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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
Opinião
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Por Youssef Mouawad
Publicado em set 5, 2026 - 13:25
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório do Congressional Research Service de setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, « Make Turkey great again », não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de « proxies », acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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Se não é a Síria, é a Turquia e vice-versa!
Por
Youssef Mouawad
Publicado

Depois de ter sido ungido em Washington, no final de julho o general Joseph Aoun foi solenemente recebido em Ancara, uma capital que o acolheu com todas as honras devidas ao seu posto. O tapete vermelho, a guarda presidencial prestando continência com o süngü tak e as salvas de canhão não foram pouca coisa aos olhos do militar de carreira que é o presidente libanês. Evidentemente, não seria ele a procurar briga com uma delegação comercial turca como havia feito o presidente Elias Hraoui no início do seu mandato. O mapa completo dos sanjaks dos vilayets de Beirute e da Síria em 1909. O vilayet de Beirute reunia os sanjaks de Nablus, de São João de Acre, do "Bilad al Bechara" (atual Líbano do Sul ou Jabal Amil), a cidade de Beirute, os sanjaks de Tarablus ash-Sham e de Latakia. A terminologia Tarablus ash-Sham era utilizada para evitar confusão com outra cidade otomana: Tarablus el-Gharb, a cidade de Trípoli na Líbia, que manteve o seu nome. (Wikimedia Commons) Quem se lembra da briga entre este último e os nossos anfitriões turcos que, satisfeitos por desenvolver relações culturais e econômicas com Trípoli, haviam cometido o erro de recordar os laços históricos entre a Turquia e a capital do Norte. Não se sabe o que picou então « Abou Elias», que respondeu com veemência que o Líbano era um Estado soberano — ora, vejam só! — que não toleraria uma ressurgência da influência otomana em nossas terras, e muito menos uma relação privilegiada entre Ancara e uma região libanesa em detrimento do Estado central. Desse episódio, certos meios fizeram galhofa e ridicularizaram a incongruência do chefe de Estado, quando as câmaras de comércio dos dois países mediterrâneos não buscavam senão reatar os laços de intercâmbio e prosperidade. Tarablus as-Sham e o Grande Líbano O incidente estava encerrado há muito tempo quando certas interrogações voltaram à nossa memória por ocasião da visita de Chaibani, ministro sírio das Relações Exteriores, a Trípoli, em 2 de julho passado. Diante do entusiasmo da recepção, ficou subentendido que essa cidade poderia desejar um destino diferente do libanês! Lembremos que ela sempre carregou o nome de Tarablus as-Sham e que foi rebelde ao Mandato francês, não tendo aceitado de bom grado a sua anexação ao Grande Líbano. Mas não tiremos conclusões precipitadas. As multidões são conhecidas por suas reações impulsivas, e Trípoli havia sofrido demais com a ocupação baathista para não expressar abertamente seu cansaço e seu sentimento de libertação na primeira oportunidade. Na esteira do triunfo reservado a Chaibani, um tripolitano de raiz foi ainda mais longe ao afirmar: «Se hoje tropas turcas viessem desfilar pelas nossas ruas, seriam recebidas em meio a uma alegria geral». Se fosse para acreditar nesse observador perspicaz, os edifícios estariam enfeitados com bandeiras vermelhas ostentando o crescente e a estrela, as mesmas dos janízaros do Império Otomano. Mapa de 1913 com os vilayets da Síria e de Beirute. Ao centro, em verde, a Mutassarrifato do Monte Líbano. (Wikimedia Commons) Nessa exclamação havia algo de verdadeiro, mesmo que fosse apenas da ordem do sentimento e da exasperação. Pois, mais uma vez, a orgulhosa cidade havia vivido, sob os Assad pai e filho, uma cruel subjugação de sua população e uma dominação alauita sobre seus centros econômicos vitais. Isso significa, no entanto, que a Turquia irá se envolver no Líbano em nome de um suposto neo-otomanismo, de um sultão osmanli oculto ou de um frérisme muçulmano? Imperialismo neo-otomano ou simples penetração econômica Quaisquer que sejam as ambições de Ancara, elas só se concretizarão por meio de uma política regional abrangente dirigida ao conjunto sírio-líbano-jordaniano. Isso pode suscitar medos e apreensões entre nós, como em outros lugares. No entanto, é preciso ter em mente que, quando o AKP, o partido do presidente Erdoğan, evoca a gloriosa memória otomana, fá-lo por razões eleitorais e de política interna. E jamais ocorreria às elites turcas querer restaurar o Império dos três continentes, uma vez que o aventureirismo de Putin na Ucrânia deu uma lição definitiva aos belicistas. Pelo menos, é o que se acredita! Aliás, não se diz que a ingerência turca se daria sobretudo no registo do soft power , sendo o « success story » da economia turca um exemplo a seguir para os empresários do Médio Oriente? Isso é perfeitamente plausível, agora que a xenofobia defendida pelo nacionalismo árabe perdeu muito do seu poder de atração e mobilização, agora que ninguém responsabiliza mais os turcos por quatro séculos de atraso árabe. Mas a Turquia não pode contentar-se apenas com êxitos comerciais. Não é nem Singapura nem Dubai; não pode limitar-se ao papel de polo financeiro, até porque irradia poder e a sua indústria militar conquistou uma fatia considerável no mercado internacional de armamento. A Síria, peça-chave da Turquia Não é Ancara, na prática, a principal patrocinadora do poder de Ahmed al-Chareh 1 ? E daí, respondem-nos, por mais que esta capital garanta apoio militar, político e económico, nunca conseguirá transformar o regime sírio num proxy ao seu serviço. Aliás, a política «omíada» está bem encaminhada para diversificar e aprofundar as suas relações com os países do Golfo. E, pensando bem, pode sempre contar-se com a arrogância do turco para arrefecer o damasceno mais empenhado em oferecer os seus serviços e colaborar. Ainda assim, no presente cenário, é através do eixo Erdoğan-Chareh que a penetração turca no Líbano pode ser equacionada, temendo Ancara que os Estados Unidos concedam a Telavive uma fatia demasiado grande do bolo que é o Médio Oriente, essa zona de entremeio que dificilmente consegue reconstituir-se. Tarefa hercúlea para o presidente turco no Bilad as-Sham. Este terá de combater a influência ideológica, militar, financeira e confessional do Irão, que provavelmente tentará recuperar posições na Síria e reimor a sua lei no Líbano. Mas se, porventura, os mulás fossem definitivamente afastados do palco, Erdoğan terá de ocupar o espaço que o seu recuo deixará vago. E não é só isso, pois quanto mais a Turquia quiser avançar em direção ao sul, mais se encontrará cara a cara com Israel, país com o qual as relações se deterioram a olhos vistos e que é tão difícil de lidar como parceiro quanto como adversário 2 . Em suma, se o presidente Erdoğan consolidou os passos do general Joseph Aoun 3 , não cessa também de fortalecer o regime de Ahmad al-Chareh. Assim, quando soar a hora turca, a Síria será o complemento estratégico de Ancara, o seu braço armado e, por que não, o seu proxy! 1 Cf. a conferência de imprensa conjunta de 6 de agosto entre o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros, Chaibani, e o seu homólogo turco, Hakan Fidan. 2 Recep Tayyip Erdoğan declarou em junho passado que a segurança do seu país «não começa na província de Hatay, mas em Alepo, Damasco e Beirute», e que a Turquia não tolerará as ilusões da «Terra Prometida». Acrescentou ainda que «os ataques israelitas contra a Síria e o Líbano atingiram um nível que agora ameaça também a Turquia». 3 Durante as conversações realizadas em Ancara, Erdoğan prometeu a Joseph Aoun o envio de tropas turcas, no âmbito de uma aliança militar mais ampla, em substituição das tropas da UNIFIL cujo mandato expira no final do ano.

Uma aliança militar sunita contra o Irã
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LevantTime .
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Desde o início da guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, as monarquias petrolíferas do Golfo estão a pagar um preço elevado: sem conseguir atingir Telavive ou Washington, a República Islâmica não hesitou em atacar os seus vizinhos árabes, sob o pretexto de que acolhem bases americanas, entretanto em grande parte evacuadas. O resultado: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Barém, o Qatar — considerado aliado do Irão —, bem como Omã e a Jordânia tornaram-se alvos. Recentemente, Teerão ativou os seus proxies no Iraque e no Iémen — as milícias xiitas iraquianas e os Houthis iemenitas —, que atacaram infraestruturas petrolíferas sauditas. Além disso, outras ameaças pesam sobre as economias dos países árabes, com o bloqueio do estreito de Ormuz, única saída marítima do Golfo Pérsico, e do estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada do mar Vermelho. Esta guerra larvada não deixa de recordar, mais uma vez, a tibieza do grande aliado americano para com os seus 'protegidos' árabes... O anúncio feito por estes três aliados de Washington envia assim uma mensagem a Teerão, mas também aos Estados Unidos, cada vez mais vistos como um parceiro pouco fiável, segundo especialistas. O modelo da NATO Partindo deste contexto, é fácil compreender os motivos que levaram a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia a concluir, numa sexta-feira em Meca, um pacto de defesa vinculando os três países. "O acordo visa reforçar a dissuasão coletiva contra qualquer ato de agressão e estipula que qualquer ataque armado contra um dos três Estados será considerado um ataque contra todos eles", precisou o Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, com a Turquia a ver nisto uma "contribuição importante para a preservação da paz" na região. Os três países muçulmanos sunitas têm em comum a participação nos esforços para resolver o conflito entre o Irão e os Estados Unidos, que incendiou a região e abalou a economia mundial. Uma potência nuclear e o segundo maior exército da NATO A Arábia Saudita e o Paquistão estão, por sua vez, já ligados por um acordo de defesa mútua concluído em setembro de 2025, fruto de uma longa tradição de cooperação militar. O seu anúncio suscitou muitas interrogações, uma vez que Islamabad possui a bomba atómica. Na sexta-feira, Riade negou qualquer ligação com "ambições nucleares" e garantiu, tal como Ancara, que este pacto não visa nenhum país da região. Por outro lado, a Turquia afirmou que o acordo com Islamabad e Riade não está "em contradição" com os compromissos de Ancara para com a NATO. Ancara reiterou ainda que este entendimento tripartido, assinado um pouco antes em Meca, "não visa nenhum país terceiro nem nenhum bloco" e tem apenas como objetivo "reforçar a cooperação na indústria de defesa, nos exercícios militares, na partilha de tecnologias e na estabilidade regional". A Turquia possui o segundo maior exército da Organização do Tratado do Atlântico Norte em número de efetivos, cobrindo o seu flanco oriental, e acolheu no início de julho a cúpula dos seus líderes, à qual participou nomeadamente o presidente americano Donald Trump. Polo de segurança versus investimentos Segundo um analista citado pela AFP, este anúncio reforça as ambições sauditas de se tornar o garante da segurança regional e de diversificar as suas parcerias em matéria de defesa — uma segurança seriamente ameaçada nos últimos tempos pela rivalidade com os Emirados Árabes Unidos, rivalidade que correu o risco de se transformar em conflito aberto no Iémen, muito antes da guerra no Irão. Para a Turquia, membro da NATO, e para o Paquistão, trata-se de ganhar influência e atrair investimentos sauditas. Esta aproximação "é claramente direcionada contra o Irão", salienta à AFP Oumar Karim, especialista em Arábia Saudita na Universidade de Birmingham. O desafio dos estreitos Para ele, a aliança «visa responder à nova abordagem estratégica» de Teerã, «que pretende dominar toda a região do Golfo e controlar o tráfego marítimo nas vias navegáveis estratégicas, seja no estreito de Ormuz ou no estreito de Bab el-Mandeb». Para a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo bruto do mundo, a abertura dessas passagens marítimas é essencial. O mar Vermelho e o estreito de Bab el-Mandeb tinham se tornado rotas alternativas, já que o Irã voltou a bloquear o estreito de Ormuz desde a retomada dos confrontos com os Estados Unidos em julho. Mas os houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, impuseram recentemente um bloqueio aos navios sauditas e também ameaçam a navegação em Bab el-Mandeb, do outro lado da península Arábica. Além da frente marítima, a Arábia Saudita foi alvo de ataques dos houthis em seu próprio território, que nas últimas semanas visaram infraestruturas petrolíferas. A coalizão liderada por Riad, aliada do governo do Iêmen desde 2015, também acusou na sexta-feira os rebeldes de terem realizado bombardeios na região fronteiriça de Najran, deixando 11 civis feridos — um ataque sem precedentes no reino desde a trégua firmada entre os dois lados em 2022.

Uma crise financeira com profundas raízes políticas

A crise libanesa, que surgiu oficialmente no outono de 2019, foi explicada quase que exclusivamente por fatores técnicos: engenharias financeiras do Banco do Líbano; lucros bancários; paridade libra-dólar; taxas de juros; transferências de capitais; déficit comercial e consumo. Esses fatores devem, de facto, ser analisados, mas não são suficientes para explicar o colapso na sua totalidade. As causas políticas, de segurança e administrativas — pilhagem do setor público, contratações descontroladas na administração do Estado, gastos sem orçamentos regulares, clientelismo, politização da justiça, contrabando, economia paralela e envolvimento em conflitos regionais — foram amplamente ignoradas. O governo de Hassane Diab não é o único responsável por uma crise que se vinha preparando há décadas. No entanto, certas decisões tomadas ou assumidas durante o seu mandato aceleraram a rutura. Em primeiro lugar, nenhuma lei imediata e coerente de controlo de capitais foi adotada. Esse vazio permitiu restrições arbitrárias, agravou a desigualdade entre depositantes e deixou escapar parte da liquidez. Uma lei de exceção, semelhante na sua essência às medidas aplicadas após a guerra de 1967, à crise do Banco Intra ou à destruição de aeronaves civis em terra durante o raid de 28 de dezembro de 1968, teria reduzido os danos… Em segundo lugar, o governo Diab decidiu entrar em incumprimento sobre os eurobonds em março de 2020, recusando o pagamento de uma prestação de 1,2 mil milhões de dólares. As reservas do Banco do Líbano eram então avaliadas em cerca de 29 mil milhões de dólares. O Líbano poderia ter honrado os pagamentos imediatos enquanto negociava uma reestruturação ordenada com os credores e o FMI. O incumprimento não preparado destruiu a credibilidade soberana, fechou o acesso aos mercados e agravou o isolamento financeiro. Em terceiro lugar, o governo da época subsidiou mais de 300 produtos em vez de apoiar diretamente os agregados familiares. O sistema favoreceu a acumulação de stocks, os monopólios e, sobretudo, o contrabando para a Síria. O seu custo terá atingido entre 12 e 14 mil milhões de dólares. Este gasto irracional contradiz o argumento de que as reservas deveriam ser preservadas ao recusar o pagamento de 1,2 mil milhões em março de 2020. Em quarto lugar, o plano elaborado com a Lazard arriscava fazer recair a maior parte das perdas sobre os depositantes e o setor bancário existente, tendo como objetivo substituir os bancos atuais por cinco novas instituições bancárias. A promessa de restituir os depósitos permanecia sem resposta concreta quanto ao financiamento, aos ativos mobilizados e ao calendário. Estas escolhas aceleraram a diminuição das reservas, a crise de liquidez, a economia a dinheiro e a marginalização internacional do Líbano. Recordá-las não significa absolver o Banco do Líbano, os bancos ou os governos anteriores. É necessário estabelecer todas as responsabilidades com base nos poderes reais e nas obrigações legais, sem transformar um único setor em bode expiatório. A recuperação exige o restabelecimento da autoridade do Estado, o controlo das fronteiras, o combate ao contrabando, a independência da justiça, uma lei justa e financiada de restituição dos depósitos, uma reestruturação bancária transparente, uma negociação da dívida e uma reforma da administração pública. A repartição das perdas deve respeitar a natureza jurídica de cada compromisso. Os créditos do Estado, os do Banco do Líbano, as obrigações dos bancos e os direitos dos depositantes estão interligados, mas não são idênticos. Confundi-los permitiria transferir automaticamente o encargo para os cidadãos. A prioridade deve ser dada aos pequenos depositantes, com valores, prazos e fontes de financiamento claramente definidos. Os ativos públicos podem contribuir para a recuperação por meio de suas receitas futuras, desde que permaneçam protegidos, inventariados e geridos com transparência. Eles não devem ser nem vendidos a preço de saldo nem entregues a estruturas que escapem ao controlo democrático. Da mesma forma, os acionistas devem assumir a sua parte nos limites da lei, enquanto as transferências ilícitas e os enriquecimentos injustificados devem ser objeto de investigações judiciais sérias. Reestruturar antes de determinar os recursos seria colocar o carro à frente dos bois. A crise é financeira nas suas manifestações, mas política nas suas raízes; nenhuma solução duradoura poderá ignorar essa realidade. O restabelecimento da confiança dependerá, por fim, da restauração das relações do Líbano com os seus parceiros árabes e internacionais, do cumprimento das normas financeiras globais e de uma política económica orientada exclusivamente para o interesse nacional.

De Roma a Ormuz, as negociações avançam mas as incertezas persistem

É o dia das negociações por excelência. Em Roma, a terceira e última reunião da sétima rodada de negociações diretas entre Beirute e Tel Aviv terminou com uma nota mais ou menos positiva, mas ainda sem conclusão definitiva. No Golfo, Teerã e Mascate estariam prestes a anunciar um acordo provisório sobre a navegação no estreito de Ormuz. Nos dois casos, um desfecho definitivo certamente não está próximo, especialmente porque o problema de fundo — ou seja, o poder desestabilizador do Irã na região, e mais particularmente o das milícias pró-iranianas — persiste, como ressaltou com razão o ministro sírio das Relações Exteriores, Assaad al-Chibani, em visita na quinta-feira a Ancara. Os acontecimentos recentes no Iêmen também confirmam essa tese. Na quinta-feira, a milícia houthi reivindicou ataques contra as forças governamentais em resposta, segundo seu líder, ao recente reforço das tropas iemenitas apoiadas pela Arábia Saudita. Esses ataques causaram pelo menos 38 mortos, o balanço mais mortal desde o cessar-fogo de 2022, que havia encerrado mais de sete anos de uma guerra devastadora neste país da península arábica. Assaad Chibani anunciou, após sua reunião com o homólogo turco, Hakan Fidan, que Damasco e Ancara concordam em "apoiar os esforços voltados para o fortalecimento da estabilidade no Iraque e no Líbano", partindo do princípio de que "o restabelecimento do monopólio das armas nesses dois países favoreceria a estabilidade em toda a região". Ao mesmo tempo, destacou a importância de "um reforço da coordenação em matéria de segurança com os países vizinhos e do controle das fronteiras, a fim de enfrentar as ameaças representadas pelos grupos armados que atuam fora da autoridade do Estado". Enquanto o Iraque está plenamente engajado em um processo — certamente complexo — de desarmamento das milícias, que teriam recentemente reposicionado suas forças no terreno em meio a temores de uma nova escalada de segurança no país, o Líbano parece ter colocado esse dossiê em segundo plano. Para Beirute, a prioridade continua sendo o sul do Líbano e toda a problemática em torno das devastadoras consequências da guerra na qual o Hezbollah arrastou o país. De acordo com as informações divulgadas pela mídia libanesa sobre a última rodada de negociações diretas — realizada ao longo de três dias e distribuída em três reuniões: política, jurídica e militar —, a delegação libanesa insistiu na continuidade da retirada gradual israelense da parte sul do país, com base no acordo bilateral de junho e na cessação das operações militares. Nenhum acordo definitivo pôde ser alcançado sobre o dossiê das "zonas piloto", que hoje se limitam a três e que Beirute deseja ampliar para novos setores, incluindo Zawtar al-Charkieh. A agência al-Markaziya , que cita fontes do palácio presidencial de Baabda, esclarece que a delegação israelense solicitou uma apresentação detalhada dos setores propostos a fim de examinar suas características geográficas. O documento libanês deve ser entregue à autoridade política em Israel, segundo al-Markaziya , que, citando as mesmas fontes, acrescenta que, em contrapartida, foi possível chegar a um acordo sobre as referências e os procedimentos que deverão nortear os mecanismos de coordenação entre as três partes (libanesa, israelense e americana) para a fase de implementação do restante do mecanismo. As duas delegações também concluíram o dossiê do "terceiro garante", ou seja, a parte responsável por verificar no terreno que as medidas adotadas estão em conformidade com as disposições do acordo libano-israelense de junho. Elas chegaram a um acordo sobre uma lista "restrita" de candidatos, entre os quais será escolhida a entidade chamada a assumir esse papel. Elas também concordaram em submeter o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, com o objetivo de obter a adoção de uma nova resolução que servirá de quadro jurídico para o período posterior ao mandato da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). O dossiê dos prisioneiros, examinado longamente, revela-se mais problemático, uma vez que envolve uma troca, segundo as mesmas fontes. O Líbano dispõe de uma lista precisa de nomes que entregou à delegação israelense, a qual, por sua vez, lhe transmitiu uma lista com os nomes de israelenses e judeus libaneses dados como desaparecidos. No entanto, Beirute não possui dados a esse respeito. De qualquer forma, as discussões de Roma são consideradas «positivas», segundo Baabda. Há inclusive diligências em curso para associar o Comitê Internacional da Cruz Vermelha ao processo. As negociações seriam retomadas no dia 1 º de setembro. Essa data permanece, no entanto, provisória. Será confirmada em função da evolução dos contatos diplomáticos e dos preparativos dos dossiês em análise. Graças a uma intervenção americana, as negociações de Roma não foram comprometidas pela escalada militar no sul do Líbano, onde o exército israelense realizou sucessivos ataques violentos contra Mansouri e Bourj Chemali, no distrito de Tiro. Esse recrudescimento da violência, que se seguiu à morte de dois soldados israelenses num edifício armadilhado em Majdal Zoun, pôde ser resolvido no âmbito do mecanismo de acompanhamento instaurado desde 27 de novembro passado, após a funesta «guerra de apoio» ao Hamas, igualmente desencadeada pelo Hezbollah contra Israel. À margem das negociações, o presidente da República, Joseph Aoun, reconheceu diante dos jornalistas acreditados em Baabda que «o caminho será longo» antes de se chegar a um acordo que colocasse o Líbano a salvo de novas destruições, mas que o Estado está «determinado a prossegui-lo». Um acordo irano-omanense? No plano regional, o Irã e o Sultanato de Omã parecem estar prestes a anunciar um acordo sobre a gestão da navegação no Estreito de Ormuz. Segundo o canal pan-árabe Al-Hadath, o acordo em questão, do qual Washington estaria informado, consiste em obrigar os navios a seguir um corredor ao longo da costa iraniana na ida e das costas omanenses no retorno, mediante o pagamento de taxas denominadas de serviço. As discussões estariam em sua fase final, segundo o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmaïl Baghaï, citado pela agência de notícias oficial Irna. No entanto, qualquer reabertura de Ormuz, bloqueado por Teerã, dependerá das ações de Washington, que impõe um bloqueio aos portos iranianos, precisou ele. Ora, essa reabertura corre o risco de ser problemática se as informações fornecidas pela agência iraniana Fars se confirmarem. Segundo essa plataforma, um projeto de lei está atualmente em análise no Parlamento iraniano para que os navios que arvoram bandeira israelense ou americana, bem como os pertencentes a países que acolhem bases americanas, sejam proibidos de passar. Esse desenvolvimento, caso se confirme, seria um indicador adicional das dissensões internas iranianas, as quais estariam na origem, segundo o vice-presidente americano JD Vance, das complicações nas negociações bilaterais que, aparentemente, prosseguem de forma indireta, por meio dos mediadores do Qatar e do Paquistão. O ex-presidente iraniano Hassan Rouhani criticou duramente, nesse contexto, «uma minoria que busca arrastar o país para uma guerra», enquanto informações divulgadas por diversos meios de comunicação dão conta de nomeações e tentativas de reestruturação destinadas a consolidar a autoridade da ala dura no Irã.

The Prophet and the Philosopher (1/10)
Por
Wissam Saadé
Publicado

Em abril de 2026, Wissam Saadé proferiu quatro conferências na Universidade de Bolonha. A primeira delas, a convite do professor Giovanni Giorgini, intitulada «The Prophet and the Philosopher: The Hierarchy of Knowledge between Avicenna’s Falsafa and al-Kirmānī’s Ismaʿili Neoplatonism», é apresentada aqui em sua versão revista e ampliada, publicada como uma série de dez artigos. A série explora o panorama intelectual do neoplatonismo islâmico por meio de uma leitura comparativa de Avicena e al-Kirmānī. Embora ambos os pensadores compartilhem um horizonte amplamente neoplatônico, moldado por uma metafísica emanacionista, uma hierarquia do ser e uma síntese do pensamento aristotélico e platônico, desenvolvem projetos filosóficos distintos: Avicena no interior da tradição da falsafa peripatética e al-Kirmānī no âmbito da teologia ismaelita. Apesar desses diferentes contextos intelectuais, seus sistemas permanecem em diálogo contínuo sobre a natureza do conhecimento, a relação entre razão e revelação e a ascensão da alma. Seus respectivos projetos também expressam concepções contrastantes do político, lançando luz sobre diferentes maneiras de compreender o lugar da filosofia em relação à autoridade, à lei e à organização da comunidade. Este artigo constitui a primeira parte desta série de dez artigos. Que fio condutor une, poder-se-ia perguntar, a hierarquia do conhecimento em Avicena e Ḥamīd al-Dīn al-Kirmānī, as complexidades do sectarismo no Líbano, as dinâmicas do nacionalismo religioso no Sul e no Oeste da Ásia e o papel da escatologia nos conflitos do Oriente Médio? Todos esses fenômenos podem ser compreendidos como diferentes manifestações de uma oscilação mais ampla, e talvez persistente, no interior do campo teológico-político. Essa dinâmica teológico-política manifesta-se inicialmente como uma forma de polarização, tanto no plano da hierarquia do conhecimento quanto na tensão entre dizer a verdade e aquilo que poderíamos chamar de «discurso reto», quando nos voltamos para a tradição da filosofia helenizante no Islã e para o neoplatonismo tal como foi adaptado no âmbito da da ʿ wa fatímida. No contexto libanês, essa mesma dinâmica assume outra configuração, revelando-se como uma certa dificuldade, ou mesmo incapacidade, de sustentar o pluralismo com base na reciprocidade ou de estabelecer qualquer hierarquia compartilhada dentro de um modelo político frustrado e vacilante. O teológico-político adquire uma nova dimensão quando se passa à questão do nacionalismo. Aqui, a dinâmica se desenrola pelos labirintos da secularização: um vínculo comunitário é inicialmente transposto para a forma da nação e, em seguida, submetido a um segundo movimento de intensificação, por meio de processos de ressacralização, mitologização e escatologização daquilo que havia sido originalmente secularizado. O que emerge, portanto, não é uma simples passagem linear do sagrado ao secular, mas um movimento recursivo no qual o próprio secular torna-se o lugar do retorno do sagrado sob uma forma deslocada. Essa trajetória torna-se particularmente evidente no caso do nacionalismo religioso. Dinâmicas semelhantes também podem ser ser observadas nos paradoxos do Estado confessional libanês e na evolução do sectarismo quando analisados a partir de uma perspectiva que se poderia qualificar como pós-otomana. A obra do professor Giovanni Giorgini tem estabelecido, de maneira constante, um diálogo entre a história da filosofia política e as preocupações contemporâneas. Isso se evidencia sobretudo em sua reflexão sobre a tirania, compreendida, na esteira de Leo Strauss, tanto como o domínio da arbitrariedade quanto como um problema filosófico paradigmático ligado à relação entre conhecimento, poder e a busca humana pelo bem, bem como em seus estudos sobre a phronēsis , entendida como prudência (sabedoria prática). Essa forma de prudência, para não sucumbir à arbitrariedade, deve conferir primazia à ação, pois a ação não pode ser indefinidamente adiada. A proposta de Giorgini de ler O Príncipe à luz da phronēsis aristotélica e ciceroniana, isto é, como uma investigação sobre a sabedoria da prudência enquanto forma de julgamento adequada às realidades políticas contingentes, constituiu um ponto de partida particularmente fecundo para minhas próprias reflexões. Essa perspectiva permite compreender que a virtù maquiaveliana não representa simplesmente uma deformação da virtude clássica da prudência, mas antes uma complexa reelaboração desta, plenamente consciente da eficácia política, embora sensivelmente menos comprometida com o ideal clássico da concordia . Ao refletir sobre essas questões, dei-me conta de que retornava continuamente a uma pergunta menos simples do que parece à primeira vista: até que ponto a phronēsis funciona como uma forma subterrânea de resistência à tirania e em que limiar preciso seu compromisso com «o possível» se transforma em um véu meticulosamente tecido de passividade política? No mundo Islamicate , essa indagação não pode ser separada de outra preocupação, muitas vezes difícil de formular, relativa ao transmundano ou, mais precisamente, às dimensões metafísicas e cosmológicas do domínio da arbitrariedade. O esforço para contornar, tanto no plano cosmológico quanto no metafísico, a inclinação ao arbitrário, sem ao mesmo tempo sufocar a alma, constitui, inclino-me a pensar, o núcleo da tensão revelada pelos dois autores em torno dos quais gravitam estas reflexões. I - Prudência metafísica: as aventuras da phronēsis no mundo Islamicate O presente ensaio examina a dialética entre o filósofo e o profeta na filosofia islâmica helenizante ( falsafa ) por meio de uma comparação entre Abū ʿAlī al-Ḥusayn ibn Sīnā (Avicena, m. 1037) e seu contemporâneo, o pensador ismaelita Ḥamīd al-Dīn al-Kirmānī (m. c. 1020). Ao fazê-lo, aborda também, ainda que de maneira indireta, os problemas da tirania e da phronēsis no contexto do panorama intelectual do século XI. Para Avicena, a phronēsis , ou prudência (sabedoria prática), está associada ao intelecto prático, a faculdade responsável pela ação, pela deliberação ética e pela ordenação da vida cotidiana. Embora opere dentro do quadro aristotélico das virtudes intelectuais, Avicena amplia sutilmente o alcance desse conceito ao relacionar a prudência com a perfeição da alma e orientá-la para uma forma de equilíbrio moral. Na filosofia islâmica helenizante, a phronēsis integra um itinerário da alma de alcance quase cosmológico. Aristóteles e a arquitetura da phronēsis Voltemos, porém, por um instante, a Aristóteles. Na Ética a Nicômaco , Aristóteles situa a phronēsis (φρόνησις) no interior de uma arquitetura mais ampla de virtudes intelectuais e morais que, em conjunto, permitem ao phronimos , o ser humano dotado de prudência, viver e agir retamente, alcançando assim a eudaimonia (florescimento humano ou vida boa). As virtudes morais, ou éticas ( aretai ēthikai ), dizem respeito ao caráter, às emoções e ao hábito. Não são inatas, mas adquiridas por meio da prática e da habituação, mais do que pela instrução teórica. Cada uma delas constitui um justo meio ( mesotēs ) entre dois extremos, o excesso e a deficiência, de acordo com as circunstâncias concretas. Assim, a coragem situa-se entre a temeridade e a covardia; a temperança, entre a indulgência e a insensibilidade; a generosidade, entre o desperdício e a avareza; a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido; e a magnanimidade representa uma avaliação equilibrada de si mesmo, evitando tanto a vaidade quanto o menosprezo de si. Ao lado dessas disposições éticas, Aristóteles distingue as virtudes intelectuais ( aretai dianoētikai ), que pertencem à parte racional da alma e são cultivadas por meio do ensino, da aprendizagem e da reflexão. Entre elas encontram-se a epistēmē , conhecimento demonstrativo das verdades necessárias e universais; a technē , capacidade de produzir ou exercer uma arte; a sophia , sabedoria teórica que reúne a epistēmē à compreensão dos primeiros princípios; e o nous , apreensão intuitiva desses mesmos primeiros princípios. Dentro dessa constelação, a phronēsis , isto é, a prudência, ocupa uma posição singular e irredutível. Para Aristóteles, a phronēsis não é nem o conhecimento contemplativo das verdades eternas nem uma habilidade técnica voltada para a produção. Trata-se, antes, da capacidade de deliberar corretamente acerca da ação em condições de contingência e particularidade. Constitui, nesse sentido, a inteligência da praxis : uma racionalidade aplicada que determina o que deve ser feito aqui e agora em vista da vida boa. Mais ainda, virtudes morais como a coragem ou a justiça permanecem estruturalmente incompletas sem a phronēsis . Enquanto a virtude define uma disposição estável do caráter, a phronēsis fornece o discernimento próprio de cada situação, graças ao qual essa disposição pode ser corretamente realizada. É possível compreender a coragem ou a justiça em termos abstratos; contudo, sem a phronēsis , torna-se impossível determinar como elas devem concretizar-se em uma situação específica e irredutivelmente complexa. A prudência revela, assim, que, para Aristóteles, o conhecimento ético jamais é puramente teórico: ele permanece inseparável do julgamento, da deliberação e da ação nas circunstâncias concretas da existência. Da phronēsis à ḥikma Nesse contexto, revela-se conceitualmente redutora a afirmação formulada recentemente por um filósofo marroquino de orientação islamista, segundo a qual a tradição medieval da filosofia helenizante em língua árabe permaneceu «presa» ao quadro das quatro virtudes aristotélicas e, por isso, não conseguiu desenvolver uma ética autenticamente islâmica fundada na taqwā (تقوى), entendida, na tradição islâmica, como consciência permanente de Deus, vigilância constante de Sua presença e disciplina ética voltada para evitar o mal e cumprir as obrigações morais e religiosas. Uma crítica dessa natureza pressupõe uma oposição rígida entre uma suposta «ética da virtude» grega e um horizonte ético «islâmico», como se a recepção de Aristóteles na cultura filosófica árabe tivesse constituído uma forma de confinamento conceitual, e não um espaço de tradução criativa e transformação intelectual. Essa leitura ignora não apenas a tradição da falsafa , mas também a cultura mais ampla do adab , ambas profundamente comprometidas com a integração de vocabulários éticos provenientes de múltiplas genealogias: greco-helenísticas, persas sassânidas e corânico-proféticas. Longe de abandonar as referências islâmicas, essas tradições frequentemente elaboraram uma síntese ética estratificada, na qual revelação, sabedoria herdada e raciocínio filosófico eram colocados em permanente relação dinâmica. A insatisfação expressa por esse pensador contemporâneo, segundo a qual os falāsifa medievais não conseguiram produzir uma ética plenamente «islâmica», reabre, assim, um mal-entendido mais profundo e duradouro acerca da própria natureza da falsafa . Ela suscita igualmente uma questão mais ampla: o que torna um discurso ético verdadeiramente «islâmico»? Deve a autenticidade ser buscada na pureza doutrinária ou, antes, nos processos historicamente plurais por meio dos quais a razão ética efetivamente se articulou ao longo da história intelectual do Islã? Para Aristóteles, a phronēsis é a prudência, isto é, a capacidade de deliberar corretamente sobre a ação, distinguindo-se da sophia , que designa a sabedoria teórica. Com a tradução grega da Bíblia Hebraica, a Septuaginta, sophia passou a traduzir o termo hebraico ḥokhmah . Contudo, ḥokhmah refere-se, antes de tudo, à habilidade prática e ao saber-fazer, ao passo que sophia adquiriu progressivamente o significado de conhecimento teórico e até mesmo de realidade última. Nos contextos helenísticos e gnósticos posteriores, Sophia assumiu uma dimensão metafísica e simbólica. Em certas ocasiões, foi personificada como uma emanação divina ou um éon feminino e, em determinadas narrativas gnósticas, «cai» do mundo espiritual para o mundo material antes de ser restaurada. Em árabe, ḥikma , termo estreitamente aparentado, em sua forma, ao hebraico ḥokhmah , deriva da raiz ḥ-k-m, cujo significado original remete às ideias de conter, controlar ou impedir. Dessa raiz derivam palavras ligadas à autoridade jurídica e política, como ḥukm (julgamento, decisão), ḥākim (governante) e ḥakīm (o sábio). Todo esse campo semântico associa a sabedoria ao julgamento, ao governo e ao discernimento prudente. No Alcorão, a ḥikma aparece como um dom divino concedido a figuras como Davi ( Dāwūd ): وَشَدَدْنَا مُلْكَهُ وَآتَيْنَاهُ الْحِكْمَةَ وَفَصْلَ الْخِطَابِ «Fortalecemos o seu reino e lhe concedemos a sabedoria e o discernimento no julgamento.» E também a Luqmān: وَلَقَدْ آتَيْنَا لُقْمَانَ الْحِكْمَةَ أَنِ اشْكُرْ لِلَّهِ «Concedemos a Luqmān a sabedoria: “Sê agradecido a Deus.”» A maioria dos estudiosos clássicos do Islã sustenta que Luqmān não foi um profeta, mas um homem piedoso dotado de extraordinária sabedoria, razão pela qual ocupa um lugar de destaque na tradição islâmica. Na literatura medieval posterior, costuma ser apresentado como autor de fábulas morais, o que levou à sua comparação com Esopo. Algumas tradições também o descrevem como juiz ou conselheiro na época de Davi, explicitamente reconhecido pelo Alcorão como profeta. Na tradição islâmica, Luqmān, o Sábio, não é identificado com o profeta bíblico Natã, embora certos relatos tardios sugiram uma ligação genealógica, chegando mesmo a apresentá-lo como pai de Natã. A expansão metafísica da ḥikma Embora não exista entre ambas qualquer relação etimológica, a ḥikma , em seu campo semântico original, encontra-se mais próxima da phronēsis do que da sophia . Mais precisamente, ocupa inicialmente uma posição intermediária entre ambas, funcionando como mediadora entre a prudência e a sabedoria teórica. Assim como a phronēsis , ela traz consigo a ideia de julgamento prudente: a capacidade de aplicar o conhecimento a circunstâncias concretas e mutáveis em vista de um fim virtuoso. Em ambos os casos, a sabedoria não consiste apenas em apreender a verdade, mas também na capacidade cultivada de encarná-la por meio do discernimento, do caráter e da inteligência prática. Durante a Idade de Ouro do Islã, contudo, a ḥikma conheceu uma notável ampliação conceitual. Tornou-se o equivalente árabe privilegiado do termo grego philosophia . Embora o empréstimo falsafa fosse o vocábulo mais utilizado para designar as ciências gregas traduzidas, os primeiros filósofos muçulmanos frequentemente preferiram o termo ḥikma devido à sua ressonância corânica. Essa preferência já se manifesta em al-Kindī e adquire expressão institucional sob al-Maʾmūn com a fundação da Bayt al-Ḥikma ( Casa da Sabedoria ) em Bagdá. Essa instituição funcionou como um centro imperial dedicado à tradução, à classificação e ao desenvolvimento das chamadas «ciências racionais» (ʿ ulūm ʿ aqliyya ), tradicionalmente distinguidas das «ciências transmitidas» (ʿ ulūm naqliyya ). Precisamente por sua legitimidade corânica, a ḥikma , tanto como termo quanto como conceito, permaneceu relativamente protegida das suspeitas que frequentemente recaíam sobre a falsafa ou sobre o manṭiq (lógica), considerados, por vezes, importações estrangeiras excessivamente dependentes das fontes gregas e até associados à zandaqa (heresia). A acusação de zandaqa desempenhou um papel central nas controvérsias intelectuais do Islã medieval. Alguns estudiosos da religião recorreram a ela contra os falāsifa (filósofos muçulmanos) para deslegitimar suas doutrinas metafísicas, sobretudo aquelas influenciadas pelo neoplatonismo e pelo aristotelismo. Embora originalmente vinculada ao dualismo maniqueu e à heresia, a expressão ampliou gradualmente seu alcance, tornando-se uma acusação flexível dirigida contra qualquer pensamento percebido como uma ameaça ao monoteísmo ortodoxo. Filósofos como al-Fārābī ou Avicena não eram, em geral, acusados de defender um dualismo literal, mas de introduzir estruturas conceituais estrangeiras, como a teoria da emanação ou a eternidade do mundo, que alguns teólogos consideravam doutrinariamente perigosas ou excessivamente helenizantes. Em termos gerais, essas críticas articulavam-se em torno de três questões principais. Os falāsifa eram acusados de sustentar a eternidade do mundo, em oposição à doutrina da creatio ex nihilo . Também lhes era atribuída uma concepção emanacionista da existência que deixava pouco espaço para o quadro tradicional da criação, da revelação e da redenção. Por fim, eram considerados responsáveis por enfraquecer a crença na ressurreição corporal, seja por seguirem a tendência neoplatônica em direção à ideia de uma alma universal única em vez de uma pluralidade de almas individuais, seja por substituírem a distinção escatológica entre paraíso e castigo por uma forma intelectual de bem-aventurança reservada ao intelecto purificado. Tudo isso conduz a um paradoxo revelador: embora a ḥikma estivesse originalmente inclinada para a prudência, sua adoção como tradução de philosophia , aliada ao seu fundamento escriturístico, permitiu que evoluísse para um conceito muito mais amplo e especulativo. A tendência predominante entre os falāsifa consistiu em identificar a falsafa com a ḥikma , e vice-versa, transformando gradualmente a ḥikma , de uma noção que reunia tanto a prudência ( phronēsis ) quanto a sabedoria teórica ( sophia ), em uma expressão do logos supremo, isto é, de um princípio universal que abrange simultaneamente a estrutura racional e a realidade metafísica. Como consequência, a ḥikma passou a designar não apenas o discernimento ético, mas também uma forma de sabedoria integral, e até mesmo cósmica. Essa transformação torna-se particularmente visível a partir de Avicena e, paralelamente, na filosofia ismaelita, especialmente nas obras de Ḥamīd al-Dīn al-Kirmānī, como Rāḥat al- ʿ Aql ( A Quietude do Intelecto ). Posteriormente, alcança uma nova etapa na tradição iluminacionista de Shihāb al-Dīn Suhrawardī com Ḥikmat al-Ishrāq , e, mais tarde, na Escola de Isfahan, com Mīr Dāmād e Mullā Ṣadrā. Nesses desenvolvimentos posteriores, a ḥikma deixa de designar um equilíbrio entre o prático e o teórico para tornar-se uma forma de teosofia, na qual a reflexão racional e a realização espiritual aparecem inseparavelmente unidas. Nesse sentido, a sabedoria deixa de ser apenas a capacidade de conhecer e agir retamente para tornar-se também um processo por meio do qual o próprio sujeito é transformado pela verdade. N. do E.: Este texto foi traduzido do inglês.

Ormuz: o Irão quer impor as suas regras do jogo a Trump

O regime iraniano dos mulás, mais especificamente a corrente radical representada pelos Guardiões da Revolução Islâmica, continua a querer gerir a crise do Estreito de Ormuz impondo as suas condições e marginalizando os Estados Unidos nas negociações em curso, chegando mesmo a negar qualquer papel de Washington na solução que está a ser delineada. Para atingir esse objetivo, os decisores em Teerão negociaram o projeto de acordo exclusivamente com o sultanato de Omã, tendo o cuidado de afirmar que não está a decorrer qualquer diálogo com os EUA. Pior ainda: levando a sua arrogância e o seu desprezo declarado pelo presidente americano cada vez mais longe, o regime iraniano fez questão de sublinhar na manhã de quarta-feira que “o acordo com Omã foi adiado devido às ameaças proferidas pelos Estados Unidos”. Teerão age assim perante a Administração americana como um “vencedor” que não só procura impor as suas regras do jogo, como trata sobretudo o seu “inimigo” de forma deliberadamente humilhante, interpretando as hesitações e as manobras evasivas do presidente Donald Trump como um sinal de fraqueza do qual procura tirar partido. Neste contexto, o site local al-Janoubiya , que reflete a tendência da oposição xiita libanesa hostil ao Hezbollah, divulga informações retiradas da imprensa iraniana que confirmam, mais uma vez, a existência de uma fratura no seio do regime iraniano, mas que revelam sobretudo um afastamento do chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, das negociações em curso. De facto, uma fonte responsável do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros indicou na quarta-feira que “não está prevista qualquer visita do ministro dos Negócios Estrangeiros nem do presidente do Parlamento (principais negociadores iranianos) ao Paquistão ou ao Qatar” (principais mediadores entre os EUA e o Irão). Ao mesmo tempo, a Janoubiya relata também que um alto responsável da corrente radical dentro do regime teria declarado que, caso o presidente iraniano Massoud Pezechkian apresente novamente a sua demissão, esta será imediatamente aceite. Este clima iraniano que envolve as negociações sobre a gestão do Estreito de Ormuz e a obstinação iraniana em manter os EUA afastados de qualquer solução lançam sérias dúvidas sobre a solidez e a credibilidade do acordo negociado pelo regime com Omã. Uma fonte iraniana autorizada fez questão de sublinhar na quarta-feira à noite que o acordo irano-omanita “não significa que o estreito de Ormuz se tornará seguro” e não “significa a reabertura completa do estreito”! Na prática, o vice-ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, indicou ao final do dia que o acordo negociado com Omã implica “um modelo de gestão diferente do aplicado nos últimos sessenta anos”. E o porta-voz precisou que, a pedido de Teerão, o sultanato está disposto a alterar “os corredores de entrada e saída dos navios comerciais”. Resta saber, neste contexto, se o presidente Trump aceitará as regras do jogo assim definidas pela ala radical do regime, sobretudo porque, ao mesmo tempo, o aliado iemenita dos Pasdarans, a milícia Houthis, continua a escalar as suas ações no Mar Vermelho contra a Arábia Saudita. O porta-voz dos Houthis indicou assim ao final do dia que a milícia tomou como alvo “um petroleiro saudita no golfo de Aden com recurso a um míssil balístico”. Anteriormente, durante o dia, uma fonte britânica também havia relatado um ataque ao largo do Iémen contra um navio comercial. Estes ataques ocorreram enquanto o presidente Trump havia declarado no início da tarde que responsabilizaria o Irão por qualquer ataque dos Houthis a navios sauditas. Em todo o caso, o ministro Araghchi sublinhou, no contexto das negociações com Omã, que qualquer acordo com o sultanato sobre o Estreito de Ormuz terá de ser aprovado pelo Guia Supremo, Mojtaba Khamenei. Só que o presidente iraniano declarou no final da noite que “o contacto com o Guia Supremo é extremamente difícil nesta fase”… O dossiê libanês Foi neste contexto particularmente turbulento e carregado de consequências imprevisíveis que decorreu na quarta-feira a segunda jornada da sétima ronda de negociações diretas entre o Líbano e Israel, numa atmosfera mais positiva do que no dia anterior. Foi o que anunciaram no final do dia fontes próximas de Baabda, que indicaram que as discussões resultaram na criação de três comissões encarregadas dos dossiês político, militar e relativo à delimitação das fronteiras internacionais entre os dois países. Foi precisamente neste último ponto que foram registados os progressos mais notáveis. As fontes de Baabda precisam que a delegação libanesa tenha apresentado um estudo detalhado e bem documentado sobre o assunto, e que o representante americano tenha prestado homenagem à posição definida pela parte libanesa a este respeito. O outro tema que foi objeto de negociações entre as delegações libanesa e israelense é a determinação da terceira parte que seria responsável por garantir a ausência de qualquer presença miliciana do Hezbollah nas zonas-piloto evacuadas pelo Tsahal e assumidas pelo exército libanês. O Estado hebraico opor-se-ia a um papel da França neste contexto. Por outro lado, os observadores notam que o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros teve uma conversa telefónica com o seu homólogo iraniano e, paralelamente, um oficial superior italiano realizou em Beirute uma reunião com o chefe do Estado-Maior do exército libanês, o que alimentou especulações sobre a escolha da Itália como terceira parte encarregada de garantir a aplicação rigorosa dos termos do acordo-quadro entre o Líbano e Israel. Em todo o caso, a sessão de quarta-feira à tarde foi encerrada antes do horário previsto, a pedido da delegação americana, “devido a desenvolvimentos no terreno”, indicou ao início da noite um responsável do Departamento de Estado. Apoio de Bkerké às negociações com Israel Refira-se, para concluir este capítulo diplomático, que na sequência da sua reunião mensal realizada em Bkerké — como habitualmente, na primeira quarta-feira de cada mês — a assembleia dos bispos maronitas publicou um comunicado no qual os prelados manifestam o seu total apoio às negociações entre o Líbano e Israel, sob a égide dos Estados Unidos, com o objetivo de obter uma “retirada total do exército israelense do Sul do Líbano e o regresso dos habitantes às suas aldeias (…)”. Facto significativo: o comunicado de Bkerké sublinha explicitamente que o caminho das negociações com Israel seguido pelo poder libanês deve prosseguir “longe das tentativas que visam ligar este processo a agendas estrangeiras”, numa alusão apenas velada à vontade do regime iraniano de tomar o controlo do tabuleiro do Sul do Líbano. No terreno, no Sul do Líbano, a jornada desta quarta-feira, 6 de agosto de 2026, foi pesada em termos de perdas humanas. O dia começou com a explosão de um engenho artesanal na aldeia de Majdel Zoun, no caza de Tiro. A explosão causou dois mortos e 7 feridos, um dos quais em estado grave, nas fileiras do exército israelense. Na sequência desta explosão, o Tsahal publicou um comunicado acusando, em termos severos, o Hezbollah de ter violado o cessar-fogo no Líbano e anunciando que seriam realizados ataques de represália no sul. De facto, um ataque com drone foi realizado contra a localidade de Tebnine, deixando um morto e 12 feridos. Paralelamente, as forças do Estado hebreu anunciaram ter destruído uma infraestrutura subterrânea do Hezbollah na aldeia de Srebbine (distrito de Bint Jbeil), onde importantes lotes de armas e munições foram apreendidos.