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O essencial da semana

Perspectiva de escalada no Irã: todos os sinais estão no vermelho
Por
Taline Becharraoui
Publicado
abr 5, 2026 - 13:23

A semana que acaba de terminar no Oriente Médio foi marcada por um crescendo de retórica e de ações militares que culminou, nesta segunda-feira, 6 de abril, com o fim do ultimato lançado por Donald Trump ao regime dos aiatolás. O chefe da Casa Branca ameaçou “aniquilar” as instalações energéticas do Irã. Foi uma semana em que o presidente americano multiplicou declarações, atingindo o ápice no sábado, quando deu 48 horas às autoridades em Teerã para aprovar o acordo proposto, sob pena de “o inferno” cair sobre elas. Trump exige que o Irã “feche um acordo ou abra o estreito de Ormuz”, em referência a negociações baseadas nos 15 pontos apresentados pelos Estados Unidos, centrados sobretudo no abandono dos programas nucleares e balísticos, além da interrupção do financiamento a aliados regionais como o Hezbollah. Segundo piloto americano é encontrado vivo Ao longo da semana, o presidente americano alternou entre pressão e abertura, como tem feito desde o início desta guerra contra o regime iraniano, ora estabelecendo prazos de duas ou três semanas para o fim do conflito, ora apostando na via diplomática ao afirmar que os iranianos “querem fechar um acordo a qualquer custo”. No entanto, no fim da semana, foram os iranianos que deram a impressão de buscar a escalada. No sábado, recusaram um cessar-fogo de 48 horas proposto pelos americanos e intensificaram seus ataques contra Israel e, sobretudo, contra países do Golfo, atingindo infraestruturas sensíveis, como usinas de dessalinização e centrais elétricas, por exemplo, no Kuwait. Em um momento em que os ataques contra seu próprio território também se intensificam, um incidente incomum ocorreu no sábado, quando uma usina nuclear no sul do país foi atingida. Além disso, os Guardiões da Revolução iraniana obtiveram uma “vitória” simbólica ao derrubar, na sexta-feira, um avião F-15 americano com dois comandantes a bordo. Um deles foi rapidamente resgatado pelo exército dos Estados Unidos; o segundo foi encontrado vivo, porém ferido, na noite de sábado (horário de Beirute), após uma ampla e ousada operação de busca conduzida em território iraniano durante 48 horas por unidades de elite americanas, apoiadas continuamente por helicópteros e aeronaves de reconhecimento voando a baixa altitude. A operação de resgate, conduzida sem incidentes durante dois dias, foi marcada em sua fase final por um confronto com elementos dos basij, a força paramilitar ligada aos Guardiões da Revolução, que tentaram, no último momento, capturar o comandante do F-15 cuja posição havia sido identificada. Os milicianos sofreram perdas significativas, e a unidade de elite conseguiu resgatar o piloto antes de se retirar em direção a um país árabe vizinho. Ataques intensos contra Emirados e Kuwait No campo das operações militares convencionais, o fim da semana foi marcado por uma intensificação dos lançamentos de mísseis e drones contra, principalmente, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait. O exército kuwaitiano informou no sábado ter interceptado, em 24 horas, oito mísseis balísticos e 19 drones com explosivos. Já os Emirados declararam ter interceptado, em um único dia, 23 mísseis balísticos e 56 drones. Neste momento, porém, o estreito de Ormuz permanece como o elemento central do conflito armado, eclipsando outras questões como o programa nuclear e o posicionamento regional do regime iraniano. A aposta de Teerã nos efeitos da eventual interrupção dessa rota marítima estratégica já começa a produzir impacto: a alta dos preços dos combustíveis pesa sobre a economia de diversos países e sobre o poder de compra mesmo em regiões distantes do epicentro do conflito. O Irã mantém o estreito praticamente fechado há semanas, permitindo a passagem apenas de navios autorizados, como embarcações turcas e indianas, reforçando a percepção de controle sobre a área. No sábado, fontes iranianas afirmaram ter atingido um petroleiro “ligado a Israel”. Outro sinal de escalada por parte de Teerã surgiu quando um veículo de mídia iraniano informou que as exportações de petróleo da estratégica ilha de Kharj, alvo de ameaças americanas, aumentaram apesar do conflito. Essa postura iraniana, marcada pela negação de negociações com os Estados Unidos e pela recusa de um cessar-fogo, indica uma radicalização da liderança? Poucas informações circulam sobre a situação interna do país, mas um indicativo relevante pode ser visto nas reações a um artigo publicado na revista Foreign Affairs por Mohammad Javad Zarif. No texto, ele afirma que o Irã “tem vantagem no conflito”, tendo resistido à ofensiva, o que teria levado ao “fracasso de ambos os lados em forçar a capitulação do regime”. Segundo Zarif, o país deveria aproveitar essa posição para negociar, propondo limitar voluntariamente seu programa nuclear e reabrir o estreito de Ormuz em troca do fim das sanções. As reações hostis ao artigo evidenciam a polarização interna. Setores conservadores radicais chegaram a classificar Zarif como “ingênuo” ou até “traidor”, acusando-o de sinalizar fraqueza em plena guerra. Enquanto isso, o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, permanece fora de cena. Em síntese, o Irã parece disposto a levar seus adversários ao limite. Trata-se de uma estratégia de negociação ou de uma fuga para frente? Quais serão os possíveis cenários para uma eventual intervenção americana na próxima semana? A recente substituição do chefe do Estado-Maior das forças armadas dos Estados Unidos por decisão do secretário de Defesa indica um possível endurecimento da posição americana. De todo modo, a semana que se inicia dá a impressão de marcar um ponto de inflexão no conflito. No Líbano No outro front, o do Líbano, a mesma dinâmica de escalada se observa entre o Hezbollah e Israel. A milícia xiita conduz operações paralelas às do Irã, lançando continuamente foguetes, mísseis e drones contra o norte de Israel e posições militares. Em resposta, o exército israelense adota uma estratégia de devastação nas aldeias fronteiriças e amplia os bombardeios. O número de mortos continua a crescer, ultrapassando 1400 vítimas desde 2 de março. Um desenvolvimento preocupante ocorreu no sábado à noite, confirmando o aumento do envolvimento do vale da Bekaa no conflito. Ameaças israelenses de atacar o posto fronteiriço de Masnaa, entre o Líbano e a Síria, levaram as forças de segurança libanesas a evacuar a área às pressas. As razões permanecem incertas: suspeitas de contrabando de armas para o Hezbollah ou tentativa de impor um bloqueio mais amplo. Uma coincidência chamou a atenção: em 28 de março, autoridades sírias anunciaram a descoberta e o fechamento de um túnel transfronteiriço supostamente utilizado para contrabando pelo Hezbollah. Durante a semana, a resistência das aldeias cristãs no sul do Líbano ganhou destaque. A decisão de reposicionar gradualmente o exército libanês diante do avanço israelense gerou críticas intensas, sendo vista por alguns como abandono das populações locais. O exército justificou a medida como necessária para evitar cerco, garantindo que manteria presença militar na região. Se o exército libanês está sob pressão, o mesmo ocorre com a Força Interina das Nações Unidas no Líbano. Em 30 de março, três capacetes azuis indonésios foram mortos em um ataque, e outros três ficaram feridos dias depois. A menos de um ano do fim de sua missão, previsto para 2026, o papel da força volta a ser questionado. Outro episódio levantou dúvidas: apesar do discurso de confiança do Hezbollah, o exército israelense divulgou vídeos de interrogatórios de combatentes capturados no Líbano. Segundo essas imagens, os detidos demonstrariam moral baixa e dúvidas sobre o sentido de sua participação, ainda que afirmem não poderem se opor ao grupo. A autenticidade desses materiais pode ser questionada, mas sua divulgação provoca forte impacto. O futuro do Líbano parece cada vez mais incerto, e uma eventual escalada no Irã tende a ampliar as preocupações. Outro país que demonstra crescente fragilidade é o Iraque, que começa a se configurar como um novo palco do conflito. Além dos ataques contra interesses americanos, o sequestro de uma jornalista americana em Bagdá por milícias pró-iranianas evidencia o grau de instabilidade e a influência das facções alinhadas aos Guardiões da Revolução.

Apesar da trégua de Trump, uma ampliação do conflito
Por
LevantTime .
Publicado
mar 29, 2026 - 17:48

A semana que acaba de terminar, a quarta desde o início do conflito entre Israel e os Estados Unidos, por um lado, e o Irã, por outro, tornou ainda mais confusas as perspectivas de uma eventual saída da crise. A situação real do regime iraniano permanece uma incógnita, especialmente diante de uma declaração enigmática do presidente americano Donald Trump no fim da semana, ao afirmar que “uma mudança de regime já teria efetivamente ocorrido”, enquanto o destino do líder supremo Mojtaba Khamenei continua desconhecido. O presidente americano contribuiu, com suas múltiplas declarações, para tornar o cenário ainda mais opaco, embora continue apostando na confiança e, junto com seus assessores, afirme repetidamente que o fim do conflito é uma questão de semanas. Falou-se muito em negociações ao longo da semana. Ela começou com uma trégua de cinco dias concedida por Trump aos iranianos, após um fim de semana marcado por ameaças contra suas infraestruturas energéticas. O prazo de sexta-feira nem havia sido alcançado quando uma prorrogação já era anunciada, estendendo-o até 6 de abril. Nesse intervalo, uma lista de 15 exigências americanas dirigidas ao Irã foi divulgada por meios de comunicação considerados confiáveis. Entre os principais pontos estava o fim dos programas iranianos de desenvolvimento nuclear e de mísseis balísticos, além da interrupção do apoio aos aliados regionais de Teerã, como o Hezbollah libanês, o Hachd al-Chaabi iraquiano e os Houthis do Iêmen. Os iranianos responderam com uma lista de seis pontos, incluindo a exigência de um cessar-fogo prévio às negociações e garantias de um fim total da guerra. Apesar das repetidas negações iranianas sobre a existência de negociações em curso, a mídia relata esforços de mediação por parte do Paquistão, apontado como mediador, além de outros países, como o Egito. Isso poderia explicar a nova prorrogação concedida pelos Estados Unidos. Ainda assim, o ritmo da guerra não diminuiu. Os ataques israelenses e americanos continuaram de forma intensa contra as infraestruturas do regime iraniano. No fim da semana, aviões israelenses bombardearam instalações nucleares. Ao mesmo tempo, a possibilidade de uma intervenção terrestre americana também ganha força, e planos envolvendo a tomada de ilhas iranianas são mencionados na imprensa. Especialistas ucranianos Um novo aliado se juntou aos esforços contra o Irã. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky enviou especialistas em interceptação de drones para a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Por sua vez, o Irã não dá sinais visíveis de enfraquecimento em seus ataques contra países do Golfo e contra Israel. Além disso, os Guardiões da Revolução, que parecem ocupar um papel cada vez mais central no regime, adotaram medidas nesta semana para fechar totalmente o estreito de Ormuz, com o objetivo de impactar de forma mais duradoura a economia global por meio da alta dos preços do petróleo. Em resumo, a guerra parece estar se expandindo, não apenas em intensidade, mas também geograficamente. O território iraquiano tem sido cada vez mais alvo de ataques, e as milícias pró-iranianas estão mais ativas. A embaixada dos Estados Unidos em Bagdá é frequentemente atacada e voltou a ser alvo neste fim de semana. No entanto, o desenvolvimento mais dramático da semana foi a entrada em guerra de um aliado do Irã que até então permanecia em silêncio: os houthis do Iêmen. Na noite de sexta-feira, anunciaram que, se os ataques ao Irã continuassem, abririam uma nova frente, ameaçando inclusive fechar outro estreito estratégico, o de Bab el-Mandeb, e paralisar a navegação no Mar Vermelho, como já fizeram durante o conflito em Gaza e no Líbano em 2024. De fato, nas primeiras horas de sábado, os primeiros mísseis iemenitas foram lançados em direção ao sul de Israel. A intervenção da milícia pró-iraniana nesse momento reforça os esforços dos Guardiões da Revolução para manter a pressão econômica, paralelamente ao cerco crescente sobre o território iraniano. Impactos econômicos e o G7 Essa estratégia iraniana envolvendo os Houthis ocorre em um momento em que os impactos econômicos do fechamento do estreito de Ormuz se intensificam. O preço do barril de petróleo ultrapassou os 100 dólares, e populações e setores econômicos em todo o mundo já sentem os efeitos. A questão esteve no centro da reunião dos ministros das Relações Exteriores do G7, realizada na França nesta semana. O comunicado oficial destacou a necessidade de interromper os ataques contra civis e de trabalhar pela reabertura do estreito de Ormuz. Nos bastidores, o secretário de Estado americano Marco Rubio, em sua primeira viagem ao exterior desde o início da guerra, foi questionado por seus homólogos sobre as perspectivas do conflito. Ele próprio declarou que buscaria incentivá-los a participar dos esforços para reabrir Ormuz. A guerra contra o regime iraniano também gerou tensões dentro do bloco ocidental. A recusa europeia em se envolver diretamente tem sido motivo de insatisfação para Trump, que insinuou, em declaração recente, que os Estados Unidos poderiam deixar de apoiar os países da aliança atlântica após o fim do conflito. Incursão israelense no sul do Líbano a partir do Golã Paralelamente, a situação no Líbano se deteriora rapidamente. O avanço israelense no sul do país se intensifica, com informações confirmadas sobre uma infiltração de vários quilômetros em território libanês e o início da ocupação de pontos estratégicos. A principal novidade de domingo foi a infiltração de soldados israelenses a partir do Golã, mais precisamente do Monte Hermon, território ocupado por Israel em 2024. Essa movimentação visa claramente cercar ainda mais os combatentes do Hezbollah no sul do Líbano, ampliando operações já em curso em regiões como Khiam, Bint Jbeil e Naqoura. Enquanto isso, o conflito se torna cada vez mais letal no Líbano, onde o número de civis mortos ultrapassou 1.100 nesta semana. O Hezbollah não divulga seus números, mas o exército israelense fala em centenas de mortos, além de combatentes capturados e levados para Israel. Também há registros de mortos e feridos entre suas próprias tropas. Um episódio misterioso ocorreu nesta semana no céu do Kesrouan, ao norte de Beirute. Na terça-feira, fortes explosões foram ouvidas sobre Jounieh, com destroços caindo em áreas residenciais, sem vítimas. A única certeza é que o míssil era iraniano, mas sua origem e destino permanecem desconhecidos. A hipótese mais plausível é que tenha sido interceptado no ar, possivelmente por um sistema lançado do mar. Entre os possíveis alvos estariam a embaixada dos Estados Unidos em Awkar ou o aeroporto de Hamate, onde há presença americana. “Congresso para a salvação do Líbano” em Meerab O principal desenvolvimento político da semana no Líbano foi a decisão, tomada em 24 de março, de retirar a acreditação do embaixador iraniano Mohammad Reza Shibani e expulsá-lo do país, além de convocar o chefe da missão diplomática libanesa em Teerã. A medida foi motivada por ingerências iranianas nos assuntos internos do Líbano, incluindo o desencadeamento da guerra em 2 de março por uma milícia pró-iraniana cuja atividade foi declarada ilegal pelo governo. Como esperado, a decisão provocou a reação do Hezbollah e do movimento Amal, cujos ministros boicotaram a última reunião do gabinete. A partir de 29 de março, o embaixador é considerado persona non grata e pode até ser detido por autoridades locais. Resta saber se o Irã e seus aliados insistirão em mantê-lo no país, o que parece provável, embora sem intenção de provocar o colapso do governo. Do lado iraniano, não houve reação oficial clara, mas alguns sinais chamam a atenção. Na sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi conversou por telefone com o presidente do Parlamento libanês Nabih Berri para expressar solidariedade ao Líbano. No mesmo dia, os Guardiões da Revolução publicaram um documento incomum anunciando a morte de seis “diplomatas” iranianos em um ataque israelense, apresentados com uniformes militares. Outro evento relevante foi a realização de um encontro político em Meerab, sede das Forças Libanesas, reunindo diversas lideranças contrárias ao Hezbollah. O comunicado final defendeu a criação de um tribunal especial para julgar os responsáveis por levar o país à guerra e exigiu indenizações do Irã pelos danos causados. À margem do encontro, o líder das Forças Libanesas afirmou que nenhum recurso público será destinado à reconstrução ou ao apoio aos deslocados, argumentando que os responsáveis pelo conflito devem arcar com seus custos, e não o Estado libanês.

Nova semana de desenvolvimentos de alcance estratégico
Por
Taline Becharraoui
Publicado
mar 22, 2026 - 16:35

A morte do homem forte do regime iraniano, Ali Larijani, na terça-feira, 17 de março, assim como a de vários outros altos responsáveis e quadros superiores da Guarda Revolucionária e dos Basij, não reduziu o envolvimento do regime no conflito. Pelo contrário, Teerã lançou, pela primeira vez, mísseis balísticos para fora do Oriente Médio, em direção a Diego Garcia, a 4.000 quilômetros de distância, além de atingir Dimona, no sul de Israel, na noite de sábado. No Líbano, os combates se intensificam na frente sul. A terceira semana de confronto entre os poderosos exércitos dos Estados Unidos e de Israel, de um lado, e o regime iraniano, de outro, foi tão marcada por reviravoltas quanto as anteriores. O estado atual do regime iraniano é mais do que nunca precário, embora sua capacidade de ataque permaneça significativa. O regime perdeu, nesta semana, mais precisamente em 17 de março, sua principal figura central desde o assassinato do guia supremo Ali Khamenei, em 28 de fevereiro: o poderoso chefe de segurança Ali Larijani, uma das figuras políticas mais experientes do Irã, considerado o homem forte do regime. Ele foi morto em um ataque israelense contra um apartamento em Teerã, onde havia acabado de chegar, acompanhado de seu filho e de outros quadros do regime. O assassinato direcionado foi seguido por outros ataques que mataram membros da Guarda Revolucionária e dos Basij, força repressiva sob supervisão dos Pasdaran. A morte de Larijani, que conduzia o poder desde a morte do guia supremo, levanta inúmeras dúvidas sobre o comando atual do regime. Isso se agrava pelo fato de que o sucessor de Ali Khamenei, seu filho Mojtaba Khamenei, ainda não fez nenhuma aparição pública e seu paradeiro permanece desconhecido. Ferido no mesmo ataque que matou seu pai, diversos membros de sua família e cerca de quarenta altos responsáveis do regime, o novo guia supremo estaria vivo, segundo um relatório de inteligência dos Estados Unidos divulgado na imprensa internacional nesta semana. O novo líder publicou uma segunda mensagem na sexta-feira, elevando o tom e afirmando que “o inimigo foi derrotado”. No plano militar, o Irã continua demonstrando capacidades relevantes, apesar das destruições em seu território, com ataques inéditos no fim da semana que marcam uma possível virada na guerra. Dois mísseis balísticos de alcance intermediário foram lançados contra a base americano-britânica de Diego Garcia, em uma ilha do oceano Índico a mais de 4.000 quilômetros do território iraniano, de onde partem aeronaves em missões contra o Irã. O chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou que o ataque demonstra a capacidade iraniana de ameaçar capitais europeias. Outra ameaça militar que emergiu nesta semana envolve instalações nucleares. Após bombardeios americano-israelenses contra o sítio de Natanz, no Irã, foi a vez da cidade de Dimona, no sul de Israel, que abriga uma instalação nuclear, ser alvo de mísseis iranianos. O ataque deixou mais de 170 feridos em Dimona e Arad, mas não provocou níveis anormais de radioatividade, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica. Resta a dúvida se esses ataques indicam uma nova fase do conflito. Ao longo da semana, o estreito de Ormuz e seu fechamento ao tráfego de petroleiros continuaram no centro das preocupações. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encerrou a semana ameaçando destruir as instalações energéticas do Irã caso o estreito não fosse reaberto em 48 horas, o que provocou novas ameaças iranianas contra posições americanas na região. Um relatório do Axios havia mencionado, dois dias antes, um possível plano de ocupação americana da ilha estratégica de Kharg, crucial para as exportações iranianas de hidrocarbonetos, como forma de pressionar pela reabertura do estreito. Durante a semana, Trump alternou sinais contraditórios sobre a intervenção no Irã. Em alguns momentos, afirmou querer reduzir a intensidade da guerra, alegando que os objetivos foram alcançados “semanas antes do previsto”. Em outros, ameaçou uma escalada, sem demonstrar disposição para negociar com Teerã. Paralelamente, o Exército americano deve enviar cerca de 2.000 soldados adicionais ao Oriente Médio, segundo fontes ouvidas pela Reuters. Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, multiplicou declarações, defendendo que o país não aceitará um simples cessar-fogo, mas apenas o fim definitivo da guerra. A reestruturação do Hezbollah pelo Irã Enquanto isso, não houve trégua na frente do sul do Líbano, aberta pelo Hezbollah contra Israel, palco de ataques coordenados entre combatentes do grupo e forças iranianas. Após uma noite de intensos bombardeios entre terça e quarta-feira, que atingiram o centro de Beirute sem aviso prévio, sinal de operações israelenses direcionadas, e ataques esporádicos à periferia sul já evacuada, o foco dos combates parece ter se deslocado para a fronteira sul do país. Os nomes das localidades de Khiam e Tibé, na região de Marjayoun, voltaram a aparecer com frequência, assim como Naqoura, na região de Tiro, agora integrada à frente de combate. Ao longo da semana, o Hezbollah divulgou intensamente suas “operações” contra “soldados inimigos”, tanto em território libanês quanto em israelense. O grupo, no entanto, não comenta suas próprias perdas, enquanto o Exército israelense afirma ter matado mais de 500 combatentes. Por outro lado, o avanço israelense no território libanês permanece incerto. Oficialmente, Israel aprovou novos planos militares para o Líbano no fim da semana. A semana também foi marcada pela divulgação de um relatório citado pela Reuters, em 21 de março, sobre a reestruturação do Hezbollah pela Guarda Revolucionária desde o cessar-fogo de 27 de novembro de 2024. O documento indica a fragilidade dos esforços de desarmamento do grupo. Segundo o relatório, após a derrota sofrida e o assassinato de seu líder histórico em setembro de 2024, o Irã investiu na reorganização do Hezbollah, enviando cerca de cem quadros militares ao Líbano de forma sigilosa. O Hezbollah que atua atualmente seria, assim, bastante diferente do dos últimos anos, com tropas organizadas em unidades menores e mais autônomas, com menor dependência de comunicação centralizada. Desmantelamento de redes no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos Politicamente, o Hezbollah segue isolado no cenário interno, assim como o Irã no plano regional. Uma reunião de ministros das Relações Exteriores de países árabes e islâmicos, realizada na capital saudita na quinta-feira, resultou em um comunicado firme em defesa do direito de autodefesa dos Estados do Golfo, atingidos por ataques iranianos desde o início do conflito. O Líbano, por meio de seu chanceler Joe Raggi, reafirmou a importância da proposta de negociações diretas com Israel. A iniciativa, lançada pelo presidente libanês Joseph Aoun em 2 de março, segue bloqueada tanto pela recusa israelense quanto pela oposição de partidos xiitas libaneses, apesar dos esforços diplomáticos franceses. A França, que enviou seu ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, a Beirute e Tel Aviv, não conseguiu até agora avanços concretos. A posição oficial libanesa foi reiterada pelo primeiro-ministro Nawaf Salam em entrevista à CNN, na qual pediu a intervenção dos Estados Unidos para viabilizar negociações diretas e encerrar a guerra, que já deixou mais de mil civis mortos no Líbano. A semana também foi marcada pelo desmantelamento de redes do Hezbollah no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos, que, segundo esses países, planejavam realizar “operações terroristas” em seus territórios. Apesar do Hezbollah negar qualquer envolvimento, as autoridades libanesas condenaram as ações e reafirmaram apoio aos países do Golfo. As declarações oficiais, no entanto, perdem força diante do fato de que a iniciativa militar permanece nas mãos de uma milícia considerada ilegal pelo próprio governo libanês desde 2 de março, algo que o grupo pró-iraniano ignora. O endurecimento do discurso do Hezbollah, incluindo declarações particularmente agressivas de Mahmoud Comati, vice-presidente do conselho político do grupo, que ameaçou represálias contra “traidores” após a guerra, evidencia tanto a radicalização do movimento quanto o aprofundamento das divisões internas no Líbano. Isso ocorre enquanto mais de um milhão de libaneses do sul seguem deslocados e acolhidos em diferentes regiões do país.

Ataques estratégicos contra o Irã, proposta de negociações diretas libano-israelenses

No Irã, o destino do novo Guia Supremo Mojtaba Khamenei é questionado, e uma ilha iraniana altamente estratégica foi alvo da aviação americana. Na frente libanesa, Israel continua sua ofensiva terrestre apesar de alguns avanços diplomáticos nos últimos dias em torno da ideia de negociações diretas com Israel, lançada pelo governo libanês; uma proposta que permanece dependente da situação no terreno. Pela segunda semana consecutiva, o Oriente Médio vive como em uma história em ritmo acelerado. O ataque ao Irã pelos exércitos israelense e americano continua, com bombardeios intensivos que atingiram, em 14 de março, a ilha iraniana altamente estratégica de Kharg, no norte do Golfo Pérsico. Esta ilha abriga grandes infraestruturas petrolíferas que foram intencionalmente poupadas pelos americanos, enquanto o presidente Donald Trump indicava que instalações militares haviam sido reduzidas a nada. O ataque a esta ilha constitui um desenvolvimento fundamental porque representa uma ameaça potencial às exportações de petróleo do Irã. Por seu lado, os iranianos, principalmente pela voz dos Guardiões da Revolução, esforçaram-se para mostrar seu domínio sobre o Estreito de Ormuz, por onde transita nada menos que 20% do petróleo mundial. Eles declararam que impediriam a passagem de qualquer petroleiro pertencente aos seus « inimigos », no caso os Estados Unidos, Israel e seus aliados, poupando os navios de países como a Índia, por exemplo. Os iranianos também ameaçaram minar o estreito, o que resultou em uma retaliação americana que destruiu amplamente suas capacidades navais. Em 14 de março, Donald Trump pediu aos países afetados pelos perigos que pesam sobre seus navios que enviassem embarcações militares para escoltar os petroleiros durante sua passagem por este estreito. O que os iranianos conseguiram provocar foi um aumento global nos preços do petróleo, particularmente prejudicial ao presidente Trump, a poucos meses das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Mas seus próprios ataques contra os estados árabes do Golfo e os interesses americanos na região, assim como contra Israel, diminuíram consideravelmente em intensidade. Seria um esgotamento de suas capacidades militares diante da magnitude da ofensiva (que destruiu, segundo seus inimigos, grande parte de sua produção militar), ou uma redução tática no uso de seus mísseis e drones para resistir por mais tempo, com a intenção visível de cansar seus inimigos e permitir que o regime dos mulás sobreviva? A outra questão que preocupou os observadores esta semana é a saúde do novo Guia Supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Os rumores sobre seu estado de saúde intensificaram-se ao longo da semana, e ele gradualmente surgiu, nomeadamente em relatórios de serviços secretos israelenses e americanos citados em declarações oficiais, como tendo sido gravemente ferido durante o ataque que matou seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, e vários membros de sua família direta, por um ataque israelense em Teerã em 28 de fevereiro de 2026, durante o lançamento da guerra. E o que reforçou os rumores é a primeira mensagem dirigida à nação iraniana por Mojtaba Khamenei em 12 de março, que foi lida por uma apresentadora e na qual o principal interessado não apareceu. Um discurso que retoma amplamente as mensagens do muito radical chefe da segurança iraniana, Ali Larijani. De qualquer forma, os rumores mais selvagens circulam sobre ele: ele estaria desfigurado e/ou amputado das duas pernas, estaria em coma, estaria até mesmo falecido, teria sido transportado para a Rússia para ser hospitalizado... Acompanhe. Enquanto isso no Líbano A frente libanesa, por sua vez, não teve trégua esta semana, muito pelo contrário. Notou-se ataques coordenados entre o Hezbollah, cujos combatentes em grande parte retornaram ao sul do Litani e às fronteiras com Israel (se é que alguma vez se afastaram), e ataques vindos diretamente de Teerã. O partido, cuja atividade foi qualificada de ilegal pelo governo libanês já em 2 de março sem que isso fosse seguido de ação efetiva no terreno, chegou a intensificar suas operações a partir de quarta-feira, 11 de março, lançando naquele dia uma centena de foguetes em um único ataque. O grande ausente do conflito continua sendo o exército libanês. O outro desenvolvimento no terreno é a incursão terrestre cada vez mais acentuada de soldados israelenses em território libanês. Combates ocorrem com os milicianos do Hezbollah em mais de um setor, em particular em torno da muito estratégica aldeia de Khiam, no sul do Líbano, com a possibilidade de uma ofensiva terrestre israelense cada vez mais clara, especialmente em vista dos reforços militares na fronteira. O mais grave, para a frente libanesa, é que ela poderá durar mesmo para além da guerra no Irã, como se verificou em declarações israelenses esta semana. Apesar de todos os esforços de propaganda do Hezbollah para justificar sua entrada na guerra, o equilíbrio de forças permanece mais desigual do que nunca, já que os ataques do partido pró-iraniano teriam até agora matado apenas dois militares israelenses (segundo fontes do exército israelense), e não provocaram nenhum movimento de população no norte de Israel. Em contrapartida, no Líbano, o número de mortes civis dispara (mais de 800 já, segundo o Ministério da Saúde), e os deslocados são mais de 800.000 que já encontraram refúgio em regiões consideradas mais seguras. O governo libanês tenta conter o movimento com mais ou menos sucesso, e as ajudas internacionais começam a chegar, mas a um ritmo que permanece limitado até agora. A esse respeito, deve-se salientar a visita do secretário-geral da ONU, António Guterres, a Beirute esta semana, para expressar sua « solidariedade » com o povo libanês. Seus apelos à desescalada, no entanto, não deverão ser ouvidos pelos beligerantes. No nível político, a proposta de « negociações diretas » com Israel, avançada pelo presidente da República Joseph Aoun, permanece embrionária, embora tenha progredido no final da semana. Tendo sido confrontada com o silêncio americano e israelense nos primeiros dias, esta proposta recebeu o apoio do presidente francês Emmanuel Macron no final da semana, e já se fala na possibilidade de tais negociações ocorrerem no futuro em Chipre ou em Paris. O Quai d'Orsay, no entanto, negou no sábado ter elaborado um plano de paz entre o Líbano e Israel. Do lado libanês, já se fala na formação do comitê que será encarregado das negociações, com nomes que circulam, como o do pesquisador Paul Salem, por exemplo. Permanece, no entanto, uma incógnita importante, a de um eventual nome xiita, um ponto que o presidente do Parlamento, Nabih Berry, se recusa a decidir por enquanto, tanto mais que ele busca impor a condição de um cessar-le-feu antes das negociações. O próprio Hezbollah, pela voz de seu secretário-geral Naïm Kassem, em um discurso na sexta-feira, pediu ao governo libanês « que não faça concessões gratuitas » a Israel. Do lado israelense, o principal desenvolvimento consiste no fato de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu encarregou o ex-ministro Ron Dermer do dossiê libanês. Até novo aviso, no entanto, a palavra final dependerá dos resultados dos desenvolvimentos no terreno.

Os primeiros oito dias de um conflito que mudará o Oriente Médio
Por
Taline Becharraoui
Publicado
mar 8, 2026 - 16:09

Desde o início, em 28 de fevereiro, da ofensiva israelo-americana contra o regime dos mulás iranianos, marcada pelo assassinato do Guia Supremo da República Islâmica Ali Khamenei, até ao incêndio do front do Líbano-Sul, ao amanhecer do dia 1 º de março, passando pelos ataques iranianos a todos os países do Golfo Árabe, a primeira semana da nova guerra do Oriente Médio é, sem dúvida, histórica em mais de um aspeto. Há anos que podem ser resumidos em poucas palavras, e semanas que parecem ser anos. Os dias que decorreram de 28 de janeiro a 8 de março de 2026 foram tão ricos em reviravoltas que poderiam ser qualificados como a passagem de uma era para outra.  O ponto de partida foi o desencadeamento, contudo previsível, dos ataques israelo-americanos contra o regime iraniano, após o fracasso das negociações sobre o dossiê nuclear, o programa de mísseis balísticos de longo alcance e o destino das antenas regionais dos Pasdaran, nomeadamente o Hezbollah libanês. O resto foi uma sucessão de surpresas, como se o ataque ao Irão tivesse aberto uma caixa de Pandora.  A primeira surpresa veio da precisão dos ataques israelitas na manhã de sábado, 28 de fevereiro, que resultaram, como seria anunciado horas mais tarde, no sucesso do assassinato do Guia Supremo da revolução iraniana, Ali Khamenei, o verdadeiro líder espiritual e político deste país, ao mesmo tempo que cerca de quarenta altos funcionários e quadros superiores iranianos, incluindo o Ministro da Defesa, o chefe dos Pasdaran, o chefe dos Serviços de Inteligência e o conselheiro mais próximo de Khamenei. Até que ponto este primeiro golpe, e os primeiros bombardeamentos americano-israelitas em território iraniano, desestabilizaram este país? A título de retaliação, o regime surpreenderá ao dirigir os seus mísseis balísticos não só contra Israel ou as bases americanas na região, como seria previsível, mas sobretudo contra os Estados árabes do Golfo, até então considerados símbolos de segurança e estabilidade.  As agressões contra os países do Golfo  Diariamente, desde o início desta guerra, as infraestruturas civis do Kuwait, dos Emirados Árabes Unidos, do Bahrein, do Catar, da Arábia Saudita e mesmo do sultanato de Omã, embora um intermediário privilegiado nas negociações irano-americanas, são bombardeados pelos mísseis dos Guardiões da Revolução. Há oito dias, os seus aeroportos estão praticamente fechados e a sua lendária segurança interna é violada, apesar da interceção da grande maioria dos mísseis e drones iranianos lançados contra o seu território.  E mesmo quando o presidente iraniano Masoud Pezeshkian se resolve a « pedir desculpas » a estes países pelos danos causados, oito dias após o início do conflito, prometendo-lhes a « suspensão » dos ataques contra eles, os disparos continuaram no mesmo dia, sugerindo ou uma posição conciliadora tática, de pura fachada, dos iranianos, ou um início de desintegração do regime entre a ala dura representada pelos Pasdarans e uma autoridade política supostamente mais moderada.  Em todos os casos, outro sinal do enfraquecimento do regime iraniano foi o atraso na designação de um sucessor de Khamenei durante os últimos oito dias, sabendo que os Guardiões da Revolução procuram impor a candidatura do filho do Guia assassinado, Mojtaba Khamenei, cuja designação é rejeitada pelos americanos. Os israelitas, por sua vez, continuam a opor-se a qualquer eleição de um novo Guia: depois de terem atacado pela primeira vez o local de reunião do Conselho Iraniano de Especialistas encarregado desta missão, o exército israelita, pela voz do seu porta-voz arabófono, Avichay Adraee, ameaçou novamente este conselho com um novo ataque em caso de reunião para a votação, que seria «iminente».  Em todo o caso, esta primeira semana de conflito terminou na noite de 7 para 8 de março com uma escalada de ordem «qualitativa», nomeadamente o bombardeamento de quatro depósitos de combustível na periferia de Teerão, o que provocou incêndios monstruosos em toda a capital.    A abertura da frente no Líbano A outra grande surpresa foi a reabertura pelo Hezbollah da frente do Líbano-Sul. Esta iniciativa, suicidária em todos os sentidos da palavra, ocorreu a pedido expresso dos Pasdaran. No que constituiu uma declaração de guerra a Israel, o partido pró-iraniano lançou assim foguetes Katioucha contra o território israelita na noite de 1 º para 2 de março, quase 48 horas após o início da ofensiva americano-israelita e menos de dois anos e meio após a «guerra de apoio» a Gaza, em 8 de outubro de 2023, da qual o país ainda não se recuperou.  Incrédulos, os libaneses viram-se novamente atolados num círculo vicioso de violência, bombardeamentos destrutivos, êxodo de habitantes de regiões inteiras no Líbano-Sul, no subúrbio sul de Beirute e no vale de Bekaa-norte. O Hezbollah, por sua vez, continua os seus ataques diários ao norte de Israel, empregando foguetes e drones. Chegou mesmo a lançar drones contra uma base britânica na pacífica ilha de Chipre.  Tanques Merkava israelitas na fronteira libanesa. Depois desta nova frente aberta a partir de um país exangue, minado pela crise económica e pelas consequências de uma guerra muito recente, mesmo os mais acérrimos defensores da «libanês» (!) do Hezbollah tiveram de rever as suas teorias. Pois este partido, que continuava a sofrer, sem reagir, assassinatos seletivos israelitas apesar do cessar-fogo de 27 de novembro de 2024, só ripostou ao assassinato do Guia Supremo da revolução iraniana, o que foi unanimemente percebido como uma clara resposta a uma ordem vinda do «padrinho» iraniano.  Ameaças israelitas  Esta decisão apanhou de surpresa toda a classe política libanesa, incluindo o aliado do partido pró-iraniano, o chefe do movimento Amal e presidente do Parlamento libanês, Nabih Berry. O presidente da República Joseph Aoun e o governo de Nawaf Salam posicionaram-se claramente contra esta decisão unilateral do Hezbollah, decretando como «ilegais» todas as suas atividades militares e ordenando-lhe que entregasse as suas armas, como resulta de uma resolução do Conselho de Ministros, datada de segunda-feira, 2 de março. No entanto, esta decisão inédita das autoridades libanesas, cuja execução foi confiada ao exército libanês (anteriormente encarregado de desarmar o sul do Litani, com o sucesso que se conhece), não colocou o poder a salvo das críticas internas nem das ameaças israelitas, face ao regresso dos combatentes do Hezb às fronteiras. O Ministro da Defesa israelita, Israel Katz, ameaçou no sábado o Líbano com um pesado preço a pagar se não conseguir desarmar este partido.  Em todo o caso, este novo conflito parece diferente do que o precedeu: o exército israelita ocupa espaços ainda mais importantes, chegou mesmo a realizar uma descida de helicóptero numa aldeia da Bekaa, no sábado, 7 de março, e toda a região a sul do Litani está agora evacuada pelos habitantes, assim como o subúrbio sul de Beirute. Entre os assassinatos seletivos, vários visaram quadros iranianos dos Guardiões da Revolução, incluindo no Monte Líbano e em Beirute, regiões consideradas «seguras». O desfecho deste novo episódio sangrento é mais incerto do que nunca.  O regime iraniano decidiu semear o caos e sacrificar novamente países como o Iraque e, acima de tudo, o Líbano, bem como as suas relações com os países vizinhos, do Golfo Árabe ao Azerbaijão e Chipre. Como será o Médio Oriente depois deste episódio explosivo? Sem dúvida, este conflito desempenhará o papel de acelerador da história.

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