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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
Opinião
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Por Youssef Mouawad
Publicado em set 5, 2026 - 13:25
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório do Congressional Research Service de setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, « Make Turkey great again », não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de « proxies », acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
Homenagem
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Por Michel Hajji Georgiou - Publicado em set 4, 2026 - 23:28
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De Hassan Rifaï, fica a imagem de um jurista respeitado, sereno, referência em direito administrativo e constitucional, que argumentava com voz calma e trêmula para apontar os desvios e descaminhos dos políticos em relação ao regime democrático parlamentar e à Constituição. No entanto, o ex-deputado e ex-ministro, falecido em 3 de setembro de 2025, era também um homem revoltado. Um inconformista. Mesmo aos cem anos. Sobretudo aos cem anos! Já o havia sido na infância, arengando multidões em Baalbeck contra o Mandato, e continuou assim ao longo de toda a sua carreira como advogado e parlamentar. Aos cem anos, completamente desiludido com a República e seus flibusteiros, sua cólera contida não havia se apaziguado. «O Líbano é um país impossível!», dizia ao autor destas linhas em uma entrevista realizada alguns anos antes de sua morte e jamais publicada. Mas atenção. Hassan Rifaï não era niilista, nem alguém que negasse tudo por princípio. Lutara a vida inteira por uma determinada ideia do Líbano. Mais precisamente, pelo Grande Líbano, unido e plural. E sabia avaliar em sua justa medida a experiência libanesa, com tudo o que ela tivera de positivo. Mas o ser humano o havia decepcionado. E era precisamente o ser humano que ele procurava. Nunca o encontrou na cena pública libanesa. Pelo menos, não a serviço da República. Rifaï era um homem do direito, sempre elegante, irrepreensível, tudo o que se espera de um homem de sua estatura moral e intelectual. Mas também era intransigente. Implacável, até. Sem dúvida, seu apego ao país e ao regime democrático o levara a reconhecer uma única fidelidade: um determinado código de valores e uma determinada ideia da República. Por isso se mostrava crítico diante de todos os erros e de todos os desvios, começando pelos cometidos por seus próprios amigos políticos. Não poupava ninguém. Nem comunidades nem clãs, nem líderes religiosos, ele próprio era laico, e muito menos os responsáveis políticos. Ninguém escapava ao seu crivo, e Rifaï sentia um certo prazer em desconstruir os mitos e as ideias feitas que transformavam este ou aquele presidente da República ou primeiro-ministro em um líder excepcional. Seus critérios eram objetivos: a coerência entre os atos e os princípios democráticos. Assim, ninguém encontrava verdadeiramente graça aos seus olhos. A constatação era terrível: nenhum dos dirigentes, ao longo da história do país, havia realmente respeitado a democracia parlamentar libanesa. Nenhum. Não porque colocasse todos no mesmo plano. Tinha distância crítica suficiente para reconhecer as qualidades e os defeitos de uns e de outros. Gostava de citar Léon Duguit: «O direito constitucional não tem outro guarda-freio senão a boa-fé dos homens que o aplicam.» Quase fizera dessa frase seu credo republicano. E seu veredicto era implacável: essa boa-fé, simplesmente, ele não a encontrara. Políticos demais, homens de Estado de menos. E, sobretudo, muita mentira e hipocrisia. Um dia, um grande dirigente lhe aconselhou: «Não construa estradas para as pessoas. Caso contrário, elas deixarão de procurá-lo.» Apesar do respeito que nutria por aquele aliado político, a frase o deixara perplexo e chocado. Ela continha, por si só, toda uma concepção do poder: jamais resolver definitivamente o problema daquele que se pretende representar, pois, desaparecendo sua necessidade, desapareceria também a própria razão de sua dependência. O projeto do Estado ficava, assim, adiado indefinidamente. Ou, de todo modo, quando existiam pessoas de bem, o sistema não lhes permitia chegar aos cargos de responsabilidade. Rifaï era um rebelde, sim, mas com o rigor e a precisão de um ourives do direito administrativo e constitucional. E era provavelmente isso que o distinguia no meio político libanês. Rebelde o suficiente, em todo caso, para pagar um preço por isso. Em agosto de 1982, foi vítima de uma tentativa de assassinato depois de se opor ao diktat israelense. Em Taif, em 1989, foi praticamente posto à margem por ter percebido de imediato as falhas existentes e as armadilhas acrescentadas às reformas constitucionais. A partir de 1992, sob a ocupação síria, sofreu ostracismo político por se opor ao aparato de segurança que sustentava a tutela síria e à política de Rafic Hariri. Mas era justo. Podia se opor ao confessionalismo político e, ao mesmo tempo, reconhecer que sua abolição no estágio atual seria uma catástrofe para o Líbano, e que uma democracia reduzida à mera lógica dos números faria soar de uma vez por todas o dobre de finados da fórmula libanesa e da presença cristã no país. Podia concordar com a ideia de que os cristãos haviam sido prejudicados pelas reformas constitucionais de Taif, os sunitas também, sustentava, ao mesmo tempo em que lembrava os excessos cometidos no exercício do poder pelos presidentes da República entre 1943 e 1990 e advertia contra qualquer surto de nostalgia por essas práticas sob a bandeira dos «direitos dos cristãos». Uma deriva rumo a um regime presidencial ou semipresidencial constituía, a seu ver, um perigo para os cristãos. A importância do regime parlamentar herdado da Terceira República francesa residia precisamente no fato de que o presidente da República não era politicamente responsável perante a Câmara dos Deputados. Isso o colocava, segundo Rifaï, em uma posição privilegiada. Acima da disputa, podia conduzir o navio da República a bom porto sem ficar atolado nas lutas pelo poder. Essa responsabilidade moral de preservar a Constituição e a República era, a seus olhos, muito mais importante do que qualquer responsabilidade política. Mas ainda era preciso convencer disso os principais interessados. Rifaï podia reconhecer a importância de uma descentralização administrativa e, ao mesmo tempo, recusar que essa reivindicação se transformasse em um slogan ideológico a mascarar uma vontade separatista. Nesse sentido, lembrava que Beirute e o Monte Líbano haviam sido privilegiados na construção do Grande Líbano, ao passo que as regiões periféricas, sobretudo a sua, Baalbeck, haviam sido desprezadas. Isso contribuíra para enfraquecer o sentimento nacional libanês, que dependia, afinal, de um bem-estar baseado no respeito à dignidade humana. A adesão à cidadania pressupunha que todos fossem tratados da mesma forma do ponto de vista do desenvolvimento. Sem igualdade entre os cidadãos, a soberania só podia vacilar. Esse, aliás, foi o sentido de sua primeira intervenção no Parlamento, em 1968. Os acontecimentos que se seguiram conferiram uma gravidade singular àquele alerta. Os desequilíbrios econômicos, sociais e territoriais contribuíram para alimentar as reivindicações da esquerda e de setores da rua muçulmana, em um país já atravessado por tensões comunitárias, ingerências externas e pelo crescente poder das organizações armadas. Contribuíram, assim, para o enfraquecimento progressivo do Estado, antes da guerra, das ocupações sucessivas e do surgimento de estruturas paraestatais. Em última análise, Hassan Rifaï encarna um pouco esse modelo libanês de personalidade cosmopolita, complexa, situada fora das trincheiras comunitárias e partidárias, respeitada de maneira quase unânime, sobretudo fora dos círculos políticos, mas consultada dentro desses mesmos círculos apenas quando necessário e por interesse. O Líbano não gosta de espíritos independentes e insubmissos demais, embora seu sistema ainda conserve brechas que permitem que essas pessoas existam e façam sua voz ser ouvida. Elas são toleradas, mas devem permanecer à margem. Disso depende a sobrevivência do Estado-zaamat e do Estado-jamaat, que prefere invariavelmente recorrer a tutores estrangeiros em vez de se voltar para pessoas capazes de gerar, propor e implementar soluções a partir de dentro. O sistema político libanês e seus protagonistas detestam a noção de responsabilidade, que lhes causa profunda ansiedade, e preferem a dependência ou, pior ainda, a servilidade. Ora, repetia Rifaï, citando mais uma vez Léon Duguit: «Onde está a responsabilidade, está o poder.» Deve surpreender, então, que no Líbano, onde a responsabilidade não está em lugar algum, o poder também não esteja em lugar algum? Ou, mais exatamente, que esteja sempre em outro lugar?
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O mar Vermelho e o risco de uma guerra regional mais ampla

As tensões crescentes no Golfo vêm alimentando a preocupação mundial com uma nova crise na navegação pelo Mar Vermelho. Uma evolução dessa natureza imporia novas restrições a um comércio marítimo internacional que já é extremamente oneroso e provocaria outra crise de abastecimento nas proximidades das zonas de conflito do Estreito de Ormuz e dos riscos geopolíticos a elas associados no Oriente Médio, caso o conflito se prolongue. O mesmo cenário tem se repetido com tanta frequência que se tornou quase previsível. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou suas ameaças ao nível máximo. Washington fala abertamente sobre a possibilidade de um ataque de grande escala, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, menciona rotas alternativas ao Estreito de Ormuz. Os mercados já passaram a precificar a possibilidade de uma guerra regional. Os preços do petróleo disparam, as bolsas recuam e a região mergulha em um cenário de incerteza. Enquanto isso, os líderes políticos observam a crise sob perspectivas distintas. Alguns pensam nos cálculos das próximas eleições; outros, no equilíbrio das relações de poder e influência. Ao mesmo tempo, grupos de pressão e grandes empresas continuam atuando segundo a lógica dos interesses e dos lucros, beneficiando-se, em certos momentos, da volatilidade dos mercados criada pelas próprias crises. Os mercados financeiros já não encaram essa dinâmica como uma exceção, mas como um padrão recorrente. A cada escalada, os preços do petróleo sobem diante do temor de interrupções no abastecimento de energia. Assim que surgem sinais de distensão, voltam a cair. O mesmo acontece com os mercados financeiros, que reagem fortemente a cada nova ameaça e recuperam parte de suas perdas sempre que ressurge a perspectiva de um acordo. Apesar disso, aumentam as preocupações com novas interrupções na navegação pelo estreito de Ormuz, enquanto o tráfego de navios porta-contêineres pelo golfo de Áden, pelo estreito de Bab el-Mandeb e pelo canal de Suez registra uma queda preocupante. Mais de cinquenta países já foram afetados. Em diversos países africanos, entre eles a Nigéria, a guerra agravou a pobreza e a fome entre as crianças. Na Alemanha, a produção das fábricas da Tesla diminuiu depois que mais de dezoito companhias marítimas internacionais decidiram desviar suas embarcações pelo Cabo da Boa Esperança, atrasando a chegada de matérias-primas industriais. A gigante japonesa de transporte marítimo NYK também suspendeu suas operações no Mar Vermelho. Essa mudança de rota quadruplicou os custos do transporte marítimo devido ao aumento considerável das distâncias ao longo da costa africana. Também provocou disrupções nas cadeias globais de suprimentos e atrasos na entrega de componentes industriais e tecnológicos provenientes da China, de Taiwan e de outros países do Leste Asiático. Nos últimos meses, um número crescente de navios mercantes abandonou sua rota tradicional pelo golfo de Áden e pelo canal de Suez, nos dois sentidos. Essas vias marítimas eram utilizadas anualmente por cerca de 20 mil navios de carga, de uma frota mercante mundial composta por aproximadamente 105 mil embarcações, que transportaram, em 2024, cerca de 15 bilhões de toneladas de mercadorias e matérias-primas pelos mares. O retorno do fantasma da inflação tornou-se um dos maiores desafios para os governos de todo o mundo, mesmo depois das economias terem começado a se adaptar parcialmente às consequências das interrupções em torno do Estreito de Ormuz. Essa situação faz ressurgir os desequilíbrios econômicos observados após a pandemia de Covid-19. A Europa acompanha com crescente preocupação a alta dos preços do petróleo e a possibilidade de uma ampliação dos conflitos no Oriente Médio. As economias da União Europeia continuam arcando com os elevados custos da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Qualquer mudança na estratégia dos Estados Unidos abriria uma nova realidade econômica para a Europa, marcada por diferenças cada vez maiores no crescimento e por uma competitividade cada vez mais desigual. Os líderes europeus demonstram profunda preocupação e precisam agir rapidamente. Será difícil enfrentar um novo choque econômico que combine inflação, desemprego e incêndios florestais, enquanto a União Europeia continua buscando fornecedores alternativos de energia localizados a distâncias cada vez maiores. Em contraste, durante os meses da guerra americana contra o Irã, a economia dos Estados Unidos, sustentada principalmente pela demanda interna, permaneceu relativamente resiliente. Ao mesmo tempo, o comércio norte-americano com a América do Norte e com os países da ASEAN alcançou cerca de US$ 1,2 trilhões, enquanto uma parcela crescente do comércio marítimo se deslocava para o Oceano Pacífico. Já o comércio da China atingiu aproximadamente US$ 800 bilhões. A exploração dos mares figura entre as maiores aventuras da humanidade. Foi ela que transformou o Mediterrâneo, com todo o seu comércio e suas riquezas, em um vasto espaço de intercâmbio entre os antigos fenícios, gregos, egípcios, o norte da África, o sul da Europa e a Índia. Ali, Roma lançou as bases de suas antigas rotas comerciais e militares. As viagens de Cristóvão Colombo e Vasco da Gama, a Rota da Seda percorrida por Marco Polo e a circunavegação do almirante Fernão de Magalhães abriram novos caminhos marítimos para o comércio internacional. Mas o mar serve a muito mais do que um único propósito. Mais de um milhão de pessoas trabalham no comércio marítimo, seja a bordo dos navios, seja nos portos e cais. A isso somam-se setores inteiros ligados à construção naval, à pesca, à navegação de recreio e ao turismo marítimo. O setor também impulsiona o desenvolvimento econômico ao estimular diversas atividades industriais, entre elas as indústrias do aço, do alumínio, dos cabos e da fibra de vidro. Assim, qualquer ampliação dos conflitos marítimos, de Bab el-Mandeb até o Mar da China e o Mar do Japão, em um momento em que a economia mundial cresce pouco mais de 3%, acarretará novas consequências políticas e econômicas. Seus efeitos econômicos e psicológicos continuarão a marcar a vida de milhões de pessoas. Setores do mercado financeiro estimam que mercadorias no valor de pelo menos US$ 3 trilhões atravessem anualmente o Mar Vermelho, o equivalente a cerca de 13% do comércio mundial, percentual que poderá representar US$ 5 trilhões até 2050. Apesar da importância estratégica desse corredor para o comércio global, a rota do Mar Vermelho ainda carece de inúmeros serviços e infraestruturas marítimas essenciais. Faltam estaleiros, centros de manutenção, indústrias navais e estruturas capazes de garantir o livre fluxo do comércio internacional. Também permanece insuficiente a rede logística necessária para sustentar o transporte marítimo de aproximadamente 80% dos produtos alimentícios comercializados no mundo, especialmente cereais e óleo de palma. Também cresce a preocupação com uma possível reorganização das rotas de transporte e abastecimento na região em prejuízo do Egito e de diversos países africanos. O Egito tende a ser o maior prejudicado, já que as receitas do canal de Suez, estimadas em cerca de US$ 11 bilhões anuais, continuam sob forte pressão. Pelo canal transitam aproximadamente 15% do comércio mundial, 30% do tráfego global de contêineres e 8% dos fluxos mundiais de petróleo bruto. Enquanto isso, Israel estabeleceu na Eritreia seu maior posto de observação militar e sua principal plataforma estratégica, com vista para o estreito de Tirã. Seu confronto com o Irã alimenta tensões que podem evoluir para uma violência regional e internacional de maior escala, além de favorecer a pirataria e as violências associadas às identidades, com potenciais consequências para a segurança nacional árabe. No entanto, o mundo árabe ainda carece de uma estratégia comum e integrada para proteger essa passagem marítima vital e construir um verdadeiro sistema de segurança coletiva árabe. Essa ausência de visão estratégica ameaça enfraquecer o papel dos Estados da região, comprometer sua independência política e reduzir sua capacidade de ação. Assim, os preços do petróleo podem recuar depois que Donald Trump anunciar o adiamento de um eventual ataque militar, e as bolsas podem voltar a subir diante das notícias de um acordo iminente. Isso, porém, não significa que a paz tenha sido alcançada nem que as causas profundas da tensão tenham desaparecido. O Oriente Médio não vive nem uma guerra aberta nem uma paz estável. Permanece em uma zona cinzenta entre ambas, onde os instrumentos do confronto se transformam continuamente, enquanto suas consequências econômicas e psicológicas continuam a marcar a vida de milhões de pessoas. Qualquer nova escalada afetará a todos. Ela terá impacto sobre o crescimento da economia mundial, alimentará a inflação, elevará os preços dos combustíveis, dos equipamentos eletrônicos e dos seguros, além de acelerar a busca por rotas marítimas alternativas, incluindo os “corredores marítimos verdes” debatidos na Conferência de Glasgow. Também impulsionará a expansão da infraestrutura portuária, a liberalização do setor marítimo no Marrocos e na África, o avanço da tecnologia, dos serviços logísticos e da conectividade digital, bem como o desenvolvimento das atividades offshore , dos simuladores marítimos e das academias navais. Esse ciclo recorrente de crises não significa que a região esteja caminhando para a paz. Pelo contrário, revela uma realidade diferente: nem uma guerra generalizada nem uma estabilidade verdadeira, mas uma gestão permanente das crises. A escalada tornou-se um instrumento de negociação, a ameaça converteu-se em ferramenta política e as negociações servem cada vez mais para adiar o confronto do que para conduzir a uma solução definitiva. Mas, em meio a esse confronto político e estratégico, há apenas um lado que continua pagando o verdadeiro preço: a população. Será que os Estados árabes compreenderão, enfim, a importância de desenvolver estratégias para proteger o seu « mar petrolífero », esse espaço marítimo que continua sendo um dos pilares fundamentais do comércio mundial?

Xeque Naim…  O monopólio das armas começa em Ali al-Taher

Antes de mais nada, xeque Naim, o senhor precisa compreender que todos os libaneses estão pagando hoje o preço de sua irresponsabilidade política, de sua submissão cega ao Irã e de suas decisões unilaterais, que arrastaram o Líbano para guerras que nem seu povo nem seu Estado escolheram nem decidiram. Quem levou o país a essa realidade trágica e permitiu o retorno da ocupação israelense a partes do sul do Líbano não foi quem hoje procura salvar o país. Foram aqueles que se submeteram às ordens do Irã e decidiram declarar guerra por conta própria, à margem das instituições do Estado e de sua autoridade soberana. Quem lançou o sul do Líbano em um confronto aberto e expôs os libaneses à destruição e ao deslocamento foi quem arrastou o país para uma guerra a serviço do projeto iraniano, e não quem hoje trabalha para tirar o Líbano da crise e restaurar suas instituições. Quem hoje procura salvar o que resta da pátria é o presidente da República, general Joseph Aoun, e o primeiro-ministro, que trabalham para devolver ao Estado o pleno controle de suas decisões soberanas e retirar o Líbano do ciclo das guerras. Um exemplo claro disso é a proposta do presidente da República de entregar a instalação de Tallat Ali al-Taher para o controle do Exército libanês, proposta que os senhores rejeitaram, embora tenha sido aceita pelo lado israelense. A questão que hoje se impõe não é a importância estratégica dessa colina, pois isso está fora de discussão. A verdadeira pergunta é por que os senhores se recusam a entregá-la à instituição militar libanesa. Será porque ela constitui o ponto de observação mais elevado sobre amplas áreas do sul do Líbano, dando a quem a controla uma vantagem decisiva em vigilância e no controle do fogo? Ou porque suas instalações militares, fortificações e rede de túneis representam um investimento militar construído ao longo de muitos anos, de modo que entregá-las ao Exército libanês significaria perder um dos principais elementos de força no terreno? Ou a verdadeira razão é que entregá-la ao Exército libanês significaria, na prática, reconhecer o princípio do monopólio das armas pelo Estado e transferir a decisão militar para as autoridades legítimas? Seja qual for a resposta, o paradoxo continua sendo chocante. Se a escolha se resume a entregar essa posição ao Exército libanês ou vê-la destruída por Israel, como a opção israelense pode ser considerada mais grave do que a primeira opção? E como se pode preferir que uma posição libanesa seja destruída pelo inimigo em vez de passar para a autoridade do Exército libanês? O senhor não deve perder de vista, xeque Naim, que lidera uma milícia armada fora da legalidade libanesa. Nem os discursos nem as campanhas de deslegitimação e de acusações de traição mudarão essa realidade. O monopólio das armas pelo Estado não é um simples slogan político, mas um princípio de soberania e um imperativo constitucional do qual não há retorno. Mais cedo ou mais tarde, ele será posto em prática. Por fim, as negociações diretas decididas pelo Estado libanês, em conformidade com sua soberania e com seu interesse nacional, não constituem uma concessão. Elas são um instrumento para recuperar os direitos e o caminho menos custoso para libertar o território, garantir a libertação dos prisioneiros e reconstruir o que as guerras impostas ao Líbano, a serviço de projetos alheios ao interesse nacional, destruíram.

A arrogância iraniana para justificar uma derrota libanesa

Seis anos após a catástrofe da explosão no porto de Beirute, quando é mais do que provável que o Hezbollah, com a cumplicidade de outros atores, tenha protegido o armazenamento de nitrato de amônio, o Líbano continua resistindo ao seu inimigo interno. Esse inimigo tem nome: as armas do Hezbollah, utilizadas tanto dentro quanto fora do país, especialmente na Síria, muito antes da chamada “guerra de apoio a Gaza”, uma guerra que acabou provocando uma tragédia para a comunidade xiita e, acima de tudo, um desastre nacional para o Líbano. As declarações mais recentes do secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, são mais uma prova dessa realidade. Ele acusou as autoridades libanesas de “ajudar Israel em vez de ajudar o Líbano” e acrescentou que “o presidente Joseph Aoun tornou-se parte do conflito e um fator de divisão, algo incompatível com o papel que lhe cabe desempenhar”. Essas declarações representam apenas mais um capítulo da guerra que o Irã trava contra o Estado libanês e todas as suas instituições. Felizmente, a arrogância não é capaz de esconder uma derrota. O que o Líbano enfrenta hoje é uma derrota provocada pelo Hezbollah. Por causa dessa derrota, pela qual o Hezbollah, ou seja, o Irã, é responsável, o país vê-se obrigado a lutar em duas frentes, em circunstâncias particularmente difíceis. A primeira é a guerra travada pelo Irã contra o Estado libanês. A segunda consiste em pôr fim à ocupação israelense para permitir que os deslocados retornem às suas cidades e aldeias. Em Roma, ocorreram negociações difíceis com Israel com o objetivo de pôr fim a essa ocupação. Tudo o que o Hezbollah, apoiado pela República Islâmica do Irã, faz hoje serve apenas para reforçar a posição israelense. Como pode o negociador libanês responder quando o lado israelense lembra que as armas do Hezbollah foram usadas para ameaçar as comunidades israelenses da Galileia? Foi sob essa perspectiva que o primeiro-ministro Nawaf Salam respondeu com notável clareza ao secretário-geral do Hezbollah, sem mencioná-lo nominalmente: “Hoje surgem aqueles que acusam as autoridades políticas de terem ajudado Israel em vez de defender a soberania do Líbano, para depois conclamarem ao diálogo e à unidade como se os libaneses não tivessem memória. O maior favor prestado a Israel foi feito por aqueles que arrastaram unilateralmente o Líbano para as aventuras absurdas das chamadas guerras de “apoio”, oferecendo-lhe todos os pretextos para atacar o nosso país, pisotear sua soberania, destruir suas cidades e aldeias, matar seus habitantes e deslocar centenas de milhares deles. Quem monopolizou a decisão da guerra, quem ainda procura confiscar a decisão do Estado e vincular o Líbano a agendas e eixos externos, ignorando os interesses da sua própria base e do conjunto dos libaneses, não tem autoridade moral para distribuir certificados de patriotismo, muito menos de soberania. Não haverá soberania para o Líbano senão por meio de uma única decisão nacional e independente, exercida por um Estado dotado de um único Exército, que exerça sozinho sua autoridade sobre todo o território nacional. Quanto ao diálogo e à unidade, eles só podem ser construídos com a coragem de reconhecer os fatos, por mais amargos que sejam, e de assumir a responsabilidade por escolhas temerárias cujo alto preço os libaneses continuam pagando até hoje.” Com isso, as acusações de Naim Qassem ficam plenamente respondidas. Ele exortou as autoridades libanesas a “proteger a soberania nacional, fortalecer o Exército libanês, garantir a retirada do inimigo israelense, reconstruir o país e esclarecer a verdade sobre o porto”. Também afirmou que “as negociações diretas não trouxeram ao Líbano nada além de vergonha, humilhação, decepções e concessões sucessivas”. Chegou até mesmo a afirmar que “todas as agressões contra o Líbano ocorreram sob supervisão, direção e aprovação dos Estados Unidos”, ao mesmo tempo em que conclamou as autoridades libanesas a “pôr fim às concessões gratuitas, dialogar com a Resistência, restabelecer a estabilidade interna e defender a soberania”. Também não deixou de elogiar o Irã, afirmando que o país “trabalhou para que o Líbano ocupasse o primeiro lugar no memorando de entendimento com os Estados Unidos e exigiu o fim da agressão e a retirada israelense”. O secretário-geral do Hezbollah concluiu afirmando que “é o processo decorrente do memorando de entendimento que permitirá a retirada israelense e que, sem a firmeza da Resistência, nada teria sido alcançado”. Acrescentou: “Estamos comprometidos com a unidade nacional. A grande unidade entre o Hezbollah e o Amal constituiu uma barreira intransponível contra a agressão israelo-americana e contra os pequenos atores. Juntos, como povo, Resistência, futuro e vida, seguiremos nosso caminho.” O mínimo que se pode dizer desse discurso, que desafia toda lógica, é que Naim Qassem parece convencido de que os libaneses não têm memória. Nem mesmo da memória do assassinato de Rafic Hariri, de seus companheiros, de tantos dos homens mais honrados do país e, por fim, de Lokman Slim. Também parece acreditar que os libaneses ignoram quem abriu a frente sul sem o menor respeito pela soberania nacional, mesmo em seu sentido mais elementar. Está claro que o secretário-geral do Hezbollah considera os libaneses um rebanho incapaz de submeter suas posições ao menor exame crítico. Pretende que o Estado libanês assuma as consequências dos crimes cometidos por seu partido contra o país, incluindo o retorno da ocupação israelense. As declarações de Naim Qassem só podem ser explicadas por seu desprezo pela inteligência dos libaneses e pelo controle absoluto que o Irã exerce sobre o Hezbollah. A pergunta continua a mesma: como o Líbano pode sair dessa crise? Deve esperar por uma grande mudança no Irã? A resposta é simples. O Líbano é capaz de fazê-lo, desde que compreenda que a verdadeira humilhação consiste em invocar a ocupação para justificar a existência de armas ilegais em seu território. Consiste também em se recusar a reconhecer que nenhuma ocupação pode terminar sem negociações diretas com quem ocupa a terra. Há um preço que inevitavelmente terá de ser pago. Aqueles que se recusam a assumi-lo buscam apenas continuar explorando o sul do Líbano e sua população indefinidamente, enquanto aguardam o Dia do Juízo na República Islâmica. Em outras palavras, esperam o dia em que o Irã volte a ser simplesmente um Estado normal. Um Estado que já não precise recorrer à arrogância para justificar sua derrota.

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (14)

Esta série de artigos tem como objetivo compreender melhor a situação atual no cenário libanês, à luz do passado, longe de discursos apaixonados, ideológicos ou românticos que ignoram as realidades, deixando ao leitor tirar as conclusões pertinentes. As treze partes anteriores consistiram numa releitura dos acontecimentos relacionados com a ascensão do Hezbollah desde o Acordo de Taif até à aplicação incompleta da resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, em 2006. Desde o fim da guerra dos 33 dias de 2006 com Israel, o Hezbollah empenhou-se em se reconstituir em termos de armamento, reorganização e reposicionamento. Em suma, sofreu um duro golpe durante essa guerra, mas surpreendeu Israel com as suas capacidades militares e, nos dois anos seguintes, tornou-se uma verdadeira força armada de dimensão regional, graças a quatro fatores: a experiência adquirida no terreno; o apoio iraniano; a ponte terrestre síria (sob o regime de Assad) Teerão–Beirute; e o compromisso entre o seu secretário-geral Hassan Nasrallah e o então presidente libanês Emile Lahoud. Assim, os corredores ou rotas de abastecimento logístico provenientes da Síria foram reativados, provocando um salto quantitativo e qualitativo no arsenal da milícia pró-iraniana. Algumas estimativas falam de um aumento de dez vezes no seu potencial em foguetes, que passou de cerca de 15 000 em 2006 para mais de 150 000 projéteis em 2018, incluindo não apenas foguetes propriamente ditos, mas também novos mísseis de maior alcance que antes não possuía, entre os quais os mísseis de precisão, nomeadamente os Fateh-110 fabricados localmente a partir da conversão dos antigos modelos Zelzal, com a adição de sistemas de guiamento em voo e a transformação das suas aletas fixas em aletas móveis, além da aquisição de mísseis anti-navio precisos e de longo alcance, como os Silkworm chineses e as suas cópias iranianas, e até os Yakhont russos, com alcance de 300 km. A este arsenal vieram somar-se drones suicidas, drones lançadores de mísseis, drones de reconhecimento, etc., bem como mísseis antiaéreos portáteis do tipo MANPAD. Em termos de reposicionamento, a milícia xiita deslocou a sua infraestrutura militar para o interior do tecido urbano e das localidades. As cidades e aldeias xiitas do sul e os subúrbios a sul de Beirute tornaram-se verdadeiras fortalezas militaro-urbanas complexas e cuidadosamente camufladas, onde civis e combatentes se entrelaçam num tecido difícil de desmantelar, tornando impossível traçar uma linha de separação entre combatentes e não combatentes. O Hezbollah multiplicou ainda o recurso a organizações civis de fachada para assegurar patrulhas civis de vigilância, sendo a mais conhecida a «Verde sem Fronteiras», registada como ONG dedicada à proteção do ambiente e ao reflorestamento. Os postos avançados e viveiros desta ONG, situados ao longo da linha azul, serviram durante muito tempo para encobrir infraestruturas militares, depósitos de munições e túneis de combate do Hezbollah. Além disso, sob pretexto de proteger propriedades privadas ou zonas de reflorestamento, os seus membros bloquearam regularmente o acesso dos inspetores da FINUL durante as duas décadas que se seguiram à guerra de 2006. Por fim, os milicianos do Hezbollah asseguraram uma presença sem uniformes nas entradas das posições camufladas e dos túneis subterrâneos. As restrições enfrentadas pela FINUL A FINUL, na sua nova versão reforçada pela resolução 1701, não oferecia, desde o início, qualquer solução para o desarmamento do Hezbollah. Com efeito, não é uma força de combate, dado que opera ao abrigo do Capítulo 6 e não do Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas. Os seus contribuintes europeus, nomeadamente a França, a Itália, a Espanha e a Alemanha, recusavam que os seus Capacetes Azuis substituíssem o Estado na condução de um desarmamento coercivo. Além disso, o mandato da ONU não permitia operações de busca sistemática. Esta situação levou a FINUL a coabitar com o Hezbollah, não sem contactos indiretos entre as duas partes por intermédio dos serviços de inteligência libaneses, e através dos presidentes de câmara e das ONG afiliadas ao Hezbollah, sobretudo após o início da guerra na Síria e com a proliferação de combatentes islamistas dos dois lados da fronteira líbano-síria. Neste contexto, a FINUL sofreu, durante o ano de 2011, pelo menos três atentados que causaram 16 feridos entre os contingentes italiano e francês, cujos autores eram milicianos ligados à Al Qaeda, nomeadamente às brigadas palestinianas Abdallah Azzam, provenientes dos campos palestinianos do Líbano do Sul. As consequências políticas da guerra de 2006 Do ponto de vista político, a pressão exercida pelo Hezbollah, pelo movimento Amal e pelo seu aliado do Movimento Patriótico Livre de Michel Aoun, apenas três meses após a guerra dos 33 dias, assumiu a forma de um bloqueio institucional destinado a enfraquecer duravelmente o executivo. Já em novembro de 2006, cinco ministros xiitas pertencentes ao Hezbollah e ao Amal, bem como o ministro cristão Yaacoub Sarraf, próximo do presidente Emile Lahoud, demitiram-se, denunciando a ausência de um «terço de bloqueio»(1) a seu favor no Conselho de Ministros, e proclamando o governo ilegítimo. Isso enfraqueceu a legitimidade do primeiro-ministro Fouad Siniora e obrigou-o a governar numa posição de fragilidade. A partir de dezembro de 2006, a instalação de uma manifestação de protesto massiva no centro de Beirute, cercando o Grande Serralho, e a decisão de Nabih Berri de não convocar o Parlamento paralisaram a atividade legislativa e impediram a eleição presidencial, que deveria realizar-se em setembro-outubro de 2007, acentuando assim a asfixia política. Paralelamente, a incapacidade do governo de neutralizar a rede de telecomunicações privada do Hezbollah, considerada ilegal, transformou uma tentativa de reafirmação da soberania num casus belli. A decisão governamental de deslegitimar essa rede, a 5 de maio de 2008, provocou uma reação miliciana do Hezbollah, a 7 de maio de 2008. O golpe de força de 7 de maio Nos dias 7 e 8 de maio de 2008, o Hezbollah tomou o controlo de amplos setores de Beirute Ocidental, atacou os escritórios do Movimento do Futuro e sitiou novamente o primeiro-ministro Fouad Siniora pela força das armas no serralho governamental, demonstrando que qualquer tentativa de enfraquecer militarmente a milícia pró-iraniana resultaria no colapso da ordem pública. Confrontado com o espectro de uma guerra generalizada e com o colapso do Estado, Siniora, de acordo com os mesmos ministros que haviam exigido o desmantelamento da rede clandestina do Hezbollah, cancelou os decretos que visavam essa rede e aceitou, sob o efeito da mediação do Qatar, o Acordo de Doha de 21 de maio de 2008. O Acordo de Doha Na sequência do golpe de força de 7 de maio de 2008, o Qatar, tendo assumido uma vocação de mediador nos diferendos árabes e do Médio Oriente, e afirmando o seu poder suave (Soft Power), convocou os líderes libaneses para Doha. Os esforços do seu emir deveriam culminar no Acordo que impôs a formação de um governo de união nacional, concedendo ao Hezbollah o «terço de bloqueio»(1), ou direito de veto no Conselho de Ministros. O mesmo Acordo proibiu o uso de armas para resolver diferendos internos, uma cláusula que havia sido reiterada em todos os acordos líbano-libaneses desde 1975 e que se tornara «folclórica». No entanto, o estatuto das armas do partido pró-iraniano foi sacralizado sob o pretexto de «fazer face a Israel». Dessa forma, a questão tornava-se tabu. No fim das contas, esse «compromisso» não havia sido uma simples escolha tática, mas sim a consequência de um emaranhado de imperativos militares e políticos, entre os quais a necessidade de desbloquear a crise constitucional, a estabilidade securitária e a preservação (aparente) de uma unidade nacional que, na realidade, era inexistente de facto. Assim, o primeiro governo soberanista após o fim da ocupação síria foi forçado a submeter-se às realidades, aos factos consumados no terreno. E como consequência, o Hezbollah continuou a agitar o argumento da «resistência» com um único e exclusivo objetivo: intimidar os seus adversários para manter, ao menor custo possível, o seu controlo sobre as decisões políticas no Líbano. (1) O «terço de bloqueio» (ou terço de garantia) no seio do governo libanês decorre de uma interpretação controversa da Constituição libanesa emendada em 1990 pelos Acordos de Taif. A expressão «terço de bloqueio» não figura textualmente no documento, mas assenta em dois pilares constitucionais fundamentais. Por um lado, o artigo 65.º estipula que as decisões relativas a 14 matérias «fundamentais», como a lei eleitoral ou a revisão da Constituição, exigem obrigatoriamente uma maioria de dois terços dos membros do governo, o que confere um direito de veto automático a qualquer coligação formada por um terço dos ministros mais um. Por outro lado, o artigo 69.º prevê a demissão automática de todo o executivo caso mais de um terço dos seus membros apresente a demissão. Este dispositivo institucional, concebido originalmente para garantir o pacto de coexistência comunitária, foi politicamente consagrado pelo Acordo de Doha em maio de 2008, transformando essa quota matemática numa condição sine qua non para a formação dos governos, conferindo assim um direito de veto ao Hezbollah em todos os governos que se sucederam desde 2008 até 2025.

Negociações com Israel; acusação em breve sobre o 4 de Agosto: o regresso do Estado

A sétima rodada das conversações diretas líbano-israelenses teve início na terça-feira em Roma, na sede da embaixada dos Estados Unidos. As discussões, descritas como árduas, estão previstas para durar três dias, durante os quais as delegações libanesa e israelense devem chegar a um acordo sobre os próximos passos do mecanismo destinado a uma retirada progressiva das forças de Tel Aviv e ao desdobramento do exército. Trata-se de um tema em que Beirute insiste particularmente, enquanto a prioridade do Estado hebreu permanece sendo o mecanismo previsto pelo Líbano para o desarmamento do Hezbollah. Este grupo pró-iraniano voltou a se manifestar na terça-feira, atacando as autoridades libanesas e visando em especial o presidente da República, Joseph Aoun. Após um silêncio de quase um mês, o líder do Hezb, Naïm Qassem, permitiu-se acusar o presidente de 'parcialidade' e de estar a serviço de Israel. Ele criticou sua política, que, segundo ele, 'consiste em fazer concessões gratuitas a Israel e em servir aos interesses desse Estado, e não do Líbano'. Este discurso merecia facilmente o título: 'As negociações líbano-israelenses vistas por Teerã', à qual Naïm Qassem, aliás, prestou homenagem. Para ele, a salvação do Líbano só pode passar pelo memorando de entendimento irano-americano, o que concretamente significa que, aos olhos do Hezb, o Líbano deve permanecer sob o domínio do regime dos aiatolás. Uma perspectiva que está completamente fora de questão para as autoridades libanesas, empenhadas, pelo contrário, em um processo que deve libertar o Líbano de toda tutela e devolver ao Estado sua dignidade e autoridade. O chefe do governo, Nawaf Salam, ecoou essa posição constante do Líbano ao responder com firmeza ao porta-voz do Irã no Líbano, colocando-o em seu devido lugar. Em uma mensagem em sua conta no X, ele destacou que 'um grupo que usurpou a decisão de guerra e paz e o papel do Estado em benefício de um eixo estrangeiro — ao qual pertence — é o último a ter o direito de dar lições de patriotismo'. Para o presidente do Conselho, se alguém prestou um serviço a Israel, foi justamente o Hezbollah. O Sr. Salam lembrou, a esse respeito, as guerras 'absurdas' nas quais esse grupo arrastou o país 'unilateralmente', em desrespeito ao interesse nacional, dando assim a Israel 'um pretexto para atacar o Líbano, destruir suas aldeias, matar e deslocar a população e violar sua soberania'. Uma nova página com a Síria O discurso de Naïm Qassem se destacou, no entanto, pelo anúncio de uma vontade do Hezbollah de abrir uma nova página com o regime de Ahmad el-Chareh na Síria — regime que seu grupo havia combatido ao lado das forças de Bashar al-Assad durante a guerra de 2011. Essa vontade de abertura tática só pode ser explicada pelo enfraquecimento e isolamento de um Hezbollah que parece disposto a tudo para sobreviver. Pois, por má sorte, os fatos de terreno mostraram na terça-feira que a formação pró-iraniana espera manter seu corredor de abastecimento com o Irã via Síria. Enquanto Naïm Qassem enaltecia uma nova página entre sua formação e Damasco, o exército libanês anunciava a apreensão, na região fronteiriça de Ersal, no Vale do Bekaa, de foguetes do tipo Grad destinados ao Hezb, que eram contrabandeados a partir da Síria. Esta é a enésima apreensão de armas sendo transportadas para a formação pró-iraniana, paralelamente à descoberta de túneis e passagens fronteiriças ilegais, todos com o mesmo objetivo: o tráfico de armas e drogas. A comemoração do 4 de Agosto Outro revés para o Hezbollah: esta apreensão coincide com o sexto aniversário da explosão apocalíptica do porto de Beirute, em 4 de agosto de 2020, onde centenas de toneladas de nitrato de amônio estavam armazenadas. Ao anunciar, em 28 de julho de 2026, a descoberta de cerca de 4.000 toneladas dessa mesma substância explosiva, próximo à aldeia de Houla, no sul do Líbano, a Finul reforçou as suspeitas, alimentadas há anos, de ligações entre o Hezbollah e o caso altamente suspeito do armazenamento de 2.700 toneladas de nitrato de amônio no porto de Beirute (controlado na época pelo Hezbollah), das quais apenas algumas centenas explodiram em 4 de agosto de 2020. A acusação formal que o juiz de instrução do Tribunal de Justiça, Tarek Bitar, deve publicar até dezembro, segundo o presidente da Ordem dos Advogados Imad Martinos, deverá lançar luz sobre este caso que muitos responsáveis, durante o mandato do ex-presidente Michel Aoun, tentaram abafar por todos os meios. Seu sucessor, Joseph Aoun, pelo contrário, pressionou o magistrado a tornar público, o quanto antes, o ato de acusação que foi submetido ao procurador-geral junto ao Tribunal de Cassação, Mohammed Saab. Este último deve emitir seu parecer, após examinar o documento, analisar as acusações e dar sua opinião por escrito sobre os próximos passos do processo, antes de devolvê-lo a Tarek Bitar. Desde a ascensão de Joseph Aoun à chefia do Estado e a nomeação de Nawaf Salam para liderar o governo, o caso da explosão de 4 de agosto segue um curso judicial normal. Será que isso marcará o fim da impunidade no Líbano? Muitos assim esperam. De qualquer forma, o comportamento das autoridades reflete seriedade no acompanhamento do caso. Um luto nacional foi decretado no país, com as bandeiras a meio mastro, inclusive no palácio presidencial, enquanto ministros participavam das cerimônias organizadas em memória das vítimas. Na concentração realizada ao final da tarde, próximo ao porto, na hora em que a explosão ocorreu, os familiares das vítimas anunciaram que continuarão sua mobilização até que toda a verdade seja apurada e os responsáveis sejam punidos. Um acordo sobre Ormuz? No plano regional, uma sensação de déjà-vu marcou a segunda-feira, com o anúncio de um acordo iminente sobre o estreito de Ormuz, enquanto todos os acordos anteriores firmados entre os Estados Unidos e o Irã não foram cumpridos pelo regime iraniano. Foi nesse contexto que os dois mediadores — o Qatar e o Paquistão — mencionaram "esforços em curso" para que Washington e Teerã retomassem o diálogo, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos anunciavam um próximo acordo para reabrir o estreito de Ormuz, no centro da retomada das hostilidades nas últimas semanas. Esse acordo poderia ocorrer "na terça ou na quarta-feira", segundo o Secretário do Tesouro, Scott Bessent. O Secretário de Estado, Marco Rubio, deveria confirmá-lo pouco depois. Segundo o Qatar, esses esforços estão sendo conduzidos sem conversações diretas previstas entre as duas partes. De qualquer forma, a tensão persiste na região, onde os houthis iemenitas atacaram o aeroporto de Najran, na Arábia Saudita. Na madrugada de segunda para terça-feira, um cargueiro que tentava atravessar o estreito de Ormuz foi atingido por um projétil que provocou um incêndio. Um membro da tripulação está desaparecido, segundo a empresa britânica de segurança Vanguard.

O Plano da Decisão
Por
Hisham Dibsi
Publicado

Benjamin Netanyahu aproveitou sua participação no funeral do senador norte-americano Lindsey Graham para voltar mais uma vez à Casa Branca, depois que seus aliados conseguiram convencer o presidente Donald Trump a recebê-lo. Desta vez, porém, a visita ocorreu pela porta dos fundos da política, sem lhe oferecer a oportunidade de explorá-la midiaticamente como esperava. A entrevista televisiva concedida em seguida refletiu a dimensão do impasse que enfrenta. Seu rosto foi incapaz de transmitir a expressão de um vencedor. Em vez disso, revelava obstinação e um sorriso constrangido. Trump, fiel ao seu temperamento direto e pouco dado a concessões, parece pouco disposto a se associar a um parceiro que lhe traz mais problemas do que benefícios. Mesmo assim, Netanyahu não demonstra qualquer disposição para admitir um fracasso, nem sequer para reconhecer que essa possibilidade exista. Para ele, a questão vai muito além da política e diz respeito diretamente ao seu futuro pessoal e eleitoral. Uma derrota poderá significar o fim de sua carreira política, abrir caminho para processos judiciais e destruir sua ambição de se consagrar como o líder incontestável do Estado de Israel. Enquanto isso, os partidos de oposição transformaram a criação de uma comissão oficial e independente de investigação sobre os acontecimentos de 7 de outubro em uma de suas principais bandeiras eleitorais. Seu objetivo é responsabilizar aqueles que falharam ao permitir o êxito do ataque do Hamas e as perdas humanas sem precedentes que se seguiram, mesmo quando comparadas às de muitas guerras convencionais. O ataque também provocou um profundo trauma coletivo na sociedade israelense, cujos efeitos psicológicos, políticos e de segurança continuam presentes até hoje. A disputa eleitoral, porém, não se limita ao 7 de outubro. Os partidos religiosos aliados de Netanyahu continuam exigindo a isenção do serviço militar para os estudantes haredim das escolas religiosas, além da separação entre homens e mulheres em determinados espaços públicos. Também ameaçam abandonar a coalizão governista caso suas reivindicações não sejam atendidas. Tudo isso acontece num momento em que as Forças Armadas israelenses enfrentam uma crescente crise de efetivos. O interesse pelo serviço militar diminui de forma contínua, tanto entre os cidadãos israelenses quanto entre voluntários estrangeiros, já que os riscos associados ao serviço passaram a superar os benefícios materiais ou simbólicos que ele pode oferecer. Ao mesmo tempo, a crise econômica se aprofunda em razão do custo cada vez mais elevado da guerra, das despesas extraordinárias com segurança impostas por um estado permanente de alerta e da continuidade das operações militares em múltiplas frentes, uma realidade à qual a sociedade israelense não estava habituada nas últimas décadas. É nesse contexto político, de segurança e econômico que se deve compreender o que vem ocorrendo na Cisjordânia, não apenas ao longo desta semana, mas desde o início deste ano. Os acontecimentos ali não parecem constituir apenas uma sucessão de medidas isoladas de segurança. Eles fazem parte de uma tentativa mais ampla de redesenhar o cenário interno e regional em função dos interesses políticos e eleitorais de Benjamin Netanyahu. Uma apropriação abrangente Criadores de gado dos assentamentos israelenses na Cisjordânia passaram a afirmar que os limites de sua área de influência se estendem até onde seus rebanhos conseguem pastar. Graças ao armamento individual de que dispõem e à proteção oferecida pelo Exército israelense, conseguiram estabelecer dezenas de postos avançados de pastoreio nos arredores de Jerusalém Oriental e no Vale do Jordão. Essa estratégia privou as comunidades palestinas beduínas e pastoris da maior parte de suas terras e de seus direitos históricos como populações originárias da região. Segundo relatórios publicados neste ano pelas Nações Unidas, essa política sistemática também provocou a demolição de moradias e o deslocamento forçado de mais de 30 mil integrantes de comunidades beduínas. Paralelamente, o rebanho da Cisjordânia caiu ao seu nível mais baixo. Além disso, extensas áreas da Área C, definida pelos Acordos de Oslo, passaram a ser submetidas a um controle israelense cada vez maior, apesar de constituírem a continuidade territorial indispensável à viabilidade de um futuro Estado palestino. Ao mesmo tempo, Israel ampliou seu controle sobre os recursos hídricos de superfície, depois de já ter consolidado, há anos, o domínio sobre o principal aquífero subterrâneo da Cisjordânia, a maior reserva de águas subterrâneas da Palestina histórica. Ao longo deste ano, meios de comunicação e organizações de direitos humanos documentaram repetidos ataques contra agricultores palestinos, sobretudo durante a colheita das azeitonas, com o objetivo de impedi-los de acessar suas terras e oliveiras. O Ministério da Agricultura palestino registrou o arranquio de 2.559 árvores, além da devastação de extensas áreas agrícolas. As perdas diretas, decorrentes da destruição de poços, redes de irrigação e da apreensão de tratores e outros equipamentos agrícolas, ultrapassam US$ 100 milhões. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 72 mil famílias agricultoras necessitam atualmente de ajuda emergencial, uma situação sem precedentes para essas comunidades. As medidas não se limitaram às zonas rurais. Também alcançaram cidades e campos de refugiados. Durante o primeiro semestre do ano, cerca de 3.600 palestinos foram presos, entre eles 276 crianças e 107 mulheres. O número total de prisioneiros palestinos é atualmente estimado em aproximadamente 10 mil. Paralelamente, o Exército israelense continua isolando cidades por meio de portões metálicos e postos de controle, ao mesmo tempo em que conduz operações de grande escala contra diversos campos de refugiados. Essas operações destruíram partes significativas desses campos, deslocaram dezenas de milhares de moradores e transformaram parte dessas áreas em posições militares israelenses. Todas essas políticas vêm sendo implementadas abertamente, diante da mídia. Diversos ministros do governo de Benjamin Netanyahu têm celebrado publicamente os avanços obtidos na execução do chamado «Plano da Decisão», defendido pelos partidos do Sionismo Religioso. O projeto busca estender a soberania israelense a todos os territórios palestinos ocupados em 1967, rebatizando-os como «Judeia e Samaria», além de enfraquecer a Autoridade Nacional Palestina como estrutura política e institucional sobre a qual se apoia a solução de dois Estados. Nesse contexto, o que acontece na Cisjordânia aparece como um dos elementos centrais da disputa política e eleitoral travada pelo governo Netanyahu às vésperas das eleições previstas para antes do fim do ano. O novo ainda não nasceu A declaração do presidente Trump pedindo que o Hamas entregasse suas armas pouco constrangeu a liderança do movimento, pois não trouxe nada de substancialmente novo em relação ao que o Hamas já havia aceitado em sua iniciativa de vinte pontos. Os entendimentos alcançados posteriormente não trataram das armas individuais por meio das quais o movimento continua exercendo sua autoridade na Faixa de Gaza durante o período de transição. A mais recente rodada de negociações realizada no Cairo produziu avanços limitados. Ela permitiu a entrada da comissão administrativa palestina e dos primeiros contingentes da força internacional nas áreas de Rafah e Khan Younis, ambas sob controle total do Exército israelense. Esses avanços ocorreram antes e durante a visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a Washington, permitindo que cada lado os apresentasse da forma mais conveniente aos seus próprios interesses políticos. No terreno, entretanto, a realidade permanece praticamente inalterada. A ajuda humanitária continua entrando apenas na medida autorizada pelo comando do Exército israelense, sem produzir qualquer melhora significativa na catástrofe humanitária vivida pela população de Gaza. Ao mesmo tempo, os mediadores seguem empenhados em preservar a iniciativa de Trump e impedir seu colapso, pois seu fracasso deixaria Israel com liberdade para agir em Gaza sem qualquer horizonte político que acompanhasse as operações militares. Em Jerusalém Oriental, a escalada continua em ritmo acelerado. As incursões de grupos do Sionismo Religioso no complexo da Mesquita de Al Aqsa tornam-se cada vez mais frequentes, enquanto a maioria dos palestinos da Cisjordânia continua impedida de acessar o local, além das restrições etárias impostas aos fiéis. Paralelamente, Israel prossegue com sua intervenção gradual na administração e na estrutura institucional da Mesquita de Al Aqsa, apesar da histórica custódia hachemita sobre o local sagrado. Essas medidas respondem a dois objetivos claramente definidos: impor uma divisão temporal e espacial da Mesquita de Al Aqsa, nos moldes do que foi implementado na Mesquita de Ibrahimi, em Hebron, e consolidar a narrativa israelense de uma «Jerusalém unificada» como capital exclusiva do Estado de Israel. Diante desses acontecimentos em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, e em meio a um bloqueio político, econômico e de segurança de caráter abrangente, a Autoridade Nacional Palestina vem ampliando seus canais de comunicação com a Casa Branca. Seu objetivo é impedir a concretização do projeto israelense destinado a pôr fim à entidade política palestina e evitar o colapso dos Acordos de Oslo, que continuam sendo a principal referência jurídica da comunidade internacional para o processo de paz. Nesse contexto, as eleições locais realizadas no início deste ano, com participação superior à metade do eleitorado registrado, adquiriram um significado político que ultrapassa amplamente sua dimensão administrativa. Da mesma forma, o anúncio do calendário para as eleições legislativas e presidenciais, bem como a continuidade das atividades de sindicatos, federações e instituições nacionais, entre elas o recente congresso da União Geral dos Estudantes Palestinos, realizado em Beirute, refletem um esforço para revitalizar a vida política palestina e preservar a legitimidade de suas instituições. Esses esforços convergem com o apoio árabe e internacional em torno de um objetivo comum: garantir que os palestinos permaneçam em sua terra, impedir o deslocamento forçado e preservar a coesão da sociedade palestina diante das políticas de desgaste e fragmentação. Até agora, a sociedade palestina, especialmente na Cisjordânia, demonstrou notável capacidade de resistir às tentativas de arrastá-la para um confronto generalizado que favoreceria a agenda israelense, optando pela paciência, pela contenção e pelo fortalecimento da solidariedade social. Isso, contudo, não significa que a situação tenha se estabilizado nem que o equilíbrio de forças esteja definido. Toda a região atravessa uma fase de transição, na qual a antiga ordem continua se desgastando, enquanto os contornos da nova ordem política ainda não se consolidaram. Os palestinos de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém sabem, portanto, que o que acontece hoje não representa o fim do conflito, mas apenas mais um de seus capítulos. O novo ainda não nasceu.