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Analisar

Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Entendimento e reconciliação
Por
Hisham Dibsi
Publicado

President Trump reacted with unexpected speed after the Revolutionary Guards once again announced the closure of the Strait of Hormuz. This time, he turned his anger against his ally Netanyahu, imposing a ceasefire in South Lebanon in order to safeguard the progress of the negotiations underway in their Swiss phase. Yet this new day of closure did not prevent fifty five supertankers from reaching global markets under American protection, according to data from the Central Command, as well as statements made by President Trump and Vice President J. D. Vance. At this point, there is little value in questioning the sincerity of either side, nor is there any need to search for the truth behind every detail, since the “Memorandum of Understanding” allows both parties to present it in whatever way best serves their respective needs. Still, Tehran’s mere announcement of another closure of the strait, even without carrying it out, has become a political event in itself, one significant enough to prompt the American administration into action, even at the expense of the Israeli army, the crown jewel of the American military industry in the Middle East. President Trump may have somewhat exaggerated when he announced the destruction of Iran’s air force and navy, without realizing that he had failed to destroy Tehran’s most powerful weapon, its negotiating capability, and that he had no desire to acknowledge this, precisely at a moment when the Iranians were demonstrating negotiating skills wholly disproportionate to their current situation and far exceeding existing power balances. Mojtaba The new Supreme Leader continues to speak from behind a veil, while his audience still waits to see him appear. His inner circle, meanwhile, understands the state of the Republic better than he does after the extensive destruction inflicted upon its infrastructure, military capabilities and arsenals. They also understand their pressing need for respite, money and time, precisely what the “Memorandum of Understanding” has provided them with, turning into a gateway toward reconciliation with the “Great Satan”. Yet they also know that such reconciliation may trigger internal upheavals, especially since Washington’s policies have failed to convince them, as has Israel, which opposes the “Memorandum of Understanding” despite the fact that it remains their only guarantee. If the Supreme Leader approves it, the regime loses part of its room for manoeuvre; if he rejects it, the losses will only grow. In either case, the choice is a bitter one. This explains why he reduced his instructions to his followers and his people to two words expressing acceptance without conviction. Yesterday, at the Swiss negotiating venue, after Pakistan’s success made possible by decisive Qatari involvement, the first direct meeting between the two delegations produced a positive message. Only statements from hardliners in Tehran, compounded by President Trump’s hasty reactions, disrupted this momentum, reminding everyone how fragile the political process remains and how vulnerable it is to another collapse. Indeed, Iranian political thinking remains captive to the theory of “immaculate conception”, especially when the marriage in question involves an administration led by a real estate developer whose language is both abrasive and provocative. The Limits of the Game Whatever objections critics may raise regarding the text of the “Memorandum of Understanding”, many of them legitimate, its essential function lies not in its visible content but in the secret annexes accompanying it, whether written or verbal. Their true purpose is to bring Iran into the black room of direct bilateral negotiations, face to face with the Americans. Once the mediators have succeeded in establishing this framework for direct bilateral negotiations, no one will remember the shortcomings and loopholes of the “Memorandum of Understanding”, because once the Iranian American negotiating process begins and takes root, it will become nothing more than a direct translation of actual power balances rather than tactical manoeuvres or political cunning. In that context, the theory of “immaculate conception” will no longer have any place. Iran’s leaders understand this perfectly well. Their overriding concern is to preserve the regime and secure guarantees against future attacks that could once again threaten their survival and authority. This does not mean that Iran's leadership will not do everything in its power to secure an agreement that serves its interests. Rather, it means that the rules of the game are evolving, moving from confrontation, hostility and rivalry toward a phase of temporary understandings that may ultimately lead to reconciliation. It is in this light that Egypt’s reconciliation with the United States through the Camp David Accords with Israel should be revisited, alongside the Palestinian experience embodied by the Oslo Accords, in order to grasp the considerable gap between the outcomes of the Egyptian and Palestinian cases whenever the logic of real rather than imaginary power balances prevails. Today, Iran faces its own experience, carrying both the legacy of the Islamic Republic and, behind it, the enduring legacy of the imperial Persian state, not to mention the inheritance of uninterrupted wars since Imam Khomeini came to power, whether wars against the peoples of Iran or against Arab and Muslim peoples, from Afghanistan to Yemen. The latest war with Israel and the United States may be among the shortest, yet it has become the most dangerous for both the regime and the state. Because of this, the game has reached its breaking point. Little remains of the Iranian state today except a people struggling with hunger and disease, an army that still possesses missiles, and leaders who show little concern for either their own population or their neighbours. A New Dynamic As the Swiss phase begins, the two month countdown established by the “Memorandum of Understanding” has started. The real issues at stake go far beyond the officially declared files, whether nuclear matters, sanctions, frozen assets or similar questions. They concern, above all, the foundations of Iranian American bilateral relations, first on the security level, then on the economic level, ultimately leading toward political reconciliation. These three dimensions, security, economics and politics, encompass all disputed issues and require a new negotiating dynamic entirely different from the one that produced the “Memorandum of Understanding”. They also follow a hierarchy designed to produce a sustainable political reconciliation, beginning with the development of deep security policies capable of reassuring the Iranian regime while satisfying the United States, which still views Iran as a major security vulnerability within the area of operations of the US Central Command in the broader Middle East. This also extends to the regional security of the Gulf and Arab countries, as well as that of Central Asian states within the broader Eurasian axis. This also requires settling the question of Iran’s economy, the region’s second largest economy after Saudi Arabia. It is worth recalling that, according to President Trump’s own statements, his decision to withdraw from the nuclear agreement was motivated first by economic considerations and only then by security concerns. Time remains relatively short to address these fundamental issues if negotiations continue to swing back and forth like a pendulum. Yet it remains sufficient if the Trump administration is willing to learn a few negotiating lessons from its fiercest adversary, which, in politics, is hardly a sign of weakness. American responsibility here appears far greater than Iranian responsibility. Otherwise, the United States would have to acknowledge that its status has declined to that of a regional power rather than the great power it claims and acts to be. It is also worth highlighting the role of the four mediating countries, Pakistan, Saudi Arabia, Egypt and Turkey, whose actions reflect the political weight generated by both Arab and Islamic summits and their ability to exert meaningful influence from Beijing to Moscow, across Western Europe and into Latin America. That influence has even reached the United States, as President Trump himself openly acknowledged. It is therefore impossible to disregard objective realities that have already demonstrated their effectiveness. In the period ahead, these mediating states will be capable of becoming influential players in regional and global equations, and they are openly saying so. The clear and convergent statements issued by the foreign ministers of the four countries during their latest meeting in Cairo cannot be reduced to a mere diplomatic exercise or an abstract belief in mediation. Islamabad, Riyadh, Ankara and Cairo do not act lightly after decades of political, security and diplomatic engagement across multiple fronts and issues. Today, the future of the region itself is at stake, and these states lie both at its core and at the heart of the struggle surrounding it. Brazil as a Model Brazil is one of the emerging powers on the global stage through both the G20 and the BRICS. With its vast population and its multi trillion dollar economy, it possesses the means, as a major Latin American power, to fulfil the aspirations of its diverse population and become a pole in an increasingly multipolar world. This ambition is reflected in the brief statement issued by its Ministry of Foreign Affairs on 19 June, welcoming the signing of the “Memorandum of Understanding” as a means of ending the conflict, urging all parties to fully comply with its provisions, and explicitly calling for a complete cessation of hostilities on all fronts, including Lebanon, as well as the continuation of negotiations aimed at reaching a comprehensive peace agreement . Brazil also reaffirmed its commitment to lasting stability and security in the Middle East, particularly in the State of Palestine, both in Gaza and the West Bank . Through these clear, simple and carefully chosen words, Brazil expressed a position that no Lebanese or Palestinian citizen could reject. A genuinely state centred approach to the “Memorandum of Understanding” thus emerged, at a time when local media were saturated with contradictory interpretations from across the political spectrum, interpretations that went far beyond the memorandum’s temporary function. These readings chiefly revealed a form of political agitation among those whose ambitions, desires, illusions or despair in the face of a complex reality do not align with the contents of the memorandum, even as an opportunity now presents itself for Lebanon’s legitimate institutions to demonstrate their capabilities and for the Palestinian people to uphold their political rights and their independent state. Brazil supported South Africa before the International Court of Justice against Israel and provided financial assistance to UNRWA, while the Iran of the Revolutionary Guards has never recognized the State of Palestine and has offered our peoples nothing but death and destruction.

De Lucerna a Washington, o Líbano defende a sua soberania

As negociações entre as delegações iraniana e americana, na sequência do acordo-quadro assinado entre as duas partes na semana passada, prosseguiram na segunda-feira em Lucerna, na Suíça. No entanto, este processo diplomático ainda está no início, e muitas zonas de sombra persistem. As interrogações multiplicam-se: caminhamos para uma era em que o Irão recuperará a sua influência na região, ou antes para um período de equilíbrios regionais? Um lugar onde estas questões se colocam com grande intensidade é, certamente, o Líbano. Na noite de segunda-feira, um responsável americano anunciou um acordo entre os Estados Unidos, o Líbano e Israel para estabelecer um mecanismo de monitorização do cessar-fogo no sul do país, sob a supervisão do Centcom, o Comando Central das Forças Americanas. O responsável acrescentou que o acordo foi precedido por uma chamada do Secretário de Estado Marco Rubio com o presidente libanês Joseph Aoun e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A questão libanesa esteve no centro das negociações na Suíça, e o Irão procurou atribuir-se o mérito do cessar-fogo no sul, ao mesmo tempo que as conversações diretas entre o Líbano e Israel continuam previstas para esta terça-feira em Washington. Devido às conversações conduzidas por JD Vance com os iranianos na Suíça sobre o sul do Líbano — sem qualquer concertação prévia com as autoridades libanesas, o que constitui uma grave gafe diplomática —, o presidente Joseph Aoun não deixou de pôr os pontos nos is, garantindo que o Líbano acolhe favoravelmente «qualquer ajuda para pôr fim à guerra», mas sublinhando que sabe bem distinguir entre ajuda e ingerência, numa clara referência ao Irão. «Somos um país soberano e ninguém negocia em nosso nome», reafirmou sem rodeios. A embaixadora do Líbano em Washington, Nada Hamadé Moawad, tomou a iniciativa de contactar altos responsáveis americanos para lhes transmitir esta posição, sublinhando que qualquer negociação relativa ao Líbano deve ser feita em concertação direta com o presidente Aoun. Na sequência desta posição firme adotada por Baabda, JD Vance, o negociador americano Jared Kushner e o primeiro-ministro do Qatar, Mohammad ben Abdel Rahman Al-Thani, telefonaram ao presidente da República para discutir com ele as medidas abordadas na Suíça com vista a consolidar o cessar-fogo no Líbano, que consistiriam em «células de desescalada». Estas células seriam supervisionadas por comités que incluiriam libaneses, americanos e iranianos — uma medida que faz pendant com as «zonas piloto» mencionadas nas negociações diretas com Israel em Washington. Se o presidente libanês foi tão categórico quanto às negociações conduzidas sem concertação com o poder, é não apenas em reação às negociações em si, mas também devido à atitude de todos os pólos do campo iraniano. O exemplo mais flagrante a este respeito são as faixas erguidas na estrada do aeroporto mostrando o Guia Supremo iraniano assassinado, Ali Khamenei, e o seu filho, o presumível atual Guia (ainda invisível) Mojtaba Khamenei, com um enorme «Obrigado Irão, o fiel»! Para além das declarações recorrentes de quadros do Hezbollah criticando as negociações diretas com Israel e elogiando a posição do regime dos mulás, o chefe da força Al-Qods, dependente do Corpo dos Guardiões da Revolução, Ismail Qaani, proferiu na segunda-feira uma ameaça muito significativa contra Israel. «Se não se retirarem voluntariamente (do sul do Líbano), sofrerão uma derrota comparável à epopeia de 2000», disse ele. Com este gesto, o Irão apropriou-se diretamente daquilo que antes era motivo de orgulho do Hezbollah: a retirada israelense do sul do Líbano a 25 de maio de 2000. Nuclear, trigo e milho em Lucerna… Em Lucerna, apesar das tensões de domingo à noite, as negociações prosseguiram durante toda a madrugada de domingo para segunda-feira. As notícias, na manhã de segunda-feira, pareciam positivas dos dois lados, mesmo que as divergências persistissem. As delegações oficiais partiram, deixando delegações «técnicas» para dar continuidade às discussões. No dia anterior, as declarações «contundentes» do presidente americano Donald Trump, que ameaçava atacar o Irão caso este «não parasse de apoiar os seus proxies» (nomeadamente o Hezbollah no Líbano), tinham provocado a saída prematura dos iranianos da sala de negociações, deixando antever possíveis bloqueios. No entanto, na manhã de segunda-feira, os governos paquistanês e catari anunciaram que foram alcançados «progressos encorajadores». As negociações resultaram assim num «roteiro para discussões ao longo de 60 dias», abrindo caminho para negociações técnicas imediatas. Por sua vez, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, declarou com orgulho que as conversações permitiram «progressos significativos», congratulando-se, sobretudo, com o levantamento das restrições às exportações de petróleo e de produtos petroquímicos. Confirmou ainda o levantamento do bloqueio aos portos iranianos e o desbloqueio de alguns ativos iranianos congelados. No dossiê nuclear, o Irão reconheceu ter havido «discussões muito breves» durante as negociações na Suíça. O porta-voz do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros garantiu que nenhum detalhe foi ainda abordado. Por outro lado, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian está esperado no Paquistão amanhã, terça-feira, para dar continuidade às discussões sobre as negociações. Por seu lado, o vice-presidente americano JD Vance, chefe da delegação dos EUA, foi particularmente prolífico em declarações. Considerou que as negociações resultaram numa base muito sólida, destacando o facto de os iranianos terem aceite o regresso da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) para realizar inspeções no seu território (algo que os iranianos posteriormente negaram categoricamente). Mostrou-se confiante de que o programa nuclear iraniano é definitivamente coisa do passado, em contraste com a ambiguidade das declarações iranianas a esse respeito. Mais tarde, JD Vance explicou as cláusulas financeiras do «acordo» numa conferência de imprensa, tentando justificá-las perante o público americano ao sublinhar que «os fundos iranianos descongelados servirão os interesses dos agricultores americanos», numa alusão a possíveis negócios futuros, nomeadamente no que diz respeito ao trigo e ao milho. Fez questão de referir que os Estados Unidos garantiriam que o Irão «não financiaria o terrorismo» com os fundos que venha a receber — uma forma de responder às múltiplas críticas que já visam estas negociações. A colina de Ali el-Taher No front israelita, a desescalada parece ser a tónica do momento. O exército israelita terá enviado aos seus recrutas um aviso de desmobilização devido ao cessar-fogo, segundo o canal 12 israelita. No terreno, o sul registou um terceiro dia consecutivo de calma, com algumas violações menores. O cessar-fogo proporcionou um regresso cauteloso às aldeias da linha da frente, mas também a descoberta de corpos de vítimas que ainda se encontravam sob os escombros. Uma outra notícia mediática de interesse, divulgada pelo canal 12, fornece, além disso, uma explicação para a intensidade dos combates em torno da colina estratégica de Ali el-Taher, nas alturas de Nabatiyeh, no sul. Segundo esta notícia, esta zona é uma base essencial do Hezbollah, um labirinto de túneis gerido nomeadamente por generais dos Guardas da Revolução Iraniana. E é a proximidade das tropas israelitas que, segundo o relatório, explica o súbito interesse iraniano num cessar-fogo no sul do Líbano. Israel, por sua vez, certamente não pretende deixar esse terreno de grande importância para o Hezbollah e já busca obter, por meio das negociações, que Ali el-Taher esteja entre as «zonas piloto» colocadas sob o controle do exército libanês… com o objetivo de expulsar o Hezbollah de lá. Seria esse o possível estopim de novos combates, caso essas tentativas fracassem? Em todo caso, tanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu quanto o ministro da Defesa Israel Katz declararam na segunda-feira que «o exército israelense mantém liberdade de movimentação no Líbano».

Retrospectiva sobre o projeto de avião de combate franco-alemão

O artigo de Roger Barake, “Aviso de tempestade no céu europeu” , Levant Time, 13 de junho de 2026, apresenta as razões apontadas para o abandono do projeto SCAF (Sistema Aéreo de Combate do Futuro). Este artigo oferece uma perspectiva particular ao apresentar as relações franco-alemãs tal como são percebidas por muitos franceses. Ele traz uma visão específica sobre esse abandono lamentável. A seguir, alguns trechos esclarecedores da introdução do artigo mencionado: “O fracasso do programa imediatamente reacendeu as críticas dirigidas à Dassault Aviation e ao seu presidente e diretor-executivo, Éric Trappier. Em certos círculos políticos alemães e europeus, o dirigente do fabricante francês é apresentado como um dos principais responsáveis pelo bloqueio. Seus críticos o acusam de ter defendido uma visão excessivamente nacional do programa, incompatível com a lógica da cooperação europeia. Há vários anos, Éric Trappier repete que o problema não é europeu, mas industrial. Segundo ele, uma aeronave de combate não pode ser concebida recorrendo a compromissos permanentes entre várias empresas e vários Estados. Seu raciocínio é simples: a responsabilidade deve ser inseparável da autoridade. Se um fabricante é encarregado de desenvolver a aeronave principal, ele também deve dispor do correspondente poder de decisão. Duas concepções da Europa da defesa se enfrentam desde o início do programa. A primeira, frequentemente associada a Berlim e às instituições europeias, privilegia a divisão de competências, a integração industrial e a partilha de tecnologias. A França exige uma aeronave capaz de operar a partir de porta-aviões e de participar do componente aéreo de sua dissuasão nuclear. A Alemanha não compartilha nenhuma dessas restrições. Quanto à Espanha, busca sobretudo preservar seu lugar na indústria aeronáutica europeia.” Esses trechos apresentam perfeitamente duas concepções opostas: a Dassault, que não reivindica a direção e o controle do projeto de todo o programa, mas apenas de uma parte dele, tem a preocupação de garantir uma coerência conceitual e industrial que assegure a produção de uma aeronave de alto desempenho, cuja realização e fabricação em benefício das Forças Aéreas, e também da Marinha no caso da França, seja mais rápida e certamente a um custo mais moderado do que seria o de um modelo concebido com múltiplas restrições e modificações, algumas das quais seriam rejeitadas por um ou outro dos parceiros sob o argumento de que não são necessidades próprias daquele país (como as particularidades ligadas ao transporte de uma arma nuclear ou à operação em porta-aviões, que dizem respeito apenas à França, por exemplo, algo que nenhum dos envolvidos ignorava desde o início). A leitura desses únicos trechos apresenta o ponto máximo da incompreensão entre os dois pontos de vista. Berlim, e a Europa por trás dela, privilegia a divisão de competências, a integração industrial e a partilha de tecnologias. A Dassault privilegia a eficiência e sua própria competência baseada na experiência, no que diz respeito à aeronave propriamente dita e somente a ela, preservando seu conhecimento técnico. É necessário, portanto, fazer alguns resgates históricos para explicar o que está por trás da divergência entre os pontos de vista francês e alemão. Na realidade, trata-se de um desacordo. Na notável biografia de Talleyrand, Jean Orieux expõe precisamente aquilo que ainda hoje prejudica uma boa relação e uma perfeita compreensão entre os dois países. No Congresso de Viena, em 1815, após a queda do imperador Napoleão, “ a Prússia reivindicava constantemente a Saxônia, a Renânia, Luxemburgo e a Bélgica; a Inglaterra apoiou suas reivindicações em um ponto: a Renânia. Ela o fez sobretudo para colocar uma máquina de guerra na fronteira francesa (...) Napoleão havia sido derrotado em nome da segurança europeia. Entregava-se a Renânia à Prússia e a segurança europeia era arruinada por um século e meio (...) A França encontrava-se assim sob a vigilância ameaçadora de um exército permanentemente instalado a 220 km de Paris, em uma fronteira aberta. Colocava-se à nossa porta uma nação embriagada de ódio desde Iena. A Inglaterra (...) instalava gratuitamente um terrível gendarme no Reno. Conhecemos a sequência: Bismarck, Sadowa, Sedan, a anexação da Alsácia-Lorena, a guerra de 1914, Hitler. A Europa assassinada.” As consequências são sentidas até hoje, inclusive no Oriente Médio: depois de Hitler, é preciso acrescentar que, para apagar a culpa pelo Holocausto, foi criado um Estado judeu em um território que já estava ocupado. O Líbano é uma testemunha disso, uma vítima. Jean Orieux não mede suas palavras, e a escolha dos termos demonstra isso, quando menciona uma nação embriagada de ódio desde Iena. De forma mais moderada, uma certa aversão dos alemães em relação aos franceses hoje não seria a continuação distante do período pós-Iena, pelo fato de terem sido representados durante a assinatura da capitulação incondicional das forças armadas alemãs, que encerrou a Segunda Guerra Mundial na Europa, em 7 de maio de 1945? Em 1962, De Gaulle convida Adenauer para participar de uma missa na catedral de Reims, cidade símbolo dos conflitos franco-alemães, com o objetivo de demonstrar a vontade de virar a página das guerras passadas, consolidar de forma duradoura a reconciliação e transformar a cooperação franco-alemã em um motor da construção europeia. Em 22 de setembro de 1984, durante as comemorações da batalha de Verdun, Mitterrand e Kohl dão as mãos diante do ossuário de Douaumont, símbolo escolhido para selar a reconciliação europeia, aprofundar a integração europeia e consolidar a paz na Europa. Nessas ocasiões, os dois presidentes franceses foram motores de uma reconciliação sincera e definitiva. De Gaulle e Adenauer construíram a reconciliação; Mitterrand e Kohl a aprofundaram para transformar o eixo franco-alemão no motor da Europa. Por que então esse afastamento perceptível? Hoje, se a França ainda fala em casal franco-alemão, essa expressão não é utilizada na Alemanha. A criação do euro, tão desfavorável à França em seus intercâmbios comerciais, a desindustrialização da França conduzida em parte pela Alemanha, o abandono unilateral da energia nuclear por parte da senhora Merkel, levando a França ao banco dos réus diante dos ambientalistas alemães e franceses, e as escolhas relativas à definição do preço da eletricidade na Europa* aplicadas na França demonstram uma animosidade contra os franceses por parte daqueles que classificamos como “nossos amigos”. Mas os povos não têm amigos, apenas parceiros, e às vezes aliados, enquanto durar a aliança! Os políticos franceses impõem à França uma integração na Europa a marchas forçadas; os alemães, por sua vez, não se posicionam frequentemente por uma Europa alemã? Sem dúvida, é cedo demais para declarar a Dassault, e portanto a França, culpada! O futuro dirá quais aviões a Alemanha comprará. O F-35?** *A definição do preço da eletricidade com base no preço do gás é desfavorável à França nuclearizada. Essa medida supostamente foi prevista para facilitar a transição energética, integrando uma maior participação de energias renováveis. Os alemães consideram que a energia nuclear não pertence ao campo das renováveis, mas compensaram parcialmente a eliminação da energia nuclear com usinas a carvão! ** Para completar sua frota de 35 aeronaves encomendadas às pressas em 2022 e cuja entrada em serviço está prevista para 2028.

O discurso da vitória e o comércio das ilusões

Um cidadão do Sul comentou assim sobre o retorno dos deslocados: “Se vocês voltarem… voltem em um silêncio digno do que aconteceu, e não em um barulho que fere o que ainda resta de vida.” “Não levantem os sinais da vitória sobre uma terra cujas lágrimas ainda não secaram, e não agitem bandeiras onde a poeira continua escondendo os traços de rostos que ainda não foram retirados dos escombros.” “Voltem… mas retirem dos ombros a arrogância dos slogans, porque aqui não se trata de palanques de celebração, mas de túmulos abertos…” Se acompanharmos as declarações de Naïm Kassem, que agora aparece mais de uma vez por semana, ele teria vencido a guerra, derrotado Israel e libertado o Líbano. Ele se permite, portanto, acusar o presidente da República e o primeiro-ministro de traição e colaboração, e exigir a queda de um governo do qual, no entanto, se recusa a retirar seus próprios representantes. Enquanto isso, Israel chegou aos arredores de Nabatieh, bombardeia os vilarejos de Zahrani e tenta ocupar uma das colinas estratégicas mais importantes, Ali al-Taher. O número de mortos ultrapassa 4 mil, os feridos chegam a 11 mil, casas foram destruídas e vilarejos inteiros foram apagados do mapa. Tudo isso, no entanto, seria apenas “vitórias divinas”. Quando autoridades libanesas conversam com os americanos, são classificadas como traidoras. Mas esses mesmos círculos se orgulham quando Donald Trump afirma ter se encontrado com o Hezbollah. Quando o Líbano estabelece um acordo de cessar-fogo, ele o denuncia em nome do Estado e se recusa a reconhecê-lo; mas aceita um cessar-fogo iraniano. Como nomear tal mentalidade, tal lógica, ou melhor, essa ausência de mentalidade e de lógica? Trata-se de uma manifestação da separação entre a realidade no terreno e o discurso de mobilização. Quando Naïm Kassem afirma que “a vitória foi alcançada”, ele não fala segundo os critérios comuns aos quais as pessoas geralmente recorrem: perdas humanas, destruição, controle territorial. Ele raciocina segundo outra lógica, que pode ser resumida da seguinte forma: Primeiro, a redefinição da vitória. Ela já não significa derrotar militarmente o inimigo nem proteger a terra e a população, mas “resistir”, ou seja, impedir o colapso total do partido e preservar a capacidade de lutar e responder, mesmo que de maneira intermitente e ineficaz. Com uma definição assim, praticamente qualquer resultado pode ser transformado em “vitória”, inclusive ao custo de perdas enormes. Há também o deslocamento da batalha do campo da realidade para o campo da narrativa. Quando os fatos se tornam difíceis demais de suportar, destruições, mortes, recuos no terreno, eles são compensados por uma narrativa midiática poderosa: amplificação das conquistas simbólicas, ocultação ou justificativa das perdas, demonização e acusação de traição contra qualquer voz interna dissidente. Aquele que questiona essa narrativa torna-se então um “traidor”, porque a batalha já não é apenas militar: ela passa a ser uma batalha pela própria narrativa. Depois vem a lógica do “monopólio do patriotismo”. O Estado ou seus responsáveis, o presidente da República e o primeiro-ministro, são acusados de traição. Entramos então em uma lógica na qual a legitimidade já não pertence ao Estado, mas à “resistência”. Qualquer negociação com o exterior, especialmente com os Estados Unidos, torna-se traição, enquanto o mesmo contato se torna aceitável quando passa por seus próprios canais ou serve ao seu discurso, como já fizeram diversas vezes. Como explicar essa lógica? Ela pode ser explicada por meio de vários conceitos conhecidos nas ciências políticas e sociais: dois pesos e duas medidas; o pensamento ideológico fechado, que rejeita os fatos quando eles contradizem a doutrina; a propaganda de mobilização, que busca preservar o apoio popular em torno dela; e, acima de tudo, a negação da realidade sempre que as crises se agravam. Mais precisamente, trata-se de uma “lógica mobilizadora que escapa a qualquer prestação de contas”, porque ela não permite medir resultados nem questionar decisões. Tudo nela é sagrado e divino. O verdadeiro perigo dessa política imposta não está apenas em suas contradições, mas em suas consequências catastróficas: a paralisia do Estado e de suas instituições; a destruição da própria noção de verdade, já que tudo se torna interpretável; a transformação da sociedade em dois campos, o dos “crentes” e o dos “traidores”. É exatamente isso que torna quase impossível qualquer discussão racional. O problema, portanto, não está apenas na propaganda ou na contradição; ele está nas próprias ferramentas do pensamento. Essas ferramentas tornaram-se ídolos que são venerados. Paul Valéry alertava para o momento em que o ser humano deixa de utilizar suas ferramentas de pensamento para se tornar seu servo. Estamos diante de conceitos antigos, vitória/derrota, resistência/traição, reutilizados continuamente; de fórmulas prontas de interpretação das quais eles nunca se afastam; de moldes linguísticos rígidos. Tudo isso transforma ferramentas em referências sagradas. Mas eles não percebem que elas são antigas. A questão então ultrapassa a simples pergunta: esse raciocínio está correto? Ela passa a ser: ele pertence ao léxico aceito dentro do grupo? Além disso, o pensamento “passadista” não é ignorância, mas uma estrutura. É um pensamento voltado para o passado, que se adapta ao presente. Ele não está fora do presente; ele vive nele, mas com ferramentas vindas de outro tempo. Como funciona esse pensamento? Ele projeta o passado sobre o presente. Cada acontecimento é compreendido como a repetição de uma batalha anterior, como a continuação de uma antiga narrativa, resistência, libertação, conspiração. Ele ignora completamente que as condições mudaram, que a relação de forças mudou, que a natureza da guerra mudou e que a própria sociedade mudou. No entanto, a ferramenta permaneceu a mesma. Isso acontece porque eles protegem a identidade por meio da imobilidade. Toda mudança é percebida como uma ameaça existencial, e não como uma necessidade. Os conceitos de Durkheim podem nos ajudar a compreender essa lógica apesar de suas contradições. Ele fala dos “fatos sociais” que se impõem ao indivíduo. A opinião, nesse caso, não é uma opinião individual: é o discurso coletivo, a “verdade coletiva imposta”. O indivíduo torna-se incapaz de enxergar a contradição, ou então não consegue rompê-la mesmo quando a percebe, porque rompê-la significa sair do grupo. Também podemos encontrar uma explicação para esse comportamento na forma como Claude Lévi-Strauss concebe o funcionamento da mente humana por meio das estruturas, frequentemente baseadas em oposições binárias: vitória/derrota, traição/resistência, nós/eles. Assim, a realidade deixa de ser importante. O que importa é fazer com que ela se encaixe nessa oposição binária. É isso que acontece diante dos nossos olhos todos os dias: a derrota no terreno é reformulada como vitória; a negociação conduzida pelo Estado é chamada de traição; mas a negociação conduzida pela “resistência” torna-se estratégia e projeto. Não porque eles não vejam, mas porque sua estrutura mental não lhes permite enxergar de outra forma. Isso é mais perigoso do que uma simples ausência de lógica ou uma irracionalidade. É uma razão que funciona dentro de um sistema fechado. Ela não pode ser corrigida pelos fatos, pelos argumentos, nem mesmo pelas perdas. Toda nova informação é “digerida” dentro da antiga estrutura. É todo um sistema de percepção que vive de ferramentas mortas… mas que ressuscita todos os dias.

Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (10)

Esta série de artigos tem como objetivo lançar luz sobre a situação atual sob a perspectiva da história, deixando de lado narrativas apaixonadas, ideológicas ou romantizadas que não correspondem à realidade, e permitindo que os leitores tirem suas próprias conclusões. As nove partes anteriores ofereceram uma reavaliação dos acontecimentos relacionados à ascensão do Hezbollah ao poder, desde o Acordo de Taif até a retirada de Israel do Líbano em maio de 2000, passando pela criação de uma zona controlada pelo Hezbollah no Sul e pela guerra de 2006. Este artigo aborda as lições da guerra de 2006 e suas consequências. Na operação “Promessa Verdadeira” (el-Wa3ed el-Sadek, nome dado à guerra de julho de 2006), o Hezbollah empregou táticas baseadas na guerra híbrida assimétrica, combinando com habilidade técnicas tradicionais de guerrilha, o uso intenso de mísseis antitanque modernos de dupla finalidade e uma estratégia de defesa em profundidade em toda a área ao sul do rio Litani e em partes de sua margem norte. No centro dessa estratégia estava a chamada tática das “reservas naturais”, uma complexa rede de túneis e bunkers subterrâneos projetada para permanecer invisível diante da superioridade aérea israelense, ao mesmo tempo em que permitia a realização de emboscadas. Essa abordagem defensiva foi inspirada no Viet Cong e no Exército Norte-Vietnamita durante sua guerra contra os Estados Unidos (1964–1973), período em que as forças americanas desfrutavam de supremacia aérea incontestável. O grupo pró-Irã demonstrou excepcional domínio no uso de mísseis antitanque de quarta geração, como já mencionado anteriormente. Ao mesmo tempo, manteve um assédio constante ao norte de Israel, que permaneceu paralisado durante toda a guerra pelos disparos diários de foguetes Katyusha, cerca de 4000 no total, com uma média de 100 a 120 por dia, lançados a partir de plataformas móveis ocultas. Além disso, os combatentes da milícia não precisavam de linhas logísticas de abastecimento, pois armas, munições, alimentos e suprimentos de sobrevivência haviam sido armazenados em depósitos subterrâneos durante seis anos, e a guerra durou apenas 33 dias. Por fim, o Hezbollah conduziu uma agressiva guerra midiática: o canal Al-Manar transmitia os discursos de Hassan Nasrallah, que funcionavam como uma arma psicológica para mobilizar seus apoiadores e enfraquecer o moral da população israelense. Nesse sentido, e como exemplo marcante, em 14 de julho de 2006, combatentes do Hezbollah atingiram uma corveta israelense na costa de Beirute usando um míssil antinavio de precisão C802 Silkworm, de fabricação chinesa e fornecido pelo Irã, pegando a inteligência israelense completamente de surpresa. O ataque matou quatro marinheiros. O episódio representou um grande choque tático: os sistemas automáticos de defesa do navio não haviam sido ativados, pois o comando considerava inexistente a ameaça de mísseis antinavio. Em um pronunciamento transmitido ao vivo pelo rádio, Hassan Nasrallah convidou os cidadãos libaneses a olharem para o mar e observarem a embarcação em chamas, um momento que se tornou um ponto de virada decisivo na guerra psicológica do conflito. Resumo das táticas israelenses O exército israelense, por sua vez, adotou uma estratégia centrada na superioridade aérea, na alta tecnologia disponível na época e em operações de precisão. No entanto, demonstrou grande hesitação ao lançar uma ofensiva terrestre em larga escala, aparentemente decidido a repetir o modelo da Segunda Guerra do Golfo, em 1991, quando as forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos realizaram uma longa campanha aérea antes de avançar por terra na Operação Tempestade no Deserto. O chefe do Estado-Maior israelense Dan Halutz, ele próprio um piloto de caça, não conseguiu adaptar sua estratégia às novas realidades do terreno libanês impostas pelo Hezbollah. A força aérea israelense conseguiu destruir quase todos os mísseis de longo alcance do Hezbollah (Fajr e Zelzal) nas primeiras horas do conflito, além de grande parte das plataformas de lançamento, postos de comando e depósitos de munição do grupo. Também conseguiu isolar o sul do Líbano ao destruir pontes e estradas estratégicas. Por fim, realizou incursões bem-sucedidas de comandos em profundidade, como a operação em Baalbek, onde uma unidade das forças especiais israelenses assumiu o controle de um hospital em 2 de agosto de 2006, matando 10 combatentes do Hezbollah e 6 civis, além de capturar vários civis que posteriormente foram libertados. No campo das operações terrestres, o avanço em direção ao rio Litani foi apenas parcialmente alcançado. Tropas de elite conseguiram romper as linhas de defesa, mas nunca foram capazes de estabelecer um controle efetivo da margem sul do rio antes da entrada em vigor do cessar-fogo em 14 de agosto. A incapacidade das unidades de infantaria e blindadas de garantir o controle do terreno diante dos mísseis antitanque e de interromper os disparos de foguetes contra o norte de Israel representou o principal fracasso estratégico. As perdas de equipamentos do exército, além dos tanques Merkava e da embarcação naval danificada, incluíram um helicóptero abatido por um míssil antitanque, outros dois danificados em uma colisão e vários drones. Essa guerra marcou o fim da carreira militar do chefe do Estado-Maior Dan Halutz, que hoje (2026) é um forte opositor de Netanyahu e participa frequentemente de manifestações liderando protestos contra o primeiro-ministro. A Guerra de 33 Dias: consequências Do lado libanês, o número de mortos é estimado em 1100 civis, 43 soldados e policiais libaneses, embora eles não fossem combatentes, 5 soldados da ONU, entre 250 e 600 combatentes do Hezbollah, 31 milicianos aliados ao Hezbollah e 52 civis estrangeiros. Do lado israelense, 165 pessoas foram mortas, incluindo 119 soldados. As perdas materiais libanesas incluíram 30,000 unidades residenciais total ou parcialmente destruídas no sul do Líbano e nos subúrbios ao sul de Beirute, além de pontes, estradas e infraestrutura; os danos totais foram estimados entre 5 e 7 bilhões de dólares. O número de deslocados para Beirute e o Monte Líbano chegou a quase 685,000 pessoas, enquanto 200,000 fugiram para a Síria e entre 300,000 e 500,000 pessoas foram deslocadas do norte de Israel. Fim do conflito: Resolução 1701 O conflito terminou em 14 de agosto de 2006, após a adoção da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU. Naquele momento, Israel ocupava uma zona de segurança com aproximadamente 10 a 30 quilômetros de profundidade a partir da Linha Azul. Assim que o cessar-fogo foi anunciado, e apesar das estradas destruídas, os moradores deslocados retornaram em massa às suas aldeias no Sul. Esse foi o quarto retorno de deslocados ao sul do Líbano, provocado não pela libertação do território pela força, mas pela pressão internacional, estratégia da qual Irã e Hezbollah sempre dependeram, como ocorreu em 1993, 1996 e 2000, com essa pressão voltada à estabilização do Oriente Médio por meio de acordos que invariavelmente se mostraram temporários. A Resolução 1701 buscava estabelecer uma “zona de segurança” no sul do Líbano, entre a Linha Azul e o rio Litani, localizado aproximadamente 30 quilômetros ao norte. No entanto, sua implementação foi seletiva e incompleta, levando à situação que prevalece atualmente. Pela primeira vez em quase trinta anos, o exército libanês posicionou 15,000 soldados ao longo da fronteira sul, reafirmando o princípio da autoridade estatal, em contraste com a retórica do então presidente Emile Lahoud, que havia recusado sistematicamente o envio do exército ao Sul para manter a região sob controle do Hezbollah. Também de acordo com a Resolução 1701, o exército israelense se retirou das áreas ocupadas durante a ofensiva terrestre, e a UNIFIL foi amplamente reforçada, passando de 3000 para quase 10,000 soldados de paz, com um mandato ampliado para monitorar a cessação das hostilidades e auxiliar o exército libanês na implementação da Resolução 1701. No entanto, nada disso se concretizou nos 17 anos seguintes… A Resolução 1701 determinava que nenhum grupo armado, além do exército libanês e da UNIFIL, deveria estar presente entre o rio Litani e a fronteira. Contudo, as facções dominantes dentro do governo libanês optaram pela submissão, sem qualquer visão estratégica e sem aproveitar a pressão internacional. O Hezbollah, em acordo com elas, aceitou retirar seus combatentes uniformizados e suas armas pesadas visíveis, mas manteve uma presença clandestina completa. Reconstruiu sua rede de túneis e bunkers subterrâneos e reconstituiu e modernizou em grande escala seu arsenal, incluindo dezenas de milhares de foguetes, bem diante dos olhos da UNIFIL, através da Síria, que funcionava como uma ponte terrestre entre o Líbano e o Irã. Israel, por sua vez, continuou violando diariamente o espaço aéreo libanês, argumentando que isso era necessário para monitorar as atividades do Hezbollah diante da ausência de qualquer aplicação real das disposições de desmilitarização. A Resolução 1701 conseguiu manter uma estabilidade relativa e evitar uma guerra total durante 17 anos, até outubro de 2023, mas nunca resolveu a questão central da presença militar do Hezbollah no sul do Líbano. Leia também sobre o mesmo assunto: Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (9) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (8) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (7) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (6) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (5) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (4) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (3) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (2) Hezbollah-Israel, uma guerra sem fim a serviço de quem? (1)

Irão-Estados Unidos: falsa partida e tensões em Lucerna

O Líbano esteve no centro das discussões, domingo, entre o Irão e os Estados Unidos, na Suíça. Mas enquanto Teerão afirmava ter fechado o estreito de Ormuz e o vice-presidente americano JD Vance proferia um discurso em tom positivo, o presidente Donald Trump reagiu ao encerramento do estreito brandindo ameaças contra o Irão, o que levou os negociadores iranianos a suspender as conversações. Quanto ao Líbano, todos os olhares estão voltados para as negociações diretas com Israel, provocando a ira do Hezbollah. Domingo, 21 de junho: início das discussões irano-americanas em Lucerna, na Suíça. A delegação americana é presidida pelo vice-presidente JD Vance, e a delegação iraniana pelo presidente do Parlamento Mohammed Ghalibaf. Após um falso arranque — uma vez que estavam previstas para sexta-feira no mesmo local —, acabaram por realizar-se dois dias depois. Estavam longe de decorrer com tranquilidade, demonstrando mais uma vez as profundas divergências entre os antigos beligerantes. Em termos de forma, esta sessão de negociações foi palco de muitos apertos de mão e sorrisos, nomeadamente entre americanos, qatarianos e paquistaneses. As declarações de JD Vance foram positivas. «O presidente Trump pediu-nos que virássemos uma nova página para transformar a nossa relação com o povo iraniano», afirmou. Referiu ainda «progressos consideráveis nas últimas horas». Esta primeira sessão ficou marcada por alguns percalços diplomáticos: os iranianos recusaram-se a ser fotografados com a delegação americana e, além disso, fizeram questão de fazer esperar o Sr. Vance, atrasando a sua chegada à sala de reuniões! Em termos de fundo, a questão libanesa esteve no centro das conversações, segundo os ecos chegados aos meios de comunicação social, dos quais se depreende que este dossiê pesou muito nas discussões. Pois, em contraste com as declarações floridas de Vance, o presidente americano Donald Trump publicou uma mensagem firme na sua rede social, sublinhando que o Irão deve «cessar imediatamente o apoio aos seus proxies», nomeadamente o Hezbollah, caso contrário «atacaremos com muita força». Pouco depois, o presidente americano, numa declaração à Fox News, garantiu ter avisado responsáveis iranianos durante a noite — sem os identificar — contra o encerramento do estreito de Ormuz, afirmando poder «assumir o controlo» do mesmo. Estas posições firmes geraram uma forte tensão no interior da sala de reuniões e levaram à retirada da delegação iraniana. No Líbano, as tomadas de posição iranianas permitiram ao Hezbollah recuperar algum ânimo. É preciso «tirar partido» do apoio do Irão, declarou o deputado do Hezbollah Hassan Fadlallah. O partido pró-iraniano atacou duramente, domingo, as conversações diretas entre o Líbano e Israel, cujo novo round deverá ter lugar na terça-feira em Washington. «Ditados americanos», «capitulação»… um comunicado do partido não poupou nas palavras para denunciar a continuação das negociações diretas iniciadas pelas autoridades libanesas em nome do Líbano, que se realizarão ainda assim em Washington, com delegações política e militar. No domingo à noite, Telavive enviou uma mensagem conciliadora a Washington, de quem parecia ter-se afastado nos últimos tempos: o canal israelita 12 revelou que o exército israelita estaria disposto a retiradas «limitadas» no sul do Líbano. Um gesto de boa-fé para com as autoridades libanesas ou no âmbito das negociações entre o Irão e os Estados Unidos? Uma semana repleta de reviravoltas A semana anterior tinha terminado com um anúncio do presidente americano sobre a assinatura iminente de um acordo com o Irão. Pôde partir para a França para participar no G7 tendo realizado aquilo que considerou uma vitória diplomática. A assinatura do acordo teve lugar em formato online, pelos presidentes americano e iraniano, na quarta-feira à noite. Trump estava em Versalhes para participar do jantar oferecido por seu homólogo francês Emmanuel Macron, por ocasião do G7, cujos líderes saudaram o acordo e a reabertura do Estreito de Ormuz, assim como a "oportunidade única" de obter dos iranianos a renúncia ao arsenal nuclear. As cláusulas do acordo vazaram para a mídia nessa mesma data, antes mesmo de serem anunciadas oficialmente. Por meio desse acordo, as duas partes decidem pela "cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano" e se comprometem a não iniciar guerra uma contra a outra, respeitando mutuamente a soberania territorial. O texto menciona um prazo de 60 dias, renovável, para se chegar a um acordo final. O bloqueio naval americano seria levantado, e o Estreito de Ormuz reaberto completamente em até 30 dias. Um dos pontos mais essenciais e polêmicos do texto é o compromisso dos Estados Unidos e de seus "parceiros regionais" de elaborar um plano de reconstrução e desenvolvimento da República Islâmica com um orçamento de "pelo menos 300 bilhões de dólares". Os Estados Unidos encerram "todos os tipos de sanções" contra o Irã, enquanto a República Islâmica reafirma que "não adquirirá nem desenvolverá armas nucleares", tendo os dois países concordado em resolver o destino dos estoques de urânio enriquecido que ainda se encontram em solo iraniano. O Tesouro americano deverá "emitir isenções para a exportação de petróleo bruto iraniano e seus derivados", e os Estados Unidos se comprometem a "disponibilizar e tornar plenamente utilizáveis os fundos e ativos da República Islâmica do Irã congelados ou sujeitos a restrições". Por fim, o acordo final, quando concluído, "será ratificado por uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU" — uma reivindicação iraniana desde o início. As cláusulas desse acordo foram consideradas de forma quase unânime no mundo como muito mais favoráveis ao Irã do que aos Estados Unidos, uma vez que o primeiro obteve no papel tudo o que exigia, enquanto todas as cláusulas que interessam aos segundos fazem parte do que deverá ser discutido durante os 60 dias — portanto, permanecem incertas —, especialmente a questão nuclear. Trump negou que qualquer centavo seria pago ao Irã enquanto o país não cumprir todos os seus compromissos. Os iranianos, por sua vez, não hesitaram em declarar vitória. A resposta do guia supremo Mojtaba Khamenei ao memorando de entendimento veio na sexta-feira sob a forma de uma bênção envolta em ceticismo, já que ele deixou entender que sua concordância não significava que compartilhava da mesma opinião que a outra parte. Um Mojtaba Khamenei sempre tão invisível e inapreensível. Por fim, vale destacar que, apesar do sucesso diplomático do Paquistão, o papel do Catar nessas negociações é cada vez mais evidente: quando o acordo parecia comprometido durante essa semana, especialmente devido aos ataques israelenses no Líbano, uma visita de mediadores catarianos ao Irã teria sido decisiva. O Líbano, peão regional ou soberano? No texto do acordo Irã-EUA, não há qualquer menção clara aos mísseis balísticos nem à influência iraniana na região. Pelo contrário, esse texto permite ao Irã retomar o controle do trunfo libanês, já que conseguiu inserir o cessar-fogo no Líbano como condição essencial para a implementação do acordo. E isso enquanto as autoridades libanesas conduzem suas próprias negociações com Israel em Washington e os Estados Unidos frequentemente insistiram na separação dos dossiês iraniano e libanês. O apego de Teerã ao seu pupilo Hezbollah não parece arrefecer: o presidente do Parlamento iraniano chegou a reconhecer que o partido xiita libanês combateu durante 104 dias em nome do Irã, enquanto o próprio Irã lutou apenas por 38 dias… um vínculo indissolúvel que nenhum dos dois tenta mais ocultar. Isso não levava em conta o presidente libanês Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam, que, ao mesmo tempo em que receberam favoravelmente o cessar-fogo, reafirmaram com veemência a vontade do Líbano de negociar em seu próprio nome e de recuperar sua soberania. Também nesta semana, o Hezbollah e seus aliados sofreram um duro golpe no sábado, quando o ex-ministro Sleimane Frangieh — seu candidato preferido à presidência — e um de seus quadros mais combativos, Mahmoud Comati, foram alvo de sanções americanas. Seria, para os Estados Unidos, uma forma de sinalizar que, apesar de sua vontade de não comprometer o acordo com os iranianos, suas prioridades no Líbano não mudaram. O terreno no Sul Enquanto isso, no terreno, no Líbano Sul, a intensidade dos combates não diminuiu durante toda a semana, aumentando ainda mais próximo ao fim de semana. O exército israelense e o Hezbollah se acusaram mutuamente de violar o cessar-fogo. As tropas israelenses continuavam tentando tomar a colina estratégica de Ali Taher, em Nabatiyeh, causando múltiplas baixas do lado libanês e perdendo soldados. Em várias ocasiões, o Irã ameaçou congelar as negociações caso os ataques israelenses não cessassem no Líbano. E foi nesse ponto que as divergências de visão entre israelenses e americanos vieram à tona, já que os segundos exerceram forte pressão sobre os primeiros para que respeitassem o cessar-fogo — um cenário bastante incomum na relação entre os dois aliados. No fim, foi apenas no sábado à noite que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu formalmente ao seu exército que "cessasse as operações" no Líbano, reservando-se, contudo, o direito de retaliar à menor provocação do Hezbollah e avisando que uma retirada dos territórios ocupados durante este conflito não estava na ordem do dia. O cessar-fogo que entrou em vigor ainda parecia muito frágil no domingo: apesar de uma aparente calmaria, algumas violações israelenses foram registradas, enquanto as forças do Estado hebreu anunciavam a descoberta de um grande túnel sob a aldeia de Majdelzoun, em Tiro. As declarações de Netanyahu, do ministro da Defesa Israel Katz e do chefe do Estado-Maior Eyal Zamir apontavam todas para uma possível retomada dos confrontos à menor oportunidade.