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Opinião

Por que os libaneses têm medo da palavra «paz»?

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Por Jad Akhawi
Publicado ago 28, 2026 - 12:38

«Bem-aventurados os que promovem a paz.»

Talvez não exista frase que resuma melhor aquilo de que o Líbano precisa hoje do que esta, levada pelo papa Leão XIV em sua visita ao país e transformada por ele em uma de suas mensagens centrais aos libaneses. Sua visita ocorreu em um país exausto por guerras, crises e divisões, colocando a paz no centro do discurso libanês, não como rendição ou concessão, mas como ato, responsabilidade e projeto de futuro.

Mas o paradoxo libanês está no fato de que nós, que vivemos tanta guerra, às vezes passamos a ter medo da própria palavra «paz».

Por quê?

Por que o libanês precisa justificar seu apelo à paz? E por que alguns sentem que o simples uso dessa palavra pode colocá-los no banco dos réus, como se tivessem renunciado aos seus direitos, aceitado a rendição, buscado a normalização ou abandonado a causa?

A paz tornou-se uma acusação no Líbano?

Essas perguntas não são linguísticas. Elas revelam um problema profundo da cultura política libanesa.

O Líbano viveu décadas de guerras. Guerra civil, ocupações, invasões, agressões, assassinatos, conflitos internos e disputas regionais transformadas em crises libanesas. E, a cada vez, os libaneses pagaram o preço: mortos e feridos, deslocamentos, destruição, colapso econômico, emigração e fraturas sociais.

E, ainda assim, não aprendemos que a guerra não é um destino inevitável para o Líbano.

Talvez tenha chegado a hora de redefinir a paz.

A paz de que o Líbano precisa não é a paz da rendição, nem a paz da submissão, nem uma paz imposta de fora.

É uma paz libanesa.

E essa paz começa com uma ideia simples: que o Líbano seja senhor de suas próprias decisões.

Que seja o Estado a decidir sobre a guerra e a paz.

Que as instituições do Estado sejam a única referência.

Que o Exército libanês seja a instituição responsável por proteger as fronteiras e a soberania.

Que a lei esteja acima de todos.

E que o Líbano não continue sendo uma arena aberta para as guerras dos outros.

Pois a paz não significa abrir mão de nossos direitos. Significa buscar proteger esses direitos por meios que preservem o Líbano e seu povo, e não por meios que transformem novamente o Líbano em terra de guerra.

A paz não é fraqueza.

Ela pode ser, de fato, uma das formas mais difíceis de força.

É fácil abrir fogo, é fácil declarar guerra, é fácil erguer slogans de vitória. O mais difícil é impedir a guerra quando se tem a capacidade de provocá-la, escolher a negociação quando ela serve melhor ao próprio povo e usar a diplomacia, o direito e as relações internacionais para proteger o país.

Por isso, a paz não contradiz a soberania.

Ao contrário, a verdadeira paz é fruto da soberania.

Um Estado soberano decide quando luta e quando negocia. É ele quem fala em nome de seu povo, defende suas fronteiras, assina acordos e assume a responsabilidade por sua implementação.

Mas, quando se multiplicam os centros de decisão, a própria paz se torna impossível.

Não pode haver paz duradoura enquanto existirem no país forças capazes de decidir sobre a guerra fora das instituições constitucionais.

E isso não diz respeito a uma comunidade e não a outra, nem a uma confissão e não a outra.

O problema não está nos xiitas, nem nos sunitas, nem nos cristãos, nem nos drusos.

O problema está na lógica confessional quando ela se transforma em substituto do Estado.

O Líbano não precisa de comunidades armadas para que protejam umas às outras. O Líbano precisa de um Estado que proteja todos.

O xiita não deveria precisar de um partido para se sentir seguro, o cristão não deveria precisar de proteção externa, o sunita não deveria buscar o apoio de uma potência regional, e o druso não deveria temer por sua existência.

O Estado é a garantia.

E é aqui que a paz interna se torna uma condição da paz externa.

Não podemos falar de paz com o mundo enquanto os próprios libaneses vivem em um estado de medo mútuo.

A paz libanesa significa passar da lógica dos grupos à lógica da cidadania.

Significa que o libanês sinta que seus direitos estão garantidos porque ele é cidadão, e não porque pertence a uma comunidade, a um partido, a uma região ou a um eixo.

Por isso, aplicar a Constituição não é uma questão técnica. É parte do projeto de paz.

A Constituição define as instituições, as competências e as relações entre os poderes. E o problema libanês nem sempre está na ausência de textos, mas em sua não aplicação e na substituição do Estado por um sistema de partilha política e confessional.

Não se pode construir a paz sobre uma lógica de quotas.

A paz precisa de um Estado de direito.

E o Estado precisa de um Judiciário independente, instituições eficazes, prestação de contas e igualdade entre os cidadãos.

Mas a paz não se limita à política e à segurança.

Existe também uma paz social e econômica.

O que significa um cessar-fogo se o libanês continuar sem trabalho?

O que significa segurança se o jovem libanês for obrigado a emigrar?

O que significa estabilidade se a pobreza aumenta, o Estado é incapaz de agir e a economia está em ruínas?

A paz também significa permitir que o libanês viva com dignidade.

Que encontre uma escola, uma universidade, um hospital.

Que encontre um emprego.

Que possa construir uma casa e formar uma família.

Que sinta que seu futuro está no Líbano, e não no aeroporto de Beirute.

Por isso, a paz não é apenas a ausência de guerra.

A paz é a presença da vida.

E é aqui que a frase do papa, «Bem-aventurados os que promovem a paz», ganha toda a sua profundidade.

Ele não disse: bem-aventurados os que esperam pela paz.

Disse: os que promovem a paz.

Aqueles que a constroem.

E essa responsabilidade é dos libaneses antes de ser da comunidade internacional.

Não podemos pedir ao mundo que faça a paz por nós enquanto nós mesmos nos recusamos a participar de sua construção.

A paz precisa de uma decisão libanesa.

Precisa de um Estado.

Precisa de diálogo.

Precisa de coragem política.

E precisa, antes de tudo, de uma mudança em uma cultura política que transformou a guerra em heroísmo, o compromisso em traição, a negociação em fraqueza e a paz em concessão.

Precisamos reabilitar a própria ideia de negociação.

Negociar não é trair.

Diplomacia não é rendição.

E buscar um acordo que preserve os interesses do Líbano não significa abrir mão do Líbano.

Os Estados não protegem seus interesses apenas pelas armas. Protegem-nos também por meio do direito, da força diplomática, da economia, das alianças, das instituições e de sua capacidade de construir relações equilibradas com o mundo.

E o Líbano que queremos não deve estar subordinado a nenhum eixo.

Nem ao Irã.

Nem a Israel.

Nem aos Estados Unidos.

Nem a nenhuma potência regional ou internacional.

Líbano em primeiro lugar.

Esse é o significado da soberania.

Que as relações do Líbano com os outros sejam baseadas no interesse libanês, e não na dependência.

Que o Líbano seja uma ponte, não uma arena.

Um Estado, não uma carta a ser jogada.

Uma pátria, não uma plataforma.

Talvez esse seja o verdadeiro significado da paz libanesa.

Uma paz que não elimine as divergências, mas impeça que elas se transformem em guerras.

Uma paz que não peça aos libaneses que abandonem sua memória, mas se recuse a permitir que essa memória se transforme em combustível para uma nova guerra.

Uma paz que não esqueça os mártires, mas não envie seus filhos para uma nova morte.

Uma paz que não ignore a ocupação nem a agressão, mas coloque os interesses do Líbano e de seu povo em primeiro lugar.

Por isso, precisamos deixar de ter medo da palavra «paz».

Talvez devêssemos temer outra coisa: que a guerra se torne algo normal em nossas vidas e que falar de paz se torne suspeito.

Que país quer continuar prisioneiro da guerra?

Que povo quer que seus filhos vivam à espera da próxima guerra?

E que Estado pode construir uma economia e um futuro enquanto a decisão de guerra não estiver exclusivamente em suas mãos?

Chegou a hora de passar da pergunta: como vencer a guerra?

Para uma pergunta mais importante:

Como impedir a guerra?

E da pergunta: quem é mais forte?

Para esta:

Como fazer com que o Estado seja mais forte do que todos?

E da pergunta: quem protege nossa comunidade?

Para esta:

Como o Estado pode proteger todos os libaneses?

Essas não são perguntas de rendição.

São perguntas de construção nacional.

Por isso, a paz de que o Líbano precisa não é apenas a paz entre os libaneses e Israel, nem entre o Líbano e a Síria, nem entre o Líbano e qualquer outro Estado.

É, antes de tudo, a paz do libanês com o libanês, a paz do cidadão com o Estado, a paz do Estado consigo mesmo e a paz do Líbano com seu entorno e com o mundo.

A paz é o Líbano deixar de ser uma arena.

E tornar-se um Estado.

A paz é devolver a decisão às instituições.

A paz é fazer com que as armas estejam exclusivamente nas mãos do Estado.

A paz é fazer da Constituição uma referência, e não um slogan.

A paz é fazer com que a cidadania seja mais forte do que a pertença confessional.

A paz é fazer com que o desenvolvimento seja mais forte do que a guerra.

A paz é fazer com que o futuro de nossos filhos seja mais importante do que nossas vitórias passadas.

E, no fim, talvez não devêssemos ter vergonha da palavra «paz».

Deveríamos ter orgulho dela.

Pois quem pede paz não pede menos morte, mas mais vida.

Quem quer a paz não abandona sua pátria, mas quer protegê-la de se transformar em uma arena permanente de conflitos.

E quem constrói a paz não é fraco.

É quem possui a coragem de romper o ciclo da violência.

O papa disse: «Bem-aventurados os que promovem a paz.»

E o Líbano, que conheceu mais a guerra do que a paz, precisa hoje transformar essa frase, de uma fórmula religiosa, em um projeto nacional.

Um projeto que diga claramente:

Queremos um Líbano que seja Estado, não arena; soberania, não dependência; cidadania, não partilha confessional; desenvolvimento, não destruição; paz, não guerra.

Talvez a maior resistência que possamos empreender hoje seja resistir à transformação do Líbano em um campo de batalha.

E talvez a maior vitória dos libaneses seja que seus filhos não precisem lutar na próxima guerra.

Bem-aventurado o Líbano se vier a ser construtor da paz, em vez de vítima permanente das guerras.

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