
Riade, Ancara e Islamabad firmam um pacto de defesa mútua em Meca


Desde o início da guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, as monarquias petrolíferas do Golfo estão a pagar um preço elevado: sem conseguir atingir Telavive ou Washington, a República Islâmica não hesitou em atacar os seus vizinhos árabes, sob o pretexto de que acolhem bases americanas, entretanto em grande parte evacuadas. O resultado: a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Barém, o Qatar — considerado aliado do Irão —, bem como Omã e a Jordânia tornaram-se alvos.
Recentemente, Teerão ativou os seus proxies no Iraque e no Iémen — as milícias xiitas iraquianas e os Houthis iemenitas —, que atacaram infraestruturas petrolíferas sauditas.
Além disso, outras ameaças pesam sobre as economias dos países árabes, com o bloqueio do estreito de Ormuz, única saída marítima do Golfo Pérsico, e do estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada do mar Vermelho.
Esta guerra larvada não deixa de recordar, mais uma vez, a tibieza do grande aliado americano para com os seus 'protegidos' árabes... O anúncio feito por estes três aliados de Washington envia assim uma mensagem a Teerão, mas também aos Estados Unidos, cada vez mais vistos como um parceiro pouco fiável, segundo especialistas.
O modelo da NATO
Partindo deste contexto, é fácil compreender os motivos que levaram a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia a concluir, numa sexta-feira em Meca, um pacto de defesa vinculando os três países.
"O acordo visa reforçar a dissuasão coletiva contra qualquer ato de agressão e estipula que qualquer ataque armado contra um dos três Estados será considerado um ataque contra todos eles", precisou o Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, com a Turquia a ver nisto uma "contribuição importante para a preservação da paz" na região.
Os três países muçulmanos sunitas têm em comum a participação nos esforços para resolver o conflito entre o Irão e os Estados Unidos, que incendiou a região e abalou a economia mundial.
Uma potência nuclear e o segundo maior exército da NATO
A Arábia Saudita e o Paquistão estão, por sua vez, já ligados por um acordo de defesa mútua concluído em setembro de 2025, fruto de uma longa tradição de cooperação militar.
O seu anúncio suscitou muitas interrogações, uma vez que Islamabad possui a bomba atómica.
Na sexta-feira, Riade negou qualquer ligação com "ambições nucleares" e garantiu, tal como Ancara, que este pacto não visa nenhum país da região.
Por outro lado, a Turquia afirmou que o acordo com Islamabad e Riade não está "em contradição" com os compromissos de Ancara para com a NATO.
Ancara reiterou ainda que este entendimento tripartido, assinado um pouco antes em Meca, "não visa nenhum país terceiro nem nenhum bloco" e tem apenas como objetivo "reforçar a cooperação na indústria de defesa, nos exercícios militares, na partilha de tecnologias e na estabilidade regional".
A Turquia possui o segundo maior exército da Organização do Tratado do Atlântico Norte em número de efetivos, cobrindo o seu flanco oriental, e acolheu no início de julho a cúpula dos seus líderes, à qual participou nomeadamente o presidente americano Donald Trump.
Polo de segurança versus investimentos
Segundo um analista citado pela AFP, este anúncio reforça as ambições sauditas de se tornar o garante da segurança regional e de diversificar as suas parcerias em matéria de defesa — uma segurança seriamente ameaçada nos últimos tempos pela rivalidade com os Emirados Árabes Unidos, rivalidade que correu o risco de se transformar em conflito aberto no Iémen, muito antes da guerra no Irão.
Para a Turquia, membro da NATO, e para o Paquistão, trata-se de ganhar influência e atrair investimentos sauditas.
Esta aproximação "é claramente direcionada contra o Irão", salienta à AFP Oumar Karim, especialista em Arábia Saudita na Universidade de Birmingham.
O desafio dos estreitos
Para ele, a aliança «visa responder à nova abordagem estratégica» de Teerã, «que pretende dominar toda a região do Golfo e controlar o tráfego marítimo nas vias navegáveis estratégicas, seja no estreito de Ormuz ou no estreito de Bab el-Mandeb».
Para a Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo bruto do mundo, a abertura dessas passagens marítimas é essencial.
O mar Vermelho e o estreito de Bab el-Mandeb tinham se tornado rotas alternativas, já que o Irã voltou a bloquear o estreito de Ormuz desde a retomada dos confrontos com os Estados Unidos em julho.
Mas os houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, impuseram recentemente um bloqueio aos navios sauditas e também ameaçam a navegação em Bab el-Mandeb, do outro lado da península Arábica.
Além da frente marítima, a Arábia Saudita foi alvo de ataques dos houthis em seu próprio território, que nas últimas semanas visaram infraestruturas petrolíferas.
A coalizão liderada por Riad, aliada do governo do Iêmen desde 2015, também acusou na sexta-feira os rebeldes de terem realizado bombardeios na região fronteiriça de Najran, deixando 11 civis feridos — um ataque sem precedentes no reino desde a trégua firmada entre os dois lados em 2022.