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Os ataques israelitas contra aldeias do Sul do Líbano continuaram ao longo do dia de terça-feira. (Kawnat Haju / AFP)
O Essencial do Dia
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Por LevantTime .
Publicado em set 8, 2026 - 21:37
No Líbano, três desenvolvimentos merecem atenção pela sua dimensão sociopolítica significativa: o segundo «Apelo para salvar Nabatiyé», publicado na segunda-feira e subscrito por quase 400 personalidades, sobretudo xiitas, desta região do sul do Líbano; um confronto armado, o segundo em 24 horas, entre presumíveis membros do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) do Irão e habitantes da aldeia de Nmayré, apoiados por partidários do movimento Amal, aliado do Hezbollah; e, por fim, comunicados publicados por duas aldeias xiitas, Arabsalim e Doueir, pedindo ao exército que estabeleça postos fixos nas entradas das suas localidades. ​ Embora de natureza diferente, estes acontecimentos convergem num ponto fundamental no contexto libanês: refletem uma mudança sensível na perceção e na reação de uma parte da comunidade xiita face à estratégia destrutiva do Hezbollah no Líbano. Durante muito tempo apagada ou silenciada pelo movimento pró-iraniano, a voz xiita, sobretudo a da oposição, começou a fazer-se ouvir. Ela ergueu-se pela primeira vez em maio, quando as cidades de Tiro e Nabatiyé foram alvo de violentos ataques israelitas. Hoje afirma-se ainda mais e junta-se à da maioria dos libaneses, que apelam ao Estado para que assuma as suas responsabilidades a fim de poupar o país, e em particular o que resta do sul do Líbano, das aventuras destrutivas da formação pró-iraniana. ​ Toda a questão, hoje, é saber se o Estado libanês vai finalmente decidir-se a responder a este Apelo, que soa como um grito de socorro, e a pôr em prática os seus próprios compromissos, assumidos a 2 de março de 2026, poucas horas depois de o Hezbollah ter lançado foguetes e drones contra Israel, que respondeu de imediato com ataques violentos. ​ Nesse dia, o governo de Nawaf Salam tinha anunciado sem rodeios a proibição «imediata» de todas as atividades militares do Hezbollah, intimado a entregar as suas armas. As forças da ordem tinham inclusivamente sido incumbidas de deter os infratores. Decisões que, infelizmente, ficaram no papel, por várias razões, entre as quais o medo de enfrentar uma milícia poderosa. Ou, talvez, diretamente o Irão, admitindo que o CGRI dirige efetivamente as operações militares do Hezbollah no Líbano. ​ O boato a este respeito já circulava no Líbano há vários meses. Ganhou novo fôlego com o mistério em torno da queda da colina estratégica de Ali el-Taher, que domina Nabatiyé. Membros dos Pasdaran teriam então sido evacuados, enquanto combatentes do Hezbollah ali teriam perecido. ​ Na terça-feira, o site Janoubia, meio de comunicação da oposição xiita, divulgou uma informação que reforça este boato: rebentaram violentos confrontos armados entre os habitantes de Nmayré, no distrito de Nabatiyé, e combatentes dos Pasdaran «que tentavam estabelecer um posto numa habitação civil da aldeia». «Apoiados por partidários do Amal, os habitantes conseguiram impedir os agentes do CGRI de se instalarem e expulsaram-nos da aldeia», indicou a Janoubia. ​ O exército durante uma hora e meia em Nabatiyé ​ Os 400 signatários do «Apelo para salvar Nabatiyé» pediram, por sua vez, ao Estado que destaque o exército para a cidade e o distrito, insistindo na responsabilidade que lhe cabe a este respeito. ​ Se o texto condenou as ações de Israel no Sul do Líbano, foi igualmente severo em relação ao Hezbollah, atribuindo-lhe diretamente – sem o nomear, mas designando-o como «as forças do fato consumado» – a responsabilidade pelas destruições no sul do país e pelo drama vivido pelos seus habitantes: «A responsabilidade do inimigo não apaga as responsabilidades internas. A responsabilidade do crime cabe a quem o cometeu, enquanto a das escolhas, das decisões e das posições cabe a quem as tomou, encobriu ou tolerou passivamente. Quem, durante anos, deteve a decisão de guerra e de paz, fazendo crer aos habitantes do sul que era o mais capaz de os proteger, deve hoje responder pelas consequências da sua escolha: o que resta do território? O que aconteceu às aldeias? E de que capacidade dispõe ainda a população para resistir ou regressar?» Enquanto o Hezbollah, normalmente tão falador, continua a observar um silêncio absoluto sobre a queda de Ali el-Taher, o destino dos seus combatentes e o seu número, e o suposto acordo que teria permitido a evacuação de agentes do CGRI, as autoridades libanesas estiveram ocupadas, na terça-feira, a multiplicar contactos políticos e diplomáticos, após a hecatombe do fim de semana e de segunda-feira, para tentar impedir Israel de avançar sobre Nabatiyé ou de se encarniçar contra esta cidade. Para o efeito, o primeiro-ministro Nawaf Salam deslocou-se ao encontro do presidente do Parlamento e líder do movimento Amal, Nabih Berry. O aliado do Hezbollah deu luz verde para o destacamento do exército em Nabatiyé, tendo este permanecido no local durante hora e meia, no período da tarde. Uma presença saudada pelos habitantes, que receberam os soldados atirando arroz. Segundo várias fontes concordantes, as forças regulares vão proceder diariamente a um destacamento de algumas horas. Os ataques prosseguiram ao longo do dia, mas a sua intensidade diminuiu no distrito de Nabatiyé, com a chegada das tropas. No plano diplomático, é a visita do embaixador dos Estados Unidos, Michel Issa, ao vice-presidente do Conselho Superior Islâmico Xiita, xeique Ali el-Khatib, que chama a atenção. Esta ocorre no dia seguinte à escalada provocada pelo Hezbollah que, ao lançar drones armadilhados contra posições israelitas, deu a Telavive um pretexto adicional para continuar a destruição das aldeias do Sul do Líbano. No final do encontro, Michel Issa sublinhou que Washington «não deseja outra coisa senão o interesse da comunidade xiita e o regresso do Sul aos seus habitantes», reafirmando que os Estados Unidos estão dispostos a dialogar com o Hezbollah, «mas através do Estado libanês». «Mas não sabemos como chegar a um resultado com uma parte desta comunidade que não percebe que o seu interesse reside em tomar consciência das suas responsabilidades», afirmou, numa alusão ao Hezbollah. As suas palavras revelam indiretamente que terá solicitado a intervenção do xeique el-Khatib para fazer este grupo entrar em razão. Este último manifestou a disponibilidade dos xiitas para discutir a questão das armas «se beneficiarem de proteção e obtiverem garantias», sem especificar quais. Uma escalada que se intensifica no Iémen No plano regional, a atualidade continua centrada no Iémen, onde a escalada militar prossegue entre as forças governamentais, apoiadas por Riade, e os houthis pró-iranianos, que lançaram durante a noite um ataque de grande envergadura contra várias estruturas civis na Arábia Saudita, fazendo pelo menos 75 feridos. Lançaram ataques com drones e mísseis contra o sul do reino, visando em particular as instalações da Aramco em Abha, Najran e Jizan, bem como a base aérea King Khalid, em Khamis Mushait. Riade prometeu retaliar, pela voz do seu chefe da diplomacia, Fayçal bin Farhan, sem contudo «fechar a porta ao diálogo diplomático». O país realizou ataques contra alvos houthis, enquanto os combates continuam a travar-se intensamente no terreno entre as forças governamentais e o grupo pró-iraniano, que procura avançar para as zonas próximas do estreito estratégico de Bab al-Mandab, outra alavanca de pressão para o Irão que, não podendo controlá-lo diretamente, parece procurar, através dos seus mediadores, perturbar a navegação nesta passagem marítima. A escalada militar continua concentrada no oeste de Taiz e no sul de Hodeida. Segundo o Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), cerca de 18.000 pessoas fugiram dos bombardeamentos e confrontos nos distritos de Maqbanah e Jabal Habashi, em Taiz. Os houthis anunciaram, por outro lado, ter abatido um drone norte-americano, enquanto Teerão abateu um drone sobre o estreito de Ormuz.
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Por Rabih Dandachli - Publicado em set 8, 2026 - 19:31
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Atribui-se ao rei francês Luís XIV, o «Rei Sol», uma das frases mais célebres da história política: «O Estado sou eu», L’État, c’est moi. Embora os historiadores duvidem que ele a tenha pronunciado literalmente, a frase permaneceu porque condensava toda uma filosofia de governo: o governante e o Estado tornam-se duas imagens de uma mesma realidade, a oposição às suas decisões transforma-se em oposição à nação, e a força das instituições passa a ser medida pelo grau de submissão à sua vontade. O problema da França sob Luís XIV não era a fraqueza de seu rei. Pelo contrário, a França era uma das maiores potências europeias, e seu monarca, um dos governantes mais poderosos da época. Mas a força do Estado passou a depender cada vez mais da centralização das decisões e da pessoa do soberano, enquanto guerras, despesas, desigualdades sociais e desequilíbrios nas finanças públicas acumulavam custos que as gerações seguintes teriam de pagar. A França não entrou em colapso após a morte de Luís XIV, em 1715. A monarquia sobreviveu por mais de sete décadas, até a eclosão da Revolução Francesa, em 1789. Esse intervalo é importante porque impede uma leitura superficial da história: a personalização do Estado não leva necessariamente a um colapso imediato, mas pode enfraquecer gradualmente sua capacidade de se reformar por meio das próprias instituições. Veio então o paradoxo maior. A revolução que derrubou o Antigo Regime não resultou em uma estabilidade institucional tranquila, mas em anos de turbulência, guerras e transformações que culminaram na ascensão de Napoleão Bonaparte, coroado imperador em 1804. Napoleão não foi, portanto, o «salvador» que encerrou a crise do poder pessoal. Sob outro ângulo, ele demonstrou que o colapso de um regime altamente personalizado não conduz necessariamente a instituições mais fortes, podendo abrir caminho para um homem ainda mais poderoso. É aí que reside o perigo da experiência francesa: quando as instituições fracassam em sua tentativa de se reformar, o Estado pode passar de uma personalização a outra, de um rei poderoso a uma revolução, e da revolução a um imperador. Mais de três séculos depois, essa questão parece novamente atual, embora em sistemas radicalmente diferentes: o que acontece quando o destino de um governante e de seu projeto político passa a integrar a própria definição do destino do Estado? Três casos merecem reflexão: os Estados Unidos com Donald Trump, Israel com Benjamin Netanyahu e o Irã com Mojtaba Khamenei. Estados Unidos: onde termina o Estado e onde começa Trump? Não se pode comparar o sistema americano à monarquia de Luís XIV. Os Estados Unidos são um Estado constitucional federativo, com instituições consolidadas, separação de poderes, tribunais, Congresso, estados federados, meios de comunicação, sociedade civil e eleições periódicas. No entanto, a experiência de Donald Trump trouxe de volta ao centro do debate americano uma questão fundamental sobre os limites do poder presidencial e a capacidade das instituições de contê-lo. O problema não é que um presidente seja poderoso. O próprio sistema americano lhe confere amplas prerrogativas. O problema começa quando, para uma parcela da sociedade e da elite política, a lealdade ao presidente se torna quase um critério de lealdade ao próprio projeto nacional, e quando as divergências sobre as instituições, o Judiciário, a administração e a política externa deixam de ser desacordos sobre como governar o Estado para se transformar em uma disputa sobre quem realmente representa os Estados Unidos. O lema «America First» passa então por uma prova delicada: os Estados Unidos continuam em primeiro lugar, ou o homem que carrega o lema se torna inseparável de sua definição? O perigo para os Estados Unidos não é que amanhã se transformem em uma monarquia absoluta. Isso seria uma simplificação irrealista. O perigo é que a polarização e a personalização enfraqueçam as normas e instituições que permitiram ao sistema, ao longo de sua história, sobreviver a seus presidentes. Israel: o Estado, a guerra e o futuro de Netanyahu Em Israel, a relação entre o homem e o Estado parece mais complexa. Benjamin Netanyahu já não é simplesmente mais um primeiro-ministro em uma sucessão de primeiros-ministros. Sua longa permanência no centro da vida política fez de sua pessoa um eixo fundamental das divisões israelenses: eleições, Justiça, guerra, segurança, relações exteriores e futuro das coalizões políticas. O problema surge quando se entrecruzam os interesses do Estado, os do governo e os interesses políticos e pessoais do homem. Quanto mais essa sobreposição se prolonga, mais difícil se torna distingui-los. Uma decisão militar é necessária para a segurança de Israel? É necessária para a sobrevivência do governo? Serve ao futuro político de Netanyahu? Os três interesses podem coincidir em determinadas ocasiões, mas não necessariamente coincidem sempre. O perigo começa quando a questão do futuro de Netanyahu passa a integrar a questão do futuro do próprio Israel. Um Estado que chega a esse ponto não se tornou uma monarquia, mas entrou em uma situação na qual a política está excessivamente vinculada a uma pessoa. Irã: da revolução contra o xá à questão da hereditariedade O Irã apresenta, por sua vez, o paradoxo mais evidente. A Revolução Islâmica de 1979 teve, entre suas dimensões essenciais, a de derrubar um regime monárquico hereditário no qual o poder se concentrava em torno do xá. Quase meio século depois, Mojtaba Khamenei chegou ao cargo de líder supremo, ocupado durante décadas por seu pai, Ali Khamenei. Independentemente dos mecanismos constitucionais e institucionais que regeram sua escolha, a transmissão do poder em seu nível mais alto de pai para filho levanta uma questão simbólica e política que a República Islâmica não pode ignorar: como um sistema fundado sobre uma revolução contra a monarquia pode explicar a transmissão do centro do poder entre duas gerações da mesma família? Mas o problema vai além da família Khamenei. A questão mais profunda é saber se o Irã, como Estado, civilização e sociedade, se tornou excessivamente vinculado à sobrevivência do regime, e se o próprio regime passou a depender demais da manutenção de uma determinada estrutura de instituições religiosas e de segurança, famílias e personalidades. É necessário distinguir aqui três realidades frequentemente confundidas no discurso político: o Irã não é a República Islâmica, a República Islâmica não é o líder supremo, e o líder supremo não é o Irã. Quanto mais se enfraquecem as fronteiras entre esses níveis, mais o regime se aproxima do dilema de «O Estado sou eu». Não se trata de comparar três sistemas políticos Seria um erro colocar os Estados Unidos, Israel e o Irã na mesma categoria política. O primeiro é uma democracia constitucional federativa; o segundo, um sistema parlamentar eleitoral; e o terceiro, uma república islâmica baseada no governo do jurista, ou wilayat al-faqih, e em uma complexa combinação de instituições eleitas e não eleitas. A comparação aqui não diz respeito à natureza dos sistemas, mas a um fenômeno que pode atingir sistemas diferentes: a personalização do poder. A mesma patologia política pode se manifestar por meio de sintomas distintos. Em um sistema, aparece pela ampliação das prerrogativas do Poder Executivo. Em outro, pela vinculação da guerra e da segurança ao futuro de um governo e de seu chefe. Em um terceiro, pela concentração da legitimidade e das decisões estratégicas no topo de uma hierarquia política e religiosa altamente centralizada. Mas a pergunta permanece a mesma: são as instituições que contêm o governante, ou é o governante que reconfigura as instituições ao seu redor? A lição francesa não se limita a Luís XIV É aqui que a lição francesa se torna mais interessante. Se a história tivesse terminado com Luís XIV, a conclusão seria simples: o governante absoluto enfraquece as instituições e, depois, o Estado entra em colapso. Mas a história não aconteceu dessa maneira. Luís XIV morreu, e a França permaneceu. A monarquia continuou. Décadas depois, veio a revolução, que derrubou o Antigo Regime em nome da liberdade, da igualdade e da soberania popular. Mas a própria revolução não produziu estabilidade imediata. A França entrou em um turbilhão de conflitos, transformações, violência e guerras, antes do surgimento de Napoleão. E aí está o paradoxo: os franceses saíram de uma monarquia centrada na pessoa do rei e, depois de uma revolução imensa, terminaram com um imperador em torno do qual o Estado voltou a se concentrar… O homem havia mudado. A legitimidade havia mudado. As instituições haviam mudado. Até a linguagem política havia mudado. Mas a necessidade de um homem forte havia retornado sob outra forma. Por isso, Napoleão não deve ser interpretado como o «salvador da França» diante do legado de Luís XIV, mas como uma advertência adicional: quando as instituições fracassam em produzir uma reforma racional, a alternativa pode não ser a de instituições melhores, mas a de uma personalidade mais poderosa. De Luís a Napoleão Talvez seja essa a verdadeira questão diante dos Estados Unidos, de Israel e do Irã. O problema não é apenas Trump, Netanyahu ou Khamenei. Como todos os governantes, um dia eles deixarão o poder. A questão é o que deixarão para trás. Se as instituições estiverem mais fortes depois de sua saída, o Estado terá superado essa prova. Mas, se estiverem mais fracas, se a sociedade estiver mais dividida e se o sistema depender mais de uma única personalidade, então poderá começar a fase mais perigosa. Pois as sociedades que perdem a confiança nas instituições nem sempre procuram instituições melhores. Às vezes, procuram um homem mais forte. É exatamente isso que faz de Napoleão uma parte essencial dessa história. O perigo de «O Estado sou eu» não termina necessariamente com a queda daquele que o encarna. O homem pode cair, e outro vir depois dele para dizer a mesma coisa em uma linguagem diferente. Antes de procurar um novo Napoleão O que os Estados Unidos, Israel e o Irã precisam, portanto, não é de um «salvador», mas, cada um de acordo com seu sistema e suas circunstâncias, de um retorno à racionalidade política antes do choque. Um retorno que devolva às instituições sua importância, restabeleça a distinção entre o interesse do Estado e o do governante e permita ao sistema político corrigir a si mesmo antes que a mudança se torne impossível a partir de dentro. Nos Estados Unidos, o país deve continuar sendo maior que Trump. Em Israel, o futuro do Estado deve ser maior que o futuro político de Netanyahu. No Irã, o Irã, com sua história, sua sociedade e seus interesses, deve continuar sendo maior que a República Islâmica, que a família Khamenei e que qualquer líder supremo. Pois o verdadeiro teste de um Estado não é a quantidade de poder que um governante consegue concentrar em suas mãos. É a quantidade de poder que permanece em suas instituições quando ele parte. Atribui-se a Luís XIV, perto do fim de sua vida, uma frase talvez mais importante que «O Estado sou eu»: «Eu parto, mas o Estado permanecerá sempre». Talvez a distância entre essas duas frases resuma tudo aquilo sobre o que esses três países precisam refletir hoje. A primeira é a lógica do governante que vê o Estado através de si mesmo: «O Estado sou eu». A segunda é o começo da sabedoria política: «Eu parto, o Estado permanece». Mas a experiência francesa acrescentou entre elas uma terceira advertência, que Luís XIV nunca pronunciou: se as instituições não forem capazes de sobreviver ao homem, o que vier depois talvez não seja um sistema mais forte… mas um homem mais forte.
Religião

Sem "sobhiyé" para as Clarissas de Rayaq

A fundação de um mosteiro no Vale do Becaa, um acontecimento espiritual de grande importância
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Por Fady Noun - Publicado em set 8, 2026 - 12:56
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Uma multidão de fiéis, algo incomum em Rayaq, esteve presente na cerimônia de fundação do novo mosteiro.
Um mosteiro da ordem contemplativa das Clarissas, fundada por Santa Clara (século XIII) segundo o modelo da ordem de São Francisco, nasceu em Rayaq (16.000 habitantes), pequena cidade da planície central do Vale do Becaa, no dia 11 de agosto passado, festa de Santa Clara. O novo mosteiro foi fundado intencionalmente em meio rural e enriquecerá com sua oração o “celeiro de trigo” do Líbano, ligado ao país pelo patriarca Hoayek após a fome de 1915. A cerimônia de fundação do novo mosteiro foi presidida por Dom César Essayan, vigário apostólico dos latinos no Líbano. A população cristã do bairro cristão de Rayaq (Rayaq el-Faouka), que compareceu em massa, reservou uma acolhida inesquecível e de grande generosidade às cinco monjas de hábito cinza. A fundação foi considerada por muitos dos presentes “um grande acontecimento espiritual”. De fato, a cerimônia foi vivida como um verdadeiro “milagre”, o do “retorno de Deus” a uma região que sofre com o isolamento em relação à capital e com a desertificação espiritual do mundo. O bispo latino do Líbano confirma esse sentimento: “Não disse isso na minha homilia, mas as irmãs perceberam: a população fala de um milagre. É bonito! Mas não é um milagre como os outros. A população sofre de uma espécie de solidão. O fato de irmãs vindas da Itália terem deixado seu mosteiro, e até o terem vendido, para virem se instalar num lugarejo perdido do Líbano, mostra que o Senhor finalmente se lembrou delas.” Procissão das relíquias de Santa Clara no terreno que rodeia o mosteiro. À frente, a irmã Damiana, a superiora. Essa emoção também tomou conta da irmã Gloria (italiana, 43 anos), principal porta-voz do grupo: “Enquanto tudo morre, enquanto as pessoas já não têm esperança, enquanto os jovens só querem uma coisa, deixar um país que parece sem futuro, nós vimos aqui comprar uma casa!”, exclama ela. No entanto, a instalação das cinco monjas — Damiana, Gloria, Celina, Maria Lucia, vindas de mosteiros italianos, e Maria Grazia, irmã do mosteiro da Cidade do México — ainda terá de esperar alguns meses, tempo necessário para concluir os trâmites de desocupação e adaptação do edifício, atualmente ocupado de fato por várias famílias de deslocados, além de um terreno vizinho, que deverá garantir à comunidade uma espécie de autossuficiência. Ascensão e declínio da cidade Conhecida por ter sido uma importante estação ferroviária que servia especialmente Damasco e Alepo, de onde os viajantes seguiam para o lendário Orient Express, e também por sua base aérea militar, a cidade de Rayaq já foi bastante próspera. A mudança dos tempos e o fechamento, pela França, de uma grande oficina de manutenção contribuíram bastante para o seu declínio. Hoje ela abriga cristãos, em sua maioria greco-católicos, além de uma população xiita crescente, aumentada por numerosas famílias deslocadas pela guerra. Essa mudança demográfica repercutiu na composição da prefeitura local. Mas o município continua sendo, por tradição, uma espécie de microcosmo do Líbano, com minorias maronita, ortodoxa e armênia, cada uma com sua própria igreja. O centro urbano mais próximo é Zahlé, capital do Becaa, a cerca de doze quilômetros de distância. Da época do mandato francês resta uma relíquia curiosa: é um dos poucos lugares do Líbano onde ainda se joga belote! Foi Rayaq que nos escolheu Todo o Vale do Becaa se emocionou com a notícia da fundação. Segundo a irmã Glória, foram necessárias seis viagens exploratórias antes que a escolha recaísse sobre Rayaq. No fim, a localidade foi escolhida graças à população de seu “bairro cristão”, que se empenhou para encontrar o edifício e os terrenos necessários ao projeto. “Nem sequer sabíamos que Rayaq existia, comenta a irmã Gloria a esse respeito. Foram os próprios habitantes que, ao saberem que umas religiosas queriam instalar-se nos arredores, vieram procurar-nos! Este gesto pareceu-nos ser um sinal claro por parte do Senhor. Depois veio o estudo (aparentemente trabalhoso) do árabe!” A fundação é fruto de um discernimento de cerca de dez anos, esclarece ainda, em substância, a porta-voz da comunidade. O primeiro impulso veio do Líbano. A fundação deste mosteiro respondia a um desejo da Igreja local de ver as Clarissas instalarem-se também num meio menos rico, onde poderiam atrair vocações – já têm um mosteiro em Yarzé, uma zona de vilas nos arredores de Beirute. O exemplo dos trapistas de Tibhirine Para as próprias Clarissas, independentemente do Líbano, foi a entrega total dos trapistas de Tibhirine (Argélia), a comunidade cujos membros foram sequestrados e martirizados durante a guerra civil argelina (1994), que despertou o desejo de uma entrega total. “Esta história tocou-nos profundamente, sobretudo porque foi toda uma comunidade, e não apenas uma pessoa, que subiu aos altares”, explica a irmã Gloria. O convite a uma inserção profunda em meio rural no Líbano, que as tinha deixado hesitantes no início, foi aceite depois da nomeação de um amigo da comunidade, o padre Dominique Mathieu, como bispo latino do Irão (2024). “Bem consciente da dificuldade, ele aceitou por fé, comenta a irmã Glória. O seu “sim”, a sua coragem e a sua confiança no Senhor interpelaram-nos profundamente e dissemos a nós mesmas: “e nós?” A partir daí, começámos a considerar seriamente a possibilidade de vir para aqui e, depois de muito orarmos, decidimos lançar-nos nesta aventura.” A dimensão islamo-cristã da fundação é evidente. Ainda mais porque a Bekaa continua marcada pelas violências que, durante os anos da guerra civil libanesa e da ditadura síria, custaram a vida, com dez anos de intervalo, ao padre jesuíta Nicolas Kluiters, brutalmente assassinado em 1985 perto da aldeia cristã de Barqa, cuja causa de beatificação está em estudo, e ao postulante Ghassibé Keyrouz, que o padre Kluiters tinha acolhido sob a sua proteção, morto no auge da onda de execuções confessionais de 1975, quando se dirigia a Nabha para festejar o Natal em família. Em todo o caso, as monjas sabem que, se os ecos da guerra civil se vão desvanecendo, os da guerra propriamente dita estão bem presentes, com os bombardeamentos que a acompanham, as destruições e as suas consequências económicas e sociais: numerosas famílias refugiadas do sul do Líbano; êxodo silencioso para a cidade ou para o estrangeiro de jovens licenciados de todas as origens; êxodo – por vezes injustificado – da alta e média burguesia cristã, que fogem da situação das zonas rurais “invadidas” para se instalarem em aglomerados urbanos confessionalmente homogéneos. Uma chama que treme na noite Apesar de tudo, “no mosaico de comunidades cristãs que vivem na periferia do país, a fundação de um convento é um grande sinal de esperança, assegura a historiadora Névine Hage-Chahine, que vive em Zahlé. É uma centelha, uma chama frágil que treme na noite, mas ainda assim uma chama. Essa chama vai atear o incêndio da oração. Uma senhora disse-me: “Mas você percebe, nem vamos vê-las!” No entanto, é isso mesmo que importa. O essencial é invisível aos olhos.” É certo que, exceto para as compras, a população de Rayaq não verá “as suas” monjas. Nada de “sobhiyé” com as Clarissas. Nada de manhãs de conversa fiada em volta de um café. No entanto, se prestar atenção, poderá ouvir os seus cânticos e, eventualmente, ajudá-las nos dias de neve e de muito frio. São essas as vocações. ​ Como todas as jovens italianas, a irmã Gloria conta que frequentou a universidade, saiu com os amigos e conheceu o amor humano… Mas aos 24 anos, no fim de um percurso interior cujo segredo só Deus conhece, diz ter finalmente encontrado a sua “casa” atrás da clausura, numa oferta radical a Cristo que ela própria um dia considerara “exagerada”. ​ O perdão, chave da paz ​ O que lhe diz sobre o mundo, irmã Glória, o Senhor da história? Sente-se por vezes preocupada? A sua resposta sugere que as Clarissas não vivem à margem da atualidade. Com os olhos postos nas intervenções do Papa Leão XIV, a sua oração incessante é para que a lógica do perdão, que está no coração do “Pai Nosso”, prevaleça sobre a lógica da força, para que nunca se acredite que a guerra é inevitável, e para que a fé e a esperança num desfecho pacífico dos conflitos sejam sempre preservadas. ​ “Sim, diz a irmã Glória, às vezes fico preocupada. Todas nós ficamos, de vez em quando… O que mais me preocupa é que ninguém, entre os que decidem o destino do mundo, vislumbre ou anuncie a única solução para todos os conflitos, os que estão em curso e os que nascerão deles: o perdão!”
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Tel Aviv–Teerão: mimetismos sangrentos e "inimigo duplo" (2/2)

O Líbano sofre há anos esta dupla lógica da violência e da exclusão, essa famosa «escalada aos extremos» — retomando a expressão de René Girard inspirada em Clausewitz — temperada de momentos de cumplicidade objectiva, de distensão na animosidade. É o único país a pagar o preço de um confronto com Israel, já não sequer ao serviço de uma causa árabe, a causa palestiniana justa e legítima, mas pelos belos olhos dos mulás de Teerão. Nesse sentido, o comportamento do Hezbollah — que desencadeou três guerras devastadoras em 2006, 2024 e 2026 — não pode ser legitimado pela preocupação com a confrontação com o Estado hebraico. Sim, haverá quem recorra ao pretexto das aldeias de Chebaa e das colinas de Kfarchouba para justificar a manutenção da resistência, mas esse argumento foi desmontado, mapas em mão, desde 2006, como sendo uma fabricação destinada a legitimar a continuação do projecto Hezbollah e, na época, como pretexto para justificar a manutenção da ocupação síria do Líbano — ou seja, a luta contra Israel. A realidade é amarga, mas é preciso dizê-la de qualquer forma: se os milicianos do Hezbollah combatem em território libanês, e se são eles próprios perfeitamente libaneses, fazem-no para e por ordem do Irão. O seu partido desencadeou três guerras a pedido, por instigação de Teerão. Em nome de uma vontade fictícia de resistir a Israel, o Hezbollah convidou literalmente os israelitas a ocupar o Líbano. Não é que necessitassem de um pretexto — mas para quê oferecê-lo gratuitamente? Para quê semear o caminho de Jerusalém de postos de controlo israelitas em território libanês? Para quê contribuir, paradoxalmente, para dar vida à Grande Israel? Instado a devolver ao Estado o seu monopólio legítimo da força, com a sua casa-mãe iraniana atacada e o seu marjaa assassinado, o partido escolheu a via da fuga para a frente suicida. O Estado libanês não pode ser considerado responsável por essa escolha. De resto, nunca lhe pediu a sua opinião antes de tomar as suas decisões de guerra. O cúmulo é que o Estado deva assumir, de todas as formas e em cada ocasião, as manipulações estratégicas do Irão às custas dos libaneses, actuando os combatentes do Hezb, cada vez, como peões… Uma paz dos vencidos O Líbano não quer esta guerra, apesar do entusiasmo frenético de uns e outros em aproveitá-la para ajustar contas na cena interior. Trata-se, mais uma vez, de uma guerra entre Israel e o Irão no seu território. Não há aqui «bons» e «maus», apenas dois ocupantes que devem cessar de instrumentalizar o Líbano, reconhecer a sua soberania e regressar dentro das suas próprias fronteiras, e uma milícia que deve entregar as suas armas ao Estado libanês e cessar de suicidar a sua comunidade transformando-a em carne para canhão por servidão voluntária. O Irão ofereceu a Israel a oportunidade de completar a sua destruição da causa palestiniana graças à estupidez do Hamas, e eis que o mesmo cenário se desenrola agora com o Hezbollah. Nenhum dos dois projectos tem qualquer consideração pelo Líbano enquanto país soberano e independente. A vitória de Israel imporia ao Líbano uma paz dos vencidos. A vitória do Hezbollah, mesmo obtida por defeito, daria lugar a um novo episódio de vingança contra o Estado libanês — e também contra os libaneses que rejeitam esta guerra e se opõem ao seu projecto. Os que querem combater e ajustar contas apoiando um ou outro lado, com essa deliciosa e insuportável escalada retórica do fundo dos seus sofás na América do Norte ou na Europa, contribuem para a destruição do Líbano, voluntariamente ou não. Qualquer que seja o desfecho do conflito, o Líbano não é uma finalidade para nenhuma das partes. O acordo far-se-á à sua custa, na esfera internacional, porque aceitou mais uma vez, por uma mistura de incompetência decisional e de impotência, ser transformado em campo de confrontação. Mas os libaneses não são incapazes de pesar realmente no desfecho de um conflito que os ultrapassa. Podem, e devem, congregar-se em torno da legalidade libanesa — desde que esta continue a levar-se a sério. Mais do que nunca. É a única possibilidade que resta para salvar ainda o Líbano. O Irão em primeiro lugar Chegou o momento de os intransigentes de todas as comunidades que apoiam o Hezbollah compreenderem que o partido não combate nem pela bandeira da Palestina, nem pela honra da comunidade xiita, nem pelo Sul do Líbano, o Bekaa e o resto do território libanês, mas pelo Irão, o Irão em primeiro lugar, e o Irão apenas. A «resistência a Israel» tal como conduzida pelo Hezb transformou o Líbano num campo de ruínas sem fazer avançar a causa palestiniana nem um iota. Pelo contrário, as conquistas da libertação do ano 2000 foram desperdiçadas e invertidas para a maior glória de Teerão. O Líbano não é mais, mais uma vez, do que um vasto campo de ruínas, de deslocados e de desocupados. O campo oposto ao Hezbollah deve compreender, por seu lado, que a comunidade xiita não é responsável pelo tumor que o Hezbollah representa — resultado de factores cumulativos —, e que não se pode pedir a intelectuais e forças desarmadas que protagonizem uma intifada democrática intra-muros contra uma milícia armada até aos dentes, por cima sob o fogo dos canhões, nem tão-pouco que formem uma espécie de equivalente do Reagrupamento de Kornet Chehwane para deslegitimar o Hezbollah. O exemplo de Kornet Chehwane é particularmente impossível de reproduzir: esse reagrupamento tinha um padrinho, a Igreja Maronita sob a égide de Nasrallah Sfeir e de Youssef Béchara, capazes de reunir forças políticas cristãs que relutavam em sentar-se juntas e dialogar. Quem é a autoridade xiita, espiritual ou temporal, capaz de reunir a oposição xiita, numa altura em que o Conselho Superior Xiita foi ele próprio absorvido pela milícia? Não. A solução política para o problema do Hezbollah é libanesa, não xiita. Reside na formação de uma coligação de forças representativas de todas as comunidades, incluindo personalidades xiitas, orientada por um lado para preservar a ideia do Estado e reforçar a sua capacidade decisional na etapa vindoura, e por outro para a vontade de acabar com a lógica da violência e da exclusão, e de promover uma cultura do laço, da neutralidade e da paz. Sem isso, o Líbano está irremediavelmente condenado ao desaparecimento. E todos assumirão a responsabilidade por isso. Não apenas o Hezbollah, e certamente não a comunidade xiita e os seus valorosos democratas.

Tel Aviv–Teerão: mimetismos sangrentos e "inimigo duplo" (1/2)

O conflito que se desenrola diante dos nossos olhos no Líbano opõe efectivamente Israel ao Irão, e mais especificamente Israel ao Hezbollah. Independentemente de qualquer vontade de demonizar o Hezbollah — e, no entanto, não faltam razões válidas para tal: assassínios políticos, raptos, execuções extrajudiciais, golpes de mão milicianos, humilhações ao exército, transformação do Líbano numa plataforma regional de branqueamento de capitais e de tráfico de droga, contribuição massiva para a corrupção, e a lista é longa… —, o Hezbollah é, pela sua natureza, uma ramificação dos Guardas da Revolução iraniana enxertada desde 1982 numa comunidade xiita marginalizada e abandonada pelo Estado libanês. Ao fazê-lo, implantou-se no Sul do Líbano, preenchendo o vácuo deixado pelo Estado libanês durante a guerra, tornando-se depois o filho predilecto do ocupante sírio. Esta implantação realizou-se primeiro através da multiplicação de estruturas de organizações sociais ideológicas islamistas que compensaram a ausência das instituições estatais e suscitaram, deste modo, a adesão de uma parte da população; em seguida, através de uma forma de legitimação assente no discurso da resistência a Israel e aos seus afiliados no Sul; mas também pela força, com o assassínio dos quadros da esquerda resistente, a «guerra dos Irmãos» com o movimento Amal, a protecção do regime de Assad após o fim desses combates fratricidas, e sobretudo através do terrorismo exercido sobre os opositores xiitas não filiados no Hezbollah, que ia das ameaças à violência e aos assassínios. A guerra pressupõe, certamente, por definição, do ponto de vista dos seus protagonistas, uma lógica binária de confronto entre o bem e o mal, o amigo e o inimigo. Isto não é, de resto, apanágio exclusivo da guerra; é um dos axiomas fundamentais do político. Mas a guerra, especificamente, não tem uso para os matizes onde a política os reclama. No entanto, o binómio «amigo-inimigo» próprio de Carl Schmitt e Julien Freund, ainda que teoricamente tentador, não pode funcionar para analisar o conflito actual. Uma leitura mais adequada seria a do «duplo inimigo», desenvolvida por Jacques Beauchard e mais adaptada aos Estados frágeis, incapazes de influenciar os diferendos provocados por actores terceiros, paraestatais por exemplo. «O inimigo do inimigo continua a ser um inimigo», diz Beauchard. É um facto dificilmente contestável que nem o Hezbollah nem, naturalmente, Israel agem no interesse do Líbano, e que, além disso, o mimetismo quase total que existe entre ambos se impõe à observação. Um estado de alerta marcial permanente Desde 1948, o Estado de Israel encontra-se assim em guerra permanente, procurando assentar uma legitimidade fundada na erradicação de um povo autóctone que habitava a terra que ocupa actualmente, quaisquer que sejam os pretextos ideológicos avançados pelos sionistas para justificar historicamente essa ocupação. A lógica do regime israelita, de Ben Gurião a Netanyahu, consistiu em permanecer num estado de alerta marcial contra os seus inimigos, em nome de uma ameaça existencial que, de resto, alimentou com frequência — não só por vontade de mobilizar o espírito de corpo israelita, mas para melhor dividir as fileiras dos seus adversários: a criação do Hamas em contraponto ao Fatah; a longa tolerância da influência iraniana na região em nome da chamada «aliança das minorias», com o fim de enfraquecer os regimes árabes e manter um estado de conflito sunita-xiita. Esta lógica, com a única excepção do parêntese de Oslo, aniquilado com o assassínio de Yitzhak Rabin em Novembro de 1995, fundou-se no ódio, na exclusão e na violência para com os palestinianos, cujo abandono e extermínio silencioso foram a condição sine qua non de uma paz com os países árabes. Israel actua assim com total impunidade como polícia do Médio Oriente, e o mito da Grande Israel continua a seduzir a extrema-direita israelita, como atestam as recentes declarações de certos responsáveis israelitas e americanos. Sem esquecer, na prática, o comportamento anexionista na Síria e, presentemente, potencialmente, no Líbano, favorecido pela guerra em curso. De resto, em Netanyahu coexistem uma megalomania galopante e um realismo político, sobre um fundo de corrupção manifesta. A hegemonia teocrática do Irão dos mulás Do seu lado, o Irão encontra-se igualmente em guerra permanente desde o advento dos mulás, e sobretudo de Khomeini em 1979. O projecto da wilayat el-faqih é o de uma hegemonia teocrática transnacional, legitimada através daqueles que, no seio da comunidade xiita, escolhem aderir a ela. O guia espiritual iraniano é o seu Leviatã, o seu hegemon , o seu ditador. A exportação da revolução islâmica foi a daawa — no sentido khaldouniano, o discurso político elaborado para conquistar o poder — do Irão khomeinista desde as suas origens, e o Irão jamais renunciou a ela. Todas as suas ramificações milicianas, a começar pelo Hezbollah, foram criadas para esse fim. O Hezb transformou-se, de facto, mais por realismo e utilitarismo do que por convicção ou reforma, em partido político, por preocupação de entrismo no sistema político libanês. Mas o seu comando manteve-se miliciano-religioso, totalmente subordinado nas suas decisões aos Pasdarãs. O seu projecto, por conseguinte, não tem em conta o perímetro libanês, como o atestam os discursos de Hassan Nasrallah, que em geral reservavam apenas um pequeno espaço à situação libanesa, no final de intermináveis análises da situação regional sob o ângulo iraniano. A «Carta aberta aos oprimidos» continua a ser o documento político do Hezbollah, apesar da sua empresa cosmética de «suavizar» o seu rosto por oportunismo político. Para legitimar a sua existência, o Hezbollah adoptou a daawa da resistência a Israel, após a sua liquidação sistemática dos quadros da Resistência nacional formada pela esquerda, nomeadamente pelo Partido Comunista Libanês. Uma parte da esquerda foi em seguida colocada sob tutela síria e enquadrada por Assad, como na Síria, antes de ser absorvida financeira e politicamente pelo Irão. As lideranças moderadas e libanesas foram marginalizadas… até Nabih Berry, reduzido progressivamente, sobretudo após o fim da tutela síria, ao papel de biombo político-institucional ao serviço do Hezb. Esta função tribunícia da resistência a Israel não impediu, contudo, o Hezbollah de desempenhar implicitamente o papel de guarda-fronteiras do Estado hebraico desde a retirada israelita do ano 2000, com o assentimento de Tel Aviv. O objectivo primordial de Israel era acabar com a causa palestiniana, sendo o Hezb, nesse quadro, um aliado objectivo em território libanês, nos antípodas da sua retórica de «libertação da Palestina». O Irão apoderou-se assim da causa palestiniana, através do Hamas e do Hezbollah, uma verdadeira dádiva para Tel Aviv, que justificava deste modo uma escalada permanente contra actores islamistas — impossíveis de legitimar aos olhos da comunidade internacional — em vez de contra actores políticos moderados como o Fatah ou a esquerda. Esta aliança objectiva chocou esporadicamente com as ambições iranianas de maximizar as suas cartas de pressão sobre Israel através dos seus proxies, no quadro das negociações regionais com o Ocidente. O entendimento tácito ficou assim abalado em 2006, com a guerra de Julho. Mas, paradoxalmente, essa guerra, e a adopção da resolução 1701, que afastou temporariamente o Hezbollah da fronteira sul, foi a oportunidade de ouro para o partido — marginalizado na cena libanesa e a braços com a falta de legitimidade desde o seu assassínio de Rafic Hariri em Fevereiro de 2005 — de restaurar a sua imagem envolvendo-se numa «vitória divina» à Pirro. Após 2006, dedicou-se portanto ao seu objectivo inicial e fundamental: tomar o poder em Beirute em nome de Teerão. Esta empresa havia começado com os acordos de Abril de 1996 e a campanha contra Rafic Hariri, com o fim de esvaziar o Estado libanês de substância e transformá-lo económica e politicamente num esqueleto raquítico, em benefício do mini-Estado viável que havia construído para si próprio. No mesmo espírito, impediu em 1993 o desdobramento do exército no Sul do Líbano, intervindo junto de Damasco para anular a decisão tomada nesse sentido por Hariri. Após a guerra de Julho de 2006, voltou a impedir o desdobramento das tropas no Sul em conformidade com a 1701, multiplicando além disso os ataques contra a Finul. O assassínio de Hariri inscreveu-se igualmente neste quadro de trabalho de sapa contra o Estado. A ocupação do centro de Beirute após a guerra de 2006 em sinal de vingança contra o Estado libanês e o 14 de Março, depois o cerco ao Grande Serralho para provocar a queda do gabinete Siniora, o golpe de força de 7 de Maio de 2008, a obtenção em Doha do terço de bloqueio no governo, a desintegração do 14 de Março por força da busca obsessiva do poder de uns e outros, e o advento de Michel Aoun à presidência completaram este processo. O Estado libanês tem estado na mira do Hezbollah desde o princípio. O partido perdeu o controlo sobre ele com o colapso do império iraniano após 7 de Outubro de 2023 e a sua catastrófica guerra de apoio a Gaza, e é sobre esse Estado que potencialmente descarregará as suas iras no termo desta guerra. Já iniciou amplamente o trabalho, desferindo os seus ataques contra Nawaf Salam como havia feito em 2006 contra Fouad Siniora… sendo que este último tinha travado a guerra e a destruição em Roma, salvando o partido pró-iraniano de um destino funesto. O Estado libanês procura agora travar a guerra, e é contudo sobre ele que o Hezb se ensandece… quando foi o próprio partido que, mais uma vez, se meteu, e o Líbano com ele, neste atoleiro. Por fim, paroxismo do mimetismo, o projecto imperialista da Grande Israel, animado por uma lógica fundamentalista e sectária, só tem como igual o projecto imperialista da Grande Pérsia, concretizado no terreno após o acordo nuclear de 2015, com a mão do Irão sobre Damasco, Beirute, Sanaa e Bagdad, e movido por outro megalómano, utilitarista e corrupto, o falecido Khamenei. Ambas as forças são animadas por uma nostalgia de uma idade de ouro, assente em mitos religiosos e numa visão milenarista e escatológica comum. Em suma: «inimigos», sim. Mas também duas faces da mesma moeda… e duas calamidades para o Líbano.

A escolha do medo de escolher
Por
Akram Nehmé
Publicado

O Líbano vive sob pressão, entre o que o atinge do exterior e o que o paralisa por dentro, e com o tempo, o que era excepcional tornou-se quase normal. O verdadeiro problema já não é apenas o que vem de fora; reside nessa incapacidade de decidir com firmeza, nesse momento suspenso em que o Estado vê com perfeita clareza o que deve ser feito e, ainda assim, não consegue dar o passo. Não é falta de compreensão. É um medo que se instalou lentamente, alimentado por uma história em que cada confronto interno deixou cicatrizes demasiado profundas para serem ignoradas. Quando um país conheceu a guerra, não desenvolve apenas reflexos, mas carrega também traumas, medos enraizados, mecanismos de sobrevivência que o impelem a evitar, a contornar, a adiar, mesmo quando essa fuga se torna ela própria um perigo. E assim se fala, se explica, se esquiva, não se age. Já não é prudência. É paralisia. É aí que o paradoxo se instala. Quanto mais clara é a situação, menos ela é enfrentada, como se ver com maior nitidez tornasse cada decisão mais difícil de assumir. Dão-se nomes tranquilizadores a este bloqueio — fala-se de prudência, de realismo, veste-se a inacção com palavras aceitáveis, quando no fundo se trata de uma incapacidade de levar até ao fim o que já se sabe. Agarra-se a soluções intermédias, a equilíbrios frágeis, a compromissos que dão a ilusão de aguentar, quando na realidade não fazem senão adiar o inevitável, e o tempo ganho não serve o país, serve o que o bloqueia. Tranquiliza-se falando de estabilidade, e na realidade mente-se a si próprio, julgando-se mais astuto do que a realidade, como se adiar uma decisão equivalesse a dominá-la. Mas estas meias medidas não estabilizam nada. Incrustam o problema, ancoram-no, tornam-no mais legítimo com o tempo, e sobretudo mais difícil de corrigir. O que devia ser temporário enraíza-se, o que devia ser uma excepção torna-se regra, e o que devia ser contestado acaba por impor-se. Entretanto, a relação de forças não se enfraquece; consolida-se, organiza-se, normaliza-se, e o que ainda era possível ontem torna-se arriscado hoje, quase impossível amanhã. A escolha nunca desaparece. Degrada-se, endurece-se, torna-se mais custosa, até ao momento em que recusar decidir equivale a aceitar o que se pretende evitar. Ao Líbano não falta lucidez. Falta-lhe um Estado capaz de assumir as decisões que sabe necessárias. Esta não é uma situação sem saída. A saída existe, mas exige um preço que ainda se recusa a pagar. Não são as bombas do inimigo que fazem cair um Estado. É o dia em que um Estado aceita que já não é ele quem decide

O martírio de Nicolas Kluiters SJ, no Líbano: confrontando o mal (2/3)

A festa de São José (19 de março), patrono da universidade que leva seu nome, trouxe à memória de seu novo reitor, padre François Boëdec, SJ, a lembrança de Alban de Jerphanion, o primeiro mártir jesuíta da guerra aparentemente interminável que eclodiu no Líbano em 1975, cujo capítulo mais recente, esperado como o último, começou a se desenrolar no início de março. Cinco outros mártires desse conflito tombaram depois do padre de Jerphanion. Em homenagem ao seu sacrifício e com a publicação de uma nova biografia dedicada a uma de suas figuras mais santas, o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cuja causa de beatificação está em curso, este trabalho é apresentado aqui, revelando detalhes inéditos sobre as motivações daqueles que assassinaram o padre Nicolas. Ao mesmo tempo, lança luz sobre o sentido mais amplo do dom que ele ofereceu ao Líbano, para que o país pudesse subsistir como modelo de “liberdade e pluralismo” tanto para o Oriente quanto para o Ocidente, em um momento em que uma nação fortemente militarizada ameaça privá-lo de uma parte vital de seu território, marcada pela memória da passagem de Jesus Cristo. A inserção de um homem profundamente neerlandês em um ambiente libanês não ocorreu com facilidade. Exigiu um alto grau de adaptação e renúncia. Dotado para as artes, Nicolas Kluiters inicialmente aspirava à pintura antes de descobrir uma vocação apostólica. O contraste era marcante: uma sensibilidade refinada diante da dureza do cenário humano ao seu redor. Ele também se afastou conscientemente de um Ocidente cujas conquistas, riqueza e talvez ilusões eram admiradas por seus novos paroquianos. Em seu diário, observa seu biógrafo, escreveu: “Estou convencido de que a cultura ocidental está em pleno declínio em todas as suas formas de expressão. Seus avanços científicos e seu conhecimento representam um desperdício prático de força e energia. (…) A grandeza atual do Ocidente baseia-se na supremacia militar e econômica, e de modo algum em uma grandeza espiritual.” Teve de transmitir suas convicções a homens e mulheres que o viam tanto como um “estrangeiro”, sua pronúncia do árabe era inicialmente pouco inteligível, quanto como um irmão. Em alguns momentos, sentia-se inquieto diante da barreira linguística, ao ver sacerdotes maronitas administrarem os sacramentos a pessoas que deveriam ser seus próprios fiéis. Dentro dele, uma vocação apostólica e uma resistência social permaneciam em tensão constante. Além disso, seu ministério o colocou em contato com uma forma de clericalismo pela qual, por vezes, sentia “profunda repugnância”. Tanto que, poucos meses antes de seu martírio, cogitou dedicar-se a comunidades mais pobres e chegou a considerar partir para o Sudão, acreditando não ser mais útil em Barqa. O padre Peter-Hans Kolvenbach, no entanto, tinha outra avaliação, considerando que as Irmãs dos Sagrados Corações ainda necessitavam de sua presença. A prioridade, portanto, era consolidar seu trabalho, apesar do perigo. Ele retomou sua missão. Torturado e assassinado Reto, direto e por vezes impulsivo, chegava a dar tapas em alunos em sala antes de se corrigir; o padre Nicolas se impôs em Barqa como uma autoridade indispensável tanto no plano espiritual quanto no cívico. No entanto, sua vida não era austera como o cardo libanês, nem era um estóico inconsciente. Homem sensível, estabelecia amizades reservadas e, como qualquer pessoa comum, despertava olhares de admiração, aos quais respondia com discrição. Tornou-se amplamente popular. Foi isso, em última instância, que lhe custou a vida. “Vejam como o povo o segue”, teriam dito seus inimigos. Passou a ser considerado “indesejável” por forças sírias e por grupos xiitas em ascensão que, segundo seu biógrafo, buscavam “esvaziar o vale do Bekaa de seus cristãos”. Procurava-se ativamente uma oportunidade para eliminá-lo. Ele chegou a ser advertido diretamente por um ou dois soldados sírios a quem dera carona. Em 14 de março de 1985, a oportunidade surgiu. Após visitar a região de Hermel, onde havia celebrado missa para um grupo de religiosas, partiu às pressas para retornar a Barqa, tomando a estrada que atravessa as aldeias mistas de Nabha e Qaddâm, um trajeto que costumava desaconselhar aos visitantes. Foi nessa estrada que caiu em uma emboscada, foi preso, torturado e assassinado. Mesmo quarenta anos depois, o relato da biografia permanece chocante. Após dias de busca, seu corpo, já em avançado estado de decomposição, foi encontrado em um desfiladeiro da região, onde havia sido lançado após a morte, com as mãos amarradas por uma corda. O legista determinou que ele havia morrido em 14 de março, dia de seu desaparecimento. Seu funeral foi celebrado em 3 de abril de 1985, no convento dos padres jesuítas em Taanayel. Ele está sepultado no cemitério do convento. O inferno em ação O sadismo de seus torturadores e assassinos era prova suficiente de que não apenas homens estavam em ação, mas que o próprio inferno parecia ter participado. Em sua atividade pastoral, o padre Nicolas por vezes discernia anomalias que atribuía a “espíritos impuros”. Relatava, por exemplo, que durante um batismo o vidro de uma janela se estilhaçou por uma súbita rajada de vento “no momento em que ordenou que Satanás se retirasse”. Duas ou três vezes em sua vida, experimentou uma angústia vaga e avassaladora, como se estivesse sendo tragado por um abismo. Já não está aqui para falar disso, mas o fato de seu corpo ter sido posteriormente encontrado em um desfiladeiro dificilmente parece mera coincidência. Toda vida cristã carrega sua parcela de combate espiritual contra o Adversário, sua própria agonia, seu próprio Jardim das Oliveiras. Dispomos, sobre esse tema, de um testemunho notável do correspondente de guerra francês Jean-Claude Guillebaud. Em seu livro How I Became a Christian Again , ele relata que, ao cobrir a guerra no Líbano, foi confrontado com “a questão do Mal”, devido à “procissão fúnebre de massacres” que acompanhava o conflito. Para ele, esses massacres evidenciavam uma “jubilosidade bárbara que não podia ser explicada apenas por paixões ideológicas ou religiosas”. O corpo do padre Kluiters foi oficialmente identificado por seu dentista, doutor Sleïman Khnaisser, que o reconheceu pelo trabalho realizado em sua mandíbula inferior. O legista declarou que, em toda a sua carreira, nunca havia visto um corpo “tão horrivelmente tratado”. Além das agressões, observou sinais de estrangulamento e corte na garganta. O tratamento brutal infligido ao corpo do padre Nicolas Kluiters permanece como um exemplo contundente dos horrores quase demoníacos que marcaram a guerra civil libanesa. Próximo artigo O inquietante testemunho de Ghassibé Keyrouz, braço direito do padre Nicolas Kluiters, SJ Artigos relacionados "Morto para que o Líbano viva", o derradeiro sacrifício de Nicolas Kluiters SJ

O «novo regime» iraniano evocado por Trump é realmente «cartesiano»?

Assistimos a uma guerra de novo tipo que opõe, desde 28 de fevereiro, os exércitos americano e israelita, por um lado, à República Islâmica do Irão, por outro. Para esquematizar ao extremo, poderíamos dizer que estamos perante um conflito que amalgama, como se diria em linguagem popular, “o pau e a cenoura” de forma tão entraçada que se torna difícil descortinar nas entrelinhas a parte e o grau de verdade, de manobra, de mentira ou de dissimulação do pensamento ao nível de cada uma das partes em conflito. Esta jornada de segunda-feira, 30 de março de 2026, ilustrou em larga medida esta complexidade da situação, em toda a sua dimensão. O presidente Donald Trump voltou à carga numa entrevista ao New York Post , referindo a presença em Teerão de um “novo regime que se revela cartesiano e racional” na sua linha de conduta e que é “mais flexível do que os dirigentes que foram eliminados” no início da guerra. O chefe da Casa Branca afirmou que as negociações com este “novo regime” estão no bom caminho, mas ao mesmo tempo precisou que “não tem a certeza” de que um acordo possa ser alcançado, chegando mesmo a sublinhar que “muito provavelmente não haverá acordo.” Recusando-se a revelar a identidade do alto responsável iraniano com quem Washington está a negociar, limitou-se a precisar que poderia divulgá-la dentro de “uma semana.” A questão elementar que se coloca neste plano é dupla: existe verdadeiramente em Teerão um “novo poder” e, nesse caso, é realmente “mais cartesiano e racional” do que o seu predecessor, como o presidente Trump afirmou por diversas vezes? Se este novo interlocutor iraniano, admitindo que exista, se revela tão cartesiano quanto o afirma o presidente americano, que provas têm os dirigentes americanos de que a sua atitude reflecte realmente um novo modo de pensar em Teerão? As experiências passadas demonstraram que o regime dos mulás, de cujas fileiras emerge necessariamente o misterioso “novo interlocutor”, se tornou mestre consumado da taqiyya , na dissimulação do pensamento real da pessoa ou parte em questão, enquanto aguarda que a tempestade acalme e que a conjuntura geoestratégica evolua num sentido mais favorável, no caso preciso, à República Islâmica. Tendo em conta este facto bem estabelecido, pode confiar-se verdadeiramente numa personalidade ou num clã saído das fileiras de um regime que durante 47 anos construiu o seu poder sobre uma ideologia teocrática, totalitária e obscurantista profundamente antiocidental, sobre o terrorismo, a repressão sangrenta e, sobretudo, a taqiyya ? O presidente Trump sublinhou esta segunda-feira, numa das suas declarações, a sua vontade de se vingar de todas as agressões perpetradas pelo regime dos mulás ao longo de 47 anos contra o exército americano, nomeadamente em Beirute em 1983, e contra cidadãos americanos, também no Líbano. Pode fazer-se tábua rasa deste comportamento belicoso que se estendeu por quase meio século, tomando os mesmos actores e recomeçando ingenuamente? A posição iraniana O conjunto destas interrogações, ou antes destas incógnitas, coloca-se com tanto maior acuidade quanto é confirmado pelas tomadas de posição públicas exibidas pelas fontes oficiais iranianas (que não reflectem necessariamente a realidade, taqiyya obriga). Essas fontes voltaram a desmentir esta segunda-feira que estejam em curso negociações com a Administração Trump, referindo apenas, como fizeram nos dias anteriores, a existência de uma “troca de mensagens” através de mediadores, presumivelmente paquistaneses. Seja como for, da mesma fonte reafirma-se que o plano de 15 pontos proposto pelos EUA não é aceitável para a República Islâmica. Trump desmentiu-o na segunda-feira, na sua entrevista ao New York Post, afirmando que o “novo poder” aceitou “a maioria dos 15 pontos.” Os dados militares Perante estas zonas de sombra que caracterizam as posições de uns e outros, e na expectativa de que a situação se clarifique a este respeito, os observadores não têm mais, nesta Semana Santa, do que calcar a sua atitude sobre a que foi a de São Tomé, baseando-se nos factos reais e tangíveis. A Administração americana manifesta assim a vontade de enveredar por negociações directas para chegar a um acordo global que ponha fim ao conflito actual, mas ao mesmo tempo encaminha importantes reforços para a região, entre os quais o porta-aviões George Bush, bem como destacamentos de milhares de marines, paraquedistas e unidades de elite. Fala-se com instância neste contexto de operações de comandos pontuais em terra firme e de um desembarque na ilha de Kharg que permitiria aos Estados Unidos controlar a produção e as exportações petrolíferas do Irão, factor estratégico da maior importância que bem poderá ser um dos objectivos perseguidos por Washington. Por outro lado, enquanto se fala de negociações construtivas com os “novos interlocutores” iranianos, os raids aéreos americanos e israelitas contra o conjunto das instalações e infra-estruturas militares, industriais e estratégicas iranianas prosseguiram de forma intensa na região de Teerão e em Isfahan, estendendo-se mesmo na segunda-feira, pela segunda vez, à zona do mar Cáspio, no extremo norte do Irão, não longe das fronteiras com a Rússia. Quanto à frente libanesa, a manhã de segunda-feira ficou marcada por vários raids contra os subúrbios do sul de Beirute, onde foi morto um alto responsável militar do Hezbollah, enquanto no Sul do Líbano o exército israelita prosseguiu o seu avanço sistemático sobre novas extensões do território libanês, atingindo, segundo fontes libanesas, o Litani e efectuando penetrações de 14 quilómetros a partir da fronteira entre os dois países. Estes desenvolvimentos ao nível das operações militares ocorreram enquanto se realizava na Arábia Saudita uma cimeira que reuniu o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, o emir do Qatar Tamim bin Hamad al-Thani e o rei Abdallah da Jordânia.

«Morto para que o Líbano viva», o derradeiro sacrifício de Nicolas Kluiters S.J. (1/3)

A festa patronal da Universidade Saint-Joseph (19 de março) trouxe à memória de seu novo reitor, François Boëdec, a lembrança de Alban de Jerphanion, primeiro mártir jesuíta da interminável guerra que eclodiu em 1975 no Líbano e cujo mais recente episódio — que se espera que seja o último — teve início no começo de março. Outros cinco mártires dessa guerra caíram depois do padre de Jerphanion. Em homenagem aos seus sacrifícios, apresentamos uma nova biografia dedicada a uma de suas figuras mais santas: o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cujo processo de beatificação está em andamento. A obra traz detalhes inéditos sobre o complô arquitetado pelos serviços secretos sírios e por grupos xiitas para eliminar o padre Nicolas. Ao mesmo tempo, evidencia o sentido mais amplo da entrega que ele fez ao Líbano, para que o país permaneça “um modelo de liberdade e pluralismo” para o Oriente e o Ocidente, em um momento em que uma nação altamente militarizada ameaça amputar uma parte essencial de seu território, marcada pela memória da passagem de Cristo . Exaltado como uma terra de santidade, o Líbano é também, infelizmente, um país onde sacerdotes são assassinados. O novo reitor da Universidade Saint-Joseph, o padre François Boëdec, evocou neste ano (2026), em seu discurso anual sobre o estado e o futuro da instituição, a figura de um dos primeiros “mártires” jesuítas da guerra civil: o padre Alban de Jerphanion, morto com ódio por um grupo de homens armados em 14 de março de 1976, no cruzamento da igreja Mar Mikhaël, quando se dirigia ao aeroporto para deixar um viajante. As palavras do reitor abrem caminho para a evocação de outros cinco jesuítas “mortos para que o Líbano viva”, em especial o sacerdote neerlandês Nicolas Kluiters, cujo processo de beatificação está em curso. Uma biografia documentada foi dedicada a esse sacerdote exemplar pela ensaísta, romancista e jornalista Carole Dagher ( Paixão por uma terra abandonada , Lessius). Como complemento, acaba de ser publicado A arte da reconciliação em um Líbano dilacerado , pela editora Dar el-Machrek, escrito por Francis Berkemeijer, compatriota e contemporâneo do sacerdote assassinado. Esta nova obra traz esclarecimentos sobre as circunstâncias da paixão e da morte violenta daquele que é considerado “um artista da reconciliação”: um homem que, à força de trabalho, tato, abnegação e perseverança, conseguiu desenvolver Barqa, um vilarejo maronita esquecido no vale da Béqaa, a ponto de seus habitantes deixarem de sentir a necessidade de abandoná-lo. O maior feito do padre Nicolas Kluiters foi, sem dúvida, ter conseguido a reconciliação entre duas famílias de Barqa que já não se falavam. Revelados pela primeira vez neste livro, os detalhes de sua morte violenta testemunham o fim corajoso e santo, aos 45 anos, de um homem de Deus após sofrimentos indescritíveis; revelam também até onde podiam chegar a miopia, o cinismo e a crueldade da ditadura síria dos Assad, cujos serviços de inteligência não são alheios à sua morte. Os cristãos, o verdadeiro desafio “O milagre da minha vocação em Barqa é que pude ver como aldeões que lutavam entre si se tornaram homens que trabalham juntos”, escreveu Nicolas em seu diário. “Em Barqa, não há uma casa onde não haja uma foto do padre Nicolas”, afirma o autor da nova biografia, responsável pelos arquivos da Companhia. “Acredito que a reconciliação das famílias de Barqa seja seu maior milagre”, acrescenta. “Para Nicolas, as tensões entre cristãos e muçulmanos não eram o maior desafio. O verdadeiro desafio eram, sobretudo, as vendetas entre clãs cristãos, nas quais frequentemente se chegava a conflitos de sangue e nas quais membros de famílias que viviam no mesmo vilarejo deixavam de manter qualquer contato entre si”, explica o biógrafo. Esses conflitos eclodiam especialmente quando ocorrem casamentos “por rapto” ( khatifé ), precisa o padre Berkemeijer. Como sinais de uma possível evolução das mentalidades rumo à liberdade de escolha dos cônjuges, a geração mais velha podia reagir com rigidez absoluta, levando à ruptura total entre famílias e, às vezes, a atos de vingança. Diz-se que é mais fácil dobrar uma barra de ferro com as próprias mãos do que mudar corações. Essa transformação foi o milagre que se realizou em Barqa graças ao padre Nicolas. Um de seus meios era simplesmente o contato pessoal. Ele conseguiu isso inclusive com um grupo de palestinos que bloqueava a construção de uma capela dedicada a São Charbel, próxima a pastagens de montanha onde os criadores de cabras de Barqa iam no verão. Os palestinos acabaram ajudando na concretagem do teto. Uma região “abandonada” Chegado ao Líbano em 1966, o padre Nicolas exerceu seu apostolado na parte norte da planície central da Béqaa, uma região predominantemente agrícola que, apesar da riqueza de seu solo, permanecia pobre e negligenciada. Ele teve de enfrentar a pobreza espiritual, cultural e material de seu ambiente rural. Em Barqa, onde se concentrava sua ação pastoral, dois clãs de uma mesma família maronita coexistiam sem se falar, frequentando a missa dominical em duas igrejas distintas, situadas em extremos opostos do vilarejo. Nesse ambiente de caráter tribal, a lei da vendeta ainda vigorava, e a ofensa só era “lavada” com sangue. Foi a essa sociedade cristã rústica que ele dedicou a maior parte de sua energia, vivendo durante anos sem casa própria, compartilhando a vida dos habitantes, comendo e dormindo em suas casas. Como bom neerlandês, de caráter reto, teve de se adaptar à flexibilidade do estilo libanês. Barqa não era sua única preocupação. Ele percorria constantemente a região, realizando catequeses, encontros evangelizadores, batismos, formações para a primeira comunhão e celebrações de missa. Ao redor do arquipélago de vilarejos maronitas dispersos ao pé do Monte Líbano (vertente oriental), todos os povoados eram xiitas ou “mistos”. Abandonados à própria sorte, em situação minoritária e expostos às tensões da guerra e aos riscos dos deslocamentos fora de sua região, muitos habitantes pensavam apenas em emigrar. Nicolas compreendeu rapidamente que a escolha era clara: ou oferecer aos habitantes meios de sobrevivência, ou resignar-se à sua partida. Para ele, não havia escolha: lançou-se de corpo e alma no desenvolvimento do vilarejo. Para isso, obteve inclusive um diploma de assistente social na Escola Libanesa de Formação Social, hoje vinculada à Universidade Saint-Joseph. Construção de uma estrada e sistemas de irrigação Em poucos anos, conseguiu, com a colaboração ativa dos habitantes, construir uma estrada que levava às terras agrícolas acima do vilarejo. Ali, promoveu a construção de canais de concreto para irrigar as árvores frutíferas — uma alternativa ao cultivo de haxixe. Também conseguiu construir uma escola complementar no centro do vilarejo, aproximando assim suas duas partes em conflito, e obteve a chegada de religiosas da Congregação dos Sagrados Corações para administrá-la. No mesmo local, graças à Ordem de Malta, foi aberto um dispensário. Por fim, implantou um ateliê de costura em parceria com uma fábrica de Beirute que fornecia os materiais, criando assim trabalho para as mulheres do vilarejo. Amar os homens por amor a Deus não é algo automático. Para o mundo, o desinteresse não existe. Para um cristão, porém, o desinteresse é a única virtude que permite superar a ingratidão com que, às vezes, um trabalho é recebido. Os elementos dessa santidade do trabalho social do padre Nicolas ainda não foram suficientemente definidos para serem propostos como exemplo. Pode-se dizer que incluem, antes de tudo, o profissionalismo na execução das tarefas. O desenvolvimento sustentável não tinha segredos para Nicolas Kluiters. Era um homem metódico que “odiava a improvisação”, segundo o padre Berkemeijer. Incluíam também o espírito de parceria entre as famílias de Barqa, ou entre as famílias e o clero; a ausência total de discriminação entre os beneficiários dos projetos — todos os vilarejos ao redor de Barqa se beneficiaram de seu dispensário —; e, por fim, o amor à pobreza e a fraternidade com os mais pobres. “É da boca dos pobres”, escreveu em seu diário, “que o Senhor me fala mais diretamente.” Próximo artigo: O martírio, no Líbano, de Nicolas Kluiters s.j., enfrentando o Mal (2/3)