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Ficamos mais burros?

Ou estamos vivendo uma transformação na estrutura do conhecimento?
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Por Mona Fayad
Publicado em set 5, 2026 - 20:01
A pergunta «O mundo ficou mais burro?» reaparece com frequência nos debates contemporâneos sobre mídia digital, mecanismos de busca e redes sociais. À primeira vista, parece uma pergunta simples, mas esconde uma questão muito mais profunda, ligada à própria natureza do conhecimento: como ele é produzido, como é transmitido e como é consumido. Talvez a pergunta «Ficamos mais burros?» não seja a mais precisa. Talvez devêssemos perguntar: o conhecimento ainda é transmitido de uma maneira que permita compreendê-lo e torná-lo produtivo? A maioria dos leitores ainda recorre aos textos originais? Ou se limita aos seus resumos e ao que é dito a respeito deles por meio daquilo que circula entre os leitores? Uma das chaves para compreender esse fenômeno encontra-se nos trabalhos do psicólogo britânico Frederic Bartlett, que realizou, na década de 1930, uma série de experiências sobre aquilo que chamou de «reprodução serial». Nessas experiências, uma pessoa ouvia uma história e depois precisava contá-la a outra, que por sua vez a contava a uma terceira, e assim por diante. Os resultados foram impressionantes: a cada nova transmissão, a história não era reproduzida exatamente como havia sido contada, mas reformulada. Alguns detalhes desapareciam, outros eram ampliados e outros ainda eram substituídos por elementos mais compatíveis com o contexto, as experiências e a cultura do receptor. Depois de passar por um número suficiente de intermediários, a história original já havia se transformado em algo inteiramente diferente. Esse modelo simples revela uma verdade fundamental: a memória não é um recipiente neutro, mas um mecanismo de reconstrução. E, quando o conhecimento passa por múltiplos intermediários, ele não é «preservado», mas «reproduzido». É aqui que começam a aparecer as semelhanças com o nosso mundo contemporâneo e o receio de que estejamos ficando mais burros. Na era da mídia digital, o conhecimento já não circula por meio da transmissão oral, mas através de cadeias de mediação: um artigo é resumido, depois citado, em seguida republicado sob a forma de uma postagem curta e, por fim, reduzido mais uma vez a uma frase ou a um título. Nesse contexto, podemos retomar uma imagem metafórica usada em um texto jornalístico: uma biblioteca cujos livros são substituídos por resumos, e depois por resumos dos resumos, até que o leitor se veja diante de sucessivas camadas de redução. Algo semelhante ao que poderíamos chamar de «cadeia do guaxinim», que não lê o original, mas remexe em seus restos. Vale esclarecer que a escolha do «guaxinim» não é aleatória. Essa metáfora condensa simbolicamente uma condição cognitiva que vem se consolidando. Esse animal, que vive nas margens das cidades e remexe em latas de lixo, não produz seu alimento, mas se nutre dos restos daquilo que outros produziram. Apesar de sua inteligência prática e de sua capacidade de desmontar, recolher e aproveitar objetos, ele não compreende verdadeiramente aquilo que tem diante de si, mas lida com as coisas como materiais disponíveis para uso imediato. É assim que o conhecimento passa a se apresentar na era da redução serial: textos são resumidos e depois novamente resumidos, até que deles reste apenas um punhado de fragmentos de sentido, reorganizados e postos novamente em circulação sem qualquer vínculo verdadeiro com sua fonte. Nesse ponto, não apenas nos afastamos do original, mas entramos em uma nova etapa da produção da informação ou do conhecimento, na qual o agente cognitivo deixa de ser um leitor ou pensador para se tornar um coletor de restos de significado, que os redistribui em formatos destinados ao consumo rápido. A «cultura do guaxinim», portanto, não é apenas uma descrição da superficialidade. É também uma caracterização precisa da degradação da própria cadeia do conhecimento: da criação ao resumo, da compreensão ao processamento formal, das ideias a algo que já não passa de um vestígio apagado delas. Mas esse fenômeno não pode ser compreendido separadamente da estrutura tecnológica que o governa. É aqui que entra Marshall McLuhan, que sintetizou seu pensamento na célebre frase: «O meio é a mensagem». O problema não está apenas no conteúdo, mas também na forma através da qual esse conteúdo é transmitido. A mídia digital contemporânea não se limita a transportar informações, mas as remodela segundo a lógica da velocidade, da condensação e da fragmentação. O texto longo torna-se inadequado para o consumo, enquanto uma ideia só parece aceitável se puder ser reduzida a poucas linhas facilmente compartilháveis. Essa transformação produz um paradoxo marcante: vivemos numa época em que o acesso ao conhecimento deixou de ser difícil e se tornou excessivamente fácil. E, com essa facilidade excessiva, surge aquilo que poderíamos chamar de «ilusão cognitiva»: basta ler um pequeno trecho ou um resumo rápido para que a pessoa tenha a sensação de ter assimilado uma ideia. Mas essa sensação de domínio não é necessariamente acompanhada por uma compreensão profunda nem pela capacidade de reconstruir ou criticar o conhecimento. É aqui que aparecem os que poderíamos chamar de «semiletrados»: indivíduos que possuem os sinais do conhecimento, mas não sua estrutura; seu vocabulário, mas não sua lógica interna. O problema se torna ainda mais complexo quando o observamos sob o ângulo da atenção. Em vez de permanecer em um estado prolongado de concentração, como acontece na leitura tradicional ou na reflexão demorada, a mente passou a viver sob um bombardeio contínuo de informações: notificações, vídeos, manchetes e ondas sucessivas de conteúdo. Essa situação não apenas dispersa a atenção, mas a reconfigura segundo uma lógica de saltos constantes entre pequenas unidades de significado, em vez de permitir a construção gradual e cumulativa de uma ideia. Lembro aqui de uma anedota que costumávamos contar e que circulava muito na época das manifestações populares. Ela ilustra bem a ideia da redução e da transformação do conteúdo. Depois da ocupação da Palestina, muitas manifestações populares tomaram as ruas gritando «Abaixo a Declaração Balfour!». A brincadeira dizia que, no fim da manifestação, o slogan havia se transformado, em árabe, em «Que alguém caia lá de cima!», uma frase inteiramente diferente que preservava algo do ritmo e da sonoridade da original. Talvez essa imagem nos ajude a compreender melhor o que acontece na linguagem cotidiana quando o conhecimento se transforma em mensagens curtas repetidas coletivamente. A manifestação começa com uma fórmula política precisa. Mas, com a repetição, a imersão coletiva e o ritmo sonoro, ela vai se transformando pouco a pouco em outra fórmula, completamente diferente. Esta pode conservar o ritmo e a carga emocional da primeira, mas perde seu significado e seu sentido original. O que permanece não é o sentido, mas a energia emocional da frase. Aqui se manifesta, de outra maneira, aquilo que Bartlett havia observado: não importa apenas o que foi dito, mas como aquilo foi repetido e como voltou a ser compreendido dentro de um contexto social em transformação. Se reunirmos todos esses fios, podemos dizer que aquilo que vivemos hoje não é propriamente um «colapso da inteligência», mas uma transformação das condições em que ela opera. A mente humana não mudou radicalmente, mas o ambiente em que funciona se transformou profundamente: passamos de um ambiente que permitia a acumulação lenta para outro que impõe a reprodução rápida e fragmentada do conhecimento. Essa mudança cria uma tensão permanente entre duas formas de pensamento: um pensamento reflexivo, que precisa de tempo, e um pensamento rápido, que exige resposta imediata. Sob essa perspectiva, a pergunta «Ficamos mais burros?» torna-se parcialmente enganosa. Talvez seja mais preciso dizer que estamos cada vez mais expostos a condições que tornam o pensamento profundo menos estável, ou menos possível, e o conhecimento mais vulnerável à fragmentação e à reciclagem. Quanto à burrice, se podemos usar o termo, talvez ela não seja uma propriedade da mente, mas um efeito colateral e uma característica da estrutura cultural que se formou. Trata-se de uma tecnologia que está remodelando nossa relação com o mundo. Assim, em vez de enxergar esse fenômeno como um declínio das capacidades humanas, podemos compreendê-lo como uma transformação do «ambiente do conhecimento»: um ambiente em que se tornou fácil saber alguma coisa, mas mais difícil compreendê-la de fato e em profundidade.
Opinião
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Por Youssef Mouawad - Publicado em set 5, 2026 - 13:25
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Em 2010, Israel interceptou com violência o Mavi Marmara, um navio turco fretado por uma ONG humanitária para socorrer a Faixa de Gaza, então sob bloqueio israelita. Esse incidente, a gota de água, fará vir à tona a animosidade entre o governo de Erdogan e o Estado hebraico. (AFP)
A guerra ainda não parou no nosso sul e já corre o risco de eclodir junto aos nossos vizinhos. Ou seja, vivemos a prazo, de conflito em conflito. E com razão! Por pouco o bombardeamento de uma base síria não descambou numa batalha campal entre Ancara e Telavive. Foi a 18 de agosto passado, e Benjamin Netanyahu não foi com meias palavras: o seu país não iria tolerar uma implantação militar turca suscetível de avançar para o sul da Síria. A mensagem foi tanto mais brutal quanto oito ataques tinham visado a base aérea de Abu al-Duhur, situada a 70 quilómetros da fronteira turca. Recorde-se, aliás, que desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, Erdogan é o principal mentor da nova Síria, a de Ahmed al-Charaa, ajudando-a a reconstruir as suas forças armadas e transformando-a num parceiro estratégico. Já não é a Síria de Hafez al-Assad Terá sido este novo pico de tensão entre Ancara e Telavive que precipitou a reunião entre o chefe da diplomacia síria, Assaad Chaïbani, e o diretor do Mossad, Roman Gofman, a 23 de agosto passado, na Jordânia? Ora, esse encontro discreto não provocou uma onda de indignação no mundo árabe, como aconteceu com a visita imprevista de Anwar al-Sadat a Israel em 1977. Um tabu foi oficialmente quebrado e, de facto, quem poderia ter acreditado que tal concertação seria possível sob o regime baathista? O Estado hebraico deveria ter-se congratulado, mas, ao contrário do que se esperava, não interrompeu nem os seus ataques aéreos nem as suas incursões territoriais, como a de 27 de agosto em Quneitra. É que as coisas mudaram. Sob Hafez al-Assad, a Síria era uma potência regional que, sem ser temível, era temida pelos seus vizinhos imediatos, fossem eles países árabes ou não. Evitava-se procurar confronto com ela e, por isso, o país conduzia, dentro de certos limites, uma política externa agressiva que resvalava muitas vezes para a provocação. E assim, em virtude da autonomia da sua ação e da margem de manobra que se concedia, tinha constituído, nem que fosse apenas geograficamente, uma zona-tampão entre, por um lado, uma Turquia "erdoganesca", que exibia o seu islamismo assumido, e, por outro, um Israel, o Estado consubstancialmente judeu. Ora, eis que, num país esgotado por uma gestão baathista e devastado por anos de guerra civil, a Turquia, ao começar a marcar posições, vai inevitavelmente encontrar-se frente a frente com um Israel que ocupa uma parte do território sírio. O que esperar? Tendo em conta o ego desmedido tanto de Netanyahu como de Erdogan, e no caso de estes dois chefes de Estado permanecerem nos seus respetivos cargos, devemos esperar um duelo épico em território sírio, libanês, jordano, ou até noutros locais. Este combate será feito de fintas, de esquivas, de golpes baixos, mas também de ataques frontais, de corpo a corpo e de escaladas de tensão até ao ponto de rutura. E isto mesmo que o relatório doCongressional Research Servicede setembro de 2025 considere pouco provável um confronto direto entre a Turquia e Israel, precisamente porque ambos os Estados conhecem o custo de uma guerra, caso esta viesse a eclodir. No entanto, no domínio da polemologia, os dirigentes e outras elites não são necessariamente atores racionais! Tanto mais que, aos olhos dos observadores israelitas, o slogan que impera na Anatólia, a saber, «Make Turkey great again», não é de molde a tranquilizar o Estado sionista. Washington terá cada vez mais dificuldade em conter ou separar os dois adversários que já se posicionam em ordem de batalha. A Turquia, um novo Irão? Sim, é uma hipótese, mas apenas num confronto direto com Israel, tendo a Síria se tornado da noite para o dia uma zona onde «se sobrepõem dois perímetros de segurança», o turco e o israelita, o muçulmano e o judeu. E não se pode excluir que o militantismo xiita, esse mobilizador de «proxies», acabe por se aliar, ainda que momentaneamente, a uma «versão irmãos-muçulmana» do islamismo político defendido por Ancara! Teríamos assim, contra todas as expectativas, um Hezbollah apoiado pelo seu inimigo de ontem, Ahmed al-Charaa, um islamista vindo da Jabhat al-Nusra e da Hayat Tahrir al-Cham! Contra o adversário comum, uma inversão de alianças é sempre legítima e oportuna. Mas isso não passaria de uma aliança tática, ditada pelas necessidades do momento, sem qualquer garantia quanto ao futuro. Tendo o nacionalismo árabe sido posto de lado, a Turquia não se vai contentar em conquistar economicamente o mercado sírio, com os seus 25 milhões de consumidores: vai querer exercer influência política em Damasco, mobilizando para isso o seu aparelho militar e de segurança. O poder instável do presidente sírio, incapaz de assegurar certas funções soberanas nem de enquadrar os diversos corpos do Estado, terá necessariamente de recorrer à experiência do seu vizinho do norte. Será, no entanto, de acreditar que este último vai ser arrastado pela espiral de uma «beligerância anunciada»? Tudo aponta nesse sentido, e já se podem perceber os primeiros sinais de um envolvimento que lembra o dos Estados Unidos no Vietname sob Lyndon Johnson. Pois, se o Estado sírio pretende reconstituir-se, precisará antes de mais de um exército capaz de conter as tendências centrífugas dos alauitas, dos drusos e de outras facções que apelam à fragmentação do país. Ora, cabe a Ancara garantir isso e reforçar a autoridade central sediada em Damasco. Mas Israel, que adquiriu maus hábitos na Síria e pretende manter aí liberdade de ação aérea, não pode aceitar um exército estruturado segundo o modelo da NATO e que possa servir de proxy a um projeto neo-otomano. E o Líbano, da primazia à secundarização? Está agora montado um novo cenário para um novo guião que definirá novas regras do jogo! O que será feito do Hezbollah, apanhado numa ratoeira? Bem, poderia beneficiar, neste cenário, ainda que apenas em parte, do apoio logístico de Damasco, apoio que lhe fez gravemente falta desde a queda de Bachar al-Assad. E talvez que, com um deslocamento das placas tectónicas, o Líbano passasse do estatuto de palco inicial ao de palco secundário de um conflito regional. Mas, para ser sincero, isso de pouco nos vai valer!
O Essencial do Dia
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Por LevantTime . - Publicado em set 5, 2026 - 00:55
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O comboio do CICV que transportava os civis libertados, partindo da zona ocupada por Israel no sul do Líbano, seguiu até o ponto que marca o início da área controlada pelas autoridades libanesas. (AFP)
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) anunciou nesta sexta-feira que transferiu para o Líbano outras quatro pessoas libertadas por Israel, um dia após a libertação de um primeiro civil. Segundo o CICV, trata-se de três libaneses e dois sírios. É a primeira vez que uma operação desse tipo ocorre desde o início, em abril, das negociações entre o Líbano e Israel, sob mediação dos Estados Unidos. Beirute havia solicitado, durante a última rodada de negociações, em agosto, a libertação de um primeiro grupo de cidadãos libaneses capturados por Israel no sul do Líbano, onde trava uma guerra contra o Hezbollah, aliado do Irã. Familiares estimam que cerca de 30 pessoas estejam detidas, entre elas combatentes do movimento islâmico. O presidente libanês, Joseph Aoun, agradeceu em comunicado aos Estados Unidos e ao CICV e afirmou que essa libertação «confirma o acerto da posição» do Líbano, que participa de negociações com Israel rejeitadas pelo Hezbollah. Os Estados Unidos elogiaram na quinta-feira «o governo de Israel e o governo do Líbano por demonstrarem boa-fé por meio desses primeiros passos», expressando a esperança de que isso sirva «de base para discussões mais amplas sobre outras questões civis». Os dois países devem realizar uma nova rodada de negociações em setembro, em uma data ainda não definida. Segundo o gabinete do primeiro-ministro israelense, o anúncio de quinta-feira «ocorre após os esforços realizados por Israel e pelo Líbano para localizar e repatriar os restos mortais de líderes da comunidade judaica que haviam sido sequestrados e mortos no Líbano» entre 1984 e 1986. Israel intensifica seus ataques No terreno, ataques israelenses deixaram três mortos e 23 feridos nesta sexta-feira no sul e no leste do Líbano, segundo um veículo de imprensa estatal. Israel intensificou nesta sexta-feira seus ataques na região, depois de anunciar, na noite de quinta-feira, que havia assumido o controle da crista montanhosa de Ali Taher, que servia como posição estratégica para o Hezbollah, aliado do Irã, e domina, entre outras áreas, a cidade de Nabatiye. O Exército agora reforçará suas posições na região para «impedir que o inimigo volte a se posicionar na área», declarou o ministro da Defesa israelense, Israel Katz. Outro ataque também atingiu a região de Tiro, especialmente a localidade de Rmadiye, segundo a Agência Nacional de Notícias (ANI). Para Trump, a guerra no Irã é «coisa pequena» Sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou nesta sexta-feira minimizar seu impacto para o país, às vésperas das cruciais eleições legislativas de meio de mandato. «Muita gente não chama isso de guerra. Eu digo que é um conflito militar, porque para nós é coisa pequena (“small potatoes”). Não é nada demais. Fizemos a Venezuela e fizemos isso», respondeu a jornalistas no Salão Oval, ao ser questionado sobre seu vice-presidente, JD Vance, que no dia anterior havia dito não querer descrever o conflito como uma guerra. Enquanto a forte alta dos preços dos combustíveis ligada à guerra ameaça custar aos republicanos de Donald Trump sua maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro, sua administração tenta minimizar a dimensão do conflito. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizam «ataques pontuais» e «não estão atualmente combatendo». Trump também afirmou que os Estados Unidos controlam o estreito de Ormuz e que dizimaram as Forças Armadas iranianas. «O que conseguimos foi extraordinário. Assumimos o controle da Venezuela e, essencialmente, assumimos o controle do Irã», declarou.
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Ancara no centro do foco meridional da OTAN 3.0: o que dizer do Líbano?

Na versão OTAN 3.0 que surgiu da cúpula de Ancara (realizada nos dias 7 e 8 de julho), a Aliança reforçou sua capacidade de administrar simultaneamente uma ameaça continental no Leste (Rússia) e uma instabilidade híbrida (terrorismo, crises migratórias e conflitos militares) em seu flanco mediterrâneo e no Oriente Médio. Para essa segunda frente, agora conta com Ancara, que não apenas se consolidou como um dos principais fornecedores de armas para os países-membros, mas também como mediadora entre o Ocidente e o eixo Moscou-Teerã, recusando-se a romper relações com a Rússia e o Irã, ao mesmo tempo em que contém a primeira no Mar Negro e no Cáucaso e o segundo na Síria e no Líbano. O Pacto de Riad Após vários anos de tensões com Riad, especialmente depois do caso Khashoggi, a Turquia uniu-se à Arábia Saudita e ao Paquistão para criar um Pacto Estratégico de Defesa Mútua, hoje classificado por alguns analistas como uma “OTAN sunita”. Esse bloco surgiu para conter tanto a influência residual do Irã na Síria e no Líbano quanto o poder de Israel. O principal símbolo dessa aproximação é o projeto da Ferrovia do Hejaz. Essa linha ferroviária, inaugurada originalmente em 1908, durante o reinado do sultão Abdülhamid II, era um símbolo do poder otomano e ligava Istambul a Medina, até ser destruída pelas forças da Revolta Árabe, lideradas pelo xerife Hussein de Meca e apoiadas e assessoradas por oficiais britânicos. A partir de 1918, esses combatentes destruíram sistematicamente trilhos e pontes para paralisar o abastecimento das tropas otomanas. O projeto da nova ferrovia, aprovado em junho passado, ligará Istambul à Península Arábica através da Síria e da Jordânia, com uma extensão prevista até Omã, criando uma rota comercial entre a Índia, o Sudeste Asiático e Istambul. Trata-se de uma estratégia econômica de grande relevância para contornar, por um lado, o Estreito de Ormuz e reduzir o impacto das pressões iranianas e, por outro, o porto de Haifa, buscando diminuir o papel comercial de Israel na região, em um momento em que as relações entre Ancara e Tel Aviv atravessam seu pior momento. A nova Síria: o coração da influência turca O fator mais importante nesse contexto é a consolidação da influência turca na Síria. Após a queda do regime Assad, Ancara apoia ativamente a nova administração liderada pelo presidente Ahmed al-Charaa. Ao tornar-se a principal patrocinadora sunita da Síria, a Turquia interrompeu os antigos corredores terrestres pró-iranianos em direção ao Líbano, à Jordânia e à Cisjordânia. No plano militar, Ancara se recusa a retirar suas tropas das províncias do norte da Síria, usando como justificativa a luta contra o terrorismo. Seu verdadeiro objetivo, porém, é eliminar as Forças Democráticas Sírias (FDS/SDF), dominadas pelos curdos e acusadas de serem uma extensão do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma organização terrorista por Ancara e Washington. Além disso, a Síria participou pela primeira vez dos exercícios militares conjuntos turcos EFES 2026, a edição mais recente de um dos maiores treinamentos militares multinacionais com munição real, organizado a cada dois anos pelas Forças Armadas turcas. O exercício ocorreu entre abril e maio de 2026, principalmente nas regiões de Izmir e Istambul, na Turquia. Mais de 10 mil soldados de cinquenta países participaram da operação. Além de aliados tradicionais da OTAN, como os Estados Unidos e a França, Ancara convidou pela primeira vez o Exército sírio, um fato de grande relevância geopolítica por representar a primeira participação oficial da Síria em um exercício militar no exterior desde a queda do regime de Bashar al-Assad. O Líbano e o despertar estratégico da esfinge turca A Turquia, que voltou a se afirmar como o principal eixo meridional da OTAN 3.0 e como um dos pivôs do Oriente Médio, além de integrar o pacto de defesa Islamabad-Ancara-Riad, exerce hoje grande influência na Síria. Nesse contexto, encontra afinidades com alguns movimentos islamistas libaneses, como a Jama’a Islamya. Se o Líbano quiser sobreviver ao caos regional, precisará aprender a se relacionar de Estado para Estado com esse “pivô turco”, não como um vassalo, mas como um parceiro estratégico consciente de que o centro de gravidade do Oriente Médio se deslocou para o norte. Entre 2025 e 2026, a Turquia intensificou sua retórica hostil contra Israel, chegando a defender sua destruição. Nesse contexto, Erdoğan insinuou que o Líbano faz parte de sua área de interesse estratégico. “A segurança da Turquia não começa em suas fronteiras, mas em Aleppo, Damasco e Beirute”, afirmou, deixando claro que pretende conter o expansionismo israelense no Líbano. São declarações de grande peso diante da atual conjuntura geopolítica, ainda que, por enquanto, permaneçam essencialmente no plano retórico. Após a cúpula da OTAN, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, afirmou, no entanto, que uma guerra aberta com Israel não era desejável, sugerindo a influência de um esforço de moderação por parte dos Estados Unidos. O governo libanês iniciou uma aproximação com Ancara por meio de diversas visitas de primeiros-ministros, sendo a mais recente a de Nawaf Salam, há poucos dias. O presidente Joseph Aoun também deveria viajar a Ancara para consolidar essa política de abertura. No entanto, os vínculos estratégicos entre os dois países ainda permanecem abaixo do nível necessário e precisam ser fortalecidos. A visita do general Rodolphe Haykal à feira de defesa SAHA, em Istambul (5 a 7 de maio de 2026), teve como objetivo explorar um possível apoio logístico turco ao Exército libanês. Uma cooperação concreta entre as duas forças armadas dependerá, contudo, da aprovação dos Estados Unidos e da capacidade do Exército libanês de proteger a fronteira com a Síria. A Turquia pode contribuir para conter a instabilidade proveniente da Síria e um eventual ressurgimento do Daesh, um inimigo que Ancara monitora de perto. As relações entre Líbano e Síria sob a sombra da Turquia Em termos absolutos, Beirute tem interesse em fortalecer seus vínculos com Damasco, aproveitando o novo regime sírio para construir uma relação de confiança mútua, apesar das tensões relacionadas à presença, no Líbano, de antigos integrantes do regime Assad, além das disputas envolvendo o Hezbollah na Síria. O Líbano também tem interesse em contribuir para uma arquitetura regional de segurança compartilhada entre Ancara, Damasco e Beirute, baseada em garantias recíprocas e na preservação da autonomia política libanesa. Nesse contexto, fontes diplomáticas afirmam que o Líbano esteve no centro das prioridades durante o encontro entre o presidente Donald Trump e Ahmad al Chareh, à margem da cúpula da OTAN em Ancara. Os dois presidentes manifestaram preocupação com as rotas clandestinas de abastecimento do Hezbollah que passam pela Turquia e pela Síria em direção ao Líbano e concordaram com a necessidade de intensificar a coordenação sobre esse tema ao longo da fronteira entre o Líbano e a Síria. A multiplicidade dos eixos regionais e internacionais A segurança do Líbano agora é negociada tanto em Ancara quanto em Washington, Tel Aviv, Riad, Paris, Damasco e Teerã. Diante desse cenário, o país precisará agir com pragmatismo. Isso exige uma estratégia nacional coerente nas áreas de segurança, defesa, economia e política externa, algo que ainda não se percebe de forma concreta. Essa estratégia está sendo elaborada no Conselho de Ministros? No Conselho Superior de Defesa? Nos bastidores do palácio presidencial? Está confiada a especialistas, especialistas de verdade? Ou simplesmente não existe? Se vier a ser formulada, deverá: 1) preservar a soberania nacional, para evitar que o Líbano se transforme em uma simples peça da rivalidade entre Teerã e Tel Aviv e entre Ancara e Tel Aviv; 2) possuir um mínimo de credibilidade, para não perder o apoio de Washington; 3) considerar o crescente papel da Europa no Oriente Médio; e 4) evitar um retorno à esfera de influência iraniana.

De Roma à Terceira República: começou a refundação do Líbano?

A história não guarda apenas a memória das cidades onde as guerras terminam. Ela preserva, sobretudo, aquelas onde nascem os novos regimes. É por isso que Roma talvez não seja, amanhã, apenas a cidade que sediará um novo ciclo de negociações entre o Líbano e Israel. Ela poderá entrar para a história como o lugar onde começou a refundação da arquitetura política e de segurança libanesa, após uma guerra que alterou profundamente os equilíbrios regionais. As reuniões previstas em Roma não se limitam a discutir as modalidades de um cessar-fogo, de uma retirada israelense ou de uma troca de prisioneiros, por mais essenciais que esses temas sejam. Elas fazem parte de um processo mais amplo destinado a transformar as consequências da guerra em uma nova realidade política, impedindo qualquer retorno ao status quo anterior. A experiência internacional demonstra que as guerras só produzem plenamente seus efeitos quando as armas se calam e uma nova ordem consegue enfrentar as causas do conflito para evitar seu retorno. É exatamente esse o objetivo que os Estados Unidos parecem perseguir hoje no Líbano. Da visita do presidente Joseph Aoun a Washington ao acordo-quadro e, em seguida, às reuniões de Roma, desenha-se uma sequência coerente. Tudo indica uma transição da gestão permanente da crise libanesa para uma reorganização dos próprios fundamentos do Estado. O primeiro objetivo dessa iniciativa é consolidar um princípio simples: um único Estado, um único Exército e uma única autoridade em matéria de segurança. A questão do monopólio das armas pelo Estado já não é apenas uma reivindicação libanesa ou internacional. Ela se tornou a própria condição para a reconstrução do Estado. Nenhum país pode recuperar plenamente seu papel quando a decisão de fazer a guerra ou firmar a paz escapa às suas instituições constitucionais. Reduzir, porém, a crise libanesa apenas à questão das armas seria uma interpretação incompleta. O problema não está somente na existência de uma força militar paralela ao Estado, mas também no enfraquecimento gradual das instituições, resultado de um sistema político que consolidou a divisão confessional e transformou a administração pública em espaços de influência. É nessa perspectiva que surge o papel de Nabih Berry, uma das figuras que há mais tempo ocupam posição central no poder libanês. Ao longo das últimas décadas, sua influência não se limitou à presidência da Câmara dos Deputados nem à sua relação política com o Hezbollah. Ele também foi um dos principais pilares do sistema de governança estabelecido após os Acordos de Taif. Da mesma forma que o Hezbollah contribuiu para criar uma realidade de segurança paralela ao manter suas armas fora das instituições do Estado, várias forças políticas, entre elas Nabih Berry como um de seus principais representantes, consolidaram um modelo de governança baseado em cotas confessionais e nomeações nas quais as considerações políticas frequentemente prevaleceram sobre os critérios de competência. O resultado foi um Estado sobrecarregado por disfunções administrativas, um setor público marcado pelo excesso de contratações, a generalização do desemprego disfarçado e o enfraquecimento constante da capacidade das instituições de cumprir suas funções. A reconstrução do Líbano, portanto, não pode se limitar à solução da questão das armas. Ela também exige uma refundação do próprio Estado: uma administração moderna, um Judiciário independente, instituições eficientes e nomeações baseadas no mérito, e não em lealdades políticas. É nesse contexto que devem ser compreendidas as crescentes pressões exercidas sobre Nabih Berry. Até agora, Washington não o tomou diretamente como alvo, mas os sinais políticos enviados por meio das pressões exercidas sobre diversas figuras e redes de seu círculo são explícitos. A mensagem parece clara: a próxima etapa não permitirá mais a manutenção das antigas regras do jogo. Talvez o objetivo não seja afastar Nabih Berry, mas redefinir seu papel. Sua experiência política e a amplitude de sua rede de relações fazem dele um ator que nenhuma transição pode ignorar. A verdadeira questão agora é saber se ele escolherá ser um parceiro na construção do novo Estado ou um defensor do sistema que levou o Líbano ao impasse. O Hezbollah, por sua vez, enfrenta um desafio de natureza completamente diferente. Já não se trata apenas de pôr fim ao confronto militar, mas de redefinir seu lugar dentro do Estado libanês. Duas alternativas parecem se apresentar: tornar-se um partido político que atue dentro das instituições ou manter sua confrontação com um processo, tanto interno quanto internacional, voltado para devolver ao Estado a plenitude de sua soberania. No fim das contas, Roma pode representar muito mais do que uma simples etapa de negociação entre o Líbano e Israel. Ela pode marcar o início de uma negociação muito mais ampla sobre o Líbano do futuro. Se os Acordos de Taif encerraram a guerra civil e redistribuíram os equilíbrios de poder, o período que agora se inicia poderá inaugurar uma redefinição da própria função do Estado libanês: um Estado detentor do monopólio das armas e da decisão sobre guerra e paz, que recupere seu lugar no ambiente árabe e no cenário internacional, ao mesmo tempo em que reconstrua uma economia capaz de voltar a crescer. Nada, porém, garante o sucesso dessa iniciativa. Os Estados Unidos podem facilitar os compromissos, os países árabes podem contribuir para a reconstrução e a comunidade internacional pode oferecer apoio. Mas a construção do Estado continua sendo, em última instância, responsabilidade dos próprios libaneses. A verdadeira questão, portanto, não é tanto saber o que produzirão as reuniões de Roma. Ela quer saber se Roma abrirá caminho para a III República Libanesa. Uma República que não se limitaria a pôr fim à guerra, mas que finalmente enfrentaria as causas profundas que impediram, durante décadas, o surgimento de um verdadeiro Estado. Porque a próxima batalha do Líbano não será apenas uma batalha de fronteiras. Será uma batalha pela própria identidade do Estado: continuará sendo um país dividido entre vários centros de poder ou se tornará, enfim, um Estado unificado, único detentor da decisão e da soberania? É nesse ponto que será escrito o próximo capítulo da história do Líbano.

Irão: apesar das suas «divergências», Trump e Netanyahu fecham fileiras

O presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu realizaram, na terça-feira, uma reunião descrita como "positiva" por ambas as partes, na qual reafirmaram sua determinação em impedir que o Irã desenvolva armas nucleares. Os dois líderes, que atuam lado a lado em sua campanha contra a República Islâmica, começaram, no entanto, a expor suas divergências desde abril passado. O inquilino da Casa Branca passa a privilegiar uma solução diplomática para encerrar uma guerra mais longa do que o previsto, que corre o risco de lhe custar politicamente às vésperas das eleições de meio de mandato ("midterms"). Já o primeiro-ministro israelense pretende levar o confronto até o fim, a fim de eliminar o que descreve como a ameaça "existencial" representada pelo Irã. Em um vídeo divulgado após a reunião, Benjamin Netanyahu garantiu ter tido "a melhor das conversas" com Donald Trump, explicando que os diálogos abordaram, entre outros temas, seu "objetivo comum: garantir que o Irã não adquira armas nucleares". Ainda assim, esse encontro fechado à imprensa, que durou cerca de uma hora e meia e ao final do qual nenhum dos participantes falou com os jornalistas, não dissipa completamente a impressão de divergências entre Washington e Jerusalém. Foi o primeiro encontro entre os dois desde o início da guerra regional no Oriente Médio, e o oitavo desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Washington afirma querer dar uma nova chance à diplomacia com Teerã após duas semanas de bombardeios de intensidade sem precedentes, ocorridos antes do cessar-fogo de abril. A visita do sr. Netanyahu ocorre em um "momento crítico para o Oriente Médio", enquanto o Irã continua, segundo Israel, a "privilegiar o terrorismo em detrimento das negociações" e mantém o bloqueio do estreito de Ormuz, declarou mais cedo na terça-feira Danny Danon, embaixador de Israel junto às Nações Unidas. "Um sujeito muito difícil" As relações entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu haviam se deteriorado profundamente em abril, durante as primeiras negociações sobre um cessar-fogo entre Washington e Teerã. O presidente americano chegou a atacar duramente seu aliado israelense, acusando-o de comprometer os esforços diplomáticos. Donald Trump chegou a chamar Benjamin Netanyahu de "sujeito muito difícil". O primeiro-ministro israelense reconheceu existirem "divergências táticas", mas afirmou compartilhar com seu homólogo americano os mesmos objetivos estratégicos. Questionado na manhã de terça-feira sobre informações a respeito do reforço das instalações iranianas na montanha Kolang ("picareta", em persa), Donald Trump respondeu: "Não preciso que o Bibi me diga isso. Ele me diz porque quer que eu continue envolvido." "Sei exatamente o que está acontecendo em Kolang. Não é um grande problema. Se não chegarmos a um acordo, destruiremos essas instalações com muita facilidade", declarou na Fox News antes do encontro. "O principal objetivo é mostrar ao mundo inteiro, ao Irã, mas também ao Líbano e a outros países da região, que não há ruptura nem divergência significativa entre os Estados Unidos e Israel", explicou à AFP Yonatan Freeman, especialista em relações internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo ele, as eventuais divergências dizem respeito mais aos meios — calendário, intensidade das operações militares ou objetivos imediatos — do que às finalidades. Contatos iranianos sobre Ormuz com Riade e Mascate Paralelamente, Teerã continua alternando operações militares e iniciativas diplomáticas junto a seus vizinhos árabes do Golfo, embaralhando as linhas tradicionais do confronto. O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, falou separadamente por telefone com os seus homólogos omanense, Badr al-Busaidi, e saudita, Fayçal bin Farhan, sobre o Estreito de Ormuz, de acordo com a televisão estatal iraniana. «Insistiram na necessidade de reforçar a cooperação e de fazer avançar os esforços diplomáticos com vista a restaurar a estabilidade na região e pôr fim à insegurança imposta no Estreito de Ormuz pelos atos agressivos dos Estados Unidos», segundo a mesma fonte. Na noite de terça-feira, Riade anunciou ainda ter intercetado centenas de drones iranianos durante um ataque dirigido a instalações petrolíferas da Aramco no leste do reino… Continuação das negociações em Roma No plano libanês, os Estados Unidos confirmaram a realização de novas negociações entre Israel e o Líbano, em Roma, de 4 a 6 de agosto, no âmbito da extensão do mecanismo das «zonas piloto» sob supervisão do exército libanês. Estas reuniões, essencialmente técnicas, incidirão sobre a ampliação do dispositivo, a resolução das questões fronteiriças ainda pendentes, bem como a elaboração de um acordo global de paz e segurança, indicou um responsável do Departamento de Estado norte-americano à cadeia Al-Hadath . «Abordamos este novo ciclo de discussões entre o Líbano e Israel com um impulso positivo, após o sucesso das zonas piloto», acrescentou o responsável, que pediu anonimato. O diplomata afirmou ainda que o «encontro frutuoso» entre os presidentes Donald Trump e Joseph Aoun teve um impacto positivo nas discussões líbano-israelenses. Apesar de uma relativa acalmia nos combates, o exército israelense continua a realizar ataques pontuais no sul do Líbano. O ministro israelense da Defesa, Yisrael Katz, chegou mesmo a gabar-se, na terça-feira, de ter destruído 24 aldeias libanesas centenárias, acrescentando que o exército israelense aplica no Líbano a mesma tática utilizada em Gaza, onde cerca de 70% da faixa costeira palestina terá sido destruída desde o início das hostilidades em outubro de 2024… Em Houla… mais nitrato de amônio No terreno, a Finul anunciou na terça-feira ter descoberto, no início de julho, cerca de quatro toneladas de explosivos em Houla, aldeia do sul do Líbano situada numa zona sob ocupação israelense. Os capacetes azuis «descobriram 385 contentores abandonados num edifício, contendo cerca de 4 000 quilogramas de explosivos, maioritariamente compostos à base de nitrato de amônio», informou a Força Interina das Nações Unidas no Líbano. Especialistas da Finul procederam depois à «neutralização desse material, de forma a torná-lo inofensivo e eliminar qualquer risco», sem especificar a quem pertenciam os explosivos. Houla faz parte de uma faixa de cerca de dez quilômetros de profundidade em território libanês, ao longo da fronteira com Israel, ocupada pelo exército israelense desde a última guerra desencadeada no início de março contra o Hezbollah. O Hezbollah arrastou o Líbano para o conflito regional a 2 de março, ao atacar Israel em nome do seu apoio ao Irão, provocando uma ampla resposta israelense terrestre e aérea. A descoberta destes explosivos reaviva inevitavelmente o trauma da explosão do porto de Beirute, em 4 de agosto de 2020. Nesse dia, cerca de 2 750 toneladas de nitrato de amônio armazenadas de forma negligente durante vários anos explodiram, causando mais de 220 mortos, mais de 6 500 feridos e devastando grande parte da capital. Seis anos depois, as investigações judiciais e as perícias científicas destinadas a determinar as causas da catástrofe e as responsabilidades continuam a não avançar, com magistrados e peritos a serem alvo de fortes pressões políticas. Muitos observadores consideram que o Hezbollah tem uma grande responsabilidade pelo armazenamento desse material explosivo, já que a organização pró-iraniana exercia então uma influência predominante sobre o porto de Beirute, principal porta de entrada para armas iranianas e diversas mercadorias contrabandeadas destinadas ao seu financiamento.

O impacto de uma vitória da Ucrânia ou da Rússia (4/5)

A guerra na Ucrânia continua a ser o centro de um amplo debate alimentado, entre outros fatores, por bombardeamentos quase diários que visam, de ambos os lados, centros nevrálgicos e, mais especificamente, as capitais russa e ucraniana. Para melhor compreender as diferentes dimensões deste velho conflito, é necessário retomar os prolegômenos e a gênese do que desembocou nesta guerra (fratricida?), expondo as motivações e as aspirações das diferentes partes envolvidas, nomeadamente o Ocidente (Estados Unidos e Europa, alargada a todos os países da OTAN, com exceção da Turquia), e recordando também os inícios da ofensiva russa e os fracassos das tentativas de alcançar uma paz, ou pelo menos negociações, sabendo que as responsabilidades neste contexto são múltiplas. Para bem compreender os meandros dos diversos aspectos da guerra na Ucrânia, algumas questões fundamentais deveriam ser levantadas desde o início. O que representam, afinal, a Rússia e a Ucrânia para o Ocidente? Quais poderiam ser as repercussões concretas de uma eventual vitória clara de um dos dois protagonistas? E, por consequência, quais seriam as implicações para o Ocidente e para o Médio Oriente? Numa série de cinco artigos, Jean-Patrick Dayras , contra-almirante da marinha francesa, expõe a sua visão e a sua análise da questão. Reflexão prospetiva : what if … A – Se a Ucrânia vencer , ou seja, se recuperar a quase totalidade do seu território… Para a Ucrânia , as consequências poderiam incluir: – Um reforço considerável da posição internacional da Ucrânia. – Uma aceleração da sua integração na União Europeia, mesmo que a adesão continue a ser um processo longo. – Uma cooperação militar ainda mais estreita com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, independentemente de haver ou não uma adesão formal. – Um enfraquecimento da influência russa numa parte da Europa de Leste. Para a Rússia , as consequências dependeriam da dimensão da derrota. Mas é certo: – Que perderá uma grande parte do seu prestígio internacional. – Que esta derrota terá um custo económico duradouro, associado às sanções, à reconstrução e ao restabelecimento das suas capacidades militares. – Que isso porá em causa a política do Kremlin, o que dependerá da evolução da situação interna. – Toda a política russa desenvolvida há anos em África, mas também em vários Estados dos BRICS+ ou associados, sairá prejudicada. Nota: o Chade tem adotado recentemente uma atitude de aproximação em relação à França, prelúdio talvez de uma modificação da geopolítica africana. Isso deverá ser examinado com atenção antes de ser confirmado. Em contrapartida, é difícil prever que uma eventual derrota russa acarretaria automaticamente uma mudança de regime. A história mostra que este tipo de evolução depende de inúmeros fatores internos. Para a Europa Uma vitória ucraniana poderia: – Melhorar o sentimento de segurança nos países da Europa do Norte, Central e Oriental. – Manter um nível elevado de despesas militares. – Acelerar os esforços de diversificação energética já iniciados desde 2022. Para os Estados Unidos Tal desfecho poderia ser apresentado como um sucesso da política de apoio dos EUA à Ucrânia e das suas alianças. No entanto, não poria fim aos outros desafios estratégicos (rivalidade com a China e negociações difíceis com o Irão). Para a China Pequim observaria com atenção as lições do conflito, em particular no que diz respeito a uma eventual invasão de Taiwan pela força. Uma derrota russa poderia levar a China a: – Aprofundar certos laços com Moscovo para preservar um parceiro estratégico, mas numa posição dominante. – Reavaliar alguns aspetos da sua política externa (Irão, Taiwan e a associação emergente entre a Austrália, o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas). Para as organizações internacionais Uma vitória ucraniana seria interpretada como um reforço do princípio segundo o qual as fronteiras não devem ser alteradas pela força. Isso poderia fortalecer a credibilidade de certas normas do direito internacional, ainda que a sua aplicação continue dependendo das relações de poder entre os Estados. Os limites deste cenário Mesmo em caso de sucesso militar ucraniano, várias dificuldades persistiriam: – A reconstrução do país, estimada em várias centenas de bilhões de euros, que deveriam ser pagos pela Rússia. – O retorno dos refugiados (isso só vale para quem acredita nisso). – A desminagem de vastos territórios. – Os processos judiciais relacionados aos alegados crimes de guerra (resta ver se os próprios ucranianos não poderiam também estar envolvidos em crimes semelhantes). – As relações futuras entre a Rússia, a Ucrânia e os países europeus. Essa vitória não apagaria as tensões geopolíticas. Mesmo que a Ucrânia atingisse seus principais objetivos militares, as relações entre a Rússia e o Ocidente provavelmente continuariam marcadas por uma desconfiança duradoura, uma crescente militarização de certas regiões e uma reconfiguração dos equilíbrios de segurança na Europa. Os efeitos também dependeriam das condições do fim do conflito: um acordo negociado, um cessar-fogo duradouro ou uma derrota militar clara não teriam as mesmas consequências. B – A Rússia vence, a Ucrânia perde Tudo depende do que se entende por " a Rússia vence ". As consequências seriam muito diferentes dependendo de se tratar de um ganho territorial limitado, de um controle duradouro de parte da Ucrânia ou de uma mudança de governo em Kiev. Uma derrota ucraniana poderia acarretar: – A perda duradoura de todos ou de parte dos territórios ocupados. – Custos humanos, econômicos e demográficos consideráveis. – Uma desaceleração da reconstrução e dos investimentos. – A manutenção de um significativo fluxo de refugiados em direção a outros países europeus. O futuro político da Ucrânia dependeria das condições do fim do conflito: um cessar-fogo, um tratado de paz ou um acordo imposto não teriam os mesmos efeitos. Se Moscou atingisse seus principais objetivos, isso poderia se traduzir em: – Um fortalecimento da posição do Kremlin no plano interno. – A apresentação do desfecho como uma vitória estratégica. – A manutenção de sua influência sobre parte da Ucrânia e de sua vizinhança (Moldávia). Por outro lado, mesmo em caso de sucesso militar, a Rússia poderia continuar a enfrentar: – Sanções econômicas ocidentais. – Uma dependência crescente em relação a certos parceiros como a China, a Índia ou outros Estados não ocidentais. – Custos elevados ligados à reconstrução dos territórios controlados e à manutenção de forças expressivas. Para a Europa Uma vitória russa provavelmente levaria a: – Um aumento duradouro dos gastos militares dos Estados europeus. – Um reforço da presença da Organização do Tratado do Atlântico Norte em seu flanco oriental (mas com ou sem os Estados Unidos?). – Uma aceleração das políticas voltadas a reduzir a dependência energética em relação à Rússia. Alguns temem também que os países vizinhos da Rússia, especialmente os Estados Bálticos, exijam garantias de segurança ainda mais sólidas. Para os Estados Unidos Os Estados Unidos poderiam ver sua estratégia na Ucrânia questionada, o que poderia alimentar um debate interno sobre sua política externa e sobre o nível de apoio aos seus aliados (incluindo no golfo Pérsico e na península Arábica). Para a China Uma vitória russa poderia ser interpretada de diferentes maneiras: – Alguns veriam nisso a prova de que uma grande potência pode alcançar certos objetivos apesar das sanções. – Outros destacariam o custo econômico, humano e diplomático muito elevado do conflito, que também poderia servir de advertência. A China, de qualquer forma, apareceria como o país que permitiu à Rússia vencer graças ao apoio que lhe prestou. Seria a grande vencedora. A Rússia deixaria de ser um gigante diante dela. Para o direito internacional Muitos juristas consideram que uma aquisição duradoura de territórios obtida pela força representaria um desafio significativo ao princípio da integridade territorial dos Estados, consagrado nomeadamente pela ONU. Outros lembram que os precedentes históricos são variados e que as reações internacionais dependem frequentemente das relações de força. O Conselho de Segurança da ONU veria a sua influência diminuir e até ser posta em causa. Os limites deste cenário: Mesmo em caso de vitória russa, vários fatores poderiam limitar os seus benefícios: – O custo económico a longo prazo. – A gestão de territórios potencialmente instáveis. – A manutenção do isolamento em relação a uma parte dos países ocidentais. – O risco de uma insurgência ou de uma instabilidade persistente nas zonas em causa. – O êxito ficaria manchado pelo opróbrio devido ao tempo necessário para atingir um objetivo que, inicialmente, se esperava ser rápido, ou até fácil (uma guerra mais longa do que a Primeira Guerra Mundial). – Provavelmente em África, a sua aura sairá prejudicada. Em resumo As consequências de uma vitória russa dependeriam da sua amplitude e das condições em que a guerra chegasse ao fim. A segurança europeia ficaria profundamente transformada, as relações entre a Rússia e os países ocidentais permaneceriam duradouramente muito tensas, e a ordem de segurança na Europa continuaria a ser redefinida durante muitos anos. Em contrapartida, os efeitos precisos sobre a política interna russa, sobre o equilíbrio mundial ou sobre as futuras alianças permanecem amplamente incertos e são objeto de debate entre especialistas. A palavra final : as consequências evocadas permitem sublinhar que este conflito selará o desaparecimento da vitória segundo a ordem e o modelo vestefalianos. Próximo artigo Vitória ucraniana ou russa: consequências para o Médio Oriente (5/5) Leia também sobre o mesmo tema Como o Ocidente escolheu a Ucrânia (1/5) Guerra na Ucrânia: o fracasso dos primeiros esforços de paz (2/5) Guerra na Ucrânia: erros estratégicos russos e inabilidade ocidental (3/5)

A Arábia Saudita mira milícias pró-iranianas no Iraque

Enquanto a tensão no Médio Oriente diminuiu em grande parte no que diz respeito ao conflito iraniano, é a frente iemenita que parece mais ativa nesta segunda-feira, 27 de julho, com novos ataques dos rebeldes houthis às instalações petrolíferas na Arábia Saudita. Neste contexto, o reino saudita é também alvo, na fase atual, de outros grupos pró-iranianos instalados no Iraque. Os sauditas intercetaram drones provenientes do território iraquiano e, ao mesmo tempo, solicitaram às autoridades iraquianas que impedissem esses ataques perpetrados por esses grupos «terroristas», tanto mais que o novo governo demonstra vontade de gerir melhor a sua situação interna. Mais uma vez, o Irão prova que utiliza os seus proxies com base num plano bem oleado, aproveitando-se, sem dúvida, das hesitações americanas. Mas por que razão visar particularmente a Arábia Saudita num momento de relativa acalmia? Outros incidentes foram igualmente registados desde a cessação dos bombardeamentos americanos contra o Irão, na sexta-feira passada. A marinha dos Guardiões da Revolução iraniana indicou, esta segunda-feira, ter impedido a passagem de seis navios que pretendiam atravessar o estreito de Ormuz, ao tentarem «transitar por rotas não autorizadas pelas autoridades iranianas». Mais cedo durante o dia, a televisão estatal tinha noticiado um «incidente» envolvendo um navio, sem fornecer mais detalhes, indica a AFP. Por outro lado, o exército israelita anunciou ter intercetado dois drones perto da fronteira com a Jordânia, sem que estes tivessem entrado em território israelita. No sul do Líbano, o exército israelita acusou o Hezbollah de lançar pelo menos um drone na zona muito disputada de Ali el-Taher, e de tentar recolher informações sobre os seus soldados. Vários incidentes de segurança foram registados nessa zona na segunda-feira. O partido xiita não tinha conduzido operações desde o cessar-fogo decretado em Islamabad. Netanyahu em Washington Entretanto, a Cisjordânia continua a inflamar-se com confrontos entre colonos e habitantes, e as tensões estão no limite. Outro incidente preocupante das últimas horas: o ataque ucraniano contra um navio iraniano no mar Cáspio, que causou vítimas, continua a suscitar polémica no Irão. O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, não só criticou severamente Kiev numa mensagem no X, como acusou Israel de ter fomentado o ataque com o intuito de arrastar a Europa para o conflito iraniano. É neste contexto particularmente tenso que o primeiro-ministro israelita deveria deslocar-se esta segunda-feira a Washington, onde será recebido na terça-feira pelo presidente Donald Trump. Na véspera deste encontro, o jornal israelita Israel Hayom divulgou informações segundo as quais o Sr. Netanyahu deverá resistir firmemente a qualquer pressão americana para uma retirada de Gaza, da Síria ou do sul do Líbano. Segundo o jornal israelita, o primeiro-ministro afirmaria claramente que as necessidades de segurança de Israel deveriam prevalecer sobre qualquer outra consideração, enquanto a região continua a ser abalada por conflitos sobrepostos e frágeis iniciativas diplomáticas. Esta perspetiva deverá acentuar as divergências entre os dois homens, tendo o presidente Trump já pedido publicamente ao Sr. Netanyahu que retire as suas tropas do Líbano e da Síria. Fragilizaria também as negociações em curso com o Líbano, que deverão culminar numa retirada progressiva do exército israelita do sul do Líbano, em paralelo com um desdobramento do exército libanês, sob condição de uma desmilitarização do Hezbollah nas zonas designadas como «piloto». O exército libanês já se desdobrou numa aldeia do sul, na terça-feira passada, Zawtar el-Gharbiya, na região de Nabatiyeh. Para o Líbano oficial, representado pelo presidente da República Joseph Aoun e pelo primeiro-ministro Nawaf Salam, que persistem no caminho das negociações diretas com Israel (a próxima rodada está prevista para 4 de agosto em Roma), certas declarações israelenses intransigentes são prejudiciais, mesmo que se inscrevam no quadro de disputas ligadas a cálculos internos (prazos eleitorais) e internacionais. Essas atitudes israelenses extremistas são ainda mais deploráveis pelo fato de o acordo-quadro assinado entre as partes libanesa e israelense em 26 de junho continuar sendo alvo, no cenário libanês, de campanhas conduzidas pelo eixo iraniano. Além das críticas tradicionais do Hezbollah, o presidente do Parlamento e líder do Amal, Nabih Berry, fez uma declaração na segunda-feira na qual renovou sua rejeição a qualquer negociação direta com Israel, afirmando-se pessimista em relação ao acordo-quadro e considerando que o primeiro desdobramento do exército libanês em Zawtar el-Gharbiya o leva a um pessimismo ainda maior. Ele defendeu um patrocínio americano, saudita e iraniano para a situação no Líbano. As negociações americano-iranianas A segunda-feira também foi marcada pela visita do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, a Beirute, durante a qual declarou que seu escritório «documentou violações generalizadas do direito internacional, algumas das quais poderiam constituir crimes de guerra». Ao receber o Sr. Türk em Baabda, o presidente libanês Joseph Aoun afirmou que «as destruições contínuas perpetradas pelos israelenses no sul do Líbano correm o risco de comprometer a aplicação do acordo-quadro» líbano-israelense. Registre-se ainda, no âmbito das negociações americano-iranianas, que o Irã, pela voz de seu porta-voz do Ministério das Relações Exteriores Esmaïl Baghaï, negou a existência de quaisquer negociações diretas em curso com os Estados Unidos, reconhecendo apenas a troca de mensagens por meio de mediadores. O responsável iraniano aproveitou a ocasião para criticar as múltiplas declarações americanas segundo as quais os iranianos estariam desesperadamente tentando voltar à mesa de negociações. Retomando, ademais, sua inqualificável arrogância em relação aos Estados Unidos, o Ministério iraniano das Relações Exteriores sublinhou que «o Irã jamais permitirá que os Estados Unidos decidam o momento da guerra ou da paz»!

Hamas: a era al-Hayya
Por
Hisham Dibsi
Publicado

Ao longo de três décadas, o Hamas deixou de ser a organização palestina da Irmandade Muçulmana para transformar-se em um movimento de resistência armada no final de 1987 e, posteriormente, na autoridade que governa a Faixa de Gaza após assumir o poder em 2007. A partir daquele momento, o Hamas deixou de ser apenas mais uma facção palestina. É verdade que o movimento havia chegado ao poder por meio de eleições democráticas e pacíficas, e que Ismail Haniyeh exercia então o cargo de primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina. No entanto, a tomada do poder pela força, que provocou a morte de mais de 120 integrantes das forças de segurança e do Fatah, além de 39 civis durante cinco dias de ataques às instituições da Autoridade Palestina e da prisão de dezenas de seus membros, segundo relatórios do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, alterou profundamente o cenário político. Vários dirigentes, entre eles Mohammed Dahlan, fugiram de barco para o Egito. Cerca de 50 mil servidores públicos deixaram de exercer suas funções, enquanto a jurisdição efetiva da Autoridade Nacional Palestina passou a restringir-se à Cisjordânia. Após derrubar a legitimidade da Autoridade Palestina, o Hamas deixou de ser uma simples facção política ou um parceiro democrático de governo. Optou por separar a Faixa de Gaza da Cisjordânia para exercer ali um poder exclusivo, transformando a queda do governo de Ramala e a rejeição aos Acordos de Oslo em dois dos pilares centrais de sua agenda política. O Hamas sob Ismail Haniyeh Durante a primeira década da liderança de Ismail Haniyeh, até 2017, o movimento passou por profundas transformações em sua relação com a sociedade palestina, suas lideranças e as diferentes facções do movimento nacional. Seus vínculos com o mundo árabe, o mundo islâmico e a comunidade internacional também evoluíram de maneira significativa. Ao mesmo tempo, seu braço armado, as Brigadas Izz al-Din al-Qassam, registrou um salto qualitativo tanto em suas capacidades militares quanto em seu arsenal, alcançando seu ponto mais elevado sob o comando de Yahya Sinwar. Essas mudanças redefiniram o equilíbrio interno do movimento. Com seu centro de gravidade firmemente estabelecido na Faixa de Gaza e uma influência popular crescente na Cisjordânia, o Hamas também se beneficiou de uma ampla onda de apoio no mundo árabe e islâmico, impulsionada pela liderança internacional da Irmandade Muçulmana, que, segundo o autor, soube aproveitar sua relação privilegiada com a administração norte-americana durante a presidência de Barack Obama. Essas recomposições internas acabaram por afastar Khaled Meshaal, que havia liderado o Escritório Político durante treze anos. Depois de transferir sua sede permanente de Amã para Istambul e, posteriormente, para Doha, Ismail Haniyeh passou a concentrar em suas mãos tanto a chefia do governo de Gaza quanto a presidência do Escritório Político do Hamas. Apesar da maneira como administrou os equilíbrios internos e externos do movimento, Ismail Haniyeh dificilmente imaginou que chegaria o dia em que seria obrigado a deixar a Faixa de Gaza para viver no exílio, em consequência da ascensão de Yahya Sinwar, o novo comandante das Brigadas al-Qassam. Com o tempo, Sinwar consolidou sua autoridade não apenas sobre o aparato militar do Hamas, mas também sobre suas estruturas políticas e governamentais. Assim, o presidente do Escritório Político juntou-se ao seu antecessor, Khaled Meshaal, no exílio, embora tenha mantido formalmente tanto seu título quanto o cargo de chefe do governo do Hamas. As circunstâncias que cercaram a saída de Haniyeh e de numerosos dirigentes e quadros históricos do movimento permanecem, contudo, pouco claras e dificilmente serão plenamente conhecidas enquanto a própria liderança do Hamas não apresentar sua versão dos acontecimentos. As disputas internas tampouco se limitavam à divisão geográfica entre Gaza, a Cisjordânia e a diáspora. Elas refletiam diferentes correntes políticas e ideológicas: os fiéis à liderança internacional da Irmandade Muçulmana; os dirigentes políticos, cujas relações gravitavam em torno da Türkiye, do Catar e do Irã; e os comandantes militares, de perfil mais pragmático, embora em diferentes graus de radicalização. Enquanto um grupo procurava extrair o máximo proveito de sua aliança com o Irã, outro preferia ampliar sua rede de relações regionais para expandir sua margem de manobra e consolidar sua influência, sem descartar contatos com os Estados Unidos ou mesmo com Israel, sempre que as circunstâncias assim o exigissem. Foi nesse contexto que Khalil al-Hayya emergiu como a principal liderança do Hamas na Faixa de Gaza e como um dos colaboradores mais próximos de Yahya Sinwar. Segundo diversas pessoas que acompanharam sua trajetória militar, Sinwar era conhecido por confiar apenas em um círculo extremamente restrito. Essas mesmas fontes sustentam que o papel central desempenhado por Khalil al-Hayya nas negociações decorreria justamente da confiança que Sinwar depositava nele. Quando Sinwar assumiu a presidência do Escritório Político do Hamas, uma semana após a morte de Ismail Haniyeh, no fim de julho de 2024, nomeou al-Hayya como seu vice. O assassinato de Sinwar, apenas dois meses depois de assumir a chefia do Escritório Político, reabriu imediatamente a disputa pela sucessão. Com o apoio da liderança do movimento em Gaza, Khalil al-Hayya acabou derrotando Khaled Meshaal e tornou-se o quinto presidente do Escritório Político do Hamas, passando a controlar os principais centros de decisão da organização. Sua ascensão ao topo do movimento, entretanto, não pode ser explicada apenas por essa sucessão. Fontes políticas e da imprensa, entre elas diversos analistas egípcios entrevistados por emissoras de televisão da região, afirmaram que as negociações realizadas em Doha, após o amplamente divulgado ataque israelense no Catar contra dirigentes do Hamas, contaram com a participação de altos representantes dos serviços de segurança de Israel, dos Estados Unidos e da Türkiye. De acordo com esses relatos, os encontros teriam resultado em compromissos assumidos por Israel para interromper as operações de eliminação seletiva de líderes do Hamas e encerrar sua perseguição. Os defensores dessa interpretação consideram que os acontecimentos posteriores pareceriam reforçar essa leitura. Sob essa perspectiva, o Hamas de Khalil al-Hayya já não seria o Hamas do xeique Ahmed Yassin, nem o de Yahya Sinwar. Sua nova liderança estaria voltada para a implementação de entendimentos de natureza política e de segurança, sob patrocínio principalmente do Catar e da Türkiye. Segundo essa análise, o papel que o movimento desempenharia no futuro seria profundamente diferente daquele que exerceu até agora. A preservação do poder, qualquer que fosse o custo político, humano ou material, tornar-se-ia sua prioridade absoluta. A sobrevivência de sua autoridade passaria a prevalecer sobre o bem-estar da população. O programa de al-Hayya No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação: Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza. Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos. Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas. Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico. Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense. Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais. Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel. Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos. Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses. O programa de al-Hayya No início desta semana, o novo líder do movimento fez seu primeiro pronunciamento, no qual apresentou os objetivos que, segundo afirmou, orientarão sua atuação: Primeiro, pôr fim às operações militares israelenses e obter a retirada total de Israel da Faixa de Gaza. Segundo, restabelecer as condições básicas de vida, impedir o deslocamento forçado da população, impulsionar a reconstrução e concluir um acordo de troca de prisioneiros palestinos. Terceiro, abrir um diálogo nacional destinado a reconstruir a Organização para a Libertação da Palestina sobre bases democráticas. Quarto, fortalecer as relações do Hamas com seu entorno árabe e islâmico. Quinto, coordenar os esforços internacionais para pôr fim à campanha militar israelense. Sexto, solicitar às Nações Unidas que garantam proteção ao povo palestino e levem os dirigentes israelenses responsáveis pela guerra perante os tribunais internacionais. Com um programa cuja implementação exigiria o apoio das principais potências mundiais e de uma ampla coalizão internacional, Khalil al-Hayya fala com segurança e a partir do que apresenta como uma posição de força. No entanto, faz isso do conforto de um quarto de hotel. Enquanto isso, no terreno, o confronto militar entre Hamas e Israel mistura-se às áreas onde se concentram os deslocados, em meio a uma população aglomerada em acampamentos improvisados. Assim, os habitantes acabam pagando um preço duplo: de um lado, o imposto pelo próprio aparato de segurança do Hamas, encarregado de controlar cerca de dois milhões de palestinos deslocados dentro de sua própria terra; de outro, o decorrente da perseguição israelense aos quadros do movimento, com sua sequência de bombardeios, destruição, expansão territorial e restrições que, segundo o autor, acabam sendo utilizadas para justificar limitações ao fornecimento de água, alimentos e medicamentos. Entre essa realidade cotidiana e o programa político proclamado pelo movimento acumulam-se a miséria, o desalento e a frustração. As redes sociais da Faixa de Gaza ecoam os gritos de socorro de uma população que a liderança do Hamas parece já não querer ouvir, concentrando-se, em vez disso, na preservação de seu poder e de seus próprios interesses. Três opções O ministro israelense Bezalel Smotrich tem afirmado repetidamente que os palestinos dispõem de apenas três alternativas: emigrar, morrer ou submeter-se. Segundo o autor, essa visão é compartilhada por um governo comprometido com a expansão dos assentamentos em todos os territórios palestinos. As repetidas incursões ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa, assim como a onda de violência promovida por colonos sob a proteção do Exército israelense, não representariam, portanto, uma resposta a qualquer ameaça existencial. Elas fariam parte da implementação do que vários ministros da coalizão governista chamam de “Plano Decisivo”, destinado a ampliar a colonização israelense e anexar todas as áreas dos territórios palestinos que possam ser colocadas sob o controle dos colonos e das Forças Armadas de Israel. Com as eleições parlamentares previstas para outubro deste ano se aproximando, diversos integrantes do governo também têm manifestado abertamente o desejo de provocar o colapso da Autoridade Nacional Palestina em Ramala e eliminar o que consideram ser o último núcleo institucional palestino comprometido com uma solução política baseada na coexistência de dois Estados. Os principais expoentes da corrente mais radical do nacionalismo religioso israelense sustentam, de fato, que essa solução constitui, em sua visão, a verdadeira ameaça existencial ao Estado de Israel. A atual onda de violência que atinge a Cisjordânia e tem como alvo o povo palestino, população originária dessa terra, corre o risco de eliminar as últimas possibilidades de uma paz fundamentada no direito internacional. Enquanto a comunidade internacional continuar limitando-se a falar de paz sem criar as condições necessárias para torná-la viável na Palestina, o resultado, segundo o autor, não poderá ser outro senão a perpetuação de um conflito aberto.