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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
Analisar
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Por Jad Akhawi - Publicado em set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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Marrocos: por que as próximas eleições legislativas são importantes

A realização das eleições legislativas no Marrocos em 23 de setembro próximo, na data prevista, demonstra a regularidade da vida política em um reino com mais de doze séculos de história. Em cada etapa de sua longa trajetória, o Marrocos conseguiu superar dificuldades, obstáculos e desafios de diferentes naturezas, até chegar ao reinado de Mohammed VI, que subiu ao trono há pouco mais de 27 anos, sucedendo ao seu pai, Hassan II. O desenvolvimento da vida política foi uma das características marcantes do reinado de Mohammed VI. Esse desenvolvimento foi acompanhado pela criação de uma infraestrutura moderna que faz com que quem chega ao Marrocos vindo da Espanha ou de Portugal praticamente não sinta que passou de dois países europeus para um mundo diferente… A realização das eleições marroquinas na data prevista consagra novos conceitos de governo baseados no respeito rigoroso à Constituição aprovada pelos cidadãos no referendo popular realizado em 2011. Entre suas disposições está a incumbência de formar o governo com uma personalidade pertencente ao partido que obtiver o maior número de cadeiras no Parlamento. Por isso, as eleições abrirão amplamente as portas para negociações entre os partidos, sobretudo porque a legenda que conquistar o maior número de cadeiras não será capaz de garantir sozinha uma maioria que lhe permita formar o governo sem se aliar a outras forças políticas. Foi isso que aconteceu há quatro anos, após as últimas eleições, quando o Reagrupamento Nacional dos Independentes, então liderado por Aziz Akhannouch, conquistou o maior número de cadeiras sem obter maioria absoluta. A Constituição de 2011 marcou um novo impulso para a vida política em um reino que escolheu se desenvolver sem ignorar as dificuldades que enfrenta, diante da falta de recursos naturais, de um lado, e da guerra de desgaste à qual está submetido desde 1975, de outro. Não é segredo que o Marrocos enfrenta uma guerra de desgaste travada contra ele pelo regime argelino desde que recuperou suas províncias saarianas do colonizador espanhol graças à “Marcha Verde”, uma marcha pacífica da qual participaram cerca de 350 mil cidadãos marroquinos em resposta a um chamado do falecido rei Hassan II. Essa guerra de desgaste, na qual a Frente Polisário vem sendo utilizada há mais de meio século, teve um custo elevado. Ainda assim, ela não impediu o Marrocos de prosseguir com seus planos de desenvolvimento e sua atividade diplomática, que culminou, em outubro de 2025, com a adoção da Resolução 2797 do Conselho de Segurança, que reconheceu a marroquinidade do Saara e que a única solução viável reside na proposta de uma ampla autonomia no âmbito da soberania marroquina. As eleições e a etapa que se seguirá a elas podem ser consideradas parte dos desafios enfrentados pelo Marrocos, entre eles a guerra contra a pobreza defendida por Mohammed VI desde sua ascensão ao trono. Uma guerra desse tipo, que começa pela eliminação das favelas e pela construção de moradias dignas para os cidadãos que nelas vivem, continua sendo a melhor maneira de combater o terrorismo e todas as formas de extremismo. A realização das eleições na data prevista confirmará que a mudança para melhor não é possível sem uma consciência política integrada em nível nacional. Essa mudança ocorre por meio das urnas, e não das ruas, mesmo quando as reivindicações dos manifestantes são legítimas. O governo de Aziz Akhannouch não caiu em setembro e outubro do ano passado, quando jovens da geração Z foram às ruas para protestar contra o nível dos serviços médicos e da educação, bem como contra o aumento das mensalidades nas escolas privadas. As ruas não derrubaram o governo. Existe agora, porém, uma necessidade urgente de um novo governo chefiado por uma personalidade mais próxima do cidadão comum e de suas preocupações. Há necessidade de uma figura que tenha demonstrado, em um passado recente, ser capaz de obter sucesso quando encarregada de uma missão específica. Em termos mais claros, passou a existir a necessidade de um governo capaz de compreender as verdadeiras razões pelas quais simples informações falsas e rumores divulgados pelas redes sociais levaram milhares de jovens, nos últimos dias de julho passado, a seguir em direção a Ceuta, ocupada pela Espanha no norte de Marrocos. Esses jovens marroquinos, cujo número chegou a cinquenta mil, acreditavam que Ceuta, situada em território marroquino, era um tesouro de ouro do qual poderiam retirar riquezas antes de voltar para suas cidades e aldeias para viver com conforto material. Desse ponto de vista, parece importante que as eleições desempenhem o papel que delas se espera na realização da mudança política. Ao mesmo tempo, porém, elas colocam todos os partidos políticos e seus dirigentes diante dos desafios impostos pela realidade marroquina. Isso inclui, naturalmente, estar à altura do processo de modernização vivido pelo reino, onde hospitais, centros médicos, portos e instalações de serviços estão sendo construídos em diferentes regiões do país. Soma-se a isso uma verdadeira consciência, por parte do próprio Mohammed VI, da importância de elevar o nível da educação. O monarca marroquino falou abertamente sobre esse tema alguns anos atrás, em um discurso por ocasião da Festa do Trono. Nesse discurso, tratou explicitamente do nível da educação e da importância do domínio de línguas estrangeiras, além do árabe, naturalmente. A cerca de três semanas das eleições marroquinas, a classe política deveria assimilar o que a cena de Ceuta revelou a respeito dos jovens, do desemprego, das desigualdades e da espera pelos frutos dos grandes projetos. O próprio rei falou sobre isso há um ano, quando enfatizou a necessidade de que todo o Marrocos avance em uma única velocidade. Mais importante ainda, a crise relacionada a Ceuta não se transformou em uma divisão política interna, nem em uma confrontação aberta com a Espanha, nem em uma ruptura diplomática capaz de reorganizar as relações do Marrocos com a Europa. Esse sucesso confirma a capacidade do Estado marroquino de absorver o choque, impedir que seus adversários conhecidos imponham sua própria interpretação e, em seguida, recolocar o acontecimento em suas devidas proporções sem negar sua gravidade. Esses são alguns dos principais desafios da fase pós-eleitoral, dirigidos antes de tudo à classe política marroquina.

Olá, os janízaros estão às nossas portas!
Por
Youssef Mouawad
Publicado

Ancara, a neo-otomana, avança suas peças no Bilad ash-Sham! E nem um bombardeio israelense da base aérea de Abu al-Duhur em 18 de agosto passado, nem o ataque à periferia de Damasco dez dias depois, e muito menos as ameaças veladas de Tel Aviv, seriam suficientes para conter o avanço turco em direção ao sul geográfico e ao longo do «mar da Síria» (1). Tom Barrack, embaixador dos Estados Unidos na Turquia e enviado especial em Damasco, terá muito trabalho pela frente, agora que uma rivalidade estratégica toma forma entre turcos e israelenses, tendo a Síria — e em breve o Líbano — como principal arena de competição, ou até de confronto. Washington, tendo reconhecido o recuo iraniano, precisa pensar em estabelecer um mecanismo de «desconflição» entre seus dois aliados — o Estado hebreu e a república de Erdogan —, uma vez que ambos buscam preencher o vazio abissal deixado pelos mulás iranianos em debandada! Uma nostalgia da Europa e uma Turquia rejeitada Não teríamos chegado a este ponto se o Conselho da União Europeia não tivesse concluído, em junho de 2019, que as negociações de adesão com Ancara estavam «paralisadas». Pois a Turquia, movida por uma certa nostalgia, sempre sonhou com um destino europeu. Por duas vezes, os exércitos do sultão sitiaram Viena (1529 e 1683) e, vale lembrar, antes de fazer de Constantinopla sua capital, o sultanato havia estabelecido sua sede em Adrianópolis (Edirne), na Trácia Oriental. Acrescente-se que, ao final da Primeira Guerra Mundial, reduzida às dimensões de um Estado-nação, a república turca — potência regional incontestável — havia se modernizado sem se desislamizar. Seria essa a razão pela qual a União Europeia lhe dera uma resposta negativa? As autoridades turcas entenderam que a Europa pretendia continuar sendo um «clube exclusivamente cristão». Então, em resumo, não lhes restava outra alternativa senão expandir-se em direção ao Leste turco-falante e ao Sul árabe-falante. E aqui estamos! O sabre e o incensório O Grande Turco, como se dizia na época em que fazia os Habsburgo tremerem, não é nenhum novato no cenário do Oriente Médio. Durante quatro séculos, o Bilad ash-Sham fez parte de seu império, e sua identidade majoritariamente sunita o predispôs naturalmente a aceitar o poder do monarca-califa, essa sombra de Allah sobre a terra (2). Lembremos que os otomanos derrubaram o poder mameluco e conquistaram a Síria em 1516. No final de setembro daquele mesmo ano, Damasco foi tomada e a oração de sexta-feira foi finalmente pronunciada, na Grande Mesquita, em nome do sultão Selim. Naquele 2 de outubro, a legitimidade islâmica foi assim conferida ao chefe aureolado de glória e, no dia seguinte, foi como conquistador vitorioso que ele fez sua entrada triunfal na capital dos Omíadas. Dois elementos consolidaram sua autoridade e angariaram a adesão dos «raias» no Bilad ash-Sham, como em toda parte: a vitória militar e a comunhão em uma mesma fé. Em outras palavras, foi «a aliança do sabre e do incensório», tal como no Antigo Regime na França, e como na Espanha sob Franco e em Portugal sob Salazar. E que ninguém venha nos dizer que as mentalidades mudaram desde então! Quando vamos afinal reconhecer que foram exatamente esses dois mesmos fatores que levaram Ahmad al-Chareh ao poder supremo às margens do Barada — a vitória no campo de batalha e sua rigorosa ortodoxia muçulmana? Os acordos Sykes-Picot, mais uma vez Mas voltemos cerca de cem anos atrás e acrescentemos que os sírios, antes e durante a Primeira Guerra Mundial, não tinham qualquer intenção de se separar da Anatólia; teriam se contentado com uma certa descentralização, na qual suas aspirações culturais fossem reconhecidas e sua língua árabe aceita na administração pública. Eles teriam aceitado de bom grado uma monarquia dual nos moldes da Áustria-Hungria, não fosse a política drástica e frequentemente cruel conduzida por Jamal Paxá durante os anos de guerra. Aliás, não foi uma revolta local (3), muito menos as escassas forças árabes do emir Faysal, que pôs fim em 1918 à ocupação otomana, mas sim o avanço triunfal das tropas aliadas, principalmente britânicas. Depois, a partir da época do mandato, o nacionalismo árabe, entregue a si mesmo, desenvolveu as suas idiossincrasias. Mas foram sobretudo a abolição do califado em 1924 e a laicização forçada — duas marcas registadas do regime de Atatürk — que viriam a distender ainda mais os laços de quatrocentos anos entre o mundo turcófono e o mundo arabófono. O partido Baath explorou, posteriormente, a inimizade entre árabes e turcos com o intuito de consolidar o seu poder, sendo que a anexação do sanjaco de Alexandreta em 1939 não contribuiu para a reconciliação entre os dois povos. Desconfiar dos entusiasmos repentinos Tudo isso para dizer que o contencioso sírio-turco, embora persistente, pode ser resolvido num clima de fraternidade religiosa. A Turquia de Erdogan, que ostenta com orgulho a sua pertença ao islão, é bem-vinda numa Síria onde, durante cinquenta anos, o poder baathista perseguiu insidiosamente o sunismo maioritário e amordaçou os seus dignitários religiosos. Agora que o Irão e a Federação Russa se retiraram sem mais delongas, a Turquie é supostamente bem-vinda. E conta-se mesmo que jovens sírios em idade de combater não hesitariam em engrossar as fileiras das tropas de Ancara, caso esta entrasse em confronto com Israel. Cem anos de nacionalismo árabe exacerbado talvez não tenham apagado quatrocentos anos de otomanismo, nem obliterado mil anos de solidariedade religiosa! N.B.: Que a Turquia desconfie do entusiasmo sírio por ela! Que se recorde do destino reservado a Nasser. Em 1958, Damasco recebeu-o em triunfo aquando da proclamação da República Árabe Unida. E depois, em 1961, veio a lamentável desunião! 1- Historicamente, a expressão «mar da Síria» ou Mare Syriacum em latim designa a parte oriental do Mediterrâneo situada ao largo da costa sírio-libanesa. 2- Título emprestado do basileus bizantino, com a queda de Constantinopla em 1453. 3- Na Síria, apesar da degradação das condições de vida entre 1914 e 1918, não se registou qualquer motim significativo, nem intifada, nem fitna contra o Turco. Aliás, os oficiais, os intelectuais e a grande burguesia que se tinham unido ao emir Faysal eram tratados de renegados nos grandes centros urbanos como Alepo, Homs, Hama, Damasco, etc.

Teerão impõe um novo tipo de condições a Washington…

Desde que os Estados Unidos adotaram uma política de sanções e pressões econômicas sobre o Irã, as negociações entre as duas partes não registraram nenhum avanço. A visita do primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores do Catar, Xeique Mohammad Abdel Rahmane al-Thani, a Teerã na quinta-feira tinha como objetivo relançar essas conversações, com vistas, em especial, a garantir uma passagem mais fluida pelo estreito de Ormuz. Na sexta-feira, o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, aproveitou habilmente essa visita para fazer uma tímida abertura em direção aos Estados Unidos. Publicando uma foto com o responsável catari em sua conta no X, ele a acompanhou de uma mensagem afirmando que retornar à mesa de negociações «não é impossível». Como era de se esperar, ele acompanhou essa formulação muito calculada com condições: os Estados Unidos devem compreender que as pressões não adiantam nada, devem estabelecer uma relação de confiança com o Irã, dialogar com respeito (!) e reconhecer seus direitos, além de honrar seus compromissos. Um programa ambicioso. Exceto que os americanos não dão, por enquanto, nenhum sinal de querer abandonar sua estratégia de pressões econômicas para retomar as conversações. Na sexta-feira, o Tesouro americano informou ter identificado as redes e os intermediários utilizados pelo Irã para exportar seu petróleo por meio de contrabando e para contornar as sanções… «Vamos ter como alvo qualquer fonte de receita ilícita do regime iraniano, em cooperação com todas as instituições governamentais (americanas) e com nossos aliados», destacou o Tesouro dos EUA. Além disso, segundo o site de informações Axios , os Estados Unidos consideram ter enfraquecido significativamente o controle iraniano sobre o estreito de Ormuz, que se tornou, ao longo do tempo, o centro das negociações, mais importante até do que o dossiê nuclear ou os mísseis balísticos. A esse respeito, o Ministério iraniano das Relações Exteriores (novamente ele) publicou um comunicado na sexta-feira alertando «todos os países» contra a aplicação das sanções americanas «ilegais e injustificadas» contra o Irã, e reivindicando a aplicação do «direito internacional». O país permanecerá determinado a enfrentar «a ofensiva militar e econômica conjunta dos Estados Unidos e de Israel», prossegue o texto. Além disso, o chefe da segurança iraniana, Mohsen Rezaei, desmentiu categoricamente as informações divulgadas pelos serviços de inteligência americanos na terça-feira, segundo as quais Teerã teria tramado um plano para assassinar Barron, o filho mais novo do presidente americano Donald Trump. E foi no canal do Hezbollah que o dirigente iraniano escolheu denunciar as «mentiras» americanas sobre o projeto de assassinato de Barron Trump. É a televisão estatal iraniana, recorde-se a este respeito, que havia divulgado essa informação há alguns dias, mencionando uma grande recompensa por qualquer contribuição a essa operação… Ataques no subúrbio de Damasco A outra notícia do dia é uma nova escalada de tensão entre Damasco e Tel Aviv, na sequência de dois incidentes ocorridos na quinta-feira à noite e na sexta-feira de manhã. O primeiro foi uma incursão israelense em Ras el-Ajraf, em território sírio, ao nível do planalto de Golã, na quinta-feira à noite. Segundo o canal pró-Hezbollah el-Mayadeen , os soldados israelenses teriam revistado várias residências nessa localidade. O segundo incidente ocorreu nos arredores da capital Damasco, na sexta-feira de manhã. O correspondente da agência síria Sana relatou que dois projéteis caíram em campos agrícolas no Rif de Damasco, sem causar vítimas. Os israelenses não parecem ter pressa em reduzir a tensão com a Síria, apesar da recente reunião do ministro sírio das Relações Exteriores, Assaad Chibani, com o chefe do Mossad, na Jordânia, destinada a acalmar os ânimos, após ataques israelenses contra um aeroporto sírio em Idlib. Este ataque também quase provocou uma grave escalada com a Turquia, aliada do regime sírio. Além disso, a quinta-feira foi um dia sangrento nos territórios palestinos. Ataques israelenses mataram três pessoas em Gaza, duas delas da mesma família. E ataques em Jenin, no norte da Cisjordânia, visaram «vários terroristas», de acordo com um comunicado do exército israelense. Haykal recebe o encarregado de negócios francês O sul do Líbano, entretanto, continua a viver ao ritmo das explosões e dos bombardeios israelenses. Cada vez mais, o exército israelense realiza incursões em território libanês, nomeadamente para buscas ou para dinamitar casas. O processo de destruição dá a impressão de se intensificar, sobretudo em algumas localidades como Nabatieh ou Mansouri, em Tiro. Na ausência de qualquer nova perspetiva no âmbito das negociações diretas conduzidas pelas autoridades libanesas com Israel, sob patrocínio americano, o papel francês começa novamente a emergir na cena libanesa. O comandante-chefe do exército libanês, Rodolphe Haykal, recebeu na sexta-feira o encarregado de negócios francês Bruno Da Silva, em antecipação à conferência que deverá ser realizada em Paris em apoio ao exército libanês. Uma reunião preparatória deverá ter lugar na capital francesa a 17 de setembro, com a prevista participação do general Haykal. O chefe do exército tinha sido recebido, pouco antes da visita do diplomata francês, pelo presidente da República Joseph Aoun em Baabda.

Por que os libaneses têm medo da palavra «paz»?

«Bem-aventurados os que promovem a paz.» Talvez não exista frase que resuma melhor aquilo de que o Líbano precisa hoje do que esta, levada pelo papa Leão XIV em sua visita ao país e transformada por ele em uma de suas mensagens centrais aos libaneses. Sua visita ocorreu em um país exausto por guerras, crises e divisões, colocando a paz no centro do discurso libanês, não como rendição ou concessão, mas como ato, responsabilidade e projeto de futuro. Mas o paradoxo libanês está no fato de que nós, que vivemos tanta guerra, às vezes passamos a ter medo da própria palavra «paz». Por quê? Por que o libanês precisa justificar seu apelo à paz? E por que alguns sentem que o simples uso dessa palavra pode colocá-los no banco dos réus, como se tivessem renunciado aos seus direitos, aceitado a rendição, buscado a normalização ou abandonado a causa? A paz tornou-se uma acusação no Líbano? Essas perguntas não são linguísticas. Elas revelam um problema profundo da cultura política libanesa. O Líbano viveu décadas de guerras. Guerra civil, ocupações, invasões, agressões, assassinatos, conflitos internos e disputas regionais transformadas em crises libanesas. E, a cada vez, os libaneses pagaram o preço: mortos e feridos, deslocamentos, destruição, colapso econômico, emigração e fraturas sociais. E, ainda assim, não aprendemos que a guerra não é um destino inevitável para o Líbano. Talvez tenha chegado a hora de redefinir a paz. A paz de que o Líbano precisa não é a paz da rendição, nem a paz da submissão, nem uma paz imposta de fora. É uma paz libanesa. E essa paz começa com uma ideia simples: que o Líbano seja senhor de suas próprias decisões. Que seja o Estado a decidir sobre a guerra e a paz. Que as instituições do Estado sejam a única referência. Que o Exército libanês seja a instituição responsável por proteger as fronteiras e a soberania. Que a lei esteja acima de todos. E que o Líbano não continue sendo uma arena aberta para as guerras dos outros. Pois a paz não significa abrir mão de nossos direitos. Significa buscar proteger esses direitos por meios que preservem o Líbano e seu povo, e não por meios que transformem novamente o Líbano em terra de guerra. A paz não é fraqueza. Ela pode ser, de fato, uma das formas mais difíceis de força. É fácil abrir fogo, é fácil declarar guerra, é fácil erguer slogans de vitória. O mais difícil é impedir a guerra quando se tem a capacidade de provocá-la, escolher a negociação quando ela serve melhor ao próprio povo e usar a diplomacia, o direito e as relações internacionais para proteger o país. Por isso, a paz não contradiz a soberania. Ao contrário, a verdadeira paz é fruto da soberania. Um Estado soberano decide quando luta e quando negocia. É ele quem fala em nome de seu povo, defende suas fronteiras, assina acordos e assume a responsabilidade por sua implementação. Mas, quando se multiplicam os centros de decisão, a própria paz se torna impossível. Não pode haver paz duradoura enquanto existirem no país forças capazes de decidir sobre a guerra fora das instituições constitucionais. E isso não diz respeito a uma comunidade e não a outra, nem a uma confissão e não a outra. O problema não está nos xiitas, nem nos sunitas, nem nos cristãos, nem nos drusos. O problema está na lógica confessional quando ela se transforma em substituto do Estado. O Líbano não precisa de comunidades armadas para que protejam umas às outras. O Líbano precisa de um Estado que proteja todos. O xiita não deveria precisar de um partido para se sentir seguro, o cristão não deveria precisar de proteção externa, o sunita não deveria buscar o apoio de uma potência regional, e o druso não deveria temer por sua existência. O Estado é a garantia. E é aqui que a paz interna se torna uma condição da paz externa. Não podemos falar de paz com o mundo enquanto os próprios libaneses vivem em um estado de medo mútuo. A paz libanesa significa passar da lógica dos grupos à lógica da cidadania. Significa que o libanês sinta que seus direitos estão garantidos porque ele é cidadão, e não porque pertence a uma comunidade, a um partido, a uma região ou a um eixo. Por isso, aplicar a Constituição não é uma questão técnica. É parte do projeto de paz. A Constituição define as instituições, as competências e as relações entre os poderes. E o problema libanês nem sempre está na ausência de textos, mas em sua não aplicação e na substituição do Estado por um sistema de partilha política e confessional. Não se pode construir a paz sobre uma lógica de quotas. A paz precisa de um Estado de direito. E o Estado precisa de um Judiciário independente, instituições eficazes, prestação de contas e igualdade entre os cidadãos. Mas a paz não se limita à política e à segurança. Existe também uma paz social e econômica. O que significa um cessar-fogo se o libanês continuar sem trabalho? O que significa segurança se o jovem libanês for obrigado a emigrar? O que significa estabilidade se a pobreza aumenta, o Estado é incapaz de agir e a economia está em ruínas? A paz também significa permitir que o libanês viva com dignidade. Que encontre uma escola, uma universidade, um hospital. Que encontre um emprego. Que possa construir uma casa e formar uma família. Que sinta que seu futuro está no Líbano, e não no aeroporto de Beirute. Por isso, a paz não é apenas a ausência de guerra. A paz é a presença da vida. E é aqui que a frase do papa, «Bem-aventurados os que promovem a paz», ganha toda a sua profundidade. Ele não disse: bem-aventurados os que esperam pela paz. Disse: os que promovem a paz. Aqueles que a constroem. E essa responsabilidade é dos libaneses antes de ser da comunidade internacional. Não podemos pedir ao mundo que faça a paz por nós enquanto nós mesmos nos recusamos a participar de sua construção. A paz precisa de uma decisão libanesa. Precisa de um Estado. Precisa de diálogo. Precisa de coragem política. E precisa, antes de tudo, de uma mudança em uma cultura política que transformou a guerra em heroísmo, o compromisso em traição, a negociação em fraqueza e a paz em concessão. Precisamos reabilitar a própria ideia de negociação. Negociar não é trair. Diplomacia não é rendição. E buscar um acordo que preserve os interesses do Líbano não significa abrir mão do Líbano. Os Estados não protegem seus interesses apenas pelas armas. Protegem-nos também por meio do direito, da força diplomática, da economia, das alianças, das instituições e de sua capacidade de construir relações equilibradas com o mundo. E o Líbano que queremos não deve estar subordinado a nenhum eixo. Nem ao Irã. Nem a Israel. Nem aos Estados Unidos. Nem a nenhuma potência regional ou internacional. Líbano em primeiro lugar. Esse é o significado da soberania. Que as relações do Líbano com os outros sejam baseadas no interesse libanês, e não na dependência. Que o Líbano seja uma ponte, não uma arena. Um Estado, não uma carta a ser jogada. Uma pátria, não uma plataforma. Talvez esse seja o verdadeiro significado da paz libanesa. Uma paz que não elimine as divergências, mas impeça que elas se transformem em guerras. Uma paz que não peça aos libaneses que abandonem sua memória, mas se recuse a permitir que essa memória se transforme em combustível para uma nova guerra. Uma paz que não esqueça os mártires, mas não envie seus filhos para uma nova morte. Uma paz que não ignore a ocupação nem a agressão, mas coloque os interesses do Líbano e de seu povo em primeiro lugar. Por isso, precisamos deixar de ter medo da palavra «paz». Talvez devêssemos temer outra coisa: que a guerra se torne algo normal em nossas vidas e que falar de paz se torne suspeito. Que país quer continuar prisioneiro da guerra? Que povo quer que seus filhos vivam à espera da próxima guerra? E que Estado pode construir uma economia e um futuro enquanto a decisão de guerra não estiver exclusivamente em suas mãos? Chegou a hora de passar da pergunta: como vencer a guerra? Para uma pergunta mais importante: Como impedir a guerra? E da pergunta: quem é mais forte? Para esta: Como fazer com que o Estado seja mais forte do que todos? E da pergunta: quem protege nossa comunidade? Para esta: Como o Estado pode proteger todos os libaneses? Essas não são perguntas de rendição. São perguntas de construção nacional. Por isso, a paz de que o Líbano precisa não é apenas a paz entre os libaneses e Israel, nem entre o Líbano e a Síria, nem entre o Líbano e qualquer outro Estado. É, antes de tudo, a paz do libanês com o libanês, a paz do cidadão com o Estado, a paz do Estado consigo mesmo e a paz do Líbano com seu entorno e com o mundo. A paz é o Líbano deixar de ser uma arena. E tornar-se um Estado. A paz é devolver a decisão às instituições. A paz é fazer com que as armas estejam exclusivamente nas mãos do Estado. A paz é fazer da Constituição uma referência, e não um slogan. A paz é fazer com que a cidadania seja mais forte do que a pertença confessional. A paz é fazer com que o desenvolvimento seja mais forte do que a guerra. A paz é fazer com que o futuro de nossos filhos seja mais importante do que nossas vitórias passadas. E, no fim, talvez não devêssemos ter vergonha da palavra «paz». Deveríamos ter orgulho dela. Pois quem pede paz não pede menos morte, mas mais vida. Quem quer a paz não abandona sua pátria, mas quer protegê-la de se transformar em uma arena permanente de conflitos. E quem constrói a paz não é fraco. É quem possui a coragem de romper o ciclo da violência. O papa disse: «Bem-aventurados os que promovem a paz.» E o Líbano, que conheceu mais a guerra do que a paz, precisa hoje transformar essa frase, de uma fórmula religiosa, em um projeto nacional. Um projeto que diga claramente: Queremos um Líbano que seja Estado, não arena; soberania, não dependência; cidadania, não partilha confessional; desenvolvimento, não destruição; paz, não guerra. Talvez a maior resistência que possamos empreender hoje seja resistir à transformação do Líbano em um campo de batalha. E talvez a maior vitória dos libaneses seja que seus filhos não precisem lutar na próxima guerra. Bem-aventurado o Líbano se vier a ser construtor da paz, em vez de vítima permanente das guerras.

Irão: o jogo perigoso da escalada regional face às sanções dos EUA

A escalada das tensões no Líbano, em Gaza, no mar Vermelho e no estreito de Ormuz alimenta o temor de um cenário ao qual o Irão e os seus aliados já recorreram: o de provocações militares crescentes para contrariar o D-Day económico americano. O exército israelita afirma estar a preparar-se para um possível «confronto em várias frentes», às vésperas de uma série de feriados judaicos que começam a 11 de setembro. Se o Irão evita cuidadosamente provocar Israel, para não sofrer uma retaliação que lhe custaria muito caro, não hesitaria, por outro lado, em incitar os seus aliados a semear perturbações, caso o cerco económico americano se apertasse ainda mais. O que, ao que parece, ainda não é o caso, tendo o Paquistão feito saber, na quinta-feira, por meio do porta-voz do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, Tahir Andrabi, que Islamabad «não é obrigada a cumprir sanções americanas unilaterais contra o Irão, a menos que estas sejam impostas pelas Nações Unidas». Na prática, isso significa que o Paquistão pretende continuar as suas trocas comerciais com Teerão, apesar da ameaça do presidente americano Donald Trump de sancionar os países que mantenham qualquer tipo de relação comercial com a República Islâmica. Segundo o porta-voz paquistanês, Islamabad considera que as sanções americanas «não estão em conformidade com o direito internacional e que os diferendos (entre os EUA e o Irão) devem ser resolvidos pelo diálogo». O porta-voz omite, a este respeito, que esse pretenso «diálogo» dura há mais de vinte anos, mais precisamente desde 2006, data em que o Conselho de Segurança da ONU intimou a República Islâmica a cessar o enriquecimento de urânio. Durante três anos consecutivos, desde 2006, o Conselho de Segurança adotou sanções cada vez mais severas contra o Irão, devido à sua recusa em cumprir as injunções onusianas… Ainda assim, a atitude de Islamabad constitui a primeira posição oficial de um Estado face ao D-Day económico anunciado na segunda-feira pelo presidente Trump contra o Irão. Tensão crescente No terreno, a tensão subiu um degrau em quase todas as frentes. Em Gaza, o caso dos papagaios de papel, balões e drones lançados contra o território israelita esteve prestes a degenerar. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o seu ministro da Defesa, Israel Katz, alertaram o Hamas para uma intensificação dos ataques caso esses lançamentos continuassem. No mar Vermelho, dois locais estratégicos que dão acesso ao igualmente estratégico estreito de Bab el-Mandeb — o porto de Mokha e a localidade de al-Khawkha, na costa oeste do Iémen — foram alvo de violentos ataques dos houthis e permanecem palco de intensos combates entre o grupo pró-iraniano e o exército regular iemenita. No estreito de Ormuz, os navios que se aventuram nos corredores protegidos pelos Estados Unidos continuam a ser alvo de ataques. No Líbano, uma mulher morreu e outras seis pessoas, entre as quais uma menina, ficaram feridas em ataques aéreos israelitas que visaram a localidade de Arabsalim, no caza de Nabatiyé, poucas horas após um ataque com drones armadilhados do Hezbollah contra as forças israelitas estacionadas na área da colina estratégica de Ali Taher, no mesmo caza. Os disparos e os ataques aéreos intensificaram-se nesta quinta-feira contra várias aldeias libanesas no sul do Líbano. A escalada é tanto mais preocupante quanto as operações militares israelitas não se limitam à chamada zona de segurança. O chefe do estado-maior israelita, Eyal Zamir, anunciou aliás um aumento do nível de alerta entre as suas tropas e referiu planos operacionais «em todas as frentes, do Irão ao Líbano e até Gaza», face ao risco de um «confronto em múltiplas frentes». Tentativas de mediação, mas… Esta situação constitui um indicador do fracasso, até ao momento, das tentativas de mediação retomadas entre Teerão e os Estados Unidos. Após o chefe do estado-maior paquistanês, o marechal Syed Asim Munir, e o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Sayyid Badr Al-Busaidi, recebidos sucessivamente na segunda e na terça-feira em Teerão, é agora a vez de Doha tentar relançar a diplomacia. O primeiro-ministro do Qatar, Mohammad ben Abdel Rahman al-Thani, deslocou-se na quinta-feira ao Irão, onde manteve dois encontros com o presidente Massoud Pezeshkian e com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. Estaremos, mais uma vez, perante uma corrida contra o relógio entre a diplomacia e a opção militar? É certo que esta última continua a ser o último recurso para Washington, segundo os responsáveis americanos, mas para o Irão, onde a pressão interna começa a fazer-se sentir com grande intensidade, o cálculo é bastante delicado: suportar as sanções ou aumentar a pressão no terreno. É aqui que o Líbano se encontra particularmente em causa e onde o papel do Hezbollah se torna sensível, enquanto o Estado continua a adiar indefinidamente a questão do desarmamento da milícia pró-iraniana. O presidente Aoun abordou indiretamente, na quinta-feira, o braço de ferro (verbal) com este grupo, referindo a existência de um «conflito interno» entre «aqueles que procuram reforçar as instituições do Estado e aqueles que tiram partido da sua fraqueza», sem mencionar qualquer possível roteiro para resolver precisamente esse conflito. Beirute continua a apostar nas negociações diretas com Israel, que deverão ser retomadas em setembro, em Roma, segundo o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, sem no entanto precisar uma data. Para compreender o cerne do problema no Líbano, é necessário acompanhar as declarações do embaixador dos Estados Unidos no Líbano, Michel Issa, que insistiu novamente na quinta-feira na prioridade do desarmamento do partido pró-iraniano, salientando ao mesmo tempo a dimensão regional deste problema. «O Hezbollah», sublinhou o embaixador americano, «deve entregar as suas armas e o Estado deve ser a única autoridade.» «Quanto às garantias, implicam que a soberania esteja exclusivamente nas mãos do Estado e que a defesa seja igualmente da sua responsabilidade.» «Na medida em que detém a autoridade, controla as instituições e mantém relações com outros Estados, poderá sempre recorrer a eles para obter a ajuda» de que necessite, declarou o diplomata americano após um encontro com o cheikh Akl druso, Sami Aboul-Mona. Mas para que isso seja possível, é necessário que o Hezbollah se desvincule do Irão, o que não é nada evidente, reconheceu o diplomata. «Até ao momento, o Hezbollah não quer falar nem com o Estado, nem connosco, nem com Israel, porque apenas recebe ordens do Irão», frisou.

Michel el-Khoury ou a nobreza do apagamento
Por
Michel Hajji Georgiou
Publicado

Como falar de um homem que detestava fazer barulho? De alguém que fugia dos gestos de efeito e de toda forma de exibição, embora seu brilho e sua nobreza, para seu próprio incômodo, travassem uma concorrência absolutamente desleal com sua extrema modéstia? A tarefa é particularmente árdua. Ainda mais porque o próprio homem, pouco afeito à mídia, às entrevistas, às honrarias ou a qualquer forma de exposição pública, teria desaprovado este exercício, no mínimo arriscado, a que se entrega o autor destas linhas. E, no entanto, é justamente porque o xeique Michel el-Khoury, falecido em 4 de julho de 2026, pouco antes de completar cem anos, escolheu ao longo da vida o caminho do silêncio e da discrição, fiel ao seu leitmotiv de que “é preciso servir, e não se servir”, colocando o Estado e sua primazia acima de qualquer outra consideração, que falar dele hoje se torna absolutamente necessário, num momento de profunda decomposição do Líbano. Tanto mais porque sua visão do país e de seu papel continua mais atual do que nunca. Que ele tenha a indulgência de perdoar esta tentativa, menos a de um jornalista do que a de um amigo fiel e agradecido, de dar humilde testemunho do que ele foi e do que continuará sendo na memória, ainda que apenas na daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo e conviver com ele. Os dois pais, as duas referências Brilho. Nobreza. Devoção silenciosa à coisa pública, ao Estado e à pátria. Se fosse preciso escolher um tríptico para se aproximar da personalidade imensamente rica e complexa do xeique Michel, seria este. Béchara el-Khoury, primeiro presidente da República Libanesa soberana, estava certo quando deixou escapar um dia esta frase magnífica e lacônica: “Meu filho Michel é um príncipe. O que estou dizendo, um príncipe… um arquiduque!” Michel el-Khoury foi, de fato, um grande senhor da política libanesa, no sentido mais honroso e mais nobre que a expressão possa conter. Um príncipe a serviço da República e da democracia… em tempos desatinados, dominados pelos mastins e cães de presa da politicagem libanesa, obcecados por honrarias… e por tutores. Mas poderia ser de outro modo quando o nome de seu pai, Béchara, se confundia com a independência do Grande Líbano, e o de seu pai espiritual, seu tio Michel Chiha, com a Constituição libanesa? Escapar do nome do pai era impossível. Tanto que, já depois dos noventa anos e apesar de uma trajetória pública excepcional e de uma cultura impressionante, observava, não sem certo cansaço, que a mídia continuava a colar ao seu nome o de seu pai, como se o seu ainda não bastasse… O destino tinha senso de ironia. Nunca deixara de zombar do xeique Michel, sem consideração por sua idade, sua trajetória ou sua experiência. O itinerário de um rebelde E, no entanto, desde muito jovem ele havia combatido o próprio conceito de herança política e o nepotismo, o que naturalmente o colocou em conflito com a própria família. Sentia admiração, respeito e profundo apego pela figura paterna. Ainda adolescente, havia visto o pai desafiar, arriscando a própria vida, os fuzis dos soldados senegaleses do Mandato francês quando, em novembro de 1943, grosseiros, insultantes, ameaçadores e violentos, chegaram ao palácio presidencial de Kantari para levá-lo à cidadela de Rashaya. A cena permaneceria gravada até o fim na memória do jovem Michel, ainda mais porque sua mãe, Laure Chiha, sofreu naquele dia uma crise cardíaca cujas sequelas a levariam à morte alguns anos depois. As autoridades do Mandato haviam recusado atendimento de emergência à primeira-dama: era preciso primeiro certificar-se de que o presidente estivesse detido… Pode-se dizer, portanto, que o xeique Michel perdeu sua mãe como vítima colateral da luta pela independência de sua terra-mãe, o Grande Líbano… Aquela mesma mãe que lhe pedira que prometesse nunca entrar na política e a quem, precisamente, ele nada prometeu… Mas quando o chefe de Estado, cujo círculo próximo já havia sido tocado pela corrupção e minado pelo clientelismo, decidiu renovar seu mandato, o filho se rebelou e deixou a casa da família para refugiar-se junto de seu mentor, Michel Chiha, igualmente contrário à iniciativa do xeique Béchara, oposta ao espírito republicano. E o conflito não ficou confinado ao âmbito familiar. Em setembro de 1950, o xeique Michel tomou a palavra publicamente no Cenáculo Libanês de Michel Asmar para criticar o rumo adotado pelo pai. Levar o nome, sim. Mas não a qualquer preço. Eis um trecho daquela conferência: “Conquistamos a independência. E depois? O que fez o Estado da independência? O que fez para construir o Estado, construir a pátria e construir o cidadão? Nada. Recuamos… aos hábitos otomanos e às práticas do colonialismo. Voltamos à corrupção, à negligência e ao declínio… Aqueles que nasceram com a independência de 1943 crescem e envelhecem sem que tenhamos feito o esforço ou cumprido o dever de reuni-los como verdadeiros libaneses… É preciso eliminar os resíduos do passado e essa inércia mortal de métodos obsoletos herdados do Mandato e de períodos anteriores; é preciso também eliminar um obstáculo moral: a mentalidade do ‘dividir para reinar’.” O filho da independência escolheu, assim… a independência. E essa foi uma constante, uma escolha coerente e assumida ao longo de toda a sua trajetória, apesar de sua longa afinidade com o chehabismo. Como quando, depois da guerra, decidiu renunciar durante seu segundo mandato como governador do Banco do Líbano por sua firme oposição à política de endividamento seguida pelo primeiro-ministro Rafic Hariri. Hariri insistiu para que permanecesse no cargo, apesar das divergências e em nome da amizade entre os dois. A resposta do xeique Michel foi, como de costume, cortante: “É justamente para que continuemos amigos que vou embora…” Embora tenha presidido por algum tempo o Destour, às vésperas da guerra civil, Michel el-Khoury recusou-se a transformá-lo num partido tradicional e tentou, sem sucesso, modernizá-lo. Ousou até, sacrilégio supremo, propor a Raymond Eddé, filho do arqui-inimigo de seu pai, Émile Eddé, uma fusão com o Bloco Nacional para conter a ascensão das milícias e o canto de sereia da violência… e recebeu como resposta uma resposta glacial do “Amid”: “Jamais o filho de Émile Eddé colocará a mão na do filho de Béchara el-Khoury!” Raymond Eddé, por mais estadista que fosse, não era Charles de Gaulle… O General, por sua vez, havia demonstrado muito mais cavalheirismo e sensatez quando Fouad Chéhab, então presidente da República, encarregou o xeique Michel de uma missão junto ao Eliseu para impedir a venda de terrenos franceses no Líbano ao banqueiro palestino Youssef Baidas. De Gaulle, que não se levantava por ninguém, recebeu de pé o filho de seu antigo adversário, observou-o do alto de sua figura imponente e disse em tom que não admitia réplica: “Sei de quem o senhor é filho… Um dia vocês lamentarão ter expulsado os franceses do Líbano.” Seja como for, o presidente francês facilitou depois a missão do jovem emissário, que foi bem-sucedida. Na sequência dessa missão, em 1967, Jean Kaplan, do Grupo Suez, encarregou Michel el-Khoury de assumir o Banque Libano-Française, dando início a uma longa carreira no setor bancário. O homem dos bastidores Michel el-Khoury tornou-se assim, progressivamente, o homem das missões políticas e diplomáticas sutis, conduzidas na sombra, primeiro a serviço de Chéhab e depois de Charles Hélou, que lhe confiou a direção do estratégico Conselho Nacional de Turismo, organismo que permitia ao chehabismo desenvolver discretamente uma verdadeira diplomacia paralela. Era um papel feito sob medida para ele, perfeitamente de acordo com sua personalidade de servidor do Estado e homem dos bastidores, longe dos holofotes… embora também tenha sido ministro, entre outros cargos ministro da Defesa antes da Guerra dos Seis Dias. Nessa qualidade, durante reuniões com seus homólogos e com responsáveis militares árabes, pôde constatar, com números e projeções em mãos, que os exércitos da região caminhavam para uma derrota esmagadora diante das Forças de Defesa de Israel em caso de confronto. A distância entre a realidade da correlação de forças e a retórica populista de Nasser era alarmante. A derrota e, depois, a extraordinária onda de fervor popular em torno do líder egípcio o marcaram profundamente. Viu nisso de imediato um dos males mais persistentes da região: a capacidade de um líder de conservar seu domínio sobre o imaginário coletivo mesmo depois de uma catástrofe de tamanha magnitude… Essa discrição, aliada à elegância, também fez com que fosse constantemente consultado e ouvido com atenção pelas chancelarias. Guiado por uma estrutura ética e política cujo único motor era o serviço à pátria, à sua independência, soberania e continuidade, Michel el-Khoury era sem dúvida um dos raros políticos que nada pediam para si mesmos… e por isso era um homem digno de confiança. Porque era incorruptível. Uma missão oficial junto a Ernest Bevin, na Grã-Bretanha de Attlee, deixou-lhe uma lição inesquecível a esse respeito. No pós-guerra, pensara em oferecer, por pura cortesia, chocolates a seus interlocutores britânicos num momento em que o país ainda vivia privações. Mas o presente lhe foi devolvido: num país ainda submetido a restrições e racionamento, as autoridades públicas não aceitavam privilégios dos quais os cidadãos comuns estavam privados. Michel el-Khoury ficou profundamente marcado por aquilo. O que admirava não era a austeridade em si, mas a ideia quase sagrada de que um servidor público devia estar submetido às mesmas regras que os demais. Para um homem que passaria toda a vida denunciando o clientelismo e a corrupção, aquela anedota tinha o valor de uma lição de civismo. Valores para o Líbano Mas como contar, então, a história de um homem quase invisível, alguém que, como seu grande amigo, companheiro de jornada e confidente Fouad Boutros, queimou antes de morrer a totalidade de seus arquivos para não deixar rastro? Um homem que se recusou sistematicamente a escrever suas memórias, apesar dos numerosos pedidos vindos de diferentes meios, inclusive do autor destas linhas? Um homem que não deixou atrás de si senão uma obra meditativa, íntima, introspectiva, angustiada e sublime, Ruptures vespérales , fortemente evocativa de um de seus mestres, Emil Cioran… e assinada com um pseudônimo, Michel Delescure? Precisamente, por meio dos valores que guiaram sua ação política e atravessam toda a sua trajetória. Assim, quando evocava Béchara el-Khoury e Michel Chiha, Michel el-Khoury expressava uma rejeição visceral à própria ideia de “tolerância”, desprezível a seus olhos, e insistia, em vez disso, na importância e no sentido da “partilha”, valor comum aos dois homens e que herdara deles. Essa ideia fundadora da “partilha” explica sem dúvida o apego dos dois pais e referências de Michel el-Khoury ao Grande Líbano, ao Pacto Nacional e à convivência. Para Chiha, explicava o xeique Michel, o sistema confessional deveria desembocar, a longo prazo, numa cidadania inclusiva, e não afundar num sectarismo tribal. Quanto a Béchara el-Khoury, segundo o xeique Michel, ele teria escrito no manuscrito do quarto volume de suas memórias, destruído durante a guerra no incêndio da biblioteca de Kantari, que seu sucessor na Presidência da República deveria ser Riad el-Solh, o primeiro-ministro sunita… sinal de que o sistema não deveria fossilizar-se, mas, ao contrário, evoluir, e de que o essencial era um sentido propriamente libanês de pertencimento, e não as lealdades herdadas… Michel el-Khoury defenderia essa concepção orientadora até o fim. Ela explica também sua rejeição, no espírito de Chiha, ao Estado de Israel, que considerava a antítese do modelo pluralista do Grande Líbano e ao qual atribuía, desde sua criação em 1948, um papel decisivo na sabotagem do jovem Estado libanês e de seu desenvolvimento. De fato, durante uma visita aos Estados Unidos nos anos 1960, protagonizou uma áspera disputa pública com um professor universitário que, numa conferência, defendia abertamente as ambições de Israel sobre os países vizinhos… Aquele homem se tornaria mais tarde o todo-poderoso secretário de Estado da era Nixon. Seu nome? Henry Kissinger… Isso explica também seu desprezo pelo populismo e pelas derivas sectárias de cunho fascista no interior das diferentes comunidades. Intransigente em matéria de independência e na defesa de determinada visão do Líbano, e capaz, quando necessário, de calar um adversário com uma única réplica certeira, Michel el-Khoury era antes de tudo um homem de mediação, medida e diálogo, fiel aos ensinamentos de seu mentor Chiha. Assim, quando o presidente Élias Sarkis tentou, por intermédio do xeique Michel, então governador do Banco Central em seu primeiro mandato, uma mediação com os palestinos para preservar a continuidade e o funcionamento das instituições, Bachir Gemayel, o principal homem forte do campo cristão em Beirute Oriental, ameaçou humilhá-lo publicamente sob o pretexto de que ele traía o espírito de corpo cristão. Com o mesmo espírito republicano, Michel el-Khoury opôs-se firmemente a todas as aventuras paraestatais e antiestatais, desde a ocupação síria até as milícias, diante das quais chegou um dia a interpor fisicamente o próprio corpo para proteger o edifício e os funcionários do Banco do Líbano quando homens armados tentaram invadi-lo, e mais tarde à influência iraniana exercida por meio do Hezbollah. Em 6 de fevereiro de 1984, enquanto a insurreição da Amal dividia o Exército e devolvia a capital à violência, observou o país se desfazer e disse: “O Pacto voou pelos ares.” Em 14 de março de 2005, a violência fez renascer certa esperança após o assassinato de Rafic Hariri. A ocupação síria chegou ao fim, para ser substituída, a seus olhos, pelo jugo de Teerã. O xeique Michel, que havia participado do Encontro de Kornet Chehwan sob a égide de seu amigo, o patriarca Nasrallah Sfeir, outro convicto seguidor do pensamento de Chiha, juntou-se às forças de 14 de Março… mas voltou a encontrar ali o mesmo mal endêmico que combatera por toda a vida: as lutas pelo poder, o fechamento sectário e identitário e a mediocridade de quem tomava as decisões… fatores que acabaram conduzindo ao pesadelo da eleição “consensual” de Michel Aoun como presidente da República, que representava, a seus olhos, a quintessência do populismo e a negação do espírito republicano. O espírito da independência de Béchara el-Khoury, da República de Michel Chiha e das instituições de Fouad Chéhab era pisoteado em benefício da personalização do poder, da demagogia, do populismo e da primazia da chantagem e da correlação de forças sobre a democracia e o espírito institucional. “Sem liberdade, o Líbano se torna uma ficção” No fundo, toda a sua visão do Líbano repousava sobre uma articulação difícil entre liberdade, pluralismo e independência. Crítico do sistema libanês? Nostálgico de suas rigidezes confessionais? De modo algum. Não era esse o estilo do xeique Michel. Para ele, apesar de seus defeitos, o sistema havia preservado um bem insubstituível: a liberdade. Liberdade política, intelectual, religiosa e econômica, sem a qual o Líbano perderia, a seus olhos, até mesmo sua razão de ser. Apesar de seus defeitos e falhas, o pluralismo do Grande Líbano era a garantia dessa liberdade, e qualquer projeto que buscasse desarticulá-lo, diluí-lo, seu pai não mandara executar Antoun Saadé em vão, ou fragmentá-lo sob qualquer pretexto ou denominação, constituía uma ameaça real àquele frágil equilíbrio que servia de sentinela da liberdade. “Sem liberdade, o Líbano se torna uma ficção”, sublinhava. Mas essa liberdade não poderia sobreviver sem evolução. Desde os anos 1960, o xeique Michel defendia uma saída gradual do confessionalismo político, a primazia da competência na administração pública, o casamento civil e, posteriormente, a secularização do Estado. Mas não por meio de uma revolução. “É possível mudar o sistema de dentro do próprio sistema”, dizia em essência. Toda reforma duradoura exigia primeiro uma transformação das mentalidades por meio da educação e da cidadania. Para o xeique Michel, o Líbano possuía algo profundamente valioso: precisamente essa capacidade de fazer diferentes comunidades conviverem, aquilo que René Maheu chamava de “estilo de civilização”. Mas o país havia traído essa vocação ao permitir que o confessionalismo degenerasse em clientelismo, fechamento identitário e instrumento de ingerência estrangeira. O Pacto, sim, mas antes de tudo o ser humano Muito apegado ao Pacto, o xeique Michel censurava seus autores por tê-lo deixado na ambiguidade, permitindo que os libaneses brigassem por sua interpretação enquanto, no fundo, concordavam em jamais defini-lo de verdade. Por isso, antes do Acordo de Taif, defendia um novo pacto baseado em novos objetivos comuns a todos os libaneses, no combate a uma forma de derrotismo coletivo e na criação de verdadeiras oportunidades de progresso para todos. “O Pacto foi uma base necessária quando foi estabelecido, mas torna-se uma base negativa se se pretende transformá-lo no fundamento da construção de uma nação. A base positiva necessária para construir Estados modernos não se encontra no Pacto.” Para ele, estava claro que o problema não residia apenas nos textos, mas nos seres humanos. “É preciso acelerar a aprendizagem da cidadania pelo cidadão, a fim de transformá-lo num bom cidadão; então já não será impossível construir uma boa pátria”, escreveu em 1970. E acrescentava: “A necessidade fundamental é criar um partido baseado numa doutrina e capaz de reunir os diferentes componentes que formam o Líbano. Se esse partido existisse hoje, eu seria o primeiro a me filiar. Teria assumido minha parte de responsabilidade e cumprido meu dever nesse campo.” “O sistema precisa de grandes empreendimentos: primeiro a vontade, depois a educação, depois a moral (…) Constatei que a mudança e a reforma devem começar na escola, no ambiente familiar, na educação.” E, sobretudo, a cidadania exigia que cada libanês pudesse “sentir-se bem”, isto é, dispor de condições de vida capazes de reforçar seu apego ao Líbano, observava. “O Pacto de 1943 não pode resistir por muito tempo se uma das categorias que o aceitaram estiver condenada a uma vida difícil. (…) O ser humano só se apega à sua pátria se nela encontra as condições que lhe permitem viver dignamente.” E sublinhava: “Não basta que o Líbano seja um exemplo vivo de convivência islamo-cristã; é preciso também que cristãos e muçulmanos tenham uma vontade firme e duradoura de continuar sendo libaneses.” Já nos anos 1970, porém, seu julgamento sobre os responsáveis políticos era implacável: “Às vezes pedimos o impossível mesmo sabendo que é impossível, e ainda assim continuamos a pedi-lo. Por quê? Porque alguns, na realidade, não querem fazer nada.” Uma neutralidade inseparável da convivência Acima de tudo, o xeique Michel defendia uma concepção singular da neutralidade libanesa. Não o isolamento, mas exatamente o contrário: a capacidade do Líbano de estar presente em vários mundos ao mesmo tempo, árabe sem ser absorvido, aberto ao Ocidente sem ficar subordinado a ele, falando com todos sem se tornar satélite de ninguém. Uma neutralidade de abertura e soberania. “Mas, para isso, o Líbano deve produzir e saber o que é”, dizia, e, sobretudo, continuar sendo ele mesmo. Anos depois acrescentaria: “O Líbano é uma fronteira que atravessa cada libanês. Mas essa fronteira também une.” Em outras palavras, o pluralismo e a convivência enriqueciam o libanês com uma personalidade complexa, permitindo-lhe sentir e pensar com os membros das demais comunidades por meio de um modelo de empatia, potencialmente capaz de desarmar aquilo que Amin Maalouf chamaria anos depois de “identidades assassinas”. Essa era, para ele, a verdadeira maneira libanesa de ser. Mais de meio século depois, essa formulação da vocação do Líbano, inspirada em Chiha, continua profundamente atual num mundo cada vez mais fechado em identidades excludentes. A visão de neutralidade positiva que Michel el-Khoury formulou numa conferência no Cenáculo Libanês, em maio de 1961, se assemelha muito à forma como esse princípio continua vital para a sobrevivência do Líbano em 2026: proteção contra as guerras alheias, longe de toda tentação autárquica, preservando ao mesmo tempo um papel ativo do Líbano em seu entorno. A dívida de lealdade Mas uma história talvez permita compreender melhor do que qualquer outra a importância que o xeique Michel atribuía à empatia e à alteridade em sua visão da política, em consonância com o humanismo integral defendido por Chiha. Trata-se de sua traumática experiência no Iraque durante o mandato de Chamoun, que lhe ensinou, de maneira muito mais brutal, uma lição fundamental de ética da vida. Acabara de almoçar em Bagdá com o jovem rei Faisal II, para quem supervisionava um projeto de construção, quando, em 14 de julho de 1958, a revolução derrubou de forma sangrenta a monarquia hachemita. Michel el-Khoury viu então os operários da obra erguendo forcas destinadas à família real. Um deles lhe confidenciou que uma delas estava reservada para ele porque era “amigo do rei”… O engenheiro-chefe da obra salvou sua vida levando-o imediatamente ao aeroporto. De volta a Beirute, descobriu naquela noite que seus cabelos haviam embranquecido. Não sentira medo no momento, mas o corpo, por sua vez, havia feito as contas. Anos depois, quando seu providencial salvador se viu, por sua vez, em perigo, preso e condenado à morte no Iraque, o xeique Michel mobilizou suas relações, especialmente por intermédio de Fouad Chéhab, para obter seu indulto e permitir que deixasse o país. Conseguiu, pelo menos por algum tempo: o homem foi assassinado mais tarde, depois de retornar ao Iraque. Para o xeique Michel el-Khoury, uma dívida de lealdade nunca prescreve. Foi uma máxima que fez sua tanto na vida pessoal quanto na conduta política. Quase meio século depois, continuava a falar daquele homem com uma inquietante mistura de gratidão e ansiedade, perguntando-se ainda se havia sido digno daquele que lhe salvara a vida. A nobreza de alma existe ou não existe. Não pode ser inventada. Talvez fosse isso, afinal, que Béchara el-Khoury tivesse vislumbrado quando chamou o filho de “arquiduque”… O homem do Renascimento Michel el-Khoury era também um homem de cultura quase desconcertante pela amplitude e pelo ecletismo. Os nomes surgiam às vezes ao acaso da conversa, sem que jamais lhe ocorresse extrair deles qualquer prestígio: Chaplin, que conheceu em Londres, Cioran, Stockhausen, Hélène Carrère d’Encausse, entre tantos outros escritores, artistas, pensadores e grandes figuras do mundo político, religioso, social e cultural. Podia passar com absoluta naturalidade de uma conversa sobre a Constituição libanesa à música contemporânea, de Chiha a Paul Valéry. Durante uma viagem que fiz a Sète em 2018, pediu-me que visitasse em seu nome o túmulo de Valéry e guardasse ali um momento de silêncio. Era também um de seus mestres. O xeique Michel, cavalheiro de elegância sempre impecável, não precisava exibir-se. Não precisava demonstrar nada. Nem cobiça, nem fome de honrarias ou reconhecimento. Ruptures vespérales , o único vestígio íntimo que deixou, revela, ao contrário, um homem atormentado pela solidão, pela identidade, pelo tempo e, sobretudo, pela ausência. “É o medo, em suma, que me faz escrever, uma fobia da ausência”, confessa. Cada palavra que traçava tornava-se assim, de algum modo, uma arma contra o apagamento. Há algo de estranho e profundamente comovente nessa contradição: Michel el-Khoury, que temia a ausência e combatia o nada, recusou-se, no entanto, a organizar a própria posteridade. Ou talvez, simplesmente, viver, e os atos de vida que alguém deixa na memória dos que lhe são próximos, fosse a única posteridade de que precisava, uma posteridade infinitamente mais valiosa do que os ouropéis de uma glória ilusória consignados em papel perecível… Para aquele homem do Renascimento, quase universal em suas curiosidades, a escrita tornou-se assim uma forma de resistência existencial. A morte do Líbano em sua alma É possível viver, para o bem e para o mal, até perder o próprio desejo de continuar vivendo? Aos noventa e cinco anos, Michel el-Khoury repetia a seus poucos visitantes: “Meus amigos já não estão neste mundo. Há muito ultrapassei o tempo que me cabia neste mundo. Mas a Morte não me quer…” Seu desencanto político havia sido imenso. Desde a juventude, denunciara incansavelmente menos a imperfeição das instituições do que a mediocridade daqueles que as deformavam. “Muitos se servem, e poucos servem.” Talvez todo o seu desencanto político coubesse nessa frase. Esse diagnóstico seria também, à sua maneira, o de seu antigo colega de classe Hassan Rifaï, que havia compartilhado com ele a mesma carteira em La Sagesse, antes de sua morte em setembro de 2025. Também o de Fouad Boutros. E Samir Frangié, mais jovem, que já lutava havia algum tempo contra um câncer, decidiu, após a capitulação das forças de 14 de Março diante do Hezbollah e o acordo que levou Michel Aoun à Presidência da República em 2016, afastar-se de tudo e voltar para casa para morrer, profundamente ferido pela desilusão e pela amargura políticas. Junto com alguns outros, não pertenciam a uma geração milagrosamente preservada do populismo, pois sua época conheceu mais do que o suficiente, mas a uma outra tradição política: uma tradição de sobriedade, competência, dedicação ao Estado e convicção de que o diálogo continua sendo um dos elementos fundadores da política. Mas o desencanto de Michel el-Khoury acabou atingindo algo muito mais profundo do que a política. Em setembro de 2020, durante o centenário do Grande Líbano, um mês depois da explosão do porto de Beirute, confidenciou-me por telefone: “Já não sinto orgulho algum de pertencer a este Líbano. Já não me reconheço nele de modo algum. Não quero repousar em terra libanesa. Quero ser enterrado na França.” Na boca do homem que havia escrito que “o Líbano é um ato de fé antes de ser uma fórmula política”, essas palavras tinham a violência de uma ruptura íntima. A tragédia da perda da terra-mãe golpeava de novo. Michel el-Khoury partiu deste mundo na ponta dos pés. Recolheu-se atrás das portas de sua casa quando o corpo já não pôde mais, e depois se apagou como havia servido: com absoluta discrição. Em nossa última conversa telefônica, conteve os soluços antes de me dizer: “Michel, onde quer que eu vá, você estará sempre comigo, e sei que eu estarei sempre com você.” O xeique Michel passou a vida apagando seus rastros. Mas, que ele me perdoe, não conseguiu apagar este. E nunca conseguirá.