


A semana passada pode ser marcada pelo signo das hesitações nas negociações entre Estados Unidos e Irã, onde nenhum avanço significativo foi registrado apesar de duas propostas iranianas transmitidas aos norte-americanos pelo mediador paquistanês.
Até então, muitos analistas sustentavam que o Irã jogava a carta do tempo, por meio do fechamento de fato do estreito de Ormuz, diante de um Donald Trump que estaria apressado para encerrar a guerra antes de ter de prestar contas ao Congresso após 60 dias de conflito, como prevê a Constituição americana.
Mas desde então houve uma reviravolta: é o bloqueio americano aos portos iranianos que agora pressiona Teerã. As consequências são visíveis na forte desvalorização da moeda nacional e em um colapso econômico que as autoridades iranianas têm dificuldade em esconder, apesar de sua retórica triunfalista.
Ao mesmo tempo, o presidente americano conseguiu contornar o obstáculo do Congresso nesta semana ao afirmar que, devido ao cessar-fogo vigente desde 7 de abril, os dias de guerra não deveriam ser contabilizados como 60, mas como 38. O tempo estaria, então, mais contra os iranianos do que contra os americanos?
Enquanto a semana começou com uma recusa americana à primeira proposta iraniana, os negociadores de Teerã enviaram na sexta-feira uma segunda proposta aos Estados Unidos por meio do mediador paquistanês.
As condições apresentadas permanecem quase idênticas às anteriores: um prazo de um mês para resolver as principais questões pendentes, um cessar definitivo das hostilidades em todas as frentes, especialmente no Líbano, um adiamento das negociações sobre o programa nuclear, a reabertura do estreito de Ormuz, indenizações pelos danos da guerra e o desbloqueio dos fundos iranianos congelados.
“O Irã ainda não pagou um preço alto o suficiente”
A essa proposta, Donald Trump respondeu com ceticismo, mesmo que a resposta oficial americana ainda não tenha sido dada.
Diante de jornalistas na Casa Branca, afirmou não estar “satisfeito”. Depois, em sua rede Truth Social, escreveu: “O Irã ainda não pagou um preço alto o suficiente”.
E embora os últimos dias tenham sido marcados por uma postura de espera na frente das negociações entre o Irã e os Estados Unidos, os ruídos de guerra não desapareceram completamente. No fim da semana, o próprio Exército iraniano considerou “provável” uma retomada dos combates com os americanos, acusando-os mais uma vez de não respeitarem nenhum acordo.
Por sua vez, o site americano Axios divulgou informações segundo as quais o Comando Central dos Estados Unidos para o Oriente Médio teria preparado um plano de ataques de curta duração e alta intensidade contra o Irã, caso isso fosse necessário para destravar as negociações.
Os israelenses, insatisfeitos desde o início dessa trégua nos combates, também mantêm a pressão: na quinta-feira, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que seu país poderia voltar a agir contra o Irã.
Custo exorbitante em todos os níveis
Esta semana também marcou a reaparição de outro ator-chave no Oriente Médio, que vinha atuando discretamente até aqui: o presidente russo Vladimir Putin. Depois de receber no último fim de semana o ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, Putin conversou por telefone com Donald Trump nesta semana.
O Kremlin anunciou que Putin expôs a Trump as graves consequências que uma nova campanha militar contra o Irã teria.
De todo modo, essa guerra iniciada em 28 de fevereiro tem um custo em todos os níveis. Globalmente, a alta dos preços dos combustíveis obriga governos ao redor do mundo a adotar medidas para limitar os danos e pesa sobre todos os setores. Um exemplo evidente nesta semana foi o de uma companhia aérea americana que manteve seus aviões em solo.
Para os Estados Unidos, o conflito já custou 25 bilhões de dólares, segundo estimativas do Pentágono. Um custo também para o Irã, que começa a demonstrar sinais de esgotamento. E também para a China, indiretamente, já que importava boa parte de seu petróleo iraniano a preços preferenciais.
Outra consequência da guerra no Irã é a continuidade desenfreada das prisões de opositores e das execuções. Nesta semana, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos denunciou 21 execuções e quase 4 mil detenções no Irã desde o início do conflito anterior.
Os relatos sobre os temores da Guarda Revolucionária em relação a uma possível nova revolta popular devido às dificuldades econômicas se multiplicam na imprensa.
Também no cenário interno iraniano, vale destacar uma reportagem publicada nesta semana pela Reuters mostrando o domínio crescente da Guarda Revolucionária sobre o país, em um contexto de enfraquecimento do líder supremo.
A cena libanesa, vítima do choque de agendas
Paralelamente à espera em torno do dossiê iraniano, a cena política libanesa está em ebulição em vários níveis. Ela continua marcada pelas disputas entre o campo que permanece ligado à influência iraniana e as autoridades oficiais libanesas, que tentam libertar o país desse controle, correndo o risco de sofrer pressões americanas cada vez mais insistentes.
Essas tensões ficaram evidentes nesta semana com o fracasso de uma reunião prevista no palácio presidencial de Baabda entre o presidente da República, Joseph Aoun, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, também líder do Amal, movimento xiita aliado do Hezbollah, e o primeiro-ministro Nawaf Salam, para discutir as modalidades das negociações diretas entre Líbano e Israel, iniciadas na primeira semana de março.
A hesitação veio de Berri, que já havia demonstrado preferência por negociações indiretas, afirmando em entrevista ao jornal Asharq Al-Awsat que “não é justificável negociar sob fogo israelense”.
Já o presidente Aoun enfrenta intensa pressão americana para um encontro com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na Casa Branca. No entanto, continua rejeitando essa possibilidade enquanto o cessar-fogo não for total. Segundo fontes de Baabda à MTV, ele prefere que a “foto” buscada por Washington venha coroar um eventual acordo, e não precedê-lo.
Diante das pressões internas, o presidente declarou claramente nesta semana que rejeitaria “um acordo humilhante para o Líbano”.
Do lado americano, a impaciência começa a aparecer. Donald Trump mencionou, em uma de suas declarações intempestivas, que um encontro entre Aoun e Netanyahu ocorreria “dentro de duas semanas”.
Mas a pressão mais forte veio de um comunicado da embaixada dos Estados Unidos em Beirute, divulgado na quinta-feira, destacando “a possibilidade de o Líbano obter garantias concretas de plena soberania, recuperação integral de seu território, segurança de suas fronteiras, apoio humanitário e ajuda à reconstrução” por parte dos Estados Unidos, caso aceite essa reunião.
O texto fala em “oportunidade histórica”.
Não há dúvidas de que Joseph Aoun está no centro de todas essas tensões, assim como o primeiro-ministro Nawaf Salam. Ambos são alvo frequente de campanhas difamatórias cada vez mais organizadas e violentas promovidas pelo chamado “público da Resistência”.
Nesta semana, um relatório dos serviços secretos israelenses, reproduzido por meios de comunicação israelenses, mencionou “potenciais” ameaças à vida do presidente libanês devido ao seu compromisso com negociações diretas com Israel.
Uma ameaça “levada a sério por Baabda”, segundo fontes ouvidas pela imprensa libanesa, mas que “não fará o presidente recuar em sua iniciativa para salvar o Líbano”.
“Angry Birds” e violência no Sul
Joseph Aoun se apega, portanto, a seus princípios para atravessar a tempestade, que também se intensifica internamente.
A bancada parlamentar do Hezbollah divulgou nesta semana um comunicado particularmente virulento, denunciando “o declínio” das autoridades libanesas em seu compromisso com negociações com Tel Aviv e acusando-as de “se submeterem aos ditames” americanos.
As tensões também migraram para o campo virtual: um vídeo de animação satírica publicado pela emissora LBCI, mostrando dirigentes do Hezbollah, especialmente seu secretário-geral Naïm Qassem, retratados como personagens de “Angry Birds”, provocou forte indignação entre o “público do Hezbollah” e uma onda de insultos.
Esse público voltou sua fúria contra o patriarca maronita Béchara Raï, alvo de uma campanha de difamação que ultrapassou todas as linhas vermelhas possíveis e foi condenada pelos três polos do poder libanês.
Esse nervosismo da base do Hezbollah se explica especialmente pela situação no sul do país: a semana foi extremamente violenta, com um número crescente de ataques aéreos, bombardeios, destruição de vilarejos inteiros e mortes.
Embora Israel também pareça preso em um atoleiro, os danos em seu lado permanecem mínimos em comparação aos sofridos pelo Hezbollah e pela população libanesa. No domingo, o Exército israelense voltou a emitir ordens de evacuação para onze novos vilarejos.
Nesta semana também chamou a atenção um pedido de Netanyahu, durante uma ligação telefônica com Trump, para ampliar as operações no Líbano. O pedido foi rejeitado pelo presidente americano, que não quer colocar em risco as negociações sobre os dois dossiês.
Trump teria “aconselhado” o premiê israelense a parar de destruir edifícios no Líbano porque isso “prejudica a imagem de Israel”.