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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Quem ganhou? Quem perdeu? Não se sabe nada, já não se sabe mais!

No dia seguinte à fatídica guerra de junho de 1967, a chamada Guerra dos Seis Dias, os países árabes tiveram de fazer um amargo balanço: o Egito havia perdido a Faixa de Gaza e o Sinai, o Reino Hachemita fora privado de Jerusalém e da Cisjordânia, enquanto a Síria se retirava humilhantemente do seu Golã. Porém, o Baath no poder em Damasco, recusando-se a assumir a responsabilidade por uma derrota histórica, deixava entender que os israelenses não teriam vencido enquanto não derrubassem o seu regime! Enquanto este resistisse, Tel Aviv não poderia reivindicar a vitória! Essa postura de negação viria a estabelecer um precedente cada vez que os árabes sofriam um Waterloo. E assim, para não fugir à regra, o secretário-geral do Hezbollah, elevando o tom apesar do recuo, anunciou na véspera das celebrações de Ashura a vitória do partido de Deus «face à conspiração tecida pela aliança dos Estados Unidos e de Israel, na qual o Estado libanês serviu de cobertura». Não lhe falta audácia àquele que se arroga os louros da vitória, no exato momento em que o Tsahal avança pelo Sul e o esvazia dos seus habitantes. Trata-se de salvar as aparências. E Donald Trump, então, como se explica que esteja tão triunfante? Para Nicolas Baverez, do Figaro , o protocolo assinado em Versalhes pelo presidente americano apresenta muitos traços em comum com o tratado de 1919, que pôs fim ao primeiro conflito mundial e consagrou «uma falsa paz e uma simples suspensão das hostilidades». A partir daí, esse colunista tirou conclusões precipitadas e proferiu o seguinte veredicto: «O protocolo de Versalhes consagra assim o desastre estratégico que encerra a guerra do Irã para os Estados Unidos, Israel, as monarquias do Golfo, a Europa e os aliados asiáticos da América». Dito isso, é melhor desconfiar do antiamericanismo primário de uma certa imprensa francesa e prestar atenção a Thomas Friedman, do New York Times , órgão de imprensa que não é nada condescendente com a atual administração americana. Eis o que Friedman nos diz: os líderes de Israel, do Irã, do Hezbollah, do Hamas e dos Estados Unidos têm apenas uma coisa em comum: nenhum deles desejaria a criação de uma comissão de inquérito para examinar sua conduta e seu desempenho durante o último conflito no Oriente Médio! Então, quem ganhou e quem perdeu? Mas não é cedo demais para fazer essa pergunta ou para respondê-la! O Eixo do mal, ou o do bem, pode não ter vencido uma batalha, mas nem por isso terá perdido a guerra. Um conflito não se julga pelas primeiras rodadas, mas pelo resultado final! E o conflito latente continuará sob uma forma ou outra, sob um pretexto ou outro, com o Líbano como campo de experimentação e de ajuste de contas! Dissociar-se do Irã a qualquer preço O nosso Líbano, mais do que nunca punching-bag dos beligerantes, está devastado desde o início de março por uma nova guerra entre Israel e o Hezbollah: sofreu danos estimados em mais de um bilhão de dólares, com 11.000 edifícios totalmente destruídos no Sul. E isso sem falar nos milhares de mortos, feridos e deslocados. No entanto, o que é ainda mais grave, e que Naïm Qassem defende abertamente, é a manutenção do vínculo entre o cessar-fogo estabelecido no Líbano e o acordo alcançado entre o Irã e os Estados Unidos. Tornar as duas frentes indissociáveis levaria a sacrificar a causa libanesa no altar dos interesses iranianos nas negociações que se realizam em Bürgenstock, na Suíça. Enquanto que, para sair desta situação, o nosso país deve permanecer um palco de operações autônomo, com condições que lhe sejam próprias. Se o fim dos combates no Sul passar a depender de um entendimento entre Teerã e Washington, a nossa soberania estará comprometida! E isso estabeleceria uma tutela persa sobre o Estado, mais perniciosa do que a tutela síria sob a dinastia Assad. Naïm Kassem não espera outra coisa para proclamar a sua vitória aos quatro ventos. No entanto, seria uma vitória do Irão, não do Líbano.

O Líbano em primeiro lugar…
Por
Samir Abdelmalak
Publicado

As grandes crises revelam uma verdade simples: nenhum país consegue resistir quando as lealdades que se sobrepõem a ele permanecem mais fortes do que o sentimento de pertencimento à nação. Os Estados que conseguem superar as adversidades são aqueles que fazem da identidade nacional o alicerce que reúne todos os seus cidadãos, independentemente de suas filiações políticas, religiosas ou culturais. A pátria não elimina a diversidade; ela oferece o marco que a protege. Essa lição tornou-se particularmente evidente nas transformações recentes do Irã, onde o discurso nacional e patriótico ganhou novo vigor ao incorporar grupos que, até pouco tempo atrás, eram considerados alheios ao círculo da lealdade política. As autoridades compreenderam que desafios existenciais exigem ampliar o sentimento de pertencimento, pois a força de um Estado se mede não apenas pela coesão do poder, mas também por sua capacidade de acolher toda a sociedade em sua diversidade. O Líbano, por sua vez, continua diante do mesmo dilema. O que deve vir em primeiro lugar: a comunidade religiosa, o partido, o eixo regional ou o Estado? A recente assinatura da declaração de intenções entre o Líbano e Israel, sob mediação americana, assim como as divisões internas que ela provocou, voltou a lembrar que o verdadeiro problema não está apenas no conteúdo de qualquer acordo, mas na ausência de um marco nacional comum onde decisões dessa importância possam ser debatidas antes de se transformarem em motivo de divisão. Não se trata de pedir que qualquer grupo abra mão de suas convicções ou de suas preocupações, tampouco de impor escolhas pela maioria ou pela força. O que se espera é que o lema “O Líbano em primeiro lugar” se torne um princípio político e moral capaz de reunir a todos. Isso exige a abertura de um diálogo nacional franco sobre as questões que dividem o país, da estratégia de defesa às relações exteriores, para que as decisões sejam tomadas no âmbito das instituições constitucionais, e não nas arenas das disputas regionais ou em mesas de negociação no exterior. A verdadeira paz começa dentro do país. A soberania começa com a unidade de decisão. A estabilidade não nasce de um acordo firmado no exterior enquanto os libaneses permanecerem divididos sobre a própria concepção de Estado. Quando o Líbano vem em primeiro lugar, as diferenças deixam de representar uma ameaça para se tornarem uma fonte de força, porque todos podem continuar diferentes sob o abrigo de uma mesma pátria, de um mesmo Estado e de um mesmo futuro.

O acordo-quadro líbano-israelense assinado em Washington: Irã fora

Após quase dois meses de negociações diretas entre o Líbano e Israel, no quarto dia da quinta rodada de conversações realizada na sede do Departamento de Estado, em Washington, sob supervisão do Secretário de Estado Marco Rubio, um «acordo-quadro» entre o Líbano e Israel foi assinado no sábado à noite (horário de Beirute). A cerimônia aconteceu na presença de Rubio e dos negociadores dos dois países, entre eles, pelo lado libanês, o ex-embaixador do Líbano em Washington, Simon Karam, e o embaixador americano em Beirute, Michel Issa. O documento foi assinado pela embaixadora do Líbano nos EUA, Nada Hamadé Moawad, e pelo embaixador de Israel, Yechiel Leiter, que proferiram cada um um breve discurso, agradecendo à Administração Trump pelos seus esforços e destacando a importância histórica do evento. Este acordo-quadro constitui o primeiro ato diplomático oficial concluído entre o Líbano e Israel desde a assinatura do acordo (fracassado) de 17 de maio de 1983. Este resultado, fruto de cinco rodadas de negociações, representa, vale ressaltar, um primeiro passo que será seguido de futuras e longas tratativas com o objetivo de obter uma retirada israelense total do sul do Líbano, em paralelo com um processo de desarmamento do Hezbollah. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou na noite de sábado que este primeiro passo abrirá caminho para outros acordos, sendo a etapa final, conforme destacou o embaixador Leiter naquela mesma noite, um futuro acordo de paz entre os dois países. Na prática, o documento prevê o estabelecimento imediato de duas «zonas-piloto», uma delas ao norte do rio Litani, onde o exército libanês deverá ser implantado para impedir qualquer presença de milícias nas áreas em questão. Uma fonte israelense indicou ao final da noite que a implantação do exército ocorrerá com apoio direto americano, o que poderá se traduzir no envio de especialistas militares dos EUA. Trata-se, portanto, de um ponto de partida que será seguido de outras etapas, conduzindo progressivamente à retirada israelense à medida que as tropas regulares locais forem sendo implantadas e o Hezbollah for sendo desarmado. Nesse sentido, por instrução do presidente Joseph Aoun, a delegação libanesa insistiu para que o acordo-quadro mencionasse explicitamente a necessidade de uma «retirada total» das forças israelenses do sul do Líbano. Quanto ao alcance deste acordo, o gabinete do primeiro-ministro israelense afirmou na noite que «o processo de desarmamento do Hezbollah, previsto no documento, será implementado tanto ao sul quanto ao norte do Litani». Mas é sobretudo o significado geopolítico deste acordo-quadro que concentra a atenção dos analistas e dos meios políticos no Líbano. O documento em questão consagra de fato o afastamento do Irã do processo de resolução da crise libanesa e do problema do sul do Líbano. Nas últimas semanas, o regime dos aiatolás não poupou esforços para impor um papel iraniano direto nas iniciativas voltadas a encontrar uma saída para o conflito libanês, em especial no Sul. Durante as recentes tratativas entre a Administração Trump e a República Islâmica, os líderes iranianos impunham como condição prévia a qualquer acordo com Washington a cessação total das operações militares israelenses no Sul. Essa insistência mal disfarçava a vontade de Teerã de garantir um papel de destaque em qualquer processo de solução política no Líbano. Esse papel iraniano reivindicado pelos Guardiões da Revolução parecia ter sido reconhecido nas discussões americano-iranianas iniciadas nesta semana na Suíça, sob supervisão do vice-presidente americano JD Vance. Essas conversações haviam resultado em um entendimento visando incluir o Irã em um processo de controle da situação no sul do Líbano. No entanto, o acordo-quadro de Washington, assinado na noite de sábado, exclui qualquer envolvimento da República Islâmica e, por consequência, do Hezbollah, limitando assim os esforços de pacificação e de restabelecimento da segurança e da soberania libanesa ao único âmbito libano-israelense, sob supervisão estrita e exclusiva dos Estados Unidos. Isso explica a reação imediata do Hezbollah no final da noite de sábado. O deputado do Hezbollah Hassan Fadlallah voltou a evocar o espectro da "guerra civil", afirmando que o acordo de Washington visa minar o processo de Islamabad, claramente orientado para a retomada de um papel regional preponderante da República Islâmica na região, e em particular no Líbano. No plano das reações políticas, o Secretário de Estado declarou no final da noite que esse acordo-quadro "lança as bases de um processo claramente definido com o objetivo de restaurar a soberania do Líbano, desarmar o Hezbollah e desmantelar a sua infraestrutura". O presidente Joseph Aoun, por sua vez, sublinhou que o objetivo almejado é "o estabelecimento de uma soberania exclusiva do Estado libanês sobre o seu território". "Não deve mais haver espaço para ocupação, dependência ou tutela", afirmou, numa alusão pouco velada às tentativas do Irã de impor sua hegemonia sobre o cenário libanês. Escalada militar, Ormuz e Ali el-Taher No plano das operações militares, cabe destacar que a conclusão do acordo-quadro de Washington foi precedida pelo anúncio do exército israelense, no período da tarde, de seu "controle total da colina de Ali el-Taher", cuja elevada importância estratégica é inegável. "Controlamos agora completamente a colina de Ali el-Taher e, com isso, o Hezbollah perdeu a sua posição fortíssima que lhe permitia ameaçar o território israelense", destacou o comando militar do Estado hebreu. A tomada da colina de Ali el-Taher reveste não apenas uma importância militar, mas constitui também para Israel uma conquista geopolítica fundamental. O subsolo dessa área foi transformado pelos Guardiões da Revolução em uma vasta rede de túneis e infraestruturas, que inclui salas de comando cuidadosamente equipadas e grandes depósitos de mísseis e munições diversas. Dezenas de milicianos do Hezbollah e, sobretudo, vários oficiais superiores e quadros dos Guardiões da Revolução estariam agora presos nesses túneis, sem nenhuma via de saída, devido à tomada de controle da região pelo exército israelense. Esse desenvolvimento levou uma fonte militar israelense a afirmar que o controle total de Ali el-Taher pelas forças do Estado hebreu "representa o fim do papel do Irã e do Hezbollah". O partido pró-iraniano, no entanto, desmentiu no final da noite a queda da referida colina nas mãos do exército israelense. No plano estritamente regional, o presidente Donald Trump acusou a República Islâmica de ter violado o acordo de cessar-fogo, precisando que os iranianos lançaram quatro drones em direção a navios no Estreito de Ormuz. Três desses drones foram abatidos na área pelas forças americanas, destacou o presidente norte-americano, que acrescentou que o quarto drone atingiu em cheio a parte superior de um grande navio comercial, causando danos consideráveis. Nesse contexto, um veículo de mídia iraniano afirmou no sábado que "um canal direto foi estabelecido entre americanos e iranianos com o intuito de evitar qualquer incidente no Estreito de Ormuz". Essa informação foi, contudo, categoricamente desmentida em seguida pelos Guardiões da Revolução Islâmica. Pouco antes da meia-noite, o exército americano anunciou que havia realizado ataques contra alvos iranianos na região do Estreito. O comando militar esclareceu que a aviação dos EUA lançou raids contra depósitos de mísseis e drones e contra centros de radar, em resposta ao ataque iraniano contra o navio mercante.

O medo de uma fotografia!
Por
Khairallah Khairallah
Publicado

O Líbano não tem outra alternativa senão prosseguir as negociações com Israel para alcançar o objetivo desejado: obter a retirada israelense e permitir o retorno dos deslocados às suas aldeias e cidades. Esse é o verdadeiro patriotismo, longe da tentação de se apegar a um passado dominado por slogans grandiloquentes, como o de “rezar em Jerusalém”, slogans que não fizeram senão conduzir ao retorno da ocupação. No fim das contas, o Líbano enfrenta uma realidade da qual não poderá escapar indefinidamente. Essa realidade não reside apenas no preço que hoje precisa pagar pelas guerras travadas pelo Irã, por intermédio do Hezbollah, contra Israel. Ela também reside no surgimento de novos parâmetros que hoje moldam a região, parâmetros aos quais o Líbano faria bem em se adaptar, em vez de permanecer cativo da tutela iraniana. Cabe ao país determinar qual preço está disposto a pagar em troca da retirada israelense, caso realmente queira evitar cair na armadilha iraniana. No centro dessa armadilha está a determinação da República Islâmica de transformar o Líbano e seu povo em moeda de troca, sem qualquer consideração pela devastação e pela destruição que assolam o sul do Líbano e outras regiões do país. O objetivo do Irã no Líbano jamais mudou. É por isso que Teerã continua se recusando a reconhecer a transformação ocorrida em toda a região. A República Islâmica e a Guarda Revolucionária continuam considerando o Líbano uma moeda de troca em qualquer negociação com os Estados Unidos. Diante da recusa do Irã em reconhecer a transformação regional, o Líbano deveria deixar de fugir da realidade, por um lado, e recusar submeter-se à lógica iraniana, por outro. Nesse contexto, não faz sentido que oficiais libaneses encarregados de negociar com os israelenses em Washington evitem aparecer em uma fotografia que reúna todas as delegações participantes das negociações. Esse gesto não muda absolutamente nada. Em compensação, transmite a imagem de uma mentalidade libanesa retrógrada, determinada a reduzir o Líbano a pouco mais do que um satélite do Irã. Agradar Teerã não serve para nada. Produz apenas um resultado: perpetuar a ocupação e consolidá-la. O Hezbollah se alimenta dessa ocupação, que o Irã procura perpetuar a serviço de ilusões às quais continua se agarrando. O Irã prefere ignorar que as guerras mais recentes foram travadas em seu próprio território e que, ao final, acabou negociando com os americanos e assinando com eles um memorando de entendimento, sem que exista qualquer indício de que isso venha a resolver as divergências pendentes entre a República Islâmica e os Estados Unidos, entre o Irã e Israel, ou mesmo entre a República Islâmica e os seis Estados membros do Conselho de Cooperação do Golfo. Nesse contexto, a primeira coisa que os oficiais libaneses deveriam compreender é que não estão negociando com fantasmas. Estão negociando com o Exército israelense, que ocupa território libanês e que não se retirará enquanto o Hezbollah mantiver suas armas. A verdadeira coragem consiste, simplesmente, em trabalhar para pôr fim à ocupação, em vez de contribuir para consolidá-la, em vez de se esconder atrás de slogans estridentes e evitar uma fotografia com a delegação negociadora. Os libaneses que negociam com Israel sob a autoridade do presidente da República e do primeiro-ministro são traidores ou representam, ao contrário, a mais elevada expressão do patriotismo em um país que caiu sob a dominação iraniana, uma dominação que trouxe Israel de volta ao sul do Líbano? Simon Karam, chefe da delegação libanesa de negociação, e a embaixadora do Líbano em Washington, Nada Hamadeh Moawad, não precisam que ninguém lhes conceda um certificado de patriotismo. Por uma razão muito simples: as negociações conduzidas pelo Líbano na capital americana são conduzidas publicamente e têm como objetivo, acima de tudo, pôr fim à ocupação. Haveria missão mais nobre do que essa? O Líbano negocia em circunstâncias excepcionalmente complexas. A dificuldade decorre menos da intransigência israelense do que da profunda transformação ocorrida dentro de Israel, onde hoje a maioria considera impossível qualquer convivência com as armas do Hezbollah. Benjamin Netanyahu não dispõe de margem para aceitar uma retirada do Líbano sem garantias libanesas claras quanto ao arsenal do Hezbollah. Em outras palavras, o Israel anterior ao Dilúvio de Al Aqsa pouco tem em comum com o Israel que surgiu após o ataque lançado pelo Hamas contra as comunidades da periferia de Gaza em 7 de outubro de 2023. Já não há espaço para acordos sob o lema das “regras de engajamento”, nem com o Hamas em Gaza, nem com o Hezbollah no sul do Líbano. Tais acordos já não são viáveis, sobretudo porque a administração americana não demonstra disposição para exercer pressão significativa sobre Israel em relação ao Líbano. A questão já não é o medo de uma fotografia. A questão reside na capacidade do Líbano de apresentar-se em Washington com uma única delegação, unida, consciente do que pretende e livre de toda escalada retórica. No fim das contas, resta apenas uma pergunta: o Líbano realmente deseja pôr fim à ocupação, em vez de contribuir para perpetuá-la? Deseja evitar cair na armadilha iraniana baseada na exploração política do sul do Líbano e de seus habitantes, especialmente da comunidade xiita? Há uma certeza: o medo de uma fotografia não anuncia nada de bom. Muito mais promissora é a existência de uma determinação libanesa de prosseguir as negociações por uma via independente, separada da via americano-iraniana. Isso refletiria uma autêntica coragem libanesa, em vez de se refugiar atrás de slogans e dos complexos crônicos que continuam moldando a atitude diante da ocupação israelense.

Crise, catástrofe e o abalo do mundo (1/7)
Por
Wissam Saadé
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Este ensaio explora as figuras da crise e da catástrofe, traçando-as desde as cosmologias antigas até a experiência vivida de um mundo abalado em seus fundamentos. Colocando em diálogo as tradições gregas, bíblicas e indianas com a filosofia de Jan Patočka, o texto examina como as civilizações conceberam a desordem, o colapso, a irreversibilidade e até mesmo a possibilidade da ação quando o próprio sentido começa a vacilar. Publicado aqui como uma série de sete ensaios, este estudo segue uma linha de investigação exigente, porém essencial: a catástrofe é uma ruptura súbita, uma lenta desintegração do mundo ou a verdade mais profunda de nossa condição histórica? O que segue é o capítulo introdutório. Crise e catástrofe: duas relações distintas com o tempo Conceitualmente, a crise se desenrola em uma zona de transição ontológica. Ela habita o intervalo precário em que o sentido começa a vacilar, suspensa entre o exercício da crítica e a iminência da catástrofe. Embora crise e crítica compartilhem a mesma raiz etimológica no verbo grego krinein , o ato de separar, discernir e decidir, elas acabam cumprindo funções distintas dentro da lógica do julgamento. A crise marca o momento em que o equilíbrio de um sistema, ou de uma existência, torna-se insustentável. A crítica, por outro lado, estabelece-se como uma atividade reflexiva que busca transformar esse desequilíbrio em um horizonte de verdade ou em uma resolução inteligível. [1] A tragédia de toda crítica reside em seu encontro inevitável com as crises. Ela só desperta onde algo já foi rompido. Inversamente, toda crise carrega em si o horizonte espectral de sua própria descida à catástrofe. A catástrofe pode, portanto, ser compreendida como uma crise radicalmente crítica: o ponto em que a capacidade de discernimento é superada pela irreversibilidade do desastre. Enquanto a catástrofe permanece iminente, krinein ainda permanece vigilante. É a própria vigilância: uma consciência em estado de alerta, esforçando-se para detectar a fratura antes que ela se transforme em abismo. É o momento suspenso da decisão, quando a distinção entre salvação e perda permanece genuinamente possível. Uma vez que a irreversibilidade chega, porém, krinein muda sua própria natureza. Já não distingue entre possibilidades; sela o destino. Já não determina o resultado; apenas reconhece o fechamento do sentido. Entre esses dois abismos, esse viajante etimológico nos lembra que o pensamento se assemelha a um equilibrista sobre uma corda bamba colocada sobre o fio de uma lâmina, tentando preservar um espaço para o discernimento justamente onde tudo parece caminhar rumo à inevitabilidade. A catástrofe suspende a continuidade da existência ordinária. Ela interrompe as sequências habituais de sentido, causalidade e inteligibilidade. Produz uma profunda desarticulação, isto é, uma perda de proporcionalidade entre as estruturas da experiência e aquilo que efetivamente acontece. O ordinário já não se mantém unido como um mundo; seu tecido de continuidade começa a se desfazer. A crise, ao contrário, não suspende o ordinário. Ela o mantém em suspensão. Em vez de interromper a continuidade, ela a torna indecidível, instável e aberta. A crise constitui um regime de expectativa interno à própria existência ordinária. As estruturas do mundo ainda perduram, mas sem resolução, como se a realidade mantivesse seu equilíbrio enquanto permanece incapaz de alcançar qualquer resultado imediato. A crise é tensão prolongada, não ruptura. A catástrofe inaugura um depois irreversível. A crise, por outro lado, adia esse depois, suspendendo-o sem jamais permitir que ele se constitua plenamente. A catástrofe desarticula o próprio calendário. Ela devasta o tempo enquanto meio fundamental da experiência, transformando-o em uma temporalidade furiosa e sem limites. Ela investe o demoníaco, não mais compreendido apenas como negatividade, mas como uma forma de não ser que assombra o mundo. A catástrofe, portanto, faz mais do que perturbar a periodização da história, seja ela narrativa ou científica. Ela desestabiliza a própria periodização do ser, alcançando a articulação entre tempo e existência. Diferentes regimes cosmológicos geram diferentes regimes de crise, catástrofe e ação política. Os regimes cosmológicos não são apenas cenários metafísicos; eles estruturam silenciosamente as próprias formas pelas quais crise, catástrofe e ação política se tornam inteligíveis. Dentro de um cosmos estável governado por regularidades inteligíveis e hierarquias fixas, como em certas cosmologias antigas ou teopolíticas, a crise aparece principalmente como um desequilíbrio interno: uma perturbação que afeta uma ordem presumivelmente capaz de restauração e, portanto, um convite à reparação, e não à refundação. Em contraste, dentro do universo desencantado da modernidade, no qual a natureza é governada por leis impessoais e a história permanece radicalmente aberta, a catástrofe assume cada vez mais a forma de uma ruptura sistêmica: o colapso do sentido, a desintegração dos quadros institucionais e o surgimento de contingências irreversíveis. A ação política é, consequentemente, transformada na gestão do risco, na antecipação permanente de cenários de fracasso e até mesmo em uma forma de governança baseada na emergência. Dentro das cosmologias escatológicas ou apocalípticas, por fim, a crise torna-se estrutural e saturada de significado. Ela deixa de ser um acidente e torna-se um sinal, enquanto a catástrofe já não é apenas destruição, mas a revelação de um fim último. A ação política pode, portanto, oscilar entre o afastamento do mundo, a aceleração do conflito e a busca pela salvação. A forma como o mundo é concebido, seja como uma ordem cíclica, um mecanismo impessoal ou um teatro escatológico, molda profundamente a profundidade ontológica, a temporalidade e as respostas políticas associadas à crise. No entanto, esses regimes cosmológicos não simplesmente se sucedem nem se excluem de maneira estrita. Eles se sobrepõem, se misturam e coexistem como camadas históricas, dando origem a configurações híbridas nas quais a crise oscila entre restauração, gestão e revelação. Ela pode até se tornar a crise nascida do medo de perder o próprio horizonte cosmológico e de se render ao horizonte de outro. [1] Sobre a genealogia moderna da relação entre crise e crítica, ver Reinhart Koselleck, Critique and Crisis: Enlightenment and the Pathogenesis of Modern Society (original em alemão: Kritik und Krise. Eine Studie zur Pathogenese der bürgerlichen Welt , 1959; tradução inglesa, MIT Press, 1988). Um dos principais historiadores dos conceitos ( Begriffsgeschichte ), Koselleck argumenta que a modernidade europeia transformou gradualmente a crítica em uma força histórica autônoma. Em sua interpretação, o pensamento crítico surgido do Iluminismo deixou de apenas examinar a realidade; passou a constituir-se como um tribunal moral e racional que julgava o Estado, a religião e a ordem política existente. No entanto, essa emancipação da crítica gerou simultaneamente uma crise permanente da legitimidade política. A modernidade é, assim, caracterizada por uma tensão estrutural na qual a crítica produz continuamente as próprias crises que busca resolver, abrindo um horizonte histórico marcado pela instabilidade e pela expectativa de uma refundação do sentido. Enquanto Koselleck entende a crítica como uma dinâmica constitutiva da modernidade europeia, isto é, como uma força interna à história política do Iluminismo e do Estado moderno, Dipesh Chakrabarty, o historiador indiano pós-colonial cuja obra está enraizada tanto na tradição marxista quanto nos Estudos Subalternos, revela seus limites geohistóricos. A partir de sua perspectiva, a crise moderna não é o horizonte universal da política, mas uma experiência historicamente situada que a Europa tende a universalizar ao elevá-la à condição de norma global de inteligibilidade histórica. Em Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference ( Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference , Princeton University Press, 2000), Chakrabarty argumenta que as categorias fundamentais da historiografia moderna, incluindo progresso, secularização, crise e crítica, não são formas universais de inteligibilidade histórica, mas construções conceituais surgidas da própria experiência intelectual e política da Europa. A posição de Chakrabarty não equivale a uma universalização de uma “atitude não crítica”. Pelo contrário, ela reconfigura as próprias condições sob as quais a crítica se torna possível. Ao mesmo tempo, abre um verdadeiro problema filosófico: como conciliar a pluralização das racionalidades com a preservação de um horizonte compartilhado de julgamento?

EUA-Irã: os ultimatos anteriores de Trump (2/2)

É necessário situar o roteiro americano-iraniano de 60 dias no contexto dos ciclos de ultimatos que marcam o ritmo da estratégia do presidente Donald Trump para o Médio Oriente, uma método assente numa alternância entre a ameaça de destruição total e a aplicação de uma diplomacia puramente transacional. Em abril de 2025, um primeiro ultimato unilateral de sessenta dias, que intimava Teerão a desmantelar o seu programa nuclear, resultou numa recusa categórica do Guia Supremo Ali Khamenei, desencadeando os maciços bombardeamentos de junho de 2025 pelos B-2 americanos contra os sítios nucleares iranianos. Um ano depois, em abril de 2026, face ao bloqueio asfixiante do estreito de Ormuz, a Casa Branca voltou à carga brandeando a ameaça de devastar as infraestruturas vitais iranianas «em menos de quatro horas», uma ameaça concreta que obrigou Teerão a aceitar in extremis o princípio de uma trégua, abrindo caminho ao protocolo assinado em Versalhes pelo presidente Trump. A segurança marítima nas negociações No plano operacional, os Estados Unidos e o Irão estabeleceram em Bürgenstock uma «linha de comunicação direta» destinada a evitar qualquer incidente marítimo no estreito de Ormuz, principal rota de escoamento do petróleo iraniano e árabe. Em paralelo, o Tesouro americano concedeu uma isenção de sanções até 21 de agosto de 2026, abrangendo o petróleo e os produtos petroquímicos iranianos. Estas medidas são significativas tanto para Washington como para Teerão: respondem à exigência iraniana de um alívio económico imediato e reduzem, a curto prazo, o risco de uma escalada dos preços do petróleo. Evidenciam igualmente a lógica de troca que subjaz às negociações — segurança em troca de acesso aos mercados — e a fragilidade de soluções assentes em isenções temporárias em vez de garantias duradouras. O Líbano e a desconflitualização: um mecanismo sem Israel é viável? A criação de uma «célula de desconflitualização» destinada a impor o cessar-fogo no Líbano é um mecanismo que reúne os Estados Unidos, o Irão, o Qatar, o Líbano e o Paquistão, mas exclui Israel — uma situação inédita em quatro décadas, ao contrário do «mecanismo» atual e das comissões estabelecidas pelos acordos de julho de 1993 e de abril de 1996. A ausência de Telavive é politicamente explosiva. Para Israel, que considera o Hezbollah uma ameaça existencial, ser mantido à margem desta célula que governará o seu próprio front é inaceitável, e Benjamin Netanyahu fê-lo saber em várias ocasiões, pois tal limita as suas margens de manobra militares e operacionais no sul do Líbano. Para Washington, esta configuração cria um dilema: estabilizar o Líbano sem alienar Israel, ou arriscar perder o apoio de um aliado estratégico face ao Irão ao impor-lhe restrições que considera perigosas. A longo prazo, a eficácia desta célula de desconflitualização está em causa, e o cessar-fogo no Líbano continua frágil. O dossiê nuclear: intenções declaradas, mas sem compromissos vinculativos No dossiê nuclear, os progressos são duvidosos. JD Vance falou no regresso dos inspetores da AIEA, suscitando algum otimismo, mas o Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros esclareceu que Teerão não assinou «nenhum novo compromisso nuclear» durante a sessão. Por outras palavras, a porta está aberta ao controlo e à transparência, mas sem qualquer compromisso por parte do Irão de entregar o urânio enriquecido a 60% à China ou à Rússia, de o diluir, ou de suspender as atividades de enriquecimento. Na fase atual, o programa nuclear iraniano encontra-se certamente degradado e não está operacional na sequência dos bombardeamentos americanos e israelenses. Em contrapartida à supervisão da AIEA, o Irã aguarda garantias económicas e de segurança tangíveis e duradouras, o que não é minimamente visível no momento. Sem um calendário vinculativo para o desmantelamento das capacidades nucleares iranianas, o cerne do problema permanece intacto. Esta ambiguidade torna difícil alcançar um acordo duradouro sem cláusulas técnicas robustas, verificáveis e acompanhadas de sanções automáticas em caso de violação. Os ganhos económicos: oxigénio pontual além dos circuitos que contornam as sanções O anúncio oficial de Teerão sobre a conclusão positiva das negociações técnicas, selado por um acordo da Casa Branca para libertar 12 mil milhões de dólares iranianos congelados, ilustra uma lógica transacional. Este desbloqueio financeiro de grande envergadura desencadeou, no entanto, de imediato um duelo à distância, revelador da fragilidade do processo: enquanto Donald Trump se apressava a afirmar nas suas redes sociais que esses fundos seriam obrigatoriamente destinados à compra de produtos agrícolas americanos, o governo iraniano rejeitava categoricamente essa imposição. Se a administração americana procura apresentar um contrato comercial vantajoso como uma concessão geopolítica, o Irã pretende consagrar este triunfo financeiro como uma restituição soberana e sem contrapartida comercial unilateral. Por outro lado, a dependência do Irã do mercado chinês continua a ser um fator determinante, mesmo que Pequim não esteja diretamente no centro das negociações. A China mantém-se, portanto, um parceiro energético essencial para Teerão, e os seus interesses asseguram em parte a moderação iraniana, nomeadamente a manutenção da abertura do Estreito de Ormuz. Por fim, a sombra dos circuitos de exportação que contornam as sanções ainda em vigor complica a capacidade da diplomacia ocidental de exercer uma pressão duradoura. Síntese dos riscos e cenários De forma resumida, por detrás do otimismo de fachada exibido na Suíça, a trégua de sessenta dias é constantemente ameaçada por quatro detonadores geopolíticos. O primeiro é o desfasamento fundamental entre as expectativas de Washington, que exige a renúncia nuclear de Teerão, e a posição iraniana, que nela vê apenas uma trégua económica sem contrapartida estratégica. O segundo reside na exclusão de Israel da célula de desconflitualização libanesa, o que deixa o governo Netanyahu livre para sabotar militarmente a trégua no Líbano e neutralizar o Hezbollah, forçando o Irã a retaliar. O terceiro é a relançamento em surdina, pelo Hezbollah, da reorganização das suas fileiras e do reposicionamento camuflado de um dispositivo de combate face a Israel — algo que já havia conseguido fazer com mestria após a retirada israelense de 2000, depois da resolução 1701 de 2006, e novamente após o cessar-fogo de 27 de novembro de 2024. Se o Hezbollah reincidir nessas atividades, dará de novo a Israel um pretexto para retomar os combates e ultrapassar as diretrizes de Washington. Por fim, o quarto detonador de carácter geopolítico que ameaça a trégua é a imprevisibilidade intrínseca de Donald Trump, sujeito a pressões internas tanto da sua direita como da sua esquerda, o que poderia levá-lo a romper unilateralmente o processo de Bürgenstock. Se um desses travões ceder, o acionamento do efeito dominó será imediato: o restabelecimento instantâneo do bloqueio americano provocará, como resposta simétrica, um novo encerramento iraniano do Estreito de Ormuz, mergulhando o Golfo e o Médio Oriente numa nova crise. Conclusão: apaziguamento condicional, não uma paz garantida Os próximos 60 dias determinarão se o roteiro é o prelúdio de uma pacificação gradual, ou antes o quadro de uma estratégia dilatória que simplesmente adiará o confronto. Por ora, assistimos a um alívio frágil que talvez permita construir pacientemente garantias verificáveis e chegar a um acordo formal no final do verão de 2026, não sem o risco potencial de um retorno à guerra no Líbano e no Golfo. Uma estabilização bem-sucedida transformaria assim uma guerra quente numa guerra fria regional altamente militarizada, suspensa a vários fatores de rutura a médio e longo prazo. Leia também sobre o mesmo tema: EUA-Irão: um roteiro sob pressão do tempo (1/2)