
Ao desconstruir a ordem internacional, a América ameaça a sua própria economia

Após a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como superpotência, moldando os rumos do mundo ocidental. Seu vasto parque industrial foi decisivo para garantir a derrota militar do fascismo. Na primeira parte desta análise, examinamos como os EUA consolidaram seu modelo, não apenas pela força militar, mas também pela criação de uma nova ordem econômica, financeira e institucional global. Em uma segunda parte, analisaremos os riscos que hoje se colocam diante do país.
Muitos economistas e analistas defendem que os Estados Unidos entraram nas etapas iniciais de um declínio secular.
Como descreveu o economista russo Nikolai Kondratieff nos anos 1930, a história global se desenrola em longos ciclos econômicos e geopolíticos. Esses períodos, que costumam durar entre 60 e 80 anos, são geralmente dominados por uma potência líder e acompanhados por grandes revoluções tecnológicas e transferências de liderança global.
Da China por volta do ano 900 às cidades italianas do Renascimento, passando pelo Império Britânico sob Elizabeth I, sucessivos ciclos de hegemonia econômica mundial seguiram esse padrão.
A era da liderança global americana começou, de forma ampla, após a Segunda Guerra Mundial. O que observamos hoje, tanto no plano interno quanto internacional, pode ser o início do desmonte dessa liderança ao longo da próxima década.
Da condição de “mercado emergente” à superpotência
Antes da Segunda Guerra, os Estados Unidos ainda não eram o centro incontestável do poder global. Em muitos aspectos, o país se assemelhava a uma economia emergente, impulsionada por uma nova fonte de energia, o petróleo, e por inovações transformadoras como o automóvel e o telefone.
Era uma terra de oportunidades, movida por um espírito empreendedor mais livre do que o do Império Britânico e das democracias europeias já amadurecidas. O modelo americano combinava mentalidade prática, rápida expansão industrial, altas taxas de crescimento, dinamismo especulativo e uma postura de investimento marcada pela disposição ao risco, típica de economias emergentes.
Como a história demonstra repetidamente, os excessos desses mercados costumam carregar as sementes de suas próprias crises.
Essa trajetória culminou no colapso de 1929, seguido pela Grande Depressão dos anos 1930. Naquele momento, a concentração real de capital e o peso geopolítico ainda estavam na Europa. O Reino Unido seguia como o pilar da ordem global, com a libra esterlina como moeda central do comércio e das finanças internacionais.
Segunda Guerra Mundial: a grande transferência de poder
A Segunda Guerra Mundial mudou tudo.
A Europa foi devastada. A Ásia, arrasada. Dezenas de milhões morreram. Países inteiros, como Alemanha e Japão, ficaram destruídos física, industrial e institucionalmente. O próprio Império Britânico saiu gravemente enfraquecido, e o equilíbrio de poder mudou de forma irreversível.
O isolacionismo inicial dos Estados Unidos, combinado com sua extraordinária capacidade industrial e sua posição geográfica protegida, permitiu ao país se tornar o arsenal do mundo aliado. Os EUA forneceram desde grãos até canhões, de munições a navios e aeronaves.
O ponto de inflexão ocorreu em 7 de dezembro de 1941, quando o Japão atacou Pearl Harbor. Os Estados Unidos entraram na guerra, primeiro no Pacífico e depois na Europa.
As vitórias aliadas, em 8 de maio de 1945 na Europa e em 2 de setembro de 1945 na Ásia, fizeram mais do que encerrar um conflito. Elas projetaram os Estados Unidos ao papel de potência global dominante, sucedendo um Império Britânico em declínio.
A ordem do pós-guerra: os Estados Unidos constroem o sistema do qual passarão a depender

O economista britânico John Maynard Keynes discursando na conferência de Bretton Woods, em julho de 1944, que fundou o sistema financeiro mundial com a criação do FMI e do Banco Mundial. (Staff/FMI/AFP)
Por meio do Plano Marshall na Europa e de uma década de supervisão no Japão, Washington se posicionou como provedora de capital, arquiteta da reconstrução e modelo de referência da modernidade ocidental, do capitalismo e da governança.
Mas o ato mais consequente dos Estados Unidos não foi apenas reconstruir economias.
Foi reconstruir as regras.
O país criou uma ordem internacional baseada no multilateralismo, no Estado de Direito e em uma arquitetura institucional voltada à promoção da paz, da segurança e da cooperação econômica.
Washington teve papel central na criação das instituições que definiram o mundo do pós-guerra: as Nações Unidas; o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional; a OTAN; e estruturas regionais como a Organização dos Estados Americanos. Com o tempo, essa arquitetura se expandiu para incluir organismos como a Organização Mundial da Saúde, o UNICEF, o G7 e o G20.
Essa arquitetura não era um gesto simbólico.
Era infraestrutura estratégica, e se tornou o alicerce do poder americano.
A queda do comunismo consolida a liderança dos Estados Unidos
O colapso das economias comunistas de planejamento centralizado reforçou ainda mais a hegemonia americana.
A abertura da China em 1978 e a queda do bloco soviético em 1989 pareciam confirmar o triunfo do modelo dos Estados Unidos. Francis Fukuyama celebrou esse momento em O fim da história e o último homem, apresentando-o como a forma final de organização política e econômica.
Por um período, a supremacia americana pareceu indefinida.
Costuma-se atribuir esse domínio à democracia.
A realidade é menos confortável.
Os Estados Unidos não venceram principalmente por seu modelo democrático. Venceram pela eficiência superior de seu ecossistema capitalista, pela produtividade da iniciativa privada e pelo sistema de governança corporativa baseado em stakeholders, desenvolvido na Europa Ocidental já em 1602 com a Companhia Holandesa das Índias Orientais, um sistema que não é, em sua essência, democrático.
A eficiência econômica americana venceu a Segunda Guerra. Da mesma forma, a ineficiência das economias planificadas condenou a ideologia comunista muito antes do colapso de sua legitimidade política.

O presidente dos EUA Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev durante uma reunião em 1985. (Ann Ronan Picture Library/Photo12 via AFP)
A democracia, como sistema político, é estruturalmente ineficiente para planejamento de longo prazo, reformas estruturais e escolhas estratégicas difíceis, seja nos Estados Unidos, na Europa ou em muitos países em desenvolvimento.
Os exemplos são numerosos: a saída da Alemanha da energia nuclear; as repetidas falhas de França e Reino Unido em reformar sistemas de previdência e saúde; ou o atraso crônico dos Estados Unidos em infraestrutura.
O argumento mais contundente, porém, está na ascensão impressionante de países como China e Emirados Árabes Unidos nas últimas cinco décadas, explicada quase integralmente por sua capacidade de operar não como democracias, mas como corporações estratégicas.
Esses países adotaram a governança corporativa privada ocidental como modelo de governança pública.
Na China, a população é tratada como cliente, e o Partido Comunista atua como acionista da empresa nacional. Para se manter no poder, os acionistas precisam satisfazer seus clientes, da mesma forma que uma empresa privada precisa atender seus consumidores para prosperar.
Nos Emirados Árabes Unidos, cidadãos e residentes são os clientes, enquanto as famílias governantes atuam como proprietárias estratégicas do sistema.
Em ambos os casos, o poder decisório final não está nas mãos dos clientes ou eleitores, mas de gestores altamente qualificados, capazes de definir uma visão e implementá-la sem paralisia causada por grupos de pressão permanentes ou barganhas políticas pouco técnicas, sempre sob o controle de seus acionistas.
O salto da China em tecnologia, infraestrutura, comunicações, pesquisa, minerais críticos, energia solar, veículos elétricos e trens de alta velocidade está diretamente ligado à capacidade do Estado de definir prioridades industriais e financiar objetivos nacionais de longo prazo em grande escala.
De forma semelhante, a ascensão dos Emirados como plataforma global, atraindo capital, empreendedores e talentos, decorre de políticas proativas voltadas a criar um ambiente estável, seguro e favorável a impostos para empresários, investidores, trabalhadores qualificados e pesquisadores de mais de 200 países.
Quando a democracia elege seus próprios destruidores
Há ainda uma falha mais sombria nos sistemas democráticos.
A democracia pode abrir caminho para o autoritarismo, não pela força, mas pelo consentimento.
Ela permite que demagogos cheguem ao poder por meio das eleições, inflamando medo, identidade e ressentimento. Uma vez no governo, esses líderes distorcem instituições e enfraquecem contrapesos até que a democracia se reduza a um teatro procedural.
De Hitler a Mussolini, de Franco a Erdoğan e Putin, a história é clara.
A pergunta incômoda é se os Estados Unidos se aproximam de um momento semelhante.
Há sinais crescentes de que a democracia americana enfrenta hoje seu teste mais duro desde 1776.
Quando os Estados Unidos se voltam contra a ordem que criaram
O poder americano nunca foi apenas militar ou econômico. Foi institucional.
Os Estados Unidos incorporaram sua força a uma ordem global construída com regras, alianças, tratados e credibilidade. Esse sistema sustentou o dólar, os mercados financeiros americanos e a liderança global do país.
Mas no momento em que Washington passa a tratar essa ordem como opcional, ou pior, como um obstáculo a ser desmontado, deixa de enfraquecer rivais e passa a enfraquecer a si próprio.
A doutrina “Make America Great Again”, de Donald Trump, abraça o isolacionismo e a coerção: tarifas unilaterais, retirada de dezenas de acordos internacionais e restrições severas à imigração. Essas políticas estão remodelando não apenas os Estados Unidos, mas todo o sistema internacional.
Aqui está a principal fratura da geopolítica contemporânea.
A retomada do debate sobre as pretensões americanas em relação à Groenlândia é emblemática. A Groenlândia não é apenas um território no Ártico. Está ligada à Dinamarca, aliada da OTAN, e integrada à arquitetura da aliança ocidental.
A questão não é territorial. É de credibilidade.
Ela levanta uma pergunta mais profunda: os Estados Unidos passaram a se colocar acima da ordem baseada em regras?
Quando essa percepção se dissemina, as consequências não ficam restritas ao Ártico. Elas reverberam em todas as fronteiras disputadas, tratados frágeis, compromissos de alianças e regimes monetários.
Isso diz à Rússia que esferas de influência voltaram a ser legítimas.
Diz à China que a coerção é apenas uma expressão natural do poder e que, se Washington se permite usá-la contra seus próprios aliados, perde a autoridade moral para negar a mesma lógica a Pequim em relação a Taiwan.
Diz às potências médias que a soberania legal é negociável, mais conveniência do que princípio, como mostraram eventos recentes na Venezuela.
E, mais grave ainda, diz aos aliados dos Estados Unidos que sua segurança, suas economias e seu comércio não se apoiam no Direito, mas na vontade exclusiva de Washington.
Davos 2026: o ponto de virada
Longe de aderir às táticas de negociação de Donald Trump, líderes globais concluíram que não podiam mais considerar os Estados Unidos um parceiro confiável, econômica, militar e tecnologicamente. A resposta foi imediata.
Em 27 de janeiro de 2026, União Europeia e Índia assinaram o Acordo de Livre Comércio Índia União Europeia, unindo dois bilhões de pessoas em um arranjo que cobre cerca de um quarto do PIB global. Líderes do Canadá, da Austrália e da Europa correm para a China em busca de acesso ao maior mercado consumidor do mundo. Países europeus repensam sua arquitetura militar para reduzir a dependência dos Estados Unidos e da OTAN.
É assim que ordens internacionais entram em colapso: por uma erosão constante e cumulativa da legitimidade, na qual o poder de coerção permanece, mas o fundamento moral se dissolve.
A dominação americana nunca foi indestrutível. Ela dependia de um ativo crítico que não pode ser fabricado com gastos militares ou déficits fiscais: a credibilidade.
E a credibilidade, uma vez quebrada, não se reconstrói com slogans.
Talvez já tenhamos alcançado o ponto de não retorno...
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A fragilidade da economia, um perigo real