.
Religião

Sem "sobhiyé" para as Clarissas de Rayaq

A fundação de um mosteiro das Clarissas no Vale do Becaa, um acontecimento espiritual de grande importância
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Por Fady Noun - Publicado em set 8, 2026 - 12:56
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Uma multidão de fiéis, algo incomum em Rayaq, esteve presente na cerimônia de fundação do novo mosteiro.
Um mosteiro da ordem contemplativa das Clarissas, fundada por Santa Clara (século XIII) segundo o modelo da ordem de São Francisco, nasceu em Rayaq (16.000 habitantes), pequena cidade da planície central do Vale do Becaa, no dia 11 de agosto passado, festa de Santa Clara. O novo mosteiro foi fundado intencionalmente em meio rural e enriquecerá com sua oração o “celeiro de trigo” do Líbano, ligado ao país pelo patriarca Hoayek após a fome de 1915. A cerimônia de fundação do novo mosteiro foi presidida por Dom César Essayan, vigário apostólico dos latinos no Líbano. A população cristã do bairro cristão de Rayaq (Rayaq el-Faouka), que compareceu em massa, reservou uma acolhida inesquecível e de grande generosidade às cinco monjas de hábito cinza. A fundação foi considerada por muitos dos presentes “um grande acontecimento espiritual”. De fato, a cerimônia foi vivida como um verdadeiro “milagre”, o do “retorno de Deus” a uma região que sofre com o isolamento em relação à capital e com a desertificação espiritual do mundo. O bispo latino do Líbano confirma esse sentimento: “Não disse isso na minha homilia, mas as irmãs perceberam: a população fala de um milagre. É bonito! Mas não é um milagre como os outros. A população sofre de uma espécie de solidão. O fato de irmãs vindas da Itália terem deixado seu mosteiro, e até o terem vendido, para virem se instalar num lugarejo perdido do Líbano, mostra que o Senhor finalmente se lembrou delas.” Procissão das relíquias de Santa Clara no terreno que rodeia o mosteiro. À frente, a irmã Damiana, a superiora. Essa emoção também tomou conta da irmã Gloria (italiana, 43 anos), principal porta-voz do grupo: “Enquanto tudo morre, enquanto as pessoas já não têm esperança, enquanto os jovens só querem uma coisa, deixar um país que parece sem futuro, nós vimos aqui comprar uma casa!”, exclama ela. No entanto, a instalação das cinco monjas — Damiana, Gloria, Celina, Maria Lucia, vindas de mosteiros italianos, e Maria Grazia, irmã do mosteiro da Cidade do México — ainda terá de esperar alguns meses, tempo necessário para concluir os trâmites de desocupação e adaptação do edifício, atualmente ocupado de fato por várias famílias de deslocados, além de um terreno vizinho, que deverá garantir à comunidade uma espécie de autossuficiência. Ascensão e declínio da cidade Conhecida por ter sido uma importante estação ferroviária que servia especialmente Damasco e Alepo, de onde os viajantes seguiam para o lendário Orient Express, e também por sua base aérea militar, a cidade de Rayaq já foi bastante próspera. A mudança dos tempos e o fechamento, pela França, de uma grande oficina de manutenção contribuíram bastante para o seu declínio. Hoje ela abriga cristãos, em sua maioria greco-católicos, além de uma população xiita crescente, aumentada por numerosas famílias deslocadas pela guerra. Essa mudança demográfica repercutiu na composição da prefeitura local. Mas o município continua sendo, por tradição, uma espécie de microcosmo do Líbano, com minorias maronita, ortodoxa e armênia, cada uma com sua própria igreja. O centro urbano mais próximo é Zahlé, capital do Becaa, a cerca de doze quilômetros de distância. Da época do mandato francês resta uma relíquia curiosa: é um dos poucos lugares do Líbano onde ainda se joga belote! Foi Rayaq que nos escolheu Todo o Vale do Becaa se emocionou com a notícia da fundação. Segundo a irmã Glória, foram necessárias seis viagens exploratórias antes que a escolha recaísse sobre Rayaq. No fim, a localidade foi escolhida graças à população de seu “bairro cristão”, que se empenhou para encontrar o edifício e os terrenos necessários ao projeto. “Nem sequer sabíamos que Rayaq existia, comenta a irmã Gloria a esse respeito. Foram os próprios habitantes que, ao saberem que umas religiosas queriam instalar-se nos arredores, vieram procurar-nos! Este gesto pareceu-nos ser um sinal claro por parte do Senhor. Depois veio o estudo (aparentemente trabalhoso) do árabe!” A fundação é fruto de um discernimento de cerca de dez anos, esclarece ainda, em substância, a porta-voz da comunidade. O primeiro impulso veio do Líbano. A fundação deste mosteiro respondia a um desejo da Igreja local de ver as Clarissas instalarem-se também num meio menos rico, onde poderiam atrair vocações – já têm um mosteiro em Yarzé, uma zona de vilas nos arredores de Beirute. O exemplo dos trapistas de Tibhirine Para as próprias Clarissas, independentemente do Líbano, foi a entrega total dos trapistas de Tibhirine (Argélia), a comunidade cujos membros foram sequestrados e martirizados durante a guerra civil argelina (1994), que despertou o desejo de uma entrega total. “Esta história tocou-nos profundamente, sobretudo porque foi toda uma comunidade, e não apenas uma pessoa, que subiu aos altares”, explica a irmã Gloria. O convite a uma inserção profunda em meio rural no Líbano, que as tinha deixado hesitantes no início, foi aceite depois da nomeação de um amigo da comunidade, o padre Dominique Mathieu, como bispo latino do Irão (2024). “Bem consciente da dificuldade, ele aceitou por fé, comenta a irmã Glória. O seu “sim”, a sua coragem e a sua confiança no Senhor interpelaram-nos profundamente e dissemos a nós mesmas: “e nós?” A partir daí, começámos a considerar seriamente a possibilidade de vir para aqui e, depois de muito orarmos, decidimos lançar-nos nesta aventura.” A dimensão islamo-cristã da fundação é evidente. Ainda mais porque a Bekaa continua marcada pelas violências que, durante os anos da guerra civil libanesa e da ditadura síria, custaram a vida, com dez anos de intervalo, ao padre jesuíta Nicolas Kluiters, brutalmente assassinado em 1985 perto da aldeia cristã de Barqa, cuja causa de beatificação está em estudo, e ao postulante Ghassibé Keyrouz, que o padre Kluiters tinha acolhido sob a sua proteção, morto no auge da onda de execuções confessionais de 1975, quando se dirigia a Nabha para festejar o Natal em família. Em todo o caso, as monjas sabem que, se os ecos da guerra civil se vão desvanecendo, os da guerra propriamente dita estão bem presentes, com os bombardeamentos que a acompanham, as destruições e as suas consequências económicas e sociais: numerosas famílias refugiadas do sul do Líbano; êxodo silencioso para a cidade ou para o estrangeiro de jovens licenciados de todas as origens; êxodo – por vezes injustificado – da alta e média burguesia cristã, que fogem da situação das zonas rurais “invadidas” para se instalarem em aglomerados urbanos confessionalmente homogéneos. Uma chama que treme na noite Apesar de tudo, “no mosaico de comunidades cristãs que vivem na periferia do país, a fundação de um convento é um grande sinal de esperança, assegura a historiadora Névine Hage-Chahine, que vive em Zahlé. É uma centelha, uma chama frágil que treme na noite, mas ainda assim uma chama. Essa chama vai atear o incêndio da oração. Uma senhora disse-me: “Mas você percebe, nem vamos vê-las!” No entanto, é isso mesmo que importa. O essencial é invisível aos olhos.” É certo que, exceto para as compras, a população de Rayaq não verá “as suas” monjas. Nada de “sobhiyé” com as Clarissas. Nada de manhãs de conversa fiada em volta de um café. No entanto, se prestar atenção, poderá ouvir os seus cânticos e, eventualmente, ajudá-las nos dias de neve e de muito frio. São essas as vocações. ​ Como todas as jovens italianas, a irmã Gloria conta que frequentou a universidade, saiu com os amigos e conheceu o amor humano… Mas aos 24 anos, no fim de um percurso interior cujo segredo só Deus conhece, diz ter finalmente encontrado a sua “casa” atrás da clausura, numa oferta radical a Cristo que ela própria um dia considerara “exagerada”. ​ O perdão, chave da paz ​ O que lhe diz sobre o mundo, irmã Glória, o Senhor da história? Sente-se por vezes preocupada? A sua resposta sugere que as Clarissas não vivem à margem da atualidade. Com os olhos postos nas intervenções do Papa Leão XIV, a sua oração incessante é para que a lógica do perdão, que está no coração do “Pai Nosso”, prevaleça sobre a lógica da força, para que nunca se acredite que a guerra é inevitável, e para que a fé e a esperança num desfecho pacífico dos conflitos sejam sempre preservadas. ​ “Sim, diz a irmã Glória, às vezes fico preocupada. Todas nós ficamos, de vez em quando… O que mais me preocupa é que ninguém, entre os que decidem o destino do mundo, vislumbre ou anuncie a única solução para todos os conflitos, os que estão em curso e os que nascerão deles: o perdão!”
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E agora, Hezbollah, estão satisfeitos?
Por
Youssef Mouawad
Publicado

Este país, afinal nosso, merece mais do que a sua resistência! Mas que maldição paira sobre nós, neste Oriente entregue aos caprichos de incendiários e aspirantes a mártires? Cada vez que os líderes árabes se entregaram a uma retórica inflamada e foram arrastados para guerras, estivemos à beira do desastre. Assim, na véspera de Junho de 1967, as provocações do Partido Baath sírio, no poder em Damasco, arrastaram o Egipto e a Jordânia para uma guerra de seis dias. Por um lado, o Egito perdeu a Península do Sinai, o controlo da Faixa de Gaza e o controlo do Canal do Suez; do outro, a Síria perdeu as Colinas de Golã, enquanto o Reino Hachemita da Jordânia teve a Cisjordânia e a Cidade Velha de Jerusalém tomadas (1). Nem Damasco nem Amã recuperaram deste erro até hoje; os territórios que Israel lhes tinha "roubado" nunca seriam recuperados. Só o Líbano, que se manteve à margem, escapou ao desastre e conseguiu preservar todos os seus 10.452 km² de território. Mas nem os palestinianos, nem a Haraqa al-Wataniya, nem os iranianos, que chegaram em último lugar, viam as coisas desta forma. Precisavam de nos envolver a todo o custo num conflito que estava perdido desde o início, para demonstrar a solidariedade árabe e islâmica. Esta mesma Haraqa al-Wataniya, apoiando-se na OLP, acreditava que poderia alcançar os seus objectivos em 1975 atacando os bastiões "libaneses" e pró-libaneses. Enganada pela sua própria retórica insurrecional, rejeitou a política "isolacionista" do regime no poder, uma política que, no entanto, tinha protegido o Sul do Líbano de uma invasão israelita. Mas o que podíamos fazer? Estava escrito que seríamos ocupados mais cedo ou mais tarde por forças estrangeiras. A diferença é que, neste momento, estamos num estado de beligerância não por solidariedade árabe, mas para vingar o martírio do Líder Supremo iraniano. Muito bem, "vinte anos depois"! Estando no olho do furacão, que os números falem por si e admitam que o Hezbollah ultrapassou o seu recorde de 2006. Durante os 33 dias de guerra, foram registadas 1.200 mortes, enquanto hoje, no mesmo período, já se registam 1.400 vítimas (2). Muito bem, Hezb! Continuemos: enquanto há vinte anos mais de 100.000 casas foram destruídas, desta vez a destruição sistemática pulverizou bairros inteiros e aldeias fronteiriças foram apagadas do mapa (3). E para concluir a comparação, observemos que, enquanto o milhão de deslocados em 2006 pôde regressar a casa imediatamente após o fim dos combates, tal não será possível na situação actual: a deslocação de 1.200.000 pessoas desde o mês passado corre o risco de ser irreversível. Devemos agora esperar, como disse um observador, uma transformação duradoura do território e uma reconfiguração espacial. Uma reconfiguração geográfica do Sul que consiste em "desarticular as áreas xiitas" cortando as rotas de comunicação. A ideia é estabelecer uma zona tampão, talvez um prelúdio para uma anexação gradual. Muito bem, Hezbollah! O Ocidente, o nosso mihrab! Desde o momento da independência, o Líbano optou por se distinguir e diferenciar dos seus vizinhos, que estavam atolados em anacronismos e retórica nacionalista. Sem renegar as nossas origens orientais, e muito menos a fraternidade árabe, mas com considerável autoconfiança, olhávamos para o Ocidente, que tínhamos tomado como modelo e mihrab. O nosso Estado desconfiava de ideólogos disruptivos, demagogos fanáticos e belicistas. Era esta diferença entre nós e os nossos vizinhos árabes que nos definiria e garantiria o florescimento das liberdades formais e da livre iniciativa no nosso território — algo estritamente proibido sob Nasser, sob os Assad (pai e filho) e sob Saddam Hussein. Mas esta particularidade libanesa constituía uma elevada traição aos olhos de certos partidos políticos e de grande parte da nossa população. Em 1956, o Presidente Chamoun pôde recusar-se a romper as relações diplomáticas com o Reino Unido e a França, que se tinham deteriorado na Crise do Suez. Mas a partir de 1990, não tínhamos mais meios de resistir: iríamos aliar-nos definitivamente a Damasco… E desde então, apesar da queda do regime Baathista, temos lutado para sair deste impasse. E, para dizer a verdade, ainda não terminámos com o Hezbollah. De um confronto para o outro, superam-se: passam de uma catástrofe para outra! 1- Além disso, Golda Meir não deixou de dizer ao Rei Hussein: tudo isto seria ainda seu se o senhor não tivesse intervido no dia 6 de Junho! 2- E até hoje, já ultrapassámos os dois mil mortos, sem contar com os feridos e os que ficaram incapacitados para a vida. 3- Teremos muito tempo para fazer a contagem decrescente.

O sayyed que mostrava o caminho
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

O espírito e o legado do ulama Mohammad Hassan el-Amine, autoridade de referência do xiismo amelita, libanista e estatista, permanecem mais atuais do que nunca cinco anos após a sua partida. Há cinco anos, a 10 de abril de 2021, o ulema xiita Mohammad Hassan el-Amine sucumbia em Sidom a uma COVID contraída aos setenta e cinco anos. O Líbano desmoronava-se já havia muito sob os seus olhos — e continuou inexoravelmente a desintegrar-se depois dele. Talvez paradoxalmente magnânima nesta ocasião, a Morte concedeu a este homem sábio e bonachão — como havia feito, quase uma década antes, ao seu amigo Hani Fahs — a oportunidade de não sofrer mais perante o espetáculo aterrador da agonia contínua do País do Cedro e, com ela, da comunidade xiita. Sem dúvida que a finitude lhe fez uma reverença derraçadeira e gentiïl ao arrebatá-lo deste mundo antes que as suas profecias mais sombrias começassem a cumprir-se com tanta exatidão. Ou talvez se trate desse consolo último que nos permite sobreviver ao desaparecimento dos referenciais fundamentais que foram progressivamente fundando toda uma visão do político assente na moderação, na convivência e na paz. Cinco anos depois, as ruínas do país ostentam exatamente os contornos que Mohammad Hassan el-Amine havia traçado. Reler os seus textos hoje depara uma forma de gratidão tardia por essa coragem de clarividência que se viu obrigado a desdobrar no próprio seio da sua comunidade, contra a guarda pretoriana que se havia erigido como sua protetora, e em nome de uma ideia da sua comunidade que esses guardiões se empenhavam metodicamente em desfigurar. O homem de Nájafe e de Sidom Nascido em 1946 em Chakra, no coração do Jabal Amil, no seio de uma família cuja linhagem religiosa remontava a várias gerações — o grande Mohsen el-Amine, autor do ʿAyan al-Shia , contava entre os seus antepassados —, havia partido aos catorze anos do seu recãnto periférico do mundo para as ruelas eruditas de Nájafe, onde passou doze anos a absorver o fiqh, a filosofia e a tradição, sem nunca deixar de ler em paralelo o que os arautos da proibição mal frequentavam: a história das religiões, os grandes textos do Renascimento europeu, Averróis relido a partir das margens, ou ainda Jamaleddine al-Afghani como fonte de interrogações inesgotáveis. Regressou em 1972 trazendo uma subtil mistura de dúvida fécunda, de capacidade para separar o divino do humano sem negar um em benefício do outro, e da convicção de que o fiqh sem um conhecimento profundo da história não é, na realidade, mais do que uma extensão infinita, uma perpetuação trágica do passado. Juiz do tribunal religioso em Tiro, depois em Sidom, presença intelectual numa cidade de maioria sunita onde habitava sem se recolher ao ensimesmamento comunitário, Mohammad Hassan el-Amine animava o Multaqa al-Thulatha , serões de terça-feira em sua casa onde se cruzavam poetas e políticos, eclesiasticos e leigos, onde D. Selím Ghazal vinha cruzar o aço com o sayyed numa amizade que nada — nem as clivagens confessionais nem as fraturas políticas — conseguiria jamais romper. Desde Sidom, Mohammad Hassan el-Amine construiu assim uma figura intelectual singular no panorama xiita libanês, que reivindicava, num meio comunitário cada vez mais letal e totalitário, a moderação, a justiça, a liberdade e a cultura da vida, e que recusava sacrificar qualquer uma delas em nome de uma doutrina, de uma ideologia ou de uma vã pseudo-retórica populista. O homem havia compreendido na perfeição que a questão que o Líbano há séculos coloca reside nesta dialética: libertar a religião da política que constantemente procura confiscá-la. Reformista até à medula, no espírito da tradição amelita libanesa de que era, na senda do imam Mohammad Mahdi Shamseddine, uma das autoridades mais eminentes do Líbano. A vaga castanha que devastava o seu entorno? Era-lhe perfeitamente imune. Um resistente contra a resistência confiscada Todavia, o sayyed era um resistente. Ninguém podia questionar a sua legitimidade a esse respeito. Havia dado guarida a Ragheb Harb na sua casa de Sidom. Havia escondido Abdel Latif el-Amine durante os anos sombrios da ocupação israelita. Havia sido preso em julho de 1984 e expulso para Beirute pelos serviços de inteligência militar israelitas. Mas acreditava firmemente no princípio de uma resistência nacional libanesa que distinguia cuidadosamente, e há muito tempo, da resistência armada comunitária. Esta distinção assentava numa convicção arquitetónica, fundada numa antropologia e numa teologia, segundo a qual a resistência só tem valor real quando é sustentada por um povo e inscrita num projeto de Estado — em vez de ser cedida a um partido-milícia que acaba sempre, tendo monopolizado a guerra, por monopolizar também a paz, a representação e a vida e a morte daqueles que pretende defender. Dizia-o sem rodeios, numa entrevista concedida a Sandra Noujeim do L’Orient-Le Jour em julho de 2015, no momento em que o envolvimento miliciano do Hezbollah na Síria terminava de revelar a sua verdadeira natureza sob as camadas de retórica que a encobriam: «A resistência no Líbano não pode cumprir as condições do seu êxito sem unidade libanesa, sem um exército capaz de enfrentar o inimigo e sem instituições estatais que sirvam de referência ao povo libanês.» E mais adiante, com uma franqueza que, na boca de um respeitado sayyed xiita, era de uma coragem exemplar: «Ao tornar-se um esteio do regime sírio, que em nada difere das outras ditaduras repressivas da região, a resistência desnatura-se progressivamente.» A moumanaa, o célebre eixo da resistência que a propaganda do Partido de Deus brandiu como um estandarte sagrado? «Onde está, afinal? Não a vejo.» A resposta, perfeitamente calma, fazia estilhaçar o mito fundador do Hezbollah sobre a luta pelos oprimidos. O diagnóstico e o seu cumprimento A participação do Hezbollah na guerra síria constituiu uma prova suplementar de que o partido havia transformado a comunidade xiita libanesa em combustível de um projeto que havia deixado de ser xiita no sentido da tradição do Jabal Amil, para se tornar persa nas suas finalidades escatológicas e mercenarías nas suas modalidades terrestres. O verão de 2006 já havia custado muito caro, e o veredicto continuava a ser muito questionável sobre as «vitórias divinas» proclamadas pelo Hezb. A década síria havia já começado a assinar o verdadeiro começo do fim… antes de os mísseis de setembro de 2024 e depois os de março de 2026 virem escrever o capítulo mais brutal e mais trágico. Mohammad Hassan el-Amine possuía esse dom singular de formular, sem acrimónia, verdades que os seus interlocutores se recusavam a ouvir, e de colocar o diagnóstico sobre a mesa sem se deleitar com a ferida que causava. A tristeza lúcida do médico que vê a doença progredir porque o doente recusa o tratamento, e que continua não obstante a repetir, dia após dia, a receita, mesmo sabendo que aqueles que o escutam são cada vez menos. Tal era o seu posicionamento filosófico, e é isso que percorria os seus textos. A wilayat al-faqih como fundamento da legitimidade política? Havia passado uma vida inteira a demonstrar que o governo, na tradição islâmica bem compreendida, pertence ao domínio dos assuntos humanos e não do mandato divino, que a dawla nasce no campo das mubahaat , das coisas permitidas, e que confundir a sharia com a arquitetura do poder político é cometer exatamente a traição que Muawiyah cometeu no seu tempo: roubar a justiça em nome da justiça. A democracia como antítese do islão? Havia-se preocupado em mostrar que a democracia funciona como um mecanismo, que o princípio corânico da shura aguarda apenas ser traduzido em instituições, e que há catorze séculos os muçulmanos perderam uma oportunidade histórica de inventar a democracia antes dos europeus. Karbala contra a martiropatia O sayyed já não está para assistir ao suicídio da seita guerreira, que destruiu consigo o conjunto do Jabal Amil, o cedeu ao inimigo e provocou sem pejo, para maior glória do faqih, o deslocamento de toda a sua população. O Hezbollah emerge hoje das cinzas da sua própria implosão militar. E no entanto, entre as ruínas ainda fumegantes desta catástrofe, a retórica martiropática continua a funcionar, como se a gravidade do desastre fosse incapaz de quebrar o círculo diabólico da ideologia da morte. Uma ideologia que el-Amine havia combatido toda a sua vida, em nome de uma dignidade superior da vida, convicto de que o xiismo, tal como o concebia desde as suas leituras em Nájafe até às suas últimas conferências em Sidom, se apresenta antes de mais como um projeto de libertação humana, antes de ser instrumentalizado como programa de sacrifício ritual ao serviço das ambições imperiais de Teerão. A martiropatia, esse culto estrutural da morte que transforma a derrota em vitória espiritual e a destruição em sacrifício fundador, ocupa o coração teológico da lógica do Hezbollah, sem que ninguém dentro do sistema possua as ferramentas conceptuais para dele sair. Foi isto que el-Amine havia compreendido ao reler Karbala como um apelo a nunca tolerar a injustiça, a recusar a submissão ao tirano e a distinguir o testemunho ( shahada ) da busca compulsiva do martírio ( istishhad ) erigida em finalidade. Nas suas conferências de 1992 e 1993 em Teyr Debba, revertia o slogan «Cada dia é Ashoura, cada terra é Karbala» contra a leitura dominante que a milícia e os seus panegiristas haviam feito dele. Este slogan, explicava, significa que a luta pela justiça se coloca em cada época e em cada lugar, e que a verdadeira homenagem prestada ao imam Hussein é construir o mundo que ele preconizava. E que, portanto, repetir sem fim a cena da sua imolação trai precisamente aquilo que ele quis transmitir. Mas como convencer disso uma multidão criada desde o berço na ideia fixa e anestesiante de que a vida verdadeira passa pelo martírio? O legado e a búnssola O que torna o pensamento de el-Amine insubstituível no Líbano de hoje reside na qualidade da alternativa que propôs e que ainda está por construir. Um xiismo liberto da tutela de um aparelho militar que confiscou a decisão de guerra e paz a uma sociedade inteira sem jamais lhe pedir o seu consentimento, e que impôs o seu destino a uma comunidade instaurando uma hegemonia pelas armas ao serviço de um projeto alheio. O legado de Mohammad Hassan el-Amine, mais do que nunca, é o de uma identidade xiita libanesa luminosa, radiante, cujo ancoramento primeiro seja o Líbano e a herança do Jabal Amil, relidos sem a servidão política que a wilayat al-faqih impõe sobre eles desde 1979. Uma visão do Estado como projeto comum de justiça e liberdade, que transcende as pertenças sectárias e é capaz de acolher a pluralidade libanesa numa arquitetura civil fundada no direito e na democracia, longe das armas, do narcotráfico e dos usos mefistoflélicos herdados dos Assassinos. Esta visão libanesa, Mohammad Hassan el-Amine — dignitário religioso, filósofo, escritor e poeta — havia construído na prática quotidiana de um homem simples, austero, afetuoso, que habitava numa cidade de maioria sunita, participava em conselhos interconfessionais, recebia de braços abertos, no espírito de convivência do Grande Líbano, sacerdotes maronitas e intelectuais laicos, que lia Mohammed Arkoun com tanto interesse como Shahid Sadr, e que recusava que a sua posição e as suas crenças religiosas ditassem as suas relações com os seus concidadãos. A proximidade, o corpo a corpo com a alteridade, a convicção de que o islão constitui o património da civilização humana no sentido mais lato… tudo isso fazia dele uma espécie de clérigo-erudito, de mujtahid-humanista, cuja profunda tradição nunca poderia entravar a liberdade de pensar e de ser com e para os outros. Shia al-ʻaql wal-damir — os xiitas da razão e da consciência. Eis o caminho que Mohammad Hassan el-Amine, na senda dos seus ilustres predecessores do Jabal Amil, propõe aos xiitas libaneses. É um projeto de futuro. Para a comunidade xiita, como, de resto, para todas as comunidades libanesas, atualmente desorientadas e em presa das convulsões identitárias mais violentas, como acontece sempre em tempos de crise. À semelhança dos seus amigos Mohammad Mahdi Shamseddine, Hani Fahs, Nassir el-Assaad e Mohammad Hussein Shamseddine, e de tantos outros, o legado de Mohammad Hassan el-Amine está aí para nos recordar que a búnssola é o Estado do Grande Líbano como pátria definitiva para todos os seus filhos, soberano, livre, independente e plural. No silêncio da eternidade, ainda espera — agora mais do que nunca — ser ouvido.

A névoa da não-vitória (2/2)
Por
Rayyan Al-Basseer
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A primeira parte desta análise estabeleceu que nem os Estados Unidos nem o Irão saíram de seis semanas de guerra com uma vitória estratégica. Esta segunda parte examina o que essa não-resolução significa para os actores que têm agora de viver com as suas consequências: Israel, o Líbano, a Turquia, os Estados do Golfo e a aliança ocidental em sentido lato. O que se segue é um panorama das contradições e dos cálculos perigosos que configuram o próximo capítulo regional. Israel: a doutrina da perturbação permanente O primeiro-ministro israelita entrou na campanha contra o Irão como o seu principal arquitecto e promotor. Dela sai submetido a pressões de ambos os lados em simultâneo. Por um lado, os falcões militares e políticos que queriam prosseguir as operações apesar do ultimato norte-americano para as suspender, e que consideram que o cessar-fogo, à semelhança do acordo iemenita que o precedeu, deixou Israel mais exposto do que antes. Por outro, uma oposição revigorada que sempre descreveu a estratégia de Netanyahu — escalada permanente sem horizonte político — como uma fórmula de guerra sem fim antes que de segurança duradoura. Sob estas pressões políticas subjaz uma doutrina de segurança que sofreu uma mutação fundamental desde 7 de Outubro. Na sequência imediata dos ataques do Hamas, Israel operou uma viragem da dissuasão para a prevenção, partindo do princípio de que a acção militar preventiva, mais do que a ameaça credível de represálias, constitui o único garante fiável da segurança israelita. Gaza foi a primeira aplicação em plena escala desta doutrina, e os seus resultados expuseram uma limitação central: a força esmagadora pode destruir infra-estruturas e eliminar lideranças, mas não pode produzir um controlo político sustentado nem impedir a reconstitução progressiva. O Hamas sobreviveu enquanto actor político. Israel mantém uma dominação militar incontestada sobre a Faixa sem chegar a governá-la, o que significa que, se bem que a ameaça imediata sobre as localidades circundantes tenha sido neutralizada, as condições para uma eventual reconstitução do Hamas não o foram. A doutrina adaptada combina agora zonas-tampão desmilitarizadas com esforços sustentados para manter os actores hostis absorvidos pelos seus conflitos internos. O objectivo não é governar esses territórios, mas impedir que qualquer ameaça militar coerente se reconstitua no seu interior. Trata-se de uma doutrina de perturbação permanente antes que de vitória decisiva e pontual. Inquéritos recentes indicam que apenas cerca de 22 % dos israelitas considera que o seu país ou os Estados Unidos ganharam esta guerra, ao passo que só 32 % se declara satisfeito com o resultado global. Ao mesmo tempo, 79 % continua a apoiar a prossecção das operações militares no Líbano. As eleições legislativas israelitas de 2026 têm todas as probabilidades de agudizar estas tensões antes que de as resolver. Os dirigentes políticos enfrentarão eleitorados que exigem garantias de segurança, não limiares estratégicos abstractos — pressão que deverá manter o rumo das operações militares no Líbano até ao desarmamento completo do Hezbollah, complementadas por uma pressão diplomática sustentada sobre o governo libanense, ataques selectivos contínuos e zonas-tampão desmilitarizadas concebidas para impedir que o Hezbollah recupere a sua postura militar anterior a 2023. Uma nota se impõe aqui sobre a expansão territorial. O objectivo militar declarado de Israel é o estabelecimento de zonas de segurança intermédias sob a forma de perímetros avançados destinados a afastar as ameaças das fronteiras existentes. Israel não pode, portanto, equacionar a extensão da sua soberania sobre novos territórios. Anexar de forma permanente terras do sul do Líbano aproximaria os civis israelitas das capacidades residuais do Hezbollah em vez de os afastar delas, o que é exactamente o contrário do que a doutrina de prevenção exige. O balanço histórico confirma esta leitura: Israel retirou-se do Sinai nos anos oitenta, do sul do Líbano em 2000 e de Gaza em 2005. A única excepção é o planalto do Golã, formalmente anexado e posteriormente reconhecido pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump, na sequência de um intenso lobbying dos grupos pró-israelitas em Washington. Quanto ao projecto de uma Grande Israel em sentido lato, nunca deu origem a um mapa único de consenso, nem sequer nas correntes mais duras da direita israelita. Se o maximalismo territorial guiasse realmente a política israelita, as retiradas de Gaza e do sul do Líbano — que figuram ambas em pelo menos algumas versões desse mapa — seriam inexplicaveis. O Líbano: entre esperança desvanecida e catástrofe suspensa No interior do Líbano, o panorama que há um ano parecia cautelosamente optimista escureceu consideravelmente. O governo de Nawaf Salam, que tomou posse no início de 2025, era genuinamente promissor: primeiro governo libanense em trinta anos a suprimir a célebre fórmula «Povo, Exército e Resistência» da sua declaração ministerial, privando assim o Hezbollah da sua cobertura política oficial. O Exército libanense começou a posicionar-se a sul do Litani pela primeira vez em décadas. O Hezbollah, severamente enfraquecido pela guerra de 2023-2024 com Israel e pela eliminação da sua direcção, parecia, por um momento, verdadeiramente contido. Contudo, a actuação do movimento desde a sua decisão de se incorporar na guerra a 2 de Março demonstra claramente que não havia deixado de se reconstituir e de se adaptar, pivotando para uma postura de guerrilha mais dispersa. Mais importante ainda, procura hoje capitalizar a viragem norte-americana em relação ao Irão para reconstruir a sua legitimidade interna, utilizando o momento presente para impedir qualquer regresso aos arranjos pré-guerra ou às condições político-militares que anteriormente o haviam despojado da sua cobertura governamental oficial. O grupo avalia activamente as formas de marginalizar e enfraquecer os seus adversarios políticos, primeiro por vias legais e parlamentares e, se essas vias se revelarem insuficientes, mediante assassinios e liquidações selectivas do tipo que o Líbano padeceu entre 2005 e 2013. O sistema consociacional libanense, baseado numa partilha do poder confessional rígida, torna excepcionalmente difícil qualquer acção decisiva contra um único actor. Neste contexto tenso inscreve-se uma crise de deslocamento que afecta mais de um milhão de pessoas desenraizadas, a maioria proveniente de comunidades alinhadas com o Hezbollah ou delas dependentes. Israel está determinado a impedir o regresso dessas populações ao sul do Líbano antes do desarmamento completo do Hezbollah. Os potenciais governos doadores continuam a condicionar o seu apoio a critérios de desarmamento que o Hezbollah se recusa a satisfazer. Os governos do Golfo, mais concretamente, relutam em financiar um Estado cooptado pelo Hezbollah, na suposição de que as consequências económicas da guerra nos seus próprios países lhes permitam ainda dar com tanta generosidade como antes. O resultado, já visível, é uma crise de deslocamento prolongada num país que deriva para a mesma catástrofe suspensa que Gaza: demasiado destroçado para se reerguer, demasiado armado para ser governado, demasiado dividido para encontrar sozinho uma saída. A Turquia: potência incontornável de um vazio regional Um Irão enfraquecido não estabiliza automaticamente a região. Cria um vazio. Antes mesmo do início da guerra contra o Irão, Ancara era já o actor externo dominante na Síria pós-Assad. A degradação do Irão acelerou a centralidade turca em qualquer ordem regional susceptível de emergir — na Síria, no Iraque, e sobretudo na forma como a opinião política muçulmana se estrutura. Este poder crescente coloca a Turquia numa trajectória de colisão cada vez mais directa com Israel. Os responsáveis israelitas têm sido cada vez mais explícitos a esse respeito, encarando a Turquia como uma ameaça estratégica emergente, em particular na Síria, onde Ancara detém mais cartas do que qualquer outro actor. A questão de por que razão a Turquia será um actor regional incontornável após a guerra contra o Irão deixou de ser uma questão: é uma realidade. O Golfo: tripla pressão sobre um contrato social fragilizado Os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo absorveram o choque económico mais imediato desta guerra. O contrato social dos países do Golfo — a promessa implícita de uma prosperidade quase ilimitada em troca da lealdade política às dinastias reinantes — assenta numa economia regional estável, próspera e interligada, e encontra-se hoje sob tensão. O CCG defronta-se com três desafios simultâneos, cada um dos quais seria exigente por si só. Deve, em primeiro lugar, restaurar a confiança no modelo económico que construiu desde os anos setenta, modelo que depende de exportações petrolíferas previsíveis, de rotas de trânsito seguras e de investimentos estrangeiros sensíveis à instabilidade regional. Deve depois decidir como gerir um Irão ferido mas não destruído, que conservará, em quase qualquer cenário de cessar-fogo, a capacidade de ameаçar novamente as infra-estruturas do Golfo — a acomodação arriscando encorajar Teerão, o confronto arriscando provocar um novo ciclo de devastação económica. Em terceiro lugar, e talvez o mais urgente, os Estados do Golfo precisam de lançar um programa de recuperação económica acelerada. O Ocidente ausente: um erro estratégico duradouro Ao longo desta crise, a característica mais marcante da política europeia e ocidental em sentido lato foi a sua ausência. Enquanto os Estados Unidos combatiam um regime que não poupou qualquer interesse ocidental, os governos europeus observavam na sua maioria das bancadas, aproveitando a crise iraniana para ajustar contas políticas com a administração Trump em vez de se confrontarem com a realidade estratégica de que a ameaça iraniana não se limita aos interesses norte-americanos. Isto será recordado como um erro estratégico profundo. Independentemente do que se pense dos métodos de Donald Trump, a realidade subjacente permanece: um Irão encorajado emerge deste conflito ao mesmo tempo que um Golfo cujos fundamentos económicos estão sujeitos a uma pressão sustentada. Ao escolherem não se juntar, nem sequer apoiar minimamente, o esforço liderado pelos Estados Unidos para enfraquecer o Irão, os actores ocidentais recalcitrantes favoreceram de facto um equilíbrio de forças mais perigoso, no qual a alavancagem iraniana cresce, a dissuasão se erode e o custo de um eventual confronto se torna consideravelmente mais elevado. A zona cinzenta como horizonte estratégico As capacidades assimétricas residuais do Irão não permanecerão inactivas enquanto as negociações diplomáticas seguem o seu curso. Na falta de um acordo satisfatório para o presidente Trump, tanto os Estados Unidos como Israel têm sólidas razões estratégicas para manter um padrão de operações selectivas. Não obstante, as três partes — e o CCG — não podem permitir-se um regresso à guerra aberta tal como se travou em Março e no início de Abril de 2026. O propósito da estratégia de zona cinzenta que se delineia é perturbar o rearmamento nuclear e balístico iraniano, degradar as infra-estruturas de proxies sobreviventes e sinalizar através da acção que o custo da reconstitução se manterá elevado. As operações de zona cinzenta — ataques de precisão, perturbação cibernética, operações de informações — revelaram-se mais duradouras nos seus efeitos do que as campanhas militares espectaculares, precisamente porque privam os adversários do ambiente estável de que necessitam para se reconstruirem. Uma contenção estratégica baseada na esperança de que as negociações resolverão os problemas estruturais não faria, à luz dos factos actuais, senão oferecer ao Irão e aos seus proxies o fôlego de que necessitam para se rearmarem. O padrão repetiu-se demasiadas vezes para se supor um resultado diferente desta vez. O cenário de um avanço diplomático global que resolvesse o dossier nuclear, limitasse a rede de proxies do Irão e produzisse uma nova ordem estável e aplicável transformaria verdadeiramente a equação regional. Mas é o resultado menos provável à luz dos dados actuais. Exigiria um nível de investimento político norte-americano sustentado que Washington sistematicamente não conseguiu manter após as suas campanhas militares. Exigiria que a direcção iraniana pós-guerra consentisse concessões que a sua predecessora recusou explicitamente. Exigiria um Hezbollah disposto a desarmar-se como condição da recuperação do Líbano, algo que o movimento já sinalizou não aceitar. Os actores regionais são mais desesperados e menos previsíveis, e a confiança necessária para um acordo duradouro foi erodida por décadas de acordos rompidos e de posturas de má-fé de todos os lados. Conclusão A nova fase da crise interminável do Médio Oriente não é definida por um vencedor claramente designado nem por um perdedor identificável. É definida pela incerteza — em Israel, nos Estados Unidos, em todo o Golfo e no Líbano — e por um consenso geral entre actores regionais segundo o qual a postura operacional mais segura, por agora, consiste em fazer avançar os seus interesses através do confronto de baixa intensidade, da pressão por vias oficiosas e da ambiguidade estratégica antes que pelo confronto aberto. As apostas são mais elevadas do que nunca, e os actores mais desesperados do que antes.

Aoun consolida a sua posição e denuncia o "impulso suicida" e a lealdade estrangeira.

Pela primeira vez desde 28 de Fevereiro, o Líbano viveu um dia de calma: nenhum ataque israelita, nenhuma troca de tiros na fronteira sul e nenhum combate nas aldeias fronteiriças onde o exército israelita mantém a sua presença. A única exceção foi o ataque de drone israelita que matou uma pessoa em Kunin, no sul do Líbano. O foco está agora na avaliação das vítimas — que continuam a ser resgatadas dos escombros — e dos danos materiais nos subúrbios do sul de Beirute, bem como nas cidades acessíveis do sul, para as quais os deslocados regressaram em massa. A trégua de dez dias entre Telavive e Beirute, intermediada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, parece, à primeira vista, ser um alívio numa guerra que está longe de terminar, como observou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, na quarta-feira, uma vez que as causas subjacentes do conflito armado se mantêm. O Líbano deu certamente um passo significativo ao anunciar uma série de medidas destinadas a uma solução duradoura para o problema representado pela presença no seu território de uma milícia armada autónoma, totalmente subserviente da República Islâmica do Irão. No entanto, as autoridades continuam a proceder com extrema cautela nesta frente, por diversas razões, principalmente relacionadas com o desejo de preservar o sagrado equilíbrio interno e evitar perturbações na estabilidade. Declarações contraditórias As declarações do Presidente Joseph Aoun, as primeiras desde o estabelecimento do cessar-fogo, as do Ministro do Interior Ahmad Hajjar, e especialmente o tom que ambos utilizaram, reflectem esta preocupação. Os líderes libaneses mantêm-se inflexíveis quanto às linhas gerais da nova política que definiram e muito mais discretos quanto aos mecanismos de implementação, que dependem, em última análise, das discussões bilaterais que têm lugar em Washington, bem como das conversações entre os EUA e o Irão em Islamabad. Joseph Aoun e Ahmad Hajjar, bem como o presidente do Parlamento, Nabih Berri, aliado do Hezbollah, procuraram tranquilizar o público quanto à prioridade dada à coesão interna, evitando temas polémicos como as negociações directas com Israel, actualmente em preparação sob os auspícios de Washington, e o desarmamento do Hezbollah, que, no entanto, é essencial para libertar o Líbano da hegemonia iraniana e do risco de novas guerras. O processo está, aliás, em curso, reafirmou Joseph Aoun numa mensagem à nação, poucas horas depois de duras críticas do bloco parlamentar do Hezbollah contra a nova direcção política libanesa. "Hoje, negociamos por nós próprios e decidimos por nós. Já não somos peões nas mãos de ninguém, nem campo de batalha para os outros." "Nunca mais voltaremos a esta situação", declarou desde o início, destacando o apoio da maioria dos libaneses a estas políticas. O chefe de Estado atacou o Hezbollah sem o mencionar nominalmente, criticando a sua retórica que apresenta a “resistência” como o único baluarte para o Líbano: “Àqueles que põem em risco o futuro do país e do seu povo, digo: basta! Só o projecto de Estado é o mais forte, o mais sustentável e o mais seguro para todos”. E continuou: “Estamos todos no mesmo barco. Ou chegamos juntos ao porto, ou afundamo-nos todos, mas ninguém tem o direito de cometer tal crime, sob o pretexto de qualquer slogan, por impulso suicida ou lealdade a uma potência estrangeira”, numa clara alusão ao Irão, país a que pertence o Hezbollah. Além disso, Joseph Aoun não mencionou o Irão, que se apressou a reivindicar o crédito pelo estabelecimento do cessar-fogo, ao elogiar os esforços “incansáveis” das autoridades libanesas, dos países árabes, particularmente da Arábia Saudita, dos países ocidentais e do Presidente Trump para impor um cessar-fogo a Israel. Dirigindo-se ainda ao Hezbollah, sublinhou que as negociações planeadas "não são um sinal de fraqueza nem uma cedência", mas antes motivadas pelo desejo de proteger o Líbano "por todos os meios e, sobretudo, pela nossa recusa em morrer por qualquer outro país que não o Líbano". Neste contexto, sublinhou que Beirute não fará concessões nos seus direitos, particularmente os direitos territoriais, dissipando assim os receios de consolidação da "zona de segurança" estabelecida por Telavive no sul do Líbano para proteger as cidades a norte do seu território. Embora o Presidente Aoun tenha reafirmado anteriormente a importância das próximas negociações "delicadas e decisivas" com Telavive, apenas delineou os objectivos do Estado libanês neste diálogo: "consolidar o cessar-fogo, retirar as forças israelitas das zonas onde mantêm presença no Sul, estender a autoridade do Estado a todo o país e libertar os prisioneiros libaneses". "Amal com Israel e a resolução de disputas entre os dois países em relação a certos pontos de fronteira." Nem uma palavra sobre o desarmamento do Hezbollah, que, no entanto, está no centro das próximas discussões. O chefe de Estado prometeu apenas o destacamento do exército e das forças de segurança no sul, "após a retirada israelita", garantindo que "pôrão fim às manifestações armadas e serão as únicas forças presentes no terreno". Em todo o caso, o Líbano prepara-se para trilhar um caminho repleto de obstáculos. Neste contexto, ainda não é claro qual será a agenda precisa que o negociador libanês, Simon Karam, levará consigo para Washington, e quem a definirá. Toda a atenção está focada neste elemento, à luz dos relatos de que o assunto está a ser tratado exclusivamente pela Presidência da República, com base em contactos estabelecidos com a dupla Amal-Hezbollah, que, como é sabido, é hostil ao diálogo directo com Telavive. Reabertura total do Estreito de Ormuz Um diálogo que, se iniciado em condições favoráveis, prolongaria a trégua por dez dias, prometeu o Departamento de Estado norte-americano na terça-feira. A trégua começou com dois pontos significativos: primeiro, o Irão anunciou a reabertura total do Estreito de Ormuz, num gesto que Teerão apresentou como um sinal de boa vontade ligado ao anúncio do cessar-fogo no Líbano. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, esta passagem marítima estará aberta a todos os navios de carga comerciais durante a vigência da trégua no Líbano. A iniciativa iraniana, saudada pelo Presidente Trump, serve, na verdade, dois propósitos tácticos: sinaliza uma abertura a Washington no contexto dos esforços em curso para reactivar as negociações bilaterais entre os EUA e o Irão. Os Estados Unidos, no entanto, deixaram claro que não suspenderiam o bloqueio imposto aos portos iranianos, pelo menos não antes de um acordo sério com Teerão, que reiterou imediatamente a sua ameaça de fechar o Estreito de Gibraltar, embora sem a concretizar. A decisão iraniana reflecte também o desejo de Teerão de demonstrar o seu controlo contínuo sobre a situação libanesa, em detrimento das autoridades locais. O Presidente Josef Aoun respondeu a isto de forma contundente no seu pronunciamento à nação. Donald Trump, por sua vez, fez questão de reiterar na quarta-feira, ao discutir a questão iraniana, que a mesma é distinta da questão libanesa. O presidente norte-americano deixou isso claro ao anunciar na sua rede social Truth que os Estados Unidos pretendem recuperar todas as "cinzas" nucleares provocadas pelos bombardeiros B-2 norte-americanos no Irão, sem qualquer compensação financeira. Esclareceu que este acordo, bem como o referente à reabertura do Estreito de Ormuz, "não está ligado ao Líbano" e que Washington "trabalhará separadamente com Beirute para resolver a questão do Hezbollah". Troca de Ameaças O segundo ponto significativo diz respeito à troca de ameaças entre o Hezbollah e Telavive, numa altura em que parece surgir uma discórdia entre Israel e Washington relativamente à condução das duas questões: Líbano e Irão. O Presidente Trump afirmou categoricamente que Israel não atacaria mais o Líbano, enquanto os líderes israelitas insistiram que a guerra contra o Hezbollah não tinha terminado. O grupo pró-Irão anunciou que se mantinha vigilante e “com o dedo no gatilho”, alertando Israel contra a violação do cessar-fogo ou o assassinato de membros do grupo. Por seu lado, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o seu ministro da Defesa, Israel Katz, afirmaram que a guerra não terminou e que Telavive continua empenhada no desarmamento do Hezbollah por meios militares ou diplomáticos. Ambos afirmaram ainda que o exército israelita manterá a sua presença na zona que agora controla ao longo da fronteira e continuará a desmantelar as infraestruturas militares do Hezbollah na região. Neste contexto, Benjamin Netanyahu reiterou que o caminho para a paz ainda é longo. “Começámos esta viagem com uma mão a segurar uma arma e a outra estendida em direção à paz”, disse, antes de anunciar que o seu país tinha “estabelecido, pela primeira vez, uma zona de segurança ao longo de toda a sua fronteira norte”. A situação estende-se agora ao Monte Hermon, uma vez que o exército israelita revelou na noite de quinta-feira que realizou uma operação militar de última hora no Líbano, pouco antes de o cessar-fogo entrar em vigor à meia-noite, com o objectivo de assumir o controlo de uma posição estratégica no Monte Hermon. Esta posição fica a 12 quilómetros do lado israelita da montanha, que é partilhada pelo Líbano, pela Síria e Israel, e a 30 quilómetros da estrada Beirute-Damasco. Oferece uma vista panorâmica de todo o Vale do Bekaa e mantém-se distante das aldeias libanesas da região, ainda segundo o exército israelita.

A vitória dos "convencidos"
Por
Jawad Pakradouni
Publicado

Um jovem adolescente regressa orgulhoso a casa e anuncia aos pais que passou no exame, entregando-lhes a prova com a nota 3/20. Uma nota reprovativa, certamente, mas para o aluno, é uma vitória! E porque não, afinal? O Hezbollah proclamou a sua própria vitória, num momento de grande tensão psicológica, esta sexta-feira, 17 de abril, num ambiente festivo, onde os seus apoiantes deixaram transbordar de alegria, juntamente com os disparos de bombas B7 e RPGs; rajadas de tiros das suas metralhadoras com balas traçadoras iluminaram o céu durante mais de quarenta minutos. Um verdadeiro espetáculo de som e luz sobre a capital, declarada zona desmilitarizada poucas horas antes numa conferência… Uma vitória divina (repetidamente) que de forma alguma será manchada por considerações como o custo humano e material, por mais pesado que seja. Não importam as mortes, os feridos, a destruição, a terra queimada e a ocupação do Sul, as consequências económicas, etc., desde que os dirigentes da milícia, apesar de instruídos e bem informados, defendam e proclamem tais absurdos, e pior, acreditem neles. A presença de um cérebro não implica necessariamente a sua utilização. É precisamente por isso que fazer lavagem cerebral aos outros é tão fácil. O Hezbollah não só toma decisões por todos os libaneses, como também pensa pelos seus próprios apoiantes. Enquanto o exército israelita cortou as ligações de comunicação entre o sul e o norte (através do rio Litani), os líderes do Hezbollah conseguiram cortar as ligações neuronais dos seus capangas, a tal ponto que, na sua lógica (se é que têm alguma), duvidar da sua vitória equivale a aliar-se ao inimigo. Mais de 2.200 mortos, e então? Há guerras com números significativamente maiores, logo, vitória! Mais de 40 aldeias literalmente arrasadas, e então? É só pedra, pode ser reconstruída, logo, vitória! Mais de dez quilómetros do país ocupados, e então? No dia 25 de maio, vamos celebrar o dia da "libertação", e será feriado nacional, logo, vitória! É humanamente impossível, portanto, convencer um vencido de que foi realmente vencido. E já que parece que a realidade se tornou uma variável a ajustar, porquê parar já? Bastará alterar as palavras e os seus significados para transformar os factos. A este ritmo, cada recuo tornar-se-á um avanço estratégico, cada perda prova de ganho, cada derrota uma vitória mal compreendida, a soberania um conceito flexível, a destruição uma forma de investimento, a morte uma nova vida e, acima de tudo, pensar por si próprio é traição. Afinal, quando uma mentira é repetida em voz alta e durante o tempo suficiente, acaba por se tornar verdade para aqueles que deixaram de verificar. No entanto, o mais preocupante não é que algumas pessoas estejam a tentar reescrever a realidade, mas sim que muitas pessoas pareçam prontas a acreditar nela sem sequer a relerem.

 Médio Oriente: fogo e pólvora
Por
Rami Rayess
Publicado

As promessas políticas e eleitorais do presidente americano Donald Trump evaporaram-se, em particular no domínio da política externa, e os grandiosos títulos sobre o fim das guerras revelaram-se vazios, ele que se gabou, logo após a sua eleição, de pôr termo a “oito guerras”, enquanto em contrapartida acendeu duas novas, na Venezuela e no Irão, e ameaça seriamente fazer de Cuba a sua terceira etapa. A detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro decorreu sem provocar qualquer reacção interna digna de nota, uma vez que o regime abandonou o seu próprio chefe e se adaptou com pragmatismo extremo à pressão americana, mas o caso do Irão é completamente diferente. Os acontecimentos no terreno desmentiram as expectativas americanas e israelitas, pois rapidamente ficou claro que a eliminação da cabeça do regime, o Líder Supremo Ali Khamenei acompanhado de vários altos responsáveis, não fez os Guardas da Revolução perderem o controlo do país nem afrouxou o seu domínio de ferro sobre ele. A aposta no eclodir de um levantamento popular a partir do interior iraniano assim que a guerra se deflagrasse revelou-se igualmente infrutifera, dado que, embora uma parte considerável da opinião iraniana albergue uma hostilidade real em relação ao regime, não tem qualquer desejo de cavalgar a onda americana. O papel desempenhado pelos Estados Unidos e pela sua CIA no derrube do governo de Mossadegh no golpe de 1953 permanece profundamente enraizado na memória popular e colectiva iraniana, tendo provavelmente consolidado a convicção de que apostar nos americanos não pode resultar nem contribuir para uma mudança real, sobretudo porque o próprio Trump não tem qualquer interesse genuíno na transformação política por razões reformistas, mas exclusivamente por cálculo de interesse. A administração americana não teria tido qualquer dificuldade em lidar com o novo Líder se ele tivesse manifestado a flexibilidade que Washington esperava, e nesse caso não se teria preocupado minimamente com as aspirações do povo iraniano à liberdade, à democracia e aos direitos humanos. O exemplo venezuelano mantém-se elucidativo: Trump pôs de lado a líder da oposição, embora ela se tivesse bajulado ao propô-lo para o Prémio Nobel da Paz, convencida de que conferir-lhe a mais alta distinção internacional poderia aumentar o seu crédito junto do presidente americano, que ignorou tudo isso por completo e continuou a trabalhar com os pilares do próprio regime de Maduro, o qual mantém numa cela do centro de detenção federal do Brooklyn, em Nova Iorque, obtendo entretanto o que pretendia em matéria de petróleo. Naturalmente, os sonhos de mudança do povo venezuelano também desmoronaram. O presidente Donald Trump ameaça agora Cuba, a ilha que inquietou Washington durante décadas e foi durante muito tempo um espinho no seu flanco, parecendo determinado a varrer todos os esforços de aproximação e reconciliação empreendidos pelo seu predecessor Barack Obama para virar a página do passado e a abrir uma nova frente contra ela, o que confirma o desprezo de Washington pelos princípios mais elementares da acção internacional ou pela necessidade de agir através da Organização das Nações Unidas. Mais do que isso, desenha-se uma vontade clara de minar e enfraquecer a ordem mundial construída após a Segunda Guerra Mundial, da qual o “Conselho da Paz” (ainda claudicante) criado na sequência da guerra de Gaza não é senão um dos exemplos mais reveladores desta política. Mas quem disse que o facto de Washington ignorar os interesses reais dos povos serve verdadeiramente os seus? E quem disse que reforçar as suas alianças com a maioria dos regimes ditatoriais no Médio Oriente e além dele serve também os seus interesses? É certo que os sistemas democráticos não nascem de um dia para o outro, e é certo que a democracia importada do Ocidente pode não se adequar a todas as sociedades, mas é igualmente certo que a repressão dos povos gera inevitavelmente, a dado momento, uma explosão política e social. Se a experiência das revoluções árabes desembocou em desfechos dolorosos, foi devido a circunstâncias complexas, algumas relacionadas com a confiscação da revolução pelos próprios regimes (a Síria é o exemplo mais claro), outras com a incapacidade das forças revolucionárias para se organizarem, incapacidade que por sua vez se devia ao facto de os poderes ditatoriais terem domesticado as sociedades e as terem esvaziado das elites capazes de conduzir um projecto de mudança. Nada disso justifica, porém, que o Ocidente se recolha a uma política de reabilitação dos regimes existentes ou de substituição dos mesmos por outros que em nada ficam atrás em matéria de repressão. No que diz respeito ao Médio Oriente, a questão já não se prende unicamente com a natureza das sociedades políticas da região árabe, mas também com a obstinação de Israel em acender guerras de forma contínua e, algo novo, em arrastar os Estados Unidos consigo para os seus conflitos em múltiplas frentes, ainda que não exista qualquer ameaça real à segurança nacional americana, ao contrário do que Israel se esforça por vender. A mais recente destas guerras é a que se trava contra o Irão, que por sua vez não se absteve de prejudicar os seus vizinhos dos Estados árabes do Golfo, o que tornará a convivência futura um desafio duradouro. Esta insistência israelita em desviar o olhar de qualquer ideia de paz, mais ainda em sabotá-la através de guerras e ocupações, terá repercussões profundamente negativas em toda a região por gerações a fio. No frente palestiniano, Israel não se contenta com destruir Gaza e bombardeá-la diariamente mesmo após o cessar-fogo (atingindo um número assustador de mártires que ronda os 75.000!), atacando também a Cisjordânia onde planta os seus colonatos, o que fecha definitivamente a porta a qualquer solução pacífica e enterra o histórico projecto dos dois Estados, que nunca verá a luz do dia se Israel persistir nas suas políticas regionais. Esta política de factos consumados Israel aplica-a igualmente no sul do Líbano e no sul da Síria, de cujo território ocupou novas porções após a queda do regime de Bashar al-Assad em Dezembro de 2024, além, claro está, da sua ocupação dos Montes Golã sírios desde 1967, que se recusa a restituir e que anexou formalmente, sem qualquer intenção de reverter essa anexação. A menos que a região consiga regular o ritmo israelita através de regras firmes, nomeadamente exercendo pressão para que abandone a política de guerras permanentes e em cascata e reconheça os direitos legítimos do povo palestiniano, Israel não conseguirá perpetuar indefinidamente o seu projecto de ocupação. Os Acordos de Abraão demonstraram que não desactivaram a tensão na região, bem pelo contrário, que a agravaram, e que também não proporcionaram a Israel a segurança que persegue de guerra em guerra. O cheiro do fogo e da pólvora enche o Médio Oriente, e novas abordagens a par de novas políticas impõem-se agora sem escapatória.