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Olhar pousado

Médio Oriente: fogo e pólvora

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Por Rami Rayess
Publicado abr 17, 2026 - 17:38

As promessas políticas e eleitorais do presidente americano Donald Trump evaporaram-se, em particular no domínio da política externa, e os grandiosos títulos sobre o fim das guerras revelaram-se vazios, ele que se gabou, logo após a sua eleição, de pôr termo a “oito guerras”, enquanto em contrapartida acendeu duas novas, na Venezuela e no Irão, e ameaça seriamente fazer de Cuba a sua terceira etapa. A detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro decorreu sem provocar qualquer reacção interna digna de nota, uma vez que o regime abandonou o seu próprio chefe e se adaptou com pragmatismo extremo à pressão americana, mas o caso do Irão é completamente diferente.

Os acontecimentos no terreno desmentiram as expectativas americanas e israelitas, pois rapidamente ficou claro que a eliminação da cabeça do regime, o Líder Supremo Ali Khamenei acompanhado de vários altos responsáveis, não fez os Guardas da Revolução perderem o controlo do país nem afrouxou o seu domínio de ferro sobre ele. A aposta no eclodir de um levantamento popular a partir do interior iraniano assim que a guerra se deflagrasse revelou-se igualmente infrutifera, dado que, embora uma parte considerável da opinião iraniana albergue uma hostilidade real em relação ao regime, não tem qualquer desejo de cavalgar a onda americana.

O papel desempenhado pelos Estados Unidos e pela sua CIA no derrube do governo de Mossadegh no golpe de 1953 permanece profundamente enraizado na memória popular e colectiva iraniana, tendo provavelmente consolidado a convicção de que apostar nos americanos não pode resultar nem contribuir para uma mudança real, sobretudo porque o próprio Trump não tem qualquer interesse genuíno na transformação política por razões reformistas, mas exclusivamente por cálculo de interesse. A administração americana não teria tido qualquer dificuldade em lidar com o novo Líder se ele tivesse manifestado a flexibilidade que Washington esperava, e nesse caso não se teria preocupado minimamente com as aspirações do povo iraniano à liberdade, à democracia e aos direitos humanos.

O exemplo venezuelano mantém-se elucidativo: Trump pôs de lado a líder da oposição, embora ela se tivesse bajulado ao propô-lo para o Prémio Nobel da Paz, convencida de que conferir-lhe a mais alta distinção internacional poderia aumentar o seu crédito junto do presidente americano, que ignorou tudo isso por completo e continuou a trabalhar com os pilares do próprio regime de Maduro, o qual mantém numa cela do centro de detenção federal do Brooklyn, em Nova Iorque, obtendo entretanto o que pretendia em matéria de petróleo. Naturalmente, os sonhos de mudança do povo venezuelano também desmoronaram.

O presidente Donald Trump ameaça agora Cuba, a ilha que inquietou Washington durante décadas e foi durante muito tempo um espinho no seu flanco, parecendo determinado a varrer todos os esforços de aproximação e reconciliação empreendidos pelo seu predecessor Barack Obama para virar a página do passado e a abrir uma nova frente contra ela, o que confirma o desprezo de Washington pelos princípios mais elementares da acção internacional ou pela necessidade de agir através da Organização das Nações Unidas. Mais do que isso, desenha-se uma vontade clara de minar e enfraquecer a ordem mundial construída após a Segunda Guerra Mundial, da qual o “Conselho da Paz” (ainda claudicante) criado na sequência da guerra de Gaza não é senão um dos exemplos mais reveladores desta política.

Mas quem disse que o facto de Washington ignorar os interesses reais dos povos serve verdadeiramente os seus? E quem disse que reforçar as suas alianças com a maioria dos regimes ditatoriais no Médio Oriente e além dele serve também os seus interesses? É certo que os sistemas democráticos não nascem de um dia para o outro, e é certo que a democracia importada do Ocidente pode não se adequar a todas as sociedades, mas é igualmente certo que a repressão dos povos gera inevitavelmente, a dado momento, uma explosão política e social.

Se a experiência das revoluções árabes desembocou em desfechos dolorosos, foi devido a circunstâncias complexas, algumas relacionadas com a confiscação da revolução pelos próprios regimes (a Síria é o exemplo mais claro), outras com a incapacidade das forças revolucionárias para se organizarem, incapacidade que por sua vez se devia ao facto de os poderes ditatoriais terem domesticado as sociedades e as terem esvaziado das elites capazes de conduzir um projecto de mudança. Nada disso justifica, porém, que o Ocidente se recolha a uma política de reabilitação dos regimes existentes ou de substituição dos mesmos por outros que em nada ficam atrás em matéria de repressão.

No que diz respeito ao Médio Oriente, a questão já não se prende unicamente com a natureza das sociedades políticas da região árabe, mas também com a obstinação de Israel em acender guerras de forma contínua e, algo novo, em arrastar os Estados Unidos consigo para os seus conflitos em múltiplas frentes, ainda que não exista qualquer ameaça real à segurança nacional americana, ao contrário do que Israel se esforça por vender. A mais recente destas guerras é a que se trava contra o Irão, que por sua vez não se absteve de prejudicar os seus vizinhos dos Estados árabes do Golfo, o que tornará a convivência futura um desafio duradouro.

Esta insistência israelita em desviar o olhar de qualquer ideia de paz, mais ainda em sabotá-la através de guerras e ocupações, terá repercussões profundamente negativas em toda a região por gerações a fio. No frente palestiniano, Israel não se contenta com destruir Gaza e bombardeá-la diariamente mesmo após o cessar-fogo (atingindo um número assustador de mártires que ronda os 75.000!), atacando também a Cisjordânia onde planta os seus colonatos, o que fecha definitivamente a porta a qualquer solução pacífica e enterra o histórico projecto dos dois Estados, que nunca verá a luz do dia se Israel persistir nas suas políticas regionais.

Esta política de factos consumados Israel aplica-a igualmente no sul do Líbano e no sul da Síria, de cujo território ocupou novas porções após a queda do regime de Bashar al-Assad em Dezembro de 2024, além, claro está, da sua ocupação dos Montes Golã sírios desde 1967, que se recusa a restituir e que anexou formalmente, sem qualquer intenção de reverter essa anexação.

A menos que a região consiga regular o ritmo israelita através de regras firmes, nomeadamente exercendo pressão para que abandone a política de guerras permanentes e em cascata e reconheça os direitos legítimos do povo palestiniano, Israel não conseguirá perpetuar indefinidamente o seu projecto de ocupação. Os Acordos de Abraão demonstraram que não desactivaram a tensão na região, bem pelo contrário, que a agravaram, e que também não proporcionaram a Israel a segurança que persegue de guerra em guerra.

O cheiro do fogo e da pólvora enche o Médio Oriente, e novas abordagens a par de novas políticas impõem-se agora sem escapatória.

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