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Economia

O Federal Reserve americano vai perder a sua independência?
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Jacques Mechelany
Publié
jan 29, 2026 - 16:39

Há mais de sete décadas, a Reserva Federal dos Estados Unidos ocupa uma posição central na arquitetura econômica do país. Guardiã da moeda de reserva mundial, é a instituição à qual os mercados confiaram a estabilidade financeira e a credibilidade monetária dos EUA. Na condição de emprestador de última instância, dotada de um duplo mandato – combater a inflação e, ao mesmo tempo, sustentar o crescimento econômico –, a política monetária americana foi, por muito tempo, conduzida por dirigentes independentes, formalmente protegidos da influência direta dos poderes Executivo e Legislativo. Essa independência, no entanto, jamais teve status constitucional. Ela resulta de um equilíbrio institucional cuidadosamente construído, que os mercados passaram progressivamente a considerar como permanente. Um pressuposto que hoje começa a ruir. Por que a independência de um banco central importa mais do que o nível dos juros Os mercados tendem a concentrar-se no que os bancos centrais fazem – subir ou cortar juros – mais do que nas razões pelas quais suas decisões são acreditadas e aceitas. No entanto, a política monetária só funciona se for crível. Essa credibilidade permite que um banco central influencie expectativas de longo prazo por meio de decisões de curto prazo. Ela se apoia em um princípio fundamental: a capacidade de agir contra conveniências políticas imediatas. Nos Estados Unidos, esse princípio é protegido desde o Acordo Tesouro–Fed de 1951 e reforçado por dispositivos legais que determinam que os diretores da Reserva Federal só podem ser destituídos “por justa causa”. Na prática, o Fed funcionou como uma fortaleza tecnocrática – não porque fosse intocável, mas porque atacá-lo implicava um custo político e jurídico elevado. Os mercados, porém, não avaliam apenas decisões de política monetária. Eles também precificam a solidez da instituição que as toma. E essa solidez está agora sob ameaça. O controle político do Fed torna-se prioridade presidencial Desde seu retorno à Casa Branca para um segundo mandato, Donald Trump tem sido explícito ao defender uma Reserva Federal mais acomodatícia: juros mais baixos para aliviar o peso de uma economia altamente endividada e uma política monetária mais alinhada às prioridades do Executivo. As tensões com Jerome Powell eram esperadas e, durante muito tempo, foram tratadas pelos mercados como mero ruído político. Janeiro de 2026, porém, marcou uma mudança de patamar. O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal contra o presidente do Fed, enquanto a Suprema Corte aceitou analisar um caso capaz de redefinir – ou até enfraquecer – as proteções legais que blindam os diretores da instituição contra a destituição presidencial. A investigação contra Jerome Powell – oficialmente relacionada a obras imobiliárias, mas amplamente percebida como politicamente motivada – representa uma escalada sem precedentes. Nunca antes um presidente do Fed em exercício havia enfrentado risco penal associado a decisões de política monetária. A mensagem é clara: uma política monetária restritiva pode agora ter um custo pessoal. Não se trata mais de pressão sobre um indivíduo específico, mas de um sinal dirigido a todos os atuais e futuros dirigentes da Reserva Federal. Paralelamente, no caso Trump vs. Cook, a Suprema Corte é chamada a revisitar a doutrina jurídica que sustenta a independência do Fed. Uma decisão que permita a destituição discricionária de diretores alteraria profundamente o funcionamento da instituição – não por ideologia, mas por mudança nos incentivos. Um banqueiro central que sabe que um desacordo político pode encerrar sua carreira passa a agir de forma diferente. Não por fraqueza, mas por racionalidade institucional. O risco da sucessão: a tentação de um presidente “dovish” Um terceiro fator de fragilização entra em cena: a sucessão. O mandato de Jerome Powell à frente do Fed expira em meados de maio de 2026, e a busca – amplamente midiática – por seu sucessor tornou-se, por si só, um sinal para os mercados. Em política monetária, as pessoas fazem a política. Entre os nomes mencionados está Rick Rieder, diretor de investimentos em renda fixa global da BlackRock, conhecido por seu pragmatismo, profundo conhecimento dos mercados e inclinação por uma flexibilização monetária mais rápida. A nomeação de um presidente mais acomodatício não é, em si, uma má notícia para o Fed. Rick Rieder supervisionou cerca de US$ 2,4 trilhões em estratégias de renda fixa e provavelmente seria o presidente do Fed com maior experiência direta em mercados financeiros. Seu domínio da mecânica dos títulos e da infraestrutura financeira é amplamente reconhecido. Suas posições também parecem compatíveis com a preferência presidencial por juros mais baixos. Declarações passadas indicam que ele poderia defender uma política menos restritiva e um uso mais direcionado do balanço do Fed – por exemplo, redirecionando reinvestimentos para títulos lastreados em hipotecas, com o objetivo de apoiar o acesso à moradia. Essas mesmas qualidades, porém, carregam riscos. Um presidente com forte sensibilidade de “trading floor” pode reagir com maior frequência à volatilidade dos mercados, tornando a política monetária excessivamente reativa. Além disso, o uso setorial do balanço pode borrar a fronteira entre política monetária e política fiscal – exatamente a fronteira que a independência do banco central foi concebida para preservar. Por fim, a confirmação pelo Senado representaria um obstáculo relevante: os democratas poderiam levantar preocupações sobre potenciais conflitos de interesse com a BlackRock ou destacar a ausência de experiência direta no setor público. Mercados tranquilos… talvez demais Por ora, os mercados financeiros exibem uma calma notável. A volatilidade no mercado de títulos permanece baixa. As bolsas seguem apostando em um ciclo de flexibilização ordenado. O dólar se comporta como se a arquitetura institucional do Fed estivesse intacta. Essa tranquilidade é enganosa. O risco de credibilidade segue amplamente subprecificado – e pode se materializar de forma abrupta. O perigo não é apenas o retorno da inflação, embora a alta dos preços de energia e das commodities já aponte nessa direção. O risco mais profundo está na fragilização do mecanismo que ancora as expectativas inflacionárias: a independência percebida do banco central. Quando essa âncora se rompe, o ajuste raramente é gradual. As taxas de curto prazo podem cair diante de promessas de flexibilização, enquanto as taxas longas disparam, à medida que investidores exigem um prêmio maior para manter ativos denominados em dólares em um ambiente de politização da política monetária. A desvalorização estrutural do dólar – visível na forte alta do ouro e da prata – pode então se acelerar. A recente queda de 5% do índice do dólar em apenas duas semanas pode ser apenas um sinal precoce. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo encontram-se comprimidos em uma configuração técnica particularmente tensa em torno do nível de 4,90%. Um rompimento claro para cima abriria espaço para uma rápida reprecificação em direção a 6%–6,5%, com impactos significativos sobre os mercados globais de títulos, ações e moedas. Conclusão A Reserva Federal e seu futuro presidente poderão reduzir as taxas de juros – e ainda assim provocar uma reprecificação abrupta do dólar e do mercado de títulos – se os investidores concluírem que a instituição perdeu seu escudo institucional. O principal risco enfrentado hoje pelos mercados não é a inflação de curto prazo nem uma decisão isolada de política monetária. É a erosão do mecanismo que, há mais de setenta e cinco anos, ancora as expectativas inflacionárias: a credibilidade de um banco central independente. Uma credibilidade que, uma vez colocada em dúvida, é extremamente difícil de reconstruir.

ZEE Líbano-Chipre: entre aquisições jurídicas e perdas marítimas
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Nayla Assaf
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jan 14, 2026 - 18:54

O acordo de delimitação da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) entre o Líbano e Chipre, assinado em 26 de novembro de 2025 e ratificado pelo decreto n°2108 de 16 de dezembro de 2025, marca um passo importante na política marítima libanesa. Apresentado oficialmente como um meio de garantir a exploração dos recursos marítimos, este acordo, contudo, levanta profundas reservas nos planos jurídico e estratégico. O general Khalil Gemayel, especialista em delimitação de fronteiras marítimas, considera que este acordo, apesar de algumas vantagens, permanece amplamente desfavorável ao Líbano. Ele certamente põe fim a uma antiga disputa, mas a que preço? Segundo ele, uma das principais conquistas reside na resolução do litígio marítimo que opunha o Líbano e Chipre há quase duas décadas. Essa clarificação jurídica põe fim a uma zona cinzenta que impedia qualquer planejamento energético. Ele também destaca que o acordo permitiu prolongar oficialmente a fronteira marítima libanesa com Chipre do ponto n°1 ao ponto n°23, agora um ponto de junção marítima entre o Líbano, Chipre e Israel. No entanto, este prolongamento foi operado de acordo com o método da linha mediana (Median Line Method), uma abordagem que, segundo o general Gemayel, favorece claramente Chipre. Ele considera que a resolução do diferendo, apesar da sua aparente importância, foi feita em detrimento dos interesses libaneses. Um acordo iníquo O general Gemayel considera o acordo iníquo para o Líbano devido à metodologia adotada. Ele explica que a delimitação se baseia numa linha mediana traçada entre uma ilha, Chipre, e um Estado costeiro continental, o Líbano. No entanto, a jurisprudência marítima internacional privilegia uma metodologia em três etapas: o traçado de uma linha mediana provisória, a consideração das circunstâncias pertinentes e, em seguida, a realização de um teste final de proporcionalidade (Proportionality Test). Ele lamenta que esta abordagem não tenha sido aplicada, devido à ausência de teste de proporcionalidade entre os comprimentos das costas opostas. Neste contexto, o general Gemayel especifica que a costa libanesa em questão se estende por aproximadamente 188 quilômetros, contra 103 quilômetros para a costa cipriota correspondente. Esta proporção de 1,82 a favor do Líbano, contra 1 para Chipre, deveria ter levado a uma delimitação mais equilibrada. De acordo com sua análise, o não cumprimento deste princípio resultou na perda de aproximadamente 2.600 quilômetros quadrados da zona econômica exclusiva libanesa em favor de Chipre. Ele acrescenta que o acordo de 2025 retoma essencialmente a mesma metodologia de traçado adotada no acordo assinado em 2007 entre os dois países. Este texto, que não havia sido ratificado nem aplicado devido aos seus desequilíbrios, permaneceu congelado por quase 18 anos. Uma contradição institucional O general Gemayel enfatiza uma contradição institucional. Ele recorda que, em 2022, uma comissão ministerial libanesa conjunta foi constituída para examinar a questão das fronteiras marítimas com Chipre. Esta comissão havia recomendado a adoção da metodologia em três etapas e a consideração da proporcionalidade entre as costas, reconhecendo explicitamente que a linha mediana era prejudicial ao Líbano. No entanto, em 2025, uma nova comissão ministerial, composta pelos mesmos ministérios, anulou as recomendações anteriores e validou a delimitação baseada na linha mediana. Trata-se precisamente do método que o Líbano havia rejeitado por muito tempo e que levou ao congelamento do acordo de 2007. Do acordo jurídico aos desafios de soberania Para além da análise técnica do general Gemayel, este acordo ilustra uma problemática recorrente das negociações internacionais: a busca por uma solução rápida e clara pode ocorrer em detrimento dos princípios técnicos e dos interesses estratégicos a longo prazo. A conquista fundamental do acordo – a clarificação jurídica das fronteiras marítimas e o fim do diferendo histórico com Chipre – é inegável e oferece uma estabilidade jurídica capaz de encorajar o investimento nas zonas marítimas. No entanto, a metodologia adotada traduz um afastamento dos padrões técnicos internacionalmente reconhecidos, nomeadamente o teste de proporcionalidade final. O recurso à linha mediana sem ajuste que leve em conta o comprimento das costas traduz um compromisso político, provavelmente motivado pela vontade de concluir rapidamente um acordo após 18 anos de impasse. Esta escolha deixa o Líbano confrontado com uma perda tangível de superfícies marítimas exploráveis. Esta escolha estratégica, embora garanta fronteiras claras, enfraquece as perspetivas económicas futuras, em particular no que diz respeito aos recursos de gás e petróleo. Finalmente, o desfasamento entre as recomendações da comissão de 2022 e a aprovação final de 2025 evidencia um problema persistente de governação no Líbano: a continuidade da abordagem técnica e institucional é por vezes sacrificada em prol de decisões políticas conjunturais. O resultado é um acordo que traz clareza fronteiriça, mas que levanta questões legítimas quanto à proteção dos interesses nacionais e à capacidade do país de adotar uma estratégia marítima coerente e sustentável.

Um novo ciclo energético se aproxima, e o ajuste pode ser brutal
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Jacques Mechelany
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jan 12, 2026 - 12:24

Durante grande parte dos últimos quatro anos, os mercados globais de energia transmitiram uma sensação enganosa de calma. Os preços do petróleo recuaram mais de 50% desde o pico de 2022. Os preços do gás natural se normalizaram após o choque provocado pela guerra na Ucrânia. As energias renováveis dominam as manchetes, reforçando a percepção de que os combustíveis fósseis estariam sendo gradualmente empurrados para a irrelevância. À primeira vista, o mundo parece bem abastecido. Sob essa aparente tranquilidade, no entanto, esconde-se uma realidade muito mais frágil — marcada por subinvestimento crônico, esgotamento físico dos campos, forte concentração geopolítica da oferta e uma retomada silenciosa da demanda estrutural. O sistema energético global não é resiliente. Ele se encontra hoje em um equilíbrio instável. A ilusão da sobreoferta Em torno de 60 dólares por barril, os preços do petróleo sugerem abundância. A Agência Internacional de Energia projeta um crescimento da oferta global de 3,1 milhões de barris por dia em 2025, amplamente superior ao avanço do consumo. O consenso dos analistas reforça essa leitura, alimentando a ideia de que a escassez energética pertence ao passado. Mas esses níveis de preços têm um custo. Quando o petróleo é negociado abaixo do custo marginal de nova produção, o investimento desacelera. Não de forma abrupta ou imediata, mas de maneira persistente. Com o tempo, essa dinâmica corrói a capacidade do sistema de absorver choques. Nos Estados Unidos, o petróleo de xisto — principal motor do crescimento da oferta global na última década — já dá sinais de desgaste. Foi ele que permitiu ao país passar da condição de maior importador mundial para a autossuficiência e, posteriormente, para a posição de exportador líquido. Hoje, o xisto responde por cerca de dois terços da produção americana, impulsionado por avanços tecnológicos como a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico, com a Bacia do Permiano como principal polo. No entanto, quando o WTI opera abaixo do custo marginal de novas capacidades — estimado em torno de US$ 70 por barril pela Enverus Intelligence Research, com um ponto de equilíbrio corporativo próximo de US$ 62,50 segundo a Rystad Energy — o investimento inevitavelmente se retrai. A atividade de perfuração já começou a cair. Como os poços de xisto apresentam taxas de declínio muito acentuadas, podendo perder até 50% da produção no primeiro ano, a manutenção do nível de produção exige perfuração constante. A fraqueza atual se traduzirá, de forma mecânica, em menor produção no futuro. Em escala global, os campos convencionais de petróleo registram declínios anuais de 4% a 6%. Manter a produção atual exige substituir vários milhões de barris por dia todos os anos. Quando o investimento não é suficiente, a escassez não surge imediatamente — ela se acumula de forma silenciosa. É assim que os mercados de energia passam de um excedente aparente para um déficit real. E quando essa virada ocorre, o ajuste de preços tende a ser abrupto. Gás natural: a falha logística Se os preços do petróleo revelam complacência, o mercado de gás natural expõe tensões estruturais profundas. O sistema energético global repousa sobre uma equação de quatro elementos: O petróleo, pilar central do sistema, responde por cerca de 30% da energia mundial As fontes renováveis oferecem produção intermitente A energia nuclear fornece carga base, mas avança lentamente O gás natural garante flexibilidade, rapidez e confiabilidade O gás natural tornou-se central nos sistemas elétricos modernos. Ele compensa as limitações das renováveis e assegura a estabilidade das redes. Sua demanda é altamente sensível às condições climáticas — não por especulação, mas porque aquecimento e refrigeração são necessidades inegociáveis. Invernos rigorosos na Europa, na América do Norte ou no Nordeste Asiático tensionam imediatamente os equilíbrios. Ondas de calor produzem o mesmo efeito via consumo elétrico. O gás preenche essa lacuna. A produção de gás também não está imune ao declínio. Os preços baixos dos últimos dois anos levaram à redução da perfuração em bacias de gás seco, à realocação de capital para áreas mais ricas em petróleo e ao adiamento de investimentos em infraestrutura. Ao contrário do petróleo, porém, a principal restrição do gás não é a produção, mas a logística: gasodutos, terminais de liquefação, frotas de navios metaneiros, instalações de armazenamento altamente especializadas e portos adequados. A expansão do gás natural liquefeito (GNL) globalizou o mercado. A Europa, após reduzir drasticamente sua dependência do gás russo transportado por dutos, passou a depender fortemente do GNL. A demanda asiática segue em crescimento. Os Estados Unidos tornaram-se o maior exportador mundial, conectando seu mercado doméstico às dinâmicas globais e às limitações logísticas. Nesse contexto, as disrupções deixam de ser regionais. Tornam-se sistêmicas. A demanda energética volta a crescer, silenciosamente Enquanto a atenção pública permanece voltada para a queda esperada da demanda por combustíveis fósseis, impulsionada pelos veículos elétricos e pela expansão acelerada da energia solar, um novo vetor de consumo emerge: a inteligência artificial. A revolução da IA não se limita a chips e softwares. Ela é, fundamentalmente, energética. Até 2030, o consumo elétrico dos data centers pode alcançar entre 950 e 1.600 terawatts-hora, impulsionado principalmente pelas cargas de trabalho de IA. Para efeito de comparação, a geração total de eletricidade dos Estados Unidos em 2024 foi de aproximadamente 4.400 terawatts-hora. A IA, sozinha, pode elevar a demanda elétrica americana em mais de 20% em cinco anos. Essa energia terá de ser produzida. Usinas nucleares exigem longos prazos de construção. A energia solar, apesar do crescimento acelerado, ainda representa cerca de 5% da geração elétrica global e deve atingir aproximadamente 20% até 2050. A infraestrutura de gás é complexa e lenta de desenvolver. No curto prazo, o petróleo permanece como a fonte de energia mais disponível e flexível. Surge, assim, um paradoxo: à medida que a transição energética avança, a demanda se torna mais rígida — não mais flexível. A concentração da oferta marginal: a verdadeira linha de fratura Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, o maior consumidor e o maior produtor mundial de petróleo. São amplamente autossuficientes. A China, por sua vez, é o segundo maior consumidor, com cerca de 16 milhões de barris por dia, e o maior importador global. Depende de um conjunto diversificado de fornecedores: países do Golfo, Rússia, Irã, Venezuela e, em menor grau, produtores asiáticos como Indonésia, Brunei e Mianmar. Até recentemente, a China importava cerca de 400 mil barris por dia da Venezuela, aproximadamente 4% de seu consumo — um fluxo interrompido abruptamente em 3 de janeiro de 2026. Em 2025, o Irã foi o segundo maior fornecedor, com 1,61 milhão de barris por dia, quase 20% das importações chinesas. A principal vulnerabilidade do sistema energético global não está na demanda, mas na concentração da oferta marginal. Fora dos Estados Unidos, a capacidade excedente de produção é extremamente concentrada. No fim de 2025, a capacidade ociosa da OPEP+ girava em torno de 4 milhões de barris por dia, cerca de 4% do consumo mundial. À primeira vista, o número parece confortável. Na prática, não é. A Arábia Saudita controla cerca de 2,4 milhões de barris por dia Os Emirados Árabes Unidos, aproximadamente 850 mil O Iraque, cerca de 320 mil Juntos, esses três países concentram cerca de 70% da capacidade disponível. A maioria dos demais produtores já opera próxima do limite máximo. Essa configuração transforma a capacidade excedente de amortecedor em um ponto potencial de ruptura. A concentração logística: o risco geopolítico Em nenhum lugar essa fragilidade é mais evidente do que no Oriente Médio. Cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e uma parcela crítica das exportações globais de GNL transitam pelo Estreito de Ormuz, um corredor marítimo estreito entre o Irã e Omã, sem alternativa viável. Qualquer interrupção — mesmo temporária — revelaria imediatamente a estreiteza das margens de segurança. Com o regime iraniano sob as pressões internas e externas mais intensas das últimas décadas, o risco de escalada assimétrica não pode ser descartado. Entre os cenários mais graves está uma tentativa de interromper o tráfego marítimo no estreito. Um evento desse tipo representaria um verdadeiro cisne negro para os mercados globais de energia, provocando uma reprecificação abrupta do petróleo e do gás natural, especialmente durante os picos de demanda do inverno no Hemisfério Norte. Um sistema precificado para a calma, não para o choque A narrativa dominante parte da premissa de estabilidade: oferta controlada, geopolítica administrável e uma transição energética suave. A história recomenda cautela. Os mercados de energia não entram em crise de forma gradual. Eles falham na margem — quando o subinvestimento limita a oferta de longo prazo, quando novas tecnologias geram saltos inesperados de demanda e quando a concentração produtiva e logística torna o sistema vulnerável. Nessas condições, os choques têm efeitos desproporcionais. Hoje, essa margem é perigosamente estreita. A atenção de Donald Trump ao petróleo venezuelano — e possivelmente amanhã ao petróleo iraniano — também pode ser interpretada à luz da dependência estratégica da China das importações de energia. O mundo ainda não está sem energia. Mas está perigosamente carente de resiliência.

“Zona econômica Trump”: sonho de paz e o assombro da conspiração
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Nayla Assaf
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dez 31, 2025 - 15:58

A proposta de criar uma zona econômica no sul do Líbano, mencionada em agosto de 2025 pelo enviado americano Tom Barrack, criou uma onda de choque. A teoria por trás do projeto de uma “Zona Econômica Trump” pressupõe que uma zona semelhante atrairia investimentos estrangeiros, financiaria a reconstrução, garantindo assim uma segurança duradoura. No entanto, várias vozes se levantaram para alertar contra o perigo de uma violação da soberania do Estado libanês através da criação de um “protetorado” israelo-americano na zona fronteiriça. O projeto de uma “Zona Econômica Trump” insere-se numa abordagem adotada pelo atual presidente americano para resolver conflitos através do desenvolvimento econômico e do comércio. Esta abordagem é um dos fundamentos do pensamento liberal nas relações internacionais. Com efeito, a teoria do «comércio doce» baseia-se na ideia de que as trocas econômicas entre Estados constituem um fator de estabilidade política e de paz. Ao tecer laços comerciais duradouros, os países tornam-se interdependentes, o que reduz o incentivo a recorrer à guerra. Esta teoria foi popularizada no século XVIII por Montesquieu, «O comércio suaviza e civiliza os costumes bárbaros», escreveu ele, sublinhando que as trocas econômicas transformam as relações de força em relações de cooperação. Trump propôs esta ideia para Gaza, através da “Riviera Trump”, bem como na Ucrânia, através da transformação do Donbass numa zona franca que beneficiaria tanto os russos como os ucranianos. Lógica condicional Segundo Phillip Smyth, especialista americano em Oriente Médio que trabalhou no Washington Institute e no Atlantic Council, a zona econômica ultrapassa o simples quadro político e baseia-se numa lógica condicional assumida. Smyth sublinha que a sua implementação exige um alto nível de organização, planeamento e coordenação no terreno, condições indispensáveis para reduzir os riscos e atrair investidores credíveis. Para ele, esta exigência constitui um fator de seriedade e viabilidade e não um entrave ao desenvolvimento. Barrack indicou em agosto de 2025 que a Arábia Saudita e o Qatar estão prontos para investir vários milhares de milhões de dólares na zona econômica, uma declaração que não foi comentada pelos interessados. Uma coisa é certa: estes investimentos permanecem condicionados a certas garantias de segurança, nomeadamente o desarmamento do Hezbollah. Algumas fontes chegam a evocar investimentos potenciais até 10 mil milhões de dólares para infraestruturas, zonas industriais e projetos criadores de emprego. No entanto, estes montantes permanecem a ser confirmados por compromissos oficiais. Segundo Smyth, não existem números até ao momento. Estas indicações mostram um interesse real em apoiar o desenvolvimento econômico do sul do Líbano e oferecer oportunidades de emprego às populações locais. Romper com a lógica da ajuda pontual O sul do Líbano, dotado de uma base econômica formal limitada, poderia beneficiar de efeitos multiplicadores importantes: criação de empregos, desenvolvimento de infraestruturas, estimulação das trocas comerciais e redução da dependência da ajuda externa. A zona econômica poderia assim iniciar uma dinâmica de reconstrução duradoura e restaurar progressivamente a confiança econômica nesta região fragilizada, afirma Smyth. Visa transformar uma região há muito marcada por conflitos armados num espaço estruturado, capaz de atrair capitais regionais e internacionais. Esta iniciativa procura romper com a lógica da ajuda pontual para privilegiar uma reconstrução baseada em investimentos a longo prazo. O objetivo desta zona é integrar ainda mais o sul do Líbano nas dinâmicas econômicas regionais e reduzir a influência das lógicas políticas que há muito dominam a agenda local. Para o Líbano, o desafio é claro: aproveitar esta oportunidade para iniciar uma reconstrução estruturada e duradoura, ou deixar que os bloqueios internos, acentuados pela oposição do Hezbollah, privem o sul do país de uma perspectiva de desenvolvimento suscetível, a longo prazo, de redesenhar o seu futuro econômico e de segurança. Um estado de indigência econômica A profundidade da crise libanesa confere uma ressonância particular a este projeto. Desde 2019, o PIB do Líbano contraiu cerca de 40%, segundo o Banco Mundial. Esta queda soma-se a uma depreciação da libra libanesa superior a 98% em relação ao dólar, resultando em hiperinflação e uma perda massiva do poder de compra. Em 2022, 44% da população vivia abaixo do limiar de pobreza, ou seja, cerca de 2,6 milhões de pessoas numa população de aproximadamente 5,8 milhões. O desemprego global foi estimado em 11,5%, mas supera 23,6% entre os jovens de 15 a 24 anos, afetando particularmente o sul do país. Este cúmulo de perdas financeiras, destruição de infraestruturas e retirada do investimento público atingiu duramente esta região, sublinhando a urgência de perspectivas econômicas estruturantes. Teste político Segundo Smyth, a oposição do Hezbollah poderá impedir a concretização do projeto. Este bloqueio afeta diretamente a atratividade econômica da região, aumentando o custo do risco para os investidores potenciais. A zona deveria modificar esta equação, introduzindo interesses econômicos concretos capazes de transformar a estabilidade numa vantagem partilhada em vez de uma restrição imposta do exterior. A ausência de um mandato libanês claramente afirmado é tanto uma fraqueza estrutural quanto um revelador dos limites do Estado. Smyth observa que o projeto atua como um teste político para as autoridades libanesas. Um envolvimento mais ativo do Estado poderia transformar esta iniciativa externa num projeto nacional, reforçar a governança econômica e reafirmar a autoridade institucional numa região amplamente dominada por lógicas paralelas. A oposição do Hezbollah continua, portanto, o principal obstáculo. A sua presença armada e o seu peso político dificultam a segurança da zona e dissuadem os investimentos estrangeiros. A condição imposta pelos investidores do Golfo — reduzir a influência militar do Hezbollah — sublinha até que ponto o sucesso do projeto dependerá da evolução da relação de forças local e da vontade da milícia pró-iraniana de se adaptar a uma dinâmica econômica que poderá, a longo prazo, reduzir a sua influência no sul do país. Medos Do outro lado da fronteira, Israel beneficia da criação desta zona. Ao transformar a região fronteiriça num polo econômico, o projeto poderá reduzir as tensões e a presença militar do Hezbollah e criar oportunidades de cooperação indireta. Mesmo que o comité do mecanismo de vigilância do cessar-fogo ainda não tenha examinado o projeto em profundidade, estas consultas iniciais sugerem que a abordagem econômica poderá abrir novos canais de diálogo entre Beirute e Telavive. Várias vozes críticas apontam a suposta vontade de Israel de instaurar uma zona tampão de segurança, desmilitarizada e esvaziada dos seus habitantes, num modelo comparável ao que procuraria implementar ao longo das suas fronteiras síria e palestina. Informações, não confirmadas oficialmente, evocam assim a criação de grandes perímetros de segurança. No Líbano, estas perspectivas alimentam o medo de uma transferência demográfica indireta, na qual as populações locais seriam progressivamente desalojadas em favor de uma atividade econômica pilotada do exterior. Segundo essas mesmas fontes, a preocupação central reside no risco de que este dispositivo institucionalize um deslocamento forçado duradouro, enquanto o êxodo prossegue desde outubro de 2023, na ausência de qualquer estratégia claramente definida para o retorno dos deslocados e a reconstrução das aldeias destruídas. Por enquanto, o projeto de Trump resume-se a uma simples declaração, oficial, é certo, mas vaga e temporária. A importância atribuída às declarações de Barrack reflete a situação de angústia econômica do país e, por conseguinte, evoca a tradicional expectativa dos libaneses de uma ajuda vinda do exterior.

As atividades de Al-Qard Al-Hassan face ao direito libanês
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Nayla Assaf
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dez 28, 2025 - 17:05

Al-Qard Al-Hassan é apresentada como uma associação de vocação social. No entanto, ela se inseriu progressivamente em um cenário financeiro paralelo, à medida que a crise desencadeada no outono de 2019 se agravava. O colapso do setor bancário e a perda de confiança dos depositantes criaram um vácuo institucional que a associação soube explorar. Essa dinâmica, embora responda a uma necessidade real em um contexto de falência generalizada, não dissipa em nada as muitas questões jurídicas que levanta. Ela evidencia os limites do quadro legal libanês e os riscos sistêmicos que pesam tanto sobre os depositantes quanto sobre a economia nacional. Recordemos, neste contexto, que Al-Qard Al-Hassan foi criada no contexto da invasão israelense de 1982. Em 1987, obteve um aviso de registro junto ao Ministério do Interior sob o número 218 A.D. Originalmente, sua vocação era estritamente social e solidária. Permanece juridicamente sujeita à lei otomana sobre associações de 1909, que limita as atividades a organizações sem fins lucrativos e proíbe qualquer operação financeira que exceda o objeto declarado. No entanto, a concessão regular de créditos e a gestão de garantias em ouro excedem claramente este quadro, criando uma contradição estrutural entre o estatuto legal da entidade e a realidade de suas atividades. Empréstimos garantidos por ouro: um modelo jurídico complexo A associação concede principalmente empréstimos em dólares garantidos por depósitos em ouro, cujo valor é estimado antecipadamente, acompanhado de uma margem que cobre os riscos. Desde 2020, caixas automáticos permitem saques em libras libanesas ou em moedas estrangeiras. Essas práticas escapam às regras prudenciais aplicáveis aos bancos e levantam questões relacionadas à legislação cambial e às restrições que enquadram a circulação de moedas fora da supervisão oficial. O Código da Moeda e do Crédito de 1963 enquadra estritamente a atividade bancária. Os artigos 70 e 71 reservam a recepção de fundos, a concessão de créditos e a gestão dos meios de pagamento a estabelecimentos autorizados pelo Banco do Líbano. Os artigos 2 e 4 definem a moeda legal e as modalidades de liquidação. Ao coletar fundos e conceder empréstimos, Al-Qard Al-Hassan exerce de facto funções bancárias sem autorização, em violação direta do quadro legal em vigor. Essa situação levou o Banco do Líbano a publicar a circular n°170 em 2021, proibindo explicitamente as instituições financeiras e bancos que operam no Líbano de qualquer interação direta ou indireta com Al-Qard Al-Hassan, incluindo a abertura de contas, a execução de transferências, a prestação de serviços de pagamento ou qualquer operação semelhante. Através desta circular, o Banco Central reconhece de facto a existência de um agente financeiro paralelo que apresenta riscos sistêmicos, embora não lhe confira qualquer estatuto bancário oficial. Esta abordagem traduz uma postura prudente, mas juridicamente ambivalente: a instituição é considerada suficientemente ativa para justificar uma medida específica, mas permanece fora do âmbito de supervisão e regulação. Para cancelá-la completamente, o Ministério do Interior deve retirar a licença de Al-Qard Al-Hassan por aplicação da lei do paralelismo das formas. O surgimento da entidade « Joud » insere-se diretamente nesta zona cinzenta criada pela circular 170. Ao fragmentar juridicamente as estruturas e multiplicar as denominações, esta reconfiguração complica a aplicação prática da circular e reforça os riscos para os depositantes. Uma atividade que escapa a toda supervisão institucional O Banco do Líbano detém competência exclusiva em matéria de regulação monetária e financeira. O artigo 13 do Código da Moeda e do Crédito confere-lhe este poder, enquanto os artigos 174 a 178 organizam os mecanismos de controlo e sanção. Estes dispositivos não se aplicam a Al-Qard Al-Hassan nem a « Joud », que também escapam às circulares e diretivas do Banco Central relativas a créditos e operações em moeda estrangeira. Esta ausência de supervisão expõe os depositantes a riscos significativos e fragiliza a ordem monetária nacional. Neste contexto de vazio regulatório, a evolução recente de Al-Qard Al-Hassan acentua as questões jurídicas. Após a guerra chamada de «apoio», a associação optou por uma reconfiguração de sua fachada jurídica para se proteger contra qualquer tentativa de controle ou prestação de contas. Esta estratégia materializou-se pela adoção de uma nova denominação, « Joud », permitindo a continuidade das mesmas atividades financeiras sob uma entidade distinta, fora de qualquer supervisão bancária efetiva e sob um regime de restrições jurídicas potencialmente atenuadas. « Joud » é o resultado de uma reflexão interna conduzida por funcionários de Al-Qard Al-Hassan a partir de 7 de abril de 2025. A escolha deste nome, de conotação árabe-islâmica, insere-se numa lógica de continuidade simbólica, operando, ao mesmo tempo, uma ruptura formal no plano jurídico. A entidade foi registrada no registro comercial de Baabda sob o número 2078233, com uma primeira implantação na periferia sul de Beirute, e depois no registro comercial de Nabatiyé sob o número 6007003 como um segundo estabelecimento, no mês de novembro. Esta reestruturação não modifica a natureza das atividades exercidas nem os riscos incorridos pelos utilizadores, mas tende a fragmentar a responsabilidade jurídica e a complicar qualquer ação judicial visando a entidade inicial. A mudança de denominação aparece assim como uma medida de proteção preventiva, antecipando eventuais ações judiciais contra Al-Qard Al-Hassan, mantendo, ao mesmo tempo, operacional um dispositivo financeiro paralelo. Além disso, as contas bancárias desta nova entidade seriam abertas junto ao banco Saderat Iran no Líbano. Exigências do Código da Moeda e do Crédito O Código da Moeda e do Crédito impõe obrigações rigorosas às instituições financeiras. Os artigos 121 e 125 exigem, nomeadamente, a forma de sociedade anónima e um capital mínimo, enquanto os artigos 178 e 181 preveem uma autorização prévia e uma supervisão contínua pelo Banco do Líbano. Al-Qard Al-Hassan, bem como a sua variação sob a designação « Joud », não satisfaz nenhuma destas exigências, tornando o seu estatuto jurídico fundamentalmente incompatível com a atividade exercida. A ausência de aprovação exclui estas entidades do âmbito de aplicação da lei n° 318/2001, modificada pela lei n° 44/2015, relativa ao combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo. As obrigações de diligência, identificação de clientes e declaração de operações suspeitas, colocadas sob a supervisão da Comissão Especial de Investigação, não lhes são aplicáveis, criando um vazio regulatório preocupante. Uma constatação clara e técnica A título de conclusão jurídica, a constatação é irrefutável: o monopólio bancário não é respeitado; a supervisão do Banco do Líbano é deficiente; o estatuto associativo é inadequado; as obrigações de transparência e de combate ao branqueamento de capitais não se aplicam; a proteção dos depositantes é inexistente. Esta análise, estritamente jurídica e técnica, independente de qualquer leitura política, ilustra a forma como um ator financeiro paralelo pode desenvolver-se num contexto institucional frágil e sublinha a urgência de reforçar o quadro legal para proteger as poupanças e preservar a estabilidade do sistema financeiro libanês.

A liquidez, o combustível que alimentou os mercados em 2025 (3/3)
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Jacques Mechelany
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dez 28, 2025 - 12:36

Se a inteligência artificial forneceu o combustível narrativo para o extraordinário desempenho dos mercados em 2025, a liquidez forneceu o oxigênio. E se a atenção se concentrou amplamente nas políticas dos bancos centrais ocidentais, a fonte mais persistente — e, em última análise, mais desestabilizadora — de liquidez global veio de outro lugar: do Japão. Por décadas, o Japão foi percebido como uma anomalia — uma economia presa na deflação, operando sob sua própria lógica monetária e largamente desconectada dos ciclos globais. Em 2025, essa percepção se mostrou perigosamente desatualizada. O Japão não permaneceu simplesmente acomodatício; ele se tornou um dos principais facilitadores da tomada de risco global. Por anos, o Banco do Japão acumulou trilhões de dólares em títulos e ações em seu balanço, enquanto mantinha as taxas de juros próximas de zero. As taxas ultrabaixas japonesas e um iene em constante depreciação reviveram e ampliaram o carry trade global. Capitais tomados a baixo custo em ienes fluíram para ativos de maior rendimento em todo o mundo — ações, crédito, mercados privados e investimentos especulativos — reforçando o apetite por risco muito além das fronteiras japonesas. De fato, o Japão exportou liquidez para o sistema financeiro global em um momento em que outros bancos centrais tentavam, cautelosamente e de forma inconsistente, retirá-la. O carry trade em ienes tornou-se um dos vetores mais poderosos para a elevação dos preços dos ativos em 2025, impulsionando simultaneamente avaliações de ações mais altas e maior alavancagem em todo o sistema financeiro. Mas o Japão entrou em 2025 limitado por suas próprias realidades estruturais. Com uma dívida pública excedendo 235% do PIB, um sistema financeiro dependente de taxas ultrabaixas e um mercado de títulos doméstico frágil, o retorno da inflação e a perspectiva de crescimento econômico sustentável impuseram uma mudança estratégica. Em setembro de 2025, o Banco do Japão formalizou sua decisão de cessar suas compras de ativos e se tornou um vendedor líquido de títulos e ações. Em dezembro, elevou novamente suas taxas de juros, impulsionando os rendimentos dos títulos de muito longo prazo a níveis recordes. As implicações foram imediatas e globais: o carry trade em ienes encontrou-se em grave perigo — e, por extensão, os ativos de risco em todo o mundo. Enquanto a liquidez continuava a inflar os mercados financeiros, a economia real enviava um sinal muito diferente. As commodities — a expressão mais tangível de oferta, escassez e tensões geopolíticas — dispararam em todo o espectro. Energia, metais industriais e recursos estratégicos avançaram fortemente, refletindo anos de subinvestimento, fragmentação das cadeias de suprimentos e custos crescentes da desglobalização. Essa alta das commodities não é uma exuberância cíclica; é uma tensão estrutural. Ao contrário dos ativos financeiros, as commodities respondem a restrições físicas. Elas integram geologia, geopolítica, intensidade energética e tempo. O mundo entrou em 2025 com estoques esgotados, cadeias de suprimentos fragmentadas e uma concorrência estratégica crescente por recursos — de metais críticos a alimentos e energia. Nesse ambiente, uma liquidez persistente colidiu com uma oferta limitada. A implicação é crucial: o risco inflacionário não desapareceu — ele está aumentando. No entanto, ao longo de 2025, os mercados incorporaram amplamente um retorno à desinflação e à flexibilização das políticas, mesmo com o aumento dos custos de insumos, dos preços das commodities e das pressões sobre os recursos estratégicos. Essa contradição — uma flexibilização das condições financeiras diante de crescentes restrições na economia real — é intrinsecamente instável. Ela coloca os bancos centrais em uma posição impossível: tolerar a inflação ou arriscar desestabilizar mercados que se tornaram dependentes da liquidez. Os mercados de títulos podem muito bem impor essa escolha em 2026. O papel do Japão amplifica esse risco. Um novo enfraquecimento do iene reforçaria a inflação por meio do aumento dos preços das importações e das commodities. Por outro lado, qualquer apreciação significativa arriscaria provocar um desfecho abrupto dos carry trades, desestabilizando os preços dos ativos globais. Ambos os cenários carregam consequências que os mercados ainda não incorporaram totalmente. A inteligência artificial e a liquidez sustentaram o rali de 2025. As commodities agora questionam sua sustentabilidade. A esfera cripto — a expressão mais pura do excesso especulativo — já iniciou uma reversão, com o Bitcoin caindo mais de 35% em relação ao seu pico de outubro. A história oferece poucos exemplos em que uma distorção monetária prolongada, uma alavancagem crescente e um endurecimento das restrições físicas se resolvem sem volatilidade. A trajetória extraordinária dos mercados financeiros em 2025 pode, em última análise, revelar menos o nascimento de uma nova era disruptiva do que o otimismo excessivo que caracteriza as bolhas de investimento.

A IA: a revolução tecnológica que impulsionou os mercados em 2025 (2/3)
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Jacques Mechelany
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dez 27, 2025 - 10:31

Nenhuma força moldou a trajetória dos mercados financeiros em 2025 de forma tão decisiva quanto a inteligência artificial. A IA tornou-se a narrativa dominante que permite aos investidores justificar avaliações elevadas, concentração extrema e risco crescente. Ofereceu uma visão do futuro suficientemente poderosa para neutralizar as preocupações com o abrandamento do crescimento, o aumento do endividamento e a fragmentação geopolítica. Fundamentalmente, a IA constitui uma verdadeira revolução tecnológica — um salto de produtividade comparável à eletrificação ou à Internet — e já transforma setores inteiros. Mas os mercados financeiros não valorizam os benefícios sociais de longo prazo; eles valorizam realidades microeconômicas: fluxos de caixa das empresas, intensidade de capital e sustentabilidade. É a este nível que surgiu um desfasamento crescente. Em 2025, o ecossistema de IA foi muito mais definido por gastos de capital do que por lucros. O treino de modelos em larga escala, a construção de centros de dados, a segurança de chips avançados e a alimentação de infraestruturas altamente intensivas em energia exigiram investimentos de uma magnitude raramente observada fora da indústria pesada ou de programas de infraestruturas nacionais. Isso resultou numa explosão sem precedentes nos gastos de capital entre os hiperescaladores e os fornecedores de plataformas de IA. A ascensão meteórica da NVIDIA — a inquestionável espinha dorsal de hardware do boom da IA — para uma avaliação próxima de 5 biliões de dólares refletiu não apenas uma liderança tecnológica, mas também uma corrida global por investimento. Empresas e governos apressaram-se a garantir capacidades de computação, muitas vezes comprometendo capital muito antes de a procura final ser demonstrada. Para muitos, estes investimentos visavam menos retornos imediatos do que um posicionamento estratégico: comprar hoje para não ficar para trás amanhã. À medida que o ano avançava, os mercados começaram a questionar a sustentabilidade deste ciclo de investimento — e, mais ainda, a natureza circular do seu financiamento. O que permaneceu largamente ignorado, em contrapartida, foi a questão da rentabilidade final. As avaliações integravam cada vez mais um futuro de crescimento hiper-sustentado, sem preocupação real com o retorno do capital investido nem com o risco de saturação. Os primeiros dados sugerem agora que apenas uma pequena fração dos projetos relacionados com a IA alcançará uma rentabilidade significativa, pairando a perspetiva de que quase 1,5 biliões de dólares de investimentos previstos possam, em última análise, ser desvalorizados. O perfil financeiro do setor ilustrava claramente este desequilíbrio. A OpenAI, amplamente percebida como a vanguarda tecnológica da revolução da IA, deveria gerar cerca de 19 mil milhões de dólares em receitas, ao mesmo tempo que registrava quase 13 mil milhões de dólares em perdas — uma ilustração impressionante do atraso da monetização em relação ao investimento. Nesse sentido, a IA em 2025 funcionou mais como um sistema de crenças do que como um motor de crescimento tradicional. Permitiu aos investidores racionalizar avaliações extremas e uma concentração histórica. No final do ano, apenas dez ações fortemente sobrevalorizadas representavam cerca de 45% da capitalização do Nasdaq-100 e 34% da do S&P 500 — uma configuração precária se as expectativas de crescimento não se materializassem.

Os mercados financeiros em 2025: Um ano que desafia a gravidade econômica (1/3)
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Jacques Mechelany
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dez 25, 2025 - 16:42

Enquanto o Papai Noel se prepara para descer pelas chaminés do mundo inteiro, como todos os anos, e 2025 chega ao fim, os mercados financeiros globais oferecem um cenário que teria parecido implausível — ou mesmo completamente impossível — no início do ano. A maioria dos grandes índices bolsistas termina o ano em níveis recordes, ou perto dos seus máximos históricos, marcando um terceiro ano consecutivo de desempenhos excecionais. Nos Estados Unidos, o índice de referência S&P 500 apresenta uma subida de cerca de 17% no momento da redação, após ganhos de 23% em 2024 e 24% em 2023. Isso representa um progresso acumulado de cerca de 77% em três anos — e um salto extraordinário de mais de 1.000% desde o início do mercado altista estrutural de março de 2009. Os mercados europeus, apesar de um crescimento estagnado, instabilidade política e tensões geopolíticas crescentes, seguiram a mesma trajetória. Na Alemanha, o índice DAX subiu 22% desde o início de 2025. O FTSE 100 britânico progrediu quase 30%, registando um dos seus melhores desempenhos anuais de sempre. O IBEX 35 espanhol apresenta um aumento espetacular de 48% este ano, desafiando tanto as restrições orçamentais quanto a incerteza política. No Japão, o Nikkei 225 continua a «flutuar» em máximos históricos, com um avanço de 26% em 2025. As ações chinesas também surpreenderam em alta: os mercados domésticos avançaram cerca de 17%, enquanto os títulos listados em Hong Kong ganharam mais de 23%. Mesmo os mercados emergentes — há muito considerados os mais vulneráveis ao aumento das taxas de juro e ao aperto da liquidez global — mostraram um entusiasmo que poucos antecipavam. O KOSPI sul-coreano, por exemplo, teve uma subida impressionante de 71% desde o início do ano. Ao mesmo tempo, os ativos tradicionalmente vistos como coberturas contra a instabilidade atingiram máximos históricos. O ouro ultrapassou decisivamente níveis outrora considerados psicologicamente e estruturalmente intransponíveis, registando um ganho notável de 71% este ano. A prata fez ainda melhor, com um aumento de cerca de 149% desde o início do ano. Uma vasta gama de matérias-primas — da energia aos metais industriais — também registou fortes progressões, refletindo tanto o fervor especulativo quanto tensões estruturais mais profundas. O mercado imobiliário conta uma história semelhante. Nos Estados Unidos, no Japão e em grande parte da Europa, os preços dos imóveis atingem níveis recordes, muitas vezes bem acima dos seus picos anteriores a 2007. Estas valorizações pressupõem um ambiente de taxas de juro persistentemente baixas e liquidez abundante — uma hipótese cada vez mais desalinhada com a realidade. Em muitas grandes cidades mundiais, os preços permanecem largamente superiores aos seus níveis pré-pandemia, apesar dos custos de empréstimo mais elevados, de uma acessibilidade em declínio e de um enfraquecimento dos balanços dos agregados familiares. Em resumo, 2025 foi um ano excecional para os tomadores de risco, terminando com quase tudo a preços elevados — muitas vezes extraordinariamente elevados. E, no entanto, segundo a maioria dos critérios económicos tradicionais, o contexto global não é nada tranquilizador. O mundo atravessou um dos ambientes geopolíticos mais tensos das últimas décadas. O crescimento abrandou em grande parte do mundo desenvolvido. Os níveis de dívida pública e privada atingiram máximos históricos. Os riscos geopolíticos multiplicaram-se em vez de diminuírem — do Médio Oriente à Europa de Leste, da rivalidade estratégica entre grandes potências ao regresso das tensões no continente americano. A política monetária, outrora força estabilizadora da era pós-2008, está agora constrangida pelas realidades políticas e pelos excessos orçamentais. Este é o paradoxo central de 2025: um ano durante o qual os mercados financeiros prosperaram enquanto os fundamentos económicos, políticos e sociais subjacentes pareciam cada vez mais frágeis. Não foi um ano marcado por avanços de produtividade, crescimento generalizado dos rendimentos ou uma nova expansão do comércio global. Em vez disso, foi moldado pela liquidez, pelas narrativas e pela concentração — um ano durante o qual o capital não se direcionou para a segurança ou o valor, mas para os ativos que pareciam mais desconectados da realidade. Tudo o que não deveria ter funcionado, funcionou A trajetória extraordinária dos mercados financeiros em 2025 não é fruto do acaso. É o produto de um otimismo coletivo, de promessas tecnológicas e de esperanças renovadas de renascimento económico. À medida que os sinais económicos enfraqueciam e os riscos geopolíticos se intensificavam, os mercados não reavaliaram o risco de forma tradicional. Eles projetaram-se em narrativas — aquelas, sedutoras, da inteligência artificial, da robótica humanoide e de tecnologias transformadoras ainda largamente não testadas em grande escala. Paralelamente, os investidores ancoraram-se na convicção de que os bancos centrais acabariam sempre por proteger os mercados contra quedas significativas, flexibilizando as condições monetárias assim que as tensões aparecessem. Esta poderosa combinação de convicção narrativa e de reafirmação política permitiu que a assunção de riscos prosperasse, mesmo quando os fundamentos se deterioravam. A prudência cedeu progressivamente lugar à especulação, com os mercados a tornarem-se menos atentos à realidade económica e mais dependentes das antecipações e das crenças. Nunca na história a participação de investidores particulares foi tão elevada, nunca a concentração num pequeno número de títulos foi tão forte, nunca o efeito de alavancagem foi tão importante, nunca as valorizações foram tão elevadas, e nunca a diferença entre os «privilegiados» e os «desfavorecidos» foi tão extrema. A história sugere que tais momentos sinalizam uma transição — da expansão para a fragilidade, do entusiasmo para a vulnerabilidade.

Al-Qard Al-Hassan teria iniciado uma fase de «pós-liquidação»
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Nayla Assaf
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dez 23, 2025 - 17:52

Sob o efeito das sanções americanas, das restrições impostas pelo Banco do Líbano e das perdas sofridas durante a última guerra com Israel, o Hezbollah procurou reconfigurar o seu principal braço financeiro, Al-Qard Al-Hassan. Este « reposicionamento », apresentado como « legal », visa preservar o seu controlo sobre a economia paralela e a sua base social. Fundada em 1982, a associação Qard Al-Hassan opera fora do quadro legal bancário. Os fundos iranianos contribuíram inicialmente para o capital da associação. Foram complementados por capitais libaneses, nomeadamente de empresários em África, ao longo de vários anos. Segundo o Departamento do Tesouro americano, que incluiu Qard Al-Hassan em 2007 na lista de entidades sancionadas e depois reforçou essas sanções em 2021, esta associação gere volumes financeiros comparáveis aos de um banco de médio porte, ao mesmo tempo que escapa a qualquer supervisão oficial. As autoridades americanas estimam que a rede serve várias centenas de milhares de beneficiários em todo o Líbano, contando com ativos tangíveis importantes, nomeadamente depósitos em ouro utilizados como garantias, sem controlo por parte das autoridades financeiras libanesas. Desde o colapso do sistema bancário em 2019, Al-Qard Al-Hassan impôs-se como um substituto para um setor qualificado como « profundamente insolvável » pelas instituições internacionais, reforçando assim a dependência económica da base social do Hezbollah e consolidando o seu poder financeiro e político fora de qualquer estrutura estatal. Uma legitimidade simbólica A política de restrições severas imposta desde 2019 pelo Banco do Líbano – limitações aos levantamentos, controlo das transferências para o estrangeiro e enquadramento das operações de câmbio – criou um ambiente propício ao desenvolvimento de estruturas financeiras não reguladas. Neste contexto, Al-Qard Al-Hassan surgiu para alguns como uma alternativa ao Estado e ao setor bancário, devido à sua falência. O princípio do Qard Al-Hassan, baseado no empréstimo sem juros, confere a esta associação uma forte legitimidade simbólica dentro da comunidade xiita. O Hezbollah baseia-se nesta referência para apresentar a associação como uma obra social. Segundo o politólogo Ali Hamadé, esta simbologia é também estratégica para a influência política do partido: permitiu penetrar em camadas sociais para além da comunidade xiita, estendendo assim o seu domínio económico e social. Mas, na realidade, Al-Qard Al-Hassan funciona como uma rede bancária paralela, manipulando importantes liquidez fora de qualquer controlo estatal e fora da supervisão oficial do Banco do Líbano ou da Comissão de Controlo dos Bancos. Ali Hamadé observa, neste contexto, que a associação iniciou uma fase de « pós-liquidação », redistribuindo certas atividades a outras entidades afiliadas ao Hezbollah, nomeadamente no setor do ouro. As operações de compra, venda e penhor de ouro são agora realizadas através da Joud, uma sociedade comercial com número de identificação fiscal e licença, cujo diretor-geral da família Karnib é sancionado pelos Estados Unidos. As atividades de natureza bancária são transferidas progressivamente para outras estruturas legais, sendo as operações apresentadas como simples vendas de mercadorias, contornando assim a vigilância financeira. O encerramento seria inevitável Ali Hamadé salienta ainda que o momento do encerramento ou controlo de Al-Qard Al-Hassan é da competência da Presidência da República e não do Ministério do Interior. Esta responsabilidade explica a prudência na análise do dossiê, com o objetivo de evitar perturbações financeiras ao nível dos depositantes e de gerir o impacto simbólico de tal ato na comunidade xiita e além. Perante a pressão internacional e americana, o encerramento da associação parece agora inevitável, mesmo que outras estruturas continuem a assumir algumas das suas atividades. Este possível encerramento foi desmentido pela associação, que afirma que « continua a operar com o seu nome habitual, em todas as suas agências no Líbano ». Especifica que as operações de compra e venda de ouro, em numerário ou a prestações, são realizadas exclusivamente através de sociedades comerciais legais. Esta clarificação ilustra a complexidade da transferência progressiva das funções de Al-Qard Al-Hassan para entidades como a Joud, permitindo distinguir legalmente as operações comerciais das atividades quase bancárias.

O super ciclo das matérias-primas: a nova corrida do ouro
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Jacques Mechelany
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dez 18, 2025 - 02:27

Há quase dois anos, investidores acompanham a escalada do ouro e da prata — muitas vezes com surpresa. Desde dezembro de 2023, o ouro mais do que dobrou, saindo de cerca de US$ 2.000 por onça para perto de US$ 4.300, enquanto a prata disparou de US$ 26 para US$ 63, com uma aceleração evidente no segundo semestre de 2025. Se os níveis atuais se mantiverem até o fim do ano, os dois metais devem registrar a melhor performance anual desde 1979, no início do último grande ciclo dos metais preciosos. E o movimento não ficou restrito aos “metais brilhantes”. Platina e paládio também avançaram com força, o cobre acumula alta próxima de 50%, e um amplo conjunto de minerais estratégicos vive um ano excepcional. Com investidores de varejo correndo para o setor — com medo de “ficar de fora” — e com grandes fluxos indo para fundos indexados ligados ao ouro e à prata, duas perguntas surgem de forma inevitável: O que explica essas altas tão expressivas? E este ciclo é, de fato, diferente dos anteriores? Qualquer analista de commodities que tenha atravessado mais de um ciclo dirá que já viu esse filme. Dos choques de estagflação dos anos 1970 ao superciclo puxado pela China nos anos 2000, que atingiu o pico em 2011, as commodities seguiram por décadas um roteiro relativamente previsível: a demanda acelera, a oferta reage com atraso, os preços sobem demais e, em algum momento, o ciclo vira. Nessa leitura, as commodities permanecem presas ao contexto macroeconômico e às leis clássicas de oferta e demanda. O ciclo de 2024–2025 não se encaixa nesse padrão. O que diferencia a fase atual é a convergência simultânea de forças estruturais que jamais atuaram juntas nessa escala. Não se trata de um impulso conjuntural: são forças políticas, financeiras e sistêmicas, redesenhando os alicerces do mercado global de matérias-primas. Desdolarização e deterioração das contas públicas dos EUA O primeiro pilar dessa nova arquitetura é, ao mesmo tempo, monetário e geopolítico. A guinada estratégica dos Estados Unidos — colocando em xeque a lógica da globalização e reforçando uma postura mais protecionista — mudou de maneira profunda a percepção internacional sobre a liderança econômica americana. Uma abordagem mais transacional — e, por vezes, abertamente confrontacional — nas relações externas enfraqueceu alianças tradicionais e levou muitos países a reavaliar a dependência dos EUA, tanto como âncora geopolítica quanto como contraparte financeira. Em paralelo, déficits fiscais persistentes e o avanço acelerado da dívida pública ampliaram as dúvidas sobre a sustentabilidade de longo prazo das finanças americanas. Para muitos bancos centrais, a combinação de imprevisibilidade geopolítica e deterioração fiscal levanta questões desconfortáveis sobre a solidez dos Treasuries e o papel do dólar como ativo de reserva “indiscutível”. A resposta foi clara: diversificação para fora do dólar e em direção ao ouro. Segundo o World Gold Council, bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas de ouro em 2023, 1.044 toneladas em 2024, e devem alcançar entre 750 e 900 toneladas em 2025 — níveis bem acima da média anual de 400 a 500 toneladas observada antes de 2022. Não são compras táticas. É uma recomposição estrutural dos balanços soberanos. Essa dinâmica é o primeiro pilar de um ciclo de commodities movido não apenas por crescimento, mas por uma erosão da confiança na arquitetura financeira que sustentou a economia global nas últimas quatro décadas. A “militarização” das cadeias de suprimento Durante décadas, a globalização se apoiou numa hipótese simples: a interdependência econômica reduziria conflitos e aumentaria a eficiência. Cadeias de suprimento foram desenhadas para custo e escala — não para resiliência ou soberania. Essa hipótese deixou de valer. Depois de guerras comerciais, sanções, proibições de exportação e congelamento de ativos soberanos, os Estados chegaram a uma conclusão direta: controlar recursos físicos é poder. Com isso, commodities — sobretudo metais críticos para energia, tecnologia e defesa — migraram do campo da economia de mercado para o da segurança nacional. A China foi a mais explícita ao operacionalizar essa estratégia, usando controles de exportação sobre minerais críticos e tecnologias de processamento para transformar domínio industrial em alavanca geopolítica. Não se trata de maximizar receita no curto prazo, mas de preservar opcionalidade estratégica. O efeito é profundo: preço já não é o único mecanismo de equilíbrio. Mesmo quando existe oferta, o acesso pode não estar garantido. Mercados antes integrados passam a se fragmentar em blocos regionais e políticos. Nesse ambiente, escassez nem sempre aparece em estoques visíveis: ela se manifesta em quem pode comprar, quando pode comprar e sob quais condições. Os mecanismos de arbitragem que antes unificavam os preços globais começam a travar. Os limites físicos da substituição Em ciclos anteriores, a alta de preços estimulava substituição, ganhos de eficiência e “redução de carga” de materiais, o que acabava limitando as tensões. Hoje, em vários metais críticos, essas margens estão se esgotando. Na energia solar fotovoltaica, o uso de prata já está perto de limites físicos e tecnologias mais eficientes podem aumentar a intensidade de prata por painel. Em catalisadores automotivos, a substituição entre platina e paládio já amadureceu e esbarra em restrições químicas e regulatórias. Em baterias, as intensidades de materiais se aproximam de mínimos teóricos, deixando pouco espaço para novas reduções sem comprometer desempenho. Ao mesmo tempo, a oferta mineral perdeu elasticidade. Teores de minério caem, licenças demoram décadas e restrições ambientais limitam uma expansão rápida de capacidade. O resultado é um sistema em que a demanda pode crescer mais rápido do que a oferta consegue responder, independentemente do preço. Não é um gargalo temporário. É um teto estrutural. A combinação dessas três forças — realinhamento monetário, fragmentação geopolítica e restrições físicas — está desenhando uma nova arquitetura do mercado de commodities. Num mundo em que cadeias de suprimento são instrumentalizadas, moedas são questionadas e a substituição chega ao limite, commodities deixam de se comportar como ativos apenas cíclicos. Elas passam a funcionar como ativos estratégicos. As regras mudaram. Este superciclo — seletivo, desigual e profundamente político — é de uma natureza radicalmente diferente. E daqui para frente? Ouro, o metal de investimento por excelência O ouro ocupa um lugar singular entre as commodities. Sua demanda é essencialmente financeira, seja por bancos centrais, seja por carteiras de investimento. Diferente dos metais industriais, o ouro não depende do crescimento econômico para justificar seu papel: ele depende da confiança — ou, mais precisamente, da perda dela. A demanda por investimento é, por definição, potencialmente ilimitada, enquanto a oferta é estruturalmente limitada. Nesse contexto, fixar metas de preço muito precisas costuma ser mais exercício de retórica do que de análise — ainda mais quando a demanda do investidor de varejo chinês adiciona uma camada extra ao “bid” global. A história, no entanto, ajuda a contextualizar. Entre 2001 e 2011, o ouro saiu de cerca de US$ 250 por onça para US$ 1.921, alta de 768%. Nos anos 1970, avançou de US$ 100 para US$ 873 em menos de quatro anos — 873%. No ciclo atual, o ouro subiu de um piso próximo a US$ 1.046 em 2015 para cerca de US$ 4.300, uma alta em torno de 411%. É um movimento grande, mas não necessariamente excepcional quando comparado aos precedentes históricos. A pergunta central, portanto, não é se o ouro “foi longe demais”, mas se as forças estruturais que sustentam a demanda se esgotaram. Os desequilíbrios fiscais persistem, a fragmentação geopolítica se intensifica e a credibilidade das moedas fiduciárias vem sendo testada como há décadas não se via. Mesmo com a conhecida imprevisibilidade dos mercados, o conjunto desses fatores sugere que o ciclo do ouro está longe de terminar. Prata, um “ouro” industrial Se o ouro é a âncora do sistema, a prata é o acelerador. Ao combinar demanda monetária com usos industriais, a prata é estruturalmente mais volátil — e historicamente mais explosiva — em fases avançadas do ciclo. Sua oferta é particularmente limitada: cerca de 70% da produção global vem como subproduto de outros metais, o que restringe a resposta aos sinais de preço. Além disso, a prata é essencial para eletrificação, solar e eletrônica avançada — setores fortemente estimulados por políticas públicas. O mercado físico, por isso, está em déficit há quatro anos consecutivos. Quando demanda financeira e demanda industrial sobem ao mesmo tempo, a prata não se ajusta devagar. Ela se desloca de forma abrupta. Nos anos 1970, o preço passou de US$ 1,50 por onça para quase US$ 50, alta superior a 3.000%. Entre 2001 e 2011, saltou de US$ 4 para quase US$ 50, uma alta acima de 1.100%, bem superior à do ouro. No ciclo atual, a prata foi de cerca de US$ 13,60 em 2016 para perto de US$ 63, uma alta próxima de 460%. À luz da história, a fase atual parece mais cedo do que tarde. Conclusão Uma mudança de regime, não um ciclo econômico O mercado de metais no fim de 2025 já não é apenas cíclico. Ele se tornou estrutural. Por quarenta anos, investidores operaram com a premissa de comércio aberto, oferta elástica, arbitragem eficiente e substituição tecnológica. Essas quatro hipóteses agora se desfazem — ao mesmo tempo. A geografia passa a valer mais do que a geologia. A política pesa mais do que o preço. A disponibilidade física importa mais do que contratos “de papel”. Não é uma tese “altista” ou “baixista”. É uma mudança de regime.