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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 5, 2026 - 00:55
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
Analisar
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Por Jad Akhawi - Publicado em set 4, 2026 - 15:00
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A batalha de Ali al-Taher não foi apenas um confronto militar em torno de uma colina estratégica no sul do Líbano. Apesar de sua área limitada, o local se transformou em um ponto de convergência de cálculos militares, políticos e regionais, revelando um dos aspectos centrais do conflito que persiste no Líbano: quem controla o território, quem detém as armas e quem decide sobre a guerra e a paz? O mais significativo não é apenas a entrada de Israel no local, mas a insistência do Hezbollah em se recusar a entregá-lo ao Exército libanês, embora o Exército seja a única instituição legítima que deveria assumir a responsabilidade pelo território libanês, sobretudo nas áreas de fronteira diretamente ligadas à segurança e à soberania do país. Por que o Hezbollah se recusou? Porque a entrega de Ali al-Taher ao Exército não teria sido entendida como uma simples medida no terreno. Teria carregado um significado político que ia muito além da própria colina. Uma medida desse tipo teria equivalido a um reconhecimento de fato da autoridade do Estado libanês sobre as decisões de segurança e militares no Sul, assim como do princípio de que nenhuma outra força armada pode agir como se exercesse autoridade efetiva sobre o terreno. O local tornou-se, assim, um teste da autoridade do Estado, e não apenas uma posição militar avançada. Quem matou os combatentes? Esse continua sendo o episódio mais obscuro da narrativa da batalha. A versão israelense fala em combatentes mortos e outros que fugiram, enquanto as informações independentes sobre quantas pessoas estavam no local, qual era a natureza de sua missão e qual foi seu destino final continuam incompletas. As versões contraditórias também levantam inúmeras perguntas que não podem ser respondidas apenas com base em comunicados militares. E não se trata de um simples detalhe operacional: A maioria dos combatentes foi morta dentro do local? Eles conseguiram se retirar por túneis e passagens? Ou haviam sido evacuados antes do início da operação israelense? Cada um desses cenários tem um significado diferente. Se os combatentes permaneceram no local até o último momento, isso significaria que houve um confronto direto que terminou com uma clara superioridade militar israelense. Se, por outro lado, eles foram evacuados previamente, as perguntas passariam a ser quem tomou essa decisão, por que ela foi tomada e se a evacuação fazia parte de um entendimento mais amplo ou se foi apenas uma medida militar preventiva. E se ficar comprovado que um número significativo deles deixou o local antes da entrada das forças israelenses, as principais perguntas serão então: como eles saíram, quem facilitou sua saída e isso ocorreu com o conhecimento de atores locais ou internacionais? Até o momento, não há elementos públicos suficientes para determinar qual desses cenários corresponde ao que de fato ocorreu. Mas a ausência de informações não reduz a importância dessas perguntas. Ao contrário, aumenta as dúvidas sobre o que aconteceu nas horas que antecederam a tomada do local. E quanto à visita do embaixador dos Estados Unidos a Israel? O momento merece atenção. A escalada em torno de Ali al-Taher coincidiu com uma movimentação diplomática americana em relação a Israel, enquanto surgiam informações sobre conversas a respeito do local e sobre a possibilidade de que ele acabasse sendo entregue ao Exército libanês. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido tomada fora do Líbano, nem que tenha sido alcançado um acordo plenamente definido entre Washington, Tel Aviv e Beirute. Mas sugere que o local já não é visto apenas como uma questão militar local. Não há base para afirmar que a visita do embaixador americano tenha feito parte de um acordo secreto sobre Ali al-Taher. Tampouco se pode afirmar com certeza que tudo o que ocorreu tenha sido resultado de um entendimento prévio entre as partes envolvidas. No entanto, está claro que Washington vê o futuro do local como parte de um dossiê mais amplo, relacionado ao cessar-fogo, à estabilização da fronteira, à prevenção de qualquer presença militar fora da autoridade do Estado libanês e à necessidade de impedir que as áreas fronteiriças se transformem em plataformas permanentes de confronto. Ali al-Taher passa, assim, a fazer parte de negociações que vão muito além de sua geografia. O local pode ser pequeno no mapa, mas está ligado a grandes questões relacionadas aos arranjos no Sul, ao papel do Exército libanês, ao futuro das armas fora do controle do Estado e aos limites da influência israelense na região. O paradoxo que colocou o Hezbollah em uma posição constrangedora O grande paradoxo político é que o Hezbollah se recusou a entregar a colina ao Exército libanês, mas no fim também não conseguiu mantê-la. Se a operação israelense terminar com a retirada das forças israelenses e a entrega do local ao Exército libanês, o desfecho será muito diferente da situação que o Hezbollah tentou impor ou preservar: o Hezbollah se recusou a entregar o local ao Estado, Israel o expulsou de lá e, em seguida, o Estado voltou a assumir a responsabilidade. Em outras palavras, o Hezbollah se recusou a reconhecer voluntariamente a autoridade do Exército, mas pode acabar diante de uma realidade que impõe essa autoridade por outros meios. É isso que torna a situação politicamente constrangedora, porque o resultado final pode parecer ter alcançado, de forma indireta, aquilo que o Hezbollah se recusou a fazer diretamente. Daí surge uma pergunta evidente: por que a entrega do local ao Exército não foi considerada a opção menos custosa para o Líbano? Essa medida poderia ter sido apresentada como um fortalecimento do papel do Estado, uma forma de proteger o Sul e um meio de impedir que Israel utilizasse a presença do Hezbollah como pretexto para permanecer no terreno ou avançar ainda mais. A recusa em entregar o local ao Exército, ao contrário, manteve-o na zona de confronto e permitiu que Israel apresentasse sua operação como uma resposta a uma presença militar fora da autoridade do Estado. Ali al-Taher resume o problema libanês A questão vai muito além dessa colina. O Líbano não pode recuperar sua soberania enquanto coexistirem duas autoridades militares: a do Exército e a de armas fora do controle do Estado. Também não pode pedir à comunidade internacional que respeite suas fronteiras enquanto as decisões militares dentro dessas fronteiras continuarem divididas entre as instituições do Estado e uma organização armada que dispõe de capacidades independentes. Ao mesmo tempo, o Líbano não pode exigir que Israel se retire de seu território enquanto as decisões de segurança relativas a esse mesmo território continuarem sendo objeto de uma disputa interna. Enquanto houver armas fora do controle do Estado, o argumento israelense continuará existindo e o Sul seguirá exposto a novas rodadas de escalada. A soberania não se compartilha. Ou o Exército libanês é a única autoridade militar, ou o Líbano continuará sendo um palco aberto para conflitos regionais, nos quais se cruzam cálculos iranianos, israelenses e americanos, enquanto o Estado e a sociedade pagam o preço do confronto. Por isso, a verdadeira pergunta depois de Ali al-Taher não é: Quem ganhou a colina? Mas: Quem a controlará quando a batalha terminar? Se a resposta for o Exército libanês, Ali al-Taher poderá marcar o início de uma transição no Sul, da lógica da «resistência» para a lógica da responsabilidade do Estado. Isso poderia constituir um primeiro passo rumo a uma redefinição da segurança nacional, de modo que a defesa das fronteiras passe a ser responsabilidade das instituições do Estado, e não de uma força que atue de maneira autônoma. Se Israel permanecer, porém, o Líbano terá mais uma vez perdido parte de sua soberania, independentemente da narrativa que cada lado apresentar para justificar o que aconteceu. Em ambos os casos, permanece uma verdade essencial: nem o Hezbollah pode substituir o Estado, nem Israel pode ser o garantidor de sua soberania. A soberania libanesa só pode ser recuperada pelo Estado libanês, protegida por seu Exército e consolidada por uma decisão política clara que ponha fim à dualidade das armas e das autoridades.
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Escalada eleitoral
Por
Hisham Dibsi
Publicado

Três polos políticos dominam hoje a vida política cotidiana em Israel, às vésperas das eleições para a vigésima sexta Knesset, marcadas para 27 de outubro. O primeiro é o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, aliado às correntes mais extremas do sionismo religioso. Diante dele está Naftali Bennett, oriundo da direita nacionalista e aliado ao centrista Yair Lapid. O terceiro, vindo do establishment militar, é o ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot, que pode ser o rival mais perigoso de Netanyahu. As pesquisas de opinião mudam constantemente. No entanto, até agora há um dado que permanece inalterado: nenhum dos três polos parece capaz de obter o avanço necessário para formar o próximo governo. O que suas plataformas eleitorais compartilham de forma mais evidente é uma ausência: nenhuma questão realmente ligada aos direitos do povo palestino ou ao seu futuro na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ocupa um lugar significativo, enquanto o papel dos partidos árabes em Israel é ignorado. Quem acompanha as negociações diárias e observa as manobras internas em torno da formação de alianças, tanto públicas quanto secretas, pode perceber a dimensão do oportunismo e a lógica generalizada de chantagem política que rege as relações entre partidos e forças políticas. Isso é especialmente visível entre as pequenas formações e aquelas que apostam em sua capacidade de fazer pender a balança, como Avigdor Lieberman, sionista laico, assim como entre os representantes dos partidos religiosos, envolvidos em uma disputa permanente para levar cada vez mais longe o extremismo e as exigências. Nessa perspectiva, a forma como essas forças tratam os palestinos torna-se compreensível dentro da mesma lógica, inclusive do ponto de vista moral, se acrescentarmos a barreira psicológica criada pelo ataque de 7 de outubro, que ergueu um muro ainda mais alto e mais brutal do que o muro de separação de concreto. Nesse contexto, pode-se concluir que as próximas eleições serão diferentes das anteriores em vários aspectos. Para Netanyahu, seu resultado representa um acerto de contas existencial, tanto político quanto pessoal: ou ele permanece no governo ou acaba na prisão. Isso o levou a redobrar os esforços para reorganizar sua frente interna, ao ritmo das guerras em curso na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano e nas Colinas de Golã. O sangue de libaneses, palestinos e sírios tornou-se, assim, combustível da atual campanha eleitoral. Por outro lado, o deputado da Knesset Tzvi Sukkot, do Sionismo Religioso, declarou: “Matamos cem mulheres e crianças em uma única noite e ninguém se importa. Então, por que não matar mais? O processo de desumanização dos palestinos já foi concluído.” Essas declarações foram reproduzidas em um artigo do jornalista Jack Khoury publicado no Haaretz em 18 de maio de 2025. O que hoje ocorre de múltiplas formas em toda a Cisjordânia, e que vem sendo chamado de “revolta dos colonos”, busca decidir de uma vez por todas o destino da Cisjordânia em favor de sua anexação e da imposição da soberania israelense. Essa mudança reflete o afastamento da imensa maioria dos israelenses em relação à corrente sionista, laica e democrática que no passado foi encarnada pelo movimento trabalhista, particularmente durante a fase de fundação do Estado. Nenhum dos três polos contesta o conteúdo das palavras de Sukkot, mesmo quando Netanyahu se vê obrigado a descrever as formas mais atrozes de violência simplesmente como “distúrbios” que prejudicam a imagem de Israel. Os três polos também não divergem de forma substancial quanto à implementação do projeto de assentamentos E1, a leste de Jerusalém, exceto em aspectos formais que não alteram o curso dos acontecimentos. Isso significa que quem vencer as próximas eleições não se afastará dessa trajetória. A solução de dois Estados é rejeitada pela mentalidade israelense predominante, enquanto a destruição da entidade política e administrativa palestina continuará sendo considerada uma necessidade para concluir a anexação, a judaização e a extensão da soberania sobre a “Judeia e Samaria”, segundo sua própria terminologia. Uma perigosa bifurcação Depois que pipas foram encontradas perto do assentamento de Nahal Oz, atrás da cerca de segurança que circunda a Faixa de Gaza, o Exército israelense anunciou, após examiná-las, que elas não continham substâncias suspeitas nem perigosas. Ainda assim, seguiram-se ameaças israelenses de escalada. Quadros do Hamas foram detidos, e a aviação lançou ataques contra hospitais e tendas, causando vítimas civis. Ao mesmo tempo, a diplomacia israelense fala nos fóruns internacionais sobre a ameaça existencial representada por essas pipas e seus fios finos, enquanto os mortos desaparecem do debate. Também no nível militar foi indicado que a próxima fase poderá incluir planos e reflexões que podem desembocar em uma nova ocupação da Cidade de Gaza, com o objetivo de eliminar o que resta do Hamas. Por meio desse modelo de Gaza, somado ao que ocorre na Cisjordânia após a desumanização dos palestinos, surge uma equação eleitoral na qual o número de mortos e feridos aumenta de forma constante com o objetivo de colher votos. Simplesmente não sabemos quanto mais sangue terá de ser derramado para que um partido conquiste uma cadeira adicional na próxima Knesset. Tudo isso, enquanto o mundo presencia diariamente, em imagem e som, o que está acontecendo, aponta para o fim do projeto sionista laico e socialista em nome do qual o Estado de Israel pretendia ser um oásis democrático no deserto árabe e o representante da civilização ocidental em um Oriente Médio apresentado como selvagem. Também parece ter chegado ao fim o debate entre as elites israelenses que defendiam a entrada em uma fase pós-sionista e a busca de soluções baseadas no reconhecimento do direito dos palestinos à autodeterminação. Essas eleições inauguram uma perigosa bifurcação, alimentada por mitos bíblicos e rituais talmúdicos, a serviço do triunfo da ideia da Grande Israel sobre os mais de 27 mil quilômetros quadrados da Palestina histórica, aos quais poderiam se somar outros territórios ocupados e anexados, como as Colinas de Golã. Foi também nesse contexto inquietante que foi publicada a carta aberta assinada por 102 ex-diplomatas britânicos e franceses, na qual se afirma que “a Palestina está sendo apagada diante dos olhos do mundo”. Na carta, datada de 22 de agosto, eles pediram aos governos britânico e francês que aplicassem as decisões da Corte Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional, suspendessem determinadas formas de cooperação econômica e militar, adotassem medidas concretas contra os investimentos ligados aos assentamentos e utilizassem sua influência política e econômica para preservar a possibilidade de estabelecer um Estado palestino. No entanto, a resposta dos Estados continua muito aquém do necessário. A transformação de Israel “democrático” em um Israel “bíblico” torna ainda mais complexo o desafio enfrentado pelo campo da paz palestino e árabe. Esse desafio já não se limita à capacidade de preservar a entidade política palestina, mas reativa a ideia da Palestina histórica como contraponto ao projeto do Grande Israel. E, uma vez que o nascimento do Estado de Israel foi, em grande medida, uma iniciativa europeia e norte-americana, seria justo que o nascimento do Estado da Palestina também o fosse.

EUA/Irão: guerra de desgaste em lume brando
Por
LevantTime .
Publicado

É uma guerra de desgaste que faz jus ao nome. Só que, muitas vezes, ela é alimentada em "fogo brando", como foi o caso na noite de domingo para segunda-feira e ao amanhecer do início desta semana. No final da noite de domingo, o exército americano indicou ter detectado (provavelmente por satélite) milicianos dos Guardiões da Revolução Islâmica preparando dois lançadores de foguetes capazes de dispersar minas no Estreito de Ormuz. Pouco depois desse anúncio, o exército dos EUA lançou, durante a noite, ataques aéreos contra as posições dos Pasdaran na ilha de Larak, causando vários mortos e feridos, segundo fontes dos Guardiões da Revolução. Em resposta a esses ataques, os Pasdaran lançaram na madrugada de segunda-feira vários mísseis balísticos em direção a duas bases americanas na Jordânia. O exército jordaniano afirmou ter interceptado os mísseis antes que atingissem seus alvos. Mais tarde na manhã de segunda-feira, os Emirados Árabes Unidos informaram ter neutralizado um drone em seu espaço aéreo. Uma certa confusão reinou na segunda-feira ao meio-dia a respeito da área bombardeada pela aviação americana. Inicialmente, fontes americanas negaram que a ilha de Larak tivesse sido o alvo dos ataques, afirmando que fora a ilha de Kharg que havia sido atacada. Mas à noite, um responsável americano confirmou que foi Larak que sofreu o ataque. De qualquer forma, o presidente Donald Trump trouxe na segunda-feira um esclarecimento importante sobre esse ponto, ao afirmar que "o centro energético da ilha de Kharg está sendo reduzido a escombros". O chefe da Casa Branca afirmou ainda que o exército americano responderia aos ataques de mísseis realizados pelos Pasdaran na madrugada de segunda-feira. "Haverá uma resposta e vamos golpeá-los com força", declarou o presidente Trump, o que deixava supor que a retaliação americana poderia ocorrer na noite de segunda-feira. Nesse contexto, um alto responsável americano indicou na segunda-feira que o presidente Trump estuda um plano para retomar ataques aéreos contra os Pasdaran a fim de impedi-los de colocar minas novamente no Estreito de Ormuz. Vale lembrar que o governo Trump destacou recentemente que o exército americano havia concluído as operações de desminagem em Ormuz, o que explicaria as tentativas dos Pasdaran de minar novamente o referido estreito. Por fim, vale registrar, para encerrar este dossiê da guerra de desgaste irano-americana, que os Guardiões da Revolução afirmaram na segunda-feira que qualquer ataque americano contra posições iranianas seria seguido de uma retaliação "dez vezes mais intensa, sabendo que não existe nenhum alvo na região que esteja fora do nosso alcance". Essa ameaça foi implicitamente contestada na noite de segunda-feira pelo presidente iraniano, que afirmou que uma eventual retomada das operações militares não é do interesse do Irã. Aoun em Atenas No plano estritamente libanês, o presidente Joseph Aoun realizou segunda-feira uma visita oficial a Atenas, onde manteve reuniões com seu homólogo grego Konstantinos Tasoulas e com o primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis. O presidente Tasoulas destacou na ocasião que as negociações entre o Líbano e Israel ajudarão o Líbano a beneficiar-se de sua independência e de um clima de prosperidade, em continuidade à aplicação da resolução 1701. No terreno, a aviação israelense realizou segunda-feira ao final do dia quatro ataques contra a localidade de Mansouri, no distrito de Tiro.

Oum Kalthoum, arquiteta do seu próprio mito (1/2)
Por
Micha Moussallem
Publicado

Algumas pessoas se resignam constantemente ao seu destino, enquanto outras tomam as rédeas da própria vida. Isso se torna ainda mais difícil quando se trata de uma mulher em um mundo de homens. E, no entanto… algumas mulheres escolheram a luta, conseguindo quebrar os tabus de sua época. Seja com o pincel, a pena, a ciência ou a voz, elas habitaram o seu século com uma audácia que chegava a ser escandalosa. De Artemisia Gentileschi desafiando a sociedade e os tribunais italianos, há cinco séculos, a George Sand trocando o espartilho pela liberdade de escrever, passando por Camille Claudel, a alma dilacerada, ou pelo rigor e gênio de Marie Curie, ou ainda pela voz universal de Oum Kalthoum… essas mulheres conseguiram superar os preconceitos sociais. Em uma série de artigos, propomos uma viagem através do tempo ao encontro dessas mulheres rebeldes. No panteão das figuras femininas que moldaram o século XX, Oum Kalthoum ocupa um lugar de destaque. “A Estrela do Oriente” não era apenas uma cantora de voz inimitável. Era, sobretudo, uma pioneira absoluta. Em uma sociedade sufocante, Fatima Ibrahim es-Sayyid el-Beltagi impôs-se pelo seu talento excepcional, sua inteligência estratégica e uma determinação inabalável. Cantar disfarçada de menino Oum Kalthoum nasceu nos primeiros anos do século XX em uma humilde aldeia do delta do Nilo. Ao nascer, seu pai Ibrahim, um homem religioso, deu-lhe o nome Oum Kalthoum, que é o nome de uma das filhas do profeta Maomé. O nome designa uma pessoa de bochechas redondas. Desde os 6 anos, ela desenvolveu seu dom excepcional para o canto ouvindo o pai salmodiar os versículos do Alcorão em diversas cerimônias nas aldeias vizinhas. Para que ela pudesse acompanhá-lo, o pai teve a ideia de disfarçá-la de jovem beduíno, pois, na época, era inconcebível que uma menina se apresentasse em público. Esse período lhe proporcionou uma formação inestimável. De fato, a recitação do Alcorão ( tajwid ) é uma disciplina espiritual e vocal que lhe permitiu adquirir um fôlego poderoso e uma dicção perfeita do árabe clássico, que mais tarde se tornaria um de seus maiores trunfos. Essa primeira transgressão foi o primeiro passo de uma vida inteira dedicada a superar limites. A conquista do Cairo Quando chegou ao Cairo no início dos anos 1920, Oum Kalthoum era apenas uma jovem camponesa ( fellah ) do delta do Nilo. A elite cairota zombava um pouco de seus modos rústicos, de seu sotaque e de suas vestimentas. Para combater esse esnobismo, ela embarcou em um árduo processo de autodidatismo. Rodeou-se de intelectuais, devorou a poesia clássica, aprimorou seu vocabulário e aprendeu boas maneiras e francês. Em poucos anos, ela virou o jogo: sua dicção impecável do árabe clássico tornou-se sua principal arma, conquistando a admiração da elite e dos intelectuais. O nascimento de “Kawkab es-Sharq” No Cairo, Oum Kalthoum mergulhou em um meio artístico efervescente, gerido exclusivamente por homens. Na época, a profissão de cantora (as awalim ) era associada a costumes libertinos ou até mesmo à prostituição. Para uma mulher oriunda de uma família religiosa e conservadora como a sua, cantar nos teatros e cabarés do Cairo era uma desonra. Longe de se deixar ditar sua conduta, ela decidiu assumir o controle absoluto de sua arte e de sua carreira, impondo suas próprias regras. A criação da personagem Muito cedo, sem consultores de marketing ou de imagem, Oum Kalthoum inventou o conceito da “estrela inacessível”. Ela construiu uma fortaleza em torno de sua imagem pública, impôs uma disciplina rígida às pessoas ao seu redor, vestia-se com elegância austera e recusava-se a ceder aos jogos de sedução do meio artístico. No palco, ela inventa uma postura inédita. Transforma suas vulnerabilidades em símbolos. Portadora de problemas oculares (doença de Graves), adota óculos escuros marcantes que reforçam seu mistério e sua autoridade. O famoso lenço de seda que ela revira incessantemente no palco, inicialmente usado para enxugar as mãos suadas pelo nervosismo, torna-se seu acessório de marca registrada. Até o seu severo coque faz parte da sua personagem e contribui para sua autoridade e aura. Uma visionária avant-garde Já em 1934, ela percebe a importância dos meios de comunicação modernos e torna-se a primeira artista a assinar um contrato com a recém-criada Rádio Nacional Egípcia. Seus concertos na primeira quinta-feira de cada mês tornam-se verdadeiras missas laicas que esvaziam as ruas do Mashreq ao Maghreb. Ela mesma negocia seus contratos com uma intransigência impressionante e rapidamente se torna a artista mais bem paga e mais respeitada do Egito. A exigência artística absoluta Ela escolhe pessoalmente seus textos junto aos maiores poetas de sua época, como Ahmed Chawki ou Ahmad Rami, que, dizem, teria sido secretamente apaixonado por ela. Ela leva seus compositores (entre eles o célebre Riad al-Sunbati) ao limite. Em 1964, colabora com seu rival de sempre, o compositor Mohamed Abdel Wahab, para o título mítico Enta Omri . Graças à sua incrível capacidade de improvisação, uma canção podia durar mais de uma hora, dependendo do público. Ela não se limita a interpretar — dirige ela mesma seus músicos. Exige deles, que já são os melhores do Egito, que se superem até alcançarem a harmonia perfeita. A ponto de um deles ter dito: “Nós não tocamos para Oum Kalthoum. Ela improvisa e nós a seguimos.” Ela canta o amor e torna-se o ícone incontestado do tarab , um transe emocional e musical que não deixa de lembrar as técnicas do blues e do jazz, enquanto domina seu público com um simples gesto da mão.

Redescobrir o Grande Líbano
Por
Fady Noun
Publicado

«Que valor tem a veneração de um fundador quando sua obra é desfeita por aqueles que se dizem seus herdeiros?» Mostramos em um artigo anterior, ao comentar o ditado «a caridade começa em casa», como a história do Líbano oscila constantemente entre um egoísmo comunitário interno (o fechamento em torno da própria confissão em detrimento do Estado) e um «altruísmo» ideológico externo (a preferência por causas regionais em detrimento da pátria). Em ambos os casos, foi o projeto de um Estado libanês democrático, forte e próspero que foi sacrificado. Vamos aprofundar a análise. Em uma carta publicada pelo L'OLJ, a advogada Carole Chelhot escreveu, a respeito dessa fragmentação fatal, linhas severas, mas muito pertinentes: «A falência libanesa não é mais territorial. É política, moral e institucional. A administração foi submetida ao clientelismo, os serviços públicos distribuídos como favores, o direito negociado conforme as relações de força (…). O Estado, que deveria superar as comunidades, tornou-se o espólio que elas repartem entre si (…). É aqui que a memória de Élias Hoayek deixa de ser reconfortante e passa a ser acusatória. Os maronitas gostam de chamá-lo de pai do Grande Líbano. Celebram seu nome, invocam seu legado e honram sua beatificação. Mas que valor tem a veneração de um fundador quando sua obra é desfeita por aqueles que se dizem seus herdeiros? (…) Quantos líderes maronitas compreenderam que proteger os cristãos não consiste em enfraquecer o Estado para preservar privilégios, mas em construir um Estado suficientemente forte para que nenhum cidadão precise de um protetor?». Como reparar a dispersão e os recolhimentos identitários que retardam o advento de um Líbano que se aproximaria do Grande Líbano fundado em 1920? Cabe a cada comunidade no Líbano rever seu percurso. E talvez fosse justo iniciar esse exame de consciência histórico e político pelos cristãos, e especificamente pelos maronitas, que estiveram na origem do Grande Líbano. Eles foram os primeiros depositários da visão do patriarca Hoayek. É conhecida a desolação, e mesmo a consternação do patriarca Hoayek diante da falta de civismo demonstrada pela classe política de sua época, e o apelo desesperado que ele fez pela moralização da vida pública em sua última mensagem à nação: «O amor pela pátria». «Autarquia administrativa e pastoral» Após o Vaticano II, os maronitas e todas as Igrejas orientais católicas foram exortados pelos papas, em particular por João Paulo II, a trabalhar na unidade e a edificar o Líbano junto às comunidades muçulmanas, em um espírito de comunhão e serviço. Em vão. No plano político, o mesmo oportunismo, as mesmas intrigas, os mesmos cálculos equivocados continuaram até a catástrofe em que nos encontramos. No plano religioso, o único sobre o qual têm pleno controle, as Igrejas orientais continuaram a resistir aos apelos para coordenar seu trabalho pastoral, seus projetos e suas aspirações. Sempre se teve a impressão de que era «cada um por si»: «nossos» santos, «nossas» cerimônias, «nossas» transmissões, «nossas» cadeiras, «nossos» lugares de honra. Os mais lúcidos de seus filhos tiveram, ao longo dos anos, a coragem de reprovar discretamente à grande senhora das Igrejas do Líbano «ter usufruído dos privilégios da criação do Grande Líbano (1920) sem assumir plenamente seus deveres; ter planejado para si mesma e não para a pátria que havia fundado; e se algum bem foi feito por sua intermediação, tê-lo feito em espírito de dominação, e não em espírito de serviço». Já é mais que hora de sair da discrição e dizer as coisas como elas são. «Se não houver um encontro pessoal com Jesus Cristo, haverá um etnicismo disfarçado de cristianismo», afirmou certa vez o Papa Francisco, pensando talvez nas Igrejas autocéfalas do mundo ortodoxo. Vale perguntar se esse julgamento não se aplica também às Igrejas do Líbano, que vivem no mesmo território em autarquia administrativa e pastoral. Jogos de papel e identidades emprestadas A acusação deveria ser estendida ao conjunto das componentes comunitárias do Grande Líbano. Quase um século após a morte do seu fundador, o Estado permanece cruelmente «inacabado» (dixit Chelhot) e a cidadania sufocada pelo comunitarismo mais elementar. A culpa recai, em grande parte, sobre um Estado que cedeu à sua própria identidade e renunciou, em particular, a ensinar a história. Quantos libaneses cresceram sem livro de história, sem memória e, portanto, sem a base de conhecimentos capaz de formar e consolidar sua identidade — salvo fragmentos recolhidos tanto na verdade quanto no erro, tanto nas memórias felizes quanto nos traumas comunitários? Quantos libaneses, incluindo o autor deste artigo, nada sabiam sobre o patriarca Hoayek há apenas quatro meses? O estabelecimento de uma «educação nacional» era demais pedir? Ou mais uma vez o laxismo foi confundido com sabedoria? Esse mesmo julgamento pode ser aplicado a esse incubador de cidadania que é o serviço militar, lembrando que a educação nacional e o serviço militar jamais devem ser considerados conquistas definitivas, mas precisam ser retomados a cada geração. «O país das oportunidades perdidas» Por mais longe que a memória alcance, foram identidades emprestadas que as comunidades libanesas encarnaram, segundo os apelos externos ou o imaginário histórico. Hoje, é a batalha de Karbala que se repete no Líbano Sul. Certamente, a política é o domínio por excelência da ambiguidade, mas tem-se a impressão de que a nossa história não foi senão uma sucessão de «remakes», de jogos de papel catastróficos. Tudo isso porque as Igrejas particulares, adormecidas pelo clericalismo mais rígido, e o Estado libanês, diluído por seus oligarcas, não tiveram a coragem nem a vontade política de nos indicar onde estava o tesouro da nossa identidade humana e espiritual — o ideal de pluralismo, de liberdade e de tolerância que elevava o Líbano. Sem encher os próprios bolsos. Definitivamente, como afirma um filósofo cristão amigo, «o Líbano é, por excelência, a pátria das oportunidades perdidas». Entre elas, nunca nos esqueçamos, as aparições noturnas da Virgem Maria sobre a cúpula da basílica dos siríacos-ortodoxos, em Mousseitbé, em 1970. Uma visita celeste coberta de ridículo pelo clero das Igrejas orientais católicas, apesar de estas estarem a par das aparições gêmeas da Virgem em Zeitoun (Egito), em 1968, e de sua repercussão mundial. Foi mais um sinal de alerta ao qual essas Igrejas se recusaram a dar a menor atenção. «O que o Espírito diz às Igrejas» Mas desde então, a popularização dos ensinamentos do Concílio Vaticano II felizmente desenvolveu uma sensibilidade maior do clero em relação a «o que o Espírito diz às Igrejas». «Com demasiada frequência», afirmou Hans-Peter Kolvenbach (1928-2016), ex-superior geral da Companhia de Jesus, «esquecemos os primeiros capítulos do livro do Apocalipse, onde o Senhor vai de uma Igreja à outra para aprovar e desaprovar o que nelas acontece e, sobretudo, para anunciar o que está por vir. Ele continua a nos falar especialmente em tempos de crise, também pela voz da Theotokos e de tantas outras testemunhas, sem função magisterial, mas com uma autoridade vinda do Alto». Ao aplicar o princípio da «caridade bem ordenada», as Igrejas do Líbano devem finalmente compreender que dispõem de duas alavancas para salvar o Líbano e, com ele, a presença cristã no país: o seu apoio ao Estado de direito, com espírito de serviço e não de «dominação», e a sua unidade real e intransigente «tal como Cristo a quis e pelos meios que ele quis». Ao estarem unidas, ao colocarem-se ao serviço de uma cultura de cidadania libanesa, ao evitarem qualquer fechamento identitário, mesmo ao custo de abrir mão de algumas das suas alavancas de poder (desconfessionalização parcial da função pública ou da lei eleitoral, conforme previsto pelo acordo de Taif), as Igrejas orientais cumpririam a sua missão mais nobre: aproximar o Líbano da sua visão fundadora e fazer da diversidade libanesa uma força, e não uma fragilidade constitutiva. Pois se os ramos estão corrompidos, «o tronco é uma semente santa» (Isaías 6: 13).

O Irão aposta na China, a sua aliada de último recurso

Enquanto os Estados Unidos prometeram um «Dia D econômico» ao Irã, essa estratégia só pode se tornar plenamente eficaz com a cooperação da China, maior importadora de petróleo iraniano e principal fornecedora de tecnologias militares ao regime dos aiatolás. Após seis meses de guerra no Oriente Médio, Washington tem motivos para se preocupar com o prolongamento de um conflito que deveria durar apenas algumas semanas. Sem uma solução militar rápida, o governo Trump optou por asfixiar o regime iraniano apresentando novas sanções que atingem não diretamente Teerã, mas seus parceiros comerciais, com o objetivo de isolar a economia iraniana. Entidades chinesas estão entre os alvos deste grande plano do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, que intimou Pequim a aderir à iniciativa. A cúpula de Xangai Uma situação tão urgente que transformou a cúpula comemorativa do 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) em uma reunião de última chance para os iranianos. Os líderes russo, chinês, iraniano e indiano estão esperados na segunda e terça-feira em Bishkek, capital do Quirguistão, junto com outros seis países da Ásia Central. Entre eles, Vladimir Putin e Xi Jinping, além do presidente iraniano Massoud Pezeshkian e do primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif. Se a China é claramente afetada pelo novo sistema de sanções americanas, Pequim descartou essas ameaças, garantindo pelo contrário que defenderá firmemente seus interesses e sua cooperação com o Irã, do qual é um parceiro estratégico de grande peso. Esse braço de ferro corre o risco de agravar ainda mais as tensões entre Pequim e Washington, às vésperas da visita do líder chinês Xi Jinping à capital americana, prevista para setembro. O Irã resiste às sanções que o atingem há décadas mobilizando complexas redes financeiras internacionais para contorná-las. Pequim é uma grande compradora de petróleo iraniano. Frequentemente quita suas faturas em yuan renminbi, a moeda chinesa, que escapa às sanções americanas. Além disso, mesmo que o tráfego marítimo no estreito de Ormuz seja bloqueado, a China pode continuar recebendo petróleo bruto iraniano pelas rotas rodoviárias e ferroviárias da Ásia Central. Custos v/s benefícios Assim, as compras chinesas diminuíram, mas é o que resta a Teerã para sobreviver a uma asfixia total. Segundo especialistas consultados pela AFP, as novas sanções anunciadas na segunda-feira têm como alvo determinadas entidades chinesas acusadas de ajudar Teerã a obter tecnologias cruciais. No entanto, os Estados Unidos abstiveram-se até agora de sancionar as grandes instituições financeiras do país asiático. Pequim e Washington passaram grande parte do ano passado atolados em uma crescente guerra comercial, até o frágil alívio trazido pelo encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em outubro de 2025. Para que sua campanha contra o Irã produza resultados, Washington talvez precise «oferecer incentivos» a Pequim para encorajar o gigante asiático a se posicionar ao seu lado, avalia Lim Tai Wei, professor especialista em Ásia Oriental na universidade japonesa de Soka, citado pela AFP. Assim, a China só considerará cooperar com os Estados Unidos «se os custos ligados ao apoio ao Irã se tornarem claramente superiores às vantagens estratégicas e econômicas» de continuar comercializando com esse país. Trump multiplica as distrações Enquanto isso, em Washington, o presidente Donald Trump assiste, impotente, a uma série de reveses que representam ameaças para as eleições de meio de mandato em novembro próximo. Um lago rebatizado, publicações chocantes na internet, contatos reduzidos ao mínimo com a imprensa… Trump não quer mais ter de falar sobre o Irã nem sobre a inflação, os dois temas que pesam sobre seu mandato. O seu índice de popularidade está no mínimo histórico e o Partido Republicano teme uma derrota pesada em novembro, nas eleições que definirão o controle do Congresso — até agora de maioria conservadora. O republicano de 80 anos coloca em prática uma estratégia que já utilizou muitas vezes: criar barulho para tentar abafar um ruído de fundo desfavorável — neste caso, a sucessão de sondagens cada vez mais negativas sobre o seu mandato. Esta semana, Donald Trump monopolizou momentaneamente a atenção da mídia ao anunciar que iria renomear o lago Ontário, na fronteira entre os EUA e o Canadá, como «lago América», o que deixou o Canadá indignado. Um influenciador da direita radical, Matt Walsh, também considerou a ideia «politicamente estúpida», vendo nela um «presente» para a esquerda americana. É preciso reconhecer, no entanto, neste contexto, que a política anti-imigração continua a ser uma das poucas que segue o rumo traçado pelo presidente republicano. O governo comunica amplamente sobre a sua campanha de expulsões em massa, conduzida em condições frequentemente consideradas cruéis pela oposição democrata. O Departamento de Segurança Interna divulgou, por exemplo, na quinta-feira um vídeo mostrando o embarque em um avião de cidadãos haitianos acorrentados, depois que Washington eliminou um estatuto que lhes havia permitido entrar legalmente no país. A montagem, com trilha sonora, foi considerada degradante e racista pelos opositores de Donald Trump. Quanto ao resto, o conflito no Irã dura muito mais do que as poucas semanas prometidas pelo inquilino da Casa Branca e, sobretudo, os americanos ainda aguardam a queda no custo de vida que ele lhes havia garantido. «O melhor presidente» O seu governo acumula medidas de emergência às vésperas das eleições, em diversos domínios: importações massivas de carne bovina estrangeira para baixar os preços; recompra de títulos da dívida americana para tranquilizar os mercados; missão expressa do diretor da CIA para tentar dissuadir a Rússia de atacar um país da OTAN, segundo a imprensa americana. Donald Trump, tão ávido por trocas improvisadas com grupos de jornalistas, tem feito menos isso, ou então encerra essas interações rapidamente. No início do seu segundo mandato, realizava facilmente coletivas de imprensa improvisadas de uma hora, às vezes todos os dias. Agora prefere conceder, como esta semana, uma longa entrevista a um apresentador da esfera MAGA, na qual não é desafiado. O republicano, no entanto, continua a se manifestar bastante na sua plataforma Truth Social, no estilo do «trolling» — provocações gratuitas destinadas a gerar uma reação viral. Esta semana, publicou um «ranking» de vários presidentes americanos que irritou os seus opositores. Lincoln e Washington são classificados como «muito bons», Clinton é «mediano», Biden, Obama e Carter são «fracassos». Ele próprio, sem surpresa, aparece no topo e sozinho, como o «maior» presidente.

Japão-Líbano: entre o paradoxo da reconstrução após a derrota e a armadilha do colapso permanente

Fiquei profundamente tocada ao assistir à série Antarctica , na Netflix, e me perguntei se nós, no Líbano, seríamos capazes de fazer algo semelhante ao que ocorreu no Japão em 1950, ou se nossa situação é simplesmente desesperadora. A série gira em torno do modelo representado pela expedição japonesa à Antártida na década de 1950 e mostra como um projeto científico e técnico pode se transformar em uma alavanca para reconstruir o sentimento nacional num contexto de pós-ocupação e derrota. Ao sair da Segunda Guerra Mundial, o Japão não se limitou a reconstruir sua infraestrutura material. Também procurou reconstruir sua narrativa coletiva e sua imagem no mundo, transferindo o fundamento de sua legitimidade da esfera militar para as esferas científica e civil. A expedição desempenhou um papel simbólico nessa transformação, ao ser apresentada como prova da capacidade da nação japonesa de se reerguer e reintegrar-se à comunidade internacional por meios pacíficos. O que chama a atenção nessa experiência é que o lançamento da expedição não foi apenas uma decisão administrativa ou científica. Foi, acima de tudo, um ato profundamente político e simbólico, enquadrado por um discurso público que associava o progresso científico à recuperação da dignidade nacional. As instituições educacionais e os meios de comunicação desempenharam um papel central nesse processo por meio de campanhas de mobilização emocional e pedagógica que simplificavam o projeto e o apresentavam como uma aventura humana coletiva, capaz de envolver diferentes setores da sociedade e reunir os recursos necessários para a expedição em um momento em que os recursos do Estado eram limitados. É precisamente aqui que se evidencia o papel notável desempenhado pela mobilização das crianças. Elementos do ambiente polar, como os pinguins e os cães de trenó, os huskies, foram transformados em veículos emocionais e pedagógicos que inseriam o projeto no imaginário cotidiano e criavam um vínculo afetivo entre as pessoas e a expedição. Esse uso simbólico dos animais esteve longe de ser um detalhe secundário. Ao contrário, constituiu uma maneira eficaz de transformar um projeto complexo em uma história compreensível e capaz de gerar identificação, sobretudo entre as gerações mais jovens. Nesse sentido, as doações populares não foram apenas uma fonte de financiamento. Também se tornaram um meio de fomentar o sentimento de pertencimento, uma vez que o próprio ato de doar reforçava a sensação de participação em uma realização nacional comum. Isso nos remete ao que Benedict Anderson chama de “comunidades imaginadas”, nas quais a nação se constitui por meio de narrativas compartilhadas que dão aos indivíduos a sensação de pertencer a uma entidade que ultrapassa suas experiências pessoais. Também se insere no que Eric Hobsbawm descreveu como “a invenção da tradição”, por meio da construção de rituais e práticas que contribuem para legitimar uma nova forma de patriotismo. Segundo Axel Honneth, o Estado-nação não se constrói apenas por meio de leis e constituições que, no Líbano, perdem sua função e eficácia em razão da corrupção. Ele também se constrói a partir do que Honneth chama de uma “vida ética compartilhada”. Essa vida só pode tomar forma quando os cidadãos compartilham “práticas, tradições vivas e projetos comuns” que promovam a solidariedade e o reconhecimento mútuo, fazendo com que sintam que sua liberdade individual está ligada à liberdade dos outros e ao êxito da coletividade como um todo. É precisamente isso que falta hoje ao Líbano, diante da ausência de qualquer projeto comum capaz de redefinir a identidade nacional para além das lógicas sectárias e da corrupção. O sucesso da experiência japonesa, no entanto, não foi resultado apenas do discurso. Ele se apoiou em condições estruturais específicas. A primeira foi a existência de um Estado coeso, capaz, apesar da derrota, de planejar, executar suas políticas e administrar seus recursos. A segunda foi a presença de elites políticas e administrativas conscientes da necessidade de passar de uma legitimidade assentada no nacionalismo militar para uma legitimidade civil e científica, e empenhadas em consolidar essa transformação por meio de projetos concretos. A terceira condição, e talvez a mais importante, foi o nível de confiança pública nas instituições, que permitia aos cidadãos acreditar que suas contribuições, materiais ou simbólicas, seriam de fato utilizadas em benefício do interesse geral. Sem essa confiança, qualquer tentativa de mobilização popular perde o sentido e se reduz a uma mera formalidade. Quando pensei em lançar no Líbano uma campanha semelhante de arrecadação de fundos para ajudar a população do Sul, contribuir para a reconstrução e impedir que a dupla xiita instrumentalizasse a ocasião, tornou-se evidente uma realidade radicalmente diferente da japonesa. A realidade libanesa atual se apresenta, em termos estruturais, como o oposto da experiência japonesa. Em vez de funcionar como um quadro unificador, o Estado se transformou em uma arena de disputa entre forças sectárias e redes clientelistas, o que compromete sua capacidade de lançar qualquer projeto nacional comum. O colapso da confiança entre os cidadãos e as instituições também condena de antemão qualquer possibilidade de uma arrecadação popular em larga escala, já que os recursos públicos são vistos como vulneráveis ao saque ou ao desvio em favor de interesses facciosos. A isso se soma a coexistência de narrativas antagônicas sobre o próprio sentido do Líbano enquanto entidade política, entre a lógica da “resistência” e a da “soberania”, além de lealdades regionais e internacionais conflitantes. Tudo isso impede o surgimento de uma “narrativa comum” sobre a qual uma mobilização coletiva poderia ser construída. Nesse contexto, os mecanismos de reconstrução e de ajuda se transformam em instrumentos de reprodução das lealdades políticas. Isso se manifesta no predomínio de instituições de caráter clientelista na distribuição dos recursos, reforçando a dependência em vez de construir uma cidadania baseada na igualdade. O objetivo dessa comparação, portanto, não é reproduzir o modelo japonês. Trata-se, antes, de evidenciar aquilo que falta no caso libanês: um marco simbólico e institucional capaz de transformar um ato econômico em um ato de pertencimento. O problema não está apenas na escassez de recursos, mas também na incapacidade de criar um propósito coletivo suficientemente forte para levar os indivíduos a contribuir voluntariamente para um projeto que ultrapasse suas divisões. Assim, qualquer iniciativa destinada a financiar a reconstrução no Líbano terá alcance limitado enquanto não vier acompanhada da reconstrução da confiança, da formulação de uma narrativa nacional comum e da criação de mecanismos transparentes capazes de romper o vínculo entre a alocação de recursos e as práticas clientelistas. Em poucas palavras: libertar o Estado de seus ocupantes. Sem isso, o contraste entre as duas experiências continuará sendo a expressão de profundas diferenças na estrutura do Estado, na natureza de suas elites e nas condições em que pode surgir um sentido nacional comum.