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O Essencial do Dia

Entre o “presente” de Trump e as negativas iranianas, negociações cercadas de incerteza

As últimas 24 horas em um Oriente Médio em guerra oferecem uma ilustração clara da difícil coexistência entre o agravamento dos combates e os persistentes relatos de negociações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã. Enquanto os ataques israelenses e americanos contra infraestruturas militares e civis iranianas continuam sem interrupção e milhares de fuzileiros navais devem ser enviados à região nos próximos dias, reportagens de veículos confiáveis sobre uma lista de 15 pontos apresentada por Washington como base para negociações com Teerã dominam as manchetes desde a noite de terça-feira. Esforços de mediação por parte do Paquistão, da Turquia e de outros países também estariam em andamento. Os ataques à infraestrutura energética da República Islâmica, ameaçados por Trump no domingo, parecem, por ora, ter sido adiados. Segundo reportagens de meios como The New York Times e o Canal 12 de Israel, a proposta americana de 15 pontos concentra-se principalmente na questão nuclear, exigindo o fim do enriquecimento de urânio e o desmantelamento das instalações nucleares, além de limites à produção de mísseis balísticos e a reabertura total do Estreito de Ormuz. Um dos pontos, relativo ao Líbano e a outros países da região, como o Iraque, pede que o Irã suspenda seu apoio a “proxies” como o Hezbollah e o Hashed al-Shaabi, alvo dos ataques intensificados dos Estados Unidos nos últimos dias. Enquanto essas medidas representam a pressão, a contrapartida seria a promessa de suspensão das sanções internacionais, desde que possam ser restabelecidas em caso de descumprimento, além de assistência ao desenvolvimento. Em troca, ainda segundo relatos da imprensa, o Irã teria estabelecido suas próprias condições, incluindo o levantamento das sanções, garantias de um fim definitivo da guerra, controle sobre o Estreito de Ormuz, a preservação de seu programa de mísseis e compensações pelos danos causados pelo conflito. Chama a atenção a ausência de menção ao programa nuclear iraniano, sendo o único aliado citado o Hezbollah libanês, para o qual os negociadores iranianos estariam buscando a suspensão dos ataques israelenses. Condições “excessivas” Além desses vazamentos à imprensa, declarações públicas sugerem certo grau de “exuberância” por parte dos Estados Unidos, refletida nas falas de Trump na noite de terça-feira, quando mencionou um “presente muito grande” que os iranianos teriam oferecido, sem detalhar sua natureza. Ele também insistiu que o Irã estaria disposto a um acordo a qualquer custo. No entanto, essas expectativas iniciais de negociação foram rapidamente esfriadas por declarações de uma “fonte oficial iraniana”, que afirmou à televisão estatal na tarde de quarta-feira que as condições americanas eram “excessivas”, que o Irã “não permitirá que Trump dite o fim da guerra” e que Teerã continuará combatendo. Trata-se de uma rejeição definitiva ou de uma estratégia para elevar o nível de exigência antes de eventuais negociações? O destino dessa iniciativa deve se tornar mais claro até o fim da semana, prazo estabelecido pelo próprio Trump. Um cenário interno em ebulição Enquanto isso, no Líbano, as tensões permanecem no auge, tanto na frente sul quanto no campo político. Confrontos e trocas de tiros continuam ao sul do rio Litani entre o exército israelense e o Hezbollah, que lançou centenas de drones e foguetes contra forças israelenses em território libanês e israelense. Embora o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, tenha afirmado ter aprovado um novo plano para ampliar as operações no Líbano, essas declarações já começam a se refletir no terreno: o principal desenvolvimento na manhã de quarta-feira, 25 de março, foi o avanço das forças israelenses em direção à vila cristã de Debl, no distrito de Bint Jbeil. Embora combatam em uma frente que eles próprios abriram, os militantes do Hezbollah contam cada vez menos com solidariedade interna no Líbano. A controvérsia sobre a ordem de expulsão do embaixador iraniano no país, emitida pelo governo, continua a se intensificar, especialmente entre os partidos xiitas Amal e Hezbollah. Após um comunicado contundente do Hezbollah no dia anterior, o Amal divulgou sua própria nota na quarta-feira, pedindo às autoridades que revertam a decisão “para evitar uma crise política e nacional no país”. A decisão baseia-se em suspeitas de interferência nos assuntos internos por parte do embaixador Mohammad Reza Shibani, que ainda não apresentou suas credenciais ao presidente Joseph Aoun. A medida ecoa relatos de que membros da Guarda Revolucionária iraniana estariam presentes em número significativo no Líbano, utilizando passaportes falsos para supervisionar diretamente o Hezbollah, que está sem seus comandantes históricos desde 2024. O primeiro-ministro Nawaf Salam mencionou esses elementos em uma entrevista recente. Embora tenha sido bem recebida por diversas vozes no Líbano e no exterior, a medida pode desestabilizar o governo, que deve se reunir na quinta-feira às 15h no Grande Serail, sob a presidência do primeiro-ministro, e não do presidente Aoun. A ministra do Meio Ambiente, Tamara Zein, deu o tom na noite de terça-feira ao afirmar, em entrevista televisiva, que não descartava “a retirada dos ministros xiitas do governo”. Segundo a MTV, negociações estão em curso para evitar o colapso do gabinete, possivelmente por meio de uma solução já conhecida no país: a substituição do embaixador ou a prorrogação do prazo de expulsão, atualmente previsto para expirar no domingo à noite. Somam-se a isso as ameaças recorrentes de dirigentes do Hezbollah, incluindo Wafic Safa, além das tensões geradas pela decisão do governo de declarar ilegais as operações militares do grupo e pela controvérsia em torno da proposta do presidente Aoun de negociações diretas com Israel. Essa nova disputa aprofunda ainda mais o desgaste nas relações entre uma milícia armada e os demais atores políticos libaneses. O clima é tão tenso que os fantasmas da guerra civil parecem ressurgir, alimentados pelo temor de uma nova ocupação israelense de amplas áreas do sul, que já provocou deslocamentos significativos da população. Em resposta a essas preocupações, Aoun afirmou ao jornal an-Nahar que “não há uma nova guerra civil” no Líbano. Nesse ambiente carregado, surgiu na quarta-feira uma nova mensagem do secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem. Pela segunda vez consecutiva, ele não apareceu em vídeo, nem mesmo em gravação; sua breve mensagem foi lida por um terceiro no canal al-Manar. Sem abordar diretamente a expulsão do embaixador iraniano, Qassem declarou que “qualquer negociação sob fogo é uma capitulação” e defendeu a “unidade nacional contra o projeto israelo-americano que levará ao Grande Israel, apagando o Líbano”. Mantendo sua posição habitual, Qassem argumentou que o monopólio estatal das armas “enfraquece o Líbano”, alertou o governo “contra decisões que sirvam aos interesses de Israel, mesmo que a intenção seja outra”, e afirmou que “não tem dúvida, nem por um segundo, da vitória da Resistência”.

Pela primeira vez desde Taif, Beirute afirma sua autoridade diante do eixo iraniano

Após a proibição oficial das atividades militares do Hezbollah e da Guarda Revolucionária iraniana no Líbano, a decisão de expulsar o embaixador do Irã em Beirute e de convocar o chefe da missão diplomática libanesa em Teerã marca, sem dúvida, o passo mais significativo dado pelo governo de Nawaf Salam desde que o Hezbollah arrastou o país para o confronto militar que opõe o Irã a Israel e aos Estados Unidos. E por uma razão simples: pela primeira vez desde Taif, em 1989, as autoridades libanesas estabelecem limites claros e buscam proteger o país das interferências externas em seus assuntos internos, interferências que frequentemente se mostraram prejudiciais, até mesmo devastadoras. Na terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Líbano convocou o encarregado de negócios da embaixada iraniana para informá-lo de que Beirute decidiu retirar o credenciamento do embaixador Mohammad Reza Shibani, ordenando que deixe o país até domingo. Nomeado em meados de fevereiro para chefiar a missão diplomática iraniana em Beirute, Shibani chegou à capital libanesa apenas uma semana antes do início da guerra. A decisão de expulsá-lo foi imediatamente bem recebida em Tel Aviv e em Paris, enquanto figuras próximas ao Hezbollah a denunciaram como um escândalo. Por que isso importa? Porque permite ao Estado libanês demonstrar que leva a sério a restauração de sua soberania e o fim dos grupos armados e de seus patrocinadores, em um momento em que sua ação, ou falta dela, após a decisão inicial tomada no início de março, vinha sendo criticada tanto no plano interno quanto no internacional. Beirute sinaliza, assim, que, embora ainda não consiga deter a trajetória destrutiva para a qual o Hezbollah conduziu o país nem iniciar o desarmamento de uma milícia que continua a ameaçar as autoridades libanesas, mantém margem de manobra nos planos político e judicial. De fato, mandados de prisão já foram emitidos contra um grupo de milicianos detidos enquanto transportavam foguetes para o sul do Líbano. A Rebelião do Hezbollah e do Amal A grande questão permanece: até onde o governo irá, política e judicialmente, contra o Hezbollah, cujos dirigentes e aliados próximos denunciaram a expulsão do embaixador iraniano. Segundo várias fontes convergentes, o Hezbollah e o líder do movimento Amal, que também preside ao Parlamento, Nabih Berri, teriam entrado em contato com o diplomata para instá-lo a permanecer no cargo e ignorar a ordem do governo libanês de deixar o país. Algumas fontes acrescentam que o embaixador considera a decisão “nula”. Ao final do dia, o Hezbollah divulgou um comunicado atacando duramente o ministro das Relações Exteriores, Joe Raggi, e rejeitando a decisão do governo. Além da contestação do Hezbollah e de Nabih Berri, o vice-presidente do Conselho Superior Xiita, Ali Khatib, alinhado ao Irã, denunciou a medida como “precipitada, imprudente, ilegítima e injustificada”. Na realidade, porém, a decisão já era esperada há muito tempo. O próprio primeiro-ministro Nawaf Salam confirmou há poucos dias o que já era evidente: agentes da Guarda Revolucionária estão presentes no Líbano em número significativo, encarregados de coordenar a guerra contra Israel e, muito antes do início das hostilidades, de organizar e treinar os líderes e combatentes do grupo alinhado ao Irã. O aspecto mais grave das declarações do líder religioso é ter qualificado uma decisão oficial do governo como “uma provocação contra uma comunidade libanesa”, referindo-se à comunidade xiita, que o Hezbollah afirma representar de forma exclusiva. A expulsão do diplomata iraniano, a pedido do governo, justifica-se, em particular, pelo fato de o embaixador Shibani ter violado as disposições da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e descumprido suas obrigações ao interferir nos assuntos internos do Líbano, explicou o Ministério das Relações Exteriores em comunicado. A pasta destacou que a medida não constitui uma ruptura das relações diplomáticas com o Irã, mas decorre de uma série de ações do embaixador, incluindo declarações públicas sobre a política interna libanesa e avaliações de decisões governamentais, em desacordo com as normas diplomáticas estabelecidas. O Ministério também criticou Mohammad Reza Shibani por ter se reunido com grupos libaneses não oficiais sem coordenação com a pasta, em uma referência clara ao Hezbollah. O precedente de Albert Moukheiber com o embaixador egípcio Vale a pena recordar, a este respeito, o precedente, na história contemporânea do Líbano, da expulsão do embaixador egípcio de Beirute no contexto da guerra civil de 1958. Albert Moukheiber era então Ministro das Relações Exteriores interino e decidiu expulsar o embaixador egípcio, que foi acusado, tal como no caso atual do embaixador iraniano, de interferência desestabilizadora nos assuntos internos libaneses. Escalada de ataques Esse desenvolvimento ocorre enquanto as tensões no terreno se intensificam, com a retomada de trocas de fogo violentas entre Israel e o Hezbollah, no contexto de uma escalada regional mais ampla. Um elemento marcante na terça-feira foi o envolvimento do Iraque, assim como o Líbano, no conflito em curso: quinze combatentes da milícia pró-iraniana Hashed al-Shaabi, incluindo um comandante de alto escalão, foram mortos ao amanhecer em um ataque aéreo no oeste do Iraque, o mais letal contra essa coalizão de ex-paramilitares, que o denunciou como “um ataque americano”. Entre as vítimas estava “o comandante das operações de Al-Anbar do Hashed al-Shaabi, Saad Dawaï”. O bombardeio na região de Habbaniya ocorreu durante uma reunião de comando, segundo um responsável da aliança ouvido pela AFP. Al-Anbar, região de maioria sunita, é a maior província do Iraque em extensão territorial e faz fronteira com áreas estratégicas da Síria, da Arábia Saudita e da Jordânia. Ilustrando a espiral na qual o Iraque está sendo arrastado em meio ao conflito regional, a região autônoma do Curdistão, no norte, acusou o Irã de lançar mísseis balísticos contra suas forças armadas, matando seis soldados peshmerga. Em ambos os casos, trata-se dos ataques mais letais desde o início da guerra em 28 de fevereiro. No passado, o Irã já havia disparado mísseis balísticos contra a região autônoma, mas nos últimos anos as relações haviam melhorado. Com a guerra, os líderes do Curdistão adotam cautela e buscam manter certo grau de neutralidade. Em comunicado, o Ministério Peshmerga denunciou “um ato de agressão distante de qualquer princípio de boa vizinhança” e acrescentou: “Reiteramos nosso direito soberano e legítimo de responder a qualquer agressão contra nosso povo e nosso território”. O Irã, que acaba de nomear Mohammad Bagher Zolghadr, ex-comandante da Guarda Revolucionária e aliado do falecido Ali Larijani, para chefiar o Conselho Supremo de Segurança, prossegue com seus ataques contra Israel. Enquanto isso, Arábia Saudita e Kuwait anunciaram que também foram alvo de ataques com drones e mísseis. Em resposta, o exército israelense atingiu cerca de uma centena de alvos, incluindo uma série de bombardeios em Isfahan. Segundo a agência Fars, duas instalações energéticas iranianas foram atingidas em ataques conjuntos israelenses e americanos, poucas horas após o anúncio inesperado do presidente Donald Trump de poupar algumas usinas por cinco dias, prazo que havia estabelecido para que Teerã respondesse às condições apresentadas para negociações. Em Israel, cerca de dez mísseis iranianos atingiram o norte e o centro do país, ferindo várias pessoas em Tel Aviv, evidenciando mais uma vez a intensidade de um confronto que ameaça se ampliar, apesar da perspectiva de negociações entre Teerã e Washington. Negociações e ceticismo Nesse contexto, observa-se em Israel certo ceticismo quanto aos possíveis resultados das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, anunciadas na segunda-feira por Donald Trump. O presidente estabeleceu um prazo de cinco dias para avançar nas discussões com “um alto responsável iraniano”, cuja identidade não foi revelada, antes de retomar os bombardeios e atingir, em particular, a rede elétrica iraniana. No plano diplomático, continuam a surgir informações não confirmadas sobre contatos bilaterais, enquanto veículos de comunicação noticiam que o exército americano se prepara para enviar reforços ao Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, cujos objetivos de guerra nem sempre coincidem com os de seu aliado, afirmou que Trump considera possível “alcançar um acordo que preserve os interesses vitais de Israel”. Mas “ao mesmo tempo, continuamos a atacar tanto o Irã quanto o Líbano”. Em resposta, a Guarda Revolucionária declarou que continuará lançando mísseis contra Israel caso este “persista em seus ataques contra o Líbano e a Palestina”. Mísseis iranianos no espaço aéreo libanês foram interceptados na tarde de terça-feira, em meio a informações contraditórias sobre seu alvo, a embaixada americana em Awkar ou Chipre. Em todo caso, destroços caíram em várias áreas de Kesrouan sem causar vítimas. De Teerã, o Ministério das Relações Exteriores limitou-se a reconhecer o recebimento, por meio de “países amigos”, de “mensagens que transmitem um pedido americano de negociações”. Seja qual for o alcance real dessas iniciativas diplomáticas, Catar, Egito e Paquistão afirmaram apoiar “todos os esforços” para promover o diálogo. Enquanto Doha indicou não desejar participar diretamente, Islamabad manifestou disposição para sediar eventuais negociações entre os Estados Unidos e o Irã, afirmando ter sido consultado nesse sentido. Doha também sugeriu que os países vizinhos do Irã revisem coletivamente seus dispositivos de segurança. “Os Estados do Golfo, que trabalharam em estreita coordenação para garantir sua segurança, precisam reavaliar um quadro comum de segurança regional”, declarou Majed al-Ansari, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar. Em Washington, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, não negou informações sobre iniciativas diplomáticas paquistanesas, mas pediu que essas “especulações” não sejam consideradas confirmadas até o anúncio oficial. O envolvimento de Islamabad faria sentido, segundo Michael Kugelman, especialista em Ásia do Sul no Atlantic Council. “O Paquistão é um dos poucos países que mantêm boas relações tanto com Teerã quanto com Washington” e “representa os interesses diplomáticos do Irã em Washington”, onde o país não possui embaixada. O Egito, por sua vez, parece seguir sua própria estratégia. Seu ministro das Relações Exteriores, Badr Abdelatty, manteve conversas nos últimos dias com representantes do Irã, dos Estados Unidos, da Turquia e do Paquistão, segundo comunicados oficiais. Rubio na Europa Em todo caso, com o prazo estabelecido por Donald Trump para o Irã expirando na sexta-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, deve estar na França para uma reunião do G7, onde discutirá a guerra no Irã e a situação mais ampla no Oriente Médio com seus homólogos europeus. Será sua primeira viagem ao exterior desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro.

O súbito otimismo de Trump e as linhas de fratura iraniana
Por
Michel Touma
Publicado
mar 23, 2026 - 21:42

Os círculos políticos em todo o mundo, e mais particularmente os mercados internacionais, viviam nesta segunda-feira, 23 de março, na angústia dos desenvolvimentos militares que poderiam ocorrer com o fim do prazo, à noite, do ultimato lançado pelo presidente Donald Trump ao regime iraniano, exigindo-lhe que garantisse a livre circulação marítima no Estreito de Ormuz, sob pena de ordenar o bombardeamento das centrais elétricas e da infraestrutura energética no Irão. Em reação, Teerão ameaçou atacar as instalações energéticas e vitais, nomeadamente as estações de dessalinização de água do mar, em vários países do Golfo. A segunda-feira começou assim num clima particularmente tenso até ao momento em que o chefe da Casa Branca revelou subitamente, no início da tarde (hora de Beirute), que tinham sido iniciadas discussões durante o fim de semana com “o Estado iraniano”, precisou ele sem qualquer referência à República Islâmica, a fim de chegar a um “acordo”, cujos contornos não indicou. Ele contentou-se em sublinhar, neste contexto, que tinha adiado por “cinco dias” o bombardeamento das instalações elétricas e energéticas, para dar tempo às conversações com o regime iraniano de se decantarem.  Numa discussão informal com jornalistas, o presidente dos EUA revelou que os contactos tinham sido feitos com “um alto funcionário iraniano muito respeitado”, observando que não se tratava do novo Guia Supremo, cujo destino, estado de saúde e localização permanecem, aliás, um mistério. No final da tarde, fontes israelitas revelaram que o “alto funcionário” em questão era o chefe do Parlamento iraniano, Mohammed Bagher Ghalibaf, um ex-general da Guarda Revolucionária Islâmica e ex-chefe da polícia. Os meios de comunicação israelitas e fontes americanas chegaram a sublinhar que estavam previstas conversações formais em Islamabad, Paquistão, entre o Sr. Ghalibaf, por um lado, e o vice-presidente americano, Sr. Vance, e os negociadores designados pelo Sr. Trump.    Mas uma nova reviravolta: pouco tempo depois do anúncio do presidente dos EUA, os meios de comunicação próximos dos Pasdaran, bem como o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano e “fontes autorizadas” em Teerão desmentiram categoricamente qualquer contacto, direto ou indireto, com a Administração dos EUA. Na sequência do desmentido tornado público pelos Pasdaran, o principal visado, o chefe do Parlamento, também publicou, no início da noite, um comunicado afirmando que nenhuma negociação tinha ocorrido com Washington, nem diretamente nem por meio de um mediador.  Esta flutuação no nível iraniano suscitou muitas perguntas. O presidente Trump teve discussões com uma ala “moderada” do regime iraniano, representada neste caso pelo presidente do Parlamento, sem que os Guardiões da Revolução estivessem associados de perto ou de longe? O desmentido que os Pasdaran se apressaram a publicar revelou abertamente uma clara linha de fratura no seio do regime entre uma corrente pragmática, que defende um acordo realista com os Estados Unidos, e a fação radical e intransigente que recusa qualquer compromisso e insiste em continuar o combate com os Estados Unidos e Israel?  Tem-se falado frequentemente nos últimos anos de uma tal clivagem entre duas correntes “reformista” e “radical” no Irão, mas dada a viragem tomada pela guerra total travada pelos exércitos americano e israelita contra o regime dos mulás, a fissura entre estas duas alas do poder, controlada antes da guerra pelo ayatollah Ali Khamenei, sem dúvida alargou-se e poderá ter resultado, com toda a probabilidade, numa profunda fratura no seio do regime entre os “pragmáticos” e os “radicais”, sobretudo na ausência de um Guia Supremo capaz de se impor como árbitro e como último recurso. Esta rutura e a ausência da autoridade do walih el-faqih explicariam a rapidez com que os Pasdaran se apressaram a desmentir qualquer projeto de acordo ou qualquer negociação iniciada com a parte americana.  Com o objetivo evidente de desacreditar e esvaziar de conteúdo o anúncio feito pelo presidente Trump, os Pasdaran e o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano chegaram a afirmar que as declarações do chefe da Casa Branca não constituem senão uma “manobra que visa fazer baixar o preço do petróleo no mercado internacional”. Quer este julgamento de intenção seja fundado ou não, as revelações do presidente americano provocaram efetivamente uma rápida queda da cotação do barril do West Texas Intermediate, para entrega em maio, que perdeu em poucas horas cerca de 7,4% do seu valor, caindo para 90,95 dólares. Neste contexto, alguns observadores sublinham que o novo prazo de cinco dias, ou seja, até sexta-feira, fixado pelo presidente Trump reflete a vontade de acalmar os mercados durante toda esta semana e de conter o clima de pânico que era percetível durante o fim de semana e na manhã de segunda-feira.  Mudança de regime? Em todo o caso, o presidente Trump manteve durante todo o dia e a noite de segunda-feira um claro clima de otimismo que acentuou ao fornecer as grandes linhas das conversações que teriam sido iniciadas com o “alto funcionário” iraniano. Ele precisou primeiro que os contactos tinham sido iniciados “sábado à noite”, afirmando ainda que uma “mudança de regime” está em curso no Irão. “Há uma mudança de regime”, sublinhou, observando que todos os altos funcionários do poder que estava em vigor antes da guerra foram mortos.  O presidente dos EUA afirmou que “o Irão quer chegar a um acordo” e que os seus novos interlocutores em Teerão, que ele qualificou de “muito razoáveis”, aceitaram entregar o seu stock de urânio enriquecido, reduzir significativamente o alcance dos seus mísseis balísticos, pôr fim ao enriquecimento de urânio e, portanto, renunciar a dotar-se de armamento nuclear, e abster-se de desestabilizar os países do Médio Oriente. Tantas concessões que, se confirmadas nos factos e concretizadas por um acordo sólido, equivaleriam a uma capitulação total.  Os próximos dias permitirão levantar as incertezas sobre este plano. Enquanto se aguarda, as operações militares, os bombardeamentos e os ataques aéreos prosseguem intensamente tanto em várias regiões iranianas como no Sul do Líbano, onde o exército israelita anunciou ter feito prisioneiros vários membros da unidade de elite do Hezbollah, al-Radwane.

Lançamento de mísseis contra Diego Garcia: o Irão revela a sua ameaça contra a Europa

Três grandes desenvolvimentos, com uma inegável dimensão estratégica, marcaram nas últimas vinte e quatro horas a guerra entre a aliança americano-israelense e a República dos mulás em Teerã. O Irã lançou assim, pela primeira vez, dois mísseis balísticos de médio alcance em direção à base americano-britânica de Diego Garcia, localizada no Oceano Índico, a cerca de 4000 quilômetros do Irã. Os dois mísseis não atingiram o alvo, mas a importância deste lançamento reside no seu significado geopolítico. O alcance dos mísseis iranianos era geralmente estimado em 2000 quilômetros. O fato de esses dois mísseis balísticos terem tido um alcance de quase 4000 quilômetros constitui uma prova tangível de que a República Islâmica estava realmente trabalhando para se equipar com um arsenal de mísseis capazes de atingir potencialmente capitais europeias, incluindo Paris e Londres, localizadas respectivamente a 4200 e 4400 quilômetros de Teerã. Tal informação, de fato, refuta categoricamente certas esferas e observadores ocidentais que fazem campanha contra a batalha travada contra a República Islâmica, alegando que o regime iraniano não constituía de forma alguma uma ameaça para os países europeus e os interesses ocidentais. Outro grande desenvolvimento ocorrido neste sábado, 21 de março: o bombardeio pela aviação americana, pela segunda vez em três semanas, da central nuclear de Natanz e de seu centro de enriquecimento de urânio. Bombas antibunker foram usadas durante este bombardeio para atingir alvos subterrâneos enterrados a grandes profundidades. Nenhum vazamento radioativo foi relatado após esta operação, disse a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No sábado, no meio da tarde, a aviação americana sobrevoava a área de Isfahan, onde está localizada outra importante central nuclear. Vinte países se comprometem a desbloquear Ormuz O outro assunto que tem focado a atenção das chancelarias ocidentais e dos meios econômicos internacionais manifesta-se no nível das ameaças que a República Islâmica impõe à circulação marítima no estreito de Ormuz. O novo desenvolvimento ocorrido sábado neste plano é o compromisso assumido por cerca de vinte países, incluindo França, Emirados Árabes Unidos, Japão, Canadá e Reino Unido, de se unirem aos esforços para garantir a reabertura do estreito de Ormuz. O presidente Donald Trump, convém assinalar neste plano, multiplicou nos últimos dias seu apelo para uma participação ativa dos países ocidentais na ação recomendada para garantir a livre circulação de navios nesta via marítima. No âmbito de sua contribuição neste plano, os Estados Unidos enviaram para a região aviões A-10 Warthog equipados com tecnologia militar de ponta, permitindo atingir de forma particularmente eficaz embarcações que representem uma ameaça à circulação marítima. Paralelamente, as aviações americana e israelense intensificaram sábado e nas últimas vinte e quatro horas o bombardeio de depósitos de mísseis e plataformas de lançamento localizados na área do estreito de Ormuz. Todos esses desenvolvimentos corroboram a tese, relatada há alguns dias por diversos círculos, de que o exército americano está preparando um desembarque na ilha iraniana de Kharg, cuja importância altamente estratégica reside no fato de que 90% das exportações de petróleo iranianas transitam por esta ilha, que se beneficia de águas profundas permitindo a atracagem de superpetroleiros gigantes. O exército israelense prossegue sua progressão no Líbano do Sul Na frente libanesa, o exército israelense prosseguiu no sábado sua lenta e prudente progressão em território libanês, ocupando novas posições estratégicas que lhe permitiriam consolidar seu plano de estabelecer uma zona tampão entre o Litani e a fronteira com o Líbano. Esta ocupação gradual do terreno, perceptível sábado mais particularmente na região de Nakoura, é acompanhada por um bombardeio intensivo de várias aldeias na região meridional. Paralelamente, foram relatados confrontos sábado na localidade de Khiam, onde o exército israelense enfrenta dois bolsões de resistência mantidos por milicianos do Hezbollah. Paralelamente, a aviação do Estado hebraico prosseguiu na noite de sexta-feira e no dia de sábado seu bombardeio intermitente das infraestruturas milicianas do Hezbollah em vários bairros do subúrbio sul, incluindo Haret Hreik e Bourj Brajneh.

Aoun estigmatiza as ações do Hezbollah no Golfo
Por
LevantTime .
Publicado
mar 21, 2026 - 01:31

Foi ao ritmo das trocas de mísseis entre o Irã e Israel que o mundo árabe e islâmico celebrou, na sexta-feira, a festa do Fitr, que marca o fim do jejum do Ramadã. O presidente libanês Joseph Aoun conversou por telefone na sexta-feira nesta ocasião com seu homólogo emiradense, Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan. Durante esta conversa, o chefe de Estado "estigmatizou o envolvimento de alguns partidos políticos em uma conspiração de sabotagem que os Emirados anunciaram ter frustrado hoje" (sexta-feira), de acordo com um comunicado da presidência libanesa, referindo-se às acusações contra o Hezbollah. A milícia pró-iraniana, por sua vez, rejeitou na sexta-feira as acusações "falaciosas" dos Emirados Árabes Unidos que anunciaram a prisão de pelo menos cinco membros de uma rede terrorista ligada ao Irã e ao Hezbollah, em meio à guerra no Oriente Médio. Esta é a terceira vez esta semana que o movimento xiita nega qualquer ligação com células desmanteladas em países do Golfo. A rede do Hezbollah nos Emirados "buscava infiltrar-se na economia nacional e realizar operações externas ameaçando a estabilidade financeira do país" no âmbito de "um plano estratégico predefinido, em coordenação com partes externas ligadas ao Hezbollah e ao Irã", indicou a agência de notícias oficial Wam, citando os serviços de segurança dos Emirados. Neste mesmo contexto, o Hezbollah negou por duas vezes esta semana qualquer presença no Kuwait, após a prisão de 16 pessoas acusadas de planejar uma operação de "sabotagem". As autoridades kuwaitianas também relataram o desmantelamento de uma célula de dez pessoas afiliadas ao Hezbollah que preparava, segundo o emirado, "uma conspiração terrorista visando instalações vitais". Durante uma conversa telefônica com o emir do Kuwait, o presidente Aoun também condenou as ações do Hezbollah no emirado. Por sua vez, o embaixador dos Estados Unidos em Beirute, Michel Issa, elogiou a proposta do presidente Joseph Aoun de iniciar negociações diretas com Israel para pôr fim à guerra contra o Hezbollah. O Sr. Issa, no entanto, declarou que Israel não "decidiu pôr fim aos seus ataques". "O Líbano deve decidir se deve se encontrar com os israelenses nestas circunstâncias", acrescentou. Além disso, o chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, apelou na sexta-feira ao Irã por "concessões importantes". "O regime iraniano deve resolver-se a uma mudança radical de postura que permita a coexistência pacífica do Irã com o seu ambiente regional", acrescentou. A diplomacia francesa busca, em particular, evitar um alargamento do conflito entre Israel e o Líbano, arrastado pelo Hezbollah em uma guerra que, no entanto, não lhe diz respeito. Jean-Noël Barrot condenou assim "a decisão inadmissível e irresponsável do Hezbollah" que se juntou "às agressões iranianas contra Israel", reafirmando a disponibilidade de Paris para facilitar negociações "diretas" entre Tel Aviv e Beirute. Tel Aviv ainda não descarta a eventualidade de uma incursão terrestre em grande escala que a França tenta evitar, enquanto o Hezbollah continua a alvejar o norte de Israel. O porta-voz militar israelense anunciou na sexta-feira que Tel Aviv planeja aumentar a pressão sobre o Hezbollah e expandir, nos próximos dias, suas operações militares terrestres no sul do Líbano. Ele especificou que o exército israelense alvejou mais de 2.000 alvos deste grupo desde que começou a atacar seu território, e continuará a fazê-lo. Desde o início da guerra lançada pelo eixo Israel-Estados Unidos contra o Irã, em 28 de fevereiro, as autoridades israelenses repetem que suas operações militares só terminarão quando os objetivos estabelecidos forem alcançados: aniquilar as capacidades do Irã de produzir armas nucleares e balísticas, enfraquecer, senão destruir, o regime dos Mulás e seus proxies na região. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente americano, Donald Trump, reafirmaram que estão se aproximando disso. Diante dessas declarações, a Guarda Revolucionária no Irã reagiu anunciando, na sexta-feira, que Teerã "continua, desde o início da guerra, a produção de mísseis", não conhece escassez de estoques, e que "não há nenhuma preocupação a esse respeito", segundo a agência Reuters. Eles, ao mesmo tempo, ameaçaram alvejar autoridades israelenses e americanas. Essa ameaça, em particular, segue a eliminação contínua de quadros do comando iraniano. Os Pasdaran confirmaram assim na sexta-feira a morte de seu porta-voz, Ali-Mohammad Naïni, enquanto Israel anunciava a liquidação de um "comandante chave do Ministério da Inteligência iraniano, Mehdi Rastami Shmastan, durante um ataque direcionado, na quarta-feira". Em outro plano, o Reino Unido autorizou os Estados Unidos a usar bases britânicas para atacar locais iranianos visando o Estreito de Ormuz no âmbito de "operações defensivas", uma decisão que Londres deveria ter tomado "muito mais rapidamente" segundo Donald Trump. O chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, acusou no X o primeiro-ministro Keir Starmer de colocar "vidas britânicas em perigo ao autorizar o uso de bases britânicas para realizar uma agressão contra o Irã".

Aumento do tom dos países árabes e islâmicos contra o Irã, que deve «cessar os seus ataques»

Enquanto os combates no terreno no Líbano-Sul continuam a fazer estragos, e a escalada prossegue na frente iraniana, os olhos estão postos em Riade neste 19 de março: a capital saudita acolheu uma reunião extraordinária dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países árabes e islâmicos. Os Estados árabes do Golfo são de facto o alvo dos mísseis iranianos desde o início do ataque israelo-americano a este país no passado dia 28 de fevereiro: sob o pretexto de ataques contra os interesses americanos nestes países, os Guardiões da Revolução iraniana visam as infraestruturas civis e as cidades, e continuam a ameaçar as infraestruturas petrolíferas. O tom das intervenções no final desta reunião em Riade foi particularmente firme, não só em relação aos mísseis e drones que caem sobre o Golfo, mas também em relação às ameaças iranianas de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, e em particular o proveniente dos países do Golfo. O ministro saudita dos Negócios Estrangeiros, Fayçal ben Farhan al-Saoud, expressou claramente a recusa de qualquer chantagem ligada ao Estreito de Ormuz, e sublinhou «o direito dos países (do Golfo) a defenderem-se contra os ataques incessantes». Por unanimidade, os ministros reunidos condenaram «os ataques iranianos totalmente injustificados, por mísseis e drones, a zonas residenciais», reafirmando «o direito dos Estados à legítima defesa, em conformidade com o artigo 51 da Carta das Nações Unidas». Lançaram «um apelo ao Irão para que ponha fim imediato aos seus ataques e respeite o direito internacional, bem como os princípios de boa vizinhança», afirmando que «o futuro das relações com o Irão depende do seu respeito pela soberania dos Estados e pelo princípio de não ingerência nos assuntos internos». Finalmente, o outro grande ponto que constou no comunicado desta reunião é «a condenação de todo o apoio e ajuda ao armamento de milícias nos países árabes», o que diz respeito diretamente ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas na Palestina, ao Hached el-Chaabi no Iraque ou ainda aos Houthis no Iémen. O que se deve reter destas declarações é não só o tom firme unanimemente adotado por todos os países árabes e islâmicos, mas também o crescente isolamento em que a estratégia adotada pelo Irão desde o início da sua guerra com os Estados Unidos e Israel, que se baseia na vontade manifesta de semear o caos na região, começa a voltar-se contra si. Os ministros reunidos expressaram também o seu «apoio à segurança e estabilidade do Líbano, ao monopólio das armas nas mãos do Estado e à condenação dos ataques israelitas contra o seu solo». Ou seja, uma posição firme contra os dois beligerantes, o Hezbollah e Israel. O Líbano esteve presente nesta reunião na pessoa de Joe Raggi, ministro dos Negócios Estrangeiros. Nas suas declarações, este apelou aos países árabes e islâmicos para apoiarem a iniciativa do presidente Joseph Aoun a favor de negociações diretas com Israel, uma iniciativa lançada com o objetivo de pôr fim à guerra no Líbano que já causou quase um milhar de mortos e mais de um milhão de deslocados. Até agora, nem Israel (e por trás dele os Estados Unidos) nem o Hezbollah (e o tandem xiita no Líbano) mostram boas disposições a este respeito. Ao mesmo tempo que condenou os ataques israelitas, o ministro libanês não deixou de censurar o Irão por ter arrastado o Líbano para a guerra através do Hezbollah, uma posição a anos-luz da dos seus antecessores. Reafirmou finalmente a condenação do Líbano aos ataques levados a cabo por Teerão contra o Golfo. À margem da reunião, o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros, Assaad Chibani, reafirmou ao seu homólogo libanês que o seu país não tem qualquer intenção de entrar no Líbano nem de se intrometer nos seus assuntos internos. Segundo informações divulgadas recentemente nos meios de comunicação, os Estados Unidos teriam pedido à Síria para se envolver na guerra em curso no Líbano para controlar o Hezbollah (um inimigo notório do novo regime sírio), mas Damasco teria recusado. Pela primeira vez, mísseis de longo alcance Enquanto os ministros árabes e islâmicos estão reunidos na Arábia Saudita, a diplomacia francesa está ativa no Líbano. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, era esperado em Beirute na quinta-feira. A França, recorde-se, apoia a iniciativa do presidente Aoun para negociações diretas com Israel e propôs que estas se realizassem em Paris. Na quarta-feira, as declarações do enviado do presidente francês ao Líbano, Jean-Yves Le Drian, causaram alvoroço: numa entrevista televisiva, ele considerou que o Hezbollah é diretamente responsável por esta nova escalada no Líbano pelo lançamento de rockets a 2 de março ao amanhecer, e que age em nome do Irão e não no interesse dos libaneses, e certamente não dos do Líbano-Sul. No entanto, criticou também os repetidos apelos ao governo libanês (nomeadamente pelos Estados Unidos) para desarmar o Hezbollah, salientando que Israel não conseguiu fazê-lo ao longo de anos de conflito, e que o Líbano não poderia, portanto, cumprir esta missão «em três dias e sob as bombas». Neste contexto, a visita de Jean-Noël Barrot a Beirute, segundo os observadores, tem poucas chances de fazer alguma diferença, ainda que o terreno pareça inflamar-se. O tempo da diplomacia, obviamente, ainda não chegou. Com efeito, apesar de uma calma relativa nas últimas horas nos subúrbios do sul de Beirute e na capital, a frente do Líbano-Sul está a ser palco de combates ferozes entre combatentes do Hezbollah e o exército israelita, tendo este último anunciado ter morto cerca de vinte deles nas últimas 24 horas. O Hezbollah, por seu lado, não comunica mais sobre as suas perdas humanas desde a escalada de março de 2026. A novidade das últimas horas é a utilização, pela formação xiita, de mísseis balísticos de longo alcance, que teriam sido lançados da região de Baalbeck, na Békaa-norte, outro dos seus bastiões, pela primeira vez não só durante este conflito, mas também durante o anterior, em 2023-2024. Estas novas armas mudam totalmente as regras do jogo, pois alargam o terreno dos combates, obrigando provavelmente os israelitas a mudar de estratégia, uma vez que é claro que o Hezbollah já não se contenta com rockets lançados perto das fronteiras. O momento deste desenvolvimento, que ocorre em paralelo com o assassinato de importantes personalidades no Irão e uma intensificação dos ataques americanos a este país, poderá ser explicado pela necessidade de ocupar ao máximo o exército israelita nesta frente libanesa, com total desprezo pelas perdas de vidas e bens no interior libanês. Outro sinal do agravamento desta frente libanesa e da crescente animosidade dos apoiantes da milícia contra um governo libanês que a considera agora como operando ilegalmente: uma série de ciberataques a diferentes sites de ministérios libaneses, incluindo o da Informação (que baniu a palavra «resistência» dos meios de comunicação públicos). O grupo de hackers, que se autodenomina os Fatímidas, uma referência à história xiita, também tinha atacado o site da MTV, um meio de comunicação notoriamente anti-Hezbollah, no início da semana.

Israel busca isolar o sul do Litani
Por
LevantTime .
Publicado
mar 18, 2026 - 20:06

À medida que os dias passam, a intensificação das operações militares cresce de forma contínua, tornando cada vez mais grave a guerra total que os Estados Unidos e Israel travam desde 28 de fevereiro contra o regime dos aiatolás iranianos. Essa escalada é visível em vários níveis. Após a eliminação, em 17 de março, do chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani (considerado o principal homem forte do regime após o assassinato do líder supremo Ali Khamenei), e de Gholamreza Soleimani, comandante da Basij (temida força de repressão interna), foi a vez do ministro da Inteligência, Ismail Khatib, ser morto em um ataque israelense. Sua morte foi confirmada na quarta-feira, 18 de março, por autoridades oficiais. No plano estritamente militar, a aviação americana iniciou, nas últimas vinte e quatro horas, um bombardeio intensivo com bombas anti-bunker contra posições iranianas e depósitos subterrâneos de mísseis e drones ao longo do litoral do Golfo Pérsico. Mais de 200 mísseis balísticos teriam sido destruídos em um desses ataques. Essa ofensiva busca claramente abrir caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz ou, ao menos, reduzir de forma significativa a capacidade dos Guardiões da Revolução de interferir na livre circulação de petroleiros por essa rota marítima estratégica. Nesse contexto, uma importante unidade de fuzileiros navais dos Estados Unidos, equipada com alto poder de ataque, deve chegar em breve à região para reforçar a capacidade operacional das forças americanas, especialmente na área do Estreito de Ormuz. Paralelamente, a aviação israelense bombardeou o maior campo de gás do mundo, localizado no Irã. Em resposta, o Corpo da Guarda Revolucionária anunciou sua intenção de atacar instalações petrolíferas na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e no Catar. Esse movimento foi suficiente para provocar uma nova alta no preço do barril de petróleo, que atingiu 109 dólares no fim do dia de quarta-feira. Nesse contexto, os ministros das Relações Exteriores dos países do Golfo e de nações muçulmanas deveriam se reunir na noite de quarta-feira em uma conferência extraordinária para examinar as graves consequências das ações iranianas contra vários países da região. O sul do Litani isolado do restante do país No chamado “front libanês”, o Exército israelense anunciou, no início da tarde de quarta-feira, sua intenção de bombardear e destruir pontes e vias de passagem ao longo do rio Litani. Essa operação equivale a isolar o sul do Litani do restante do país, o que significa, em termos militares, a criação de uma zona tampão entre a fronteira israelo-libanesa e a região ao norte do rio. Segundo algumas informações, esse avanço israelense em território libanês poderia se estender até o rio Zahrani, mais ao norte. Isso permitiria a Israel impor suas condições em qualquer negociação sobre a retirada de suas tropas. Na capital, a noite de terça para quarta-feira foi particularmente intensa. A aviação israelense bombardeou repetidamente diferentes áreas, incluindo os bairros de Zokak el-Blat e Bachoura, onde um edifício de sete andares desabou completamente após um ataque aéreo. Em Zokak el-Blat, um bombardeio israelense matou Mohammed Cherri, diretor de programas políticos do canal de televisão do Hezbollah, Al-Manar. No fim da quarta-feira, um clima de forte tensão dominava a capital, marcado pela apreensão quanto à extensão do desdobramento das forças israelenses no sul do país.

Eliminação de Larijani e chefe do Basij aumenta pressão sobre o Irã
Por
Tilda Abou Rizk
Publicado
mar 17, 2026 - 17:55

A eliminação por Israel de Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã e uma das principais figuras de poder da República Islâmica, junto com o comandante da milícia Basij, a poderosa força policial iraniana, Gholamreza Soleimani, deve marcar um ponto de inflexão na guerra entre o Irã e o eixo Israel-Estados Unidos. Ambos foram mortos em ataques israelenses direcionados contra a capital iraniana durante a noite de segunda-feira, anunciou oficialmente na manhã de terça-feira o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz. Até o fim da tarde, no entanto, Teerã não havia confirmado nem negado as informações. A mídia iraniana limitou-se a anunciar um “discurso televisionado iminente” de Ali Larijani, repetindo o padrão observado antes da confirmação oficial da morte do ex-líder supremo Ali Khamenei, também morto em ataques israelenses em 28 de fevereiro de 2026, antes de exibir uma mensagem manuscrita atribuída a Larijani. Isso foi acompanhado por uma declaração do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, prometendo “continuar a guerra até a derrota dos Estados Unidos e de Israel”. Esses são os fatos. Na prática, Israel desferiu mais um golpe significativo contra o Irã, cujos efeitos vão além da estrutura militar e policial da República Islâmica. Após a morte de Ali Khamenei, autoridades iranianas indicaram que uma cadeia de sucessão em quatro níveis havia sido estabelecida dentro dessa estrutura, mensagem dirigida tanto a Tel Aviv e Washington quanto à população iraniana, que busca desesperadamente o fim da ditadura dos aiatolás. No plano militar, o assassinato de Larijani volta a evidenciar a superioridade do eixo Israel-Estados Unidos, que parece se aproximar gradualmente de seus objetivos de guerra: eliminar ou ao menos enfraquecer significativamente o atual regime em Teerã e impedir que a República Islâmica adquira ou desenvolva armas balísticas ou nucleares no futuro. Neste conflito, Tel Aviv e Washington mantêm a iniciativa estratégica, como demonstram os assassinatos direcionados e as operações militares. Dessa forma, ampliam de maneira constante a pressão sobre Teerã, que permanece em grande parte na defensiva, seguindo uma abordagem que, ao contrário de seus adversários, não parece obedecer a uma estratégia claramente definida. Dezoito dias após o início do conflito, a República Islâmica continua realizando ataques aéreos rotineiros contra bases americanas, além de atingir alvos civis em países do Golfo e também em Israel, enquanto o Hezbollah atua a partir do Líbano. Segundo a AFP, a embaixada dos Estados Unidos foi alvo de dois ataques, com poucas horas de intervalo, entre segunda e terça-feira. Um projétil também atingiu um hotel localizado na altamente protegida Zona Verde de Bagdá. Mais tarde, drones iranianos atacaram um dos principais campos petrolíferos do sul do Iraque, atualmente fora de operação e já atingido na última sexta-feira, segundo a AFP. Mesmo ao perturbar a navegação de petroleiros e navios de carga no Estreito de Ormuz, para frustração de Washington, que tenta mobilizar seus parceiros europeus para proteger esse ponto estratégico do comércio internacional, Teerã ainda parece incapaz de produzir qualquer mudança significativa capaz de alterar o rumo da guerra ou, ao menos, levar os Estados Unidos à mesa de negociações. Além disso, o assassinato de Ali Larijani tem um peso político particular, na medida em que parece confirmar o que o presidente Trump vem reiterando nos últimos dias: que as negociações com Teerã não são, neste momento, uma prioridade, sendo dada precedência ao cumprimento dos objetivos militares declarados. Embora integrasse a ala mais dura do regime iraniano, Ali Larijani, próximo de confiança de Ali Khamenei, desempenhou papel central nas negociações conduzidas pelo Irã sobre seu programa nuclear e suas relações com os países do Golfo. Sua morte priva Teerã de um interlocutor-chave com a comunidade internacional e pode enfraquecer sua capacidade de negociação, caso o regime se mantenha, em eventuais diálogos futuros no contexto do “novo Oriente Médio” que começa a se delinear. “Estamos moldando um novo Oriente Médio, forjado pela força”, reiterou na terça-feira o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, segundo a imprensa local. A eliminação do comandante do Basij, milícia responsável por reprimir violentamente os protestos populares contra o regime dos aiatolás no Irã, também se alinha aos objetivos do eixo Israel-Estados Unidos de promover mudanças no país. A perda de sua liderança, enquanto seu sucessor, seja quem for, permanece na mira de Israel, pode abrir espaço para que a população iraniana retome seus movimentos de protesto. A grande questão, no entanto, é como o Irã responderá a esse novo golpe. Fechará o Estreito de Ormuz para aumentar a pressão sobre os Estados Unidos? Intensificará, por meio do Hezbollah, os ataques contra Israel? Até agora, o grupo demonstrou que, além de provocar respostas mais agressivas de Israel nas áreas onde atua, é incapaz de ajudar seu aliado iraniano a alterar o curso dos acontecimentos. Pelo contrário, uma escalada das operações militares do Hezbollah contra Israel apenas aumentaria o risco de uma incursão terrestre israelense em larga escala no Líbano, uma opção que Tel Aviv vem discutindo abertamente há algum tempo e para a qual, segundo a imprensa israelense, já teria mobilizado cerca de 450 mil reservistas. Nessa lógica de escalada potencialmente suicida, o Hezbollah corre o risco de arrastar o Líbano ainda mais para uma espiral mortal de violência, servindo exclusivamente aos interesses de seu aliado iraniano.

Trump lembra o verdadeiro alcance da guerra contra o regime dos mulás
Por
LevantTime .
Publicado
mar 16, 2026 - 19:55

A guerra no Irã entrou em sua terceira semana e, no estágio atual, os dois campos presentes, a coalizão americano-israelense, por um lado, e a República Islâmica Iraniana, por outro, estão engajados em uma escalada militaro-política que parece ir crescendo. O presidente Donald Trump, assim, endureceu o tom em relação aos seus aliados ocidentais para superar suas reticências quanto à formação de uma vasta coalizão que assumiria a segurança da via marítima do Estreito de Ormuz. O chefe da Casa Branca chegou a enfatizar que, se os aliados dos Estados Unidos mantiverem sua recusa em enviar uma força naval militar para garantir a segurança do Estreito de Ormuz, as consequências para a OTAN poderão ser desastrosas. Na tarde de segunda-feira, o presidente Trump deveria lembrar à opinião pública o verdadeiro desafio da guerra atual lançada contra o regime dos aiatolás. Ele observou a este respeito, para aqueles que não compreenderam o verdadeiro alcance deste conflito: «O que está acontecendo atualmente é menor em comparação com os anos de terrorismo exercido pelo regime iraniano». E o chefe da Casa Branca acrescentou que «o regime iraniano foi aniquilado». Se no plano militar alguns países ocidentais se mostram, por enquanto, relutantes em se engajar diretamente no conflito armado, no nível político, por outro lado, é hora de escalada verbal. O presidente Emmanuel Macron entrou assim em contato com o seu homólogo iraniano, Massoud Pezechkian, a quem expressou os seus veementes agravos sobre as agressões iranianas perpetradas contra a França e os países vizinhos do Irã. Por sua vez, o ministro alemão das Relações Exteriores, Johann Wadephul, destacou «o apoio total» da Alemanha aos Estados Unidos e a Israel no conflito em curso, afirmando que «é claro que o regime iraniano constitui um perigo para seus vizinhos, para toda a região, para a liberdade de navegação e para o desenvolvimento econômico global». «Este perigo não deve continuar a existir», observou o ministro alemão. O governo britânico, por seu lado, reafirmou suas críticas ao regime iraniano, precisando que está empreendendo contatos com países europeus para garantir a segurança do estreito de Ormuz. Contatos diplomáticos estariam de fato em curso entre as chancelarias ocidentais para assegurar a segurança da navegação marítima e garantir as exportações de petróleo sem problemas. Esta questão parece ainda mais vital, visto que o bloqueio do estreito teve como consequência previsível uma disparada do preço do petróleo no mercado internacional, beirando a marca de 110 dólares o barril. Notemos, neste contexto, que algumas redes sociais reportaram na manhã de segunda-feira informações sobre a colocação em serviço pela Arábia Saudita de um gasoduto construído no deserto saudita e que deságua no Mar Vermelho. Este gasoduto teria sido construído, afirmam as fontes citadas, há muitos anos, a fim de constituir uma via de substituição ao estreito de Ormuz em caso de conflito. A escalada militar No nível das operações militares, a noite de domingo, 15 de março, e o dia de segunda-feira, 16 de março, testemunharam uma clara escalada em todas as «frentes». A aviação israelense lançou ataques intensivos contra as infraestruturas do regime iraniano em Teerã. Ao mesmo tempo, o subúrbio sul de Beirute e vários setores da região meridional foram alvo de violentos bombardeios aéreos. Os ataques da aviação israelense pareciam fornecer cobertura para um novo deslocamento de unidades blindadas das Forças de Defesa de Israel em algumas áreas do sul, onde também foram relatados confrontos com milicianos do Hezbollah. Convém indicar neste quadro que o ministro israelense da Defesa anunciou na segunda-feira a sua posição, sublinhando sem rodeios que as Forças de Defesa de Israel iniciaram no sul do Líbano uma operação de grande envergadura visando destruir toda a infraestrutura do Hezbollah na zona meridional do Líbano. Ele acrescentou que os habitantes das aldeias do sul do Litani só retornarão para casa quando a segurança da população do norte de Israel estiver garantida. Paralelamente, os disparos de mísseis e os ataques de drones intensificaram-se contra os países do Golfo. A Arábia Saudita indicou na segunda-feira, no início da tarde, ter interceptado na noite de domingo e na manhã de segunda-feira não menos de 60 drones. Os Emirados Árabes Unidos não foram poupados e o tráfego aéreo no aeroporto internacional de Dubai foi momentaneamente interrompido devido a um incêndio provocado nas proximidades por um disparo de míssil. Os arredores do aeroporto de Bagdá não foram deixados de fora e foram alvo de drones e mísseis iranianos. Assinalamos, finalmente, que o regime dos aiatolás dirigiu «aos muçulmanos do mundo e a todos os países muçulmanos» uma mensagem na qual os exorta a tomar uma posição clara sobre o conflito atual. O poder iraniano ameaçou, além disso, atacar as «empresas americanas» no Oriente Médio.

A ilha de Kharg, nova carta mestra nas mãos de Trump
Por
Michel Touma
Publicado
mar 14, 2026 - 17:28

A guerra entre a República Islâmica Iraniana, por um lado, e o eixo americano-israelense, incluindo por ricochete a Europa e os países do Golfo, assim como a Turquia, por outro lado, completa, neste sábado, 14 de março, sua segunda semana. Esta primeira fase do conflito foi essencialmente focada, do lado ocidental, na eliminação, nas primeiras horas da ofensiva, em 28 de fevereiro, de cerca de quarenta membros do alto comando militar e político iraniano, incluindo o Guia Supremo Ali Khamenei, seguida de um bombardeio aéreo massivo e contínuo visando destruir as infraestruturas militares e administrativas do regime. Do lado iraniano, as operações militares consistiram em lançamentos de mísseis balísticos e drones direcionados contra o território israelense, mas também contra os países do Golfo, paralelamente à reativação, ao amanhecer de 2 de março, da frente do Sul do Líbano. O fim desta segunda semana de guerra foi marcado por um desenvolvimento importante de grande alcance estratégico: o bombardeio pela aviação americana das instalações militares e civis e da estrutura de defesa aérea da ilha iraniana de Kharg, localizada ao norte do Golfo Pérsico, a cerca de vinte quilômetros da costa iraniana. Frequentemente qualificada como a «joia da coroa» da indústria petrolífera iraniana ou também como o «calcanhar de Aquiles energético» do Irã, a ilha de Kharg sempre representou o verdadeiro pulmão econômico do Irã. E por uma boa razão: quase 90 por cento das exportações de petróleo do Irã passam por esta ilha, facilmente acessível por grandes superpetroleiros devido às suas águas profundas, ao contrário de outros portos. A ilha oferece ainda uma infraestrutura que permite acolher vários superpetroleiros de forma concomitante e de armazenar não menos de 35 milhões de barris de petróleo. A importância altamente estratégica da ilha de Kharg permitiu ao presidente Donald Trump obter uma carta mestra no braço de ferro surgido há alguns dias em torno do Estreito de Ormuz e das intenções dos Pasdaran de bloquear a livre circulação marítima nesta via de transporte vital. O chefe da Casa Branca sublinhou assim claramente, no sábado, que a aviação americana efetivamente destruiu as instalações militares, aéreas e marítimas da ilha, mas absteve-se de atacar a infraestrutura petrolífera. Para o presidente Trump, a equação é clara: se o regime iraniano tentar fechar o Estreito de Ormuz, a aviação dos EUA destruirá as instalações petrolíferas de Kharg, o que terá como consequência provocar a asfixia econômica e financeira da República Islâmica. As exportações de petróleo representam, de fato, a principal fonte de receita do Irã. Para juntar a ação à palavra, o exército americano decidiu enviar como reforço para a região do Oriente Médio e do Golfo 2500 fuzileiros navais, o que acentuou os rumores que circulavam, no sábado, sobre um possível desembarque dos EUA em Kharg para resolver o problema do Estreito de Ormuz. Parece evidente, neste contexto, que o resultado desta delicada queda de braço terá um impacto certo no preço mundial do petróleo e, consequentemente, no preço da gasolina na bomba e dos produtos de grande consumo. Este impacto já se faz sentir devido ao fato de o Irã continuar os seus lançamentos de mísseis contra os países petrolíferos do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos, onde a atividade no porto de Fujairah foi interrompida no sábado devido a um incêndio provocado por um lançamento de míssil. Os outros “pontos quentes” No nível dos outros «pontos quentes» do conflito, a noite de sexta-feira e o dia de sábado foram marcados pelos já tradicionais ataques aéreos e lançamentos de mísseis, tendo como alvo a periferia sul e várias aldeias do Sul do Líbano, ou também o norte de Israel e a Galileia. Paralelamente, o exército israelense prosseguiu sua lenta avançada em alguns setores da região meridional do país. O ministro da Defesa israelense sublinhou a este respeito que «o conflito entrou numa nova fase», o que credita a tese de uma possível ocupação prolongada por Israel da zona do Sul do Líbano situada a sul do Litani. A nível regional, a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá foi alvo de um lançamento de mísseis que provocou ligeiros danos materiais, enquanto o governo iraquiano anunciava a adoção de medidas especiais visando impedir qualquer nova agressão contra os interesses franceses no Iraque, como foi o caso há dois dias.