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Publicado
abr 26, 2026 - 20:22
Nota da redação: O seguinte estudo não deve ser lido de uma só vez, mas em segmentos — e seria provavelmente preferível imprimi-lo em vez de o ler num suporte digital, especialmente no telemóvel. O autor apresenta antecipadamente as suas desculpas ao leitor, mas a abordagem académica seguida não permitiria uma divisão em vários artigos ou um resumo que enfraqueceria o seu teor e as suas nuances. Mea maxima culpa, portanto. Em inícios de abril de 2026, Israel fez circular um “novo” mapa do Sul do Líbano, no qual se destaca uma zona de aproximadamente dez quilómetros a norte da fronteira no interior do território libanês, colorida a amarelo, representativa do espaço geográfico que o seu exército ocupa desde o início da sua ofensiva militar em março. Esta linha de demarcação, que por defeito tomou o nome de “linha amarela”, é apresentada pelos responsáveis israelitas como uma realidade de terreno sob controlo de Tsahal, acompanhada da proibição imposta aos habitantes de cinquenta e cinco localidades libanesas de aí regressarem. O modelo, pelo próprio reconhecimento dos oficiais militares israelitas, é o já aplicado em Gaza. A experiência confirma-o: Israel não improvisa tacticamente. Simbolicamente, o mapa não deixa de cristalizar a ressurgência de um imaginário territorial que atravessa a história do sionismo desde as suas origens, e que a conjuntura de 2024–2026 — com o colapso do Hezbollah enquanto força militar de primeiro plano, a dissolução do império iraniano e esta simbiose paroxística entre Donald Trump e Tel Aviv — reactiva com uma audácia inédita desde 1967. Já na véspera da trégua de novembro de 2024, Israel estava prestes a consolidar uma linha-tampon horizontal de Naqoura a Kfarshuba, com cerca de cem quilómetros de largura e entre sete e dez quilómetros de profundidade, perfazendo aproximadamente 452 quilómetros quadrados de território libanês sob controlo efectivo israelita. Para além deste primeiro cordão, os planificadores militares israelitas desenvolviam um segundo perímetro defensivo entre o Litani e o Awali, designado internamente como “zona de caça e de perseguição”. O próprio Netanyahu declarava: “Cada posição terrorista — e são muitas — é simplesmente arrasada”, precisando que o exército israelita tinha “alargado a sua presença no Líbano para além das cinco posições estabelecidas em 2024” para constituir, nas suas próprias palavras, “uma zona de segurança sólida e mais profunda.” E é evidente, a crer nas declarações dos dirigentes israelitas, que não têm qualquer intenção de se retirarem dessa zona nos meses, nem sequer nos anos vindouros. A demolição sistemática de aldeias inteiras é prova irrefutável disso. É um vazio demográfico que Tel Aviv está a fabricar, e tal não surpreende minimamente. Israel domina esta práctica desde 1948… Para além de uma simples ocupação estratégica com fins securitários, a “linha amarela” não deixa de despertar o receio de uma anexação pura e simples no quadro de um velho projecto imperialista mais vasto. A geografia do desejo Para compreender este receio legítimo e a percepção que o acompanha da lógica israelita subjacente a estas operações, é necessário recuar à matriz ideológica do próprio projecto sionista. A ambição territorial israelita variou sem dúvida segundo as correntes e as épocas, mas esteve sempre presente e revela-se sem dúvida necessário, para os fins do presente estudo, tentar traçar a sua genealogia. Eretz Yisrael HaShlema — a “Terra de Israel na sua totalidade” — é com efeito uma expressão de significados bíblicos e políticos múltiplos e mutáveis. Ao sabor dos movimentos nacionalistas ou sionistas, as obsessões territoriais variaram ao longo dos períodos e das correntes — sionismo trabalhista, sionismo revisionista, sionismo religioso —, mas é possível identificar duas definições primárias: uma, mais estreita, que designa Israel juntamente com as Colinas do Golã, a Cisjordânia e Gaza; outra, maximalista, que designa a vasta região que se estende do Nilo ao Eufrates. Theodor Herzl, pai fundador do sionismo político, traçava ele próprio esta perspectiva numa conversa com Max Bodenheimer, anotando no seu diário que o Estado judeu deveria estender-se “do ribeiro do Egipto até ao Eufrates.” Desde então, a formulação reaparece regularmente na literatura política israelita e nas declarações de responsáveis — incluindo, em 2024, a activista Daniella Weiss, que afirmava: “Sabemos, pela Bíblia, que as verdadeiras fronteiras do Grande Israel se estendem do Eufrates ao Nilo.” Mas é entre estes dois pólos — maximalismo bíblico por um lado, pragmatismo das etapas por outro — que se construiu a estratégia real do Estado hebraico. E nunca esta dialéctica foi formulada com tanta clareza como na célebre carta que David Ben Gurion escreveu ao seu filho Amos a 5 de outubro de 1937, na sequência da Comissão Peel. Apenas “o começo” Enviada na sequência do desencadeamento da Grande Revolta Árabe em 1936, a Comissão Real Britânica sobre a Palestina, encarregada de propor modificações ao Mandato Britânico sobre a Palestina, havia proposto em 1937 a abolição do Mandato e a partição da Palestina em dois Estados — um Estado Árabe a sul e um Estado Judeu a norte. Ben Gurion, para surpresa de muitos dos seus camaradas partidários do “Grande Israel”, aceitou-o. Porém, esta aceitação traduzia antes um pragmatismo táctico do que uma renúncia à ideologia sionista. Na sua carta ao filho, Ben Gurion escreve assim: “A minha hipótese — e é por isso que sou um ardente defensor de um Estado, ainda que esteja ligado à partição — é que um Estado judeu em apenas uma parte do país não é o fim, mas o começo. (…) Porque este aumento de posse importa não só em si mesmo, mas porque através dele aumentamos a nossa força, e cada aumento de força ajuda à posse do conjunto do país. A criação de um Estado, mesmo que apenas numa parcela do país, é o reforço máximo da nossa força neste momento e um formidável impulso aos nossos esforços históricos para libertar a totalidade do país.” Esta lógica fria que consiste em aceitar hoje o que se pode obter para preparar amanhã o que se deseja constitui a pedra de fecho da estratégia sionista desde as suas origens. Explica, por conseguinte, por que razão cada gesto — seja cessar-fogo, acordo, retirada parcial ou outro — foi sempre apresentado como provisório pelos defensores do Grande Israel. O tempo não é o estático da ofuscação, mas o de um relato contínuo, em elaboração constante. Em 1954, os diários de Moshe Sharett revelam que Ben Gurion descrevia o Líbano como o “elo fraco” da Liga Árabe, propondo a criação de uma entidade política separada e a anexação do Sul até ao Litani. Moshe Dayan, por seu lado, preconizava explorar as divisões internas libanesas para facilitar uma intervenção e um eventual controlo — tentativa que foi levada a cabo, com o relativo êxito que a história regista, recorrendo tanto a actores favoráveis ao projecto (a Frente Libanesa dos anos setenta e oitenta, depois Saad Haddad) como aos ostensivamente hostis (o Hezbollah…). Mas foi Assad quem dominaria a técnica à perfeição. Desde o início dos anos sessenta, Yitzhak Rabin identificava, por sua vez, o Litani como fronteira norte ideal. Quanto a Netanyahu, basta ouvir as declarações dos seus ministros — Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich, por exemplo — para compreender que no imaginário político israelita, pelo menos uma parte do Líbano pertence a Israel. A obsessão com o Litani Ao se compilar os escritos relativos à postura israelita face ao território libanês, torna-se claro que a questão do Litani é uma das obsessões mais antigas e constantes da geopolítica israelita, remontando à Conferência de Paz de Paris de 1919. Assim, Chaïm Weizmann e David Ben Gurion haviam apresentado, nessa Conferência, um mapa das fronteiras desejadas para o futuro Estado judeu que incluía o Litani. Mas o Tratado Sykes-Picot de 1915, pelo qual a Grã-Bretanha e a França haviam já fixado a fronteira entre o Líbano e a Palestina, pôs cobro aos seus planos. Por insistência de Paris, o Litani permaneceu, pois, libanês. A reivindicação israelita, porém, não desapareceu. Ben Gurion continuaria a afirmar: “É necessário que as fontes de água de que depende o futuro do país não se encontrem fora das fronteiras da futura pátria judaica. Por isso exigimos sempre que a Terra de Israel inclua as margens meridionais do Litani, as nascentes do Jordão e a região do Haruan.” Em 1978, Israel denominou a sua invasão do Sul do Líbano “Operação Litani”, sendo o objectivo declarado atingir o rio. E desde 2025, um movimento de colonos israelitas denominado Uri Tzafon desenvolve uma campanha aberta pela anexação do Sul do Líbano até ao Litani, afirmando que “o Sul do Líbano é simplesmente a Galileia setentrional.” A dimensão hidráulica do projecto não é anedótica. A água é um recurso estratégico numa região árida, e após a guerra de 1967, o ministro da Defesa Moshe Dayan declarava que Israel havia alcançado “fronteiras provisoriamente satisfatórias, com excepção da que faz fronteira com o Líbano.” Ou seja, o Litani — ao alcance da mão… mas sempre inacessível. Já não. Escusado será dizer que a descoberta de gás marítimo ao largo do Sul do Litani não acalmou os apetites israelitas. Bem pelo contrário… O plano Yinon e a doutrina da fragmentação A carta de Ben Gurion de 1954 constituía uma espécie de declaração de intenções e de plano estrutural progressivo por etapas. O célebre documento publicado em 1982 por Oded Yinon na revista hebraica Kivunim representa a sua tradução estratégica mais explícita e sistemática. Presunido ex-conselheiro de Ariel Sharon e ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Yinon publicou em fevereiro de 1982 um artigo intitulado “Uma estratégia para Israel nos anos oitenta”, no qual analisa as fraquezas dos Estados árabes e conclui que Israel deve trabalhar pela fragmentação do mundo árabe num mosaico de agrupamentos étnicos e confessionais. “Toda a forma de confrontação interárabe”, sustentava, seria a curto prazo vantajosa para Israel. O plano opera sobre duas premissas fundamentais: a sobrevivência de Israel exige que se torne uma potência regional imperial e que provoque a divisão da região em pequenos Estados mediante a dissolução de todos os Estados árabes existentes, sendo a dimensão dessas entidades função da composição étnica ou sectária de cada território. O Líbano ocupa um lugar particular neste plano: Yinon via precisamente os acontecimentos contemporâneos no Líbano como o presságio de desenvolvimentos futuros no conjunto do mundo árabe, cujas convulsões constituiriam um precedente para orientar as estratégias israelitas a curto e longo prazo. Parece, pelo menos, ter sido amplamente ouvido… O plano Yinon suscitou naturalmente múltiplas releituras desde 1982, estimando certos comentadores que descreveria de forma profética ou programática o que efectivamente sucedeu no Médio Oriente ao longo dos últimos quarenta anos — designadamente o estabelecimento de zonas-tampon no interior do Líbano, a anexação de territórios sírios para além das Colinas do Golã, o apoio ao regime alauita na Síria contra a maioria sunita, o reforço do regime iraniano no Próximo Oriente para desestabilizar os regimes árabes, a queda do travão constituído por Saddam Hussein no Iraque, o apoio a grupos drusos e curdos favoráveis a uma Síria fragmentada, os ataques ao Iraque e ao Iémen, e mesmo a emergência do Hamas para enfraquecer o Fatah… Todos estes acontecimentos teriam posto em prática, segundo vários analistas, uma nova versão de Sykes-Picot centrada no plano Yinon. O problema, evidentemente, seria cair numa lógica conspiratória que confundisse a capacidade do Estado hebraico de orientar os acontecimentos políticos no sentido que convém aos seus interesses com um grande esquema urdido meio século antes… algo semelhante ao famoso plano Kissinger para o Líbano, cuja função latente é a de exonerar os protagonistas dos seus próprios erros tácticos e estratégicos em nome da fatalidade inexórável… Demasiado fácil. Netanyahu e a sua confissão cartográfica Se existe uma característica própria de Benjamin Netanyahu, é a sua capacidade de passar sem qualquer complexo da ideologia à prática, não sem uma certa euforia da ostentação. O homem e os ministros atrás citados do seu governo estão longe de praticar a arte da subtileza retórica, da diplomacia ou mesmo da duplicidade. A sua paixão pelos mapas geográficos está documentada desde 1990, e é muito provável que, longe de ser acidental, seja cuidadosamente calculada — uma espécie de modo de governo simbólico, pela imagem. A 22 de setembro de 2023, duas semanas antes do ataque do Hamas, Netanyahu havia apresentado perante a Assembleia Geral das Nações Unidas um mapa intitulado “O Novo Médio Oriente”, que não incluía nem a Cisjordânia, nem Jerusalém Oriental, nem Gaza, incorporando de facto estes territórios no corpo de Israel. Mais cedo no mesmo discurso, havia também mostrado um mapa de Israel em 1948 que incluía os territórios palestinianos no novo Estado. Se houve indignação, foi de muito curta duração… e o ataque maquinado por Sinwar e os seus veio apagar o insulto monumental feito ao direito internacional perante a Assembleia Geral. E é surpreendente que, numa época em que certos países europeus fazem prova de um excesso de zelo na restrição das liberdades públicas com propostas de lei como a chamada “lei Yadan”, todo o mundo tenha ignorado a exibição de Bibi, que havia apagado a Palestina com um golpe de mapa, ligando assim “ol rio ao mar.” Semelhante exibição não foi certamente um acidente diplomático. Antes da sua partida para Washington em inícios de 2025, Netanyahu havia já, numa declaração, prometido “redesenhar” o mapa do Médio Oriente, em referência ao plano do seu governo de criar um “Grande Israel” englobando a totalidade dos territórios palestinianos e importantes parcelas dos Estados vizinhos. Neste governo, a facção mais explícita é representada por Smotrich e Ben Gvir. A 23 de março de 2026, Smotrich apresentou-se perante o seu bloco parlamentar na Knesset e invocou explicitamente o Litani como a linha que delimita uma esfera norte de expansão israelita, em espelho dos desenvolvimentos em Gaza e na Síria. Obedece a desaparição completa de aldeias do Sul do Líbano — sem dúvida para sempre apagadas do mapa na perspectiva israelita — unicamente a considerações de segurança? A questão deve ser colocada com acuidade e necessariamente suscitada no quadro das negociações por um Estado libanês empenhado em preservar a sua soberania e integridade territorial e em defender os seus direitos face à ocupação. O Golã como laboratório da anexação permanente É sem dúvida a trajectória do Golã que oferece o precedente mais acabado e instrutivo do processo de anexação progressiva que caracteriza o método israelita. Ocupado em 1967, anexado unilateralmente em 1981 num gesto que a comunidade internacional recusou reconhecer durante décadas — e que Assad cedeu de bom grado ao seu aliado tácito em troca da sua permanência perpétua no poder em Damasco —, o Golã viu a sua soberania israelita reconhecida de facto por Donald Trump em 2019, primeiro acto de uma série de reconfigurações normativas cujos efeitos continuam a desdobrar-se. Desde o colapso do regime Assad em dezembro de 2024, Israel alargou a sua presença militar em território sírio para além da zona-tampon estabelecida em 1974, criando novos factos consumados no terreno. Este modelo, que obedece ao esquema ocupação instalação facto consumado reconhecimento diferido, é precisamente o que a linha amarela no Sul do Líbano parece querer reproduzir, com as adaptações impostas por um contexto diferente e uma resistência de natureza outra. A lógica dos “limiares”: do mito fundador ao programa político Impõe-se aqui, uma vez mais, introduzir uma nuance indispensável à análise — sob pena de cair no escolho da conspiração onde deveria ler-se a tensão estrutural entre mito fundador e decisão política. O termo Eretz Israel HaShlemah só entrou no uso político corrente após a guerra de 1967. Durante a era do Mandato (1920–1948), o campo sionista estava dividido. Alguns apoiavam o militante Ze’ev Jabotinsky, que argumentava que ambas as margens do Jordão haviam sido prometidas aos judeus na Declaração Balfour. Outros, com Ben Gurion, aceitavam o quadro do Mandato Britânico sobre a Palestina ocidental. Com a ascensão do Likud, herdeiro da corrente revisionista jabotinskyana, o termo Eretz Israel HaShlemah tornou-se mais popular e o projecto de anexação completa o objectivo central da coligação no poder. Se os sonhos territoriais da direita sionista pareciam outrora não ser mais do que fantasias coloniais sem futuro, os acontecimentos actuais em Gaza, no Líbano e na Síria mostram que as esperanças de uma extrema-direita israelita em plena ascensão estão mais próximas de uma concretização do que nunca. A fronteira entre o mito e a realidade nunca foi tão ténue. Convém provavelmente situar esta ressurgência epidérmica do “Grande Israel” no contexto desta vaga de “nostalgia de uma idade de ouro mítica” que desperta todos os chamamentos de império — como observava Samir Frangieh numa entrevista pouco antes da sua morte. De Putin com a Ucrânia e os países bálticos, a Trump com a Venezuela e Cuba, passando pela China e Taiwan, ou pela Turquia de Erdoğan e os demónios do Império Otomano, sem esquecer o império teocrático do faquih de Dário III que expira actualmente sob as bombas israelo-americanas… é uma ventania de megalomania que varre o mundo inteiro. O mito imperialista constitui neste quadro um horizonte de desejo que estrutura o pensamento estratégico de uma parte significativa do establishment israelita, modulando as suas ambições em função das oportunidades oferecidas pela correlação de forças regional e internacional em cada momento. É certo que o novo mapa não é o do Eufrates ao Nilo. Mas bem poderá constituir uma etapa em direção a ele. E Ben Gurion advertiu, em 1937, que as etapas eram precisamente o que importava. Não mentia. E hoje, Netanyahu não é fanfarrona. A determinada altura, será necessário sair das fanfarronice locais adversas, que continuam a crer que Israel é uma potência esgotada, à beira do colapso, moribunda. Telavive está em guerra há três anos, e, tão perto do seu objectivo, por que razão renunciaria a ele — tanto mais que nunca beneficiou de um apoio tão incondicional da parte do seu aliado americano? O que a “linha amarela” poderá anunciar No termo de toda esta exposição, importa responder à questão de saber se a “linha amarela” é unicamente de natureza securitária, ligada ao princípio primeiro de assegurar a perenidade do Norte israelita contra possíveis ataques. Se é naturalmente impossível responder com plena certeza a esta questão, não é menos verdade que a retórica e os comportamentos de Netanyahu e dos seus ministros são manifestos e quase transparentes a este respeito. Por que não os ouvir? De resto, se Telavive detém agora argumentos de ouro — o pretexto das represálias graciosamente oferecido pelo Hezbollah através da sua vontade de vingar Khamenei —, bem como uma impunidade total e um alinhamento de astros políticos sem precedentes para realizar o seu projecto, por que não o faria, ainda mais num contexto regional e mundial totalmente desestabilizado, em que a ONU e o direito internacional já pouco contam? A oportunidade poderia ser única. A anexação de facto do Sul do Líbano constitui sem dúvida uma tentativa de solidificação de um facto territorial consumado na ausência de qualquer quadro jurídico internacional reconhecido, apoiando-se no precedente gaziano e no apoio político da administração Trump. O enviado americano Tom Barrack chegou mesmo a evocar, por seu lado, a criação de uma “zona económica libanesa” que substituiria as seculares aldeias fronteiriças. Como em Gaza. A formalização da espoliação em todo o seu esplendor, fazendo brilhar as delícias do progresso e do desenvolvimento que daí adviriam. Estranha propaganda “positiva” fundada sobre a miséria humana. A destruição de habitações, a demolição de infra-estruturas, a proibição do regresso das populações… tudo isso não deixa de traçar a silhueta de um projecto que excede as preocupações de segurança e toca evidentemente — provas em mãos — na demografia, na geografia humana e na modificação duradoura do espaço fronteiriço. Da Conferência de paz de 1919 aos debates internos dos anos cinquenta, do plano Yinon aos discursos da actual coligação, a fronteira norte de Israel nunca foi considerada como definitivamente traçada. Certos apetites israelitas vorazes fantasiam o seu prazer anexionista até Tiro. Outros, talvez ainda mais longe. Quem sabe? Num mundo implodido que deliberadamente olha para outro lado, o imaginário e o delírio não têm limites. O que a “linha amarela” poderá bem revelar, em suma, é que o sonho do “Grande Israel” — nas suas diversas formas e variações — está actualmente a ser vivido no tempo presente. Tal como, aliás, os sonhos dos outros impérios em decadência. O Líbano, em 2026, é sem dúvida — tal como o foi Gaza em 2025–2026 — o teatro mais imediato e mais doloroso de tudo isto. Com o risco de sofrer progressivamente o mesmo destino. Acabar com um mito libanês Contudo — e parece necessário concluir com esta precisão incontornável —, nada do que precede poderia justificar a retórica actual defendida pelos arautos da moumanaa, a saber que a cupidez de Israel prova que a guerra teria tido lugar de qualquer maneira, e que é necessário cessar de fazer recair sobre o Hezbollah a responsabilidade pelo que está a acontecer. É tempo de acabar com esta chave-mestra da argumentação que pretende justificar tudo o que o Hezb faz — e, paradoxo grotesco, tudo o que Israel faz também —, através de uma pseudo-lei da fatalidade. Esta leitura faz tábua rasa, por ignorância ou má-fé, de uma soma de factores. Sem querer entrar em todas as argucias estéreis desenvolvidas para justificar a guerra do Hezbollah, convém ater-se a uma única: se a “resistência” é legítima face a um Estado que continua a cobiçar o território dos seus vizinhos, a sua decisão só pode pertencer ao Estado libanês, e não a um grupo paramilitar subordinado ao Irão que há vinte e cinco anos dita o que quer — não apenas a guerra e a paz, mas também o que é lícito dizer e fazer, e quem merece viver ou morrer — às outras componentes da sociedade libanesa, com base num projecto político imperialista no qual o Líbano não é senão uma província e os libaneses mera carne para canhão. E se o Estado não foi capaz, até ao presente, de desempenhar este papel soberano, é precisamente porque, no interior, o cavalo de Tróia iraniano não queria restituir-lhe esta prerrogativa, por cega fidelidade à vontade hegemónica iraniana. A experiência da “resistência islâmica” do Hezbollah foi uma catástrofe nacional a todos os níveis — e não está terminada. A “Grande Pérsia”, da qual o Hezbollah não é senão uma excrescência, nunca recebeu mandato do povo libanês para fazer face ao projecto do Grande Israel. Só o Grande Líbano o pode fazer — simbolicamente e praticamente, por todos os meios legítimos, a começar pela diplomacia. Assim, ao Grande Israel, o Grande Líbano. Só isso.