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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Líbano-Israel: Rubio quer arrancar uma declaração de intenções

No terceiro dia do quinto round das negociações líbano-israelenses, em Washington, discussões consideradas difíceis entre as duas delegações político-militares libanesa e israelense deveriam resultar em uma declaração de intenções que definiria o quadro para negociações mais aprofundadas e para uma cooperação futura entre o Líbano, Israel e os Estados Unidos. A declaração de intenções deveria ser anunciada e assinada pelo Líbano e por Israel às 23 horas, horário de Beirute, mas o anúncio foi adiado devido à continuidade das discussões entre as duas partes. Segundo diversas fontes convergentes, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, está usando toda a sua influência para levar o Líbano e Israel a assinarem essa declaração de intenções. Enquanto isso, vários incidentes pontuais foram registrados, ao longo do dia e da noite de quinta-feira, entre o exército israelense e milicianos do Hezbollah. Pouco antes da meia-noite, a aviação do Estado hebraico realizou um ataque contra a aldeia de Beit Yahoun, no distrito de Bint Jbeil. Os debates deste último dia do quinto round das negociações giraram, portanto, em torno — sem surpresa — da retirada israelense e do futuro do arsenal militar do Hezbollah. Dois temas sobre os quais as duas partes tinham dificuldade em chegar a um acordo, enquanto o secretário de Estado americano, em visita aos países do Golfo, mencionava avanços nas negociações. Para Israel, sujeito a fortes pressões americanas em favor de uma retirada, pelo menos até a Linha Azul, a equação é clara: nenhuma retirada enquanto o movimento pró-iraniano mantiver suas armas e representar uma ameaça para o norte do país. O Líbano, por sua vez, reafirma sua vontade de estender sua soberania sobre todo o seu território e considera que a permanência do exército israelense no Sul complicaria sua tarefa. Beirute exige, assim, uma retirada israelense total como condição prévia, enquanto Tel Aviv deseja que o exército libanês se implante no Sul antes da retirada de suas forças. As duas partes também tinham dificuldade em chegar a um entendimento sobre as 'zonas-piloto', que constituiriam o ponto de partida de uma retirada israelense cujo calendário ainda está por definir. Segundo o Yediot Aharonot , o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria conseguido convencer Donald Trump a não mais exigir uma retirada, uma vez que Washington está associado ao projeto de 'zonas-piloto' no Sul, das quais Israel se retiraria progressivamente em troca de um maior desdobramento do exército libanês. Netanyahu reafirmou, aliás, em um discurso no final do dia, que suas tropas manteriam presença nas 'zonas de segurança em Gaza e no Líbano' e que 'missões ainda precisam ser conduzidas em relação ao Irã, ao Hezbollah e ao Hamas'. Tel Aviv reduziu sensivelmente suas operações na parte meridional do país, mas seu exército continua eliminando combatentes do Hezbollah. Três pessoas foram mortas em um ataque de drone que atingiu um veículo perto de Mayfadoune, no distrito de Nabatiyé. O dossiê libanês está, como se sabe, integrado às discussões entre Washington e Teerã, por insistência da República Islâmica, que quer manter o controle sobre qualquer processo que envolva o destino do país e se autoproclamou porta-voz do Líbano, apesar da rejeição oficial libanesa a qualquer ingerência iraniana em seus assuntos. Ignorando as críticas do presidente Joseph Aoun e do primeiro-ministro Nawaf Salam contra o comportamento de Teerã, o comandante da força al-Qods dos Guardiões da Revolução Islâmica, Esmaïl Qaani, declarou, mais uma vez, que Israel deveria deixar 'a totalidade do território libanês' por vontade própria, caso contrário seria 'forçado a fugir sob o peso da derrota'. Teerã continua a impor como condição para a continuidade de suas negociações com Washington uma retirada israelense incondicional do sul do Líbano. Por sua vez, os Estados Unidos e os países do Golfo reafirmaram, num comunicado conjunto divulgado ao término da conferência ministerial do Conselho de Cooperação do Golfo, realizada em Manama, a necessidade de separar os dois processos diplomáticos conduzidos em Washington e na Suíça. O bloco parlamentar do Hezbollah alinhou-se com os Guardiões da Revolução Islâmica, conclamando o Estado libanês a «aproveitar o apoio iraniano» e alertando-o contra «concessões que seriam feitas a Tel Aviv». Israel reagiu imediatamente pela voz do seu ministro da Defesa, Israel Katz, que anunciou que seu país «golpeará com força o Irã se ele nos atacar por causa das nossas operações no Líbano». Braço de ferro em torno de Ormuz No plano regional, o braço de ferro em torno do estreito de Ormuz endureceu consideravelmente na quinta-feira, após os Guardiões da Revolução Islâmica rejeitarem uma iniciativa de Omã, apoiada por Washington e pelos países do Golfo, destinada a garantir a navegação nessa passagem estratégica. Este desenvolvimento ameaça complicar o processo diplomático em curso em prol da paz na região, sobretudo porque o Irã, que se proclama vencedor da sua guerra contra os Estados Unidos e Israel, e que enfrenta dificuldades financeiras e econômicas substanciais, busca multiplicar os ganhos dessa natureza. Segundo o Wall Street Journal, as taxas de pedágio poderiam render a Teerã até 40 bilhões de dólares por ano. O suficiente para recompor as finanças do regime, especialmente se os seus ativos continuarem bloqueados por Washington. Sinal de uma crise emergente, um petroleiro foi «atingido por um artefato explosivo de origem indeterminada a sudeste de um porto omanense», anunciou ao final do dia a marinha britânica. Outros três cargueiros, entre eles um petroleiro, que atravessavam o mesmo corredor, foram obrigados a dar meia-volta, segundo a mesma fonte. Teerã contava com Omã para contornar a pressão internacional e impor uma taxa de pedágio em Ormuz, mas o sultanato rapidamente se distanciou da iniciativa, anunciando dois novos corredores temporários estabelecidos ao longo da sua costa em coordenação com a Organização Marítima Internacional (OMI). O seu ministro das Relações Exteriores, Badr al-Busaidi, garantiu que nenhuma «taxa de trânsito» seria imposta, esclarecendo ao mesmo tempo que Mascate prosseguia as suas conversações com Teerã sobre custos relacionados a determinados serviços administrativos e de segurança marítima. Embora esta decisão tenha sido amplamente celebrada pelos países do Golfo, os Pasdaran, que pretendem manter o controle sobre um dos principais pontos de passagem energética do planeta, rejeitaram-na imediatamente. Num comunicado em resposta, afirmaram que «as únicas rotas autorizadas para atravessar o estreito de Ormuz são as anunciadas pela República Islâmica do Irã». Criticando Mascate por não tê-los consultado, advertiram que qualquer navio que utilizasse outro itinerário estaria sujeito a «sanções», sem especificar a sua natureza. A reação americana não tardou. No Bahrein, onde participava da conferência ministerial do CCG, Marco Rubio rejeitou categoricamente qualquer ideia de pedágio ou taxa no estreito, afirmando que «nenhum Estado poderia alegar ser proprietário de uma via marítima internacional». Para Washington, o debate vai muito além do âmbito do Golfo. Os responsáveis americanos temem que um precedente em Ormuz possa encorajar outras potências a cobrar pela passagem em estreitos estratégicos ao redor do mundo, o que provocaria um «caos total», advertiu Rubio. Resta saber que impacto este episódio terá sobre as negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Pois, por um lado, os Pasdaran consideram que qualquer concessão em relação a Ormuz equivaleria a uma perda de influência regional. Por outro lado, os Estados Unidos, embora desejosos de fechar um acordo com o Irã, não querem fazê-lo «a qualquer preço», reafirmou Marco Rubio em Manama. O chefe da diplomacia americana reiterou que nenhuma disposição do futuro acordo com o Irão deveria comprometer «a segurança, a estabilidade ou a prosperidade» dos Estados do Golfo, numa tentativa evidente de tranquilizar essas monarquias, numa altura em que está prevista uma nova reunião técnica entre peritos americanos e iranianos na Suíça no final do mês. Este compromisso ficou refletido no comunicado final da conferência ministerial de Manama. A questão dos mísseis balísticos foi integrada no documento, ao passo que não consta do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, e Teerão recusa, em nome do equilíbrio de forças regional, que este dossiê seja objeto de negociações. Os chefes da diplomacia dos países do Golfo apelaram assim a Washington para que inclua a questão dos mísseis iranianos e dos grupos armados aliados de Teerão nas negociações destinadas a pôr fim definitivo à guerra no Médio Oriente. «Uma paz e uma segurança regionais duradouras exigem que se respondam a todas as ameaças iranianas, incluindo os seus mísseis balísticos, os seus drones e o seu apoio aos grupos armados na região», declararam os ministros do CCG.

As comunidades eclesiais, primavera da Igreja (1/2)

Por iniciativa do movimento dos Focolares, o arcebispo maronita de Antélias, dom Antoine Bou Najem, recebeu, no dia 29 de maio passado, na Catedral da Ressurreição (Mtayleb), para uma noite de oração e apresentações, responsáveis e membros de 35 movimentos eclesiais, surgidos em sua maioria no contexto da renovação carismática após o Concílio Vaticano II. Neste artigo dividido em duas partes, apresentamos esse evento, que é uma primeira iniciativa, e seu significado para a Igreja em geral, assim como “o lugar teológico” desses movimentos eclesiais em relação à hierarquia da Igreja, conforme elaborado nos anos 1990 pelo cardeal Josef Ratzinger, futuro Bento XVI, então prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Uma primavera da Igreja No final dos anos 1960, após o que o teólogo Karl Rahner descrevia como “um inverno da Igreja”, os primeiros raios de um extraordinário despertar, o da renovação carismática, começavam a surgir no Líbano e no mundo católico. Uma das chaves teológicas desse fenômeno era, e continua sendo, a experiência do amor de Jesus por cada pessoa e a redescoberta da ação do Espírito Santo, por meio dos carismas concedidos para edificar a Igreja e cada fiel em particular. O Concílio Vaticano II havia recuperado a ideia de que o Espírito concede dons não apenas à hierarquia, mas também a todos os fiéis, para o bem comum da Igreja. Essa visão permitiu compreender melhor o surgimento de novas formas de vida cristã adaptadas à situação daquele momento e possibilitadas pela efusão do Espírito, por uma nova dinâmica e pela experiência da presença de Deus. Nesse contexto, enquanto começavam a se formar os primeiros brotos de uma comunidade ecumênica carismática nascida nos ambientes universitários de língua inglesa, a guerra eclodia no Líbano. Durante anos, no fervor dos começos, o grupo de oração e a comunidade surgidos dessa renovação atraíram jovens que, ignorando os perigos dos bombardeios, dos sequestros e de outros riscos daquele período, demonstraram uma fidelidade heroica aos encontros de oração e à comunidade humana que deles nasceu. E todos podiam testemunhar que, onde acreditavam estar “dando tudo”, estavam, na realidade, “recebendo tudo”, não sem algumas “incompreensões” vindas dos mais próximos. Desde esses inícios espontâneos e, às vezes, desconcertantes, essa “primavera da Igreja” espalhou-se pelo mundo inteiro, assim como pelo Líbano, onde sua contribuição para a “nova evangelização” é hoje reconhecida e valorizada. A novidade de alguns carismas e a efusão do Espírito foram, por vezes, difíceis de explicar ou aceitar. Mas agora esses grupos e comunidades entraram em uma fase de relativa maturidade eclesial, de comunhão paciente, de responsabilidade compartilhada e de enraizamento na Igreja. Para acompanhar seu desenvolvimento no mundo católico, o Papa Francisco criou o “Charis”, um organismo ligado ao Dicastério para os Leigos e chamado a servir todas as correntes da “Renovação carismática”. No dia 29 de maio passado, por iniciativa do movimento dos Focolares e pela primeira vez no Líbano, 35 desses movimentos e comunidades eclesiais presentes no país se reuniram, em sua diversidade, na Catedral da Ressurreição (Mtayleb, diocese maronita de Antélias). O bispo local, dom Antoine Bou Najem, com o apoio do núncio apostólico, dom Paolo Borgia, ofereceu-lhes a hospitalidade de sua catedral e lhes concedeu oficialmente a palavra. Cumprimento de uma promessa A reunião foi apresentada por Fadi Bouzamel (Focolares) como “o cumprimento de uma promessa feita em 1998 ao Papa João Paulo II por Chiara Lubich”. Essa promessa consistia em trabalhar incansavelmente, “em conformidade com a vocação à unidade dos Focolares”, para aproximar uns dos outros os novos movimentos eclesiais, levá-los a se conhecerem, a se valorizarem e a cooperarem entre si em sua missão de evangelização do mundo, de acordo com os carismas de cada um deles e sob a autoridade de seus bispos. ¿Por qué 1998? Responder a essa pergunta significa voltar ao Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais realizado em Roma em 31 de maio de 1997. Naquele dia, João Paulo II teve um “encontro inesquecível” com mais de duzentas mil pessoas pertencentes a cerca de cinquenta movimentos eclesiais e novas comunidades. Elas representavam uma “corrente de graça” crescente, que seu predecessor, São Paulo VI, ao acolher a Renovação carismática em 1975 no coração da Basílica de São Pedro, havia considerado como “uma oportunidade para a Igreja”. Em 1998, no Pentecostes, o encantamento de João Paulo II renovava-se diante de uma imensa manifestação que reuniu, de 27 a 29 de maio, na Praça de São Pedro, 400 mil responsáveis e membros de movimentos eclesiais e novas comunidades, vindos dos quatro cantos do planeta. Surpreendido, o mundo inteiro descobriu naquele dia uma Igreja em plena juventude, uma Igreja capaz de acolher e valorizar cada carisma, uma Igreja capaz de reunir a diversidade na unidade, a vitalidade missionária dos leigos, a catolicidade dos movimentos eclesiais e das novas comunidades, nascidas na esteira do Concílio Vaticano II. Entre os movimentos mais influentes, para citar apenas os mais conhecidos, estavam o Movimento dos Focolares, nascido em plena Segunda Guerra Mundial (1942), a Renovação Carismática Católica, o movimento Comunhão e Libertação, o Caminho Neocatecumenal, a Comunidade de Sant’Egidio, a Comunidade Emanuel e o Caminho Novo. Dirigindo-se à multidão, João Paulo II afirmou: “Pude mencioná-los como novidades que ainda esperam ser acolhidas e valorizadas de maneira adequada. Vejo hoje, e alegro-me com isso, que manifestam uma consciência pessoal mais madura. Eles representam um dos frutos mais significativos dessa primavera da Igreja, já anunciada pelo Concílio Vaticano II, mas infelizmente muitas vezes impedida pelo processo de secularização que se desenvolve (...) e que promove modelos de vida sem Deus (...). Percebe-se, portanto, com urgência, a necessidade de um anúncio forte e de uma formação cristã sólida e aprofundada. Precisamos hoje de pessoas cristãs maduras, conscientes de sua identidade batismal, de sua vocação e de sua missão na Igreja e no mundo! Precisamos de comunidades cristãs vivas! E eis então os movimentos eclesiais e as novas comunidades: eles são a resposta suscitada pelo Espírito Santo a esse desafio dramático do fim do milênio. Vocês são essa resposta providencial.”

Negociações de Washington: a política dos pequenos passos

O segundo dia do 5º round das negociações diretas entre o Líbano e Israel, realizadas nesta quarta-feira, 24 de junho, no Departamento de Estado, em Washington, foi centrado na análise do mecanismo concreto que deverá ser estabelecido para «gerir» a retirada parcial, e simbólica nesta fase, das forças israelenses de alguns setores da região fronteiriça. De acordo com as discussões em curso sobre este plano, o exército libanês deverá substituir progressivamente as unidades israelenses que se retiram gradualmente. Fontes geralmente bem informadas apontam que essa substituição será realizada por unidades do exército libanês enquadradas e sob controle «de segurança» e operacional do comando militar americano. As discussões em curso em Washington sobre este assunto prosseguirão por um terceiro dia, nesta quarta-feira, 24 de junho. Quanto ao objetivo final dessas negociações líbano-israelenses, um alto funcionário do Departamento de Estado indicou na quarta-feira que o governo Trump trabalha para «pôr um fim definitivo aos ciclos de violência entre o Líbano e Israel». Acrescentou, para delimitar bem o quadro das conversações — sem dúvida para mantê-las longe das gesticulações midiáticas hegemônicas do regime dos aiatolás — que «o Líbano e Israel negociam na qualidade de Estados soberanos para alcançar a paz». Enquanto se aguarda que as negociações deste quinto round tomem forma, uma calma precária e tensa continua a prevalecer no terreno na zona meridional, ao longo da fronteira com Israel. Essa calmaria é, no entanto, marcada quase diariamente por incidentes pontuais de segurança, como ocorreu nesta quarta-feira, quando o exército israelense abateu dois milicianos do Hezbollah que se aproximavam das posições israelenses no setor do estratégico morro de Ali el-Taher. Paralelamente, um drone israelense disparou um míssil contra um veículo que circulava na estrada de Kfar Remman (caza de Nabatiyeh). Duas pessoas morreram nesse ataque. No final da tarde, outro ataque de drone foi registrado em Nabatiyeh el-Fawqa, enquanto disparos de artilharia eram direcionados contra a aldeia de Yater, no caza de Bint Jbeil. Esses incidentes pontuais ocorrem enquanto o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou na quarta-feira que o Estado hebraico «não concluiu sua operação no sul do Líbano», ressaltando que, enquanto permanecer no cargo de primeiro-ministro, o exército israelense não se retirará completamente da zona tampão que vem estabelecendo e consolidando na região meridional libanesa para garantir a segurança do norte de Israel. O ministro israelense da Defesa, Israel Katz, declarou também na quarta-feira que o governo Trump não pediu a Israel que se retirasse do sul do Líbano. Cabe destacar, para encerrar este dossiê libanês (que parece, portanto, evoluir «a passos lentos»), que o presidente Joseph Aoun reafirmou nesta quarta-feira que as negociações de Washington são totalmente dissociadas das conversações americano-iranianas iniciadas na Suíça. O panorama regional No que diz respeito aos desenvolvimentos regionais, três dossiês fundamentais continuam a alimentar as divergências entre americanos e iranianos quanto à leitura e interpretação do acordo-quadro celebrado entre as duas partes. O governo Trump, e mais especificamente o chefe da Casa Branca, não perde oportunidade de afirmar que os especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica inspecionarão de fato os sites nucleares iranianos, o que o regime iraniano continua a desmentir categoricamente. Ao mesmo tempo, o presidente Trump sublinha sem rodeios que os ativos iranianos que forem desbloqueados servirão exclusivamente para adquirir, em nome da população iraniana, trigo, milho e soja diretamente no mercado americano, o que beneficiará os agricultores e produtores norte-americanos. Esta abordagem é, no entanto, rejeitada pelos altos responsáveis em Teerã, que repetem a qualquer um disposto a ouvir que cabe exclusivamente ao poder iraniano decidir sobre o uso dos ativos que serão descongelados pela administração americana. Outro ponto de discórdia entre Washington e Teerã: a gestão da navegação marítima internacional no estreito de Ormuz. O regime iraniano continua a agir em várias frentes para impor, como um facto consumado, o seu controlo e soberania sobre o estreito, cobrando taxas por serviços de natureza administrativa, «ecológica» e «de segurança» que seriam prestados aos navios que utilizam esta rota marítima. Trata-se claramente de uma portagem que não assume o seu nome… O que levou o presidente Trump a afirmar na quarta-feira que, se os iranianos insistirem em impor uma portagem disfarçada no estreito de Ormuz, ele encerrará pura e simplesmente as negociações com Teerã…

EUA-Irão: um roteiro sob pressão do tempo (1/2)

Após 48 horas caóticas, marcadas por ameaças de ruptura, a primeira sessão de alto nível entre as delegações americana e iraniana foi encerrada sob a dupla mediação do Catar e do Paquistão. O protocolo assinado em Versalhes em 17 de junho parecia, até então, uma trégua frágil; agora, ele se transforma em um verdadeiro exercício diplomático após a validação formal de um roteiro de 60 dias. Esse processo deverá levar ou a um acordo final, semelhante aos arranjos que estruturam o Oriente Médio desde 1948, ou a uma nova crise aberta. Os riscos políticos e militares entre as duas partes permanecem totalmente presentes, em um período extremamente comprimido. O papel do Catar O papel central do Catar nas negociações entre o Irã e os Estados Unidos demonstra, por um lado, que a estratégia de pressão iraniana, por meio dos bombardeios contra o emirado, produziu resultados e, por outro, o retorno de uma diplomacia transacional, na qual a geopolítica desaparece por trás do que se assemelha a um contrato comercial. Já responsável historicamente pelos canais financeiros secretos entre Washington e Teerã, Doha se consolidou na Suíça, graças ao seu soft power, como garantidor de uma certa estabilidade regional. Compartilhando com o Irã o maior campo de gás natural do mundo, ao mesmo tempo em que abriga a principal base militar americana no Oriente Médio, o Catar soube manobrar para organizar, em um primeiro momento, o congelamento dos ativos iranianos sob pressão de Washington e, depois, seu descongelamento, reabrindo assim o Estreito de Ormuz. Mas a força dessa mediação catariana também reside na proximidade de suas redes econômicas com a equipe de Donald Trump. Seja o genro de Donald Trump, Jared Kushner, ou o enviado especial Steve Witkoff, presentes na Suíça ao lado de JD Vance, as duas figuras centrais da delegação americana mantêm estreitos vínculos financeiros com os fundos soberanos do emirado. Essa combinação inédita entre interesses privados e assuntos de Estado permitiu transformar um conflito ideológico altamente inflamável em uma mesa de negociação comercial, não sem riscos. Ao integrar ainda o Catar ao centro da célula de desconflição na frente libanesa, Washington valida o surgimento de um patrocínio catariano que redefine o equilíbrio de forças no Oriente Médio. O pior cenário para o Líbano, neste caso, seria um novo acordo de Doha, como o de 2008. A principal novidade resultante das negociações na Suíça é esse roteiro, que desencadeia uma verdadeira corrida contra o tempo de 60 dias, com negociações técnicas prolongadas destinadas a implementar o protocolo de entendimento. As equipes permanecem em Bürgenstock e os grupos técnicos deverão se multiplicar. Esse calendário rígido coloca Washington e Teerã em uma armadilha política, na qual o tempo necessário para as concessões se transforma em uma contagem regressiva explosiva diante das pressões internas em cada um dos dois países. Possível extensão do prazo de 60 dias? A administração americana não tem o luxo do tempo: a Casa Branca precisa urgentemente de resultados rápidos para estabilizar os mercados de energia e validar sua doutrina de diplomacia transacional. Um impasse técnico na Suíça, acompanhado de uma possível extensão da trégua, ofereceria ao Irã o cenário ideal: continuar recebendo petrodólares graças ao levantamento temporário das sanções sobre a venda de seu petróleo, mantendo ao mesmo tempo a indefinição sobre seu programa nuclear. Diante desse relógio iraniano em movimento, o governo americano se veria preso por sua própria opinião pública à direita, especialmente pelo senador Roger Wicker, republicano do Mississippi e presidente da Comissão das Forças Armadas do Senado, que declarou publicamente que esse acordo “negocia e destrói as vitórias” militares do Exército americano. Quanto ao senador Ted Cruz, republicano do Texas, ele critica duramente o descongelamento dos 12 bilhões de dólares em ativos iranianos, afirmando que enviar bilhões aos aiatolás equivale a financiar diretamente o terrorismo antiamericano e a formalizar o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz. Por sua vez, o senador John Cornyn, republicano do Texas, denuncia um acordo que permitiria ao Irã vender livremente seu petróleo e recuperar recursos para reconstruir seu arsenal de mísseis balísticos, sem qualquer contrapartida relacionada ao desmantelamento nuclear. O senador Rick Scott, republicano da Flórida, expressa, por sua vez, sua recusa categórica em confiar no regime de Teerã. Mas o mais importante de todos é o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, um dos aliados mais próximos de Donald Trump, que adotou uma posição cautelosa, porém firme: ele exige que qualquer acordo final seja submetido à aprovação e votação do Congresso, recusando-se a deixar que apenas o Poder Executivo valide o descongelamento dos fundos. Assim, se a trégua de 60 dias levar a um tratado, Donald Trump terá de enfrentar uma coalizão de republicanos linha-dura acusando-o de traição e democratas denunciando um cheque em branco. Essa oposição constitui o primeiro obstáculo interno ao sucesso do roteiro suíço. Quando o Capitólio chega a Bürgenstock Donald Trump também está sob pressão pela esquerda. Em 23 de junho, o Senado americano aprovou, por 50 votos a 48, uma resolução limitando os poderes de guerra do presidente. Essa medida constitucional não tem força jurídica para paralisar a Casa Branca, mas seu calendário político é constrangedor. Ao se unirem aos democratas, quatro senadores republicanos romperam a unidade de seu partido para contestar o monopólio de Donald Trump sobre a decisão militar diante de Teerã, exigindo que ele obtenha a aprovação do Congresso para qualquer ato de guerra. Essa postura legislativa enfraquece os negociadores americanos em Bürgenstock: o Irã sabe agora que a ameaça de Donald Trump de retomar os bombardeios diante de qualquer deslize está politicamente limitada por um Congresso que poderia bloquear os recursos necessários. Além disso, ela leva o presidente americano, furioso com o que classifica como uma “falha patriótica”, a endurecer o discurso para provar sua soberania, mesmo que isso signifique sabotar os próprios trabalhos técnicos com declarações incendiárias nas redes sociais. Pressionada entre as exigências de Mojtaba Khamenei, a fúria de um aliado israelense marginalizado e de seus interlocutores dentro da administração americana, além do despertar constitucional de seu próprio Congresso, o roteiro de 60 dias aparece mais do que nunca como uma trégua precária, na qual cada lado espera o primeiro erro do outro. A imprevisibilidade americana e a diplomacia dupla As negociações quase fracassaram quando, em 21 de junho, Donald Trump, ao vivo na Fox News, ameaçou retomar os bombardeios contra o Irã e intervir no Estreito de Ormuz caso nenhum acordo fosse alcançado dentro dos 60 dias. A delegação iraniana então suspendeu sua participação, e foi necessário um intenso trabalho de mediação por parte dos catarianos e paquistaneses para trazer os negociadores de volta à mesa. Esse tipo de intervenção pública ilustra uma tensão permanente entre uma diplomacia de campo conduzida por JD Vance, Jared Kushner e Steve Witkoff e uma comunicação presidencial que lembra onde está o centro de decisão, com o risco de anular os avanços obtidos nos bastidores. Esse é todo o paradoxo estratégico: a combinação entre uma ameaça verbal máxima e uma prática diplomática pragmática. Esse paradoxo pode, de fato, funcionar para impor concessões, mas também provoca crises de confiança do lado iraniano, paquistanês e catariano. (Continua)

Crise regional: a diplomacia se movimenta, as zonas de sombra se multiplicam

A terça-feira foi marcada por uma verdadeira movimentação diplomática em torno de dois acontecimentos que há algum tempo ocupam as manchetes internacionais: as discussões entre Washington e Teerã e as negociações diretas entre o Líbano e Israel. A quinta rodada das negociações libanesas-israelenses foi aberta no Pentágono, mas não sem um firme lembrete do presidente Joseph Aoun sobre a linha de orientação que deve nortear essas discussões, que se estenderão por três dias: o respeito à soberania libanesa. Aoun, que criticou em diversas ocasiões a flagrante ingerência iraniana nos assuntos internos do Líbano, colocou Teerã e Tel Aviv no mesmo patamar. “Não aceitaremos nada menos do que o fim da ocupação israelense e de todas as tutelas estrangeiras”, declarou, em uma alusão pouco disfarçada ao Irã. Ele expressou a esperança de que as discussões levem “ao pleno restabelecimento da soberania do Líbano sobre cada parcela de seu território”, segundo um comunicado de seu gabinete. Para Beirute, o objetivo dessas discussões consiste em transformar o cessar-fogo em um mecanismo concreto que permita a retirada israelense do Sul, o retorno dos deslocados e a libertação dos prisioneiros. Segundo fontes do palácio presidencial, citadas pela agência local al-Markaziya, instruções precisas foram dadas ao chefe da delegação libanesa, o embaixador Simon Karam, para manter firmemente essas prioridades, ao mesmo tempo em que busca acordos militares e de segurança aplicáveis no terreno, onde o cessar-fogo continua sendo violado. O Exército israelense disparou na terça-feira contra grupos de pessoas que apresentou como “terroristas” do Hezbollah pró-Irã, na área da colina estratégica de Ali Taher, deixando pelo menos dois mortos. Segundo informações divulgadas pela imprensa israelense, as discussões tratariam principalmente da criação de “zonas-piloto” no Sul do Líbano. De acordo com o Haaretz, Tel Aviv teria elaborado vários mapas prevendo uma retirada experimental de algumas áreas localizadas ao sul do Litani e da Linha Amarela, onde o Exército libanês seria mobilizado sob supervisão americana. No Líbano, afirma-se que as discussões de caráter militar e de segurança serão seguidas, na quinta-feira, por outras de natureza política, relacionadas principalmente ao desarmamento do Hezbollah. O projeto de “zonas-piloto” conta naturalmente com o apoio americano, na medida em que constituirá um verdadeiro teste para a capacidade do Exército libanês de manter a segurança na parte meridional do país e impedir que os tentáculos de Teerã voltem a se expandir na região. Mas ele apresenta, ainda assim, dois grandes obstáculos: a República Islâmica, que se recusa a afrouxar seu controle sobre o Líbano, foi associada ao mecanismo que deverá ser criado. As razões dessa presença, no mínimo inoportuna, ainda não foram oficialmente explicadas. Por outro lado, o Líbano parece não participar dos preparativos concretos desse dispositivo, como demonstra o teor divulgado de duas conversas telefônicas de Joseph Aoun com o vice-presidente e o secretário de Estado americanos, JD Vance e Marco Rubio. Ambos telefonaram para ele na terça-feira para expressar apoio às suas posições e às do governo, em favor do restabelecimento da soberania libanesa. Segundo um comunicado da Presidência da República, eles informaram que “os preparativos para a composição e o funcionamento dessa célula estão atualmente em estudo”. Resta saber qual será o papel do Líbano nesse contexto, enquanto Beirute continua defendendo uma separação entre as duas vias de negociação, a libanesa-israelense e a irano-americana. O apelo de Joe Raggi aos países árabes Em Amã, onde participava dos trabalhos da 165ª conferência ministerial da Liga Árabe, o ministro das Relações Exteriores, Joe Raggi, pediu aos países árabes que apoiassem “a independência da via de negociação libanesa” em relação ao eixo americano-iraniano. Ele insistiu que o futuro do Líbano não deveria ser decidido em sua ausência. Aparentemente, essa vontade continua sendo apoiada por Washington, como lembrou JD Vance em sua resposta ao líder das Forças Libanesas, Samir Geagea, que o havia questionado sobre a posição americana em relação ao Líbano e ao Hezbollah. JD Vance afirmou, em sua resposta a Geagea, que os Estados Unidos consideravam o presidente Aoun e o governo libanês como “a única autoridade legítima do país”. O vice-presidente americano insistiu que os contatos com Teerã “não tinham como objetivo conceder a ele um papel no futuro do Líbano, mas obter que exerça pressão sobre o Hezbollah para que respeite seus compromissos”. De todo modo, o campo soberanista, contra o qual o líder do Hezbollah, Naïm Qassem, voltou a atacar duramente na terça-feira, acusando-o de servir aos interesses de Israel, não pretende reduzir sua vigilância. Mais de 400 personalidades libanesas assinaram conjuntamente um apelo para salvar o Líbano, estruturado em torno de três ideias principais: uma união em torno do Estado, o apoio às negociações diretas com Israel e a rejeição da tutela que o Irã busca impor ao Líbano por meio de seu braço militar, o Hezbollah. Na mesma linha, o bloco parlamentar das Forças Libanesas, os deputados do partido Kataëb e um grupo de parlamentares independentes (entre eles Achraf Rifi, Michel Moawad e Fouad Makhzoumi) entregaram ao chefe do governo, Nawaf Salam, um memorando no qual pedem ao Estado libanês que prepare um dossiê jurídico, financeiro e diplomático para exigir da República Islâmica do Irã compensações pelos danos e perdas resultantes da última guerra iniciada na frente libanesa pelo Irã. A diplomacia francesa também permanece fortemente envolvida no pós-guerra no Líbano. Durante três conversas telefônicas com Joseph Aoun, Nawaf Salam e também com o presidente do Parlamento, Nabih Berri, o presidente francês Emmanuel Macron abordou a evolução das negociações americano-iranianas, a consolidação do cessar-fogo no Sul do Líbano e a preparação do período pós-Finul. Enquanto a missão da força internacional deverá terminar a partir de 2027, Paris consulta vários parceiros europeus para definir as modalidades de uma eventual presença internacional substituta. Desentendimentos Paralelamente, as discussões entre os Estados Unidos e o Irã avançaram para uma nova etapa, com as duas partes decidindo criar quatro grupos de trabalho dedicados ao levantamento das sanções, ao programa nuclear, à reconstrução econômica iraniana e ao acompanhamento dos compromissos. Os responsáveis americanos demonstram otimismo, mas sinais de tensão começam a aparecer, enquanto o presidente iraniano, Massoud Pezechkian, e seu ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, estão em Islamabad para discussões com autoridades paquistanesas, envolvidas na mediação com Washington. O presidente americano Donald Trump afirmou que o Irã havia aceitado inspeções nucleares “no mais alto nível” e que “os inspetores estarão no terreno, no momento oportuno”, algo que Teerã se apressou em negar. Por meio de seus representantes, a República Islâmica declarou não ter intenção de autorizar a Agência Internacional de Energia Atômica a inspecionar alguns locais nucleares recentemente bombardeados por Israel e pelos Estados Unidos. Em resposta, Donald Trump declarou: “Se o Irã estiver procurando problemas, que tente desenvolver uma arma nuclear. Um segundo ponto de atrito diz respeito à liberação dos ativos iranianos congelados. Teerã anunciou um acordo prevendo o desbloqueio imediato de 12 bilhões de dólares, em duas parcelas de seis bilhões. Mas Donald Trump indicou que esses recursos seriam colocados sob custódia e destinados exclusivamente à compra de produtos alimentícios e médicos americanos. Por meio de seu embaixador na ONU, Teerã rejeitou imediatamente essa interpretação, afirmando que o Irã continuaria sendo o único responsável pelo uso de seus próprios ativos. Enquanto os Estados Unidos querem garantir que esses fundos sejam utilizados para apoiar o povo iraniano, afetado por uma crise socioeconômica sem precedentes, o regime dos mulás, diante de uma crise financeira, busca recursos para garantir sua própria sobrevivência. A disputa sobre o Estreito de Ormuz Um terceiro ponto de atrito está relacionado à questão do Estreito de Ormuz. Teerã reafirmou sua vontade de manter o controle administrativo dessa rota estratégica, que registrou na terça-feira o maior volume de tráfego marítimo desde o início da guerra. Irã e Omã anunciaram o início de discussões sobre as modalidades e os custos dos futuros serviços ligados à gestão dessa passagem, enquanto Washington se opõe firmemente a um controle iraniano do estreito. Nesse contexto, o secretário de Estado americano Marco Rubio, que iniciou na terça-feira uma viagem pelo Golfo, reafirmou ao chegar a Abu Dhabi que “nenhum país está autorizado a cobrar pedágios ou tarifas sobre uma via navegável internacional”. O objetivo da viagem é “tranquilizar os países aliados do Golfo sobre o protocolo de entendimento com o Irã”. Marco Rubio deverá discutir com os líderes dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e do Bahrein o protocolo de entendimento com o Irã, a segurança do Estreito de Ormuz e as garantias de estabilidade exigidas por esses países, que haviam sido atacados pelo Irã durante sua guerra com os Estados Unidos e Israel.

SpaceX: nascimento da primeira superpotência corporativa?

Em 12 de junho de 2026, os mercados financeiros de todo o mundo testemunharam um momento histórico em tempo real. Poucas horas após sua abertura de capital, a SpaceX ultrapassou a marca simbólica de US$ 2 trilhões em valor de mercado, tornando-se a maior oferta pública inicial da história. Seu fundador, Elon Musk, por sua vez, tornava-se o primeiro indivíduo da história da humanidade a ver sua fortuna pessoal ultrapassar a marca de um trilhão de dólares. Sem surpresa, Wall Street imediatamente se dividiu em dois grupos. Para alguns, essa valorização representa a manifestação máxima dos excessos especulativos da nossa época: um mercado embriagado pela tecnologia, pela inteligência artificial e por narrativas de crescimento ilimitado. Para outros, ela reflete simplesmente o valor lógico de uma empresa que revolucionou o acesso ao espaço, domina atualmente as comunicações via satélite e poderia, no longo prazo, redefinir o futuro da humanidade além do nosso planeta. Mas talvez ambos os lados estejam fazendo a pergunta errada. A verdadeira importância da abertura de capital da SpaceX não está em saber se a empresa vale ou não US$ 2 trilhões. Ela está ciente de que os investidores talvez não estejam mais avaliando uma empresa. Eles talvez estejam avaliando uma nova forma de poder supranacional. A empresa supranacional Ao longo da história moderna, as empresas evoluíram dentro de estruturas criadas e protegidas pelos Estados. Os governos controlavam territórios, mantinham exércitos, construíam estradas, administravam a justiça e emitiam moeda. Os atores econômicos e as empresas geravam seus lucros dentro desses marcos institucionais. Elon Musk e os outros líderes da alta tecnologia fazem agora parte das delegações oficiais nas deslocações do presidente Trump, como nesta fotografia datada de 14 de maio de 2026, durante a cimeira sino-americana em Pequim. (AFP) A SpaceX hoje desafia essas fronteiras. A empresa possui e opera a infraestrutura de lançamento mais avançada do mundo. Por meio da Starlink, controla a maior rede de comunicações via satélite já implantada. Tornou-se indispensável para as forças armadas e os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, desenvolve capacidades que abrangem telecomunicações, defesa, inteligência artificial, logística e exploração espacial. Historicamente, a capacidade de projetar poder para além das fronteiras nacionais pertencia quase exclusivamente aos Estados. Mas isso foi antes da era digital. Hoje, a SpaceX projeta suas capacidades para além da própria Terra. Não se trata apenas de uma conquista tecnológica. Trata-se de uma conquista geopolítica. Cada época produz seu gigante A história às vezes vê surgir empresas que transcendem sua vocação comercial inicial para se tornarem infraestruturas estruturantes de sua época. Desde 1602, a Companhia Holandesa das Índias Orientais financiou e facilitou a primeira grande era do comércio global. A Companhia Britânica das Índias Orientais tornou-se um dos principais instrumentos da expansão imperial britânica. As ferrovias transformaram o comércio e a geografia do século XIX. A Standard Oil impulsionou a era industrial. A IBM construiu a era da informação. A Microsoft forneceu o sistema operacional da revolução digital. A Apple transformou o smartphone em um objeto central da vida moderna. Todas essas organizações se tornaram mais do que simples empresas. Tornaram-se plataformas sobre as quais sistemas econômicos inteiros foram construídos. A SpaceX parece hoje seguir uma trajetória semelhante. Mas, diferente de seus antecessores, a empresa atua simultaneamente em vários setores estratégicos: transporte, comunicações, defesa, infraestrutura de dados e espaço. Nenhuma empresa antes havia tentado integrar tantos sistemas críticos sob o mesmo teto. A nova fronteira da competição entre grandes potências A ascensão da SpaceX não pode ser separada da rivalidade geopolítica mais ampla que molda o século XXI. Nas últimas três décadas, a globalização deslocou grande parte da produção industrial para a Ásia, especialmente para a China. Pequim estabeleceu gradualmente posições dominantes nos setores manufatureiros, nos minerais estratégicos, nas baterias, nas tecnologias solares e nas cadeias de abastecimento industriais. Os Estados Unidos se tornaram cada vez menos capazes de competir segundo os critérios industriais tradicionais. No entanto, mantiveram uma vantagem decisiva: a inovação tecnológica. A concentração de capital de risco, cultura empreendedora, talentos tecnológicos e mercados financeiros no Vale do Silício permanece sem equivalente no mundo. A SpaceX talvez seja a expressão mais pura desse fenômeno. Enquanto a China domina a escala industrial, os Estados Unidos continuam liderando a criação de ecossistemas tecnológicos completamente novos. A importância da SpaceX, portanto, ultrapassa em muito o retorno de seus acionistas. A empresa representa uma tentativa de estabelecer uma posição dominante no próximo domínio estratégico antes mesmo que as regras do jogo tenham sido definidas. A corrida espacial se parece cada vez mais com a disputa pelo controle dos oceanos que moldou os séculos anteriores. A fusão entre poder corporativo e poder estatal Um dos aspectos mais marcantes da SpaceX está no desaparecimento gradual da fronteira entre autoridade pública e empresa privada. A empresa é simultaneamente uma fornecedora comercial de lançamentos espaciais, uma prestadora de serviços de defesa, uma rede global de comunicações, um ativo estratégico de inteligência e um componente essencial do planejamento militar ocidental. A importância geopolítica da Starlink ficou evidente durante o conflito na Ucrânia e desde então se expandiu para diversas regiões de grande interesse estratégico. Poucas empresas na história exerceram uma influência tão direta sobre resultados militares e políticos. É claro que a SpaceX opera em um mundo radicalmente novo. Mas a concentração de capacidades estratégicas nas mãos de uma única entidade privada levanta questões para as quais os governos apenas começaram a buscar respostas. Até onde deve se estender o poder de uma empresa? E o que acontece quando os governos se tornam dependentes dela? Uma valorização de US$ 2 trilhões pode ser justificada? O debate sobre a valorização da SpaceX está longe de terminar. Os modelos tradicionais de avaliação têm dificuldade para compreender tecnologias disruptivas. Como avaliar uma empresa cujas ambições envolvem simultaneamente as infraestruturas globais de comunicação, a produção industrial em órbita, a logística lunar, a integração da inteligência artificial, o transporte interplanetário e a exploração de recursos de asteroides? A realidade é que os modelos de atualização de fluxos de caixa se tornam cada vez menos confiáveis quando aplicados a mercados que ainda não existem. Isso não significa que a valorização seja irracional. Também não significa que ela seja justificada. Significa apenas que os investidores estão tentando precificar um futuro profundamente hipotético. Um alerta da história financeira O momento escolhido para a abertura de capital da SpaceX merece atenção especial. Ela ocorre após um dos períodos mais extraordinários de especulação tecnológica da história moderna. As avaliações ligadas à tecnologia e à inteligência artificial explodiram. As ações de tecnologia dominam os índices globais. A participação de investidores individuais atingiu níveis recordes. O uso de alavancagem está em patamares extremos. Narrativas sedutoras substituíram fundamentos econômicos e financeiros. Historicamente, ambientes desse tipo frequentemente acompanharam grandes viradas financeiras. Todas as bolhas de investimento foram alimentadas por inovações reais. Todas terminaram com dolorosos ajustes. A história ensina que tecnologias revolucionárias e excessos especulativos não são fenômenos opostos. Pelo contrário, tendem a surgir juntos. A inteligência artificial e as comunicações espaciais provavelmente transformarão o mundo. Mas investidores que compraram grandes revoluções tecnológicas no auge do entusiasmo especulativo frequentemente descobriram que até mesmo as melhores ideias podem se tornar maus investimentos quando adquiridas a preços irreais. A verdadeira mensagem da abertura de capital da SpaceX No fim, a importância da abertura de capital da SpaceX talvez tenha pouco a ver com o preço de suas ações. Ou com a fortuna pessoal de Elon Musk. Seu verdadeiro significado está no que ela revela sobre a evolução das relações entre Estados, tecnologia e capital. Durante séculos, as empresas evoluíram dentro de estruturas estabelecidas pelos governos. Hoje, os governos parecem depender cada vez mais das empresas para alcançar seus objetivos estratégicos. Enquanto a globalização entra em uma nova fase marcada pela rivalidade tecnológica, pela fragmentação das cadeias de abastecimento e pelo retorno da competição geopolítica, entidades como a SpaceX tornam-se atores independentes no cenário internacional. Essa evolução fortalecerá a ordem mundial ou contribuirá para seu enfraquecimento? Ninguém sabe. O que é certo, porém, é que estamos testemunhando o surgimento de um mundo no qual o poder econômico, o poder tecnológico e o poder geopolítico tendem a se concentrar nas mesmas mãos. O mercado continuará, sem dúvida, debatendo se a SpaceX realmente vale US$ 2 trilhões. Mas a pergunta mais inquietante talvez seja outra: quem governará o futuro quando os construtores do futuro se tornarem mais poderosos do que os governos encarregados de regulá-los?