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Política

Remaining: uma exposição em memória das vidas perdidas em assassinatos políticos

Retrato do autor
Por Vanessa Kallas
Publicado fev 10, 2026 - 14:44

“Esperar é desafiar o futuro.” – Emil Cioran

Essa frase, fotografada por Édouard Elias, foi escrita pelo jornalista Samir Kassir em um pedaço de papel duas semanas antes de seu assassinato, em 2005. Ela está entre os muitos objetos pessoais que Elias registrou para preservar a memória de vítimas de assassinatos políticos no Líbano desde então.

Esses retratos e vestígios pessoais integram a exposição fotográfica “Remaining”, realizada por ocasião dos cinco anos do assassinato de Lokman Slim.

A mostra acontece de 7 de fevereiro a 3 de março, no Union Marks, em Burj Hammoud, das 14h às 20h. A abertura reuniu um grande público e diversas figuras de destaque, entre elas os parlamentares Marwan Hamadé e Michel Moawad, além da ex-ministra May Chidiac. A exposição é uma colaboração entre o fotógrafo e fotojornalista Édouard Elias e a jornalista e cineasta Katia Jarjoura, curadora do projeto. A produção é da Fundação Lokman Slim, com apoio do Instituto Francês.

Uma ponte entre passado e presente

“Remaining” narra a história de 21 vítimas de assassinatos, incluindo lideranças políticas, agentes de segurança, escritores, jornalistas, testemunhas e sobreviventes. As imagens vão de retratos de familiares e objetos de valor afetivo aos locais e cenas dos crimes, criando uma atmosfera marcada por nostalgia e empatia.

Inspiração e homenagem

Katia Jarjoura destaca a motivação pessoal por trás do projeto. “Esta exposição é antes de tudo uma homenagem ao meu querido amigo Lokman Slim, tragicamente assassinado em 2021, mas também a outras vítimas de assassinatos políticos no Líbano que lutaram por um país livre e soberano e pagaram por isso com a própria vida.”

O significado de “Remaining”

Édouard Elias reflete sobre o título da exposição. “Após a morte de alguém, sempre existe um sentimento de ausência. Como a justiça não foi feita, essas pessoas ficam presas a um estado intermediário. Elas ainda estão presentes: não retiramos suas memórias, não tiramos o chapéu do cabide, nem guardamos o relógio da mesa de cabeceira.”

“Em um país onde o sistema judiciário é frágil e a maioria dos crimes fica impune, a arte pode responder a esse vazio ou ajudar a preenchê-lo”, acrescenta Jarjoura. “Remaining é, em essência, uma forma de dizer ‘eles permanecem’ e ‘nós permanecemos com eles’.”

Humanidade compartilhada e linguagem visual

“Remaining” é narrada exclusivamente em preto e branco. Elias explica a escolha estética: “Optei pelo preto e branco porque as imagens tratam da ausência, da memória e do caráter atemporal daqueles que se foram. Quis um trabalho formal, sem efeitos de cor ou intervenções estilísticas, para que todas as pessoas fossem colocadas no mesmo nível.”

Ao utilizar objetos cotidianos e cenários familiares, o fotógrafo convida o público a reconhecer a humanidade compartilhada dessas famílias e a refletir sobre o quanto suas histórias se assemelham às próprias experiências.

Desde a independência, em 1943, o Líbano registrou mais de 200 assassinatos políticos, a maioria sem punição.
A Guerra Civil Libanesa (1975–1990) enfraqueceu gravemente as instituições do Estado, enquanto a lei de anistia de 1991 consolidou uma cultura de impunidade que ainda influencia a vida política do país.

O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005, seguido pela criação do Tribunal Especial para o Líbano, marcou um ponto de inflexão, ao expor o assassinato político como instrumento de influência sírio-iraniana e ao enfraquecer tanto a soberania libanesa quanto o Estado de Direito.

Quem foi Lokman Slim

Lokman Slim foi um editor, cineasta e ativista político libanês, conhecido por sua defesa firme dos direitos humanos, das liberdades civis e do Estado de Direito.
Ele cofundou o UMAM Documentation and Research com sua esposa, Monika Borgmann, com o objetivo de preservar a memória coletiva do Líbano e estimular o debate público.

Crítico contundente do sectarismo e da violência política, Slim foi assassinado em 4 de fevereiro de 2021, em Addousiyeh, no sul do Líbano.

“Remaining” é um chamado urgente à responsabilidade e à justiça, para que o futuro do Líbano não seja contido pelo medo, mas acolhido com esperança.

 

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