
Um novo ciclo energético se aproxima, e o ajuste pode ser brutal

Durante grande parte dos últimos quatro anos, os mercados globais de energia transmitiram uma sensação enganosa de calma.
Os preços do petróleo recuaram mais de 50% desde o pico de 2022. Os preços do gás natural se normalizaram após o choque provocado pela guerra na Ucrânia. As energias renováveis dominam as manchetes, reforçando a percepção de que os combustíveis fósseis estariam sendo gradualmente empurrados para a irrelevância.
À primeira vista, o mundo parece bem abastecido.
Sob essa aparente tranquilidade, no entanto, esconde-se uma realidade muito mais frágil — marcada por subinvestimento crônico, esgotamento físico dos campos, forte concentração geopolítica da oferta e uma retomada silenciosa da demanda estrutural. O sistema energético global não é resiliente. Ele se encontra hoje em um equilíbrio instável.
A ilusão da sobreoferta
Em torno de 60 dólares por barril, os preços do petróleo sugerem abundância. A Agência Internacional de Energia projeta um crescimento da oferta global de 3,1 milhões de barris por dia em 2025, amplamente superior ao avanço do consumo. O consenso dos analistas reforça essa leitura, alimentando a ideia de que a escassez energética pertence ao passado.
Mas esses níveis de preços têm um custo.
Quando o petróleo é negociado abaixo do custo marginal de nova produção, o investimento desacelera. Não de forma abrupta ou imediata, mas de maneira persistente. Com o tempo, essa dinâmica corrói a capacidade do sistema de absorver choques.
Nos Estados Unidos, o petróleo de xisto — principal motor do crescimento da oferta global na última década — já dá sinais de desgaste. Foi ele que permitiu ao país passar da condição de maior importador mundial para a autossuficiência e, posteriormente, para a posição de exportador líquido.
Hoje, o xisto responde por cerca de dois terços da produção americana, impulsionado por avanços tecnológicos como a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico, com a Bacia do Permiano como principal polo.
No entanto, quando o WTI opera abaixo do custo marginal de novas capacidades — estimado em torno de US$ 70 por barril pela Enverus Intelligence Research, com um ponto de equilíbrio corporativo próximo de US$ 62,50 segundo a Rystad Energy — o investimento inevitavelmente se retrai.
A atividade de perfuração já começou a cair. Como os poços de xisto apresentam taxas de declínio muito acentuadas, podendo perder até 50% da produção no primeiro ano, a manutenção do nível de produção exige perfuração constante. A fraqueza atual se traduzirá, de forma mecânica, em menor produção no futuro.
Em escala global, os campos convencionais de petróleo registram declínios anuais de 4% a 6%. Manter a produção atual exige substituir vários milhões de barris por dia todos os anos. Quando o investimento não é suficiente, a escassez não surge imediatamente — ela se acumula de forma silenciosa.
É assim que os mercados de energia passam de um excedente aparente para um déficit real. E quando essa virada ocorre, o ajuste de preços tende a ser abrupto.
Gás natural: a falha logística
Se os preços do petróleo revelam complacência, o mercado de gás natural expõe tensões estruturais profundas.
O sistema energético global repousa sobre uma equação de quatro elementos:
O petróleo, pilar central do sistema, responde por cerca de 30% da energia mundial
As fontes renováveis oferecem produção intermitente
A energia nuclear fornece carga base, mas avança lentamente
O gás natural garante flexibilidade, rapidez e confiabilidade
O gás natural tornou-se central nos sistemas elétricos modernos. Ele compensa as limitações das renováveis e assegura a estabilidade das redes.
Sua demanda é altamente sensível às condições climáticas — não por especulação, mas porque aquecimento e refrigeração são necessidades inegociáveis. Invernos rigorosos na Europa, na América do Norte ou no Nordeste Asiático tensionam imediatamente os equilíbrios. Ondas de calor produzem o mesmo efeito via consumo elétrico. O gás preenche essa lacuna.
A produção de gás também não está imune ao declínio. Os preços baixos dos últimos dois anos levaram à redução da perfuração em bacias de gás seco, à realocação de capital para áreas mais ricas em petróleo e ao adiamento de investimentos em infraestrutura.
Ao contrário do petróleo, porém, a principal restrição do gás não é a produção, mas a logística: gasodutos, terminais de liquefação, frotas de navios metaneiros, instalações de armazenamento altamente especializadas e portos adequados.
A expansão do gás natural liquefeito (GNL) globalizou o mercado. A Europa, após reduzir drasticamente sua dependência do gás russo transportado por dutos, passou a depender fortemente do GNL. A demanda asiática segue em crescimento. Os Estados Unidos tornaram-se o maior exportador mundial, conectando seu mercado doméstico às dinâmicas globais e às limitações logísticas.
Nesse contexto, as disrupções deixam de ser regionais. Tornam-se sistêmicas.
A demanda energética volta a crescer, silenciosamente
Enquanto a atenção pública permanece voltada para a queda esperada da demanda por combustíveis fósseis, impulsionada pelos veículos elétricos e pela expansão acelerada da energia solar, um novo vetor de consumo emerge: a inteligência artificial.
A revolução da IA não se limita a chips e softwares. Ela é, fundamentalmente, energética.
Até 2030, o consumo elétrico dos data centers pode alcançar entre 950 e 1.600 terawatts-hora, impulsionado principalmente pelas cargas de trabalho de IA. Para efeito de comparação, a geração total de eletricidade dos Estados Unidos em 2024 foi de aproximadamente 4.400 terawatts-hora.
A IA, sozinha, pode elevar a demanda elétrica americana em mais de 20% em cinco anos.
Essa energia terá de ser produzida.
Usinas nucleares exigem longos prazos de construção. A energia solar, apesar do crescimento acelerado, ainda representa cerca de 5% da geração elétrica global e deve atingir aproximadamente 20% até 2050. A infraestrutura de gás é complexa e lenta de desenvolver. No curto prazo, o petróleo permanece como a fonte de energia mais disponível e flexível.
Surge, assim, um paradoxo: à medida que a transição energética avança, a demanda se torna mais rígida — não mais flexível.
A concentração da oferta marginal: a verdadeira linha de fratura
Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, o maior consumidor e o maior produtor mundial de petróleo. São amplamente autossuficientes.
A China, por sua vez, é o segundo maior consumidor, com cerca de 16 milhões de barris por dia, e o maior importador global. Depende de um conjunto diversificado de fornecedores: países do Golfo, Rússia, Irã, Venezuela e, em menor grau, produtores asiáticos como Indonésia, Brunei e Mianmar.
Até recentemente, a China importava cerca de 400 mil barris por dia da Venezuela, aproximadamente 4% de seu consumo — um fluxo interrompido abruptamente em 3 de janeiro de 2026. Em 2025, o Irã foi o segundo maior fornecedor, com 1,61 milhão de barris por dia, quase 20% das importações chinesas.
A principal vulnerabilidade do sistema energético global não está na demanda, mas na concentração da oferta marginal.
Fora dos Estados Unidos, a capacidade excedente de produção é extremamente concentrada. No fim de 2025, a capacidade ociosa da OPEP+ girava em torno de 4 milhões de barris por dia, cerca de 4% do consumo mundial. À primeira vista, o número parece confortável.
Na prática, não é.
A Arábia Saudita controla cerca de 2,4 milhões de barris por dia
Os Emirados Árabes Unidos, aproximadamente 850 mil
O Iraque, cerca de 320 mil
Juntos, esses três países concentram cerca de 70% da capacidade disponível. A maioria dos demais produtores já opera próxima do limite máximo.
Essa configuração transforma a capacidade excedente de amortecedor em um ponto potencial de ruptura.
A concentração logística: o risco geopolítico

Em nenhum lugar essa fragilidade é mais evidente do que no Oriente Médio.
Cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e uma parcela crítica das exportações globais de GNL transitam pelo Estreito de Ormuz, um corredor marítimo estreito entre o Irã e Omã, sem alternativa viável.
Qualquer interrupção — mesmo temporária — revelaria imediatamente a estreiteza das margens de segurança.
Com o regime iraniano sob as pressões internas e externas mais intensas das últimas décadas, o risco de escalada assimétrica não pode ser descartado. Entre os cenários mais graves está uma tentativa de interromper o tráfego marítimo no estreito.
Um evento desse tipo representaria um verdadeiro cisne negro para os mercados globais de energia, provocando uma reprecificação abrupta do petróleo e do gás natural, especialmente durante os picos de demanda do inverno no Hemisfério Norte.
Um sistema precificado para a calma, não para o choque
A narrativa dominante parte da premissa de estabilidade: oferta controlada, geopolítica administrável e uma transição energética suave.
A história recomenda cautela.
Os mercados de energia não entram em crise de forma gradual. Eles falham na margem — quando o subinvestimento limita a oferta de longo prazo, quando novas tecnologias geram saltos inesperados de demanda e quando a concentração produtiva e logística torna o sistema vulnerável. Nessas condições, os choques têm efeitos desproporcionais.
Hoje, essa margem é perigosamente estreita.
A atenção de Donald Trump ao petróleo venezuelano — e possivelmente amanhã ao petróleo iraniano — também pode ser interpretada à luz da dependência estratégica da China das importações de energia.
O mundo ainda não está sem energia.
Mas está perigosamente carente de resiliência.